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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28256: Facebook...ando (98): O jagudi de Galomaro ... e a gaivota da Foz do Douro (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)

 



O jagudi (Necrosyrtes monachus) e a gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis) 
(a mais comum em Portugal e a que se adaptou melhor à presença humana: há um programa em curso,  nos municípios costeiros da área metropolitana do Porto para controlar o crescimento populacional desta espécie de gaivotas)

Fonte: Wikipedia (com a devida vénia)


1. Há pequenas histórias do nosso quotidiano que não precisam de grandes feitos de guerra para merecer ser recordadas. Basta-lhes uma situação algo insólita, uma boa dose de humor q.b. e, sobretudo, alguém que a tenha vivido e não a tenha esquecido, ao fim de mais de meio século.

É o caso desta memória do António Tavares (ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912, Galomaro, 1970/72), que começa com um jagudi empoleirado numa árvore, à espera dos restos da matança de um vitelo, e acaba... com uma gaivota da Foz do Douro, Porto.

Duas aves, dois cenários muito diferentes (a savana arbustiva da Guiné e a paisagem marítima da Foz do Douro, no Porto, a 4 mil quilómetros de distância), mas com alguns comportamentos surpreendentemente semelhantes. Uma e outra sabem muito bem onde encontrar comida e, quando calha, também "gostam de pregar partidas" aos humanos...

O texto foi publicado na página do Facebook da Tabanca Grande (5 de agosto de 2026, 12:23 pelo António Tavares (que tem também página pessoal no Facebook).

É justamente para isso que serve esta série “Facebook...ando”: trazer para o blogue pequenos apontamentos, memórias, histórias e reflexões dos nossos camaradas, para que não se percam no imenso arquivo, do Facebook, que é como o mercado de Bandim ou a feira da Ladra de Lisboa: podem lá encontras-se no meio das velharias e de "muito lixo", coisas úteis e até preciosidades.

Aqui fica, portanto, o jagudi de Galomaro e a gaivota da Foz do Douro. Duas aves , de espécies diferentes, uma terrestre e necrófaga (Necrosyrtes monachus), outra marinha, omnívara
 (Larus michahellis)  que de algum modo fazem o seu papel de "almeidas", e que se acomodam bem ao "lixo" dos humanos...

São, sobretudo, dois bons pretextos para a gente recordar e sorrir... Já que, como diz o autor, recordar é viver!

O jagudi (título do texto original) não é apenas uma ave. Era um elemento muito concreto da paisagem guineense do nosso tempo e da experiência dos vagomestres e dos cozinheiros dos nossos quartéis, ligada à matança do gado e à gestão dos resíduos (numa época em que ainda não havia consciência ecológica nem separação, recolha e tratamento dos lixos; quando muito, faziam-se fogueiras em bidões). 

Isso torna a memória mais interessante, para os nossos leitores, amigos e camaradas da Guiné, d o que uma simples anedota sobre um pássaro que "cagou" em cima da farda do vagomestre. É um pequeno apontamento etnográfico do nosso quotidiano, involuntariamente muito saboroso.

O jagudi de Galomaro e a gaivota da Foz do Douro

por António Tavares


Como é sabido o jagudi é um abutre africano,  de bico grande e recurvado, pescoço nu,  de coloração rosada ou esbranquiçada, e plumagem escura.
 
Eu tenho uma recordação negativa dos jagudis.
 
Certo dia de 1970 (ou de 1972 ?) fui "presenteado" pelos intestinos de um. A ave estava no galho de uma árvore situada numa ladeira perto da residência do chefe de posto de Galomaro.

Aguardava os restos da matança do vitelo que estava a decorrer e defecou em cima do meu ombro e fardamento.

A farda depois de lavada ainda cheirou a fezes durante uns dias.

Os dois ajudantes do fula João Baker matavam os bovinos. O Baker comerciava a carne com o vagomestre.

Na Foz do Douro, não temos jagudis mas temos... gaivotas a grasnar, infestando praias, ruas, telhados, jardins e contentores do lixo.

No Inverno por vezes em bando atacam as pessoas que passeiam nas praias. Os turistas adoram-nas, mas nas esplanadas roubam a comida dos mais incautos.

É uma ave bonita, mas causa prejuízos aos habitantes ribeirinhos. Volta e meia também brindam os passantes (e os carros) com os seus cáusticos dejetos.

Presentemente o adágio “Gaivotas em terra, tempestade no mar” está ultrapassado. Vê-se mais gaivotas em terra do que no mar.

Enfim, recordar é viver!

(Seleção, adaptaçáo, revisão / fixação de texto, título: LG)

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Nota do editor LG:

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28231: Humor de caserna (286): Os frangos do vagomestre: uma BD inspirada num microconto do Alberto Branquinho (2013)


Os Frangos do Vagomestre

Uma BD inspirada num microconto
 do Alberto Branquinho (2013)



... Que o essencial dos reabastectmentos vinha de barco ou em coluna logística, uma ou duas vezes por mês, conforme a estação do ano ou as necessidades!









... Oh!, homem, come e cala, que amanhã podes perder o  apetite!







