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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28146: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXVII: Ramadão de 1970: celebração do Korité (ou Eid al-Fitr, em árabe), o fim do jejum ritual (fotos de 8 a 14)



Foto nº 8 e 8A
 

Foto nº 9






Foto nº 10, 10A, 10B, 10C e 10 D





Fotos nº 11, 11A, 11B, 11C


Foto nº 12


Foto nº 13 E 13A




Foto nº 14, 14A e 14B

Guiné > Região do Oio > Mansoa > 30 de novembro de 1970 > Celebração do Korité (ou Eid al-Fitr, em árabe) que marca o fim do Ramadão (o mès sagrado). Homens, mulheres e crianças participam segundo os costumes locais, formando grupos distintos. Militares e civis portugueses assistem à festa como observadores, num raro testemunho fotográfico da convivência entre a administração portuguesa e a população muçulmana da vila, em plena guerra (*).

Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação de um lote de 14 fotos ("slides" digitalizados) do alferes graduado
capelão José Torres Neves, nosso grão-tabanqueiro, que pretenceu à CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71)


De um modo geral, estas imagens são muito interessantes (embora já comuns no nosso blogue), quer do ponto de vista etnográfico, quer histórico. O padre José Torres Neves revela aqui a sua empatia, capacidade de observação participante, espírito ecuménico e sensibilidade sociocultural.

Em 1970, Mansoa encontrava-se relativamente segura, embora a guerra estivesse bastante próxima. Estamos na região Oio. Mas ia-se, com relativa segurança, de Bissau a Mansoa (c. 60 km). E nunca houve, praticamenmet, nenhuns casos muito graves de terrorsimo urnavo (com exceção de Farim enm 1965 e depois em Bissau, já no fim da guerra).

É significativo que uma festa muçulmana pudesse decorrer com esta dimensão pública, e sem nenhum dispositivo militar de segurança.  Estas imagens podiam ser usadas pelas NT contra a propaganda do PAIGC...

Também mostram, pro outro lado,  que as autoridades portuguesas, incluindo os capelães militares como o padre José Torres Neves, assistiam frequentemente às festividades religiosas das populações locais, num espírito de convivência e observação que muitos deles registaram em fotografia (como é o caso dos nossos camaradas Abílio Duarte,  António Marreiros, Armando Fonseca, Armando Oliveira, Arménio Estorinho, Jorge Pinto, José Carvalho, Luís Mourato Oliveira, Vasco da Gama) e/ou em cmentários e observações como os  nossos amigos Cherno Baldé e Cataraina Meireles. entre outros.


2. Sobre algumas destas fotos pode acrescentar-se o seguinte:

Fotos nº 8 e 10:  As mulheres e crianças participam, mas à parte. Os "tugas", curiosos, misturam-se também com os crentes. A Fotio nº 8  mostra um pequeno grupo de mulheres muçulmanas, quase todas envoltas em grandes panos brancos. 

Esse branco  (nas vestes de mulheres e homens) tem um significado simbólico importante: é a cor da pureza, da alegria religiosa e da festa. Muitos terão vestido a sua melhor roupa para o Korité (ou Eid al-Fitr), assinalando o fim do Ramadão. Sob o pano branco veem-se vestidos coloridos, como o da mulher em primeiro plano, revelando o gosto africano pelos tecidos estampados.

É interessante notar que os rostos permanecem descobertos. Isso corresponde aos costumes locais da Guiné-Bissau, onde, mesmo entre Mandingas e Fulas muçulmanos, nunca foi habitual o uso do véu integral como noutras regiões do mundo islâmico.(Mas já vemos hoje no Gabu sinais do regersso do fundamentalismo religioso, pelo menos a nível do vestuário feminino.)

Já na foto nº 1 e 2 do poste anterior (*),a separação dos grupos é ainda mais evidente. Essa disposição não significa propriamente uma segregação  socioespacial rígida, mas antes o respeito pelas normas sociais e religiosas da época. Nas cerimónias públicas, sobretudo depois da oração, homens e mulheres tendiam naturalmente a formar grupos distintos, embora todos participassem na mesma festividade.

