Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Em bom português nos entendemos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Em bom português nos entendemos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27994: Em bom português nos entendemos (32): Ainda a papaia e o mamão: são da mesma espécie botànica, frutos da Carica papaya, ...mas de variedades diferentes



Guiné-Bissau > Bissau > Quintal do "nosso embaixador" Patrício Ribeiro > Abril de 2026 >  Uma papaieira (árvore caricácea que produz a papaia, nome científico Carica papaya).  uma linda papaia madura (parece-nos, pela cor): impensável ser exposta, para venda, na banca de qualquer grande superfície cá do "Puto"... É como a batata-raiz-de cana, feia, rugosa, de olhos virados para dentro, difícil de cascar (aliás, coze-se com a pele),  "anormal",  por isso, "perdeu valor comercial" e deixou-se de cultivar... Mas hoje é produto "gourmet". O mercado é cruel... para os "pobres, anormais, feios, porcos e maus"...

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






Papaia é a mais pequena, mamão a maior... são variedades da espécie Carica papaya... 

Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Papaia ? Mamão ? Ou papaia e mamão  ? Vejamos a prova dos nove: o mercado é que faz os preços... e a língua as palavras.  Mas a ciência tem também uma palavra a dizer Neste caso,  a botânica...

De qualquer modo, nada como ir ao sítio  onde se compra e venda estes frutos tropicais... que vêm do outro lado do Atlântico, o Brasil, o 2º maior produtor mundial (com destaque para os estados do Espírito Santo e Bahia).

O dicionário (por exemplo, o Houaiss da Língua Portugesa) diz que é tudo a mesma coisa, são frutos da Carica papaya, espécie nativa do sul do México e América Central. E está correto, do ponto de vista botânico. 

A principal diferença está no tamanho e em pormenores como a forma, o sabor e a cor. No Brasil chamam mamão formosa ao fruto maior, e mamão papaia ao mais pequeno. O fornecedor é a Ftutana, uma conhecida grande empresa grossista do Brasil.

Em Portugal, o termo mamão designa as variedades maiores de Carica papaya (como o grupo Formosa). Ao fruto mais pequeno, em forma de pera, chama-se papaia propriamente dita (ou do tipo Solo). 

Em Angola e Moçambique, o termo papaia é mais comum, enquanto no Brasil domina o vocábulo mamão.  Em Cabo Verde e Guiné-Bissau, usa-se a palavra papaia.  Nos PALOP  começou-se  a usar o termo mamão por influência brasileira.  De resto, também encontrei, no hipermercado,  mamão do Algarve, Mais pequeno que o brasileiro mas ao mesmo preço.

Duas curiosidades: 

(i) uma, histórica: a papaia foi levada para a África e Ásia pelos portugueses e espanhóis durante a era dos Descobrimentos (a primeira "autoestrada" da globalização); e,   hoje,  países como a Índia e a Tailândia são grandes produtores;

(ii) outra, botânica: a  Carica papaya é dioica (há plantas macho, fêmea e hermafroditas); os cultivares comerciais são hermafroditas (para produzirem frutos sem polinização cruzada).


2. Fui ao Auchan do Alegro, Alfragide, passe a publicidade, e constatei que, na banca da fruta tropical, havia, ontem, a seguinte oferta:

(i) mamão ("Papaya formosa", na etiqueta) (via aérea, Brasil) a 4,59 € / kg, pesando cada unidade cerca  de 1,4/1,7 kg;

(ii) papaia  (pequena, de tipo Solo) (via aérea, Brasil) a  4,79€ / kg, pesando cada unidade c. de 350/450 gr.

Há uma diferença de 20 cêntimos, que não sei explicar, e que pode ser apenas diária ( dependendo de campanhas de promoção,  aspeto da fruta, etc.).

Só compro papaia às vezes, para saladas... E em dias de festa... É um luxo, para mais num país como o nosso que tem tanta variedade e riqueza de fruta ao longo de todo o ano, da pera rocha aos figos, dos morangos às clementinas, do melão à melancia, das romãs às laranjas, das uvas às maçãs, das ameixas às castanhas, das nêsperas aos alperces, em esquecer as frutas subtropicais e até tropicais da Madeira e Açores, bem como do Algarve... (O abacate. por exemplo, está a tornar-se o "ouro verde" do Algarve, com exportações crescentes para a Europa; e a Alfarroba, camaradas ? O antigo "chocolate do pobre", que também era comido por burros e cavalos, é hojé produto "gourmet": antigamente, a alfarroba era usada como substituto do cacau, hoje é usada em chocolates finos, gelados e até cerveja.)

Voltando à papaia (e ao mamão)... Comparei, pesei... e fotografei. Não comprei, nem provei...

Os dicionaristas podiam aproveitar estas subtilezas da vida real (introduzidas pela globalização) e não dizer  apenas que a papaia e o mamão são sinónimos... Enfim, a língua é felizmente  sempre maior, mais complexa, mais dinâmica, mais viva,  mais rica que todos os  dicionários juntos.  A vida passa a perna aos lexicógrafos, aos dicionaristas, aos botânicos, aos produtores, aos grossistas, aos consumidores...

3. Por outras palavras,  o mamão (Carica papaya 'Formosa') não é uma espécie diferente, é apenas uma variedade (ou um grupo de cultivares) da espécie Carica papaya.

Botanicamente, tanto o mamão (grupo Formosa) como a papaia (mais pequena, muitas vezes chamada de mamão tipo Solo) pertencem todos  à mesma família, e  à mesma espécie: Carica papaya.
  • grupo Formosa: esta variedade distingue-se por ser maior e mais pesada (pode chegar aos 2kg ou 3kg), ter uma polpa mais firme e uma casca mais resistente, o que o torna ideal para transporte (casca mais dura, e por isso é mais exportada);
  • além do tamanho, mais alongado, tem polpa alaranjada e sabor suave;
  • o nome Formosa está ligado à ilha de Taiwan (antigamente chamada Formosa), onde foram desenvolvidos muitos dos híbridos que consumimos hoje, como o famoso Tainung nº 1.
A papaia (tipo Hawai) é menor, mais doce, e de polpa alaranjada.

4. A diferença é a mesma em relação, por exemplo,  à maçã bravo-de-esmolfe e a maçã reineta, são variedades distintas, embora ambas pertençam à mesma espécie botânica (nome científico:  Malus domestica Borkh).

