Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta nalus. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta nalus. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28241: Historiografia da presença portuguesa em África (538): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (6): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Quando o Capitão Henri Brosselard saiu de Bolama em direção ao rio Nuno e daqui a Kandiafara, este itinerário não era inocente, conforme comprova a narrativa do chefe da missão francesa para a delimitação de fronteiras. Ele observa neste seu relato a importância do rio Nuno no contexto dos chamados Rios do Sul, e procurou habilmente sondar Mamadu Paté (que se revela leal à França) sobre a chamada relação de forças no Forreá e quem era quem na Península de Cacine. Era facto assente que a política francesa passava por criar uma barreira de acessos comerciais dos portugueses às rotas dos Futa-Djalon, entretanto havia que sondar as linhas de tráfego do Futa até Cacine. também ficou verificado que as comunicações entre o rio Nuno e o rio Compony eram extremamente difíceis, a acessibilidade só poderia ser garantida por pequenas embarcações. E o capitão Brosselard também deixa claro a luta pelo poder em que os Fulas do Forreá procuravam expulsar os Biafadas e os Nalus, nesta época (1888) já o próspero comércio da região do rio Grande do Bolala estava praticamente dizimado pelas sanguinárias guerras travadas no Forreá.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 6
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Retomando o texto anterior, a coluna do Capitão Henri Brosselard chegou a Kandiafara, na véspera já tinha chegado a esta pequena povoação o Sr. Galibert. Na penúltima etapa deste percurso, Brosselard tinha atingido o rio Compony ou Cogon, aqui desfraldou a bandeira francesa, para ele ficava claro que tinha percorrido regiões completamente desconhecidas, deixadas em branco das cartas geográficas, confirmava-se ter chegado a um dos rios dos chamados Rios do Sul, cuja existência era contestada, negada pelos geógrafos que pensavam que o curso de água atravessado por alguns viajantes nas altas regiões do Futa-Djalon tinha a sua foz no estuário do rio Cacine, reconhecido em 1885 pelo tenente do navio Vallon, agora nau capitânia.

Para determinar a fronteira sul da Guiné, devíamos visitar regiões que não tínhamos assinaladas a não seu por vagas informações, todas erróneas, como pudemos verificar na continuação deste reconhecimento e que nós sabíamos estar num grande estado de desolação provocado pela invasão de hordas Fulas. Antes de começar o nosso trabalho e dar uma direção às operações, incumbia-me uma dupla missão que iria cumprir em Kandiafara: assegurar-me da boa vontade dos chefes do país e recolher informações genéricas sobre a geografia das regiões à volta.

Logo à minha chegada constatei haver uma grande emoção que reinava no país. Corria o rumor que um chefe francês vinha fazer a guerra; os Fulas do Forreá, que muito maltratavam os Nalus, invadindo diariamente o território e destruindo toda e qualquer povoação, não se sentiam sossegados, pois estavam em crer que a França tinha vindo em auxílio dos reis dos Nalus, seu aliado. A povoação Fula de Simbéli, edificada a alguns quilómetros de Kandiafara, fora abandonada pelos seus habitantes, e o rei do Forreá, Mamadu Paté, convocara o seu exército.

O primeiro dia foi consagrado à instalação; os oficiais ficaram numa casa de comércio abandonada e os restantes militares construíram abrigos confortáveis. O Sr. Galibert deu conta da sua navegação pelos braços de rio estreitos e lamacentos que permitem a navegação às pequenas embarcações para passar do rio Nuno para o Compony. Ele partira de Samiah com a maré, na noite de 10 de fevereiro, tinha descido com a embarcação do rei Dinah e uma outra embarcação ligeira no curso do rio Nuno até Victória. Costeando depois a margem direita do rio Nuno, andou em braço de rio até Kassagoua. A sete quilómetros de Boffa deixou Kassagoua e penetrou noutro braço do rio sinuoso que desagua no Compony, perto do Cabo Sin. A 12 chegou a Bassiah, pequena povoação de comerciantes situada na margem esquerda do rio, subiu o Compony com a maré e chegou a 13 a Kandiafara. Os braços de rio de Tankina e de Socotia estabelecem uma outra comunicação entre o rio Nuno e o Compony, mas a navegação só é possível por canoa. Esta região de cursos de rio é muito perigosa e insalubre, mesmo para quem lá vive. Encontram-se aqui alguns Nalus misturados com Bagas e Biafadas que fugiam da invasão Fula e procuravam aqui um refúgio seguro.

A 14 à noite, recebi uma mensagem do rei Mamadu Paté. O rio do Forreá anunciava que estaria no dia seguinte em Simbéli e solicitava uma entrevista com o chefe francês. A 15 fui ao encontro acompanhado de um intérprete, de cinco atiradores e de um certo número de atiradores; instalei-me provisoriamente na povoação, mandei montar uma tenda fora do recinto, num espaço descoberto.

Ao cabo de algumas horas ouviu-se o rumor longínquo dos tambores, acompanhados de cânticos, de gritos, de tiros, anunciando a aproximação do rei e do seu exército. Mamadu Paté apareceu montado num cavalo, precedido pelos griots (cantores e tocadores de Korá) que teciam louvores ao seu senhor. Atrás deste grupo vinha uma longa fila de guerreiros, armados de espingardas e de sabre, vestidos com uma curta túnica presa à cintura na qual pendia um grande corno com pólvora. Muitos deles traziam chapéus de abas lisas, tecidos com caniços tingidos com variadas cores; esta indumentária pitoresca era completada por um grande número de amuletos que pendiam no pescoço ou estavam fixados no vestuário ou nas armas.

Mamadu Paté apeou-se ao pé da tenda que estava destinada às conversações e sentou-se na companhia dos principais chefes que tinham vindo com ele. Os guerreiros sentaram-se no chão à volta da tenda. A reunião não podia ter lugar na povoação de Simbéli: o rei estava em guerra com os Biafadas e enquanto não regressasse dessa campanha os usos e costumes proibiam-no de se abrigar na povoação. Avancei, precedido dos meus atiradores, bem indumentado, tendo a arma na espádua e a baioneta no cano. O rei veio na minha direção e travámos os cumprimentos da praxe.