Vejam-se tambéma as res stantes fotos nº 9, 10, 11, 12, 13 e 14:
  • homens sentados ou reunidos,  muitos vestidos de branco;
  • mulheres agrupadas um pouco mais atrás, formando um conjunto próprio;
  • crianças circulando livremente entre os adultos;
  • e, ao fundo, alguns militares e civis portugueses observando discretamente ou fotografando (fotos nº 10, 11, 13).

Na Foto nº 13, está o César Dias, fur mil trms da CCS (de camisinhja branca e ósiuclos escuros), mais o  Américo Caetano fur mi,l  da CCAÇ 2587/BCAÇ 2885 (Mansoa, Jugudul, Mansoa, 1969/71).
 
É um pormenor curioso, a  atitude dos "tugas"... Não há ali qualquer sinal de tensão. Pelo contrário, parecem simples espectadores, quase "turistas".  Alguns usam camisa de manga curta, outros óculos de sol, e misturam-se com naturalidade entre a população. Em Mansoa, em 1970, isso era ainda possível. Apesar da guerra estar presente na região, o núcleo urbano continuava a manter uma vida social relativamente aberta, permitindo este tipo de contacto. 

Também a arquitetura merece referência. As casas circulares de cobertura de colmo coexistem com edifícios de planta retangular e cobertura metálica, mostrando uma Mansoa em transição entre a construção tradicional e a influência urbana trazida pela administração colonial.

 Destaque para a foto nº 14, e os comentários já aqui produzidos pelo Cherno Baldé, em 2023  (ao poste P24207)(**):

(...) "Na parte final da reza tem lugar o que chamam de 'Cutuba' ou Sermão com a participação de um grupo seleto de discíplos e pessoas dedicadas a causa da religião na comunidade, todos do sexo masculino, durante o qual é revisitada a longa história do Islão dos primórdios a actualidade, incluindo partes do período Judaico e dos textos do antigo testamento do Cristianismo com particular destaque as peripécias do antes, durante e após a fuga dos Hebreus do Egipto e a épica ou mitológica travessia do Mar Vermelho com o Profeta Moisés (Mussa,  para os Árabes) a frente da nação rumo ao deserto do Sinaí e que culmina com a vida e obra do Profeta Muahammad.

Esta parte é a mais importante, mas também é a mais monótona e menos interessante para a rapaziada que já está com os sentidos voltados para as comidinhas que, entretanto, estariam a preparar em casa de maneiras que, não raras vezes, só ficam os mais velhos a acompanhar esta longa narrativa prenhe de recomendações dogmáticas sobre a religião, a vida em comum e a necessidade e fundamentos da preservação dos ensinamentos e da tradição islámicas, a bem da comunidade" (...). (**)

No conjunto, estas imagens têm um valor documental notável. Não retratam apenas uma cerimónia religiosa: mostram a convivência, durante a guerra, entre uma população maioritariamente muçulmana e militares portugueses que assistem, como vizinhos, convidados ou curiosos, sem interferirem na celebração. São um testemunho raro de um quotidiano que a historiografia militar nem sempre regista, mas que ajuda a compreender a complexidade das relações humanas na Guiné daqueles anos. E mais: têm um valor ecuménico, numa época em que crescem os sinais de islamofobia.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28145: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXVI: Ramadão de 1970: celebração do Korité (ou Eid al-Fitr, em árabe), o fim do jejum ritual (fotos de 1 a 7)



Foto nº 1 e 1A




Foto nº 2, 2A e 2B



Foto nº3 e 3A


Foto nº 4


Foto nº 5


Foto nº 6


Foto nº 7

Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > 1970 > A festa do fim do Ramadão. (O Ramadão em 1970 terminou no dia 30 de novembro de 1970, correspondente ao 1.º de Shawwal de 1390 do calendário islâmico; esta data assinala a celebração da Eid al-Fitr, a festa festival que marca o fim do mês de jejum).

Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Alferes graduado capelão
José Torres Neves
1. O álbum fotográfico  do Padre José Torres Neves, do tempo em que foi alferes graduado capelão  em Mansoa (CCS/BCAÇ 2885, 1969/71), é um manancial de informação, memórias e emoções (*).

Do lote que nos foi enviada no passado dia 7 de junho  pelo nosso camarada e amigo Ernestino Caniço (o fiel guardião do álbum fotográfico da Guiné, do padre missionário da Consolata, José Torres Neves, natural de Meimoa, Penamacor),  publicamos hoja a primeira parte.

