sábado, 26 de dezembro de 2009

Guiné 63/74 - P5542: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Novo Ano 2010 (22): Editores


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional de Cantanhez > Iemberém  > 9 Dezembro de 2009 > 15h50 > Fatango ou macaco fidalgo vermelho.

Foto: © João Graça (2009). Direitos reservados.


1. Votos de boas festas do Carlos Vinhal, em nome da equipa editorial do blogue, enviados a toda a rede da Tabanca Grande, em 23 do corrente:

Caros camaradas e amigos Tertulianos

Venho, em nome dos editores,  desejar que os nossos amigos tertulianos tenham um Natal em família com muita alegria. Também que o Novo Ano seja a concretização daquilo que 2009 deixou por fazer.

Saúde para todos, principalmente para os menos novos, e algum dinheiro para gastos. Amor, tanto quanto possível.

Em 2010 cá nos vamos aguentar rabujentos, como convém, mas sempre amigos e camaradas, porque estas qualidades nada as destruirá.

Um abraço colectivo que abranja todo o Portugal continental e Ilhas, a Suécia, a República Checa, a Holanda, a Alemanha, o Brasil, os EUA, o Canadá, a Guiné-Bissau e todos os países onde haja tertulianos na diáspora.

Para todos, tudo de bom.

Carlos Vinhal, em nome dos editores (*)

E-mail: carlos.vinhal@gmail.com

Co-Editor dos Blogues
Luís Graça & Camaradas da Guiné
http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/
e
CART 2732
http://cart2732.blogspot.com/

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Nota de L.G. (em férias...natalícias):

(*) Vd. poste anterior desta série: 26 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5539: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Novo Ano 2010 (21): Padre Mário de Oliveira

Guiné 63/74 - P5541: Memória dos lugares (61): Mais notícias da Cart 2410 (2) (Luís Guerreiro)

1. O nosso Camarada Luís Guerreiro, ex-Fur Mil do 4.º Gr Comb da CART 2410 e mais tarde do Pel Caç Nat 65, Ganturé, 1968/70, e que desde 1971 reside em Montreal, no Canadá, enviou ao Luís Graça a seguinte mensagem:

Mais notícias da Cart 2410 (2)

Camaradas,

Envio mais algumas notícias da Cart 2410, com fotos de Ganturé e de Gadamael, aonde chegámos nos fins de Setembro de 1968.Em 21 de Junho de 1969, seguimos para Guileje, tendo eu, nessa altura, sido transferido para o segundo e o quarto grupos de combate.O resto da companhia ficou aí definitivamente colocada, no dia 26 do mesmo mês.

Além das fotos, envio também a lista dos militares que embarcaram no navio Uíge, em 11 de Agosto de 1968 (3 páginas), bem como a lista das operações que executamos e dos ataques que sofremos nestes dois aquartelamentos (2 páginas).

2. A mensagem enviada pelo Luís Guerreiro, trazia anexas 5 páginas e 16 fotografias, o que, para publicar num só poste, se tornaria demasiado “pesado” e pouco prático para “carregar” no blogue. Assim, partiu-se o material enviado em dois postes, tendo-se apresentado no poste P5540, a lista dos militares que embarcaram no navio Uíge, em 11 de Agosto de 1968 (3 páginas) e a lista das operações que executou a CArt 2510 e dos ataques que sofreram nos dois aquartelamentos (2 páginas).

Neste poste publicam as 16 magníficas e bem conservadas fotos:


7- Último almoço do quarto grupo de combate em Ganturé


8- Quarto grupo de combate


9- Gadamael

10- Gadamael

11- Gadamael, abrigo morteiro 81 mm

12- Cruzamento de Guileje, coluna de Gadamael , transporte obus 11,4 cm, em 19 de Março de1969

13- Coluna para Guileje, 19 Março de 1969

14- Coluna, subida depois do cruzamento 19 Março de1969

15- Coluna 19 Março de1969, obus 14 cm existente em Guileje

16- Guileje, granadas do obus 14 cm

17- Guileje, junto ao obus 14 cm, eu e Furriel Mourato (já falecido)

18- Visita do general Spínola a Gadamael, em T-shirt branca, é no nosso capitão Amilcar Cardigos

19- Visita do general Spínola às novas moranças em Gadamael

20- Cais de Gadamael, eu e o alferes Jerónimo

21- Gadamael, furriéis da Cart 2410 e do Pel.Fox 2085, comendo ostras e umas cervejas a acompanhar

22- Gadamael, messe de sargentos

Para a próxima começarei em Guileje.

Um abraço,
Luis Guerreiro
Fur Mil da CART 2410 e Pel Caç Nat 65

Fotos e legendas: © Luís Guerreiro (2009). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P5540: Memória dos lugares (60): Mais notícias da Cart 2410 (1) (Luís Guerreiro)


1. O nosso Camarada Luís Guerreiro, ex-Fur Mil do 4.º Gr Comb da CART 2410 e mais tarde do Pel Caç Nat 65, Ganturé, 1968/70, e que desde 1971 reside em Montreal, no Canadá, enviou ao Luís Graça a seguinte mensagem:

Mais notícias da Cart 2410

Camaradas,Envio mais algumas notícias da Cart 2410, com fotos de Ganturé e de Gadamael, aonde chegámos nos fins de Setembro de 1968.Em 21 de Junho de 1969, seguimos para Guileje, tendo eu, nessa altura, sido transferido para o segundo e o quarto grupos de combate.

O resto da companhia ficou aí definitivamente colocada, no dia 26 do mesmo mês.

