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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28236: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (45): O último candando

Portugal > s/ l > s/ d>  Tasca do Jacinto, retornado. Início da primavera, tempo de favas. Dois homens na casa dos setenta e muitos anos conversam à mesa, um copo de vinho tinto, um cesto de pão e um prato fumegante de favas suadas com chouriço e coentros. A luz entra pela janela, criando um ambiente quente e nostálgico. Ao fundo, uma parede caiada com fotografias antigas e um relógio parado. Estilo de aguarela realista, cores suaves, atmosfera de memória, amizade e passagem do tempo.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: O último candando (conto de Luís Graça, 2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


O último candando

por Luís Graça


− Eu era capaz de oferecer o meu lugar no reino dos céus por um prato de favas suadas!... Antes que se faça tarde…

− Tarde ?!... Estás com maus pressentimentos, ou quê  ? O que queres dizer com isso, Arsénio?... E, por favor, não blasfemes…

− Calma, senhor provedor, não invoquei o nome de Deus em vão… Também andei na catequese como tu, embora em África…

− Mas o teu catecismo não era o mesmo que o meu, aposto… 

− Olha, a mim quem me dera saber se tenho um lugar reservado no céu…

− É com essa que Deus nos trama… Mantém o suspense até ao fim… 

− Ah!, ah!, para ti, António, está mais do que reservado!... Vais lá estar  de pedra e cal,  à direita de Deus Pai!...  

− Obrigado, Arsénio, mas não gosto falar dessas coisas... Que história é essa, afinal,  das favas ?!

− É o que me estava mesmo a apetecer agora, um prato de favas suadas…

− Abriste-me o apetite. Também já ia… E estamos em março, é a altura delas. Vamos almoçar ao Jacinto... 

− Boa ideia, alinho nessa... Pode ser que a santa da Bia nos arranje favas.

  Nem que seja um pires de favinhas, como entradinha, com coentros e chouriço de porco preto alentejano…

− Sabes, tenho medo de me esquecer como se chamava o prato de favas suadas feitas pela minha mãezinha, com tanto amor e carinho…

− Ah! , a nha Bertinha, de saudosa memória…

− … E sobretudo medo de esquecer a delícia do seu sabor, os cheiros do almofariz da nossa cozinha, enfim, as memória que me vêm dos tempos da meninice em Angola.

− Ó engenheiro!..., estás com a doença do Alemão, ou quê ?!...

−  Só Deus e os médicos é que sabem… A tal doença que nenhum de nós ousa nomear. Mas acho que ainda não a tenho, meu caro António…  Os neurónios  por enquanto estão no sítio...

− Mas quem te pode garantir que a não vais apanhar, a dita cuja?...

− Cruzes, canhoto!... A única coisa que me aterroriza, mais do que a morte, é perder a memória, a identidade... e alguns dos cinco sentidos, como o gosto, o olfato, o tato... E, já agora, a tusa...

− Terror por antecipação, Arsénio… Mas essas reminiscências da infância, quando recorrentes, dizem os entendidos, podem muito bem ser o primeiro sintoma precoce da doença do Alemão…

− Achas ?!...

− Disse-me há tempos a neurologista do Santa Maria, que me acompanha...  Lembras-te das favas suadas da senhora tua mãe que Deus já lá tem, mas não do que comeste ontem…

− Tens razão… E não me lembro mesmo!... Fora de brincadeira, dizem que para lá caminhamos todos…

− As demências ?!... A menos que apareça, um dia destes, a tal droga milagrosa que nos há de salvar da amnésia total…

− Já não será para os dias que me restam…

− Não sejas tolo, Arsénio... E depois, não vês o cancro ?!... Todos os anos saem novos medicamentos inovadores.  Confia em Deus e na Ciência.

− Ah!, a indústria da doença: quem entra num hospital, já de lá não sai… Há um cerco médico, vê o meu irmão: já não lhe bastava ter que fazer hemodiálise três vezes por semana… E quando estava para fazer o transplante, zás!, tocou o gongo dos setenta anos!.. Tiraram-no logo  da lista.... 

− ... e ele desistiu de viver. Uma crueldade...  

− Porra, António, morreu aos setenta, à espera de um rim!... Velho, com bilhete de identidade vitalício!... 

− É agora o que nós somos, meu amigo. Duplos VV,  velhos vitalícios...A mim também me puseram o carimbo, quando arrumei as botas aos setenta!

Mas a ti ainda te fizeram uma festinha…com direito a uma salva de prata e uns versinhos recitados pelas criancinhas…  

− Até houve balões, coisa que eu sempre detestei.

− E o que é que tu querias mais, meu velho e caro amigo, dr. António Queiroz, agora dedicado e piedoso provedor da Santa Casa da Misericórdia da nossa parvónia ?!

− Gratidão, verdadeira gratidão… E não reverência cínica!...  No último dia de trabalho, dão-te um chuto no rabo.

− Mas ergueram-te um busto, em bronze, ah!, ah!..

− …um mamarracho, piroso, que está lá no átrio… Por mim, bem o mandava para o ferro-velho!

− Não sejas tonto, António, custou uma nota preta!… A mim, nem isso, nem salva de prata, nem versinhos, nem balões…  

− Oh!, pá, mas ainda não morreste, que eu me tenha dado conta!... Ou sou eu que já estou com a doença do Alemão ?!

− Não, ainda não morremos, nem tu nem eu!...Felizmente!... Ou melhor, eu já morri, da minha primeira vida. Morte social, que não é menos cruel que a morte física que me espera, um dia destes…

− Morte social ?!... Dizes bem. Foi por isso que eu também nunca mais lá voltei, à  IPSS que ambos ajudámos a criar, a acarinhar,  a crescer. E tu ainda mais, Arsénio, que andavas na política, tinhas bons contactos em Lisboa e puxavas os cordelinhos, quando era preciso mais umas c'roas...

− Sempre a pensar no interesse da terra do meu querido pai... Mas poucos já se lembram desses tempos!… E, sem memória, não há gratidão!

