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domingo, 12 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)


Angélica Lima,  Fonte: Linkedin

1. Texto da doutora Angélica Lima, lido por ela na sessão de apresentação do livro do nosso camarada António Carvalho, ontem em Medas, Gondomar (*) (cortesia da escritora,  brasileira, cuja foto, do Linkedin, reproduzimos aqui à direita):


Boa tarde a todas e a todos.


Quero começar agradecendo ao autor, António, pelo generoso convite para estar aqui com vocês neste momento tão especial, que é o nascimento público de um livro.

Agradeço também a confiança ao me permitir ler esta obra antes de sua publicação e ao me convidar para compartilhar algumas impressões de leitura.

Agradeço igualmente a presença de todos os que escolheram participar desta celebração literária, num tempo em que tantas vozes artificializadas disputam diariamente a nossa atenção.

Vivemos cercados por telas, notificações e estímulos constantes. Já existem estudos mostrando que esse excesso tem reduzido a nossa capacidade de concentração, de reflexão e até da criatividade.

Um livro impresso continua a nos oferecer algo cada vez mais raro: silêncio, tempo, autoescuta e reflexão. Mas, sobretudo, continua a nos lembrar da importância de exercitar aquilo que faz de nós essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar, de imaginar, de viajar. E, diferente das máquinas, fazemos isso enquanto lemos.

Esse convite específico me fez perceber que ler um romance e falar sobre ele num lançamento são experiências muito diferentes.

Ler é um encontro íntimo e silencioso entre o livro e o leitor.

Hoje, esse silêncio ganha voz.

Antes de entrar propriamente no romance, gostaria de compartilhar com vocês o lugar de onde falo hoje.

Ao receber o convite para ler este romance antes da publicação e depois, apresentar minhas impressões no dia do lançamento, minha primeira reação foi de surpresa.

Nunca havia participado de uma apresentação de livro como oradora convidada. Isso me deixou, ao mesmo tempo, feliz e consciente da responsabilidade que estava assumindo. Por isso, diante do público, para eu não ter aquele momento de mudez ou daquela tosse, que na verdade é um misto de vergonha e ansiedade, preferi trazer minhas anotações.

Gosto de acreditar que cada romance encontra novos sentidos quando é lido por pessoas diferentes. Um livro deixa de pertencer apenas ao autor quando chega às mãos dos leitores, e cada leitura lhe acrescenta uma nova camada de significado, muitas vezes até diferente daquela que o próprio autor pensou. E o texto vai ganhando outras dimensões.

 O olhar que compartilho hoje é apenas um dos muitos possíveis.

Falo como leitora, mas também a partir de uma circunstância muito particular.

Sou brasileira, paulistana, isto é, nascida em São Paulo – capital, não no interior, como, por exemplo, Santa Rita do Passa Quatro, onde, se nascesse, seria paulista. Se esse livro fosse lançado no Brasil, essa informação seria um motivo de bairrismo. Mas, é apenas uma informação para situar o espaço. Vivo atualmente em Portugal.

De certa forma, essa condição acabou me aproximando do protagonista, Abel, que também realiza uma travessia, embora em sentido inverso ao meu.

Ao acompanhar a sua viagem para o Brasil, procurei não buscar semelhanças nem diferenças entre os dois países. Preferi deixar-me conduzir pelas idiossincrasias que o romance vai revelando: esses pequenos gestos, modos de falar, de sentir, de relembrar e de viver que constroem a identidade de um povo e, ao mesmo tempo, tornam cada personagem única.

Ao longo da leitura, também fui observando como uma mesma língua pode aproximar dois países e, ao mesmo tempo, nos surpreender pelos diferentes sentidos que uma palavra pode assumir de um lado e do outro do Atlântico.

Foi essa travessia, feita por meio da linguagem, da memória e das personagens, que procurei acompanhar o protagonista e suas peripécias ao longo da leitura. Fui tentando perceber como Abel transporta com ele a sua memória, a sua língua, os seus afetos e a sua identidade quando atravessa um oceano e vai viver em outro continente. E fiz essa leitura refletir sobre a minha própria experiência enquanto imigrante.

Então, é desse lugar, ao mesmo tempo próximo e distante, que convido vocês a percorrer comigo algumas páginas deste romance.

Não como crítica literária, porque não sou, nem como especialista, mas simplesmente como uma leitora que teve o privilégio de caminhar por estas páginas antes que elas encontrassem vocês, seus futuros leitores.

Imaginei encontrar um romance que me conduziria pela história. Descobri, porém, que antes da história havia uma língua inteira à minha espera a ser atravessada. Foi logo de cara que percebi: preciso de um companheiro para fazer comigo essa viagem – o dicionário.

Há romances que não se deixam atravessar à pressa; devemos percorrê-los num barco a vapor ou num rabão à vela.

Este romance não se deixou ler rapidamente. Comparo essa leitura, com a chegada numa cidade do Brasil por onde nunca houvesse passado antes. Porque no Brasil é assim: até mesmo para nós que lá nascemos, muitas vezes desconhecemos o modo de falar de uma cidade que fica ao lado ou a cinco mil quilômetros. 

Chegando lá, compreendemos o geral, mas não os pormenores. E essa leitura trouxe a sensação de estar diante de uma grande diversidade de paisagens, cores e linguagens, onde o pormenor ficaria encoberto, se eu não decifrasse os regionalismos, os termos tão interessantes escolhidos por António.

Um dos aspectos que mais me surpreendeu no texto é o fato de o António usar períodos longos, sem cansar, às vezes, numa cadência quase oral e, em alguns momentos, pensei que ele usava os regionalismos semelhantes ao modo que Guimarães Rosa faz em "Grande Sertão Veredas".

A minha travessia foi assim: enquanto Abel conhecia os sabores do Brasil, eu viajava pela cozinha portuguesa.

Enquanto Abel se espantava com a paisagem exótica do Brasil, eu me encantava com a simplicidade e dureza da vida rural em Portugal.

Enquanto Abel aprendia o sotaque de se abrasileirar, como disse o autor, eu mergulhava no dicionário e viajava pela língua portuguesa.

Não porque a leitura fosse inacessível, mas porque o autor recupera um património linguístico extraordinário, fazendo-nos descobrir palavras que, muitas vezes, já desapareceram do nosso uso quotidiano. E palavras que eu realmente nunca tinha ouvido, mesmo morando aqui há quase 10 anos, mesmo sendo filha desse nosso idiomaterno.

Ao longo da leitura, fui percebendo que, com esse vocabulário, em vez de contornar as palavras desconhecidas, eu precisava entrar nelas.

Isto surpreendeu-me: a quantidade de verbetes escolhidos pelo autor que, sozinhos, dão origem a outro livro. No meu manuscrito, marquei mais de 250 termos, palavras, passagens em que eu precisei parar, desembarcar, e só depois, continuar a viagem.

Destaco apenas algumas palavras ou frases:

  • Sair pelas portas fronhas   – essa frase eu fiquei encafifada, fronha para mim é outra coisa;
  • Caminhos de pé posto – que achei muito interessante;
  • Dealbar – fiquei encantada com essa palavra.
Esses são exemplos de palavras lindas e, para mim, completamente desconhecidas.

Sobre as personagens? Vou me ater ao Abel e à Eva.

Abel acaba por abraçar o sonho de ficar rico ou melhorar de vida, por meio do seu trabalho, mas abraça, especificamente, o sonho do seu pai e é levado por ele, ainda muito menino, ao Brasil para assumir funções de homem.

Abel e Eva escondem a sua verdadeira paixão, a ambição. Mas essencialmente, a luta contra a miséria.

Sobre a personalidade de cada um, conforme vocês vão lendo a história, poderão refletir se Abel representa o homem do século passado, mas que tem nele, uma espécie de mofo que ainda está impregnado nas sociedades até hoje. 

