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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28041: Fauna e flora (28): O "pis-cabalo", ou hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius): um futuro incerto: haverá, no máximo, umas 3 centenas na Guiné-Bissau




Guiné > Região do Cacheu > Có > 2ª CART /BART 6521/72 (Có, 1972/74) > s/d> "À falta de vaca, o hipopótamo avançou para o 'rancho' " (Ferreira, L. C., "Os Có Boys", ed. autor, s/l, 2025, pág. 82). Não sabemos se o animal foi caçado pela tropa ou por algum nativo.


Foto (e legenda): © Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Região do Oio > Farim > 1970 > "Quem não se acredita que não havia hipopótamos no rio Cacheu? Aqui está o malandro que dava cabo dos arrozais".


Foto do precioso álbum do Carlos Silva, ex-fur mil arm pes inf, CCaç 2548 / BCaç 2879 (Jumbembem, 1969/71).


Foto (e legenda): © Carlos Silva (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






Pis-Cabalo (em crioulo) ou hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius) > Um dos mamíferos protegidos na Guiné-Bissau. Não confundir com o hipopótamo-pigmeu, dado como extinto na Guiné-Bissau há 50 anos.


Fonte: Guia de Identificação dos Animais da Guiné-Bissau. República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Deparatmento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d. (Já não está disponível em formato pdf, no sítio do IBAP, fomos recuperá-lo através do Aqruivo.pt).https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf


https://arquivo.pt/wayback/20210821092643/https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf




1. Perguntam os nossos leitores: na Guiné-Bissau, ainda há hipótamos (Hippopotamus amphibius", pis-cabalo" em crioulo) ? Onde ? Quantos não ? Estado de conservação ?


Com base na pesquisa em várias ferramentas de IA e ontras fontes da Net (como artigos cientificos em "open access", além do nosso blogue), pudemos apurar o seguinte

Os hipopótamos da Guiné-Bissau constituem um caso zoológico e ecológico muito interessante. E mais: é relativamente pouco conhecido fora dos círculos dos conservacionistas, em geral, e dos guineenses e portugueses, em particular

Existem duas populações distintas:

  • a população “marinha” ou estuarina dos Bijagós / Orango (que ficou célebre por frequentar águas salgadas e braços de mar como a água doce, que continua a ser imprescindível para a sua sobrevivência);
  • as populações continentais, de água doce, ligadas às grandes bacias hidrográficas do interior: Cacheu e Corubal; 
  • são estas que, do ponto de vista biogeográfico, são as mais importantes, ou que, pelo menos, nós conhecemos, mesmo que pontualmenmte, nos anos da guerra (1961/74).

(i) Uma relíquia, o que resta no extremo ocidental de África

No passado, o hipopótamo-comum africano (Hippopotamus amphibius), uma distribuição muito mais ampla na África Ocidental. Hoje, as populações da Guiné-Bissau representam o extremo ocidental da distribuição da espécie.

As populações continentais vivem sobretudo no sistema do Rio Corubal; rio Cacheu; e, no passado, mas em menor grau, rio Geba e rio Manso, em bolanhas inundáveis, lagoas temporárias (“vendus”) e galerias ripícolas associadas.

O Corubal, em particular, é frequentemente descrito por biólogos como um dos últimos grandes rios relativamente “selvagens” da África Ocidental.

Mas teme-se que o PAIGC (que não tinha consciência ambiental), tenha dizimado o hipopótamo do Corubal. Do macaco-cão ao hipopótamo, a predação foi muito grande. Era preciso alimentar os guerrilheiros e a população sob o seu controlo. A crise alimentar no pós-independência agravou a situação.

Na altura, a conservação ambiental não era uma prioridade para o PAIGC ou para o governo pós-independência. A sobrevivência imediata e a reconstrução do país foram os focos principais.

Nos anos 90, con o aumento da consciência ambiental e a criação de áreas protegidas (como o Parque Nacional de Orango e o Parque Natural das Lagoas de Cufada), começou a haver um maior esforço para proteger a espécie, embora a caça ilegal ainda ocorresse, especialmente em zonas remotas.

Mas a desfloretação continuou. O caso do Cantanhez é um exempplo com a intensificação da e a exploração madeireira: em março de  2008, quando lá estive,  já se notava a exploração madeireira ilegal, muitas vezes direcionada para o mercado chinês, que tem um "apetite voraz"  por madeiras tropicais (como o pau-rosa ou ébano). A Guiné-Bissau não tem capacidade para controlar o corte e exportação de madeira, e grande parte da exploração é feita sem qualquer regulação ou sustentabilidade.

A China (e outros atores internacionais) tem sido um dos principais destinos da madeira guineense, com contratos opacos e extração em larga escala, que devastam as florestas primárias. Isso afeta não só a biodiversidade, mas também os ecossistemas que sustêm espécies como o hipopótamo, o chimpanzé ou o elefante.

(ii) Diferenças em relação aos hipopótamos de Orango

Os hipopótamos dos Bijagós (sobretudo de Parque Nacional de Orango) tornaram-se "mediáticos" e "turísticos" devido ao seu "comportamento adaptativo, sem sucedido":

  • utilizam braços de mar e canais salobros;
  • entram em águas costeiras;
  • deslocam-se entre ilhas;
  • alimentam-se em zonas intertidais.

Já os hipopótamos continentais mantêm um comportamento mais “clássico”:

  • dependem de rios permanentes (Cacheu, Corubal);
  • procuram poços profundos durante a estação seca;
  • usam corredores florestais e margens densas;
  • deslocam-se de noite para alimentação em savana húmida e bolanhas.

Mesmo assim, na Guiné-Bissau existe alguma plasticidade ecológica rara: certos grupos usam estuários e zonas de água parcialmente salobra, sobretudo no Cacheu.