Já sentados, os carregadores depuseram os presentes que foram oferecidos ao rei. Este, homem prudente, fez saber antes, por um confidente, que precisava de deixar à guarda do chefe de Simbéli a maior parte dos presentes que lhe estavam destinados, com este subterfúgio não precisava de acompanhar os seus acompanhantes. Os presentes ficaram à vista de todos, aos pés do rei, estes estavam destinados a mostrar a sua generosidade.

Começaram as conversações. Exponho as razões que me traziam ao Forreá e Mamadu Paté protesta a sua simpatia pela França e por tudo o que é francês. Peço ao rei para me vender cavalos. Ele não pode satisfazer o meu pedido, só tinha três e em mau estado, Mody-Yaya tinha recentemente levado os que ele possuía. Antes de regressar a Kandiafara, e para satisfazer o pedido do meu hóspede, mostrei-lhe a potência das espingardas dos meus atiradores. Estes dispararam sobre troncos de árvores distantes a 300 metros. Os Fulas não puderam conter a sua surpresa e admiração.

Os Fulas do Forreá, que eu acabara de ver o seu exército quase completo de 600 a 800 homens, são antigos escravos dos Fulas. No seguimento de conflitos com a raça conquistadora, eles obtiveram uma certa autonomia; atualmente eles reconhecem a soberania do rei de Kadé, ele próprio é um dos grandes feudatários do Futa-Djalon.

Os Fula-Cundas, gente pobre e guerreira, só podem assegurar a sua independência conquistando território fora do Futa-Djalon, por isso se lançaram em 1852 sobre o Forreá, que estava nas mãos dos Biafadas, eram conduzidos pelo rei Bacar-Demba e expulsaram-nos para os pântanos da costa e para lá do rio Grande de Bolola; depois, sempre à procura de mais territórios, eles empurraram os Nalus para o Combidiah (será o rio Cumbidjã?). Também têm agora presença no Cogon em Kandiafara, sobre o Cacine na vizinhança das nascentes e sobre o Combidiah. A capital do reino está estabelecida em Bolola, a alguns quilómetros do posto português de Buba.

Inebriado pelos seus sucessos, Bacar-Demba quis tornar-se independente do Futa-Djalon, mas as suas pretensões fizeram sombra aos almamis, para estes o Forreá abre uma das melhores rotas da costa: também Alfa-Ibrahim enviou um exército no país e o rei, bem como o seu irmão Doura e todos os seus filhos foram assassinados por Mody-Yaya, rei de Kadé, que era o executor desta política bárbara. Este príncipe dirigiu-se em seguida para Buba junto dos portugueses e a pedido expresso destes últimos nomeou Mamadu Paté rei do Forreá.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
O mapa mostra a proliferação e rios e rias entre o rio Nuno e o rio Geba
Bacary-Lombi, desenho de P. Langlois segundo uma fotografia
Fulas de Kandenbel, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
O intérprete Ibrahima, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Gravura não identificada, seguramente que não tem base fotográfica

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 29 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28226: Historiografia da presença portuguesa em África (537): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (5): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28205: Historiografia da presença portuguesa em África (536): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (4): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Os relatos dos dois principais protagonistas pela primeira demarcação das fronteiras da Guiné portuguesa são indiscutivelmente do maior interesse. O leitor já tem à sua disposição aqui no blogue a narrativa portuguesa que saiu do punho do tenente da Armada Real, Costa Oliveira; a do responsável francês, o capitão Brosselard, não lhe fica atrás, mostra claramente a cultura naturalista que era dominante na sua geração, o seu grau de cultura revela-se na qualidade da exposição e traz-nos outros aportes: logo a convicção da fraquíssima presença portuguesa no rio Nuno, curso de água muito importante para as transações francesas a partir do Futa-Djalon, que eles esbarraram aos portugueses; a teia formada por contratos entre as autoridades francesas e os Nalus; a Guiné Portuguesa ficou com o remanescente da etnia Nalu na região da península de Cacine, etc. Quando as duas comissões se encontrarem, surgiram tensões, a França começará por nos dar uma fronteira a leste que irá regatear noutras etapas da demarcação.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo capitão Henri Brosselard – 4
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

A missão francesa encontra-se em território Nalu, mais propriamente na Corte do rei Dinah, em Samiah, a coluna está imobilizada, recrutam-se carregadores, e o Capitão Brosselard aproveita para dar informações sobre o rio Nuno, a situação passada e presente do rio.

Diz que o rio Nuno foi descoberto em 1447 por Nuno Tristão (o que é completamente falso), observa que foi durante bastante tempo um antro de negreiros. Em meados do século XIX, os comerciantes tomaram o lugar dos negreiros e em 1850 havia no rio Nuno cinco entrepostos franceses, três ingleses, um norte-americano e um indígena. Partilhavam um comércio de 4 milhões de francos. Tal como acontecia ainda hoje (entenda-se, na época do relato do Capitão Brosselard) consistia na exportação de café, couro, ouro, marfim, arroz, amendoim, índigo e cera. Hoje há também borracha, acrescenta, partem trezentas toneladas através do rio Nuno. Esta preciosa mercadoria, que pode valer, segundo a sua qualidade, entre 6 a 8 francos o quilo, representa, por si só, a carga para 12 mil carregadores, em todo o transporte no Futa-Djalon.

Os direitos da França sobre o rio Nuno datam do primeiro Tratado do Protetorado, assinado em 28 de novembro de 1865, pelo governador Pinet Laprade e Youra rei dos Nalus. O Posto de Boké foi construído em 1876 e a partir daqui rumou René Caillié para a sua grande viagem através da Senegâmbia e o Sarah. Há aqui perto um monumento edificado pelos cuidados do General Faidherbe que evoca o corajoso empreendimento do nosso compatriota. Em 20 de janeiro de 1884 os Nalus cederam à França o país. O rio Nuno faz parte do grupo dos rios franceses entre a Guiné portuguesa e a Serra Leoa, cada um destes cursos de água vai em direção do Futa-Djalon. Os territórios banhados por estes rios e pelos seus afluentes fazem parte integrante do domínio colonial francês.