Conforme a narrativa cresce, as personagens mostram a sua verdadeira cara. Eu gostei muito do Abel, mas, no fundo, eu tenho grande compaixão pela Eva e pelo que ela representa, por isso escolhi essas duas passagens sobre as mulheres desse romance, me perdoem os ouvintes, mas vou ser breve:

(...) "A repenicada moça do Porto não era propriamente uma daquelas carquejeiras de mãos encortiçadas, que durante anos e anos subiam 
ajoujadas sob feixes de carqueja e queiró de três a quatro arrobas, a Calçada da Corticeira, para alimento dos fornos das padarias da parte alta da cidade. Eva tinha um estatuto social mais elevado do que o dessas mulheres calçadas de socos e pele tisnada a subir a ziguezaguear o calvário de duzentos metros que pareciam nunca mais acabar. Mais do que um calvário (que me perdoem os cristãos mais sensíveis) os itinerários que estas mulheres (algumas com pouco mais de dez anos) faziam até à lonjura de Paranhos e Carvalhido, eram autênticas vias sacra."! (...)


Ou essa:

(...) "Enquanto passava ligeira e empertigada, com estes sinais distintivos, envaidecida pela concupiscência dos olhares masculinos, as outras, atarracadas sob o peso dos desmedidos feixes, mostravam-se alquebradas, na postura como na mente, como se aquela tarefa ciclópica durante seis dias da semana, encosta acima, debaixo de carregos maiores que o corpo, em passada lenta, retornando encosta abaixo, de vazio, a pé ligeiro, as tivesse marcado, na pele e na alma, de modo irreversível." (...)

O romance transporta-nos para o espaço descrito, a paisagem é magnífica, tanto de Portugal como do Brasil. Com muitos detalhes que tornam o texto belíssimo. O autor vai contando causos, resgatando fatos históricos e momentos culturais fantásticos. A paisagem, com isso, participa da história.

O tempo que o autor usa, do meu ponto de vista, apesar de parecer linear, é não linear, é simbólico. É uma história contada em camadas, símbolos e memórias. E os detalhes dessas memórias são de uma delicadeza poucas vezes encontrada.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser um romance histórico, para além da própria história contida, que se estende por mais de 30 anos. Nela, o tempo cronológico se mistura ao tempo social, psicológico e simbólico, como nessa passagem:

(...) "Por uma alta torre dotada de sinos que se ouvissem no vale mais profundo da freguesia e relógio de grandes algarismos e ponteiros que se divisassem ao longe. Todos os presentes convergiam quanto à prioridade da torre da igreja, que marcaria as horas dos trabalhos nos campos, dos momentos fulcrais dos actos litúrgicos, dos baptismos, comunhões e casamentos, e as desoras dos que morriam." (...)

Entre os símbolos, quero destacar a água que é um símbolo de travessia. A água faz parte da vida de Abel, no Rio Douro, nas travessias pelo mar, e em outras situações que o envolvem, a água aparece como um sinal de vida, de esperança e de tragédia.

Há muitos símbolos e metáforas religiosas, mas só nessa parte, eu gastaria mais de uma hora a falar e o objetivo é o silêncio da leitura.

Entre os temas que aparecem — e são muitos —, vou destacar apenas dois que estão muito na moda. A imigração e as classes sociais, muito bem retratadas no texto, ao pormenor, e um que é o mais importante do meu ponto de vista, a linguagem, como nestas passagens:

(...) "Eram os melhores ideólogos por esses dias o padre, o presidente da junta, o regedor, o professor e os que calçavam sapatos à semana. " (...) 

(...) "Os sapatos que o seu pai encomendara, para esta viagem, a um sapateiro de Emendadas, sobravam-lhe igualmente nos pés, mas assim deveria ser para lhe dar para mais anos." (...)

Essas são passagens sobre sapatos; me remetem à infância e aos causos contados em casa pela minha mãe. “Nas fazendas, havia uma criança que ia à escola com um pé do calçado até gastar; depois, usava o outro”.

Há uma passagem que o autor relata sobre a língua portuguesa abrasileirada e isso é um dos destaques que eu também quis trazer:

(...) "Assim, sempre que confrontado com gente graúda, evidenciava, no modo como temperava as palavras e insistia no uso do gerúndio, o contributo que recebera de catorze anos passados numa fazenda de café, a abraseileirar-se." (...)

O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e,  pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América. Como não sou linguista de formação, como boa brasileira, achei curioso recordar que o gerúndio, tantas vezes apontado como uma marca do português do Brasil, não nasceu no Brasil.

 Trata-se de uma construção antiga da própria língua portuguesa, preservada entre nós brasileiros, enquanto Portugal foi seguindo outro caminho. Foi uma mudança gradual na fala portuguesa, mas foi o Brasil que manteve a originalidade da língua levada para lá.

E, entrando nos finalmentes, o que ficou em mim talvez seja o mais importante.

Para mim, este romance não fala apenas das travessias entre Portugal e o Brasil, entre o Atlântico e o Douro. Fala também das travessias humanas: entre a pobreza e a esperança, entre o preconceito e a dignidade, entre as escolhas que transformam uma vida e aquelas que acabam por cristalizar destinos.

Quando fechei o livro, algumas personagens permaneceram comigo. Eva, sem dúvida. Mas a personagem que mais me acompanha é Chiquinha. Talvez porque ela traga uma leveza inesperada para uma realidade tão dura. Sua presença parece lembrar que, mesmo nos períodos mais difíceis da nossa história, a humanidade nunca deixou de encontrar espaços de afeto, generosidade e esperança.

Ao acompanhar essa personagem, fui pensando que olhar para a história não significa apenas procurar culpados ou inocentes. Significa, antes de tudo, reconhecer que ela foi feita por seres humanos, com as suas grandezas e as suas misérias. 

Só quando temos coragem de reconhecer também as partes menos nobres da nossa história é que podemos construir uma sociedade mais justa, mais consciente e mais humana. É isso que o livro traz.

Há uma imagem que continua a regressar à minha memória: a chegada de Abel pela Serra do Mar. Enquanto lia essa passagem, revi-me adolescente, fazendo aquele mesmo percurso de trem em direção a Santos, num fim de semana. O trem pendurado pelos cabos, passando sobre o abismo, onde só se ouvia o barulho do trem. Foi um daqueles momentos em que a literatura nos devolve aos tempos da nossa própria vida.

E talvez tenha sido essa a maior transformação que esta leitura provocou em mim. Descobri que, neste romance, cada palavra carregava algo para além do seu significado imediato. Cada escolha do autor guardava uma memória, um símbolo, uma intenção. Muitas vezes eu me perguntava: Por que esta palavra e não outra? E, quando ia procurar o seu significado, descobria que havia muito mais por trás dela do que imaginava e ficava encantada.

O meu diálogo com este romance nunca foi uma análise nem uma crítica. Foi uma conversa, uma experiência.

Este livro levou-me de volta ao Brasil, à minha infância, ao colchão de palha, às quaresmeiras, ao Manacá-da-serra, à Serra do Mar, às viagens de trem para Santos, não ao Porto, à Praia Grande. A galinha com farofa. O sanduíche de pão Pullman com queijo e presunto. O ‘Guaraná’ sem gelo. Os farofeiros. Nome dado aos pobres que frequentavam as praias, mas não tinham dinheiro para almoçar ou lanchar nos restaurantes. 

É para isso que servem as histórias: para nos fazer encontrar, nas vidas dos outros, pedaços da nossa própria vida.

Por isso, termino dizendo que há romances que não se deixam atravessar com pressa. É preciso caminhar ronceiramente dentro deles. E foi exatamente essa a experiência que este romance me proporcionou.