Onde estão as deiferençsa ?  São cultivares (variedades) diferentes: a maçã bravo-de-esmolfe (DOP); é uma variedade tradicional portuguesa, autóctone da região de Penalva do Castelo, conhecida pela sua polpa branca, macia, doce e muito aromática; a maçã reineta é geralmente mais ácida, firme e muito utilizada na culinária.

Outro exemplo: o ananás e o abacaxi (que comiamos bastante na Guiné). A espécie é a mesma (Ananas comosus, nome científico). 

O ananás (dos Açores e da Madeira, por exemplo) é mais arredondado, cultivado em estufas, colhido ao fim de 18 meses: o da Madeira mais doce e aromático (cultivado em estufas de vidro) (DOP); o dos Açores, mais ácido e perfumado (cultivado em estufas de pedra vulcânica). (Parece haver uma rivalidade amigável entre as duas regiões autónomas sobre qual o melhor ananás do mundo...)

O abacaxi, cultivado ao ar livre em climas tropicais (como na Guiné-Bissau), é tipicamente mais doce e alongado, com polpa amarela.

Uma pergunta final ao leitor: se o mamão e a papaia (ou o ananás e o abacaxi) são a mesma espécie, porque é que o mercado os trata de forma diferente? Será que, no fundo, a língua e a economia são também 'cultivares' da mesma realidade?
(Pesquisa: LG + Net + IA / Le Chat Mistral AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
_________________

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27985: Em bom português nos entendemos (31): Carica papaya: Papaieira, mamoeiro, papaia, mamão, ababaia...



Guiné-Bissau >Bissau > Impar Lda > 2019 >  Belíssimo postal de boas festas que nos chegou, com data de 16/12/2019,   de Bissau, no correio do Patrício Ribeiro, "patrão" da empresa Impar Lda. (Na imagem acima, uma papaieira, árvore caricácea que produz a papaia: vê-se que ainda estavam verdes...).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >   O alf graduado capelão, padre José Torres Neves, a "apalpar a fruta" (sem qualquer conotação sexual...), neste caso, a papaia, que ainda estava verde... Em segundo plano , parece-nos o  padre franciscano Júlio do Patrocínio, da missão católica de Santa Ana de Mansoa (fundada oficialmente  em 1953).  O Ernestino Caniço não restante nem um nem outro, o José Torres Neves e o Júlio do Patrocínio. Devem sere então dois graduados, à civil, da CCS/BCAÇ 2885.

Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Bissau > Quintal do Patrício Ribeiro > Abril de 2026 >  Uma papaieira (árvore caricácea que produz a papaia, nome científico Carica papaya).  uma linda papaia madura (parece-nos, pela cor).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Isto de frutas tropicais e subtropicais tem muito que se lhe diga... Papaia ou mamão ? É tudo a mesma coisa, só diferem no tamanho ?... O mamão maior e mais arredondado, e a papaia mais pequena e alongada ?...

Mamão, papaia ou ababaia é o fruto do mamoeiro ou papaeira, árvores da espécie  Carica papaya (nome científico).

A espécie é nativa do sul do México, América Central e norte da América do Sul, estando naturalizada nas Caraíbas, Flórida e diversas regiões de África e Ásia. 

A espécie é cultivada como fruteira no  Brasil, Índia, Austrália, Malásia, Indonésia, Filipinas, Angola, Havai e muitas outras regiões dos trópicos e subtrópicos... A Índia é o 1º produtor mundial, seguida do Brasil... E também cresce, e bem, no quintal do Patrício Ribeiro, o "pai dos tugas", em Bissau (*)...

Diz o Alberto Branquinho: 

"Da minha experiência nas andanças pela Guiné, fiquei com as seguintes ideias:

  • o mamão tem a configuração de um melão pequeno;
  • a papaia (cortada de cima - pedúnculo de fixação à planta - até à parte inferior) tem a configuração de uma viola
Ambos os frutos, quando bem maduros, têm cor idêntica (laranja forte).

Tanto em Cabo Verde como no Brasil encontrei pessoas que chamam mamão a ambas. A palavra 'ababaia' não conheço!"

sábado, 2 de maio de 2026 às 22:58:00 WEST 

2. O que apurámos  na Net, permite distinguir o seguinte:

Eventuais diferenças:

(i) Papaia (Hawai): fruto mais pequeno, peso à volta de 300g / 500g, polpa laranja intenso, muito doce e ideal para comer à colher;

(ii) Mamão (Formosa): fruto maior, pode pesar mais de 1 kg, polpa laranja claro/amarelo, sabor mais suave, ótimo para sucos e saladas.

No Brasil e em Angola, diz-se mamão.
 Mas também papaia: "em Angola utilizam-se os termos mamão / mamoeiro para identificar o fruto mais arredondado, identificando papaia / papaeira com o fruto mais alongado. São frutas ovaladas, com casca macia e amarela ou esverdeada. Sua polpa é de uma cor laranja forte, doce e macia. Há uma cavidade central preenchida com sementes negras". Distingue-ser duas variedades: mamão Formosa e mamão Hawai, que se dão muito em Angola, comforme a zona e o clima. 

Em Portugal,  na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, usa-se mais o termo papaia (e papaia gigante nos mercados em Bissau: vd aqui foto de Cabral Fernandes Yasmine, à direita).

No hiper onde  faço compras (o Auchan Alfragide, passe a publicidade), chamam papaia ao fruto mais pequeno e mamão ao maior... Vem do Brasil o mamão...

Na messe, em Contuboel e Bambadinca, comíamos manga,  papaia, banana e abacaxi. Na época destes frutos... Havia ainda algumas  "pontas" (quintas) em atividade, nos arredores, aonde nos abastecíamos de frutos tropicais... A ponta Brandão, por exemplo, entre Bambadinca e Fá Mandinga... 

Tal como nas tabancas em autodefesa: não me lembro de ter comprado, davam-nas...Mas quentes não tinham o sabor que têm hoje...E, estupidamente, nem sumos fazíamos. Também não tínhamos gelo nem máquinas de sumos... E aos vagomestres faltava-lhes imaginação (e formação)... Havia tantas coisas boas na Guiné. Mas dava trabalho arranjá-las... E estávamos em guerra, tínhamos vinte anos e éramos etnocêntricos (o que quer dizer, sem ofensa para ninguém, estúpidos!)

 Mas, se bem me lembro, comia-se mais o abacaxi e a banana. A manga existia em abundância, era "mato". A papaia era mais rara. Não havia grandes extensões de papaieiras. Era cultura de quintal.  Cada árvore (uma herbácea...) dava meia dúzia de papaias. 