Além das fotos, envio também a lista dos militares que embarcaram no navio Uíge, em 11 de Agosto de 1968 (3 páginas), bem como a lista das operações que executamos e dos ataques que sofremos nestes dois aquartelamentos (2 páginas).

2. A mensagem enviada pelo Luís Guerreiro, traz anexas 5 páginas e 16 fotografias, o que, para publicar num só poste, se tornaria demasiado “pesado” e pouco prático para “carregar” no blogue. Assim, partiu-se o material enviado em dois postes, sendo que neste primeiro se apresentam a lista dos militares que embarcaram no navio Uíge, em 11 de Agosto de 1968 (3 páginas) e a lista das operações que executou a CArt 2510 e dos ataques que sofreram nos dois aquartelamentos (2 páginas).

No segundo poste publicar-se-á as 16 fotos.

1. Guião da companhia (CArt 2410)
2. Lista dos militares da CArt 2410 (1)

3. Lista dos militares da CArt 2410 (2)

4. Lista dos militares da CArt 2410 (3)


5. Lista das operações e ataques (1)


6. Lista das operações e ataques (2)

Um abraço,
Luis Guerreiro
Fur Mil da CART 2410 e Pel Caç Nat 65

Páginas e legendas: © Luís Guerreiro (2009). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:


Guiné 63/74 - P5539: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Novo Ano 2010 (21): Padre Mário de Oliveira

1. Mensagem natalícia do Padre Mário de Oliveira, ex-Alf Mil Capelão,  CCS/BCAÇ 1912 (Mansoa, 1967/68) (*):

Olá! Venho partilhar convosco a  minha mensagem de natal e dizer-vos que este natal de 25 de Dezembro de cada ano não é, nunca foi, nunca será, o natal de Jesus.

Com o rato, fazei copiar sobre o endereço abaixo e transportai-o para a página do Google. Colocai-o no local, ao alto, para endereços de páginas, e clicai ENTER.

Aparecer-vos-ei num pequeno vídeo que acabo de colocar no youtube. Sabeis bem que vos amo com todas as minhas forças. Vosso irmão, Mário.

http://www.youtube.com/watch?v=TIAmTTZJ2CM

2. O Mário de Oliveira publicou também neste último trimestre.. E escreveu-nos a seguinte mensagem, em 20 de Ouubro último:

Venho até Vocês com a minha alegria e a minha paz. Também com a minha gratidão.

Foram muitas as pessoas que, no dia 17 Outubro 2009, vieram ao Barracão de Cultura à apresentação do meu “livro póstumo”, e que vibraram com ele.

Uma dessas muitas pessoas, a residir no Concelho de V. N de Gaia, já me fez chegar um e-mail com este pequenino mas eloquente testemunho: “Mário: Só agora pude comunicar para te dizer o quanto foi importante para todos nós Aquela Tarde APOCALÍPTICA que jamais esquecerei. Já ofereci 4 livros. Quando cá vieres traz mais. Vou informar-me junto do grupo das datas possíveis para nos encontrarmos. Um infinito Xi-coração”.

O Escritor Luandino Vieira, emocionado do princípio ao fim, esteve inexcedível. O Actor Júlio Cardoso leu pausadamente trechos do NOVO LIVRO DO APOCALIPSE OU DA REVELAÇÃO. Em muitos momentos, com a voz embargada e as lágrimas emocionadas a brilharem nos seus olhos. A representante da Editora Areias Vivas, Maria Fernanda Alves, mais parecia uma menina dançante de alegria. E não escondeu toda a saudável reviravolta interior que o Livro está já a provocar na consciência dela, da sua irmã Zi, e do ilustrador da capa, Nuno Pedreiro.

Rodrigo Filipe, presidente da Direcção da Associação As Formigas de Macieira que abriu a Sessão, esteve na Mesa, transfigurado do princípio ao fim. E eu, já com um certo toque de ressuscitado, desfiz-me, nem eu sei como, em cantos e palavras maiêuticas, em abraços e beijos, em autógrafos e sorrisos de liberdade. Nunca mais a vida de alguém será a mesma, depois deste livro entrar nela. Por isso, havemos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, para que o livro chegue a pessoas de todas as nações, até aos confins do Mundo.

Dos 500 exemplares do livro que, pessoalmente, assumi vender, cento e poucos “voaram” nesta Sessão de apresentação. O livro já se encontra nas principais livrarias do país. Chegará também a Angola e Moçambique. E ao Brasil. Se, porém, o adquirirem directamente a mim ou ao Barracão de Cultura As Formigas de Macieira, o dinheiro que entregarem por cada exemplar é todo para o Barracão, já que não há intermediários e a própria Editora faz questão de prescindir de qualquer percentagem sobre estes 500 livros que eu vender. O livro, com 670 páginas, custa 19 euros (não pôde ser menos). Se for enviado pelo correio, acrescem mais 2,50 euros de despesas do envio (envelope almofadado + franquia postal), o que perfaz um total de 21 euros e 50 cêntimos. O pagamento pode e deve ser feito por transferência bancária, a partir de uma caixa multibanco, para este NIB:  0007 0000 00775184231 23

Conto (e o Barracão de Cultura também) com a generosidade e a solidariedade de todas, todos Vocês.

A concluir, permito-me fazer minhas as palavras de Luandino Vieira: Este “livro póstumo” do Mário não é para se ler e depois arrumar na estante. É para andar sempre connosco, para onde quer que a gente vá. Não há versículo nenhum do livro, mesmo se aberto ao acaso, que nos deixe na mesma, pois sempre nos diz a palavra certa que precisamos de ouvir, naquele momento, para prosseguirmos na vida, como Humanos.

Façam, pois, quanto antes, as vossas encomendas. E indiquem o endereço postal para onde querem que o(s) livro(s) seja(m) enviado(s).