− Dizes bem:  sem memória, não há gratidão!... Essa é outra forma de doença do Alemão, a que dá no povo…

− … ingrato,  abusador,  cobarde, 
o Zé Povinho. Ao vilão dá-lhe o pé, toma-te a mão... É incapaz de um candando, um abraço de gratidão! Só sabe fazer um manguito... nas tuas costas.

− Mas tu também não tens lá ido, à nossa IPSS, nem na festa de Natal ?!...

− Nunca mais lá pus os pés. A minha vida social acabou há muito, desde que larguei a política.  

− Lembro-me sempre do tipo que eu fui substituir, o dr. Veloso, o professor do Colégio… No dia seguinte, depois de deixar o cargo, deu-lhe a veneta, quis ir matar saudades e foi lá cumprimentar a criançada, a velhada, a gajada… Ele era a delicadeza em pessoa. 

− Quem, esse palerma ?!... Desculpa lá, já estava xexé...

− Sabes o que é que eu ouvi, sem querer (a porta do gabinete estava entreaberta), da parte de um grupinho de senhoras (educadoras, auxiliares e até a nossa antiga secretária e assistente social) ?

− Não, mas imagino…

− Estavam na galhofa, e a cochichar entre elas, deu para ouvir: “O que é que o filho da puta do velho está aqui a fazer?!”…

− Assim, sem mais nem ontem ?! Filho da puta ?!

− Isso mesmo, e ainda dizem que nós, os homens, é que somos ordinários… E toda a gente a saber que tinha sido ele, o meu antecessor, quem estabeleceu (ou melhor, propôs, em Assembleia Geral) o limite dos setenta anos para o exercício de cargos diretivos. 

− Das catraias era de esperar tudo, mas logo da nossa querida assistente social! … Afinal, António, quem vê caras, não vê corações…

Neste cenário faltava aqui eu, o terceiro pé da tripeça. Costumava encontrá-los, a estes "dois velhos marretas"  nos sítios habituais da pacata cidade de província onde então vivia: o barbeiro que falava mal de todos os governos, a tasca do Jacinto, o Café Central, o Museu Municipal, a Universidade Sénior, o Clube Náutico  e, claro, a IPSS, a associação privada de solidariedade social que era o orgulho da terra, e a que eles, os dois,  estiveram ligados desde a sua fundação.

Eu sabia da história de vida de ambos, mesmo sendo um estranho, para não dizer um “outsider”, chegado entretanto  do estrangeiro, mais exatamente do Luxemburgo, a minha segunda pátria.

O homem, o engº. Arsénio Marques, que temia a "doença do Alemão", o Alzheimer (sem nunca o nomear), morreu há pouco tempo. Não teve "funeral de Estado" mas o município  acabou por fazer-lhe uma discreta e cínica homenagem,  a título póstumo: numa sessão da assembleia municipal, foi aprovado por unanimidade  um voto de pesar pelo seu falecimento e foi-lhe atribuída  a medalha de ouro de mérito municipal.

  Tarde e a más horas, como se costuma dizer. Mas em Portugal é assim: a besta, na hora da morte, passa a bestial...

O outro, o dr. António Queiroz, que fora diretor da IPSS que geria várias creches, jardins de infância e lares de idosos em todo o concelho, e depois provedor da misericórdia local (o último cargo que exerceu, numa instituição mais virada para a saúde), está agora doente.  Sabia que sofria da doença de Parkinson, mas deixei-o de o ver, depois que passou a  residir  em Lisboa,  num lar da Misericórdia.

Ambos, o Arsénio e o António, eram do mesmo partido, mas com sensibilidades e experiências de vida muito diferentes.  O António era um típico advogado de província. E o Arsénio, bom...  É dele, de resto,  que eu quero falar: retornado, engenheiro técnico, empresário, autarca, dirigente partidário, figura grada da terra. 

Os seus mandatos como autarca a seguir ao 25 de Aril não terão sido pacíficos ou consensuais. A avaliação dependia muito das simpatias ou antipatias pessoais e partidárias. Diabolizado por uns, santificado por outros, não deixava ninguém indiferente.

A seu favor tinha a construção de todas as infraestruturas e equipamentos sociais que fizeram a terra dar "um salto para o século XX"… 

Abriu estradas e vias pedonais, pôs rotundas em todos os cruzamentos, construiu em altura na orla costeira, fez  a rede de saneamento básico, criou o parque industrial, ofereceu terrenos aos investidores de fora,  etc.  Ah!, e deu emprego a muita gente, na câmara e nos serviços municipalizados,  desenvolveu o turismo, etc. Em suma, "pôs a terra no mapa"... 
 
Os insultos grafitados nas paredes da câmara municipal irritavam-no solenemente… Chegou a contratar uma empresa de segurança para apanhar em flagrante delito os autores dos grafitos… 

Até tinha uma família, decadente mas ainda com brasão, de alcunha os "Távoras", que concitava os seus ódios de estimação por causa de um polémico processo de expropriação de terrenos.

 E com o padre da terra as suas relações também também eram de cortar à faca.  Um dia, o padre, que era dos tesos,    ostensivamente recusou  dar-lhe a comunhão quando soube que ele mantinha uma amante, mãe solteira, no concelho vizinho.

Só o conheci no ocaso da sua vida política. Era ainda um cacique à moda antiga... e perdia-se por um rabo-de-saia ou uma carinha laroca, diziam as más línguas.  Personalidade truculenta,  tinha uma frase lapidar, reveladora da sua repugnância quase atávica para o compromisso, a negociação e o consenso:

− Não se pode agradar a gregos e troianos, e quem os seus inimigos poupa, às mãos lhe morre.

Os pais do eng.º Arsénio Marques haviam-se conhecido em Cabo Verde. O pai fora expedicionário em São Vicente, durante a II Guerra Mundial. Cavador de enxada, tocador de concertina e poeta popular. A mãe era de Santo Antão, filha de pequenos comerciantes, neta de padre excomungado, e bisneta de um desterrado. 

Depois de cumprido o serviço militar, o pai do Arsénio fixou-se em Angola, empregando-se nos caminhos de ferro de Benguela. A mãe, depois de uns tempos no Continente,  aguardando a "carta de chamada", seguiu-lhe os passos. Ele nasceu em 1944. Foi a avó paterna, estremenha, que transmitiu à mãe, crioula, os segredos gastronómicos da família do continente, incluindo as famosas favas suadas.