(iii) O Corubal: bastião principal

Tudo indica que a principal população continental sobrevivente esteja hoje associada ao corredor ecológico do Corubal-Dulombi, no sudeste do país. Essa região ainda conserva, felizmente:

  • florestas-galeria;
  • savanas arborizadas;
  • zonas húmidas sazonais;
  • baixa densidade humana relativa.
Os estudos recentes com ADN ambiental (eDNA) confirmaram a presença de hipopótamos no Corubal e reforçaram a importância internacional daquela bacia hidrográfica para a conservação. Ali coexistem ainda:

  • manatins;
  • crocodilos;
  • chimpanzés;
  • antílopes raros;
  • numerosas aves aquáticas.

(iv) Estado de conservação

Globalmente, o hipopótamo comum está classificado como “Vulnerável” pela UICN/IUCN. Na Guiné-Bissau, a situação inspira preocupação séria, embora não seja ainda considerada catastrófica. Quais são as principais ameaças ?

  • conflito com agricultores: é a ameaça mais antiga; os hipopótamos:entram em bolanhas, destroem arrozais, podem atacar pessoas quando surpreendidos, etc.;
  • após a independência, houve muitos "abates de retaliação": só na região de Cacheu terão ocorrido dezenas entre 1975 e 1996:
  • cresente pessão humana , sob a forma de desflorestação das margens; expansão agrícola; pesca intensiva; ocupação das zonas húmidas; redes elétericas para progere os arrrozais;
  • fragmentação populacional, reduzindo a diversidade genética e aumentando a vulnerabilidade.da espécie: populações parecem hoje pequenas e isoladas entre si: Cacheu Corubal; zonas de Bissorã/Carantaba; Bijagós;
  • caça: embora protegidos legalmente desde os anos 1990, continuam a ser vítimas da caça furtiva; abate por conflito agrícola; uso de carne e partes do animal localmente, incluindo os dentes que são de marfim.
(v) Quantos restam?

Os números são muito incertos, o que é típico da África Ocidental. Estimativas frequentemente citadas apontava há 10 anos atrás para:

  • cerca de 135–150 nos Bijagós /Orango;
  • cerca de 50 no Cacheu;
  • 60–65 nas zonas de Bissorã e Carantaba.Para o Corubal, os dados continuam incompletos, mas pensa-se que alberga ainda (ou já albergou) uma das populações continentais mais importantes do país.

Provavelmente, o total nacional não ultrapassará as 3 centenas (no máximo) de indivíduos.
´
(vi) Importância simbólica e ecológica

Na Guiné-Bissau, o hipopótamo tem também dimensão cultural:surge em tradições bijagós;
é associado a tabancas e zonas sagradas; em certas regiões beneficia ainda de tabus tradicionais que limitaram a caça.

Ecologicamente, é um “engenheiro do ecossistema”: abre canais, fertiliza águas, influencia a vegetação ribeirinha; cria habitats para peixes e aves.

Mas o hipopótamo de Orango também enfrenta ameaças, provocadas nomeadamente pelas alterações climáticas. A subida do nível do mar e a erosão costeira reduzem e alteram os seus habitats. As alterações climáticas geram impactos diretos e severos no ecossistema único destes animais:

  • destruição do habitat: a subida do nível da água do mar aumenta a salinidade, provocando a erosão costeira e a destruição das zonas de mangal, essenciais para o abrigo e alimentação da subespécie;
  • escassez de água doce: com a intrusão salina nos lençóis freáticos, as lagoas de água doce (vital para os hipopótamos banharem-se e refrescarem-se durante o dia) secam ou tornam-se demasiado salgadas;
  • perturbação comportamental: estes animais desenvolveram uma adaptação única para tolerar a água salgada, transitando entre o mar e a terra; no entanto, fenómenos climáticos extremos alteram as marés e as correntes, dificultando as suas rotas diárias e a procura de vegetação;
  • pressões socioecológicas: as alterações climáticas também ameaçam as populações humanas locais, forçando-as a intensificar a pressão sobre os recursos hídricos e florestais, o que agrava a partilha de espaço e a perda do habitat natural dos hipopótamos.
Resumindo: a presença de hipopótamos no continente (fora dos Bijagós) é esporádica e localizada, com confirmação apenas para a zona de Cacheu. No Corubal, a presença é histórica, mas não há dados recentes que confirmem populações estáveis. Para Geba e Mansoa, não há registos atuais de presença significativa.

Conclusão: Um futuro incerto

A Guiné-Bissau é um microcosmo dos desafios da conservação em África: 

  • há leis e parques (no papel) mas a fiscalização é inexistente: não há guardas florestais em número suficiente, nem meios para patrulhar áreas vastas e remotas;
  • corrupção e interesses económicos: muitos responsáveis políticos e militares beneficiam da exploração ilegal (madeira, caça, mineração), o que torna a conservação um obstáculo aos seus interesses;
  • na prática, a sobrevivência humana é que dita a lei, sobrepondo-se  à proteção da natureza;
  • a par disso, as alterações climáticas estão a ter uma dramática erosão do sistema socioecológico, com consequências trágicas a longo prazo:
  • organizações como a IUCN ou o IBAP (Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas) tentam implementar programas, mas esbarram na falta de vontade política e na instabilidade crónica do paísno;
  • sem uma mudança estrutural (governança, educação ambiental, alternativas económicas para as comunidades), o homem e o animal selvagem continuarão em conflito direto, com a natureza a perder.
A sua sobrevivência depende, no fundo, da preservação dos grandes rios guineenses — sobretudo do Corubal, um verdadeiro corredor biológico entre o Fouta-Djalon e os estuários atlânticos. Um dia em que se fizer uma barragem no Corubal matam os hipótamos que restam (se é que ainda restam).