Segue-se uma descrição detalhada da região envolvente do rio Nuno.

Vamos agora entrar noutro capítulo, dá-se a partida da missão francesa para Kandiafara, local aprazado para o encontro com a missão portuguesa, esta chefiada pelo Tenente da Armada Real Costa Oliveira. Damos de novo a palavra ao Capitão Brosselard.

"Durante a minha estadia no rio Nuno pude, depois de muitos esforços, recrutar uma trintena de carregadores e organizei a minha pequena coluna que partiu a 10 de fevereiro para Kandiafara. O Sr. Galibert embarcou no navio de Dinah com as bagagens e pessoal doente e sugeri que fosse pelo rio Compony por um afluente que permitia, disseram-me, passar do rio Nuno para o Compony. O Sr. Galibert deveria reconhecer esta passagem assim como o curso do Compony, entre a embocadura e Kandiafara.

Com o pessoal válido, tomei o caminho que conduzia a Kandiafara e no dia 10 à noite pernoitámos em Roppas, escala do rio Nuno e última povoação dos Nalus na margem direita deste rio.

Fomos recebidos no entreposto, outrora um dos primeiros do rio Nuno e que depende hoje da casa Blanchard. Na ausência do responsável, a mulher deu-nos hospitalidade, uma mulata de certa idade que num instante e com o concurso de um grupo numeroso de indígenas organizou a sua casa para nos receber. O entreposto perdeu muito do seu antigo esplendor. Os edifícios caíram em ruínas, os tectos desmoronaram-se, os revestimentos de mármore foram arrancados pelos indígenas só restam vestígios de uma antiga prosperidade.

Em 11 de fevereiro, a coluna deixou Roppas perto das seis da manhã, coluna composta por 3 oficiais, 9 atiradores, 5 estivadores, 5 criados, 17 carregadores. A coluna atravessou a povoação de Patea, depois Caméiompo, por fim Yacoubéia. Os habitantes destas povoações são cultivadores pacíficos. A região que eles habitam produzia no passado muita mancarra, e a importância do entreposto de Roppas era em parte devida à abundância deste produto. Agora a cultura do amendoim parecia substituída, de um modo geral, pelas do milho, sorgo e arroz. São de assinalar algumas plantações de café; todo o planalto, aliás, parece adequado a este tipo de cultura.

A caminho das 9 horas, após termos passado uma espécie de cabeço através de matagais impenetráveis, chegámos abruptamente a uma ravina profunda de 50 metros e achámo-nos na presença de uma vegetação tropical de uma beleza fascinante e de um vigor exuberante. Um espesso tecto de verdura, formado por palmeiras gigantescas, deixa apenas filtrar alguns raios solares, que vêm acentuar os tons da folhagem.

Flores de grande variedade espalham odores inebriantes. A coluna percorre lentamente uma espécie de caminho estreito e tortuoso que foi mantido cuidadosamente no meio deste sítio encantador. Nesta ravina corre um riacho límpido, com água fresca e pura; as suas margens estão cobertas de um espesso tapete de elegantes fetos, tão juntos que parecem um tapete de espuma. Reina aqui uma humidade amena e suave, impenetrável ao sopro da brisa. Pássaros de uma plumagem multicolorida animam com os seus cânticos esta esplêndida solidão; e nuvens de borboletas de asas cintilantes esvoaçam em todas as direções.

Enquanto admirávamos esta poderosa e maravilhosa manifestação da natureza, sussurros característicos faziam-se ouvir à nossa volta: este local encantador estava povoado por um grande número de cobras.

De repente, o caminho, já tão estreito, voltou a diminuir; depois, num desvio, apareceu uma forte paliçada na qual existia uma abertura com a forma de porta. Passámos curvados por ela, e entrámos na povoação de Yaugaïa. Aqui mudou o espectáculo: estamos no meio de um povoado de Landumãs. Árvores da alta floresta cobrem as moranças, geralmente miseráveis; sentados à sombra, homens e mulheres confeccionam cestos elegantes destinados a servir de colmeias para as abelhas. As raparigas e mulheres andam praticamente nuas. O povoado está completamente cercado por uma forte paliçada; do lado da ravina é inacessível; do lado do planalto, a paliçada está reforçada por espessos bananais.

Após uma paragem de algumas horas na floresta, a coluna prossegue viagem, seriam duas horas e meia da tarde. O caminho penetra logo num espeço matagal que bordeja o riacho de Keimeia e desemboca na povoação de Toumané-Badé. Esta povoação, como a precedente, esta protegida dos assaltos devido à espessa vegetação que a envolve. Algumas paliçadas e espessos bananais completam as defesas. Estes bananais são tão cerrados que é impossível passar por eles, e atingem dimensões enormes.

A 12 de fevereiro, a coluna põe-se em marcha às 6 horas da manhã; a floresta na qual se pernoitou desaparece rapidamente, dando lugar a uma imensa pradaria onde grandes antílopes, surpreendidos pela vanguarda da coluna, não tiveram tempo de evitar os tiros que lhes fizeram baixas. Aves pernaltas, galinholas, flamingos e outros pernaltas são os hóspedes habituais deste solo verde e um pouco pantanoso. À nossa aproximação, ainda entorpecidos pelo frio húmido da manhã, parece que se põe a voar com um certo desgosto. A pradaria é atravessada pelo Bouroumda, que sai de uma estreita garganta aberta entre duas colinas e desaparece mais adiante numa floresta espessa e impenetrável que se estende à volta da pradaria. Faz-se um alto num bosque com árvores magníficas, à sombra temos uma fonte de água deliciosa; infelizmente, as abelhas disputam-nos este lugar de repouso, por isso tivemos de partir.