António Carvalho: integra a Tabanca Grande
 desde 13/9/2008, e tem cerca de uma centena
 de referências no nosso blogue




Não posso revelar mais do que o próprio livro vai oferecer ao longo das suas páginas. Posso apenas dizer que esta leitura foi, para mim, uma verdadeira travessia pela memória e pela condição humana e principalmente, pela riqueza da nossa língua portuguesa, nosso tão amado idiomaterno.

Tenho certeza de que cada leitor encontrará também o seu próprio caminho dentro desta narrativa. Descobrirá as suas personagens preferidas, as palavras que mais o tocarão e fará, à sua maneira, 
 a sua própria travessia.

Parabéns ao António por esta obra e muito obrigada a todos pela atenção.

Obrigada, Angélica Lima.

Apoio estratégico para projetos acadêmicos e literários
Escritora|Ghostwriter|Ilustrações
Especialista em artigos, teses, dissertações e livros.
Ilustrações |  Palavras  | Sonhos (...)
https://lattes.cnpq.br/1870298303464362

(Revisão / fixação de texto: LG)

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terça-feira, 23 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28126 : III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IX : semana de 1 a 7 de abril de 2019: há mais de 40 mil timorenses a pedir a nacionmalidade portuguesa


Timor-Leste > Liquiçá > Mantti > Boebau > Escola de Sáo Francisco de Assis (ESFA) > Crianças com t-shirts com o símbolo de Portugal. Foto da página do Facebook do Gaspar Sobral.


Portugal tunha um império, que ia do Minho a Timor.... Os donos do Império nunca vieram a Timor Lorosae que, em tétum, quer dizer "país do sol nascente"... Era muito longe e a viagem incómoda... Mas há quem goste de  viajar para Timor-Leste, agora país lusófono, da CPLP, onde o português é a segunda língua oficial e há mais 40 mil timorenses a tentar obter a nacionalidade portuguesa. A burocracia é muita, e pode levar anos a obter-se o tão almejado certificado, que abre portas para a Europa. Timor-Leste, com 14 870 km2, tem hoje uma população de 1,4 milhões de habitantes. 
 

De acordo com o Censo de População de 2022, a taxa de literacia e domínio da língua portuguesa atingiu os 40%, uma recuperação histórica impressionante em meio século, considerando que em 2002 (ano da restauração da independência) apenas cerca de 5% da população falava o idioma devido à proibição imposta durante a ocupação indonésia. (Fonte:  Observatório da Língua Portuguesa).


1. Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor-Leste.

O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos (exceto na pandemia), desde 2016. É o lider (e um os fundadores, com Gaspar Sobral e Glória Sobral) de uma associação de solidarieddae com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e faz o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar.

São 3 dias de viagem até Dili!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação delicada cirúrgica, de que está a recuperar bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue. Tem  uma  história de vida inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência (em 2002). É também  um exemplo vivo de amor à lusofonia que merece ser conhecido pelos nossos leitores.

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), aprende-se muito sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia dos nossos amigos timorenses.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se Deus Nosso Senhor e a Senhora da Saúde o permitirem.

 Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018, vai continuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. 

Em Díli costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral, o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral). De 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe. Tinha então 14 anos.


Rui Chamusco, professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referèncias no blogue; a direita, o Sobral Gaspar, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória, que o meteu nesta aventura.


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)


Parte VIII: semana de 1 a 6 de abril: 40 mil timorenses à espera de obter a nacionalidade portuguesa


01.04.2019, segunda feira - Receitas...mais uma

Suprami com folhas e flor de papaia foi a proposta que a Aurora me fez para a merenda de hoje. Suprami é talvez a comida mais fácil de preparar, constituída á base de massa fina com tempêros, que os indonésios introduziram e exportam para Timor Leste. Sobretudo nos meio urbanos, é das comidas mais consumidas.

Claro que já saboreei este produto por diversas vezes, e até nem é mau para o paladar.
Mas quando me falaram em suprami com folha e flor de papaia anui logo. Porque, segundo a cultura timorense, a flor e a folha de papaia são o melhor remédio para
prevenir e combater a malária. De sabor muito amargo, mas atenuado pelos temperos
da suprami, um remédio natural ao nosso alcance, capaz de nos curar das nossas
maleitas. Mais uma receita cuja essência é a folha e a flor da papaia.

Perguntarão: “Então e o fruto, a papaia, que é tão apreciado em todo o mundo? Claro que o fruto tem também as suas propriedades nutritivas e curativas. Diz-se que as suas sementes são benéficas para a função intestinal.

Mas, para completar esta informação, informo que há árvores de papaia (papaeiras?) que só dão flor, enquanto outras dão flor e fruto. A receita que aqui descrevo diz respeito às primeiras.

Como a natureza é rica em recursos e ensinamentos!...

01.04.2019 - Lição de partilha

Quando estamos atentos ao que se passa ao nosso redor, há sempre algo de novo, que nos faz refletir, que nos interpela.

Estando hoje à tarde no átrio da casa “Moniz”, que é a nossa morada, em horas de merenda ou de jantar para os galináceos já habituados a esta praxe de alguém atirar punhados de arroz para se banquetearem, vejo umas sete ou oito galinhas correndo apressadamente para o local. Perguntei à Aurora: “São todas vossas? - “Não!” - respondeu ela. “ Então como sabeis quais são as vossas?” - perguntei de novo. “Pelas cores.” - retorquiu ela.

Pois é! Aqui em Timor, desde que esteja a mesa posta, todo o que chega tem lugar. O repasto é repartido por todos. Uma partilha que, a nós ocidentais, em muitos casos para nós é estranha, habituados que estamos ao provérbio “ Quem parte e reparte, e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte.”

Ainda há dias aqui chegou um vizinho, o Carlitos, para avisar o Eustáquio de que uma sua galinha fez ninho e estava a chocar os ovos no terreno da casa do Ti Beto. Sem qualquer problema de que a galinha do outro invada o seu terreno para fazer a criação.

Um grande respeito pela natureza que tanto nos dá; uma atitude de tolerância louvável; um sentimento de partilha incrível. Valores perdidos na maioria das sociedades e culturas ocidentais. Por aqui, casas amuralhadas ainda há poucas por enquanto. As pequenas separações são facilmente ultrapassáveis. As casas ou propriedades com sistema de alarme e câmaras de vigilância não abundam. Só algumas pessoas importantes ou serviços de estado se protegem com esses aretefatos.

Defender o quê, se a maioria das pessoas pouco ou nada têm? Mesmo assim, são estasn pessoas que tudo partilham, até “o pão (arroz) para a boca que todos os dias as sustenta. Como disse esta semana o Papa Francisco, depois da visita a Marrocos:“ aqueles que constroem os muros acabarão presos pelos muros que construíram. Mas aqueles que constroem pontes vão muito avante. A ponte é feita por Deus com as asas dos anjos para que os homens se comuniquem... para que os homens possam se
comunicar.”

01.04.2019 - Vale o que vale ... e mais nada!

Hoje de manhã eu e o Amali fomos ao Serviço de Fronteiras e Estrangeiros no intuito de confirmar a minha situação de estadia em Timor Leste. Que confusão de ideias nas cabeças daquela gente! 

Sendo eu portador de uma declaração da Embaixada de Timor Leste em Portugal, em que consta que para os efeitos julgados convenientes eu viajo até Timor Leste só com o bilhete de ida por tempo indeterminado para o cumprimento da conclusão do projeto de construção da escola para o pré-escolar e o ensino básico, no suco de Leotalá, município de Liquiçá, esta declaração parece que de pouco ou nada vale se não apresentar outros documentos por eles indicados: contrato de trabalho, protocolo de colaboração entre os governos de Timor Leste e de Portugal, prova do programa de cooperação dos professores portugueses com o ministério da educação, etc,etc... 