(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos
_________________________

Nota do editor LG

(*) ÚLtimo poste da série > 5 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27795: Fauna e flora (27): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - II (e última) Parte

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28015: S(C)em Comentários (89): Sem proteína não se faz a guerra... A propósito do hipopótamo (e do macaco-cão) que o PAIGC dizimou...


Guiné > Região de Cacheu  > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > 11 de dezembro de 1968 >  Um hipopótomo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A nossa tropa não caçava hipopótamos. O PAIGC, sim. Dizimou-nos no rio Corubal (durante a guerra e depois). A carne e a gordura (além do couro...) eram recursos importantes no mato... 

Não se faz a guerra sem proteína. A fome era negra (sem conotação racista)... Havia milhares de bocas a alimentar na bacia hidrográfica do rio Corubal... 

O macaco-cão (e, em menor grau, o hipopótamo) deveria ser considerado também "Herói da Liberdade da Pátria", talvez até com mais mérito do que outras figuras controversas do PAIGC. 

"Do nosso lado", só esporadicamente lá se caçava um hipótomo ou outro,  que fazia "asneiras" (invadia os campos de arroz, era uma autêntica "bulldozer"...). Os caçadores eram locais. A tropa quando muito podia ajudar a  "rebocar" o bicho... 

Um hipopótamo adulto pesa, em média, entre 1,3 a 1,8 toneladas, com os machos podendo atingir pesos superiores, frequentemente passando as 3 toneladas. Os machos mais velhos podem chegar a mais de 3,6 mil kg (havendo registos excecionais de até 4,5 mil kg).

Comparando com uma vaca dos fulas, da raça N'Dama (pesando em média 250 kg e dando 50 % de carne limpa), um hipopótamo médio (1,5 mil kg) equivalia a uma meia-dúzia de vacas, com a vantagem de também dar também muita gordura. O problema devia ser a sua conservação. A carne devia ser seca ao sol ou então defumada.

Temos fotos de hipótomos que apareceram mortos. Talvez por doença ou pesca com granadas de mão. No Cacheu (Vd. foto acima).

No Rio Geba, nunca os vi no meu tempo (em 1969/71). No rio Corubal ouvi-os á distância. 

Quanto ao hipopótamo-pigmeu (Choeropsis liberiensis) (**) é considerado extinto na Guiné-Bissau há cerca de 50 anos, com os últimos registos a remontarem ao final da década de 1950. Embora nativo da África Ocidental, a sua presença atual restringe-se à Serra Leoa, Guiné-Conacri, Costa do Marfim e Libéria, preferindo florestas densas. Não deve ultrapassar em média os 200 kg.

Luís Graça (***)

quarta-feira, 13 de maio de 2026 às 07:40:30 WEST
________________

Notas do editor LG:

,(*) Vd. poste de 11 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19278: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LV: O hipopótamo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu, precisamente há 50 anos

(Comentário de Virgílio Teixeira)

(...) Luís, há uns anos atras um condutor do meu batalhão, confidenciou-me, por isso não cito nomes, porque também não vi, mas acredito piamente, que um oficial superior do batalhão ia à pesca de madrugada, no rio São Domingos, afluente do Cacheu, lançava granadas ali bem perto do cais, e não faltava peixe. 

Um dia, num barco Zebro, com outros 2 condutores, teve uma sorte, ou azar, porque o barco onde iam a lançar as granadas, foi levantado ao ar por um hipopótamo. Salvaram-se todos e nunca mais foram, e os pormenores não interessam aqui, mas dá para perceber. 

Talvez este hipopótamo, frequente nestes rios, onde eu tantas vezes andei, tenha sido morto pelas tais granadas. Eu nunca vi um animal destes vivo, só este morto. Ponto. (...)

terça-feira, 11 de dezembro de 2018 às 22:54:00 WET

Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho


Guiné > Região do Cacheu >Có > 2ª CART /BART 6521/72 (Có, 1972/74) > s/d> "À falta de vaca, o hipopótamo avançou para o 'rancho' " (Ferreira, L. C., "Os Có Boys", ed. autor, s/l, 2025, pág. 82). Não sabemos se o animal foi caçado pela tropa ou por algum nativo.

Foto (e legenda): ©  Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Oeiras > Algés > Magnífica Tabanca da Linha > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Luís da Cruz Ferreira (o "Beatle") (Cascais),  autor do livro de memórias "Os Có Boys" (ed. autor, Cascais, 2025, 184 pp.), nosso grão-tabanqueiro nº 913, apadrinhado pelo Pinto Carvalho.
 
1. Retomamos hoje a nossa leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhos da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)

Faz parte da nossa Tabanca Grande desde 26/2/2026. Vive em Cascais.


Sinopse dos postes anteriores (*):

(i) o Luís, de alcunha o "Beatle", empregado de hotelaria e restauração, nascido na Benedita, Alcobaça;

(ii) é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972);

(iii) não tendo sido "repescado" para o CSM, tira a especialidade de 1º cabo aux enf, em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972);

(iv) parte para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972;

(v) no CIM de Bolama, faz a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional.

(vi) após a realização da IAO, a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308;

(vii) um mês depois, em 25Nov72, assumiria a responsabilidade do subsector de Có, ficando os "periquitos" entregues a si próprios.

(viii) a 2ª C/BART 6521/72 também teve que adotar um nome de guerra, neste caso "Os Có Boys"; a companhia dos "velhinhos", que eles foram render, a CCAÇ 3308, eram os "Jagunços de Có";

(ix) no último poste relatou a emboscada à coluna Teixeira Pinto - Pelundo - Có - João Landim - Bissau, ocorrida em 31/10/1972 (*).