A coluna é surpreendida pela noite antes da nossa chegada ao acampamento. Instalámo-nos à luz de uma imensa fogueira. A meio da noite fomos bruscamente acordados por uma gritaria que vinha de todos os lugares do nosso acampamento. Num instante todo o pessoal se pôs de pé e apercebemo-nos à luz do fogo que o acampamento fora invadido por legiões de formigas. Todos os objectos colocados no chão desapareciam sobre a acumulação de terra amontoada por estes minúsculos trabalhadores; os nossos objectos iam sendo devorados, incluindo os nossos mosquiteiros que nos cobriam já estavam esburacados. A obra das formigas é extraordinária; porém, elas não atacam seres vivos, enquanto as suas congéneres, as formigas negras, são de uma ferocidade extrema."


Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 15 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28185: Historiografia da presença portuguesa em África (535): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28185: Historiografia da presença portuguesa em África (535): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Encontro aspetos surpreendentes nesta viagem do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada província da Guiné. Considero esta narrativa da melhor utilidade e sugiro a sua comparação com a do Tenente da Armada Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, já aqui publicada. Brosselard saiu de Bolama, que descreveu com detalhe, promete encontrar-se com Costa Oliveira em Kandiafara, no dia 12 de fevereiro, entretanto encontra-se com o rei dos Nalus, uma narrativa espantosa, e irá dar-nos seguidamente um retrato da visita que faz ao rio Nuno, dizendo erradamente que foi descoberto por Nuno Tristão em 1447 (Nuno Tristão foi assassinado no rio Gâmbia, norte da Grande Senegâmbia, nunca chegou a terras da Guiné e por conseguinte não podia ter chegado ao rio Nuno).

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3)
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro Guiné Bilhete de Identidade Tomo II.

Henri Brosselard descreveu Bolama, onde se veio a encontrar com Costa Oliveira, procurou organizar os aprovisionamentos para a expedição, irão ser expedidos para Bissau, combinou com Costa Oliveira encontro em Kandiafara em 12 de fevereiro, por se supor estar situada na vizinhança da linha fronteiriça. É aqui que recomeço o texto de Brosselard.

Entretanto o Aviso Dakar veio fundear diante de Bolama, em 4 de fevereiro. A comissão francesa tomou mediatamente as suas posições para o embarque de pessoal e bagagens. No dia seguinte partimos para o rio Nuno.

Depois dos trâmites alfandegários, o Dakar passou o entreposto de Bel-Air e acabou por fundear no entreposto de Samiah. Desembarcámos e instalámo-nos na feitoria que pertence à Casa Blanchard, fomos amavelmente recebidos nesta propriedade fortificada.

Informado da nossa chega ao rio Nuno, o rei dos Nalus veio fazer-nos uma visita em Samiah. No dia seguinte, acompanhado dos meus oficiais, visitei o rei Dinah na sua residência. O palácio real é uma residência notável, situa-se à beira do rio, a povoação terá 600 habitantes. Desembarcámos sem dificuldade, havia maré-alta. O rei sabia fazer as honras da hospitalidade, revelava uma compostura europeia.

Atravessámos três filas de paliçadas e postigos de vigia bem defendidos, caminhámos à direita e à esquerda por muros altos que envolvem as casas das pessoas importantes do círculo real e penetrámos no reduto onde se encontram as cinco habitações reais, quatro das quais tinham a forma aproximada de casas europeias, as paredes são em adobe e a cobertura em palha, muito espessa; uma casa maior tinha forma circular, era o salão de receção, contiguo estava o quarto onde o rei dorme e toma as suas refeições. Ficámos na varanda onde os músicos manejavam os balafons e cantavam em homenagem aos hospedes do rei.

Após um compasso de espera, passámos ao salão, tinha uma mesa e cadeiras, um certo conforto europeu, e uma limpeza admirável, serviam cerveja e limonada como refresco. O quarto do rei Dinah, contiguo ao salão de receção, estava mobilado com um conforto que nos surpreendeu. Amplo, coberto com um teto, as paredes forradas com esteiras, uma grande cama no meio, coberta com mosquiteiro, aqui e ali cadeiras estofadas; nas paredes, havia gravuras francesas e inglesas, espelhos deslumbrantes e garridos, um relógio de cuco e a dar horas! No toucador, todo o necessário em porcelana e cristal; ali perto um cofre-forte contendo o tesouro e os arquivos do reino; é ali que está preciosamente guardado o Tratado passado em nome da França com o predecessor de Dinah. Uma outra habitação está reservada a morada das mulheres. Dinah apresentou-as com orgulho, se bem que elas sejam pouco prendadas pela beleza.

No pátio desta casa os escravos pilam o milho miúdo. Inútil dizer que estes escravos são mulheres, porque em África um indígena sentir-se-ia desonrado se fosse condenado a este género de trabalho. A quarta casa continha os abastecimentos de arroz e milho, bem como o local reservado aos estábulos. Dinah tem um cavalo, aliás possante e raro, e quase desconhecido nesta costa de África. Enfim, a quinta casa composta pela sala da Justiça e as prisões. Atravessando o pátio, o rei mostra-nos os poços onde o seu pessoal se abastece de água; vemos seguidamente a cisterna. É Dinah quem guarda a chave do cadeado da cisterna para se precatar de qualquer tentativa de envenenamento.

Na sua imaginação bárbara, Youra, o predecessor de Dinah, tinha inventado suplícios que inspiravam terror a todo o povo. Um desses suplícios, que ainda se praticava há pouco tempo, consistia em prender o supliciado no momento da maré-baixa a um porte no rio; quando subiam as águas, o infeliz via pouco a pouco a água chegar à boca que ele se esforçava por fechar, o nível da água, entretanto subia, invadia as narinas provocando uma asfixia lenta.