Não sei muito da sua vida em África. Mas, perguntará o leitor: onde e como nos conhecemos, eu e o Arsénio Marques ?

Eu explico… mas primeiro tenho que falar um pouco de mim… Sou ribatejano da beira rio. Emigrei, "a salto", para o Luxemburgo, em meados dos anos 60, como outros jovens da minha geração, para fugir à tropa e à guerra colonial.  

Confesso que ainda hoje não sei por que razão é que escolhi uma  terra que não era minha, para voltar ao meu país natal e viver o meu último terço ou quarto de século de vida. Tinha sessenta e tal anos em 2009, uma razoável reforma (por comparação com os padrões portugueses da época) e umas boas economias (para quem tinha começado como eu a ganhar a vida como ardina…). Com isso comprei um apartamento à beira-mar, um T3  para receber filhos, netos e amigos e sobretudo poder contemplar o pôr-do-sol à beira do Atlântico com as Berlengas e o cabo Carvoeiro no horizonte.   

Fiquei viúvo relativamente cedo, aos 50 e tal anos. A mulher da minha vida morreu de cancro da mama. Era italiana, ou melhor napolitana.  

Tudo isto para explicar por que é que eu sou mais espetador do que ator, na terra que me acolheu, depois de regressar do Luxemburgo. Aqui estive ligado à animação sociocultural. E exerci, nos primeiros tempos, os mais diversos ofícios, tópicos do "imigra'  até chegar ... a autarca! 

Fixei-me nesta cidadezinha do Oeste Estremenho... Um dia, há muitos anos, vim cá com uma representação municipal e uma banda filarmónica.  Do meu município luxemburguês (que não  identifico, porque o país é uma aldeia). Na altura era aqui presidente da Câmara, o engº. Arsénio Marques. Estava no auge da fama, da glória e do proveito. 

Ele tratou-me muito  bem (a mim e aos meus munícipes). Ficámos amigos. Ou melhor, simpatizámos logo um com o outro. Desafiou-me a ficar ou a voltar, quando me reformasse. Ou sempre que me apetecesse.

No Luxemburgo sempre o tratei também muito bem,  fazendo jus à  tradição de hospitalidade do grão-ducado. Uma terra que ele também aprendeu a amar.  Sempre pusemos de lado as nossas diferenças políticas, ele situava-se mais à direita, eu mais à esquerda. Mas era um "charmoso", como dizia a minha mulher que ainda o chegou a conhecer.

Depois ele perdeu as eleições (ou já não podia legalmente concorrer a novo mandato, não sei ao certo). Ainda tentou uma carreira política a nível nacional, mas puseram-no na prateleira. 

Zangado com o seu partido, bateu com a porta e continuou a dedicar-se aos seus negócios.  E a comenda de Belém, que lhe haviam prometido,  nunca chegou em tempo útil, ter-lhe ia feito muito bem ao ego (e à saúde mental)...

No bom tempo, e graças aos amigos de Benguela, do Huambo e de Luanda, matou o galo da UNITA e engoliu o sapo do MPLA (quer dizer, a estrela,  que é bem  mais  indigesta)... Tinha amigos de um lado e do outro, gabava-se ele.

Fez alguns bons negócios, na área da engenharia, planeamento urbano e arquitetura, com um conhecido general que era do seu tempo de liceu, e considerado  um dos heróis da batalha do Cuito Canavale.

Também chegou a ter, a meias, com esse general, uma empresa de construção civil e obras públicas. Nunca falei muito com ele sobre esses tempos. Mas sei que o sócio passou-lhe a perna. E o capítulo de Angola acabou também por fechar-se na vida dele. 

Para mais, e para seu grande desgosto,  ele nunca chegara a conseguir obter a nacionalidade angolana,  apesar de lá ter nascido e vivido. Falava da sua terra com grande paixão e saudade.  

Sei que fez a tropa (e a guerra) na Guiné.  Não posso dar muitos pormenores, porque sou um zero à esquerda nessas matérias.  Julgo que  fora alferes miliciano e pertencera à arma da engenharia militar. 

Tanto quanto me lembro das nossas conversas, ele não deixava de simpatizar com o Amílcar Cabral, filho de pai cabo-verdiano. Mas achava um disparate a ideia de unidade entre a Guiné-Bissau e Cabo-Verde. 

 O Arsénio tinha uma costela cabo-verdiana, pelo lado da mãe que, garantia ele, era bisneta de uma escrava e de um desterrado... 

− E eu trisneto, com muita muita honra, sem qualquer complexo... Tive pena que Cabo Verde tivesse entrado, em 1975, na  paranoia da dipanda (#), a reboque  da demagogia do PAIGC. Arrepiaram caminho, anos mais tarde, que a euforia revolucionária  não enche barriga...
 
Eu aqui não quis comentar, nem nunca disse que tinha tido amigos cabo-verdianos que apoiavam o PAIGC no Luxemburgo... Depois meteram a viola no saco, quando se deu o golpe de Estado do 'Nino' Vieira, em 1989, se bem recordo... Foi o fim de muitas ilusões... "A segunda morte do pai das nossas nacionalidades", chorava um dos meus amigos que era cantor, com discos editados  na Holanda... 

Nos últimos anos, senti o meu amigo Arsénio Marques mais alquebrado, para não dizer deprimido:  o fogo do seu vulcão havia-se extinguido, e "a terra do seu pai" já não era mais a mesma para ele...  

Queixava-se que, no fundo, havia uma velha e surda discriminação contra os retornados e os mestiços, como ele. O seu antigo partido nunca mais recuperara o poder local, nem o antigo autarca era chamado para nada... O sonho de voltar a Angola estava cada vez mais distante, e em Cabo Verde também já não se sentia em casa, embora um dos seus filhos explorasse lá um pequeno hotel de charme.    Tinha outro filho, esse com uma prole numerosa, a viver em Roterdão, nos Países Baixos. 