Todos sabem muito e ninguém sabe nada. Ou seja, saímos daquele edifício revoltados, sem resolução à vista. Cenários possíveis: regressar a Portugal nos fins deste mês de Abril, arranjar um dos documentos por eles(as) indicados, deixar-me estar como estou...

No regresso a casa ninguém queria acreditar. Até o Gaspar que sabe lidar com estes assuntos,  ficou furioso, e até se dispôs a prescindir de algumas aulas para, na próxim quarta feira, ir tratar do assunto.

Felizmente que, à noite, recebi um telefonema do amigo Ascenso, que domina estes assuntos como ninguém, a tranquilizar-me dizendo: 

“ Tu não precisas de ir a nemhum lado. A declaração da embaixada de Timor em Lisboa é mais que suficiente para justificar a tua estadia neste país. Os embaixadores são as pessoas mais importante dum país logo a seguir ao presidente da república.” 

E disse-me mais coisas que aqui não digo. Obrigado,  meu grande amigo, porque tudo o que me disseste me tranquilizou, aconteça o que acontecer.

Neste episódio, lamento que Timor Leste sendo um país que adoptou a língua portuguesa como segunga língua oficial, não tenha funcionários capazes de compreender e de falar o português em serviços tão importantes como este em causa.

Se não fora o Amali a tentar traduzir a confusão,  seria ainda maior.

Vale o que vale... Mais nada!

03.04.2019, quarta feira  - Galinha dos ovos de ouro


Já falei desta ave que, sem nenhum problema de consciência, invadiu o quintal (sem muros) do vizinho para lá fazer os seu ninho e ir pondo os seus ovos. 

Hoje, estando eu a trabalhar no computador, vejo à minha frente uma galinha com dez ou mais pintainhos saídos há pouco tempo da casca, a seguir os ensinamentos da mãe, depenicando as esgravatadelas que ela ia fazendo. Fui informar os donos da casa, a Aurora e o Eustáquio, que vieram confirmar a visita ao domicílio deste bando de galináceos. Em menos de um minuto sumiram-se de novo, e por lá andam à procura do seu sustento. Mas vão regressar, e toda agente sabe a quem pertencem.

Atónito perguntei ao Eustáquio: 

- Então vocês não apanham os ovos para consumo da casa?

Ao que ele prontamente respondeu:

 - Não,  Tiu Rui. Os ovos que as galinhas põem é para nascerem pintainhos.

Entendi. Os ovos que aqui comemos não são destas galinhas. Preferem, talvez por
uma quetão cultural, comprar os ovos de aviário que consumir os ovos caseiros.

Diremos que estes são ovos de oiro, enquanto os outros são ovos banais.

03.04.2019, quarta feira  -” Nobreza... a quanto obrigas!”


Estou a falar de burocracia, de papéis, de documentos a legalizar. Desde há uns tempos que os processos de pedido de nacionalidade portuguesa para o Amali (Zinigio Sávio Maliata Sobral) e para o Eustáquio (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) nos vêm ocupando algum tempo. 

Em Timor e em Portugal as “démarches à faire” são aos montes. As exigências na Conservatória dos Registos Nacionais de Lisboa são cada vez maiores devido à deteção de documentos incompletos e até de documentos falsificados. 

O número de pedidos de cidadãos timorenses ultrapassa os 40.000, tornando cada vez mais difícil o deferimento dos processos, até pela falta de recursos humanos para tratar dos mesmos. Em Timor, como noutros países da CPLP, as certidões de nascimento são passadas pelos cartórios paroquiais, autenticadas pelo pároco, pela chancelaria eclesiástica e pelo
notário. 

Com a recente guerra de invasão e destruição que os indonésios infligiram a esta nação,  muitos documentos e livros de assentos foram destruidos e danificados.

Compreende-se a dificuldade que muitos cartórios têm em passar estes documentos,
sem lacunas. Alguns livros de assentos tiveram de ser refeitos, e nem sempre bem (troca de nomes, de datas, etc...) Os cartórios paroquiais que eu conheço estão sempre repletos de gente a solicitar os seus serviços.

A outra parte da questão prende-se com a Embaixada de Portugal em Timor Leste (Díli). Todos os documentos têm de ser legalizados na secção consular desta embaixada, como é óbvio, que depois são enviados em mala diplomática para os Registos Centrais de Lisboa. 

Quando há documentos incompletos ou inválidos são reenviados em mala diplomática para Dili, a fim de serem retificados ou de se obterem novos documentos. Depois, a seu tempo, a embaixada reenviá-los-à para Lisboa. São processos que demoram anos e anos, alguns até sem resolução à vista.

Perante isto, o Amali decidiu ir para Portugal, para casa dos tios Gaspar e Glória Sobral, a fim de melhor poder acompanhar e desenvolvimento do seu processo e do pai. Com os documentos devidamente legalizados pela embaixada de Portugal,
entregou nos Registos Centrais de Lisboa o seu processo e o processo do pai, aos
quais foram atribuidos os números respetivos. 

Mas como as certidões de batismo tinham falhas foi-me pedido que logo que regressasse a Timor Leste, o que aconteceu no dia 2 de fevereiro, tentasse resolver este problema pedindo nova certidão e fotocópias dos Registos de Assentos (assento original + assento refeito de cada um, com a autenticação do pároco, da chancelaria eclesiástica e do notário. 

É o que temos andado a fazer, e que neste momento já temos em mão. Mas falta a legalização dos Serviços Consulares da Embaixada. Através do amigo e primo Rui Pedro, que é conhecido e amigo do marido da Drª.Joana Pinheiro, a consul da Embaixada de Portugal em Díli, consegui um atendimento personalizado que serviu para apresentação de cumprimentos e breve exposição e justificação da nossa presença neste país. 

Agradeço à Drª. Joana a simpatia e a atenção que me dedicou, mais a mais sabendo eu de antemão que tinha uma agenda sobrecarregada de trabalho.

Claro que a proveitei a ocasião para lhe pedir um favor: a legalização dos seis documentos que levava comigo referentes ao Amali e ao pai. A doutora depois de lhes dar uma vista de olhos disse que iam legalizá-los e convidou-me a ir ao balcão para esse efeito, ficando uma funcionária de passar o recibo que para tal é cobrado. 

Como não tinha dinheiro suficiente comigo (140$),  pedi licença para ir ao BNU, aqui do
outro lado do edifício, levantar dinheiro que chegasse, o que me foi facilitado. De volta à embaixada, sentado à espera de ser chamado no espaço dos serviços consulares, veio ter comigo a DrªJoana que me entregou os documentos em causa sem estarem legalizados, dizendo-me que tinham de ser os próprios a pedir a marcação para a legalização, ou então um solicitador devidamente credenciado. 

Aconselhou-me a fazer as marcações online (aliás é o único processo admitido), coisa que fiz logo que cheguei a casa.

Senti uma grande frustração, e é escusado dizer que nada motivado para continuar nestas andanças de papeladas. “Nobreza...a quanto obrigas!”

Muitas mais coisas me apetecia dizer, mas vou ficar por aqui, para bem da minha
cabecinha pensadora.

06.04.2019, sexta feira  - “Quem vê caras não vê corações.”

Esta nem ao diabo lembra.

Em 2018, aquando da nossa estadia, fomos comprar uma tábua de engomar numa das muitas lojas que existem em Dili. A pensar que tínhamos adquirido uma grande coisa, afinal não passa de uma grande *... 

A tábua que, por princípio, deve ser direita para que o ferro deslize com facilidade, ao longo do seu uso mais parece um monte de pedregulhos, tornando quase impossível passar a ferro qualquer peça de roupa.. A curiosidade de saber o que se passava levou-nos a desmontar a dita cuja, que nos deixou de boca aberta ao vermos as suas entranhas. O que devia ser uma tábu homogénea, são sete bocados de madeira, mal agrafados, encavalitados uns nos outros. 