Dinah Salifou tinha sucedido ao seu tio Youra, conforme o costume que rege os direitos da sucessão. O filho mais velho de um irmão de Youra, um certo Tocha, primo direto de Dinah procura contrabalançar o prestígio do rei e ganhou adeptos que parecem ser em grande número entre os chefes Nalus. A influência moral de Tocha supõe-se ser mais forte que a do primo e Dinah, sem o apoio que lhe dá França, estaria provavelmente há muito tempo destronado. Os dois primos detestam-se, admite-se que pode haver atentados de um contra o outro (e o Capitão Brosselard conta duas histórias de tentativas dos primos em matarem-se).

Voltando ao relato na primeira pessoa, o Capitão Brosselard, que tinha curiosidade em ver frente-a-frente os dois, convidou-os a almoçar no mesmo dia em Samiah. No dia aprazado, perto das dez horas os cânticos barulhentos dos músicos que marcam a cadência aos remadores anunciaram a chegada da embarcação real, no mastro flutuavam as cores francesas. Dinah veste com aparato, traz uma espécie de estola de veludo coberta de bordados a fio de ouro; avança com passadas comedidas, com a gravidade que convém a um grande rei. Tocha chega por sua vez; o seu primo apresenta-o e expõe os laços de parentesco existentes.

Na sala de jantar cada um toma o lugar à mesa. Dinah senta-se no lugar de honra, à sua frente senta-se o Tenente Clerc, com o qual Dinah conversa em inglês. O rei tem boa figura, tem o aspeto de um europeu bem-educado, maneja com facilidade a faca e o garfo. Tocha é mais hesitante, antes de levar a comida à boca observa os seus vizinhos para os imitar. Na conversação, Dinah, por cortesia com o chefe da missão, recorda factos agradáveis sobre o General Faidherbe quando ele foi Governador do Senegal; são lhe dadas notícias do general, o rei mostra satisfação em voltar a vê-lo se puder visitar a exposição em 1889.

Durante este período em que a minha coluna está imobilizada em Samiah para recrutar carregadores, tive o prazer de percorrer o rio Nuno e de recolher informações sobre a situação presente e o passado deste rio.

É com esta descrição que iniciaremos o texto seguinte.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.
Uma das muitas imagens da Exposição Universal de Paris de 1889, referida na conversa entre o rei dos Nalus e o Capitão Henri Brosselard

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 8 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28164: Historiografia da presença portuguesa em África (534): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26916: Notas de leitura (1808): Lembranças do que foi o Museu da Guiné Portuguesa (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Janeiro de 2025:

Queridos amigos,
Quando visitei este museu pela primeira vez, confesso que fiquei desconsolado com a rusticidade museográfica, tudo exposto um tanto a monte, nada de quadros explicativos, bem quis adquirir uma qualquer brochura, não existia. Estou em crer que o museu criado em 1947, por empenho pessoal do 2.º Tenente Teixeira da Mota era muito mais frequentado por quem fazia parte do Centro de Estudos e quem colaborava no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. O acervo patrimonial terá sido recolhido por administradores e doadores, uma coisa era certa, impressionava pela alta qualidade dos panos e pelas esculturas Bijagó e Nalu, afinal aquelas que se impõem ainda hoje ao gosto de quem aprecia e até coleciona arte africana. Se, porventura, o leitor dispuser de documentação sobre este museu bem podia mostrá-la, ficaríamos assim com uma visão mais ampla deste museu que mudou de significado em outubro de 1974, o seu acervo andou em bolandas, deploravelmente. Temos pelo menos duas belíssimas coleções em museus, o Museu Nacional de Etnologia e o Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Um abraço do
Mário



Lembranças do que foi o Museu da Guiné Portuguesa

Mário Beja Santos

Esqueci a data precisa, ou 31 de julho ou 1 de agosto de 1968, quando entrei no Museu da Guiné Portuguesa, que não passava de um museu etnográfico, no mesmo local onde funcionava o Centro de Estudos e a administração e redação do Boletim Cultural da Guiné-Portuguesa. Fora uma criação ao tempo do Governador Manuel Sarmento Rodrigues, 1947, quem ativou todo este empreendimento foi um seu adjunto, Avelino Teixeira da Mota. A legislação idealizara um acervo de outros patrimónios e até um arquivo histórico, este só apareceu em 1970. Completamente ignorante dos valores artísticos do que estava a visitar, registei na memória os panos manjacos e as esculturas Nalu e Bijagó. Na única vez que visitei Nova Iorque, fui ao Museu Metropolitano, que tem uma organização totalmente diferente dos nossos museus, a sequência cronológica é coisa que não existe naquele património, tinha visitado uma sala pomposa de um califa de Bagdade, segui para a sala seguinte, era dedicada a arte africana, e andando por ali a ver escultura e a procurar entender a documentação conservada em vitrinas, chamou-me a atenção um caderno de viagens de um Rockfeller que andara na África Ocidental e fizera aquisições, aí pela década de 1930, deixara escrito no seu caderno que ficara fascinado pela “suprema genialidade” de umas esculturas de um povo chamado Bijagó.

Durante a comissão, ainda em Missirá, recebi um aerograma do Comandante Teixeira da Mota com o pedido de falar com o régulo e em Bambadinca saber se havia um Sónô à venda (cetro das chefaturas, é uma haste de ferro com mais de um metro de comprimento tendo na extremidade superior um processo escultórico, podem ser quatro braços ou uma estatueta), em caso afirmativo que eu pagasse o que eles pediam ou então que fizesse regateio. Bati a várias portas, sem qualquer sucesso. Tinha visto, de facto, as tais hastes de ferro com elementos escultóricos no museu em Bissau, olhei para aquilo tudo como boi para palácio. Como há anos dei conhecimento aqui no blogue, encontrei num catálogo de leilões da Christie’s sobre arte africana, Sónôs com licitação inicial de alguns milhares de euros.

Chega-me agora às mãos um inventário feito no início da década de 1960, o seu autor é omisso nas considerações artísticas ao que inventariou, diz que o museu tem caminhado muito modestamente, que as instalação são muito precárias e o seu conteúdo insuficiente, e que este inventário sirva de ponto de partida para futuros empreendimentos; e despede-se com uma exultação nacionalista: que o museu mostre às gentes que o visitarem o valor de uma civilização luso-tropicalista que só os portugueses podem mostrar ao mundo.