São fotos relativas ao fim do Ramadão de 1970. 
Na Guiné, o Ramadão em 1970 decorreu entre 31 de outubro e 30 de novembro. E em Mansoa, com em outros lados, "o fim do jejum ritual" foi marcada pelo forte respeito e convivência entre as tropas portuguesas e a população muçulmana local.

Data - domingo, 7/06/2026, 18:57
Assunto - Mansoa, Ramadão, 197'0


Caros amigos Luís e Carlos,

Votos de ótima saúde.

Anexo mais umas fotografias do álbum do Pe. Zé Neves, desta vez sobre o tema Mansoa – Ramadão.

Desejo-vos umas excelentes férias (se for o caso) com a família.

Grande abraço,
Ernestino Caniço

Anexos - 14 fotos



2. Conforme temos escrito, em geral as fotos trazem sumárias legendas (ou títulos). Sem data. E não vêm numeradas. Tanto quanto possível, procuramos agrupá-las por "temas" e "por ordem lógica e cronológica". E são sempre editadas (retocadas, melhoradas...) por nós.

A coleção de "slides" (digitalizados) do padre missionário da Consolata (hoje reformado), tirados na Guiné, será da ordem das 4 centenas, segundo a estimativa do Ernestino Caniço. Ou pelo menos, o acervo que ele disponibilizou para publicação no bogue.

O José Torres Neves entrou para a Tabanca Grande, em 22/2/2022, pela mão do Ernestino Caniço, que é médico (em Tomar)  e seu amigo deste os tempos de Mansoa. É o nosso grão-tabanqueiro nº 859. Tem cerca de meia centena de referências no nosso blogue.

3. Sobre o Ramadão em plena guerra colonial já aqui escrevemos sobre o seu significado (e os seus desafios, nomeadamente para os nossos camaradas muçulmanos) (**).

Q palavra Ramadão tem origem no árabe "ramida", que significa "ser ardente", possivelmente associada ao facto de o jejum islâmico ter sido celebrado pela primeira vez durante o período mais quente do ano. Para os crentes muçulmanos, este mês sagrado é um tempo de:
  • Renovação da fé
  • ática mais intensa da caridade
  • Vivência profunda da fraternidade
  • Reforço dos valores familiares
  • Maior proximidade aos valores sagrados
  • Leitura assídua do Alcorão
  • Frequência à mesquita
  • Correção pessoal e autodomínio
O Ramadão é o único mês mencionado pelo nome no Alcorão, sendo também o mês em que este livro sagrado foi revelado.

Durante a Guerra Colonial, os preceitos do Ramadão, e em especial o jejum diurno, eram escrupulosamente respeitados pelos soldados muçulmanos do recrutamento local, pelas milícias e pelos demais crentes, incluindo os guerrilheiros do PAIGC (especialmente entre os grupos de religião muçulmana como os Biafadas, Mandingas, Fulas, Nalus, Balantas Manés, entre outros)

No entanto, os graduados portugueses (em particular os oficiais) demonstravam, em geral, pouca sensibilidade para a importância e os constrangimentos deste período. Havia um conflito latente entre as exigências da atividade operacional e as restrições alimentares impostas pelo jejum.
 
Na CCAÇ 12, o jejum era respeitado pelos soldados, na medida do possível. (Soldados que, para mais, eram desanranchados; e que eram frugais, podiam andar numa operação de dois dias só com uma mão-cheia de arroz cozido, atada num lenço, o equivalente a 40/50 gr.; em contrapartida, mascavam noz de cola para aliviar a sensação de fome).

Este tema voltaria a ser discutido publicamente em 2014, durante o Campeonato Mundial de Futebol, quando a seleção nacional argelina levantou a polémica sobre a (in) ompatibilidade entre o jejum do Ramadão e a alta competição desportiva.
 
As 14 fotos de 1970, tiradas pelo José Torres Neves, capelão militar católico em Mansoa (Guiné), são um testemunho único da intersecção entre fé, cultura e conflito. Elas captam não só a espiritualidade dos combatentes e civis muçulmanos de Mansoa, como também os desafios de conciliar as suas crenças com as exigências da guerra.  A presença de s portugueses da metrópole que viviam em Mansoa (militares e algumas senhoras) também aparece aqui registada, a começar pelo fotógrafo (foto nº 3).