O nosso convívio, por outro lado,  também se foi espaçando,  com o tempo, e com as viagens, a visitar filhos e netos... Mas a amizade ficou.  Pertencíamos a mundos muito diferentes, mas respeitávamo-nos.  Incentivei-o a escrever as suas memórias. Mas a escrita não era o seu forte. 

− Escrever, o quê ? Para quem ?... Sempre fui um homem de ação, não de  pensamento... Tu é que és um homem de letras... Sei fazer contas, de somar, subtrair e pouco mais...

Vi-o, pela última vez, na festa dos seus 80 anos. Moeu o juizo do Jacinto, e obrigou a Bia a fazer-lhe um muamba de galinha e um calulu. Tiveram que ir a Lisboa, ao Martim Moniz, abastecer-se dos produtos angolanos, que não havia na terra. Éramos uns vinte e tal à mesa. A tasca ficou por nossa conta.  E nada de gente graúda. Houve música de Cabo Verde, de Angola e até da Guiné-Bissau. Discursos, no fim, muito contidos. Nada de política. Fiquei com pele de galinha. E dei-lhe um caloroso candando, à despedida. Um "quebra-costelas", como dizem os alentejanos.

Divorciado, não tinha muitas amizades no fim da sua vida. O irmão caçula, antigo professor primário, esse, também já tinha partido. Para minha grande surpresa e desgosto, o Arsénio  suicidou-se com um tiro nas têmporas, na casa da amante.  Uma coisa premeditada. Na véspera, ainda me mandara uma mensagem, premonitória, por telemóvel: "Gostei de te conhecer. Um último candando" (##). 

Devia ter desconfiado. E ter-lhe telefonado. Não quis incomodá-lo. Nunca imaginei que ele pudesse fazer uma coisa dessas. Afinal, não foi a doença do Alemão que o matou. Prefiro, em todo o caso, pensar que  ele partiu para a sua última viagem, desencantado mas lúcido... Foi cremado, nos arredores de Lisboa. Eu e mais uns tantos amigos e conhecidos (um dúzia, se tanto) fomos-lhe retribuir o candando. O último.

Luís Graça
Agosto de 2026

Nota do autor: Qualquer semelhança com a realidade, é mera coincidência

(#) Dipanda, corruptela de indepência (de Angola).

(##) Candando, do quimbundo = abraço.
______________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 11 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28171: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (44): O país que via passar os comboios

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28197: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (53): o caldo de chabéu e o funge (receitas tradicionais)

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Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: LG + ChatGPT
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


Guiné-Bissau> Bijagós > Bubaque > Bijana > Chabéu. Foto: Patrício Ribeiro (2026)


1. O caldo de chabéu (também conhecido como
tchebem, em crioulo) é um prato tradicional da Guiné-Bissau, feito com a fruta da palmeira dendém.

Leva cerca de 1 hora e 30 minutos a preparar, à moda tradicional. Aqui fica uma sugestão de receita(s) para os nossos "vagomestres" (*).

Ingredientes

  • 500 g de chabéu (fruta do dendém)
  • 1 kg de carne (vaca), peixe fresco ou galinha
  • Raízes e vegetais a gosto (mandioca, sukulbebem, repolho/couve)
  • Temperos: cebola, tomate, alho, malagueta/gindungo e sal

Modo de Preparação 

(i) Cozer a fruta: coze o chabéu em água até que os caroços se comecem a soltar; escorre a água, guardando-a num recipiente à parte.

(ii) Esmagar: esmaga o chabéu num pilão até a pele e o caroço se separarem da polpa.

(iii) Extrair o caldo: passe a massa por água fria e coa num passador fino, espremendo bem. Volta a pilar e coar se necessário, até obter um caldo grosso e vermelho.

(iv) Preparar a carne/peixe: Num outro tacho, refoga a cebola, o tomate e o alho; junta a carne (ou peixe/galinha), tempera com sal e gindungo, e deixa estufar.

(v) Juntar tudo: adiciona os vegetais cortados e o caldo de chabéu ao tacho da carne. Deixa ferver em lume brando até que a carne e a mandioca estejam tenras. Serve quente. 

2. Não tendo nós, aqui em Portugal, o chabéu propriamente dito, temos de recorrer ao supermeracado...e comprar um garrafa de óleo de dendém.


Aqui vai então a receita refinada e exata utilizando o óleo de dendém de garrafa. Esta versão reduz o tempo de preparação para cerca de 45 minutos.

Ingredientes
(Versão prática)
  • Óleo de dendém: 150 ml (aproximadamente 2/3 de chávena)
  • Água quente: 1 litro
  • Proteína: 1 kg de carne de vaca (em cubos), galinha ou peixe firme
  • Vegetais: 1 mandioca média (em pedaços), 1/2 repolho e quiabos a gosto
  • Base: 1 cebola grande picada, 2 dentes de alho picados e 2 tomates maduros picados
  • Tempero: 1 malagueta (gindungo), sal e 1 cubo de caldo de carne (opcional)
Modo de preparação:

(i) Selar a carne: num tacho grande, deite 2 colheres de sopa do óleo de dendém; refogas a cebola, o alho e o tomate até murcharem; juntas a carne e deixas dourar por 5 minutos. 

(ii) Criar o caldo: temperas com sal, gindungo e o cubo de caldo;  vertes o restante óleo de dendém e adicionas imediatamente 1 litro de água quente; mexes bem para emulsionar.

(iii) Cozer os vegetais: juntas a mandioca e o repolho ao tacho; tapas e deixas ferver em lume médio-baixo durante 20 a 25 minutos (até a carne e a mandioca estarem quase tenras).

(iv) Apurar: adicionas os quiabos nos últimos 10 minutos; deixe o caldo destapado em lume brando para reduzir e engrossar ligeiramente.

O caldo deve ficar aveludado, com uma cor alaranjada escura e os sabores bem concentrados.
Podes acompanhar este caldo com arroz branco solto... ou acompanhar comn funge (vd. receita a seguir)

PS - Atenção: o óleo de palma (ou dendê ou dendém) é o óleo vegetal mais consumido do mundo. Embora seja extremamente eficiente (produzindo até 6 vezes mais óleo por hectare que outras culturas), a sua expansão descontrolada tem causado forte desflorestação em regiões tropicais como o Sudeste Asiático, ameaçando habitats de espécies como os orangotangos do Bornéu. Portanto, há questões sociais e ambientais a ponderar quando se compra o óleo (ou azeite) de dendém ou produtos feitos com recurso a este fruto, como cosméticos, etc. 