Fico na expectativa, cordialmente abraçado a cada uma, cada um de Vocês.

Mário, vosso irmão.
 
3. Comentário de L.G.:
 
O Mário de Oliveira é amigo pessoal da Alice que, neste Natal, encomendou cinco exemplares do supracitado livro para oferecer aos amigos.  O Mário foi pároco na freguesia de Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, depois de regressar da Guiné (*). Sobre o livro que de que já li algumas largas de dezenas de crónicas, limito-me para já a dizer o seguinte: Para os crentes, a palavra de Deus é só uma, mas há muitas maneiras de a ler e interpretar. O Mário é um homem que merece o meu respeito pela sua coerência, despojamento, coragem e frontalidade. É, juntamente com o Arsénio Puim, os dois únicos ex-capelães militares que pertencem ao nosso blogue.  Desejo-lhe as nossas melhores saudações bloguísticas. Votos de saúde e paz para 2010.  Um Alfa Bravo. Luís
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Nota de L.G.:

(*) Vd. postes de:

12 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1946: Estórias de Mansoa (2): um capelão em apuros na estrada de Cutia (Aires Ferreira)

Vd. ainda postes de:


27 de Junho de 2005 > Guiné 60/71 - LXXXV: Antologia (5): Capelão Militar em Mansoa (Padre Mário da Lixa)

14 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCL: Capelão militar por quatro meses em Mansoa (Padre Mário da Lixa)

17 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXV: Foi em plena guerra colonial que nasci de novo (Padre Mário de Oliveira )

8 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1825: Mário de Oliveira, na Feira do Livro de Lisboa, dia 9 de Junho de 2007

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Guiné 63/74 - P5538: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Novo Ano 2010 (20): Uma saudação muito afectuosa para todos os guineenses (Beja Santos)


Luis e Carlos,

Reparem nas tonalidades suaves, na delicadeza da dança juvenil, na ave de Picasso, no batuque acolhedor, no viço do pó d'osso. Só a nossa Guiné podia ter selos que falam tão vibrantemente da paz e reconstrução, sonho profundo de suas gentes.

Juntemos as nossas esperanças e sonhos com os dos guineenses, nesta quadra.

Uma saudação muito afectuosa para toda a Guiné-Bissau, são os meus ardentes votos do Mário Beja Santos

Guiné 63/74 - P5537: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Ano Novo 2010 (19): Mensagens da tertúlia


Guiné > Região de Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968 >  Feliz Natal... "Este é mais outro aerograma que descobri. Mandei-o, pelo Natal, em 1968. O que eu quis transmitir é que eram natais de morte e que o que procurava era esquecer, dando de beber à dor".

Dizeres do aerograma: "Querida irmã e cunhado, um Natal feliz e que o Ano Novo seja sepre melhor que o anterior. António Manuel... Uma ginginha!.. Pois dar de beber à dar é o melhor"...

Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Direitos reservados

1. Continuamos a receber na nossa antiga caixa de correio (luisgracaecamaradasdaguine@gmail.com ) mensagens de boas festas de diversos amigos e camaradas da Guiné, em geral acompanhadas de belíssimos cartões (alguns animados) ou em formato ppt.

Na impossibilidade de as reproduzirmos, a todas, aqui ficam os nossos agradecimentos e o nosso apreço aos seguintes membros da nossa Tabanca Grande ou simples leitores (*):

Aires Ferreira e Fátima
Alberto Silva
Alexandre Coutinho e Lima
Álvaro Basto e Filomena
Amílcar Ventura
Antero Santos e família (Mª Fernanda, Alexandra, Cátia, André e Andrezinho)
António Graça de Abreu
Artur Conceição
Carlos Cordeiro
Carlos Silva
Fernando Santos
Filomena Sampaio
Francisco Palma
George Freire
Hugo Guerra
Jaime Bonifácio Marques da Silva
João Carvalho
Jorge Teixeira (Portojo)
José Moreira (Associação Humanitária Memórias e Gentes)
José Manuel Lopes e Luísa Valente (Quinta Sra. da Graça)
José Teixeira
Lia Medina
Luís Dias
Manuel Augusto Reis
Manuel Oliveira
Mário de Oliveira (Padre)
Mário Fitas
Paulo, Conceição e Paula Salgado
Pedro Neves
Vasco Ferreira
Victor Barata
Victor Garcia
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Nota de L.G.:

(`*) Vd. último poste dest série > 24 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5527: Votos de feliz Natal 2009 e Bom Ano Novo 2010 (18): Patrício Ribeiro, pai dos tugas em Bissau... (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P5536: O Meu Natal no Mato (29): Sorrisos de Natal há 40 anos em Canjadude (José Corceiro, CCAÇ 5 - Gatos Pretos, 1969/71)
















Guiné  Zona Leste > Região de Gabu > Canjude (vd. carta de Cabuca) > CCAÇ 5 (Gatos Pretos) (1969/71) > População local: filhos provavelmente de militares, guineenses,  da CCAÇ 5 (uma unidade de recrutamento local), enquadrada por militares metropolitanos, de rendição individual, como o José Martis (Fur Mil Trms, 1968/70), o José Corceiro (1º Cabo Trms, 1969/71), o João Carvalho (Fur Mil Enf, 1972/74)... Um dos capitães da companhia foi o Pacífico dos Reis, de  quem aqui já publicámos alguns textos, por mão do José Martins.

Fotos:  © José Corceiro (2009). Direitos reservados


1. Mensagem do José Corceiro, ex-1º Cabo, CCAÇ 5 - Gatos Pretos, Canjadude (1969/71) (*):


Natal, festa de excelência do mundo cristão. Festa da família, do amor, da paz, da união, das prendas e lembranças, da solidariedade, dos abraços, dos sorrisos, da confraternização, da luz e da esperança.