Nas primeiras fotos que apresentamos hoje vê-se a extensa fila de homens (e mullheres e crianças, apartadas) que  se dirigem ao local de culto, levando as suas esteiras (ou, em alternativca,  pedaços de pele curtida, de cabra ou ovelha) para se sentarem no chão.

 O dia (30 de novembro de 1970, já no início do tempo seco) era de muito calor (Foto nº 1). Mas os "chapéus de sol" não eram para todos. São também um "símbolo de status". A "Korité" (como se diz na África Ocidental, nos países francófos, podendo ser grafado "Koridé", na Guiné-Bissau) era/é também uma ocasião de estrear roupa nova (***).

Segundo informação do Cherno Baldé, a tambor na foto nº  7 chama-se “Tamulde” em fula, nome que, provavelmente, tem origem em outras linguas, é antes de mais um simbolo de “poder”, pois muito antes ja era usado como instrumento de comunicacao para chamamento dos reis e imperadores africanos (zona Africa Ocidental), mais tarde adoptado por régulos da epoca colonial. 

(...) "O cavalo 'branco' e o 'Tamulde+ eram de uso quase obrigatório dos nossos Mansas, Farins (mandingas) e Régulos (fulas), desde os tempos do império de Gabu ou Kaabu. A sua função é identica à utilizacão do 'Bombolon' entre os balantas e 'buramus' (papéis, manjacos, mancanhas) da Guiné-Bissau".(...)
_______________

Notas do editor LG:


(**) Sobre o Ramadáo temos 26 referências. Vd. por exemplo:

14 de julho de 2014 > Guiné 63/74 - P13399: Efemérides (164): O Ramadão de 1970 em Paunca (Abílio Duarte, ex-fur mil art, CART 2479 / CART 11, Os Lacraus, Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, 1969/70)

(...) A tradição de usar roupas novas não ocorre durante o Ramadão (que é um mês de jejum e introspeção), mas sim no Eid al-Fitr, a grande festa de três dias que celebra o fim do mês de jejum.

O uso de roupas novas e elegantes para esta ocasião simboliza a renovação espiritual após o mês de autodisciplina, sendo costume:

(i) acordar cedo e tomar banho purificador ("Ghusl");

(ii) vestir as melhores roupas disponíveis;

(iii) reunir com a família, vizinhos e amigos.(...)

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28106: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte IV: De Tomar a Mansoa


Foto nº 1 > Tomar > s/d (c. 1966/69)  >  Grupo de forcados do Colégio Nun’Álvares em Tomar. "Não fui interno no colégio, mas integrei o grupo  entre 1966/69. Foto enviada para o jornal digital Tomar na Rede, pela tomarense Maria do Carmo Tamagnini. Sou o terceiro da direita para a esquerda."


Foto nº 2 > Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > CCS/ BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > Almoço na casa de um comerciante português: o alf graduado capelão, Zé Neves, brindando com o comandante das Daimlers, o nosso hoje dr. Ernestino Caniço. Ficaram amigos para a vida.


Foto nº 3 > Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > CCS/ BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > Almoço na casa de um comerciante português ( onde o Ernestino Caniço viveu durante uns meses): de costas, o padre Zé Neves, e á sua esquerda o pároco local, o padre Júlio Patrocínio.


Ernestino Caniço: (i) médico de família, inscrito da OM, desde 1977, nº 17053; (ii) vive em Tomar, estando reformado do SNS;  (iii) tem mais de 100 referências no nosso blogue, integrando a Tabanca Grande desde 21/5/2011; (iv) ex-Alf Mil Cav, Comandante do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica, QG/CCFAG, Bissau, jan 1970/ dez 1971, era chefe da Rep ACAP o major inf Mário Lemos Pires, que será entretanto promovido a tenente-coronel; trabalhou com o então cap Otelo Saraiva de Carvalho):

Fotos (e legendas): © Ernestino Caniço (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do Ernestino Caniço:

Data - Segunda, 4/05/2026, 21:11
Assunto - Rep ACAP

Caros amigos

Votos de ótima saúde

A fim de dar continuidade ao “material” sobre a Rep ACAP remeto mais algumas fotos sobre esta temática  [parcialmente já publicadas no poste anterior desta série (*)]

De relevar, a população  que, após informação, visualizava obras e estruturas do governo da Guiné.