2. Ainda na fase da sobreposição com os "velhinhos", a CCAÇ 3308, o "Beatle" tinha que sair para o mato, a mala de bolsa de enfermeiro e a G3, integrado num pelotão (geralmente iam dois), em patrulhamentos de reconhecimento do subsector de Có (contactos com a população, identificação dos trilhos e exploração dos pontos de maior risco, etc.)



(pág. 81)

Foi nessas saídas que o nosso "Beatle" viu hipopótamos, animais que não era fácil de avistar ao perto. Não crem0s que muitos dos nossos camaradas os tenham visto, dado o seu "habitat" e comportamento furtivo. 

As populações continentais, de água doce, estão ligadas às grandes bacias hidrográficas do interior ( Cacheu, Geba, Corubal, Mansoa, entre outras) e deslocam-se sobretudo de noite para alimentação em savana húmida e bolanhas. Já os de Orango, nos Bijagós, da mesma espécie, que vivem também em água salgada, têm um comportamento adapativo.

Nas zonas dos grandes rios ( Cacheu, Mansoa, Geba, Corubal ) os hipopótamos sempre tiveram uma relação ambígua com as populações locais: animal respeitado ("sagrado", nos Bijagós, na ilha de Orango), por vezes temido, também é fonte ocasional de carne, gordura e couro. 

Em tempos de escassez, um único hipopótamo podia alimentar uma tabanca inteira durante vários dias.

Quanto ao sabor, os testemunhos de caçadores, viajantes e populações africanas de várias regiões costumam descrevê-lo assim: (i) carne escura, vermelha, muito densa; (ii) textura firme, entre vaca brava e búfalo; (iii) sabor forte, “selvagem”, mas menos intenso do que o da caça grossa africana; (iv) para alguns, seria uma mistura de vaca e javali; (v) a gordura é apreciada em certos locais, mas pode ter um cheiro intenso; (vi) a carne dos animais mais velhos tende a ser dura, exigindo cozedura longa ou fumagem (em África, muitas vezes é seca ao sol ou fumada para conservação).

Na época colonial, alguns "tugas" consideravam a  carne de hipopótamo como “boa para estufados” e “muito nutritiva”, embora não fosse propriamente um produto "gourmet".  

Hoje, porém, o consumo está muito mais condicionado,  por diversas razões: (i) o hipopótamo está legalmente protegido; (ii) há uma dominuição drática das população (outrora muito abundante na África Ocidental, as populações de hipopótamios da Guiné-Bissau representam atualmente o extremo ocidental da distribuição da espécie); (iii) continua a haver a pressão da caça furtiva; (iv) há cada vez mais riscos sanitários ligados ao consumo de carne selvagem, sob controlo veterinário; (v) os parques naturais, como o dos Tarrafes do Rio Cacheu e o de Orango, tentam preservar a espécie.

Curiosamente, na tradição bijagó, sobretudo em Orango, os hipopótamos têm também uma dimensão simbólica e espiritual muito forte, o que limita ou proíbe a caça em certas comunidades. Já no continente, a relação foi historicamente mais pragmática.


Mas voltando às memórias do Luís da Cruz Ferreira, depreende-se da sua leitura que as relações da tropa com a população local (de etnia predominantemente mancanha), parece que eram boas, apesar de algumas famílias terem "parentes no mato". 

(pág. 83)


Embora a zona não fosse das de maior risco ("em termos da atividade da guerrilha", pág. 84),a caça era relativamente abundante. Os caçadores de Có, nomeadamente mancanhas e que pertenciam também à milícia, saíam, com a  devida autorização, para caçar com a velha Mauser. Eram eles que forneciam a caça para o quartel: "Gazelas, javalis e cabras eram estas as espécies que os caçadores com mais frequência faziam chegar até nós" (pág. 84).

(Continua)

Pesquisa: LG + Net + IA (ChatGPT/OpenAi)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG) 

Fonte: Excertos de Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, pp. 81-82 (**)
______________


(**) Último poste da série > 11 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28010: Notas de leitura (1921): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (7) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26167: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (41): viagem de fim de semana, de Bissau a Varela, 175 km, 5h30, atravessando o rio Cacheu - Parte I: São Domingos e Susana



Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 17 de novembro de 2024 > Pegadas recentes de um hipopótamo, junto da ponte... Como não conseguem passar na manilhas da nova ponte no rio, tem que passar ao lado. Nos afluentes do Cacheu existem muitos hipopótamos.




Foto nº 2 e 2A > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 17 de novembro de 2024 >Pescadores felupes, de arco e flecha, que até agora é prática normal,no rio a Este de Susana.




Foto nº 3 e 3A > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > Ponte entre Susana e Cassolol. A antiga era de madeira. Os Russos construíram uma de betão para passar as areias pesadas extraídas de Varela.




Foto nº 4 e 4A > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 >S.Domingos: Residência do Presidente do sector



Foto nº 5 e 5A> Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > Porto de S. Domingos atual


Foto nº 6 > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > Rio Cacheu: porto-cais de S.Domingos. onde há alguns anos atracavam navios de mercadorias e transporte de passageiros, para a cidade de Cacheu



Foto nº 7 e 7A > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > São Domingos: avenida entre o porto e o centro da cidade


Foto nº 8 > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > Rio Cacheu: água salgada, maré cheia



Foto nº 9 e 9A > Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Viagem de fim de semana Bissau-Varela-Bissau > 15 de novembro de 2024 > Arroz novo, do "pampam". Junto ao Rio Cacheu.


Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1.Mensagem do Patrício Ribeiro, nosso colaborador permanente. 

O Patrício tem já  perto de 170 referências e não precisa de mais apresentações. É autor da série "Bom dia desde Bissau" (iniciada em 3 de abril de 2017).    É um histórico da Tabanca Grande (está aquidesde 1 de junho de 2006)...