Quem teria sido o artista? Fica-nos a dúvida do “made in”: China, Indonésia, Timor-Leste, outras... Fosse quem fosse, não é coisa que se faça.. Isto é enganar os clientes.

E uma vez mais se aplica o ditado “ Quem vê caras não vê coraçôes”. Cuidado com as falsificações! Cuidado com os lobos disfarçados em pele de cordeiro! Cuidado com
os sepulcros bem caiados!

A tábua de engomar está já restaurada pelo artista da casa, Amali, com uma qualidade
bem superior à que nos foi impingida.

Bolas! È uma questão de qualidade comercial...

06.04.2019 - Sinais de mudança

Falo do tempo metereológico, e não de mudanças políticas ou outras.

Como já referi nestas crónicas, aqui só há duas estações no ano: O verão e o inverno.. A passagem de uma para a outra é marcada por dois ou três dias de temporal, com fortes ventos que se fazem sentir na terra, no mar e no ar. Já o ano passado podemos testemunhar esta transição do inverno para o verão, enquanto estivemos em Boebau.

Este ano estamos em Ailok Laran, onde decorre o mesmo fenómeno. Não há calendário que defina os dias certos deste mudança. Mas, pela experiência dos mais velhos, todos sabem que o verão está a chegar. Com ele chegarão também o pó dos caminhos, o tempo de seca,, mais calor, uma variedade de frutos apetecidos.

Que venha o verão! Que venha por bem!...

 
(Revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

____________

terça-feira, 9 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28084: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VIII: semana de 24 a 31 de março: do ensino da língua portuguesa ao barlaque


Timor-Leste > s/l > s/d > Familiares a negociarem o valor do "barlaque" | Foto: Josh Trindade. Fonte: Cortesia de Diligente, Dili, Timor-Leste (»*)

O pedido tradicional de casamemto é comum a muitos povos. Em Angola, chama-se "alambamento". Na Guiné-Bissau, não há um termo específico em crioulo, variando conforme os grupos etno-linguísticos. Mas em Bissau é conhecido como o "pidi noiva". (LG)


1. Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (**), de Rui Chamusco a Timor-Leste.

1.1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos (exceto na pandemia), desde 2016. É o lider de uma associação de solidarieddae com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e fez o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar.

São 3 dias de viagem até Dili!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação delicada cirúrgica, de que está a recuperar bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Além da música, é o homem dos sete intrumentos (acordeão, viola, gaita de foles, violino, órgáo, etc.). Dá explicações de grego, latim e protiuguès. Faz a sua horta. E é especialista em micologia (a ciência dos cogumelos): sabe os cogumelos todos pelo seu nome científico... E atà data ainda náo comeu nenhum daqueles venenosos e mortais que deu direito a passaporte para a eternidade.

A sua história é inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência. 

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cera de 3 centenas de páginas), aprende-se muito sobre a história, a cultura,  a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia dos nossos amigos timorenses.


1.2. Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se a saúde o permitir.

O Rui Chamusco, o "malae" (tuga), o "abô" (avô) Rui, é juntamente com a família luso-timorense Sobral (Gaspar e Glória, e também o "Eustáquio", irmão do Gaspar) um dos grandes pilares deste projeto de solidariedade com o povo timorense, que é a Escola São Francisco de Assis (ESFA).

É um exemplo vivo de amor à lusofonia e de solidariedade para com o povo de Timor-Leste, que merece ser conhecido pelos nossos leitores.

Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018, vai continuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. Mas o encanto destas crónicas deve ser partilhado.
  

Rui Chamusco,  professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é ntaural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referèncias no blogue


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)


Parte VIII: semana de 24 a 31  de março:  do ensino da língua portuguesa ao barlaque






24.03.2019, domingo  - “ Cantando espalharei por toda a parte ... se a tanto me ajudar o engenho e a arte... - Os Lusíadas - ( Canto I-2ªestância / estrofe )


Se há algo que nos une e identifica pelo mundo é a nossa língua mãe. Esta é uma das razões que justificam o nosso envolvimento neste projeto de solidariedade em Timor Leste: ajudar e promover ações que motivem os timorenses, e particularmente as crianças a aprender e a falar a língua portuguesa, que até é a segunda língua oficial desta nação.

Por isso construimos a Escola São Francisco de Assis em Boebau; por isso criamos o programa de apadrinhamento de crianças e jovens; por isso ensaiamos todas as semanas canções portuguesas a um grupo de crianças que, sempre que solicitem, se desloca a restaurantes ou lugares públicos para actuação; por isso dou todos os dias explições (aulas) a crianças e jovens que demonstrem uma vontade expressa de aprenderem o português.

“ Cantando espalharei por toda a parte...se a tanto me ajudar o engenho e a arte...”
- Os Lusíadas - ( Canto I-2ªestância / estrofe )

Como professor aposentado, habilitado para o ensino da música e da língua
portuguesa, sou testemunha de que o engenho e a arte, neste caso a música, são meios privilegiados do ensino do português, ou de qualquer outra língua. Com efeito dá um prazer enorme ouvir estas crianças de Ailok Laran ou de Boebau Manati interpretarem um elenco de canções portuguesas, numa língua que lhes é estranha mas que muito desejam compreender e falar.

É desta gente ávida de aprender que eu gosto e tento ajudar, com a ajuda do acordeão ou da guitarra. Já vi alguns portugueses que, assistindo aos ensaios do grupo, não conseguiram conter as lágrimas de emoção. (Não é João Crisóstomo e José Ascenso?)

Já vi alunos e professores da universidade de Dili interromperem por diversas vezes a Adobe (minha afilhada) que interpretava a canção “Chuva”, no dia 5 de Maio, dia da língua portuguesa. Já vi as crianças da montanha cantando o hino da escola com toda a alma e coração. Já vi o entusiasmo de toda esta gente com que cantam e dançam “ Ó malhão, malhão!”

Sim, acredito que a arte, a música fazem milagres. Que, como Camões escreveu, cantando espalharei por toda a parte, mais concretamente por estas terras do extremo oriente, a musicalidade da nossa língua e a possibilidade destas crianças e jovens poderem aprender e desenvolver a língua portuguesa.

Que bom é ser português! Que bom é fazer tantos amigos através da língua que
falamos. Que bom é sentir o amor dos timorenses por um país que se chama Portugal.


26.03.2019, terça feira  - “ Eu só sei que nada sei...”


Esta nem ao diabo lembra.

Hoje à noite, ao jantar, enquanto saboreàvamos uma “pinguinha de vinho do Porto”, veio à baila o tema do álcool, mais propriamente dos vinhos: o sabor, o grau, as marcas, as diferentes qualidades de branco, tinto e rosé, e evidentemente o consumo.

Foi então que o Eustáquio nos revelou algo inimaginável para quem gosta mesmo de saborear um bom vinho, fruto das uvas e do trabalho do homem. Disse-nos que aqui, em Timor, mesmo não sendo uma terra produtora do néctar dos deuses, se consome muito álcool e há muitos bébados.

Como assim? Perguntamos nós. Ele então explicou:

- O timorense tem várias maneiras de se embriegar. Há quem beba o álcool simples; há o vinho da seiva de bananeira (sabo), uma espécie de aguardente, que misturam com cocacola e .......; há o vinho importado mas que é dificil de adquirir devido ao fraco poder de compra da maioria dos timorenses. Mas é raro beberem o vinho puro proveniente da fermentação do sumo das uvas. E aqui vem a revelação: ao álcool, ao vinho adicionam gasolina ou diluente para atingirem o mais rápido possível o efeito da bebedeira. São momentos de alienação e de curtição que parece agradar-lhes imenso. Até talvez quem sabe para esquecerem durante algumas horas os seus problemas e carências do dia a dia.