Aproveito o ensejo para referir que,  ao visualizar os postes sobre o PIFAS, concluí que eu e o camarada Garcês Costa fomos contemporâneos na Rep ACAP e ao qual deixo um abraço.

Por curiosidade, teremos também sido contemporâneos no colégio Nun’Álvares em Tomar. Não fui interno no colégio, mas integrei o grupo de forcados entre 1966 e 1969, que deixei para cumprir o serviço militar.

Anexo uma foto do grupo, enviada para o jornal digital "Tomar na Rede", pela tomarense Maria do Carmo Tamagnini. Sou o terceiro da direita para a esquerda. Recordo nomes como Barradas, Hilário, Parente, Vidal e o cabo Manuel Faia (Foto nº 1).

Junto ainda duas fotos minhas, num almoço em Mansoa, quando ainda era cmdt do Pel Rec Daimler 2208 (Fotos nºs 2 e 3).

Aproveito ainda para dizer que na 2ª foto, do Pe Zé Neves, do post  P27985 não me parece ser ele a “apalpar a fruta” nem o Padre Patrocínio em segundo plano.

(Revisão / fixação de texto: LG)
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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28036: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXV: cenas do quotodiano da vila de Mansoa




Foto nº 1 > Comunidade cristã de Mansoa



Foto nº 2 e 2A > Edifício da Missão Católica



Foto nº 3 e 3A > Mercado (1)





Foto nº 4 e 4A > Mercado (2)




Foto nº 5 e 5A




Foto nº 6 e 6A > A papaeira



Foto nº 7 > Messe de oficiais

Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > Crianças vendedoras de mancarra... O que será feito destes meninos e meninas?


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Alferes graduado capelão
José Torres Neves



1. Publica-se o resto das fotos sobre Mansoa, do lote que nos foi enviada no passado dia 21 de janeiro pelo nosso camarada e amigo Ernestino Caniço, o fiel guardião do álbum fotográfico da Guiné, do padre missionário da Consolata, José Torres Neves, natural de Meimoa, Penamacor.

Conforme temos escrito, em geral as fotos trazem sumárias legendas (ou títulos). Sem data. E não vêm numeradas. Tanto quanto possível, procuramos agrupá-las por "temas". E são sempre editadas (retocadas, melhoradas...) por nós.

O Padre José Torres Neves esteve no CTIG entre maio de 1969 e março de 1971. Foi alferes graduado capelão do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71). Fotografou obsessivamente Mansoa e outras povoações do sector O4 onde havia destacamentos das NT, Braia,  Infandre, Cutia, Jugudul, Bindoro, etc. Passou também por Mansabá. Naturalmente, não tinha, devido à guerra, grande  liberdade de circulação. Só podia viajar em coluna, com escolta.

  Em Mansoa estava limitado à área do quartel, da vila e das tabancas em redor. Daí que haja "temas fotográficos" que se repetem, numa coleção de "slides" (digitalizados) que podem ir às 3 ou  centenas, segundo a estimativa do Ernestino Caniço.

O nosso capelão reformou-se recentemente de uma vida inteiramente dedicada às missões católicas, nomeadamente em África. Deve estar a fazer a bonita idade de 90 anos. 

Entrou para a Tabanca Grande, em 22/2/2022, pela mão do Ernestino Caniço, que é médico e seu amigo deste os tempos de Mansoa. É o nosso grão-tabanqueiro nº 859. Tem cerca de meia centena de referências no nosso blogue.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

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terça-feira, 5 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27990: Humor de caserna (261): "Apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"...)

Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >   O alf graduado capelão, padre José Torres Neves, a "apalpar a fruta", neste caso, a papaia, que ainda estava verde... 

Em segundo plano , parece-nos ser o  padre franciscano Júlio do Patrocínio, da missão católica de Santa Ana de Mansoa (fundada oficialmente  em 1953). 

 O Ernestino Caniço diz que não lhe parece que seja nem um nem outro, o seu amigo  José Torres Neves (hoje missionário da Consolata, reformado, à beira dos 90 anos) nem  o Júlio do Patrocínio.  Deviam ser então dois graduados, à civil, da CCS/BCAÇ 2885, presumimos nós.