Sumariando a apresentação que ele faz, ficamos a saber:
- Os Balantas estão representados por cestos e arados;
- Os Bijagós por cocharros, cabaças, sais de ráfia, redes de dormir, um tambor cilíndrico de madeira, lanças, machados, pulseiras; as suas artes plásticas são muito expressivas, e ali bem documentadas por um casal de garças, representação de cão, galo, tocador de bombolom, pássaros, missionários, bajudas, canoas, um dançarino da vaca bruto, um tubarão e um homem caçando um pelicano;
- A etnia Brame ou Mancanha tem a representá-la colheres, cabaças, chapéus e esteiras;
- A etnia Felupe apresenta cenas de fanado e danças;
- A etnia Fula tem em exposição cabaças, colheres, barretes de fio de algodão, ornatos para despentear o cabelo, pilões, banquetas, sachos, machados, raspadores, enxós, instrumentos musicais, bastões de madeira ornamentados com anéis e placas de alumínio;
- A etnia Mandinga apresenta ventarolas, peças forradas a couro, ourivesaria de prata e filigrana, adornos, korás e aparece um Sónô com o comentário que é uma haste de ferro com o comprimento de 1,23 metros, na extremidade superior tem 4 braços laterais, encimados por campânulas de bronze e no topo encontra-se uma estatueta de bronze representando um camelo com arreios;
- A etnia Manjaca: cestos, panelas, panos, esculturas de pessoas e tambores;
- A etnia Nalu: também com cestos, esculturas, tambores, a árvore da vida (estilização de dois pássaros de madeira de poilão), máscaras, o icónico Ninte-Camatchole (representação do Deus do fanado, ensina os iniciados da circuncisão a conhecer os companheiros do fanado) e máscaras;
- A etnia Papel: cestos, bancos, panos tecidos com fio de algodão, enfeites e adornos, grupos escultóricos e arados;
- A etnia Saracolé (apresentada no Atlas Missionário como um ramo dos Mandingas): representada por panos;
- A etnia Sosso (também apresentados como um ramo étnico Mandinga): têm em exibição redes de pesca.

É este o conteúdo do inventário, não passa de uma lembrança, porventura acontecimentos tumultuosos vividos na Guiné-Bissau, como a guerra civil, levaram ao desaparecimento deste património artístico; pela sua localização privilegiada, mesmo ao lado do Palácio Presidencial, na Praça dos Heróis Nacionais, o museu foi parar ao INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, naquele edifício está hoje a Primatura (gabinete de trabalho do primeiro ministro).

Edifício do Museu da Guiné Portuguesa, década de 1960
Benumbé (visto de lado)
Benumbé, arte Nalu, a mesma peça que a anterior noutra perspetiva
Incauelá, arte Nalu
Esculturas antropomórficas, arte Nalu
Duas peças de arte Bijagó e um chocalho de ferro de arte Papel
_____________

Nota do editor

Último post da série de 9 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26902: Notas de leitura (1807): "A Independência da Guiné-Bissau e a Descolonização Portuguesa", por António Duarte Silva; Afrontamento, 1997 (3) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26508: As nossas geografias emocionais (45): Regresso em 2007, a Bocana Nova, e a Impungueda, no rio Cumbijã, na região de Tombali (Henk Eggens, médico holandês cooperante, em Fulacunda e Bissau, 1980/84)


Foto nº 1 > "O Nhinte-Camatchol, escultura nalu, que tenho na minha casa em Santa Comba Dão".



Foto nº 2 > Guiné- Bissau  > Regiáo de Tombali > Catió > Tabanca de Bocana Nova > s/d (2007 ?) > "Centro dc saúde construído nos anos 80, pelo holandês Steven van den Berg", companheiro do nosso Henk Eggens.



Foto nº 3 _ Guiné- Bissau  > Região de Tombali > Catió > Tabanca de Bocana Nova > 2007 > "Foi no final de 2007 que visitámos Bocana Nova. A população reconheceu o meu amigo Steven e a esposa e passámos bons momentos no 'jumbai' ".



Foto nº 4 > Guiné- Bissau  > Regiáo de Tombali > Catió > Tabanca de Bocana Nova > 2007 >  "O Steven e o régulo de Tombali". Acrescentou o Steven, na sua língua materna (aqui traduzida para português): "O Rei de Tombali sente-se extremamente honrado por agora até os maiores inimigos do passado terem podido tomar nota dos feitos inesquecíveis na forma de desenvolvimento da economia local, da saúde e da educação. Obrigado, S.".




Foto nº 5 > Guiné- Bissau  > Região de Tombali > Catió > Tabanca de Bocana Nova > 2007 >  Avenida Holanda... As palmeiras   foram plantadas por meu amigo quase 30 anos antes e cresceram bem!"


Foto nº 6 > Guiné- Bissau  > Região de Tombali > Catió > Impungueda > 2007 > "Em Tombali, no extremo sul da Guiné-Bissau, com as águas presentes sempre, como no porto de Impungueda, no rio Cumbijã" (vd. carta de Bedanda, 1956, escala 1/50 mil).

 

Fotos (e legendas): © Henk Eggens (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do nosso amigo, Henk Eggens (foto atual a seguir),   grande amigo da Guiné-Bissau, meu colega holandês (ou neerlandês), especialista em medicina tropical e saúde pública, que vive, aposentado, em Portugal, em Santa Comba Dão, e é o administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês ou holan
dês) (*). 

Já há tempos o convidei para integrar a nossa Tabanca Grande. Esteve em Fulacunda e Bissau, na primeira década de 80, como médico. Tem um grande conhecimento e carinho por aquela terra e suas gentes. É casado em segundas núpcias com uma luso-brasileira, sua colega da saúde pública global, Tem um excelente domínio do português, escrito e falado (sua primeira língua estrangeira, a par do inglês). 



Assunto - Nhinte-Camatchol

Data - 17/02/2025, 16:07 (há 1 dia)
 
 
Olá,  Luís,

Gostei da publicação do poema (teu?) "Quem disse que a Guiné-Bissau não tem futuro?", publicado no blogue de 16-2-2025 (*). 

É um poema tipo 'verso livre' no estilo dos poetas americanos Walt Whitman e Allen Ginsberg. Cheio de otimismo, esperança e valorização do povo guineense. É bem preciso este encorajamento num momento de crise política profunda. Dia 28 de fevereiro terminará o mandato do atual presidente da Guiné-Bissau, Sissoco. Parece que não tem nenhuma ideia para sair do poder e convocou eleições para novembro de 2025!

Gosto da fotografia da obra de arte nalu no blogue. Tenho uma escultura igual em casa (foto nº 1), junto com um flamingo de Moçambique. 

Meu companheiro Steven (holandês) trabalhou na região de Tombali nos anos oitenta. Construiu centros de saúde na província, um deles na aldeia de Bocana Nova (Foto nº 2). 

Conhecia o escultor destas estátuas, o Sr. Nfalde Câmara naquela aldeia. O artista produziu várias cópias destes pássaros mágicos em madeira. Imagina minha surpresa quando vi uma cópia no museu Aliança Underground Museum de Berardo, em Sangalhos! E percebi, pelo  blogue, que funcionou como símbolo no Simpósio  Internacional de  Guiledje em 2008.

Foi no final de 2007 que visitámos Bocana Nova. A população reconheceu o meu amigo e esposa e passámos bons momentos no 'jumbai' (Fotos nºs 3 e 4) . As palmeiras nas imagens foram plantadas por meu amigo quase 30 anos antes e cresceram bem! (Foto nº 5) Tudo no Tombali, no extremo sul da Guiné-Bissau, com as águas presentes sempre, como no porto de Impugueda.(Foto nº 6)

Os números correspondem aos títulos das fotografias em anexo.

Se achas oportuno, podes publicar o texto e as fotografias.(**)


AB Henk

____________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de  16 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26501: Manuscrito(s) (Luís Graça) (265): Que o Nhinte-Camatchol, o Grande Irã, te proteja, Guiné-Bissau!

(**) Último poste da série > 16 de fevereiro de 2025 > 
Guiné 61/74 - P26500: As nossas geografias emocionais (44): A Fulacunda do meu tempo (José Claudino da Silva, "Dino", ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART /BART 6520 / 72, Fulacunda, 1972/74) - Parte III

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26501: Manuscrito(s) (Luís Graça) (265): Que o Nhinte-Camatchol, o Grande Irã, te proteja, Guiné-Bissau!




Lisboa > Museu Nacional de Etnologia > Peça de santuário e toucado de dança, "A-Tshol". Baga Nalu, Guiné-Bissau. MNE, AO.335. (Patente na Exposição "Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário. O Colonialismo Português em África: Mitos e Realidades" )(*)


Que o Nhinte-Camatchol te proteja, Guiné-Bissau, Tabanca Grande

por Luís Graça


Quem disse que a Guiné-Bissau não tem futuro ?
Não fui eu, que pouco valho,
não foi o dari,
que não tem seguro de acidentes de trabalho.
Nem de saúde.

Quem disse que o futuro não passa por aqui, amiúde ?
Não, não foi o macaco fantango,
que trabalha sem rede,
e não tem protecção no desemprego.
Nem o desgraçado do macaco-cão
que vai à mesa do rico e do pobre
como se fora leitão da Bairrada.
Nem o mandinga, bom negro,
tocador de cora,
que se foi embora,
em busca de outro chão,
livre do som da Kalash.

Quem disse que Deus, Alá e os bons irãs
não montaram morança nesta terra ?
Não foi o muntu,
não foi o tucurtacar pangolim,
não foi a rapaziada do Bairro do Quelélé,
não foi o fula nem o nalu,
não foram as aves do Cantanhez,
não foram os homens grandes do Gabu.
não foi o tuga, nem foste tu nem fui eu.

Ah!, como está ainda bem longe, Cabral, o ideal
 por que lutaste e morreste, uma vez,
tantas vezes,
tu e tantos outros combatentes da liberdade da pátria.
Nada que tu não saibas,
lá no Olimpo dos deuses e dos heróis,
ou não soubesses já, cá na terra dos homens,
que a História é fértil em exemplos de efeitos perversos,
de revoluções que devoram os seus filhos...

Tudo isto, para te dizer
que eu ouvi os jovens do teu país cantar o teu hino,
no antigo acampamento, a "barraca" Osvaldo Vieira,
nas matas do Cantanhez,
com o mesmo fervor do que quaisquer outros jovens
noutras partes do mundo,
em Portugal, em Cuba, na China,
na América, no Brasil ou em Angola ...
Pelo menos os teus sabiam a letra,
a tua letra, e até a música que foi composta pelo Sr. Xiao He,
um obscuro chinês, do tempo do maoísmo.

Quem disse, afinal, que a Guiné não tem futuro ?
Se não o foi macaco fidalgo,
foram os teus inimigos,
os de fora e os de dentro,
os teus filhos bastardos
e os filhos bastardos de outras nações.
Os que dizem mal de ti,
que te querem comprar
a preço de saldo,
e que te arrastam pela lama do tarrafo.
E que dizem que és um narco-Estado,
e que vives da caridade internacional.
e que já não tens fé, nem caridade, nem esperança,
nem voz, nem lágrimas para chorar.
Que já não tens alma nem salvação nem pudor.
E que Cabral morreu e está enterrado,
na antiga fortaleza colonial da Amura.

Os teus jovens,
os teus músicos,
o Furkuntunda,
o Anastácio di Djens,
grande senhor,
os teus poetas,
os teus artistas,
os teus artesãos,
as tuas televisões comunitárias,
as tuas rádios locais,
o teu novo Lamparam,
o teu Bombolom digital,
e até os centros de saúde no mato,
são a prova da tua grande vitalidade,
engenho, imaginação, talento,
alegria, nobreza,
criatividade, espontaneidade,
afabilidade, hospitalidade,
vontade de vencer o círculo vicioso da pobreza.
Do teu povo, Guiné,
de Norte a sul,
dos Bijagós às Colinas do Boé,
de Iemberém ao Quelélé.

Eu acredito em ti, país-irmão.
Eu quero acreditar em ti, Guiné,
eu quero remar contra a maré do cinismo
inimigo tão mortal
como o mosquito do paludismo.

Eu acredito nas tuas mulheres,
empreendedoras e corajosas,
que montam fabriquetas de descasque de arroz,
ou que, em casa, fazem o seu óleo de palma
e o seu chabéu, e o seu sabão.
E ainda têm tempo para ir à pesca e ao mercado
e para cuidar dos teus meninos.

Eu acredito, no talento dos teus jovens, criativos,
como o Grupo de Teatro Os Fidalgos.
Eu acredito ainda na força telúrica
e na generosidade dos homens (e mulheres)
que lutaram, por ti,
no Como,
em Cassaca,
em Cadique,
em Madina do Boé,
no Morés,
em Gandembel,
em Guileje,
em Guidaje,
no Fiofioli,
na Ponta do Inglês,
no Choquemone,
em Sinchã Jobel.
Com as armas na mão
e com as ideias e os valores na cabeça.
Para que tu fosses livre e independente,
e fosses justa e fraterna.

Enfim, uma Tabanca Grande,
grande como a bolanha de Bambadinca,
outrora verde e prenhe de arroz,
e aonde iam apascentar os búfalos.
Uma Tabanca Grande
onde cabe o Muntu e o Nalu,
os homens grandes e as mulheres grandes
e as meninas que um dia não precisarão da faca da fanateca.
Onde cabem os teus frondosos poilões
e as vaidosas cabaceiras.
Para que os teus filhos, Guiné,
tenham a merecida paz,
todos os dias do ano,
a liberdade, a justiça,
o milho, o arroz e a mandioca,
o mafé e o chabéu
com que se mata a fome e se sonha e se dança.
Enfim, a dignidade
a que os teus filhos têm direito
no seio da Mãe África
e do resto do mundo globalizado.

Ah!, a paz, a tão frágil paz
que leva tanto tempo a consolidar,
e o tão suspirado progresso que não chega,
ou que é tão lento, desesperadamente lento,
ou só chega para uma meia dúzia de privilegiados,
a nomenclatura do poder e do dinheiro...

Mas para isso, terás que fazer a ponte com o passado.
Mas para isso não poderás ignorar
nem escamotear os marcos
(de sinal mais e de sinal menos)
do passado,
bem como as raízes das lianas
e dos poilões da tua guineidade.

Como te imploram os teus filhos,
não queiras chorar mais, Guiné!
N ka misti tchora mas!
Faz das tuas lágrimas
a força do macaréu da tua revolta e do teu ânimo
que te ajudarão a abrir a Picada do Futuro,
a construir o Novo Corredor do Povo,
a Nova Estrada da Liberdade.
Que eu só desejo que seja
tão grande, larga e fecunda
como os teus rios míticos,
do Cacheu ao Cumbijã, do Geba ao Cacine.
Ou tão límpidos e belos e selvagens como o Corubal.

E que o Nhinte-Camatchol,
o grande irã, te proteja,
Guiné, Tabanca Grande.


Simpósio Internacional de Guileje
Iemberém, 1-2 de março de 2008 | Bissau, 2-7 de março de 2008
Lisboa, 30 de março e 2008 | Revisto, 16 de fevereiro de 2025

Luís Graça








Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Grafito com o desenho nalú do irã protetor da tabanca, o Nhinte-Camatchol, e que fez parte do logótipo do Simpósio, organizado pela AD -Acção para o Desenvolvimento, o INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesqusias, e UCB - Universidade Colinas do Boé. Foi impresso nas t-shirts e pintadfo numa parede das instalações da AD em Iemberém.

 O Pepito escolheu, e não foi por acaso, a escultura nalu do Nhinte-Camatchol como "mascote" do Simpósio Internacional de Guiledje (2008). Na altura escrevi este longo poema em que pedia a proteção do grande irã para os nossos amigos e irmãos da Guine-Bissau. Aqui vai, em versão revista (**).
 
O Pepito morreria quatro anos depois. O Nhinte-Camatchol  (no nosso Museu Nacional de Wtnologia chamam-lhe  o A-Tsgol...) não protegeu o Pepito, que sacrificou muito da sua saúde, segurança e "qualidade de vida" (suas e da sua família) pelo seu povo. 

Esperemos que Deus, Alá e os Grandes Irãs protejam aquela terra que continuamos a amar, e os nossos amigos que lá vivem. Eles merecem. E que o exemplo do Pepito continue a ser inspirador, para eles e para nós. Foi pelo Pepito (1949-2012) que voltei à Guiné, m 2008, vencendo traumas da guerra.

O Nhinhe Camatchol é uma escultura dos nalus do Cantanhez usada na festa do fanado. Representa uma cabeça de pássaro com rosto humano, sendo a mensagem aos participantes deste ritual de iniciação à vida adulta a seguinte: que todos eles passam a considerar-se como verdadeiros irmãos, mais verdadeiros que os próprios irmãos biológicos. O que deve ser entendido como a afirmação do interessse coletivo, comunitário, acima do interesse dos indivíduos e das famílias. Orginalmente esta máscara não poderia ser vista pelos não iniciados, sob pena de morte (Campredon, Pierre – Cantanhez, forêts sacrées de Guinée-Bissau. Bissau,Tiguena. 1997, pp. 32-33).

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados.[Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]
______________

Notas do editor ÇG:

/*) Vd. poste de 15 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26499: Os 50 Anos do 25 de Abril (35): Lisboa, Belém, Museu de Etnologia, até 2/11/2025: Exposição "Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário. O Colonialismo Português em África: Mitos e Realidades" - Parte II


(**) Último poste da série > 30 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26326: Manuscrito(s) (Luías Graça) (264 ): Volta sempre, Irmão Sol