Por outro lado, há problemas de saúde a considerar. O uso do azeite de dendém deve ser moderado, tendo benefícios e malefícios.


Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Cananima > Simpósio Internacional de Guileje (Bissua, 1-7 de março de 2008  > 2 de Março de 2008 >  O famoso óleo de palma do Cantanhez. A sua cor vermelha intensa deve-se às características da variedade do chabéu (termo científico, Elaeis guineenses), que é rico em caroteno.


Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Cananima > Simpósio Internacional de Guileje (Bissua, 1-7 de março de 2008  > 2 de Março de 2008 >

A saudosa Cadidjatu Candé, da comissão organizadora do Simpósio Internacional de Guileje e colaborada da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento, servindo um fabuloso "caldo de chabéu" (arroz com filetes de peixe do rio Cacine e óleo de palma local, que tem fama de ser o mais saboroso do país, devido à qualidade da matéria-prima e às técnicas e condições de produção, artesanal. (**)

Na imagem, um diplomata português, o nº 2 da Embaixada Portuguesa, que integrava a nossa caravana (e cujo nome, por lapso, não registei, lapso de que peço desculpa).

Um dos pratos que foi servido no almoço de domingo, aos participantes do Simpósio Internacional de Guileje, foi peixe de chabéu, do Rio Cacine, do melhor que comi em África... Durante a guerra colonial, na zona leste, em Bambadinca, só conheci  o desgraçado peixe da bolanha que sabia  a lodo.... "Chabéu de frango" comi algmnas vezes, delicioso, na casa do comerciante de Bambadinca, o Rodrigo Rendeiro.  O "frango de chabéu" da dona Auá Seidi, mulher do Fernando Rendeiro, ficpou-me no goto. O funge só comi em Angola...

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís  Graça & Camaradas da Guiné] 


3. O funge (ou fufu) tradicional que acompanha o caldo de chabéu é feito à base de farinha de mandioca (ou de milho) e água. O segredo está na força do braço para bater a massa e evitar grumos

Mas atenção: como nos esclarece e bem, o nosso Cherno Baldé, o funge é angolano, não é guineense. (Temos aqui uma "calinada" da IA que é americana e, como tal, não sabe degeografia; ,etemos os dois a pata na poça, ao fazer a ilustração a quatro mãos; vou fazer um outro poste, a corrigir: não quero arranjar nenhum problema diplomático entre os meus amigos angolanos e os guineenses.)

Funge e fufu...Origem dos termos: (i) funge: é o termo utilizado na culinária de Angola e de São Tomé e Príncipe para designar a papa feita de farinha de milho ou de mandioca;  (ii) fufu: tem origem na África Ocidental (Gana e Nigéria) e refere-se à massa elástica feita a partir de inhame, banana-da-terra ou mandioca cozidos e pilados

Esta receita (de funge)  rende 4 porções e fica pronta em apenas 20 minutos.

Ingredientes

  • Farinha de mandioca torrada ou fina: 250 gramas
  • Água: 1 litro
  • Sal: 1 colher de café (opcional, já que o caldo é bem temperado)
Modo de preparação:

(i) Aquecer a água: coloca 800 ml de água numa panela alta com o sal e leve ao lume até ferver.

(ii) Dissolver a farinha: numa tigela à parte, mistura os 250 g de farinha de mandioca com os restantes 200 ml de água fria; mexe bem até formar uma papa lisa e sem caroços.

(iii) Misturar: assim que a água da panela estiver a ferver, verte a papa de farinha lentamente, mexendo sempre e vigorosamente com uma colher de pau (ou um bastão de funge).

(iv) Bater o funge: baixa o lume para o mínimo; usa a colher de pau para esmagar a massa contra as paredes da panela; faz  movimentos circulares rápidos e fortes (isto garante que a massa fique elástica e homogénea).

(v) Cozimento final: deixa cozer em lume muito brando por mais 5 a 8 minutos, mexendo de vez em quando. O funge está pronto quando estiver brilhante, translúcido e a soltar-se do fundo da panela.

Como servir:

(i) molha uma tigela pequena em água fria;
(ii)  coloca uma porção de funge quente lá dentro;:
(iii) abana a tigela em círculos para moldar uma bola perfeita;
(iv) coloca no prato e verte o caldo de chabéu bem quente por cima.

Pesquisa: LG +  Fundação Slow Food para a Biodiversidade +  IA (ChatGPT / Open AI)
Condensação, revisão de texto, negritos: LG
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Notas do editor LG:´
´
(*) Último poste da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28086: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (52): Favas com peixe frito à moda de Monchique (comidas numa tasca de Portimão, em 26/5/2026)

(**) Vd. postes de:

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28109: Agenda Cultural (894): Lançamento do livro "Um percurso pela história e pelos sabores da Guiné-Bissau", de M. Margarida Pereira-Müller, dia 23 de Junho de 2026, pelas 18h00, na Galeria ArteGraça, Rua da Graça, 27-29, Lisboa


Boa tarde!
É com enorme prazer que convido para o lançamento do meu mais recente livro: "Um percurso pela história e pelos sabores da Guiné-Bissau".

Esta obra é um convite para viajar através da rica herança histórica e cultural da Guiné-Bissau, desvendando os segredos e as tradições que moldam a sua gastronomia única. Infra uma apresentação da obra.

A apresentação terá lugar no próximo dia 23 de junho, às 18h00, na Galeria ArteGraça (Rua da Graça, nº 27-29, Lisboa).

Se necessitarem de mais informações, estou à vossa disposição.

Conto com a vossa presença!

Com os meus melhores cumprimentos,
M. Margarida Pereira-Müller

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Nota do editor

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28016: Agenda Cultural (893): Convite para a apresentação do meu 12.º livro, tendo este como tema o AVC, a levar a efeito no próximo dia 16 de Maio de 2026, sábado, pelas 15h00, na Casa do Alentejo, Rua das Portas de Santo Antão, 58, Lisboa (José Saúde)

domingo, 15 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27823: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (50): Não há sável ? Come-se lúcio...