Guiné > Região do Oio >  Mansoa > CCS/BCAÇ 2855 (1969/71)  > O alf mil Pires (à esquerda), com o oficial de dia (em segundo plano) e o alf graduado capelão José Torres Neves,  examinando a "cobiçada" AK-47 dos "turras")


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A expressão “apalpar a fruta”, com a sua inequívoca conotação brejeira, veio-me à ideia ao revisitar esta fotografia: dois militares à civil, em Mansoa, junto de uma papaieira generosa, um deles em gesto que não deixa de convidar ao duplo sentido. (Podiam ser o "nosso capelão" José Torres Neves, de costas e óculos escuros, mais o pároco de Mansoa, mas o Ernestino Canioço diz que não...)

De qualquer modo, a foto foi tirada pelo então jovem capelão castrense José Torres Neves, da CCS/BCAÇ 2855, de quem temos vindo a divulgar um notável espólio da Guiné (cerca de 400 fotografias). Hoje, missionário aposentado, à beira dos 90 anos, foi testemunha atenta, e sensível, de um tempo duro.  Na outra fotografia, vemo-lo a examinar uma AK-47 apreendida aos guerrilheiros do PAIGC: um padre entre a cruz e a espingarda, entre o cuidado das almas e a materialidade da guerra.

Mas voltemos à “fruta”, à "papaia"...(que em português são duas das dezenas de expressões do calão para a genitália feminina, a par de "catota", em crioulo da Guiné-Bissau).

A expressão levou-me a recordar um poeta popular do século XIX, analfabeto, calafate de profissão, natural de Setúbal, de resto conhecido como o "Calafate" ou o "Cantador de Setúbal": António Maria Eusébio (1820-1911). Dele nos ficaram alguns dos mais saborosos exemplos da nossa poesia erótico-satírica mas também jocosa, na melhor tradição popular que já vem das medievais  "cantigas de escárnio e maldizer".

Não por acaso, um dos seus poemas mais conhecidos foi selecionado pela Natália Correia para a sua célebre Antologia da Poesia Erótico-Satírica Portuguesa (1966), obra que o regime de António de Oliveira Salazar tratou de rapidamente proibir. 

Num país onde até o riso e a malícia eram policiados, aquela antologia foi uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco. A 1º edição esgotou-.se antes que a PIDE lhe pudesse pôr a mão em cima.

Recordo bem o escândalo da época: livros apreendidos, moral oficial ofendida, zelo censor muitas vezes exercido por servidores do regime, incluindo militares que serviram connosco no CTIG. 

Tudo isto num contexto em que a sociedade portuguesa vivia sob uma capa de puritanismo hipócrita, enquanto a vida real seguia, como sempre, outros caminhos (recorde-se o escândalo dos "Ballet Rose" , em finais de 1967, cuja denúncia  levou o advogado e politico da posição Mário Soares á prisão em Caxias e depois ao desterro, em São Tomé).

É também por isso que esta série  “Humor de Caserna” faz sentido: porque, mesmo em contexto de guerra, os homens (e algumas mulheres, as enfermeiras  paraquedistas) do CTIG souberam preservar algo de essencial, que era a capacidade de rir, de insinuar, de jogar com as palavras, de não perder a humanidade.

Já aqui em tempos tinhamos scrito, em comentário ao poste P4065 (*): 

(...) O humor (temperado q.b.) era, na Guiné, na BA 12 ou em Bambadinca, o nosso talismã, a nossa mezinha, o nosso amuleto mágico, o nosso cinto de segurança, o nosso cordão detonante, a nossa "droga"... contra as balas de amigos e inimigos, contra a costureirinha, contra a Kalash, contra o RPG, contra o Strela (ainda não o havia no meu tempo, sou mais velhinho do que tu, Miguel...), contra o tédio, contra o desânimo, contra o medo, contra a desesperança dos dias, contra as abelhas, contra os mosquitos, contra o cozinheiro, contra o vagomestre, contra o sargento, contra o RDM, contra o capitão, contra o comandante, contra o Com-Chefe, contra os que, de um lado e do outro, glorificavam a guerra e a a morte, enfim,  contra Deus e contra o Diabo.(Passe a blasfémia, que nalguns países de fundamentalismo religiso daria pena de morte!) (...)

