Ilustração: IA generativa (ChatGPT / Open AI),
composição orientada pelo editor LG
O alferes graduado capelão Bártolo Paiva Pereira, no norte de Cabinda,
na floresta de Maiombe, c. 1962
1º cabo Hélder Tavares Amaral, CCAÇ 323 / BCAÇ 321 (Angola, 1961/64). Morto em combate em 27/5/1962. Os seus restos mortais foram inumados em Sanda Massala, norte de Cabinda, Angola, a 8 mil km da sua terra natal, Vila Cortês da Serra, Gouveia
(...) Foi no dia 27 de maio de 1962, numa operação de ataque a um grupo inimigo, na qual eu, capelã0, livremente participei.
Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder, cai atingido e logo morreu. (...) (pág, 17)
Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder, cai atingido e logo morreu. (...) (pág, 17)
São talvez as duas páginas, as 17 e 18, mais pessoais, mais sentidas, do autor do livro "O capelão militar na guerra colonial" (2025): com 26 anos, minhoto, solteiro, sacerdote católico, acabado de ordenar (há ano e meio), "soldado sem instrução" (sic), oferece-se para o serviço religioso do exército em 1961, já em plena guerra de Angola,
Graduado em alferes capelão, segue com o BCAÇ 321 para Angola já no último trimestre de 1961. Descobre uma nova "família", a sua terceira (depois da família biológica e do seminário). E descobre que a sua Pátria é o Hélder...
No dia 27 de maio de 1962, sete meses depois de chegar a Angola, participava voluntariamente numa operação, em Cabinda. O Hélder, que ia à sua morreu, morreu, de um tiro do inimigo.
Como se fora um epitáfio, escreveu: "A minha Pátria é o Hélder" (pp. 17/18).
2. Comentário do editor LG:
Quem disse que os capelães militares não iam à guerra ? Isto é, não podiam "sair para o mato", integrados ("embebbed") em grupos de combate ?
Não era muito frequente, não era normal, nem sequer era desejável... Na verdade, eram recursos raros, escassos, preciosos. Havia, em geral, 1 capelão e 1 médico por batalhão (=600 homens).
Mas foi ali, nesse dia, que o padre Bártolo, natural de Santo Tirso, descobriu verdadeiramente o que era a Pátria. Não, não é uma figura de retórica, a Pátria são as pessoas, as pessoas que têm uma identidade, um rosto, uma história de vida: a Pátria são os nossos camaradas, antes de mais.
(...) "A minha Pátria andava mal definida no coração (...). O meu patriotismo nunca me levou às terras carismáticas do mundo e dos homens. Nem aos Lugares Santos. Nunca visitei o cemitério de Vimieiro. Nem me sai da cabeça a cova, onde enterrámos o Hélder" (...) (pág. 17).
(...) A cova onde enterrámos o Hélder foi logo ali, após o inimigo nos deixar. O seu corpo, mais tarde, foi recuperado por camaradas, que cumpriram um dever militar" (...) (pág. 18).
Foi o único morto do batalhão... Comenta o antigo capelão,citando o filósofo alemão Peter Sloterdijk:
(...) "A minha Pátria andava mal definida no coração (...). O meu patriotismo nunca me levou às terras carismáticas do mundo e dos homens. Nem aos Lugares Santos. Nunca visitei o cemitério de Vimieiro. Nem me sai da cabeça a cova, onde enterrámos o Hélder" (...) (pág. 17).
(...) A cova onde enterrámos o Hélder foi logo ali, após o inimigo nos deixar. O seu corpo, mais tarde, foi recuperado por camaradas, que cumpriram um dever militar" (...) (pág. 18).
Foi o único morto do batalhão... Comenta o antigo capelão,citando o filósofo alemão Peter Sloterdijk:
"A ossatura simboliza o fim que cada ser vivo traz já consigo".
E acrescenta, agora da sua lavra: "Em teatro de operações, deixar 'essa ossatura' brada aos céus. Aconteceu, infelizmente, com muitos cadáveres, no início da guerra, onde tudo era mais precipitado que arrumado" (pág. 19).