Seja como for, convenhamos que tal mistela pega fogo. E como o consumo exagerado de álcool é vício, nem quero pensar nas consequências físicas e psicológicas nestes corpos franzinos a que se sujeitam estes amigos de Baco. E, mesmo que seja uma questão cultural deste país, não me conformo a que nada se faça por esclarecer e emendar esta ementa tão perigosa. Que Deus nos valha!...

Mais ainda. O Amali contou que, quando apanham alguém bêbado, o que não deve
ser difícil de encontrar, fazem um menu todo estranho, e que consiste em fazerem
uma salada de tomate, cebola e outros ingredientes, que depois é recheada com
chinelos cortados aos bocadinhos. O desgraçado do bêbado, já não tendo a
clarividência do que está no prato, come tudo, inclusive os chinelos, pensando que
está comendo bocadinhos de carne. Isto já é malvadez e malandrice: gozar com quem não tem capacidade de discernimento. Que Deus lhes perdoe!...

26.03.2019 - Notícias aterradoras

Já não é a primeira vez que ouvimos falar disto. Um clima de violência fortuita
provocada por grupos de marginais, treinados em artes marciais ou outras técnicas de ataque, que espalham o terror nos bairros mais povoados e problemáticos da capital, Hudi Laran, Bairro Pité, Bidau, Comoro, etc... Ontem aconteceu em Ailok Laran, Um médico chinês foi assassinado, nem a polícia sabe por quem, e abandonado numa das estradas da localidade. Vingança? Ajuste de contas? Malvadez? Todas questões sem respostas que urge resolver para tranquilidade e sossego de todos nós.

A crueldade destes grupos de malfeitores é tão refinada que mortes já fizeram,
cortaram os corpos aos pedaços e foram deitá-los ao mar para alimento dos crocodilos que por aqui abundam.

O clima de terror está instalado. De tal modo que ninguém ousa sair à noite, e muito menos um malai (estrangeiro). Quanto menos se der nas vistas mellhor. Porque, de qualquer direção podem surgir os atacantes com setas, armas brancas (nelas incluindo as catanas), armas convencionais, ou até em confrontos corporais, lutas em que levam quase sempre a melhor devido aos cursos que frequentam em artes marciais.

O comandante das Forças Armadas, general Lere, já falou, em entrevista na GMN,
(uma das estações de Rádio e Televisão de Timor Leste) que se a polícia não resolver este problema da segurança das pessoas, as forças armadas encarregar-se-ão de o fazer. Mas até agora não se nota que algo tenha sido feito. E os factos assim o provam.

As consequências estão à vista. Para além da perda de vidas humanas e dos feridos
com marcas físicas e morais indeléveis, há países e governos que já reagiram a este
clima de medo e de terror. O governo chinês já anunciou de que iria retirar de Timor Leste todos os seus cidadãos.

Um grave problema que urge resolver para bem dos cidadãos estrangeiros e para bem de Timor Leste.

27.03.2019, quarta feira  - “Não é com vinagre que se caçam moscas...”

Mais uma vez eu servi de recurso para obter o que se pretendia: a assinatura e carimbo do pároco de Motael, padre Justino, num assento de batismo a fim de dar andamento ao pedido de nacionalidade portuguesa. Sou testemunha das voltas e voltas que é preciso dar para que isso se consiga. Os pedidos são muitos, e até há párocos que já colocaram à porta do cartório um letreiro dizendo: “Não tenho tempo para atender estes pedidos”. 

Em situação de desespero, porque o processo em Lisboa depende deste documento, foi-me pedido pela família para ir com o Amali falar com o pároco.

Não me fiz rogado, e depressa me aprontei para irmos de motor tentar obter o
almejado papel. Pedi para falar com o pároco, o que me foi logo concedido, com
muita simpatia de quem assiste os serviços do cartório paroquial. Passados três
minutos, o padre Justino vem até mim, e depois de um cumprimento de reverência
fomos para o seu gabinete de atendimento numa sala ali ao lado. Conversamos
durante bastante tempo (mais eu do que ele pois quis explicar-lhe os motivos da
minha estadia em Timor Leste), e já quase no final da conversa expliquei-lhe o que
pretendia. 

O padre Justino compreendeu perfeitamente o que estava em causa (falamos bastante dos documentos falsos que abundam nos processos timorenses e
que bloqueiam ou anulam o andamento dos mesmos) e, sem qualquer resistência,
perante a apresentação da fotografia do assento de batismo, ele me disse: “Sim, vou
assinar e carimbar.” 

Claro que fiquei contentíssimo que por minha intercessão se tenha obtido este precioso documento.

Um muito obrigado ao pároco de Motael fechou este nosso encontro, e uma alegria
enorme quando disse ao Amali: “Já está!”

Este episódio faz-nos pensar e perguntar: Quantos documentos não válidos serão
passados nos cartóríos paroquiais das igrejas de Timor que, por falta de
esclarecimento, de nada servem por os processos em causa? Quanto dinheiro (coisa rara para os bolsos de muitos timorenses) não se tem gasto inutilmente? Quem deve esclarecer esta situação, que se repete em muitos dos processos?

Em meu entender, a embaixada de Portugal e a igreja são os responsáveis de tal
situação. E por isso, devem proceder, quanto antes melhor, à resolução deste
roblema.

E já nem gostaria de falar de “advogados” e “solicitadores” oportunistas que, sem
saber o que fazem, estão extorquindo a economia que quem mal pode pagar os seus
serviços.

Moral deste caso: “Não é com vinagre que se apanham moscas...” mas com bons
modos, esclarecimentos e muita verdade.

29.02.2019, quinta feira  - Em defesa da Língua Portuguesa

É uma preocupação de todos, e particularmente aqui em Timor Leste, país que adoptou o português como segunda língua oficial. A responsabilidade é dos governos de Portugal e de Timor Leste, dizem uns. A tarefa é de todos dizem outros. O que é certo é que, apesar de todos os esforços feitos por quem sente este dever de promover e desenvolver a língua portuguesa em terras timorenses, a nível oficial e particular, os resultados não são muito visíveis. E se o trabalho de campo desenvolvido por escolas de referência como as escolas CAFE implantadas nas principais cidades do país, e a escola Rui Cinatti em Dili que são apoiadas pelo governo de Portugal têm tido um papel importante na promoção e defesa da nossa língua, a verdade é que não vemos na prática, na vida do dia a dia, os timorenses como falantes de português. Falam tetum ou bahasa (língua indonésia).

Mas então, depois de 17 anos de independência, o bahasa ainda se fala correntemente?

É isso mesmo: idosos, adultos, jovens e crianças compreendem e falam correntemente a língua indonésia. Como é que, com tanto esforço dos dois governos envolvidos e de instiutições particulares o português não é mais compreendido e falado?! Como é que a geração dos mais novos tem apetência e competência para a prática do bahasa?

Talvez que tenhamos de ser humildes e aprender com a estratégia dos indonésios. É que o governo indonésio, salvo as barbaridades dos militares ocupantes que reprimiam com prisão e até a morte os falantes de português, investiu numa rede escolar que cobre boa parte do território timorense; investiu no comércio local com a presença de cidadãos daquele país; investiu nos meios de comunicação social tais como operadoras telefónicas (as suas mensagens são em bahasa), e particularmente nos canais de televisão que, queiramos ou não, são o melhor meio de divulgação, porque junta o som e a imagem. Hoje, nos lares que têm televisão e em espaços públicos afins, a maior parte do tempo de antena é coberta com filmes, programas entretimento, noticiários, etc... em lingua bahasa.. Crianças e jovens, adultos e idosos aprendem sem muito esforço, de uma maneira lúdica, este idioma que os atrai.

Ora, sabendo nós da afeição que os timorenses têm pelos portugueses - eu sou
testemunha e sujeito desta afeição - e necessitando muitos timorenses de compreender e falarem a língua portuguesa por questões de emprego e de estatuto social, pergunto se não será possível o estado português investir mais na utilização destes meios de comunicação, sobretudo a televisão. É que aqui, por terras do extremo oriente, só se onsegue ver (apanhar) a RTPI, a Rádio Televisão Internacioal, e na maior parte das vezes em péssimas condições. Porque não investir em programas de entretimento, em filmes, nalgumas telenovelas, noticiários, programas desportivos, programas musicais (incluindo o folclore nacional)?...

Bem me parece que seria muito mais eficaz na consequção dos objetivos do que muitas das ações de várias instituições apoiadas pelo governo de Portugal. Claro que contando sempre com o precioso tarbalho que estas instituições têm desenvolvido.

Aqui fica a sugestão deste grão de areia que, também preocupado e empenhado no
ensino da língua portuguesa (mesmo que seja a cantar) vai tentando no dia a dia
motivar sobretudo as crianças, para compreenderem, a falar e a cantar, e a
expressarem-se na língua de Camões, o idioma de muitas nações irmãs - a CPLP
(Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa).

31.03.2019, sábado - Curta metragem: Ação!..

Esta manhã, foi um rodopio aqui em Ailok Laran. Todas as crianças apadrinhadas
(treze) foram convocadas para gravarem uma mensagem para as suas madrinhas 
ou padrinhos. Claro que tivemos de valer-nos das cábulas: folhas A4, onde préviamente escrevi o que cada um(a) tinha de dizer. Tempo de treino de leitura, correção, tentativas de gravação, olhares, gestos, cenários; pára, repete, agora, silêncio ... um sem fim de trabalhos que nos ocuparam toda esta manhã de domingo. Foi uma verdadeira aula de português, e creio que estas crianças não irão esquecer facilmente as suas mensagens. Aliás, cada uma guardou consigo a folha respetiva.

A seguir, é o envio das mensagens que, como eu não sou nenhum perito am novas
tecnologias, me ocupam parte importante do meu dia e noite de trabalho, A conta
gotas, lá vão sendo enviadas às madrinhas e aos padrinhos.

O feedback tem sido muito positivo, com mensagens de madrinhas e padrinhos a
manifestarem o seu regozijo por verem os seus afilhados a falarem em português.

E é assim que, com pequenas coisas, vamos lidando com esta grande tarefa de ensinar estas crianças a falar a língua de Camões.

31.03.2019 - “ barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio foi fazer de negociador no “barlak” (já grafado como "barlaque") de um sobrinho. Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o “barlak" (ou barlaque) ?

 O “barlak” é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva “os dotes” para que se realize o casamento. 

“Os dotes” envolvem dinheiro e bens. Neste "barlak" foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e tempêros; mais 15 caixas de cervejas, 10 caixas de coca cola e outras bebidas. 

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a mais ou menos 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
_______________

Notas do editor LG:


(...) “Ter muitas filhas é uma alegria para a família timorense, pois, no futuro, poderão trocá-las por dinheiro e animais. A mulher, quer queira quer não, tem de aceitar a decisão dos seus familiares sobre o preço do barlaque. Eu não quis ser vendida”

O “grito de Ipiranga” é de Martinha (nome fictício), uma das poucas mulheres que, numa sociedade fortemente patriarcal como a de Timor-Leste, levanta a voz para dizer “não”.

O barlaque é uma tradição que existe em Timor-Leste desde os tempos antigos. Este ritual acontece quando um homem e uma mulher decidem casar e têm de, em consequência de uma espécie de “obrigação cultural”, envolver as famílias de ambas as partes para negociar o matrimónio, o que normalmente envolve entrega de bens ou dinheiro aos familiares da noiva. (...) 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28063: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VII: semana de 18 a 24 de março: aqui não há andorinhas a anunciar a Primavera



Timor-Leste > s/l > c. março / abril de 2019 >  O Rui Chamusco 


Foto: © Rui Chamusco (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Rui Chamusco,  professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande.



1. Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor-Leste.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo natal, se a saúde o permitir. Natural da Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã, onde é professor de música, reformado. Teve há dias alta do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, estando a recuperar de uma delicada intervenção cirúrgica.  Daqui vai um abraço meu, de amizade fraterna,  com votos de rápida e efetiva recuperaçáo da saúde. Ruizinho, espero poder-te  abraçar de novo, dentro de dias, na Lourinhã.

O Rui Chamusco, o "abô" Rui, é juntamente com a família luso-timorense Sobral (Gaspar e Glória, e também o "Eustáquio", irmão do Gaspar)  um dos grandes pilares deste projeto de solidariedade com o povo timorense. 

É um exemplo inspirador, de amor à lusofonia e de solidariedade para com o povo de Timor-Leste, que merece ser conhecido pelos mossos leitores. Além disso, há aspetos da história, da geografia e da cultura timorenses que nos são totalmente desconhecidos. 

Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018,  vai continhuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha.  Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas.


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)

 Parte VII: semana de 18 a 24  de março: aqui não há andorinhas a anunciar a Primavera 



19.03.2019, segunda feira  - 1º aniversário da inauguração da Escola São Francisco de Assis


Projeto de Solidariedade em Timor Leste - ASTIL

Faz hoje, dia 19 de março, um ano que a Escola São Francisco de Assis (ESFA) em Boebau foi inaugurada. Apenas com um ano de existência, muito se tem feito para que a ESFA vá caminhando, com passos certos, rumo à sua sustentabilidade e
funcionamento. 

Embora sendo uma escola de ensino privado e particular, como definem os seus estatutos, a ESFA está registada no Ministério da Educação de Timor Leste, com o número 36 da rede de escolas da direção regional de educação do distrito
de Liquiçá.

Ainda sem capacidade de resposta para as 75 crianças inscritas inicialmente, a escola funciona com um grupo de 40 crianças que frequentam o ensino pre escolar, assistidas por duas auxiliares de educação com formação e estágios no “Mundo Mágico” de Dili, instituição credível que a educadora Diana Rebelo dirige, e que graciosamente nos apoia com toda a dedicação.

Ano após ano, iremos acrescentado as turmas de 1º, 2º, 3º e 4º anos de escolaridade, até atingirmos os nossos objetivos: uma escola de ensino pre escolar e primário, com eferências de ensino do programa do ministério, da língua portuguesa e da música.

A par da luta por estes objetivos, preocupa-nos a contratação e a fixação de
educador(a) de infância e de professores do 1º ciclo, a fim de garantirmos o
funcionamento pleno deste estabelecimento. Por isso vamos começar a campanha de angariação de fundos para a construção no local de uma casa para professores residentes, com as condições de habitabilidade necessárias, que nos permita motivar docentes a aqui exercerem as suas funções. 

Talvez que, no começo do próximo ano letivo (Janeiro/fevereiro) já possamos contar com esta infraestrutura.

Quero uma vez mais agradecer a colaboração de todos os amigos e pessoas de boa vontade que ao longo destes três anos nos têm apoiado. Queremos continuar a merecer a vossa confiança. Este projeto de solidariedade é obra de todos nós. Com a participação de todos, e sobretudo com a ajuda de Deus, havemos de conseguir um mundo um pouco melhor, particularmente para estas crianças esquecidas das montanhas de Luiºçã / Manatti / Boebau e das famílias pobres deste país irmão.

CONTAMOS CONVOSCO!...

Rui chamusco


20.03.2019, terça feira  - É primavera com certeza...

Esta é a estação do ano mais desejada. Porque a vida se renova na natureza, porque os rebentos, as flores e as folhas das árvores reaparecem, porque os dias vão crescendo, etc, etc... Assim, nós ocidentais, estamos acostumados a recomeçar de três em três meses cada uma das quatro estações do ano, e a sermos levados musicalmente por Vivaldi a ouvir “as quatro estações”, com destaque para “a sagração da Primavera”.

Pois é. Aqui por este extremo oriente, só contam duas estações: o verão e o inverno.
Da primavera e do outono nem sequer se fala. O que por cá marca a mudança é o
período das chuvas. De resto mal se nota se é inverno ou verão. No inverno como
chove quase todos os dias, são as enxurradas e os caminhos enlameados; no verão é a poeira e um pouco mais de calor. 

Aqui é raro encontrar árvores de folha caduca. Cada espécie, ao seu ritmo, vai florindo e dando frutos sem definir o tempo ou a estação que lhe pertence. Também não se vêm andorinhas que anunciem a primavera. 

Por isso sem sinais evidentes de mudança, esta gente não se apercebe de que já começou a pimavera. Resta-nos a primavera interior, onde a renovação das nossas vidas ganha mais significado e novas dimensões.

Em todo o caso, prefiro soletrar a canção que todos os anos e cantava para os meus
alunos:

 "É primavera com certeza / Vejo andorinhas a voar / Oh, como é linda a
primavera / Com o sol sempre a brilhar./

 Sinto alegria / Ao ver na terra / Como as flores / Ficam tão belas.”

21.03.2019, quarta feira  - “ Entendeu?”... “Não, não entende!”

Pode ser caricato, mas é assim mesmo.

A mãe da Mércia (afilhada do amigo José Escada) veio a meu pedido falar comigo
para esclarecimento de uma situação do programa de apadrinhamento. Depois do
cumprimento habitual, perguntei à senhora: 

− Fala português? 

Ao que ela respondeu:

 
− Sim. Um pouco.

E vai daí, toca a explicar o que realmente aconteceu, para que tudo ficasse bem claro, sem lugar a qualquer dúvida.

Pelo sim e pelo não voltei a perguntar-lhe: 

− Entendeu o que eu disse?

E respondeu-me prontamente: 

− Não! 

Fiquei embasbacado, e tive de recorrer ao amigo Eustáquio para que lhe traduzisse em tetum o que eu lhe tinha dito. Claro que tudo se resolveu, sem que de vez em quando a gente recorde este episódio com bastante riso à mistura.

É assim. Em terra estrangeira, sem o domínio da língua dos falantes, quando tu pensas que disseste alguma coisa, não disseste nada. Apenas falaste...

22.03.2019, quinta feira  - Tão longe e tão perto...

As novas tecnologias (computadores, telemóveis, facebooks, whatsapp,etc...) dão-nos possibilidades, mesmo aos mais velhos, de entrar em sintonia com os nossos amigos, independentemente da distância a que nos encontremos.

Vem isto a propósito do encontro do mês de Março que os professores aposentados do concelho de Sabugal organizam, percorrendo as terras deste território, e que inclui o almoço como alimento para o corpo e a visita cultural como alimento para o espírito.

Quis a organização que este mês fosse realizado em Malcata, terra que me viu nascer, crescer e viver intensamente ao longo deste setenta e dois anos que já conto.

Sendo eu um malcatanho ferrenho e um frequentador assíduo deste enconttros,
imaginem como vivi este acontecimento à distância. Tão longe e tão perto destes
meus amigos e de tudo o que neste dia por lá aconteceu. 

Sei que leram a mensagem que eu lhes mandei, sei que se lembraram de mim, sei que até cantaram a carquejinha”,  canção emblemática de Malcata, sei que o almoço foi espetacular, sei que gostaram muito das visitas que fizeram ao Largo da Torrinha, à sede da AMCF, à igreja paroquial, aos polos do Lar, et, etc... Mas o que mais me comoveu (malandrice) foi a fotografia que o grupo tirou frente à casa onde eu nasci. 

Obrigado,  colegas e amigos pelo carinho que demonstraram por mim; obrigado Zé Manel pela reportagem fotográfica que me enviaste; obrigado Quim pelas cantigas e guitarradas; obrigado lice por seres a porta-voz da minha mensagem; obrigado Carlos Almeida, pela feliz ideia de criar, concretizar e promover este tipo de encontros. Fiquem cientes que não irei esquecer facilmente este dia. E prometo-vos que, quando regressar, participarei no encontro organizado seja onde for... Até lá um grande e forte abraço, porque a distância não é prisão. A distância faz mais forte a nossa união...

22.03.2019 - Mensagem
Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral




Caros companheiros e amigos

Sei que hoje, terça feira, o almoço de convívio dos prof aposentados vai ser em
Malcata, na Tasca do Manel. Claro que, como grande apreciador destes almoços e
orgulhoso malcatanho, não poderia deixar de estar presente, ainda que ausente por grande distância. “Longe da vista, mas perto do coração.

Sei que, à semelhança da outra vez, a MariZé, a Isabel, o Manel e o Zé vão tudo fazer para que seja um almoço memorável. Eles são sempre assim: incansávéis em servir os seus clientes, e muito mais os amigos de sempre. Beijos e abraços para eles e, já agora, o vosso aplauso...

Eu por aqui vou lutando, neste momento com alguns problemas de saúde mas que estão a ser tratados. Como beirão genuíno, resisterei até que a carne os ossos
aguentem. Já lá vão 14 kg.

Neste momento temos lutado em várias frentes. Desculpai os termos “lutando”,
“lutado”, mais próprios de linguagem guerrilheira. Mas é assim que me sinto por aqui.

Somos os novos guerrilheiros, com outras armas, lutando por outras causas. A nossa grande arma é a solidariedade, que embora seja uma palavra desgastada, é a que melhor nos define. É para nós uma honra, e particularmente para mim, podermos contar com a vossa colaboração e sobretudo com a vossa amizade

No dia 19 próximo faz um ano que foi inaugurada a Escola São Francisco de Assis, em Boebau / Manati, nas montanhas de Liquiçá. Tem-nos sido difícil manter o seu funcionamento por diversas razões: 

1º - acesso muito difícil: mais ou menos 2 horas para fazer 10 km; 

2º- condições de habitabilidade inexistentes (para um ocidental); não há água corrente nem luz; 

3º- dificuldade em motivar docentes (educadores, professores do 1º ciclo) para lecionar na nossa escola.

Por isso já tomamos a decisão de, quanto antes, começarmos a construção de uma casa para professores residentes e voluntários, que orçamentamos + ou - em 20 mil  dólares. Talvez com esta infraestrutura a funcionar possamos resolver bastantes dos problemas que neste momento nos preocupam.

Está também em fase de construção, creio que em Maio estará concluída, a
reconstrução da casa de “família do Sr. Vitor” 
 [um antigo guerrilheiro da FRETILIN] . O Colega Carlos Almeida poderá, se assim o entender, dar-vos mais esclarecimentos sobre esta causa solidária.

Também o programa de apadrinhamento de crianças/Jovens necessitadas (à volta de 50), me têm ocupado bastante tempo. Tento a todo o custo que as motivações que levaram ao apadrinhamento não esmoreçam, criando laços e pontes para que as relações entre padrinhos e afilhados se solidifiquem. Obrigado a todos o padrinhos e madrinhas aí presentes.

Desculpai estar a ocupar-vos tanto tempo com “as minhas coisas”. Mas, como estais na minha terra, senti-me no direito de vos chatear.

Se aí estivesse, de certeza que vos tocaria e cantaria a canção “carquejinha”. Assim não sendo, despeço-me com um GRANDE ABRAÇO para cada um de vós, e até que um dia Deus queira.

Hoje, em Malcata,

Rui da Ti Laurentina


Obs - Confesso-vos que, enquanto vos escrevia estas linhas, por diversas vezes limpei as lágrimas... Saudades, amizades? Mas “as coisas vulgares que há navida não deixam audades”...


 (Revisão / fixação de texto, negritos, itálico, parènteses retos, título: LG)
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