Data - domingo, 17/11/2024, 22:41
Assunto - Viagem de fim de semana até Varela

Luís, junto umas fotos, deste fim de semana em viagem até Varela. 

Nesta época do ano está tudo muito verde, porque as chuvas terminaram há pouco tempo. O passeio é bonito, podemos encontrar no caminho muitas iguanas com mais de um metro de compriment0...

Foi um passeio de 5,30h para cada lado (!), para ir limpar o capim e visitar / arejar a casa do "homem grande" em Varela.

Abraço, Patrício.


2. Comentário do editor LG:

Patrícío, obrigado. Já agora confirma: partiste de Bissau, passaste por Safim, Bula, São Vicente (nova ponte sobre o rio Cacheu, construída por uma empresa portuguesa e financiada pela União Europeia), Ingoré, São Dominmgos, Cassolol, Susana e Varela. São 175 km,  quatro horas, diz-me o Google.  Parece não haver outro caminho...

Vou apresentar as fotos não exatamente pela ordem que me mandaste. Umas são da ida (15 de novembro, sexta) e outras do regresso (17 de novembro, domingo). Na Parte I, as fotos que tiraste, vindo de Bissau até São Domingos e Susana, e a Parte II, em Varela, onde foste arejar a tua "datcha", capinar e pescar... (Tenho que fazer render o peixe que está caro.)
______________

Nota do editor:

Último poste da série > 11 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26140: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (40): No porto-cais de Quinhamel, comendo umas ostras de tarrafe (entrada) e uma bentana grelhada (prato de peixe) no restaurante do Ti Aníbal, ao som da música dos "catchus" e na companhia de um camarada "jadudi"...

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Guiné 61/74 - P24623: Fauna e flora (23): o hipopótamo-comum, pis-cabalo em crioulo (Hippopotamus amphibius) apanhado nas bolanhas de Farim (Carlos Silva, ex-fur mil arm pes inf, CCaç 2548 / BCaç 2879, Jumbembem, 1969/71)


Guiné : Região do Oio > Farim > 1970 > "Quem não se acredita que não havia hipopótamos no rio Cacheu? Aqui está o malandro que dava cabo dos arrozais". Foto do precioso álbum do Carlos Silva, ex-fur mil arm pes inf,  CCaç 2548 / BCaç 2879 (Jumbembem, 1969/71).(*)

Foto (e legenda): © Carlos Silva  (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 

Pis-Cabalo (em crioulo) ou hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius) > Um dos mamíferos protegidos na Guiné-Bissau. Não confundir com o hipopótamo-pigmeu, dado como extinto na Guiné-Bissau há 50 anos (**). 

Fonte: Guia de Identificação dos Animais da Guiné-Bissau. República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Deparatmento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d. (Já não está disponível em formato pdf, no sítio do IBAP,  fomos recuperá-lo através do Aqruivo.pt).

https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf


Temos uma série dedicada à "Fauna e flora", em especial da  Guiné-Bissau. Esperamos mais contributos dos nossos amigos e camaradas da Guiné que fazem também deste blogue uma importante fonte de informação e conhecimento  (***).
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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19278: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LV: O hipopótamo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu, precisamente há 50 anos



Foto nº 1


 
Foto nº 2


Foto nº 3

Guiné > Região de Cacheu  > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > 11 de dezembro de 1968: o hipopótomo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu


Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) (*)


CTIG - Guiné 1967/69 - Álbum de Temas: 

T006 – UM HIPOPOTAMO EM SÃO DOMINGOS




I - Anotações e Introdução ao tema:

Um dia de Dezembro de 1968, mais propriamente no dia 11 de Dezembro, há 50 anos, apareceu no Rio São Domingos, que banha a povoação com o mesmo nome, um enorme hipopótamo que deu à costa, isto é, veio parar ao nosso pequeno cais.

Todo o mundo se deslocou para ver a novidade, e não foi caso para menos, para mim, eu nunca tinha visto semelhante bicho, já morto e em estado de putrefacção.

O animal depois de feitas todas as vistorias que o assunto merecia, foi então carregado para uma GMC, ou então já nem me lembro bem, se foi mesmo arrastado pelo chão fora, e depois das cerimónias fúnebres compatíveis foi a enterrar em terrenos adjacentes ao nosso acampamento.

Ficou um cheiro nauseabundo, pois ainda lá ficou 1 ou 2 dias, não se sabendo a origem da morte, não foi esquartejado em peças e dividido pelas populações para consumo interno, matava a fome a muita gente, incluindo a tropa.

Ainda hoje, jaz lá no sítio a sua sepultura, sem direito a flores nem honras militares. Um episódio no mínimo curioso para todos, e para mim também.


II - Legendas das fotos:


F01 – O animal de costas e focinho para a frente, no cais de São Domingos no dia 11 de Dezembro de 1968;

F02 – O bicho virado ao contrário a ser preparado com cordas para o seu transporte, provavelmente no mesmo dia da sua ‘aparição’.

F03 – A GMC pronta para carregar, ou arrastar o enorme bicharoco, também no mesmo dia.
Em pé lá atrás em cima da GMC, eu e o alferes Figueiredo do Pel Rec, em 11Dez68.

«Propriedade, Autoria, Reserva e Direitos, de Virgílio Teixeira, Ex-alferes Miliciano SAM – Chefe do Conselho Administrativo do BCAÇ1933 / RI15/Tomar, Guiné 67/69, Nova Lamego, Bissau e São Domingos, de 21SET67 a 04AGO69».