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Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 2 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27276: Notas de leitura (1845): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte III: "A minha Pátria é o Hélder" (Luís Graça)
(*) Vd. poste de 2 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27276: Notas de leitura (1845): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte III: "A minha Pátria é o Hélder" (Luís Graça)





29 comentários:
Porque a morte é "inumana" (e nomeadamente na guerra), morrer nos braços de um camarada (capelão ou não) podia ser o último resto de humanidade que restava a um combatente agonizante...
Mas, na maior parte dos casos, a morte em combate era(é) tão brutal e violenta, que nada mais parecia (ou parece) fazer sentido.
Para um católico praticante a presença de um capelão, apesar de tudo, podia dar algum conforto espiritual, sobretudo nas horas de maior solidão, angústia, saudade... no quartel, no destacamento, no "buraco", no posto de sentinela...
Não, não vejo o capelão a dar a extrema-unção no campo de batalha. Aquela não era uma guerra como as outras, em que se morresse em massa, em campo aberto ou nas trincheiras...
Em caso de ferimento grave ou muito grave, o que era preciso era o enfermeiro (mais útil que o médico!, desculpem os médicos; mais útil que o capelão, desculpem os capelães), o heli e a enfermeira paraquedista. O HM 241 (e a salvação) podia estar ali a meia hora de caminho.
Era a minha "crença", quando ia para o mato... A confiança nos meus camradas, brancos e pretos. E nunca usei "amuletos"...
Luis,
Eu sou um admirador da Ordem do Templo e penso que não deves esquecer que uma moeda tem duas faces. A História da Inquisição Portuguesa (1536/1821), mostra porque é que muitos cristãos se afastaram da igreja. O livro de Giuseppe Marcocci e José Pedro Paiva diz na pág.33. De inicio, a atenção dos inquisidores dirijiu-se para o judaísmo dos cristãos-novos. Os circulos messiânicos constituiram a maior preocupação. Podiam atrair até insuspeitáveis cristãos- velhos, como Gil vaz Bugalho, Juíz da Casa do Civel e Cavaleiro da Ordem de Cristo. Nos dias do Terramoto de 1531, ele tinha apresentado à Rainha D. Catarina, por mediação do impressor régio Luis Rodrigues, uma tradução do Antigo Testamento para português, realizada com a consulta de cristãos -novos. Os primeiros inquisidores não o esqueceram. Em 1537, Bugalho foi convocado pelo inquiridor João de Melo e Castro, que lhe impôs o juramento de nunca mais ler a sua Biblia e de por termo às relações com conversos. (...), refere ainda o «Messias de Setúbal»(...) D. João III perguntaria , em carta ao Papa, quantos idiotas plebeios e simprizes se devem presumir seduzidos e ruinados e continua (...).
A verdade é que, a cartada de Isabel a Católica, começa a produzir efeitos no Reino de Portugal provocando o declinio da Ordem de Cristo e criando condições para o inicio do Império Espanhol. Não sei haverá alguma relação entre estes fsctos, mas a verdade é que muitos cristãos começaram a afastar-se da Igreja. A História não se repete, mas penso que devemos colocar na equação a posição do Papa Francisco a rezar de cú para o ar e se a sua conduta não teve influência no momento politico que atravessamos. Parece que o ocidente perdeu o rumo e não é a primeira vez que isso acontece. Por isso eu gosto de dizer que, não vou à missa e sou apenas um cristão.
Vitor, claro que a nossa herança cultural é dupla, judaico-cristã e helénica (ou greco-romana)... Os nossos antepassados (cuja língua desconhecemos) foram colonizados pelos romanos... A minha Pátria começa por sera minha língua... Temos um duplo "ADN" (cultural)... Mas não renego todas as outras influências que fazem de nós um povo único, com vocação ecuménica, abertura ao outros, etc.: celtas, vigodos, árabes, bérberes, ameríndios do Novo Mundo, outros povos como os do Velho Mundo (África,Ásia)...