Façamos da vida um Natal permanente… Basta por vezes um olhar mais atento e carinhoso, um sorriso mais leal e consolador, um toque de conforto e tranquilidade, uma palavra de paz e esperança, uma doação do pouco que não nos faz falta, uma ajuda que para nós nada representa. Isto é Natal.

Quem não lembra os Natais da sua meninice?! Oh, que imensa saudade, eu tenho desses Natais, quando, na mais pura e cândida inocência, acreditava no Pai Natal, e ao acordar de manhã, corria para a chaminé, na esperança de que não se tivessem esquecido de mim. Oh! Quão feliz eu ficava ao ver as minhas botas cheias de prendas.

Coisas simples, uma moedinha dois ou cinco tostões, uma laranja, um chocolate, uns rebuçados, umas galhetas, um par de meias, umas luvas e camisola de lã, feitas pelas mãos mágicas da minha ditosa Mãe. Eu tentava esboçar uma desconfiança e dizia:
-Não foi a mãe que fez esta camisola?

Ela, no seu tom terno e doce, com um sorriso franco e acolhedor, respondia:
- Ai…! pois fui lá agora eu!

Eu fechava os olhos e continuava a sonhar e a acreditar. Como eu era feliz nesses tempos?! Não desejava o que não conhecia. Fui cresci e, sem que me apercebesse, a inocência foi-se desvanecendo e as desilusões e amarguras da vida, sem pedirem licença, foram-se instalando e manifestaram-se, deixando as suas marcas, mas eu continuo a sonhar, a crescer e aprender, tenho esperança.

Lembro com saudade e nostalgia os Natais da minha adolescência, Natais, simples, sem ostentação, onde não faltava o calor humano o conforto da família. Havia farturas de filhoses, rabanadas, arroz doce, aletria, bolos de abóbora, o bacalhau cozido com couves que, particularmente, nesta noite era uma delícia, era a ceia de consoada. Mimos feitos com tanto carinho e dedicação porque em casa o Natal era devoção, família, partilha e alegria.

Havia o calor da lareira envolvente e acolhedor, os sinos do campanário da minha aldeia tocavam ecoando os seus trinados por toda a povoação a convidar à união e oração. Lembro, as palavras amigas dos vizinhos e amigos a dizer "Natal Feliz", o frio, a neve, o presépio coberto de musgos serpenteado de veredas e carreiros, por onde se movimentavam as figurinhas de barro que iam adorar e levar prendas ao Deus Menino, o madeiro (cepo) a arder no adro para aquecer o Menino Jesus que toda a aldeia em fila ordenada ia beijar e adorar dentro da igreja da minha terra. Faltando o gesto de beijar o menino, o Natal perdia o encanto e magia. Havia harmonia, prendas, alegria, era NATAL, abraço de família.

Há três Natais que recordo com muita tristeza e melancolia:

(i) O Natal de 2007, difícil pelo sofrimento e abundância de saudades e dor, porque me faltou a prenda mais desejada, a minha Querida MÃE, que uns dias antes quis partir; faltaram todos os mimos e iguarias que minha mãe, diligentemente, com simplicidade e carinho, confeccionava; até os toques do sino da aldeia foram ruído para os meus ouvidos;

(ii) O Natal de 1969 e 1970 passados em Canjadude, Guiné, onde tive muitas saudades e tristeza: foi muito difícil...

Faltou-me a envolvência da minha família, faltaram-me as iguarias que a minha mãe tão terna fazia, faltou-me o calor da lareira acolhedor e consolador, faltou-me o som melodioso do repenicar dos sinos da minha aldeia, faltou o frio, a neve e o agasalho, o presépio, faltou o madeiro a arder no adro, faltaram-me os carinhos e afectos de mãos tão prendadas, assim para mim não era Natal.

Havia muito calor, muita insegurança, muita distância do lugar onde eu tinha nascido e onde tinha aprendido a gostar do Natal. Recusava-me a aceitar assim o Natal. Faltava a paz e os meus braços, não eram suficientemente grandes, para poder abraçar família militar tão numerosa:

Caps: Pacífico dos Reis, Ferreira Oliveira, Gaspar Guerra, Silveira Costeira;

Alfs: Gomes, Martins, Melo, Neves, Luís, Afonso de Sousa, Varela, Gago, Sousa, Silva;

Sargs: Paulino, Santos Rodrigues, Farinha, Cipriano (enfermeiro, a luta ceifou-lhe a vida);

Fur: José Martins, Antunes, Caldeira, Borges, Sá, Germano, Albino, Alves, Ramos, Moreira, Cardoso, Mário, Oliveira, Felizardo, Agostinho, Pena, João Purrinhas (perdeu a vida mina anti-carro entre Canjadude e Nova Lamego), Silva, Caetano, Laminhas, Costa, Carvalho, Gil, Gonçalves, Rito;

Cabos : Dionísio, (que eu substitui), Alex, Loupa, Carvalho, Rogério, Silva Trans., Silva, José Carlos Freitas(jogador do V. Guimarães), Graça, Cóias, Pinto, Faria Trans., Faria, Lúcio, Gaspar, Esteireiro, Nora, Viriato, Costa (cripto), Dinis (perdeu a vida mina nati-carro entre Canjadude e Nova Lamego) António Manuel, Ferro, Alves, Dias, Ramos, Vieira, Fernandes, Sado, Leitão, Monteiro, Marques, Pedro, Domingos, Gomes, Anjos, Mendes, Luís, Malhada, (foi no mesmo dia que eu fui para a companhia), Morais, Gonçalves, Almeida, Costa, Santos, Seabra, Montóia(jogador do Leixões), Lima, Mendes, Moura, Azevedo, Oliveira, Verissimo, Carmo, Fernandes, Rodrigues, Augusto, Romano, Pimenta, Zé (condutor), Magalhães, Sebastião, Morais, Leite, Leitão, Zé Batachão, Vergílio (condutor), Jorge (condutor), Fidalgo, Saldanha, Salazar;