 Lúcio (Esox lucius), peixe do rio, frito,  com arroz de ervilhas e cenoura... Para matar saudades do sável que este ano "cá tem", diz a "chef" Alice. 

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Há meses, pelo menos desde as vindimas (*),  que os vagomestres da Tabanca Grande não dão notícías, o mesmo é dizer, sinais de vida. Com todos os inconvenientes que isso traz para o moral da tropa.

Agora que é a época do sável e da lampreia,  ainda pior. Nem sável nem lampreia nem comes & bebes...
A lampreia há anos que  não a aprovamos, está mais cara que a lagosta... E o sável, este ano, teima em não aparecer na banca da nossa peixeira. O melhor período para a pesca e consumo seria agora, mas sável nem vê-lo.

Talvez na sexta santa, dia 3 de abril deste ano, a gente ainda apanhe algum sável retardatário no Douro Bar Petiscaria, na Barragem do Carrapatelo, São Cristóvão da Nogueira, Cinfães. Sem sável, não há Quaresma nem Páscoa, diz a "chef" Alice, que é do tempo em que o sável e a lampreia iam à mesa dos pobres.

Até lá, e para matar saudades, frita-se o lúcio, 
Lúcio (Esox lucius).
Fonte: cortesia da Wikipedia
que é um predador voraz que foi desgraçadamente
introduzido nos nossos rios e barragens, vindo da América e de Franaça, para grande gáudio dos pescadores desportivos e desespero dos ambientalistas.. 

Pode chegar a 1 e tal metro e aos 20/30 quilos (e, pior, viver até aos 30 anos!)... A "carne" é saborosíssima 
e, frito,  tem poucas espinhas. Temo-lo encontrado na peixeiria do Auchan Alfragide, em geral exemplares com 2 quilos e tal / 3 quilos, e a 6 euros o quilo. 

Não sei qual a sua proveniência mas o mais provável é ser do Rio Guadiana ou afluentes.

O segredo é saber cortá-lo, tal como o sável, em postas finas. E depois saber fritá-lo. Ainda não está nos hábitos gastronómicos dos portugueses. 

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Nota do editor LG:

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27240: No céu não há disto: Comes & bebes; sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (49): Peixinhos fritos, no Douro Bar Petiscaria, junto à Barragem do Carrapatelo; à mesa, os fantasmas do Zé do Telhado e do Serpa Pinto


Foto nº 1 > Cinfães > São Cristóvão da Nogueira > Barragem do Carrapatelo > Douro Bar Petiscaria > 18 de setembro de 2025 > Entrada: fritada de peixe-rei e diversos ciprinídeos, apresentada com limão e salsa. 



Foto nº 2 > Cinfães > São Cristóvão da Nogueira > Barragem do Carrapatelo > Douro Bar Petiscaria > 18 de setembro de 2025 > Entrada: enguias fritas... (durante muito tempo a enguia andou desaparecida do rio Douro, devido às barragens, tal como a lampreia e o sável)


Foto nº 3 > Cinfães > São Cristóvão da Nogueira > Barragem do Carrapatelo > Douro Bar Petiscaria > 18 de setembro de 2025 > Prato principal: peixe frito (boga, lúcio e outros), acompanhado com arroz de tomate e feijão.




Foto nº 4 e 4A > Cinfães > São Cristóvão da Nogueira > Barragem do Carrapatelo > Douro Bar Petiscaria > 18 de setembro de 2025 > Vinho de autor, "Terras de  Serpa Pinto" (*)... Um agradável surpresa.

Fotos (e  legendas): © Luís Graça  (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Cinfães, em matéria de viticultura, pertence à subregião de Baião, Região Demarcada dos Vinhos Verdes... enquanto a nossa Quinta de Candoz pertence à subregião de Amarante...  Em São Cristóvão de Nogueira, na margem esquerda do rio Douro, junto à Barragem do Carrapatelo, fui lá descobrir duas coisas que não há no céu:

(i) peixinho do rio Douro (!), frito, incluindo como entrada umas "enguias fritas" que estavam simplesmente  "divinais" (parece que a enguia-.europeia já estava  a voltar ao Carrapatelo em 2022, diz a EDP!)

(ii) um vinho branco, de autor (!), "Terras de Serpa Pinto"...

Éramos seis (cinco mulheres, incluindo a "chef" Alice, mais eu)... As entradinhas foram uma travessa de peixinhos fritos, juvenis, só com molho de limão e salsa, e mais um prato de enguias fritas; "peixe-rei", disse-me a simpática jovem senhora que nos serviu à mesa, cá fora, sob um toldo, em dia de calor, com vista para a albufeira e a Casa do Carrapatelo (na outra margem).

 E quem diz Casa do Carrapatelo diz logo ( ou pensa no) Zé do Telhado, cujo fantasma continua a povoar a serra de Montedeiras e estas terras das bacias do Douro, Tâmega e Sousa (**).

O prato principal foi uma travessona de peixe frito do rio (lúcio, boga e outros), acompanhada de um tacho de arroz de tomate e feijão... 

Bebemos duas... garrafas do "Terras de Serpa Pinto". Mais o pão,  a salada e os cafés. No final, pagámos 110 euros, com gorjeta.

 Seguramente que no céu, condomínio de luxo, será mais caro (***)...

Aqui fica o nome e o endereço deste achado: 

Douro Bar Petiscaria,
São Cristovão da Nogueira, Cinfães,  
Telemóvel: + 351 916 093 515


Tem página no Facebook. Diz que está sempre aberto. Mas não: fecha á terça.

2. Os nossos "vagomestres" deviam ser  especialistas em peixe de rio (e de... bolanha). Mas infelizmente não o são...

Aqui vão então algumas dicas para suprir essa falha. Com a ajuda do assistente de IA / Perplexity.

O melhor peixe do rio Douro, especificamente na albufeira da Barragem do Carrapatelo, para fritar, é a boga.  É de pequeno porte e sabor delicado. É tradicionalmente servida frita em casas ribeirinhas da região que deviam abundar, em tempos, mas hoje não. 

Hoje em dia  aqui apanham-se várias espécies de peixe, tanto autóctones como exóticas.  As principais espécies invasoras são o lúcio-perca, o achigã e o lúcio. A sua introdução nas nossas albufeiras teve um impacto muito negativo.

Peixinhos bons  par fritar: 

  • a boga (Pseudochondrostoma polylepis) é muito apreciada frita, crocante por fora, é tradicional nas margens do Douro;
  • barbo (Barbus bocagei) também pode ser preparado frito ou em caldeiradas, sendo consistente e saboroso; 
  • enguia (Anguilla anguilla), embora menos comum, também é servida; 
  • peixinhos do rio (vários ciprinídeos, da família da Carpa,  de pequeno tamanho), usados para frituras rápidas, apresentados, com limão e salsa, e normalmente acompanhados com arroz de tomate ou migas.

Espécies que se apanham hoje (mas um crescente número são espécies exóticas):

Os peixes nativos de maior destaque são o barbo, a boga e a enguia:
  • Barbos (Barbus spp.);
  • Boga (Pseudochondrostoma polylepis);
  • Enguia (Anguilla anguilla).

A carpa (Cyprinus carpio) não é nativa.  Entre os peixes exóticos capturados, nomeadamente na pesca desportiva e artesanal, estão: achigã, lúcio-perca, carpa e pimpão, sobretudo nas zonas profundas da albufeira:
  • o siluro (Silurus glanis), o grande peixe-gato europeu, predador de topo, pode chegar a medir mais de 2 metros e pesar até 100 kg: é uma ameaça crescente para o rio Douro;
  • o achigã (Micropterus salmoides) é outra "praga", sendo originário da América do Norte: é um predador voraz de ovos e juvenis de peixes nativos; 
  • o lúcio (Esox lucius): espécie da Europa Central e Norte da Ásia, foi introduzida para a pesca desportiva.
Todos estes peixes têm valor algum comercial e são apreciados na gastronomia local. E inclusive já aparece nas bancas de peixe dos nossos hipermercados.

Outras espécies exóticas que representam ameaça ao ecossistem
a: 
  • Lúcio-perca (Sander lucioperca)
  • Ruivaco (Rutilus rutilus)
  • Alburno (Alburnus alburnus)
  • Pimpão (Carassius carassius)

3. A  EDP  diz que está a fazer a  monitorização das eclusas de peixes no Douro (esperemos que não seja "show-off"). É  um mecanismo que facilita a migração de peixes no rio; os resultados recentes são positivos e mostram que há espécies nativas a transpor as barragens; o projeto da EDP esteve em destaque na celebração do "World Fish Migration Day",  em 2022.


Num artigo publicado há mais de 3 anos, a EDP Global disse:

(...) Criadas para facilitar a passagem de peixes, as eclusas são um mecanismo essencial para garantir a biodiversidade e a proteção das espécies fluviais. 

A monitorização da ictiofauna que utiliza as eclusas de peixes está atualmente em operação em cinco barragens: Crestuma-Lever, Carrapatelo, Régua, Valeira e Pocinho.

Os resultados deste projeto demonstram, por exemplo, que uma espécie migradora em risco de desaparecimento, como é o caso da enguia-europeia, tem utilizado as eclusas para chegar à albufeira da Valeira, a 145 quilómetros da foz do rio Douro. 

É nas áreas a montante que crescem e se preparam para voltar ao mar, onde se reproduzem – no espaço de ano e meio, foram contabilizadas quase 25 mil enguias na barragem de Carrapatelo.

 Também já se observou o aparecimento de outras espécies nativas, como a solha das pedras, a truta marisca, o peixe-rei ou o robalo-legítimo.(...)

O investimento que foi feito para modernizar o funcionamento das eclusas, espera-se que venha a contribuir para que "outras espécies migradoras, como a lampreia e o sável, possam também transpor as barragens do Douro num número expressivo". 

Oxalá assim seja, senhores da EDP, de quem eu sou fidelíssimo cliente até agora!

 O projeto também permite detectar a presença de espécies invasoras (como a achigã ou o peixe-gato-negro).

(...) A presença do lúcio, lúcio-perca e achigã na bacia do Douro representa um dos principais desafios ecológicos contemporâneos da região. 

Proteger as espécies autóctones exige um esforço coordenado entre cientistas, autoridades locais e a sociedade civil. (...)

(Pesquisa: LG + Assistente de IA / Perplexity)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto,(1846-1900),  militar, explorador e administrador colonial, é filho de Cinfães.

(**) Vd. poste de 21 de setembro de 2025 Guiné 61/74 - P27238 : As nossas geografias emocionais (58): Rio Douro: Nos caminhos do Zé do Telhado: Barragem e Casa do Carrapatelo

(***) Último poste da série : 7 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27193: No céu não há disto: Comes & bebes; sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (48): Jaquinzinhos da "arte xávega" da Praia da Vieira, azeitonas, arrozinho de tomate, pão, e vinho... Um home mata a sua fome e a sua sede..

domingo, 7 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27193: No céu não há disto: Comes & bebes; sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (48): Jaquinzinhos da "arte xávega" da Praia da Vieira, azeitonas, arrozinho de tomate, pão, e vinho... Um home mata a sua fome e a sua sede...

 


Foto nº 1 > Lourinhã > Chez Alice > 28 de agosto de 2025 > Jaquinzinhos fritos. Vieram da Praia da Vieira. Captura: pesca artesanal, arte xávega...Um produto cada mais vez "gourmet", isto é, só para os ricos... Estavam há dias na praça da Lourinhã a 24 euros o quilo. Estes foi a minha "vizinha francesa", Odette,  que os trouxe da Praia da Vieira, Marinha Grande... Fizemos, lá em casa, um almoço luso-francês..


Foto nº  2 > Lourinhã > Chez Alice > 28 de agosto de 2025 >  Um "arrozinho de tpmate"... Diz a "chef": em havendo tomate, toda a cozinheira é boa...Ou como diz o ditado, "em época de tomates, não há maus cozinheiros!"...




Foto nº  3 > Lourinhã > Chez Alice > 28 de agosto de 2025 >  Em havendo azeitonas...


Foto nº  4 > Lourinhã > Chez Alice > 28 de agosto de 2025 > ... em havenod m queijinho fresco (de preferência, de cabra, ou melhor ainda, um  requeijão de Serpa (cada ada vez mais raro, que os cabrões não dão leite)...



Foto nº  5 > Lourinhã > Chez Alice > 28 de agosto de 2025 > ... em havendo um pepino, cortado aos pedaços, com sal e orégãos... 

Fotos (e legendas): © Luís Graça 2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Mais o pão, o azeite, o tintol... um home mata a sua fome e a sua sede... Que a viagem para a "outra banda" é (in)certa, longa e dura... Os antigos egitos levavam com eles as necessárias virtualhas...

E sobretudo é uma viagem que não tem retorno. Por isso dizemos que é a última. A despedida da Terra da Alegria, Um home tem que se aviar em terra, antes de se meter a caminho pelo mar dentro da eternidade. O mar é e será sempre o apelo da sereia. A miragem. O adamastor. A negrura. A aventura. A liberdade.  A saudade. O fio de Ariadne. O mar onde a gente se perde. De vez.

Ainda anteontem, sexta, fui a Amarante ver uma exposição sobre o escritor amarantino, Teixeira de Pascoais (1877-1952). Talvez tão injustamente esquecido. O nosso poeta-filósofo da saudade.  Não sei se ele gostava de janquizinhos. Não é coisa que haja no rio Tâmega. Sei que era vitivinicultor. Da Casa Gatão. Um vinho verde que chegava à Guiné no meu tempo. Lá não havia janquizinhos. Nem choco frito. Nem enguias fritas ou de ensopado. Nem massada de navalheiras. Nem arroz de lavangante. à moda do "chef" Chico Mateus. E da gente da terra da minha bisav´´o, a Ti Augusta Maçariça. Tudo coisas de que vou sentir falta quando morrer. Saudades, muitas. No céu não há disto...

Sim, no céu não há disto. Também é verdade que me esforcei pouco para merecer o céu. Talvez aprenda a lição quando voltar para viver a minha segunda vida. Quando voltarmos. Acho que mereço uma segunda oportunidade.Está a ouvir, ó "vagomestre" ?!... Eu e os meus camaradas da Guiné...  Oiu talvez náo, dirão os meus inimigos. Os nosos inimigos. 

Que tenham um bom resto de verão, os "vagomestres" da Tabanca Grande!.. Para  semana temos as vindimas. Há menos uvas do que o ano passado. Coisa de uma pipa, diz o "engenheiro". Mas a qualidade parece ser ótima. A tia Nita vai velando por nós. É o nosso bom irã.

2. As azeitonas, o pão, o vinho... estão no nosso imaginário. Só os portugueses, "petisqueiros",  comem azeitonas, dizem os italianos. O nosso hábito de comer azeitonas curtidas (ou temperadas, nuns sítios com orégãos, noutras com laranja, ) como entrada, petisco ou acompanhamento,  é muito antigo e está muito enraizado na cultura popular, de Norte a Sul..  Servem-se em tabernas, casas de pasto, restaurantes e em casa, antes da refeição, com pão e vinho.

A Itália tem muita oliveira, produz muitas variedades de azeitona (para azeite e mesa), mas não há tanto o  hábito de comer azeitionas, com pão e vinho,  em casa ou servidas no prato antes da refeição. O uso é mais "culinário" (na "pizza", por exemplo).

E a propósito de pão, lembro-me sempre de uma das quadras mais célebres do "marafado" do António Aleixo: “O pão que sobra à riqueza, /distribuído pela razão, /matava a fome à pobreza /e ainda sobrava pão.”

E já que estamos em maré de provérbios populares, fiquem com mais estes:

  • "Com pão e vinho se anda o caminho"...  (leia-se:  o essencial da vida está nestes dois alimentos; dão sustento e energia.
  • "Pão com azeite e vinho, fazem bom vizinho"... (leia-se: partilhar comida simples fortalece laços comunitários, de amizade e bioa vizinhança).
  • "Onde entra o vinho e o pão, pouca coisa falta não"... (leia-se:  se há o básico, não falta quase nada para viver; ou como diza o velho Zé Carneiro, em Candoz: "cá em casa nunca faltou o pão e o vinho"...)

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27177: Ser solidário (287): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (15): Cancoran II, e Convite para a apresentação do projecto de construção de uma escola na Guiné-Bissau e jantar com prova de produtos da Guiné-Bissau, a levar a efeito no próximo dia 13 de Setembro, a partir das 16h30, na Associação Macaréu, Rua João das Regras, 151 - Porto (Renato Brito)

1. Mensagem com data de 30 de Agosto de 2025 do nosso amigo Renato Brito, voluntário, que na Guiné-Bissau integra um projecto de construção de uma escola na aldeia de Sincha Alfa, trazendo até nós a Cartolina número 15:

Bom dia Carlos Vinhal,
Com a presente venho por este meio partilhar a “cartolina” que prossegue com a campanha de angariação de fundos para construir uma escola na aldeia de Sintcham Arafam – Guiné-Bissau.
Divulga a apresentação do projeto no Porto no dia 13 de setembro. Será dado ênfase ao modo de criar uma horta no terreno com 5.400 m2 doado ao projeto.
Todos bem-vindos!

Cumprimentos,
Renato Brito


Macaréu - Associação Cultural
Rua João das Regras, 151 – Porto
https://macareu.org/2019/03/09/apresentacao/
13 de Setembro de 2025 –16:30
Preço do jantar: 12 euros
Marcações através do seguinte mail:
macareu.porto@gmail.com

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Notas do editor:

Vd. post da série de 19 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26938: Ser solidário (285): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (14): Mercado de venda de produtos em segunda-mão no dia 21 de junho na cidade de Bressanone – Região Italiana do Alto Adige (Renato Brito)

Último post da série de 4 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27090: Ser solidário (286): Almoço-Convivio da Associação Anghilau, dia 14 de Setembro de 2025, às 12h30, no Restaurante da Quinta de Santo António, na Malveira (Manuel Rei Vilar)