E retomando a expressão “apalpar a fruta”… com licença do dono ou da dona, que o respeitinho continua a ser muito bonito (e o riso ainda é mais!)... 

Para quem não conhece o "Calafate" (já aqui de resto  citado, na caixa de comentários ao poste P4065 (*), publicamos hoje, na montra principal do blogue, os divertidos versos sobre “A Quinta da Panasqueira”, pequena obra-prima de malícia e engenho.

Que tristeza era então, a de um país, ou melhor, de uma elite dirigente, beata, balofa, hipócrita, inquisitorial, falsamente puritana, que tinha acabado, em 1963, de mandar fechar as "casas de passe" e de pôr fim à proibição do casamento das... enfermeiras (que vigorava desde os anos 40).

A famosa Antologia, da Natália Correia, foi uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco numa sociedade que precisava cada vez mais  de respirar o ar fresco da liberdade...que só virá oito anos depois.
.

A Quinta da Panasqueira

por António Maria Eusébio, o "Calafate"

Mote

Fui apalpar as gamboas
Que a quinteira tem na quinta,
Já tem marmelos maduros,
O seu bastardo já pinta.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
meu saber ninguém disputa,
gosto de apalpar a fruta
quando está quase madura…
Gosto do que tem doçura;
Quero e gosto das mais pessoas
para apalpar coisas boas
da quinta da Panasqueira,
com licença da quinteira,
fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei,
dei cambalhotas e saltos,
depois de apalpar pelos altos,
pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
fruta branca e fruta tinta;
para que a dona não se sinta
nunca direi mal da boda,
apalpei a fruta toda
que a quinteira tem na quinta.

Neste tão lindo arvoredo
não há fruta como a sua,
foi criada em boa lua
para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
que os seus frutos estão seguros,
ou sejam moles ou duros
todos a têm em estima,
na sua quinta de cima
já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
Num regato ao pé de um poço,
que dá fruta sem caroço
chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
a menina dê-me um cacho,
que na sua quinta de baixo
o seu bastardo já pinta.

A resposta da quinteira

Mote

Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão
.


Glosa

Sou mestra na agricultura,
tenho terra para cavar,
gosto sempre de apalpar
se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
não são nenhuns disparates;
enchi alguns açafates
de tomateiros de cama
depois de apalpar a rama
fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
nascem por dentro e por fora
semeiam-se a toda a hora
dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
dão-me as ramas pelos joelhos
que tomates tão vermelhos
que tinha o meu hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
faz andar a gente louca
faz crescer água na boca
e a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos,
tem hortaliça fresquinha
no vale da carapinha
tem um tomateiro macho,
abriu-me a porta de baixo
mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
tinha tomates graúdos,
tinha nabos ramalhudos
com as cabeças roliças.
Tão brilhantes hortaliças
meteram-me a tentação;
era franco o hortelão,
deu-me uma couve amarela
para me dar gosto à panela,
meteu-me o nabo na mão.

(Versos brejeiros e satíricos,
cantigas para guitarra).


Fonte: Antologia de Poesia Erótica e Satírica Portuguesa - Selecção, prefácio e notas de Natália Correia, 3ª ed. Lisboa: Antígona / Frenesi, 1999. [1ª ed., 1966],pp. 278-281. (com a devida vénia...)

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de março de 2009 > Guiné 63/74 - P4065: As Nossas Queridas Enfermeiras Pára-Quedistas (7): Os tomates do Capelão da BA 12, Bissalanca... e outras frutas (Miguel Pessoa)

(...) No meu tempo na Guiné, os tomates do capelão da BA12 eram muito cobiçados, muito por culpa das nossas enfermeiras pára-quedistas que, sempre que podiam, faziam uma colheita na horta que o padre A... mantinha junto à igreja da Base.

Era generalizada a opinião, entre quem deles se servia, de que os tomates do nosso capelão, embora pequenos, eram sumarentos e saborosos e enriqueciam qualquer salada. E sabe-se o gosto que o pessoal tinha por tudo o que lhe lembrasse a metrópole. E era vê-los a "deitar abaixo" uma saladinha feita com tomates fresquinhos, acabadinhos de apanhar. (...)