NOTA FINAL DO AUTOR:

# As legendas das fotos em cada um dos Temas dos meus álbuns, não são factos cientificamente históricos, por isso podem conter inexactidões, omissões e erros, até grosseiros. Podem ocorrer datas não coincidentes com cada foto, motivos descritos não exactos, locais indicados diferentes do real, acontecimentos e factos não totalmente certos, e outros lapsos não premeditados. Os relatos estão a ser feitos, 50 anos depois dos acontecimentos, com material esquecido no baú das memórias passadas, e o autor baseia-se essencialmente na sua ainda razoável capacidade de memória, em especial a memória visual, mas também com recurso a outras ajudas como a História da Unidade do seu Batalhão, e demais documentos escritos em seu poder. Estas fotos são legendadas de acordo com aquilo que sei, ou julgo que sei, daquilo que presenciei com os meus olhos, e as minhas opiniões, longe de serem ‘Juízos de Valor’ são o meu olhar sobre os acontecimentos, e a forma peculiar de me exprimir. Nada mais. #

Acabadas de Re-legendar, hoje, com as devidas alterações
Em, 2018-12-10

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16966: Memória dos lugares (357): Ilha de Orango, uma pérola do arquipélago dos Bijagós, num dos sítios mais ameaçados do mundo, devido às alterações climáticas (Foto e legendas: Patrício Ribeiro, Bissau)


Foto nº 1 >  Rio para Anor... e riquíssima avifauna da ilha


Foto nº 2 > Rio para Anor


Foto nº 3 > Vedação para hipopótamos de água salgada, animais que são sagrados para os bijagós... É uma espécie única no mundo


Foto nº 4 > Transporte de um gerador para o hotel


Foto nº 5 >Bar do hotel 


Foto nº 6 > O "repouso do guerreiro!...

Guiné -Bissau  > Região de Bolama / Bijagós > Ilha de Orango >  Hotel de Orango > 6-7 de outubro de 2008 >Viagem pelos hotéis do mato: o Orango Parque Hotel, em  pleno Parque Nacional de Orango  um  projeto de ecoturismo [Ver aqui a excelente página na Net, do hotel, lamentavelmente "apenas" em espanhol e inglês]

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro  (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Poucos (ou nenhum de nós) terão ido à(s) ilha(s) de Orango, no tempo da guerra colonial. Nem sequer a Bubaque, mais conhecida do turista... Orango é a ilha mais afastada do continente, e só a viagem é uma aventura...

As praias do arquipélago dos Bijagós eram só para alguns, privilegiados... O Patrício Ribeiro é "o último dos tugas" na Guiné-Bissau, que por razões sentimentais e profissionais lá vive há 3 décadas... Tem a sabedoria dos "africanistas", sabendo conciliar trabalho e lazer ou, como a gente dizia no nosso tempo, "serviço e conhaque"...

Recorde-se que ele é sócio e diretor técnico da Impar Lda, a empresa que tem levado a energia elétrica, produzida por equipamentos fotovoltaicos, aos mais recônditos sítios da Guiné-Bissau... E este é mesmo um sítio recôndito, de difícil acesso, mas deslumbrante. Uma sugestão para  a tal "viagem da minha vida" que alguns de nós gostariam de poder fazer antes de morrer... [Vd. aqui mais fotos de Orango no Google Imagens.]

Estas fotos de Orango resultam dessas andanças do "pai dos tugas" (como ele é carinhosamente conhecido em Bissau)... Andavam por aqui "adormecidas" nas nossas bases de dados.

Lembremos, entretanto, que a Guiné-Bissau está em segundo lugar na lista dos 10 países mais vulneráveis do mundo, devido às mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global do planeta... A seguir ao Bangladesh e antes da Serra Leoa... Seis desses dez países são africanos... A Guiné-Bissau pode mesmo vir a ser riscada do mapa... num futuro não muito distante... (LG)


Mapa da região de Bolama / Bijagós. Cortesia da Wikipédia. Orango é a mais distante das ilhas.


2. Comentário de hoje,  do Patrício Ribeiro,  a estas fotos com mais de oito anos, a pedido do editor [, o nosso camarada encontra-se ainda em Portugal onde veio passar a quadra festival, em Lisboa; está agora na sua terra natal, Águeda, onde foi  fazer "as podas de janeiro",  estando em vésperas de regressar ao trabalho no fim do mês: está  previsto um almoço de despedida, com os amigos "tugas", no restaurante do costume , em Alcântara];


 Já lá vão alguns anos, desde estas fotos agora editadas.

Iniciei os meus passeios pelas diversas ilhas de Orango em 1995, para ajudar na construção do Parque Natural de Orango, PNO.

É um  local de difícil acesso, a 100 km de Bissau. O transporte faz-se durante 7 horas sem paragem, nas canoas nhomincas, pelo mar.

Uma das minhas maiores surpresas  foi como as pessoas falavam português comigo. Por toda a Guiné-Bissau, é o local onde melhor falam português. Talvez seja porque no dia a dia, só falam o Bijagó, utilizando pouco o crioulo. Ou porque na escola de Iticoga, com mais de 200 alunos, os professores pratiquem o ensino em Português.

A tabanca de Eticoga, é a maior dos Bijagós, tem mais de 100 casas, tem aeroporto, (quando o mato está cortado), uma Casa Museu da Rainha Pampa, Centro de Saúde e a sede do PNO.

Nestes meus anos de viagens, muitas vezes com lama até à cintura, já dormi muitos meses nas ilhas de Orango, a maior parte das vezes, na minha tenda junto a uma praia. E algumas vezes no Hotel Parque de Orango, construído por um amigo em 1998. Um local lindo, de sonho.

Claro que também dormi com os hipopótamos por perto, foi necessário fazer fogueiras para os afastar, na tabanca de Anor e no mato da ilha Orangozinho, com os crocodilos em Imbone, etc. etc.