A agricultura da Guiné era de autossubsistência. A guerra deu cabo das "pontas". E pensar  (ironia da História!)  que foi um engenheiro agrónomo (!) do ISA  e um professor de finanças, de Coimbra,  de botas de elástico,   que deram cabo de tudo aquilo... Hoje a Guiné poderia ser um paraíso. 


3.  Valha-nos, ao menos,  a nossa bela e rica língua comum... Vejamos então o que dizem os lexicógrafos (**):  s
egundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa , "papaia" é fruto da "papaieira", e a palavra seria de origem caribe, por via do espanhol. 

(Tenho a edição completa, 6 volumes, do Círculo de Leitores, Lisboa, 2003; uma grande obra, o melhor que conheço, só é pena que o tipo de letra  seja de tamanho pequeno, dificultando a leitura e tornando a consulta penosa para a vista, e portanto menos amigável;  o editor português quis pôr o Rossio na Betesga...)

Sinónimos de papaia: bepaia, mamão, mamoa.

A etimologia vem do espanhol "papaya" (1535), palavra indigena americana , caribe ou aruaque (impossível determinar com rigor a origem, alguns autores inclinam-se mais para o caribe: "papai").

Papaieira é a árvore (Carica papaya, nome científico ). Sinónimos: ababaia, bepaia, mamão, mamoeiro, pinoguaçu...´

Na Guiné-Bissau, e em Cabo Verde, tal como em Portugal, diz-se "papaia" e "papaieira". No Brasil, e em Angola, é "mamão". Veja-se o provérnio crioulo da Guiné-Bissau:

Ami i rasa papaia: N ka ta durmi na bariga di algin (=eu sou como a papaia: não fico parado na barriga de ninguém).

4.  O vocábulo  "ababaye" (ou "ababaya") existe em francês antigo e em alguns dialetos, referindo-se à papaia (Carica papaya). Os franceses, que colonizaram partes das Caraíbas (como a Martinica e a Guadelupe), podem ter adaptado o termo para "ababaye", que depois foi reimportado para o português como "ababaia".A forma "ababaia" em português pode ser um empréstimo ou adaptação desse termo. 

Em Portugal, o termo já não se usa, mas aparece em textos antigos ou em regiões com influência colonial, onde a papaia era cultivada e consumida (regiões tropicais e subtropicais)

Curiosidade linguística: a papaia (Carica papaya) é originária da América Central, mas espalhou-se pelo mundo através dos colonizadores. Os franceses, que também tiveram presença em África e nas Antilhas, podem ter introduzido o o termo "ababaye" em algumas regiões lusófonas, onde depois foi adaptado para "ababaia".

Os caribes são um povo indígena das Caraíbas, conhecidos pela sua resistência à colonização europeias.  É interessante as "voltas" que as palavras dão...

Em Cabo Verde, diz-se "papaia",
é um dos fabulosos frutos tropicais
que as ilhas produzem

5. No mundo lusófono, não há registos conhecidos de "ababaia" como termo corrente para papaia. No entanto, o Dicionário Houaiss regista-o. 

No Brasil, "ababaia" também aparece como gíria ou calão para genitália feminina em português. Mas terá  uma origem mais provável no tupi do que no francês.   (Com esta aceção, o Houaiss não regista o termo, encontrámo-lo noutras fontes).

Segundo a  ferramenta de IA que consultámos  (Le Chat / Mistral AI), "ababaia" aparece em dicionários de tupi antigo (ou tupinambá) como termo relacionado com a vulva ou órgão sexual feminino.

Em tupi, "aba" pode significar "homem" ou "pai", mas também aparece em compostos com sentido erótico ou anatómico. "Baia" (ou "aia") pode estar ligado a "abertura" ou "local", mas, em contexto brejeiro o termo foi adaptado para o calão.

O vocabulo é documentado em obras como o "Vocabulário na Língua Brasílica" (século XVII), de Luís Figueira, onde constam palavras de origem tupi para partes do corpo, incluindo termos tabu.

No português brasileiro, "ababaia" é gíria antiga (e hoje menos comum, omisso na "Bíblia da Língua Portuguesa" que é o Dicionário Houaiss) para designar a genitália feminina, especialmente em contextos de calão ou linguagem pícara, brejeira ou até pornográfica.

Aparece em literatura erótica ou popular, como em modinhas, cordéis ou até em obras de Gregório de Matos (século XVII), que usava termos indígenas em seus poemas satíricos.

"Ababaye" em francês não tem registo como termo para genitália feminina. A hipótese francesa é mais plausível para papaia (fruta), mas não para este sentido anatómico. 

6. A influência tupi no português brasileiro é massiva em gírias, especialmente em termos relacionados com o corpo, sexo ou natureza. Exemplos:

  • "Pindorama" (terra das palmeiras, nome indígena para o Brasil);
  • "Cunhã" (mulher, em tupi);
  • "Perereca" (sapo, mas também gíria para genitália feminina).


Em Portugal, o termo "ababaia", não sendo hoje corrente, pode ter chegado, por influência brasileira, através de marinheiros, comerciantes ou imigrantes que trouxeram a gíria. Ou da literatura e do teatro, em obras que retratavam o Brasil colonial ou a vida nos trópicos.

O uso de termos indígenas para partes íntimas (ou "vergonhosas") reflete: 

(i) tabu e eufemismo: os povos indígenas tinham palavras específicas para o corpo, que foram adotadas  (e ao mesmo tempo "interditas") pelos colonizadores; 

(ii) resistência cultural: mesmo em contextos de opressão, a língua tupi sobreviveu no calão e na gíria, como forma de resistência.

Em português,  a vulva é conhecida por termos da gíra e calão como pipi, pipica (informal, entre crianças e adolescentes); pito, pepeca, ostra, crica, berbigão,  entrefolhos,  nêspera, greta, papaia (informal, entre os adultos). (E "catota", nio crioulo da Guiné.)

(Pesquisa: LG +  IA (Le Chat / Mistral AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG).
________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 1 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27978: Bom dia. desde Bissau (Patrício Tibeiro) (64): Hoje, Dia do Trabalhador, foi tudo para a praia.. Só cá ficaram os que saíram na 3ª caravela do Vasco da Gama, na passagem para a Índia, como eu...

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27933: Em bom português nos entendemos (30): Kalashnikovomania, mania da Ak-47, culto da Kalash



AK-47 (ou simplesmente AK ou Kalash), objeto de culto pelos "rambos" de muitas guerras... Pode-se falar em "mania da AK-47" (ou kalashnikovomania) ?



1. Em bom português nos entendemos... É verdade ? Kalashnikovmania... ou kalashnikovomania ?

Segundo as ferramentas deIA que consultámioos, a últimagrafia é a mais aceitável (e é aquela que passamos a adotar)

A forma mais correta em português, seguindo critérios de adaptação ortográfica e clareza, seria “kalashnikovomania”.

Aqui vai o raciocínio:

“Kalashnikov” é um nome próprio russo (de Mikhail Kalashnikov, 1919-2013), e costuma manter essa grafia internacional em contextos técnicos ou culturais.

O sufixo “-mania” é produtivo em português (como em “bibliomania”, “tecnomania”, "cleptomania"), indicando obsessão ou atração intensa.

Avaliando as opções:
  • Kalashnikovmania → compreensível, mas menos natural na ligação (soa “colado” sem adaptação).
  • Kalashnikovomania → mais fluida, segue o padrão de ligação com “-o-” (como em “cinemania” vs. “cinemomania”, embora este último seja raro).
  • Kalachnicovomania → tenta “aportuguesar” demais e perde reconhecimento; não é uma forma usada.
Conclusão; a A grafia mais internacional / reconhecível mas também a mais natural dentro do português culto-formal é   kalashnikovomania (*).

2 Mas pode haver outras alternativas mais "eleganates" ou já usadas pelos falantes da língua portuguesa..

Se quisermos evitar um neologismo “pesado” como kalashnikovomania (8 sílabas!), há várias alternativas mais naturais em português:

  • mais neutras e descritivas:  fascínio pela AK-47, nteresse pela AK-47, atração pela AK-47, obsessão perla AK-47
  • mais formais / analíticas: apreço por armamento do tipo Kalashnikov, interesse por armas da família Kalashnikov, fetichização de armamento Kalashnikov;
  • mais expressivas (ou literárias): fixação pela AK-47, idolatria da AK-47, culto da Kalash, 
  • mais coloquiais ou informais: tara da Kalash, mania da AK-47.

Se quisermos manter o “espírito” de “mania”, podemos acrescentar o adjetivo "kalashnokoviano (que soa bem em português, como "kafkiano") (*):  obsessão kalashnikoviana, paixão kalashnikoviana, fixação kalashnikoviana

Em português, muitas vezes soa mais natural transformar o nome próprio em adjetivo (kalashnikoviano/a) do que colar “-mania” no fim. O melhor termo muda bastante com o contexto (relatório académico ou técnico, jornalismo, blogue, tertúlia, conversa de café, etc.).

Em resumo, criar um adjetivo (kalashnikoviano) às vezesa é preferível do que criar neologismos,  inventando palavras longas  como kalashnikovomania, que acabam por parecer artificiais.

 (Pesquisa: LG + IA (ChatGPT , Le Chat Mistral)

(**) kafkiano

(kaf·ki·a·no)

adjetivo


1. [Literatura] Relativo a Franz Kafka (1883-1924), escritor de língua alemã nascido em Praga, à sua obra ou ao seu estilo (ex.: universo kafkiano; angústia kafkiana). = KAFKAESCO, KAFKESCO

2. [Por extensão] Que é confuso, ilógico ou absurdo ou lembra o ambiente da obra de Kafka (ex.: situação kafkiana). = KAFKAESCO, KAFKESCO


adjetivo e substantivo masculino


3. [Literatura] Estudioso ou admirador de Kafka ou da sua obra.


origem:[Franz] Kafka, antropónimo + -iano.

"kafkiano", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/kafkiano.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27816 Em bom português nos entendemos (29): "Partir o coco a rir", uma expressão idiomática cuja origem remonta ao período em que os nossos avoengos andaram a construir a primeira autoestrada da globalização



Fontes e Créditos

Texto Principal: Consulta ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (11/03/2026); Vale, Andreia, "Puxar a Brasa à Nossa Sardinha" (2015).

Ilustração e Notas Complementares: Conteúdo e imagem gerados por Inteligência Artificial (Google Gemini, modelo Gemini 3 Flash), em 12 de março de 2026, com base no prompt do autor LG.


1.  Em bom português nos entendemos... É verdade ? De Lisboa a Dili, da Praia ao Rio de Janeiro, de Luanda a Macau, do Maputo a Bissau  ? (*)

A expressão “partir o coco a rir” (ou “de partir o coco a rir”, falando-se de algo ou de alguém que  é muito cómico, pândego ou divertido, faz rir imenso...) (**) é uma variante popular de outras expressões portuguesas que significam rir muito, até doer, como:  “partir a rir”, “rebentar a rir”, “morrer a rir”, "fartar-se de rir", “partir o bandulho a rir”, "mijar-se a rir", "cair para o lado a rir", "rir que nem um perdido"... Também se diz, por ex, de uma anedota "de partir o coco a rir"...

Aqui “partir” tem valor hiperbólico: sugere que o riso é tão forte que quase “parte” alguma coisa no nosso corpo: o "coco" (=cabeça), o bandulho (=barriga). São hipérboles mais antigas e universais. Aparecem em muitos textos do século XVIII e XIX e tem paralelo noutras línguas: francês: mourir de rire (francês); morirse de risa (espanhol); to die laughing (inglês);

É uma metáfora corporal exagerada, típica do humor popular, desbragado, brejeiro, pícarlo.

Na tradição portuguesa, tanto literária como popular,  há uma grande família de expressões hiperbólicas para “rir muito”, quase sempre baseadas na ideia de o riso provocar uma ruptura física (rebentar, partir, morrer, cair, etc.). Muitas aparecem já em textos dos séculos XVIII e XIX, e algumas são ainda mais antigas (crónicas humorísticas, teatro, etc.)

Outras expressões populares, variantes regionais ou antigas: rir às bandeiras despregadas; rir até às lágrimas; desmanchar-se a rir; cagar-se a rir... E, já agora, expressões equivalentes nas nossas línguas latinas (ou românicas) que são faladas por 1,35 a 1,5 mil milhões de pessoas em todo o mundo:

Português (Brasil)

  • "Rir até doer a barriga"
  • "Rir até chorar"
  • "Rir que nem um louco"
  • "Rir à beça"
  • "Rir até não aguentar mais"
  • "Rir até o chão"
  • "Rir pra caramba"
  • "Rir como um bêbado" (mais informal)

Espanhol

  • "Reírse a carcajadas" (o clássico, como "rebentar a rir")
  • "Reírse a mandíbula batiente" (literalmente, rir até a mandíbula tremer)
  • "Reírse como una hiena" (para um riso exagerado e quase animalesco)
  • "Reírse hasta llorar" (rir até chorar)
  • "Reírse hasta que duela" (rir até doer)
  • "Reírse como un loco" (rir como um louco)
  • "Partirse de risa" (equivalente ao "partir a rir")
  • "Mearse de risa" (sim, tão físico quanto "mijar-se a rir")

Francês

  • "Rire aux éclats" (rir em gargalhadas)
  • "Rire à gorge déployée" (rir com toda a garganta)
  • "Rire comme un bossu" (rir como um corcunda, expressão antiga e pitoresca)
  • "Rire comme une baleine" (rir como uma baleia, pela intensidade)
  • "Rire jusqu’aux larmes" (rir até às lágrimas)
  • "Se tordre de rire" (contorcer-se de rir)
  • "Pisser de rire" (sim, tão cru quanto "mijar-se a rir")
  • "Mourir de rir" (morrer de rir)

Italiano

  • "Ridere a crepapelle" (rir até a pele estalar)
  • "Ridere come un matto" (rir como um louco)
  • "Ridere fino alle lacrime" (rir até às lágrimas)
  • "Ridere sgangheratamente" (rir de forma descontrolada)
  • "Ridere come una iena" (rir como uma hiena)
  • "Sbellicarsi dalle risate" (literalmente, "rebentar de rir")

Catalão

  • "Riure a mandíbula batent" (rir até a mandíbula tremer)
  • "Riure com ganes" (rir com vontade)
  • "Riure fins que faça mal" (rir até doer)

Galego

  • "Rir a bandullos" (equivalente ao "partir o bandulho a rir")
  • "Rir ata chorar" (rir até chorar)
  • "Rir como un tolo" (rir como um louco)

Romeno

  • "A râde cu lacrimi" (rir com lágrimas)
  • "A râde până îți doare burta" (rir até doer a barriga)
  • "A râde ca un nebun" (rir como um louco)(

Fonte: Le Chat Mistral AI)

Crioulo  de Cabo Verde

  • "Ri ti bu boka di stomagu doi" (Rir até a boca do estômago doer)
  • "Ri ti bu bariga matxa" (Rir até a barriga ficar moída/magoada)
  •  "Ri ti k'bu bariga ka pode mas" (Rir até a tua barriga não poder mais)
Fonte: ChatGPT/OpenAI

_________________________________________________________________


Muitas destas expressões têm origem em imagens corporais (dores, lágrimas, contorções) ou em comparações com animais (hienas, baleias). O que mostra omo o riso é uma experiência física e universal. 

E, claro, há sempre aquelas expressões mais "terrenas" (como "mijar-se a rir" ou "pisser de rire"), que revelam como o riso pode ser tão intenso que nos faz perder o controlo até das funções mais básicas!

Em suma, rir faz bem à saúde e...à democracia. 


 
2. Consulta ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa;

Perguntámos a origem da expressão "Partir o Coco a Rir" ao Ciberdúvidas,  remeteu-nos a resposta para um excerto do livro Puxar a Brasa à Nossa Sardinha, de Andreia Vale (Queluz de Baixo, Barcarena, Oeiras: Manuscrito Editora, 2015, 220 pp.)

(...) «No período das Descobertas, os portugueses chamaram coco a um novo fruto que encontraram porque, visto de um certo ângulo, parecia a cara de um monstro imaginário com que se assustava as crianças, uma espécie de bicho-papão - ao qual também se dava o nome de coco. 

É o que conta o historiador João de Barros nas 'Décadas da Ásia': 

'[...] por razão da qual figura, sem ser figura, os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer coisa, com que querem fazer medo às crianças, o qual nome assim lhe ficou, que ninguém lhe sabe outro [...].'

 Se o fruto fosse usado para representar o monstro, percebe-se a alegria das crianças quando o coco era partido. Entre as várias interpretações, assim como o coco assustava, a lenda conta que a representação feminina, a coca, ficava atenta às crianças mais desobedientes, à espera que se portassem mal... ficava por isso 'à coca'. "

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/rir-a-bandeiras-despregadas--partir-o-coco-a-rir/19275 [consultado em 11-03-2026]

(Pesquisa: LG + Net + IA (Google Gemini /Le Chat Mistral AI)  | Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
_____________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 12 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27522: Em bom português nos entendemos (28): B'ráassa, Brasa, Brassa ou Birassu (como os balantas se autodenominam) ( Cherno Baldé, Bissau)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27522: Em bom português nos entendemos (28): B'ráassa, Brasa, Brassa ou Birassu (como os balantas se autodenominam) ( Cherno Baldé, Bissau)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > Nhabijões >2º semestre de 1970 > Luta balanta, entre dois "blufos", presenciada por militares destacados para protecção do reordenamento (à esquerda, o fur mil Henriques, da CCAÇ 12, de calções, tronco nu e óculos escuros, hoje editor deste blogue; na altura, devia etsar a comandar um pelotão da CCS/BART 2917 que guarnecia o destacamento: era tudo "básicos e gajos com porradas"..)... Ao fundo, a nova tabanca, reordenada...

Nhabijões deve ter sido o maior ou um dos maiores reordenamentos jamais feitos no tempo de Spínola. Foi um duro golpe para o PAIGC. Os reordenamentos são do tempo do BCAÇ 2852 (1968/70) e BART 2917 (1970/72)... Uma equipa (técnica) da CCAÇ 12 (a par das CCS dos supracitados batalhões) foi destacada o reordenamento.

Foto do arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-Fur Mil At Inf, Op Esp, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do livro de Cammilleri, Salvatore - A identidade cultural do povo balanta. Lisboa: Edições Colibri; Edições FASPEBI, 2010, 110 pp., ilustrado. Tradução do italiano: Lino Bicari  (1935-2024) e Maria Fernanda Dâmaso.


1. B'raassa, Brasa ou Brassa, o termo que os balantas da Guiné-Bissau usam para se autodenominarem. Há um problema com a transliteração de sons da língua balanta para português e, consequentemente,  com a grafia a ser fixada.  Por outro lado, o termo é menos comum, para os não-balantas. 

O termo que os próprios Balanta usam para se referir à sua identidade e que é o mais consistentemente citado na literatura de antropologia e linguística é Brassa. Trata-se de um "autónimo".

Este termo é, na verdade, a adaptação para a escrita de como eles pronunciam a sua própria designação ("B'ráassa")  e que se refere à forma como eles se veem como "o povo" ou "os homens".

No entanto, é comum encontrar as três variações (B'ráassa, Brasa e Brassa) na literatura, incluindo a portuguesa:

  • Brassa é  a forma mais aceite e precisa (em portugão-padrão);

  • Balanta é o termo mais comum e oficialmente reconhecido em português para este  grupo étnico; trata-se de um "exónimo".

Portanto, em português, o termo comum para o grupo é Balanta, mas se a intenção for referir-se à autodenominação do povo, Brassa é a escolha mais correta. Mas nenhum dos termos está grafado nos nossos dicionários, seja em Portugal (Priberam, por exemplo) ou no Brasil (Houaiss).

O etnógrafo e missionário italiano  Salvatore Cammilleri usa o termo "brasa" no seu livro "A identidade cultural do povo balanta". 

M'bana Ntchigana, autor do blogue "Intelectuais Balantas da Diáspora",  utiliza de preferência o etnónimo "B'ráassa" ou até "Braza". Ele vise no Brasil



Cherno Baldé

2. Vale a pena, entretatanto, trancrever aqui um comentário do nosso amigo Cherno Baldé, colaborador permanente do nosso blogue para as questões etnolinguísticas:

 (... ) Como tenho dito em tempos e até provas em contrário, sou de opinião que a origem da expressão ou designação " B'raassa ou Brassa",  como os Balantas se autodenominam, segundo o autor do presente texto, aliás um conto mítico sobre o lendário combatente, Pansau Na Isna, muito interessante, deve-se procurar na designação histõrica da província ocidental do antigo reino mandinga de Kaabu (Gabu,  na grafia portuguesa).

Existiam duas províncias muito grandes e concorrentes, o Farin Kaabu (província de Gabu,  na grafia portuguesa) e o Farin B'raassu (província de Braço. na grafia portuguesa) e esta província extendia-se, de Sul ao Norte, desde o rio Geba até ao rio Gâmbia de modo que, praticamente, abrangia o chamado chão balanta na atual Guiné-Bissau e a região senegalesa da Casamansa. 

De notar que, inclusive, as populações da etnia fula que habitam a mesma região são conhecidas igualmente como B'raassus (b'raassunke ou b'raassunkas nas linguas mandinga e fula) com um sotaque e formas de falar um pouco diferentes dos seus parentes da antiga provincia de Gabu (Farin Kaabu).

Em complemento junto um pequeno extracto de uma passagem da monografia que estou a preparar há alguns anos, mas que ainda não conclui, citando o nosso amigo Armando Tavares, historiador portugues e colaborador do Blogue,  e um outro conhecido investigador africano e especialista do império de Gabu, natural da Guiné-Conacro, Djibril Tamsir Niane, falecido no ano passado.

"Segundo o historiador Armando Tavares, durante muito tempo, na cartografia portuguesa, não existia o topónimo (Fajonquito) e em seu lugar a zona era conhecida como sendo Gam-Sonco ou Cansonco. Na nossa opinião, a designação desta localidade por Gam-Sonco terá a haver com a predomínio dos povos de origem autóctone Banhum, Jola, Pajadinca e de diferentes outras etnias, muito poderosas que estariam instaladas nessa região (ver Djibril Tamsir Niane) na altura da invasão e da conquista mandinga desta zona e que estaria ligado a instalação da Província do Birassu/Brassu (Brassa, dos balantas) assim como outras províncias vizinhas, tendo como capital a localidade de Berécolom ou Bércolon ou então seriam duas entidades diferentes (Gam-sonco e Sancolla) representando o mesmo espaço territorial ou espaços diferentes."

Portanto, a ser verdade, B'raassa ou Brassa, antes de ser a designação de uma etnia, seria um espaço geográfico onde os balantas e outros grupos étnicos conviviam desde os tempos do império mandinga de Gabu aos tempos presentes,  com as naturais mudanças que a dinâmica da história dos povos se encarregou de fazer ao longo dos dois, três últimos séculos.

Gostaria de ouvir a opinião do meu compatriota M'bana N'tchigna sobre este assunto em especial e que, eventualmente, poderia desvendar outros mistérios menos conhecidos sobre os povos da Guiné no período anterior à colonização europeia em geral e portuguesa em particular. (**)



3. Já há tempos, em 2018, o Cherno Baldé, se tinha pronunciado sobre esta questão da origem dos Balantas / Brassa:

(...) Segundo as fontes orais a que tivemos acesso, o termo ou etnónimo Brassa vem do termo mandinga Birassu, Brassu, Buraçu ou Braçu, conforme as fontes em Mandinga ou Fula, Portugués ou Francês, que era a provincia ocidental do reino mandinga de Gabu (ou Kaabu) e que viria a tomar várias formas nas diferentes línguas dos povos que ai viviam antes e após o fim do imperio, na sua grande maioria mandingas, fulas, balantas, djolas, etc.

Assim, toda a zona norte da Guiné e parte da região de Casamança, no Senegal, se encontravam dentro desta antiga província, com epicentro no corredor de Farim/Mansoa que seria a capital provincial e donde os Brassas/Balantas sairam para depois se expandirem mais ao sul do pa~is, até às regiões de Quínara e Tombali.

Partindo deste ponto de vista analítico, na Guiné, os Balantas não seriam os únicos "Birassu" ou "Brassa", pois também entre os fulas existem grupos, pouco conhecidos ou estudados, mas que seriam desta origem histórica, os chamados fulas Birassunka Braçunka (em mandinga: Fulas de Biraçu), com especificidades próprias da língua e cultura ainda hoje existentes, aliás muito parecidas com as dos seus históricos vizinhos mandingas e balantas do norte.

Em resumo, quando um Balanta ou Djola ou Fula se identifica a si mesmo como "Brassa" ou "Birassu", isto queria dizer que se identificava com as suas raízes ou origens geográficas, em estreita ligação ao território/reino com o qual, para todos os efeitos, se identifica em relação aos outros.

Não esquecer que em África, os processos de formação das identidades com base em determinados territórios ou estados-nação, iniciados no periodo pré-colonial, foram interrompidos e violentamente substituídos por relações comerciais e outras, baseadas no tráfico de armas e de seres humanos impostas de fora para dentro ou vice-versa, e que nenhum povo africano, para poder sobreviver, podia ignorar ou dispensar em entre meados do séc. XV e fins do séc. XIX.

19 de outubro de 2018 às 11:55 (***)

(Revisão / fixação de texto: LG)
__________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série  18 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26814: Em bom português nos entendemos (27): "Caputo" e "chicoronho", aplicados aos habitantes brancos do sul de Angola, antes da independência (António Rosinha / Luía Graça)

(**) Vd. poste de  9 de dezembro de 2025 > Guiné 761/74 - P27508: (D)o outro lado do combate (69): O "herói do Como", o Pansau Na Isna (1938-1970), em registo de "conto popular africano"“: tuga ka pudi anda na lama (M'bana N'tchigna)

(***) Vd. poste de 20 de outubro de 2018 > Guiné 61/74 - P19120: (De)Caras (121): O ex-padre italiano LIno Bicari foi meu professor em Bafatá, depois da independência, e casou com uma prima minha, Francisca Ulé Baldé, filha do antigo régulo de Sancorlã, Sambel Koio Baldé, fuzilado pelo PAIGC (Cherno Baldé, Bissau)

domingo, 18 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26814: Em bom português nos entendemos (27): "Caputo" e "chicoronho", aplicados aos habitantes brancos do sul de Angola, antes da independência (António Rosinha / Luía Graça)



Angola > Moçâmedes (hoje Namibe) > s/d > Página do Facebook Moçâmedes a nossa amada cidade - Liceu Almirante Americo Tomas - Angola | 27 de setembro de 2015 ·

(...) Alunos e professores no Liceu em Moçamedes — com Maria Almeida, Prof.Amélia V Pereira, Nela Mendes, Marieta Correia, Prof Neto, Nela Oliveira, Maria Paula Mendes, Margarida Veiga, Luisa Nascimento, Padre Menezes e Laura Victória Pereira. (Foto e legenda: reproduzidas com a devida vénia...)



Angola > Moçâmedes (hoje Namibe) > Página do Facebook  Moçâmedes a nossa amada cidade - Liceu Almirante Americo Tomas - Angola | 10 de novembro de 2015 ·

(...) De Angola até África do Sul. Fuga de muitos portugueses, em 1975, pelo deserto da costa dos Esqueletos, as dificuldades. (...) (Foto e legenda: reproduzidas com a devida vénia...)


 

1. Escreveu o António Rosinha em comentário ao poste P16812 (*):

(..) "A geração que fez a luta está em vias de extinção. Quer queira, quer não, vai acabar, mas o país não vai acabar. A estas novas gerações que lhes interessa o colonialismo, interessam-lhes é como vão sobreviver amanhã" (Júlio de Almeida) (...)"

(...) Quem nasceu no sul de Angola, que fosse branco, em 1940, pensava que em 1960  era facílimo fazer daquelas terras um paraíso, se o "colon", naquele caso o "caputo" ou "chicoronho", se voltasse para a sua terra e os deixasse a eles mandar naquilo.

Isto era a conversa de alguns, não muitos, embora naquelas regiões de Namibe (Moçâmedes) e Lubango (Sá da Bandeira) houvesse muita descendência de "chicronhos".


2. O que dizer "chicoronho" e "caputo", com referència aos habitantes (brancos) do sul de Angola, na época do colonialismo ? (**)

21. O que o Gemini IA / Google respondeu à minha pergunta:

O termo "chicoronho", aplicado aos habitantes brancos do sul de Angola na época do colonialismo, é uma corruptela da palavra umbundo "tchi-kolono".

Em umbundo, "tchi" é um artigo definido (semelhante a "o", "a", "os", "as" em português) e "kolono" significa "colono". Portanto, "tchi-kolono" significa "o colono".

Com o tempo e o uso informal, especialmente pela população local, esta expressão terá sofrido alterações fonéticas, resultando em "chicoronho".

Assim, "chicoronho" era uma forma como os habitantes locais, falantes de umbundo, se referiam aos colonos brancos na região do sul de Angola. É importante notar que, dependendo do contexto e da entonação, este termo podia ter uma conotação neutra, informal ou até mesmo ligeiramente depreciativa, marcando a distinção entre os colonizadores e a população nativa.

22. E sobre "caputo":

Em Angola, a palavra "caputo" era utilizada de forma depreciativa para se referir à autoridade administrativa portuguesa, ao chefe de posto ou a indivíduos brancos com poder ou autoridade, especialmente nas zonas rurais.

A origem mais provável do termo "caputo" deriva do quimbundo e de outras línguas bantu locais, a partir da junção de:

  • "Kapita": adaptação bantu da palavra portuguesa "capitão" ou "cabeça", significando guia ou líder.
  • "Putu": abreviação de "Portugal".

Assim, "caputo" pode ser interpretado como algo como "o chefe de Portugal" ou "a cabeça de Portugal", referindo-se à figura da autoridade colonial. O seu uso tinha frequentemente uma conotação de distância, estranheza ou mesmo antagonismo entre a população local e a administração colonial.

O comentário do António Rosinha ilustra bem o sentimento de alguns angolanos nativos em relação aos colonos brancos ("colon", "caputo" ou "chicronho") no sul de Angola por volta de 1960. A frase expressa a crença de que a região se tornaria um "paraíso" se os colonos regressassem às suas terras e permitissem que os próprios angolanos governassem.

O texto também confirma que nas regiões do Namibe (Moçâmedes) e Lubango (Sá da Bandeira) existia uma significativa população de descendentes de "chicronhos", ou seja, de colonos brancos.

Este excerto oferece uma perspetiva sobre as tensões e as diferentes visões sobre o futuro de Angola no período que antecedeu a Guerra Colonial. Reflete o desejo de autodeterminação por parte de alguns angolanos e a perceção de que a presença colonial era um obstáculo ao desenvolvimento do país.