Solds: Mané, Sanjo, Baba, Cholé (alfaiate);

1º Pelotão: Saliu, 70, Mama, Bojel, Pira, Malan, Lidi, Jamanca, Banamo, Mamadu Baldé;

2º Pelotão: Fali Baldé, Milício, Mamasaliu;

3º Pelotão: Samba, Felupe, Ussamané, Braíma, Sájo, Carpala, Mussá, Lourenço, Ossamané Bupiro, Ossamané Buaró, Carfala;

4º Pelotão: Paté Imbaló, Meta, Totala, Sajuma, Mamadú, Braíma, Canta, Canja, Mamadú Baldé, Malan;

Comandos: João Ceide (extremamente dedicado e seguro), Lunta, Gibril, Mamadú;

Outros militares que não sei em que pelotão estavam: Saju (padeiro), Opa, Baba (limpeza de armas), Samba Sisé (mecânico), Baba Gali (cozinheiro), Alin Combaco, Baba (cozinheiro), 615 (morteiro), Primo (morteiro), 416, Mamada Jamanca, Malan Jamanca, Ada Macundé, Banamu Ceide, Tijane, Manga, 819, Sucaro Nhoqué, Fali, Mama Salu Dambu, 348/63, Bané, Costa Pereira, Tripa (quem não se lembra dele), Benfica, Samba, Paté, Sané Mané, Bacar Baldé, Demba Baldé, Mamadu Alain Sané, Aruna, Mili, Mamadu Fati, Mili Braima Sané, Mili Braima Mané, Mili Candy, Adulo Baldé, Diaja.

E quem pode esquecer os miúdos da Companhia, acho que nem família tinham, eram como que mascotes, o Júlio que aprendia mecânica o Binta, o Mamassal(Marchal) que era o moço dos recados.

De Certeza que muitos foram esquecidos, sobretudo nativos, não foi por menos consideração ou estima, a outros poderei ter trocado o posto, mas o mesmo respeito, é natural que em nomes haja erros ortográficos, pois foram registos que eu fiz na época, sem recurso a documentação, só por audição.

Nos 25 meses que estive em Canjadude, fizeram parte da CCaç 5, todos estes militares, era de rendição individual, ainda que os militares nativos fossem, praticamente, sempre os mesmos. Esta foi a grande família GATOS PRETOS, do meu tempo, porque há mais, (eu estive entre Junho 1969 a Julho 1971) estivemos todos no mesmo palco, irmanados pela mesma causa.

Para todos um ABRAÇO de NATAL. Feliz Natal a todos.

José Corceiro

P.S. - Caso publiquem as fotos o titulo pode ser: SORRISOS DE NATAL HÁ QUARENTA ANOS EM CANJADUDE, GUINÉ

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Nota de L.G.:

(*) Vd. poste anterior, 25 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5535: Tabanca Grande (196): José Corceiro, ex-1º Cabo Trms, CCAÇ 5 (Gatos Pretos) (Canjadude, 1969/71)

Guiné 63/74 - P5535: Tabanca Grande (196): José Corceiro, ex-1º Cabo Trms, CCAÇ 5 (Gatos Pretos) (Canjadude, 1969/71)


1. Mensagem de José Corceiro, com data de 22 do corrente:

Assunto - Pedido de passaporte

Lisboa, 22 de Dezembro de 2009

Boa tarde, Luís Graça:


Sou José Manuel Silva Corceiro, fui 1º Cabo Transmissões, Nº Mec. 01213568, estive na Guiné, Maio 1969 / Julho 1971, integrado (em rendição individual) na CCaç  5, Gatos Pretos, Canjadude.

Sou natural de Vale de espinho, Sabugal, nascido a 28 de Agosto 1947 e moro em Lisboa, na Rua Pascoal de Melo Lisboa, Tel. 213560809.

Venho solicitar que me assinem o passaporte, para poder entrar no convívio da Tabanca Grande. Tentarei dar o meu modesto contributo duma maneira cordial e responsável, respeitando a opinião e direito de cada um.


Não posso deixar passar a oportunidade, que tenho, para felicitar toda a equipa pelo excelente trabalho. É digno de admiração, o sacrifício, dedicação e tenacidade, com que se empenham, para dar corpo consistente ao Blogue, e para satisfazer a sede e o desejo deste colectivo, Tabanca Grande. Bem-haja. Agradecer e felicitar, também, os tertulianos, pois já me deliciei com alguns postes. Obrigado.

Sinto embaraço, tendo Net há tantos anos, como é que só recentemente descobri este dinamismo magnífico (Blogue) que contribui para nos aproximar, expor emoções, conhecimento, e libertar tensões. (Singela opinião, acho que devia haver uma colecta para poder publicitar o Blogue).

Eu tropecei nele acidentalmente. Foi obra do acaso, ao fazer uma busca, abro uma página e dou com o camarada, ex-furriel, José Martins, que foi meu furriel de transmissões na Guiné. Contactei-o, pois não tinha contactos, e graças aos bons serviços dele e ao seu timbre de disponibilidade, facultou-me uma listagem que já me permitiu dialogar com amigos do meu tempo de Guiné.

Durante quase 40 anos, só tive um contacto com um amigo que esteve comigo, e já foi há 30 anos. A rendição individual era pródiga na consistência de laços afectivos continuados, cada qual tinha o seu tempo efectivo (timing), vinha um de cada vez, rara era a vez que vinham dois em simultâneo, éramos relativamente poucos.

A todos os desejo um Bom e Santo Natal. Boa saúde. Um abraço.
José Corceiro

P.S. - Mando em outro e-mail a minha história.

2. Comentário de L.G.:

Meu caro Corceiro: Interpreto esta mensagem (ainda para mais, natalícia) como um pedido (formal) para ingresso na Tabanca Grande. Mandas incluisve as duas fotos da praxe, um antiga, da época de 1969/71 em que foste Gato Preto, e outra actual. Não tens que pedir desculpa a ninguém por só agora nos encontrares. O blogue tem vindo a crescer naturalmente, desde 2004, mercê da força dos testemunhos dos amigos e camaradas da Guiné, bem como da publicidade "boca à boca".

Aqui tens o passaporte...Sê bêm vindo, junta-te a esta outra grande família, onde há gente de outros tempos e lugares... De Canjadude e dos Gatos Pretos (CCAÇ 5), lembro-me, para já, de dois dos mais antigos membros do nosso blogue, o João Carvalho (ex-Fur Mil Enf, 1972/74) e o José Martins (ex-Fur Mil Trms, 1968/70). O Jpão Carvalho, um conhevcido wikipedista, e hoje farnacêutico, já qui nos descreveu a sua última (e tensa) noite em Canjadude, na altura da transferência de soberania para as mãos do PAIGC: vd. poste, I Série, de 4 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCV: A última noite em Canjadude (CCAÇ 5) (João Carvalho). Foi também o João Carvalho que nos facultou letras do Cancioneiro de Canjadude, que tu deves conhecer... O José Martins, por sua vez, é presença habitual no nosso blogue, uma verdadeira formiguinha baga-baga, sempre solícito e atento, que dispensa apresentações...

Sê bem vindo, para mais neste dia de Natal de 2009, em meu nome, e em nome dos restantes editores, o Carlos Vinhal, o Eduardo Magalhães Ribeiro e o Virgínio Briote. E, naturalmente, em nome dos demais camaradas que integram este espaço de partilha de memórias e de... afectos. Já conheces as nossas regras de convívio. Espero que te dês bem por cá. E que por cá fiques muitos anos... Claro, haveremos de nos conhecer ao vivo, unm dia destes. Para já, daqui do Norte (Madalena, Vila Nova de Gaia), onde passo sempre o Natal, um abraço natalício e bloguístico para ti. Luís Graça
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Nota de L.G.:

(*) Vd. poste anterior desta série:

19 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5502: Tabanca Grande (195): Ernesto Ribeiro, ex-1.º Cabo da CART 2339, Mansambo, 1968/69, contacta de novo o nosso Blogue

Guiné 63/74 – P5534: Histórias do Eduardo Campos (1): CCAÇ 4540, 1972/74 - Somos um caso sério (Parte 1): Do Cacheu ao Cantanhez


1. O nosso camarada Eduardo Ferreira Campos, ex-1º Cabo Trms da CCAÇ 4540, Cumeré, Bigene, Cadique, Cufar e Nhacra, 1972/74, enviou-nos em 22 de Dezembro, a primeira da sua série de histórias que nos prometeu ir enviando nos próximas dias.

Camaradas,

Depois de ler com muita assiduidade as histórias que diariamente são publicadas no Blogue e tendo eu também algo para contar, sob a minha passagem pela Guiné, chegou a hora de compartilhar convosco algum do material guardado no “disco duro” da minha memória:


CCAÇ 4540 – 1972/74 – SOMOS UM CASO SÉRIO

PARTE 1

No dia 28 Agosto 1972, teve início no Regimento de Infantaria 15 (RI 15), em Tomar, a concentração do pessoal que constituiria a Companhia de Caçadores 4540. Na sua grande maioria, os militares eram oriundos do Norte do País, sendo de realçar a presença de alguns que vieram de França, para cumprirem o Serviço Militar.

Foi-nos concedido o gozo de uma licença de 2 semanas, após a qual o pessoal da Companhia, se foi apresentando novamente no RI 15, tendo-se procedido á Cerimónia de Bênção e Entrega do Guião à Companhia no dia 15SET1972, seguido de um desfile das tropas, na parada do Regimento.

Às 02h00 do dia 19 desse mesmo mês, a Companhia embarcou em autocarros, em Tomar, dirigindo-se para o aeroporto de Lisboa, onde o pessoal transitou para um avião dos TAM (cerca das 09h00), após o que levantamos voo rumo aos céus da África Ocidental.

Após quatro horas de voo bastante confortável, durante as quais imperou a boa disposição, já que a quase totalidade do pessoal realizava a sua primeira viagem aérea, aterramos no Aeroporto de Bissalanca. Procedeu-se então ao desembarque, perante um calor tórrido e sufocante,  próprio das regiões equatoriais.

Terminadas as formalidades habituais destas rotinas, procedeu-se ao transporte dos militares e respectivas bagagens, numa coluna de viaturas com destino ao Cumeré onde ficamos instalados. No dia 22SET1972, de manhã, fomos chamados para uma formatura geral, a que se seguiu o desfile da Companhia recém-chegada, perante o Brigadeiro Silva Banazol que proferiu algumas palavras de boas-vindas. Nesse mesmo dia segui para Bissau, com destino ao Regimento de Transmissões, onde estive cerca de 15 dias a fazer o chamado IAO.

Terminado o IAO, houve lugar a nova formatura geral no dia 17OUT1972, desta vez frente ao General António Spínola, Governador e Comandante-Chefe das Força Armadas do CTIG. A 18OUT1972, a Companhia partiu do Cumeré com destino ao porto de Bissau, onde se procedeu ao nosso embarque na LDG BOMBARDA, rumando á terra “prometida”, Bigene. 

E assim, lá fomos rio acima (Cacheu) desembarcando numa localidade chamada Ganturé, onde nos esperavam os camaradas da CART 3329, que iríamos substituir. Era notável a alegria com que nos receberam, tendo-nos em seguida transportado para Bigene (cerca de 6 ou 7 km), onde deparamos com vários dísticos e cartazes alusivos à chegada da nova Companhia de periquitos, espalhados pelas paredes e pela rua principal, cheios de humor e ironia.


Foto 1 – Bigene: Junto aos brasões das Companhias que por lá tinham passado





Foto 2 – Bigene: O descanso do “guerreiro” junto ao posto de rádio



Foto 3 – Bigene: Com um amigo de ocasião



Foto 4 – Bigene: De vez em quando dava para tomar banho



Bigene era bastante povoada, com gentes de várias etnias,  predominando os Fulas e os Balantas, havendo ainda bastantes Mandingas. A população europeia, além dos militares e do administrador de Posto, era praticamente inexistente, havendo apenas 1 português que era proprietário de uma casa comercial. Haviam mais 3 casas comerciais, propriedades de 3 libaneses.


No posto sanitário de Bigene acontecia algo que eu considerava surpreendente, que era receber e tratar populares do Senegal, que atravessavam a fronteira para receberem tratamento médico. Ao mesmo tempo, esta gente aproveitava para comercializar os seus produtos no mercado local.

No dia seguinte, começou o treino operacional em conjunto com a CART 3329, cuja finalidade era adaptar e capacitar o pessoal em situações operacionais semelhantes às que iria encontrar nas suas futuras actividades dentro do sector atribuído à Companhia. É de salientar que ainda no período de treino operacional a 23OUT1972, se ter verificado o 1º contacto de fogo com o IN, mesmo junto ao marco fronteiriço que separava a Guiné/Senegal.

Só me apercebi que a palavra guerra fazia aqui todo o sentido, quando saí pela primeira vez para o mato e assisti à implantação de um campo de minas, e algumas armadilhas, na zona Samoge-Sambuía.O primeiro baptismo de fogo aconteceu a 24OUT1972, próximo de Nenecó, sem consequências. O PAIGC pelas informações que tínhamos, não tinha estruturas dentro do subsector de Bigene, nem se encontrava implantado no mesmo.

Partiam de bases situadas no Senegal, principalmente em Kumbamori, crê-se que utilizando as variantes do corredor de Sambuiá, para “cambar” o rio Cacheu, transportando material e mantimentos até ás margens do rio Cacheu, que procuravam atravessar em canoas e botes de borracha, para o interior do território, sendo, por vezes, surpreendidos pelos fuzileiros que se encontravam em Ganturé.

Terminado o período de sobreposição com a CART 3329, foi transferida por esta Companhia, para a nossa, toda a responsabilidade administrativa e operacional. No dia 15NOV1972, a CART 3329 terminou a sua comissão e despediu-se de Bigene.

Foi com muita emoção que os vimos partir, após um convívio comum de quase um mês, passado naquela localidade. Passou, desde então, a nossa Companhia a dar cumprimento às missões que lhe foram atribuídas, executando as directivas do COP 3. Uma semana depois recebemos a noticia que iríamos ser transferidos para Sul, sendo substituídos pela CCAÇ 3 e, de novo, lá fomos na LDG BOMBARDA.

Estávamos no dia 09DEZ1972, rio Cacheu abaixo, destino: Cadique/Cantanhez.


Foto 5 – A bordo da LDG “Bombarda”, com o João Pinto – Enfermeiro -, a caminho do Cantanhez


No dia 12DEZ1972, cerca das 08h00, avistamos pela primeira vez, terras do Cantanhez. Lugar onde parecia haver calma e paz, coisa que, ali, jamais encontraríamos.

Navegava-se lenta e demoradamente, connosco atentos a qualquer coisa suspeita, como se adivinhássemos a todo e qualquer momento o… imprevisto.

Posso afirmar que todo o pessoal, que até então tinha mantido um aparente estado de serenidade e bom equilíbrio psíquico, que evidentemente estava muito longe de existir na realidade, em cada um de nós, começava a exteriorizar-se através dos primeiros sintomas de medo, angústia e desespero, que se denotavam, nitidamente, nos nossos rostos. Tais sinais iam-se agravando, conforme se avançava no rio, e mais nos aproximávamos da zona que sabíamos de alto perigo.

A tomada de consciência desta crua realidade, que era “A EXISTÊNCIA IMINENTE DE PERIGO REAL DE MORTE”, despoletou em nós, instintivamente, a exigência da máxima vigilância a eventuais movimentos estranhos nas margens, que nos rodeavam, e a necessária manutenção do silêncio.

Chegados ao porto, onde se previa o desembarque, e mal a lancha alcançou terra firme, “A NOSSA TERRA PROMETIDA”, sem perda de tempo começaram a sair vários grupos de combate, para manter as seguranças, afastada e próxima, a fim de que o desembarque se fizesse sem grandes receios.

Logo que nos sentimos em terra do Cantanhez e nos familiarizamos com o lugar, onde iríamos “vegetar” durante quase uma dezena de longos e difíceis meses, tudo em nós se voltou a suavizar e a aparentar a habitual e perdida serenidade.

Finalizamos o desembarque sem percalços de maior, eram cerca de 09h00, (com o apoio da Força Aérea e dum bi-grupo da CCP 121), começando-se logo a trabalhar para instalarmos de imediato o pessoal, numa área que reunia as condições mais apropriadas á futura construção do aquartelamento.

Os primeiros dias da instalação do pessoal da Companhia foram penosos, em virtude de não existir nenhuma estrutura de que a tropa pudesse tirar partido, para implementar o seu futuro estacionamento.

Apenas existia uma mata exuberante, compacta e de difícil penetração, e algumas tabancas dispersas e ocupadas por população da área, predominando os velhos e as crianças. A pouco e pouco foi-se desbravando a mata e procedendo-se à colacação estratégica de todas as secções do Comando da Companhia e dos Grupos de Combate.

É de salientar o trabalho efectuado pela Força Aérea, Marinha, Pára-quedistas e outras forças, que dias antes do desembarque “limparam a zona” e acredito que só assim não tivemos problemas durante o desembarque, já que a região era considerada zona libertada pelo PAIGC.

A Companhia acabou por ter uma adaptação bastante boa e depressa se conformou com a sua sorte existencial “SITUAÇÃO DE TOTAL CARÊNCIA”. Todas estas operações tiveram o nome “GRANDE EMPRESA”, visando a recuperação do Cantanhez e, na hora do desembarque, compareceu o General Spínola, que acompanhou de perto o desenrolar das actividades no terreno.

Foto 6 – Cadique: Tratando da higiene das mãos


Foto 7 – Cadique: A mata começou a ser desbravada



Foto 8 – Cadique: A Bandeira já havia, vendo-se ao fundo os chalés “com ar condicionado”



Foto 9 – Cadique: Um abrigo também já havia



Foto 10 – Cadique: O que será feito destes jovens?


Após os primeiros dias de porfiado esforço,  dispendido na montagem do estacionamento, começaram os nossos Grupos de Combate a tomar contacto com o terreno, acompanhados por Grupos da CCP 121. Foi de grande utilidade para os nossos militares a observação do modo como se comportavam, e da preparação com que a tropa especial pára-quedista foi dotada para este tipo de guerra. Muito se aprendeu realmente no convívio estabelecido, dentro e fora do aquartelamento, entre os militares de ambas as  Companhias.

Os primeiros contactos com o IN foram obra da CCP 121, a qual nos transmitiu teoricamente os modos de actuação e as estratégias utilizadas pelo IN, e a sua estrutura de carácter militar, naquela zona operacional.

A situação sanitária era razoável, mesmo considerando as precárias as condições de higiene que se viveram nos primeiros tempos do baseamento da Companhia.

As condições climáticas eram as mais adversas.  A situação logística foi muito precária nos primeiros meses de vida no Cantanhez.  As nossas condições de adaptação foram melhorando, à medida que se foi desmatando a floresta, com a abertura de poços, a construção de um heliporto e de um cais.

À medida que o reordenamento foi evoluindo, começou Cadique a tornar-se uma povoação de fisionomia completamente diferente, permitindo assim beneficiar, em muitos aspectos, a população local e a tropa, nomeadamente, no que respeita a melhoria das instalações.

O agrupamento de Cadique ficava situado na península formada pelos rios Cumbijã e Cacine, no Sul da Guiné, o terreno é plano, dividindo-se em dois planos de carácter bem distintos: por um lado a bolanha e, por outro, a mata densamente arborizada.

A configuração do sector apresentava-se do seguinte modo: a Norte era delimitado pelo Rio Bixanque, que desagua no Cumbijã, a Sul pelo rio Macobum, a leste pela mata do Cantanhez até ao entroncamento de Jemberem, e, a Oeste, pelo rio Cumbijã.

Os dois mais importantes itinerários eram, na época, a via fluvial do Cumbijã e a via terrestre, que ia de Cadique a Jemberem (que quando lá chegamos era uma picada secundária), e, quando de lá saímos, era uma estrada principal e que ia entroncar na picada principal que vinha de Cabedu.

O principal aglomerado populacional era Cadique Nalú, existindo ainda, além dele, outro de menos importância que se chamava Cadique Imbitina (a cerca de 2,5 Km). Mais para Norte, existia um outro importante aglomerado populacional,  Cadique Iala. O quartel acabou por se construído em Cadique Imbitina.

Na época, o principal recurso desta zona era, sem dúvida, o arroz em virtude das enormes bolanhas, que existiam ao longo de todo o rio Cumbijã. Outro recurso que não era explorado, era a pesca no rio Cumbijã, que me pareceu ser rico em variedades de peixe e de crustáceos.

A população civil era quase toda de etnia Balanta, encontrando-se também alguns (poucos) Nalus. Mostrou-se a princípio muito pouco receptiva à presença da tropa e bastante temerosa.

À data, não existia população europeia além dos militares, mas, segundo informações colhidas na zona, teria existido alguma antes do início das hostilidades, que se sentiu obrigada a abandonar a localidade em virtude do agravamento da instabilidade.

Nesta zona iríamos sofrer bastante. Parecia-nos mais um lugar paradisíaco do que um campo de batalha, mas, dias mais tarde, iríamos ter a oportunidade de ver e sentir a triste e fatal realidade.

O pior estava para vir: o inferno da construção da estrada Cadique/Jemberem.

Um abraço Amigo,
Eduardo Campos
1º Cabo Trms da CCAÇ 4540



Fotos: © Eduardo Campos (2009). Direitos reservados.

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Notas de M.R.:

Este é o primeiro poste desta série "Estórias do Eduardo Campos".