E agora com zero graus, à lareira na minha tabanca [de Águeda], à espera de regressar a estes lugares quentes .

quarta-feira, 25 de março de 2015

Guiné 63/734 - P14407: História da CART 3494 (5): O DESTACAMENTO DA PONTE DO RIO UDUNDUMA. - Hipopótamo do Corubal emboscado no Udunduma (Jorge Araújo)


1. Mensagem do nosso camarada Jorge Araújo (ex-Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494, Xime e Mansambo, 1972/1974), com data de 6 de Fevereiro de 2015: 

Caríssimos Camaradas

Os meus melhores cumprimentos.

A presente narrativa fez-nos regressar ao meu tempo de residente no Destacamento da Ponte do Rio Udunduma, recuperando as memórias e as imagens de uma das muitas ocorrências que aí contabilizámos durante o 2.º semestre de 1973, as quais estão já a uma distância temporal de quarenta e dois anos.

Trata-se de um episódio pouco vulgar naquele contexto, envolvendo um mamífero artiodátilo [hipopótamo] que, por ter ousado invadir território proibido, naquele dia de OUT1973, foi emboscado… e morreu.

O DESTACAMENTO DA PONTE DO RIO UDUNDUMA
- Hipopótamo do Corubal emboscado no Udunduma -

1. - INTRODUÇÃO

Com as rotações entre a CART 3494, a CCAÇ 12 e a CART 3493, ocorridas nos primeiros dias de Março de 1973, os cenários, os contextos e as missões destes diferentes contingentes militares passaram a ser bem diferentes dos [as] vividos [as]. 

Enquanto a CCAÇ 12, sediada em Bambadinca, foi colocada no Aquartelamento do Xime, por troca com a CART 3494, esta passou a ocupar o Aquartelamento de Mansambo, onde se manteve até ao final da sua comissão [8 de Março de 1974], por efeito da CART 3493, aí instalada desde Janeiro de 1972, ter sido transferida para Cobumba, Região de Tombali, Território do Cantanhez, deixando de estar sob a jurisdição da sua unidade mãe – o BART 3873.

Como consequência de todas estas mudanças, e recuperado o que já deixei expresso nas narrativas anteriores [P12565 + P12586 + P12734], fui contemplado com a missão especial de comandar uma secção do meu GComb [o 1.º], num total de doze elementos, com o objectivo de proteger a [s] Ponte [s] do Rio Udunduma, actividade que registava já, à data, quatro anos, e por isso se chamar de «Destacamento da Ponte», local situado a quatro kms. de Bambadinca, na estrada Bambadinca-Xime.

Porque as condições aí existentes, quer logísticas quer físicas, eram incrivelmente pouco dignas e degradantes, como podem ser confirmadas através da descrição e visionamento das imagens já publicadas nos postes acima referidos, as recordações desse local são muitas e variadas, não se esgotando num simples texto, uma vez que aí permanecemos os últimos seis meses do ano de 1973, ou seja, fará brevemente quarenta e dois anos.

Já vos contei anteriormente algumas das acções especiais [desafios permanentes de superação] desenvolvidas durante esse 2.º semestre de 1973, assim como os contrastes do mesmo cenário. Agora, volto à vossa presença com os mesmos propósitos de sempre, o de fazer história escrevendo sobre o quotidiano da nossa passagem pelo CTIG, mesmo que o objecto [assunto] não esteja intrinsecamente relacionado com o confronto militar.

Aproveitando mais algumas fotos de diferentes espaços desse contexto e adicionadas as outras relacionadas com a ocorrência em referência [OUT1973], nada expectável de vir a acontecer por ali, permitiu-me estruturar este texto passando para o papel os principais factos narrados oralmente por quem a presenciou, uma vez que nesse dia me encontrava ausente do local. 

Como o subtítulo acima referido faz supor, iremos contar a história macabra sobre um hipopótamo adolescente que foi emboscado no Rio Udunduma e que não conseguiu escapar com vida. Identificámo-lo como sendo oriundo do Corubal, numa lógica de proximidade, mas nada nos garante que assim seja, uma vez que os dois principais habitat de hipopótamos da Guiné-Bissau [hippopotamus amphibius, nome científico], estão identificados como sendo na Ilha de Orango, no Arquipélago dos Bijagós, e no Parque Natural das Lagoas de Cufada, na região de Buba.

Sobre estes dois espaços onde vivem e se desenvolvem os hipopótamos da Guiné-Bissau, citaremos alguns apontamentos encontrados na nossa investigação na área das actividades de ecoturismo e biodiversidade, seguindo por correio interno os respectivos originais para leitura mais aprofundada, não deixando de os referir na altura própria [com a devida vénia aos seus autores].

2. - O DESTACAMENTO DA PONTE

As fotos que seguem têm por objectivo identificar os principais pontos da nossa missão, ajudando a circunscrever o contexto onde a acção se desenvolveu. 





3. - O LOCAL DA EMBOSCADA AO HIPOPÓTAMO 






4. - O HIPOPÓTAMO

Hipopótamo é o nome genérico um mamífero ungulado de grande porte pertencente à família Hippopotamidae. É um mamífero artiodátilo [que possui um número par de cascos (ou dedos) nas extremidades dos membros 

anteriores e posteriores], próprio de África, de pele muito grossa e nua, patas e cauda curtas, cabeça muito grande e truncada num focinho largo e arredondado.

Estes animais vivem geralmente próximo de rios, onde passam grande parte do seu tempo imersos. Têm uma pele sensível à luz solar. Os hipopótamos são herbívoros e alimentam-se durante a noite da vegetação existente nas margens dos rios que habitam, mas há indícios de canibalismo de machos adultos com filhotes.

Os hipopótamos são preguiçosos em terra, mas podem atingir velocidades de 50 km/hora. Na água são rápidos e mostram diversas adaptações na sua existência, na maior parte aquática, inclusive orelhas e narinas que podem fechar-se e uma secreção da pele que funciona como protector solar, anticéptico e antibacteriano. A sua pele é muito sensível a queimaduras solares e, para se proteger, segrega uma substância de cor vermelha que ao longe pode ser confundida com sangue. 