A primeira imagem (gerada pelo chatGPT) que mostra um padre na mata usando um cabeção (ou lá como é que se chama aquela espécie de colarinho), não é minimamente verosímil, de maneira nenhuma. Desde logo, os capelães militares, quando usavam camuflado, como costumava acontecer no mato, não traziam cabeção nenhum, nem era preciso. Já todos sabiam que eles é que eram os capelães.
Mas suponhamos, por hipótese, que os capelães usavam cabeção quando vestiam camuflado. Suponhamos, ainda por cima, que eles participavam em operações. Não sei o que é que um padre iria fazer numa operação militar, mas partamos do princípio de que também ia um padre. Estamos no reino do absurdo. Acham que o padre iria para a operação de cabeção? Se ele teimasse em ir de cabeção e fosse eu o comandante da operação, lhes garanto que ordenaria que ele retirasse i-m-e-d-i-a-t-a-m-e-n-t-e o raio do cabeção, porque iria pôr em causa a segurança do pessoal à minha responsabilidade, a começar pela segurança do próprio padre.
Não era por acaso que se usavam camuflados nas operações, pois serviam para nos confundirmos com a vegetação e não sermos detetados pelo inimigo. Se um padre levasse um cabeção numa operação, logo aquela coisa imaculadamente branca chamaria a atenção, denunciando a nossa presença a muitas centenas de metros de distância. Era como se dissesse ao inimigo: «Olha os militares aqui! Estás a ver esta coisa branca? Aponta para aqui! Vá, dispara!» E o capelão seria logo o primeiro a ser atingido. Nestas condições, a imagem gerada pela IA está errada, pois tem as personagens invertidas. O padre é que seria o ferido.
Fernando, claro que tens toda a razão... Mas tu não imaginas a paciência que é preciso ter para "negociar", ou melhor, "pedinchar" um "boneco" destes... Nunca sai à primeira, a arma não é G3, o GI anda de capacete como no Vietname, etc.
IA (ChatGP / Open IA, Gemini / Google / Perplexity, etc.) é "amaricana", pensa em "amaricano"...
Uso agora também a Mistral, que é francesa, europeia...Está a ter um grande sucesso...
Mandei duas fotos para a IA.
Uma do capelão e outra do Hélder.
Se reparares, o Bártolo não leva o cabeção.
Seria insuportável com o calor, o suor
Deixei o "boneco" como caricatura.
Claro, sem querer ofender os nossos amigos capelães
Talvez apareçam mais histórias de saídas para o mato.
Em Angola havia tipos que chegaram a sair em operações.
Como o Abel Martins, que era também "comando", dizem.
Não é Martins, é Matias, de Lamego. O "monge- guerreiro".
A IA diz que morreu em 2008, o que é falso.
Vive retirado no mosteiro de Singeverga
Já é o terceiro ou quarto caso de "falsa morte", que é indicada pela IA.
A IA baralha nomes e datas.
Vou ver como o padre Bártolo reagiu ao poste. Ele não usa a NET.
O Virgílio Teixeira, que é seu vizinho, mostra-lhe o que publicamos. Às vezes.
Ele deve estar noutro comprimento de onda.
É como eu, que só posso escrever uma linha de cada vez nesta caixa de comentários.
E neste telemóvel fatela.
Ou é um problema de servidor. No PC não me queixo.
Virgílio Teixeira (by email)
sábado, 10/01/2025, 18:02
Luis, estive a ler esta mensagem e vi o poste.
Amanhã domingo de tarde, é dia de estar com Padre BARTOLO que já não vejo desde antes do natal. Esteve com gripe e ele não facilita
Apesar de morar, no mesmo prédio onde está o salão de chá onde nos encontramos.
Já o vi a passear por cá, mas não falamos.
Ele vem ao salão tomar um chá e depois já não come mais nada.
Mas, quem tem amigos... Aqui num restaurante o dono convida o quase todos os dias para uma almoçarada à antiga.
Depois vai caminhar para desfazer tudo e não janta nada. Tem uma irmã que vai lá tratar das coisas da casa e comida, não é por faltar apoio.
Até porque ele vive muitíssimo bem, veste-se muito bem, bom carro, boa casa.
Não lhe falta nada. Acho eu!
Então estou indeciso sobre o que falar com ele, sobre o nosso Blogue e as coisas que ele ele poderia ler.
Vou avançar com o pedido de um livro autografado para o padre /capelão Puim.
Depois vejo se posso insistir ou não.
Não quero tocar naquilo que ele pode não gostar.
Há aqui neste poste alguma coisa que ele pode não gostar?
Abraço amigo
Vt
Luís Graça )by email)
sábado, 10/01/2025, 21:25
Vt, pelo contrário é uma homenagem a todos os (poucos...) capelães que arriscaram a pele, andando no mato em operações, como "embebbled chaplain" (O padre Abel Matias fez operações com os comandos em Angola, mas não há muitos casos, o Bártolo fala deste capelão, que é natural de Lamego no seu livro: vive hoje retirado no mosteiro beneditinbo de Singeverga) ...
No nosso tempo, na Guiné, isso não seria autorizado pelos comandantes de batalhão. E os capelães com trinta e tal anos (com o meu primo Horácio) já não tinham pedalada para suportar as condiçóes horríveis da guerra da Guiné... Quando muito deslocavam-se em colunas, sujeitos a emboscadas e minas.
Diz-lhe que o Arsénio Puim não usava arma, o que levantou suspeitas: o 2º comandante do BART 2917 perguntou-lhe, em Viana do Castelo, ou já na Guiné, se ele não era Jeová, objetor de consciência!... Vè lá tu a má fé do major (que era um militarista a quem eu um dia chamei uns nomes feios...).
O ex-padre Puim é uma santo de um homem e um grande escritor. Foi jornalista, e interessa-se pelas coisas da sua terra (Ilha de Santa Maria). Vai fazer 90 anos em maio. Gostava de lhe mandar o livro do padre Bártolo autografado. Já não é do tempo dele. Esteve apenas um ano em Bambadinca (maio 70/maio 71), antes de ser "expulso" do CTIG...
A única coisa que o teu amigo pode não gostar é do "boneco" que eu e a IA fizemos (com base na foto dele e na foto do Hélder)...Será que fica chocado ? Será que amparou nos seus braços o Hélder, agonizante ?
Boa sorte para a missão... Ab, Luis
Virgílio Teixeira (by email)
12 jan 2026 00:25
Luis, estive com os meus amigos no café desde as 17h até às 20h.
O padre BARTOLO não apareceu.
Antes tinha estado no Continente, e encontrei o teu já conhecido Nascimento Azevedo, aqui presidente da associação dos ex-combatentes de Vila do Conde, da qual não faço parte, apesar de tantas insistências, porque não sou ex combatente de vconde
O Nascimento compreende mas gostava que eu escrevesse algo para o jornal deles. O aerograma, como diz ele o nosso Padre Bártolo escreve.
Falei vagamente no nosso assunto, ele tem o telefone e email dele e disse que sabe bem lidar com a Internet!
Não lhe disse muito mais a não ser a nossa pretensão.
Resumindo ;
. Tenho de o encontrar, não devo procurá-lo em casa ;
. Pedir o livro e esperar o que ele diz ;
. Mas parece que, se ele estivesse aberto a partilhar já o tinha feito, dadas as minhas abordagens ;
. Não sei mais o que fazer, pois não quero perder esta amizade
Como se diz à moda do Porto,
Bolto mais tarde..
Aquela publicação dos termos do Sul e NORTE, está boa mas falta muito.
Estou a ber a telebisom.
Abraço
Vt
Claro que a data das mensagens do Virgílio são já de 2026... Lapso meu, ao transcrever... Peço desculpa a ele e aos leitores. A pressa dá sempre asneira... Mas também não interiorizei que já estou em 2026...Ou seja, um ano mais "cota"...
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