... E quem disse que não havia já "chefs" de cozinha,  arrojados, criativos, precursores da comida gourmet, capazes de apresentar pratos  exóticos, fazendo das tripas coração e valendo-se dos recursos locais (como o lagarto, o jagudi, o macaco-cão, a píton africana / irã-cego,  ou  o leitão do balanta passado a ferro pelo Unimog, etc.) para fazer um arroz especial... com mafé ?!


... Vida dura, a do mato !...

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto : Adapt. de Alberto Branquinho  (2013)

Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Eu achei o conto "magistral" (*)... Mas, confesso, esperava mais comentários ao poste... O desmérito é do editor, não do autor... De facto, em vez de "Arroz especial... com mafé" (e não má-fé!) , eu devia ter optado por um título mais provocatório... "Hoje há arroz de jagudi  no forno" ou outro título de fazer crescer a água da boca dos camaradas de Baião e do Marco de Canaveses onde se faz o melhor "arroz de anho no forno" ... Em Portugal & arredores.

Recorde-se, para quem leu, que a história começa com um princípio (ou um ameaço) de "levantamento de rancho"... 

Isto passa-se na Guiné, durante a guerra colonial, por volta de 1968, ao tempo em que o valente  Alberto Branquinho andava lá  com os seus bravos da companhia de caçadores  (de "turras", presume-se, não era de leões nem de elefantes). 

Uma solução à "chico esperto", expedita, do vagomestre e do cozinheiro, para contornar a falta de víveres (e nomeadamente de carne...) e assim enganar toda a gente, a começar pelo capitão, foi recorrer aos pobres dos "abutres-de-capuz" (vulgo, "jagudis") que rondavam o quartel e se alimentavam nas nossas lixeiras... 

Ora, toda a gente sabia que o repugnante e feio jagudi era um "animal sagrado".. E desde 1955, que era proibida a sua caça... Eram os "almeidas" da Guiné, comiam os bichos mortos, limpavam as carcaças e, quando havia festa nas tabancas (nomeadamente, o "tchoro", por morte de alguém importante), abatiam-se vacas, não faltavam vísceras para os "almeidas" se banquetearem...

Não tenho que lisonjear o autor, como faz a menina da IA que é para a gente ficar "agarrados a ela"... De facto, a IA é uma nova adição (=comportamento aditivo, vício, dependência), a par do sexo, da pornografia, da droga, da comida, dos ansiolíticos,  do trabalho, do ginásio, do jogo ("gaming"), do telemóvel, das redes sociais (como o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné), das viagens da Abreu Lopes,  etc..  

O Alberto Branquinho já tem os seus créditos firmados. É uma grande microcontista, a par do "alfero Cabral", de saudosa memória, e de mais uns  talentos literários que se sentam à sombra do nosso poilão (e que não vamos listar para não criar suscetibilidades). 

A ideia do autor  é excelente e a execução resulta. Tem um daqueles ingredientes que fazem com que as histórias de caserna não morram, como as anedotas, que logo se esquem, na hora seguinte: é plausível, é absurda e, no fim, toda a gente diz "isto podia perfeitamente ter acontecido na Guiné do meu tempo".

Porque é que o texto  não  suscitou  comentários imediatos ? Esta é a questão que me intriga... Se o conto é "magistral", porque é que não houve... comentários, e muito menos "magistrais" ?

Reconheço que o título não provoca "pica", não  tem "sex...apelo" (do inglês, "sexappeal"). "Arroz especial... com mafé" é um daqueles títulos prosaicos, sensaborões, chatos... E depois o leitor, desprevenido, confunde "mafé" com "má-fé"... Ora, quem vai "comer" um "arroz especial... má-fé", desconfiando, de pé-atrás ?!

De facto, com um tal título (da responsabilidade do editor...) o conto do Alberto Branquinho só pode despertar curiosidade  em quem sabe o que é o "mafé" e se interessa pela culinária da Guiné-Bissau. 

Para muitos leitores, o poste terá sido visto apenas como mais uma história gastronómica da Guiné-Bissau,  mais um poste da série do "Comes & bebes: no céu não disto: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande", com que tapamos às vezes alguns buracos, sobretudo nas férias de verão em que o pessoal vai a águas e tem menos tempo para coloborar no blogue...

O verdadeiro motor narrativo está lá, entretanto,  escondido já na última parte do conto: "...afinal os frangos do vagomestre eram... jagudis."

É aí que o conto explode. O leitor percorre duas ou três páginas sem imaginar o desfecho. É uma boa surpresa literária. Mas o título, de facto,  não convida ninguém a entrar. 

Vamos experimentar agora com outro: "Os frangos do vagomestre"... mas em em banda desenhada.(**)

O autor merece uma boa BD. Esta "estória cabraliana" (neste caso,"branquiana" ?!...) merece uma boa BD. Os nossos leitores também o merecem. 

Digam-nos depois da vossa justiça. Leiam e comentam. À vontade. E também podem rir, se for caso disso. E se vos apetecer rir. Claro, também podem dizer que não tem graça nenhuma (a BD, não o conto)...

No final, não deixamos de fazer uma ressalva: não temos nenhum "parti-pris", sentimento ou ressentimento contra os nossos vagomestres e cozinheiros que nos mataram a fome durante os dois anos de Guiné. Este conto é também uma homenagem a eles. (Ao pessoal da Intendência, fica reservada a vez para outra altura.) (**)
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Notas do editor LG:

(*) 28 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)