(Revisão / fixação de texto: LG)

________________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 17 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26812: Agenda cultural (883): "Livros a Oeste, Festival do Leitor", 13ª edição: "Chegados Aqui Para onde Vamos ? " - Conversa com os escritores Miguel Szymanski, Júlio de Almeida (o antigo comandante do MPLA, "Juju") e Luís Reis Torgal... Sábado, 17 de maio, 17:00,

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Guiné 63/74 - P26408: Manuscrito(s) (Luís Graça): A gramática da vida (poema dedicado ao João, que hoje faz anos)





Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > Dezembro de 2009 > O Dr. João Graça, médico e músico,  ofereceu cinco dias (de 6 a 10 de Dezembro de 2009) das suas férias de quinze dias (de 5 a 19 do corrente), para trabalhar como médico no Centro de Saúde Materno-Infantil de Iemberém. Para além de Bissau e do Cantanhez, esteve também nos Bijagós, na zona leste (Bambadinca, Tabató, Bafatá, Contuboel e Gabu) e na região do Cacheu (São Domingos)

Aceitou, no regresso,  integrar a nossa Tabanca Grande e a publicar alguns apontamentos e fotos do seu diário de viagem.

Espantosa, a primeira foto de cima, em que o menino de Iemberém, a aprender a gramática da vida,  como que nos interpela, a todos, não só os pais-fundadores e os homens grandes da Guiné-Bissau mas também todos nós, portugueses, europeus e cidadãos do mundo... "Que lugar há para mim neste mundo que devia ser meu e teu, o nosso mundo, o único lugar que temos para nascer, crescer, viver e morrer com saúde, em liberdade, com dignidade, em paz ?"

Fotos (e legenda): © João Graça (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


A gramática da vida

Ao João, que  hoje faz anos

Contra o ponto (.) a vírgula (,)
Contra o ponto de exclamação (!) as reticências (…)
CONTRA OS TíTULOS DE CAIXA ALTA,
o ponto de interrogação (?).
Ou então abram alas, malta,
parênteses, curvos ( ) ou rectos [ ],
e parem só aos sinais de proibição.

... Por precaução.


E ao Não!, digam Não!, ponto de exclamação (!).
E aqui carreguem nos sinais de interjeição:
Ai! ei! ii! oi! ui!...

... Que, com a vida sem pica, a gente fica
sem palavras nem (lo)comoção!



Ao sinal verde, toca a arrancar e a marchar
contra os OOO da arrogância,
os UUU da flatulência,
os III da intolerância,
os EEE da estupidez,
os AAA da bravata e os RRR do arroto,
mais os ÇÇÇ do caraças da doença,
e, pior, os acen(t)os da demência.


Cuidado, ao final das escadas,
â direita,
o cano de esgoto,
não escorregar em contramão.

... Não há receita contra as gralhas e as calinadas,
e os atropelos à decência.



War is over, baby,
bela bajuda de mama firme,
tira fora o chapéu de abas largas
e atira flores aos que morreram,
em terra, no ar e no mar,
pelas causas que não têm deferimento.

... Não os deixes inumar
na vala comum do esquecimento!



Cuidado, camarada,músico do mundo,
trânsfuga, refractário, desertor,
prisioneiro, inimigo, comissário,
capelão, comandante, detrator,
miliciano, agente duplo, lavadeira,
escriturário, artilheiro, piloto,
grumete, xico, cadete, capitão,
crente ou ateu, tanto faz,
e olha o robô,
que, no fim da picada, podes ser cuspido, zás!,
pela força centrífuga do silvo da cobra cuspideira
que se mordeu a si própria.

... Mas, a sério, ninguém se magoou ?


Quanto ao macaréu, já não é o que era,
garantiram-te no Xime...
Deixaram assorear o Geba Estreito,
que crime!,
os administradores das águas fluviais
braços de mar, tarrafes e canais de irrigação
da liberdade criativa.

... Dizer que o trabalho é bom p'ró preto
já não é politicamente correcto. Corta.


Mas que importa,
se já nem vocês se afoitam, pessoal,
de peito feito, aberto,
contra os jagudis imperiais do Corubal
que comeram as últimas letras do alfabeto.

... Morreram todos, os cabras-machos!


Para que serve afinal a liberdade sem a poesia nem a "bianda" ?
Há que pôr os pontos nos ii,
no semáforo intermitente,
engraxar as botas,
brunir os colarinhos,
escovar o camuflado,
serrar fileiras e os dentes,
pensar na puta da vida,
e no povo, agora, murcho, calado e tolo,
e abrir aspas entre as falas em crioulo.

... Enquanto o corpo está quente e o sangue sai às golfadas.


Até o barqueiro, coitado, perdeu o k da kanoa,
varada no tarrafo do Mato Cão.
Sem o til.

... Levaram-no, ao pobre do til, para o canil de Lisboa.


Há agora um fantasma de um quarteleiro
à procura das estrias, frias, do morteiro...
Triste samurai, aquele, que não encontra o fio nu da espada,
E em vão procura o historiador o rumo da história.

... E, ai! do pobre (a)tirador,
aquele que se mata a (a)tirar
o acento circunflexo da bala na câmara.


Encontraste um 'djubi', numa escola do mato,
exercitando o seu estilo caligráfico,
em caderno de duas linhas,
de acordo com a norma do acordo pouco ortográfico.

... Oxalá, Insh'Allah, Enxalé!



Resta o humorista, o velhaco,
que é sempre o último a perder
os quatros humores,
já no fundo da pista onde acabam todas as peugadas:
sangue, pouco e fraco, diz o o doutor,
fleuma, de mal a piores,
bílis amarela, quanto baste,
e bílis negra, às carradas.

... Que o último a morrer,
nem sempre é o que morre melhor.


Que o que faz bem ao braço, faz mal ao baço
e já não há coração que aguente
a pressão hiperbárica do pulmão.
O fígado, esse, mesmo de aço e de inox,
é um passador crivado....

... De balas sem ética nem estética, diz o raio X.

Não sabes o que é que faz mais urticária,
ao tabanqueiro viril, que não arreda pé,
se a inveja do pobre em hidratos de carbono
ou a pesporrência do rico em sais minerais.
Resta a cruz de guerra
da guerra de mil e troca o passo, na Guiné,
e os seus heróis.

... Todos diferentes, todos iguais.

Quanto à vida, baby,
no fundo, é tudo tretas:
sangue, suor e lágrimas...
é quando se tem 20 anos,
força nas canetas,
e muito esperma para dar e vencer.
Agora já se não usam palavras com trema.

... Nem tu sabes o que fazer com este poema.


De qualquer modo,
quando a gente morrer,
que não seja por falta de imaginação,
ou de habit(u)ação,
ou de fim do prazo de validade,
que seja ao menos numa cama fofa,
de consoantes e vogais.
Sem travessão. E com piedade.

...E mais:
dispensemos a notícia nos jornais.


Luís Graça
© 2008 | Revisto em 21/1/2025

____________

Nota do editor: