No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné, é proibido o ódio. O discurso do ódio. Tudo bem.
Mas também não temos que nos amar uns aos outros (combatentes e desertores, "tugas" e "turras", colonialistas e anticolonialistas, benfiquistas, sportinguistas e portistas, ateus, crentes e agnósticos, brancos, azuis, verdes, vermelhos, amarelos...).
Talvez por isso tenhamos chegado aos 22 anos de existência na Net. E aos 22 milhões de visualizações de páginas.
Devemos desconfiar destes números. Sim, como manda a dúvida metódica de Descartes. Visualizações não são "visitas" ou "visitantes" Quem visita, pode visualizar mais do que uma página num dado momento (por exemplo a esta hora em que eu estou a editar este poste).
Mas é do ódio que importa falar... Sim, há muito ódio nas redes sociais. No blogue, acho que não tanto, estamos "vacinados"... Temos controlado os "outliers", os extremismos...
Mas ódio, ódio, sempre o houve, desde que o homem é homem, um animal mamífero, de sangue quente, territorial, social, omnívoro, predador...(nome científico: "Homo sapiens"; espécie classificada pelos zoólogos na Ordem dos Primatas, tal como o chimpanzé, o gorila, o orangotanho...mas também o macaco-cão).
Mesmo não havendo "redes sociais, digitais", no passado, sempre houve razões para nos odiarmos uns aos outros e, "in limine" nos matarmos uns aos outros, invocando até (ou quase sempre) o "sagrado": Deus, Pátria, Família, as nossas crenças, os nossos valores, o nosso solo sagrado...
Desde o princípio de todas as coisas. Sempre houve "violência" (física e verbal).
3. A minha dúvida existencial, que levei para a Guiné: posso lutar numa guerra sem ódio ? Sem sentir ódio pelo inimigo, que nem sequer conheço nem sequer vejo muitas vejas ? Tenho mais chances de sobreviver se "odiar" ou se "não odiar" ?
O contrário de "amar", não é "odiar", mas "não-amar", dizem os puristas da língua...
Em suma: na guerra, tenho que sentir raiva e ódio ? Ou posso também sentir piedade, compaixão ? Tenho que odiar quem me quer matar ? Quem me aponta uma RPG-7 à cabeça, emboscado, escondido atrás do "bagabaga" ou do grosso tronco do bissilão ? Ou antes, tenho que odiar quem me mandou para a guerra ?
A "padeira de Aljubarrota" que há 641 anos atrás, em 14 de de agosto de 1385, matou (diz a lenda) sete castelhanos (ainda não eram espanhóis...) que se esconderam no seu forno..., só podia matar... por ódio. Os 6 mil e tal portugueses e ingleses que enfrentaram mais de 30 mil castelhanos nesse dia, mês e ano, não poderiam ter vencido essa batalha sem ter experimentado, nessa tarde, um ódio intenso ao "invasor"... Ou seria "loucura" ? Talvez venha daí a expressão que os "nuestros hermanos" (sic) ainda hoje usam: "Portugueses, pocos pero locos" ("Portugueses, poucos mas loucos")...É verdade, sempre fomos poucos mas...loucos.
Tenho estado a refletir sobre o binómio amor-ódio (interpessoal, intragrupal, intergrupal, a nível nacional e internacional) (*)... E até intrapessoal: há sempre uma parte de nós que odiamos..., do tamanho do penis ao nariz adunco....
Se não fora assim, os consultórios dos psiquiatras estariam às moscas... Os psiquiatras e demais "psis", os psicólogos, os psicoterapeutas, os médicos, os padres, os feiticeiros, as bruxas, os astrólogos...
Também desconfio do "Amor com amor se paga"... Altruísmo 'versus' egoísmo ? A sociobiologia também é muito redutora e primária...
Dei aulas de etologia e sociobiologia, em 1994, a alunos de licenciatura em sociologia,qu se estavam borrifando para o Hawkins, o Wilson, o Lorenzo, etc. Li muito e escrevi muito nesse ano sobre esses temas, incluindo a "pulsão da violènca" que nos leva a matar...
Mas o que sei eu hoje sobre este campo tão controverso ? Sei que a minha pergunta toca em temas centrais da condição humana: o ódio, o amor, a guerra, a sobrevivência, a moral e até a biologia.
(i) Afinal, o que é o ódio?
Diz o dicionário:
ódio
(ó-di-o)
substantivo masculino
(a) Sentimento de intensa animosidade relativamente a algo ou a alguém, geralmente motivado por antipatia, ofebsa, ressentimentro ou raiuva= Aversão, repulsa, ≠ Amizade, amor
(b) Objeto desse sentimento.
Etimologia: do latim otium, -ii (ódio, aversão, ressentimento, má vontade, animosidade, irritação, desagrado, insolência).
"ódio", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-br/%C3%B3dio.
O ódio é uma emoção intensa de aversão, hostilidade ou repulsa em relação a uma pessoa, grupo, etnia, classe social, nação, ideia, crença, objeto ou coisa (ex.: odeio o fulano de tal, os ciganos, os balantas, a Guiné, o populismo, os milionários, os comunas, os fascistas, os nazis, as claques de futebol, os "emigras"... mas também a bola, a lampreia, a IA, os tuk-tuk).
Não é apenas uma emoção individual: é também um fenómeno social, muitas vezes alimentado pelo medo, pelo desconhecimento, pela desumanização do outro, pela competição por recursos escassos, ou pela necessidade de pertencer a um grupo (identidade vs. alteridade).