5. - O HIPOPÓTAMO NA GUINÉ-BISSAU [no presente]


5.1 - NA REGIÃO DE CUFADA - BUBA

As LAGOAS DE CUFADA estão classificadas como «zona húmida de importância internacional», tendo a Guiné-Bissau aderido à Convenção de RAMSAR e, em sequência, criado um regime legal de protecção dos ecossistemas locais. O Instituto de Conservação da Natureza, juntamente com outras entidades portuguesas, participou na preparação e realização do projecto do parque.

A Convenção de RAMSAR é um tratado intergovernamental que estabelece marcos para ações nacionais e para a cooperação entre países com o objectivo de promover a conservação e o uso racional de zonas húmidas no mundo. Essas acções estão fundamentadas no reconhecimento, pelos países signatários da Convenção, da importância ecológica e do valor social, económico, cultural, científico e recreativo de tais áreas.

Estabelecida em Fevereiro de 1971, na cidade iraniana com o mesmo nome, a Convenção de Ramsar está em vigor desde 21 de Dezembro de 1975, e o seu tempo de vigência é indeterminado. No âmbito da Convenção, os países membros são denominados "partes contratantes". Até Janeiro de 2010, a Convenção contabilizava 159 adesões.

Quanto ao PARQUE NATURAL DAS LAGOAS DE CUFADA, este abrange uma área de noventa mil hectares, na qual está inserida uma comunidade de cerca de três mil pessoas distribuídas por trinta e três tabancas. Os passeios pelas lagoas permitem a observação de várias espécies de aves, residentes ou migradoras, como flamingos, pelicanos e tucanos. Entre a fauna aquática abundam mamíferos como hipopótamos, manatins e crocodilos. Em terra, ocasionalmente, podem ser vistas gazelas, porcos do mato e antílopes.

5.2 - NO PARQUE NACIONAL DE ORANGO - BIJAGÓS

O PARQUE NACIONAL DE ORANGO ou o Parque Natural das Ilhas de Orango está situado na parte sul do Arquipélago dos Bijagós [ver mapa], ocupando uma superfície de 1582,35 km2 e compreende 3 ilhas principais: Orango, Orangozinho e Atanhible. A profundidade do sector marinho não ultrapassa os 30 metros. A biodiversidade da fauna, particularmente no sul do parque, compreende populações de hipopótamos (Hipoppotamus amphibius), onde se pode observar os únicos hipopótamos que vivem em água salgada, e de crocodilos (Crocodylus niloticus e C. tetraspis). O parque é frequentado por 5 espécies de tartarugas-marinhas: tartaruga-verde (Chelonia mydas), tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea), tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) e tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea). De entre os mamíferos destacam-se também a gazela-pintada (Tragelaphus scriptus), o macaco-verde (Cercopithecus aethiops) e, na parte marinha, lontra (Aonyx capensis), manatim (Trichechus senegalensis) e golfinhos (Sousa teuszii e Tursiops truncatus).

Por outro lado, o Arquipélago dos Bijagós, constituído por um conjunto de oitenta e oito ilhas e ilhéus espalhados no Oceano Atlântico, em que um quarto desses espaços de terra não estão habitados, foi declarado Reserva Mundial da Biosfera, em 16 de Abril de 1996.

Em reportagem realizada em Dec2012 por Fernando Peixoto, jornalista da Agência Lusa, este refere no título da peça que «Orango, na Guiné-Bissau, é a ilha dos hipopótamos especiais».

Continua, afirmando que “a Ilha de Orango, na Guiné-Bissau, tem hipopótamos únicos no mundo e que "salvam" vidas. Por causa deles, a ilha tem uma lancha rápida para levar doentes, escolas e centros de saúde arranjados e a funcionar, graças à construção do ORANGO PARQUE HOTEL, onde os lucros revertem para melhorias na ilha, com o envolvimento e aplauso da comunidade.

Hoje, os hipopótamos dos Bijagós precisam de água doce para beber, mas muitos deles vivem permanentemente na água salgada, o que os faz únicos no mundo. "Há dias estávamos na Ilha de Unhocomozinho e vimos chegar um [vindo do mar]. As pessoas fizeram-no fugir sendo visto depois na ilha de Unhocomo".

Por outro lado, a coordenadora do Seguimento das Espécies e dos Habitat, do Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP) da Guiné-Bissau, Aissa Regala, avança que em Janeiro de 2013 será iniciada em Orango uma nova contagem de hipopótamos. A espécie vive também em rios e lagoas do continente, lembra, acrescentando que na zona de Cacheu [norte] vão ser vedados campos de arroz por causa dos animais. Em Orango a proteção das bolanhas [campos de arroz] com cercas eléctricas para evitar a intrusão dos hipopótamos foi um sucesso e a produção quase duplicou.

Como refere o guia Belmiro Lopes, o hipopótamo é um "animal emblemático", que surge nas pinturas e nas danças dos Bijagós; e que em 2011 quase mil pessoas visitaram a ilha para ver os animais. Porém, esses mesmos animais destruíam os campos de arroz, provocando a ira das populações.

Nota: este tema foi já aflorado no P10.854.

Outras fontes:

- http://sustainabledevelopment.un.org/content/documents/977guineabissau.pdf.

- Arquipélago dos Bijagós - Guiné-Bissau O modo... - Rituais.

- RDP África - Hipopótamos únicos no mundo "salvam" vidas em Orango, na Guiné Bissau.

- http://noticias.sapo.mz/lusa/artigo/15431686/html

Termino, enviando a todos os tertulianos um forte abraço.
Jorge Araújo.
Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494
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Nota de M.R.: 

Vd. Também o último poste desta série em: