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terça-feira, 16 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28103: Timor-Leste: passado e presente (35): Barlaque: casamento tradicional e modernidade, o verso e o reverso (resumo analítico de artigo, publicado pelo Diligente, excelente jornal digital, feito em Díli)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: Luís Graça + Rui Chamusco

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

Barlaque: ritual de união familiar ou ataque à igualdade de género?
Autoria: Equipa do Diligente
Fonte: Diligente (16 de julho de 2023)


1. Sobre a "Equipa do Diligente", convirá saber o seguinte:


“Sobre as pessoas. Para as pessoas”

Somos um grupo de jovens jornalistas timorenses ansiosos por melhorar a indústria dos media no nosso país. Queremos difundir informação imparcial que possa ajudar as pessoas a enfrentar todas as questões sociais e económicas com pensamento crítico.

Queremos que o povo timorense seja ouvido. Queremos que todos estejam conscientes do que se passa no nosso país.

Ambicionamos ser um projeto inovador, com uma aposta forte em trabalhos de investigação, reportagens, podcasts e outros conteúdos informativos.

Como primeiro website informativo totalmente em português, em Timor-Leste, temos a preocupação acrescida de produzir conteúdos de fácil compreensão e explicar assuntos complexos de forma simples.

Vamos dar voz aos cidadãos, promovendo debates sobre os direitos humanos e a defesa das minorias, ao mesmo tempo que mostramos ao mundo a riqueza cultural de Timor-Leste e os aspetos que o tornam único.


2. Aqui vai uma sinopse crítica do artigo supracitado, estruturada, para melhor legibilidade.   Inclui os pontos-chave, as tensões culturais e as vozes dissonantes, além de uma reflexão final que convida ao debate.

O barlaque (ou barlak, em tétum) é uma tradição ancestral timorense que formaliza o casamento através da negociação entre famílias, envolvendo a troca de bens (dinheiro, animais, adornos como belak ou kaebauk) como símbolo de união e respeito. 

Originário do termo indonésio berlaki (mulheres com companheiro para casamento), o ritual divide-se em três fases:

(i) Tuku odamantan (“bater à porta”): 

primeiro contacto entre famílias, a do pretendente e a da futura noiva, com troca de presentes simbólicos: cigarros, vinho, cabrito, noz-de-areca (equivalente à noz-de-cola africana).

(ii) Hamos dalan (“abrir o caminho”): 

cerimónia de reconhecimento mútuo, onde a mulher passa a integrar a família do homem (fetosán), e os homens da família da noiva se tornam umane (herdeiros da uma lisan, casa sagrada).

(iii) Kahe aitahan (“prenda”): 

casamento cultural, com troca de anéis e fios de ouro/p e prata; aqui, define-se se o sistema é patriarcal (kaben sai: a mulher e filhos passam à uma lisan do homem) ou matriarcal (habanin: o homem entra na uma lisan da mulher).

A Face oculta: violência, dívida e desigualdade

O artigo desmonta o mito da “união familiar” ao expor casos concretos de exploração económica e opressão de género (os nomes são fictícios, para proteger a privacidade das pessoas entrevistadas):

  • Martinha, mãe de duas filhas, recusa o barlaque por considerá-lo uma "venda de mulheres": os tios da noiva (figuras centrais no processo) decidem o valor e ficam com a maior parte, reduzindo a mulher a um objeto de transação. 

A recusa de Martinha em ser "barlaqueada" (sic) gerou conflitos familiares, mas a sua resistência expôs uma verdade incómoda: mulheres barlaqueadas são frequentemente vítimas de bullying, violência doméstica e controle excessivo por parte do marido e da família do marido.

“Se eu não fosse a um funeral ou não soubesse cozinhar, seria alvo de ofensas. Não quero ser propriedade de ninguém.”

  • Yane Maia, revisora linguística, viu o seu casamento desmoronar-se devido a conflitos entre sistemas matriarcais e patriarcais, na cultura Bunak (matriarcal), as mulheres barlaqueadas não podem pertencer à uma lisan do homem, sob pena de “maldição de morte” para si e para os filhos; a família do marido recusou um compromisso híbrido, demonstrando a rigidez de um sistema que nega autonomia às mulheres.

Mais de 50% das mulheres timorenses (15-49 anos) já sofreram violência física ou sexual por parceiros masculinos (fonte: CEDAW/ONU). 

O barlaque, segundo o artigo, agrava esta realidade: casais endividados para pagar o ritual (que pode ir até aos 20 mil dólares, num país em que os rendimentos médios mensais andam na casa dos 150 dólares) vivem sob stress extremo, gerando divórcios e agressões.
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O artigo opõe três perspetivas

Defensores
do Barlaque
Críticos
do Barlaque
Neutrais
(Antropólogos)

Eugénio Sarmento (lia-nain):

o barlaque é um fator de união familiar e respeito pela fertilidade da mulher.

 
A violência doméstica não é culpa da tradição, mas de “pessoas que não a compreendem”.
Berta Antonieta (ativista feminista):
´
o barlaque reduz a mulher a um bem material, equiparando-a a búfalos ou dinheiro.

A cultura é dinâmica e deve ser mudada.
Alessandro Boarccaech

o barlaque é um facto social com dois lados: união familiar vs. discriminação.

A violência doméstica está ligada a fatores estruturais (educação, hierarquias, álcool, políticas públicas).

Josh Trindade
(antropólogo): os objetos trocados não são para “comprar” a mulher, mas para valorizar a sua fertilidade.

Critica os “colonialistas” que julgam a cultura sem a conhecer.

Martinha/Yane Maia
:

o ritual perpetua a desigualdade e a violência, especialmente quando as famílias pobres usam as filhas como fonte de rendimento.
Paulino dos Santos (engenheiro):

propõe reduzir os custos do barlaque e de outros rituais (lia mate, lia moris) para evitar pobreza e divórcios.
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O Debate Central: Tradição vs. Direitos Humanos

O artigo levanta questões incómodas e urgentes:


(i) O barlaque é compatível com a igualdade de género?

  • Os defensores argumentam que o ritual simboliza respeito e consolida laços familiares.
  • Os críticos respondem que, na prática, a mulher perde autonomia: os tios decidem o seu valor, e ela passa a ser “propriedade” da família do marido (ou, no caso matriarcal, o homem é que se torna dependente).
(ii) O barlaque é a causa da violência doméstica?

  • Não diretamente, segundo os antropólogos: a violência tem raízes mais profundas (educação, poder, álcool).
  • Mas legitima-a: ao tratar a mulher como um bem transacionável, o ritual normaliza a sua subalternização, criando um ambiente propício ao abuso.

(ii) Pode o barlaque adaptar-se aos tempos modernos?

  • Josh Trindade sugere que o pagamento pode ser fracionado (em prestações), aliviando a pressão financeira.
  • Berta Antonieta propõe uma revolução cultural: “A cultura foi feita pelo homem, mas é dinâmica. Podemos mudá-la.”
  • Alessandro Boarccaech questiona: “Para que serve o barlaque hoje? É justo? Respeita a diversidade?

Reflexão final: um espelho para Portugal  ( e Guiné-Bissau) ?

O artigo do Diligente é um retrato cru de como a tradição pode ser ao mesmo tempo um pilar cultural e uma prisão

OkEm Timor-Leste, o barlaque é um sistema complexo, com nuances entre o matriarcal e o patriarcal, mas com um denominador comum: a mulher é o último elo da cadeia de decisão.

Paralelos com Portugal

  • A dote (ou enxoval ou bargal) em Portugal também já foi um símbolo de status e negociação familiar, mas evoluiu para um gesto simbólico.
  • A violência doméstica em Portugal (como em Timor-Leste) tem raízes culturais profundas, muitas vezes mascaradas por “tradições”.
  • A resistência de Martinha lembra as mulheres portuguesas que, nas décadas de 60/70, recusaram casamentos arranjados pelas famílias ou a submissão ao marido, "chefe da família.
  • A igualdade da mulher perante a lei em Portugal é um direito fundamental consagrado no Artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa, que garante que todos os cidadãos são iguais e proíbe qualquer discriminação com base no sexo.A revisão do Código Civil, que entrou em vigor em abril de 1978, marcou uma revolução histórica nos direitos das mulheres em Portugal. Pela primeira vez, a lei instituiu a igualdade de género no casamento, abolindo o estatuto de dependência legal e económica da mulher face ao marido.
  • A revisão do Código Civil, que entrou em vigor em abril de 1978, marcou uma revolução histórica nos direitos das mulheres em Portugal. Pela primeira vez, a lei instituiu a igualdade de género no casamento, abolindo o estatuto de dependência legal e económica da mulher face ao marido.
  • As principais alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 496/77 incluíram: (a) fim da figura de "chefe de família": o poder de decisão exclusiva do marido sobre o agregado familiar foi eliminado; (b) gestão conjunta do património: o marido deixou de ser o único administrador dos bens do casal, passando a direção da família a pertencer a ambos os cônjuges.

Pergunta para os leitores do nosso blogue:

Até que ponto uma tradição (o "fanado", por exemplo, ou o "casamento infantil", na Guiné-Bissau) pode ser “respeitada” se ela perpetua desigualdades ou tem práticas que atentam contra os direitos humanos ?

 Será o barlaque um ritual de união… ou um mecanismo de controle social ? 

Veremos, em próximo poste, algumas semelhanças com o casamento tradicional na Guiné-Bissau.

Nota para citação: Sinopse crítica elaborada por LG +  IA  ( Vibe  / IA Mistral Medium 3.5) a partir do artigo “Barlaque: ritual de união familiar ou ataque à igualdade de género?”, publicado no Diligente, 16 de julho de 2023.

(Revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)
____________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 11 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28012: Timor-Leste: passado e presente (34): a revolta de Manufai (dez 1911 / out 1912) - Parte I

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28089: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (6): quando a cultura reforça a desigualdade de género e a violência (física, psicológica, simbólica) sobre as mulheres: neste caso o barlaque em Timor-Leste ou o alambamento em Angola ou o "pidi noiva" na Guiné-Bissau




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: LG + RC

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Na sua última crónica, da viagem e estadia de 2019, em Timor-Leste, o nosso grão-tabanqueiro Rui Chamusco escreveu o seguinte apontamento sobre a tradição (cultural) do Barlaque (*):


31.03.2019, sábado - “Barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio [irmão mais novo do Gaspar Sobral, o luso-timorense, casado com a Glória Sobral, cofundadores da ASTIL, juntamente com o Rui Chamusco] foi fazer de negociador no “barlak”  [termo já grafado em português como "barlaque"] de um sobrinho. 

Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o barlaque ?

 O  barlaque é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva,  passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva  os "dotes” para que se realize o casamento. [Em tétum, "manefon" quer dizer homem (mane) novo (foun, fon), o que passa a fazer parte de uma nova família ].

Os "dotes” envolvem dinheiro e bens. 

Neste barlaque  foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que: 

  • 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e temperos; 
  • mais 15 caixas de cervejas, 
  • 10 caixas de coca cola e outras bebidas.  [Um timorense ganha em média 125 dólares por mês, para economizar 2500 dólares tem de trabalhar e poupar muito; pode ser ruinoso casar um filho.]

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. 

Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a,  mais ou menos, 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


 2. Enquanto aguardamos, por parte do Rui Chamusco,  mais esclarecimento sobre a prática do Barlaque, hoje, em Timor-Leste, passados já sete anos sobre aquela crónica, fizemos uma rápida pesquisa sobre o tema através de uma ferramenta de IA (a francesa Vibe,  da Mistral AI).

 Eis o que apurámos, muito sumariamente:

O barlaque é, de facto, uma cerimónia tradicional timorense central no processo de casamento, onde as famílias dos noivos negoceiam os dotes, como parte do acordo pré -matrimonial. (É uma pratica que também se faz no Ocidente...)

A descrição que o Rui Chamusco faz parece estar muito alinhada com o que se sabe sobre esta prática, que é uma das mais importantes e simbólicas nas comunidades timorenses, especialmente nas zonas rurais.

(i) Significado e contexto cultural

  • o barlaque é uma negociação formal entre as famílias do noivo (representado pelo  manefon ou manu-foun) e da noiva, onde se discutem os termos do casamento, incluindo os dotes (dinheiro, adornos, outros bens, animais, comida, bebidas) que a família do noivo deve oferecer à família da noiva; 
  • não é apenas uma transação económica: é um rito de aliança entre famílias, que reforça laços sociais e comunitários; 
  • o  valor e a composição do dote variam conforme a região, a situação económica das famílias, o estatuto social, etc.:
  • em muitas comunidades, o barlaque é também uma forma de "compensar", de algum modo, a família da noiva pela "perda" de um membro (a filha) e pelo seu contributo para a nova família (em sociedades camponesas é, antes de mais, a perda de "dois preciosos braços").

(ii) Composição típica do dote (barlaque)

A descrição do Rui Chamusco é muito detalhada e reflete práticas comuns ainda em vigor na sociedade timorense, mais de 50 anos depois da descolonização e mais de duas décadas depois da independência (em 20 de maio de 2002) (e com mais 2 décadas de ocupação indonésia, entre 1975 e 1999):
  • dinheiro: o valor pode variar muito, mas 2.500 dólares (ou mais) não é invulgar em casamentos mais abastados ou em zonas urbanas; 
  • em áreas rurais, os valores podem ser menores, mas a estrutura e o significado são semelhantes;
  • animais: o búfalo, o boi ou a vaca (krau) é um elemento central, muitas vezes abatido para a festa de casamento; 
  • o seu valor simbólico é enorme: representa fertilidade, riqueza e status; em algumas regiões, o número de bois pode ser negociado (por exemplo, 1, 3 ou até 5, dependendo da importância da família);
  • comida e bebidas: (a) arroz: uma saca de 30 kg (ou mais) é comum, e é partilhada entre as famílias e os mediadores; (ii) bebidas: cerveja (15 caixas ou mais), refrigerantes (como Coca-Cola, 10 caixas), e por vezes tuak / tuaque (vinho de palma, tradicional em Timor); (c) porco: outro animal frequente, abatido e partilhado durante a cerimónia;
  • outros bens: podem incluir tecidos (tais), joias (adornos, com o balaque, o carbauque), ou até eletrodomésticos, dependendo da modernização da prática.

(iii) O papel do negociador (em nome do pretendente ou noivo, manefon, "homem novo"):

  • o manefon (ou manu-foun) é o vem de fora, de outra família, que para pedir a mão da noiva precisa de um intermediário, um mediador, em  geralmente um familiar próximo (em geral, o tio);
  • o negociador tem um papel-chave na discussão do dote e na mediação entre as famílias, como referido pelo Rui,  recebe uma parte simbólica dos bens (como os 3 kg do porco), como reconhecimento pelo seu trabalho.

(iv) Festa e partilha:

  • a família da noiva (geralmente as mulheres, como as irmãs) é responsável por cozinhar a comida para a cerimónia, que pode durar vários dias;
  • a partilha dos bens (carne, arroz, bebidas) é um momento de união entre as famílias e a comunidade; 
  • em algumas regiões, a carne do boi, da vaca  ou do porco é distribuída pelos vizinhos como gesto de generosidade e de alegria.

(v) Variações regionais e modernização:
  • na capital  Díli ou outras zonas urbanas, o barlaque  pode ser mais simplificado, com menos ênfase em animais e mais em dinheiro ou bens modernos (eletrodomésticos, etc.);
  • em áreas rurais (como Aileu, Manatuto, Baucau ou Same), a tradição mantém-se mais forte, com negociações longas e dotes mais elaborados;
  • nos últimos anos, tem havido  um debate sobre o custo elevado do barlaque, que pode ser um fardo para famílias mais pobres, e que ficam endividadas;
  • algumas comunidades tentam adaptar a prática para a tornar mais acessível.

(vi) Comparação com outras culturas lusófonas:

  • o barlaque lembra outras tradições de dote na África lusófona (como o lobolo em Moçambique ou o alembamento / alambamento em Angola), onde também se negociam bens e dinheiro entre famílias; na Guin~e-Bissau,. o equivalemnte é o "pidi noiva"  ( k'mari, entre os papéis)
  • em Cabo Verde, por exemplo, não há uma prática idêntica, mas a cachupa é muitas vezes servida em casamentos como prato de união, um paralelo interessante com a partilha de comida no barlaque (sobre o casamento tradicional nas ilhas, vd. aqui aqui).
(vii) Fontes e aprofundamento

Infelizmente, não encontrámos fontes académicas recentes em português ou tetum que detalhassem o barlaque com a profundidade que merece. 

Há, todavia, um artigo relativamente recente do jornal digital "Divergente" que merece ser analisado num próximo poste, à parte.

No entanto, o apontamento feito pelo Rui Chamusco (em 2019) está totalmente alinhado com relatos de antropólogos e missionários que estudaram os costumes timorenses, como Armando Pinto Corrêa (autor de Gentio de Timor, 1935) ou Ruy Cinatti (que documentou tradições timorenses durante a época colonial).

Talvez o Rui Chamusco (e o Cherno Baldé, no caso da Guiné-Bissau)  nos possa ajudar a:

  • procurar mais informação e conhecimento sobre o barlaque em fontes históricas ou etnográficas;
  • comparar esta prática com outras formas de casamento tradicional na Ásia ou em África, e em especial na Guiné-Bissau;
  • explorar o papel da mulher nestas negociações (por exemplo, como as irmãs da noiva participam);
  • e, por fim, as implicações que estes "usos & costumes" (tal como o casamento infantil e o casamento  forçado na Guiné-Bissau) têm na persistência das desigualdades de género e da violência (física, psicológica e simbólica) sobre as mulheres. (**)

PS - Mandámos ao Rui Chamusco, que está recuperar de uma operação cirúrgica na sua casa na Lourinhã, a seguinte mensagem (com conhecimento ao João Crisóstomo, em Nova Iorque, também ele membro da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste, com sede em Coimbra):

Luís Graça <luis.graca.prof@gmail.com>
10 jun 2026, 19:36
para Rui, Joao

Rui: como é que vão, anos depois, estes "usos & costumes"  ? O barlaque cheira-me a "casamento forçado", como na Guiné do meu tempo (e ainda hoje)...

Ainda há "casamentos forçados", hoje, em Timor-Leste ? Parece que o barlaque é cada vez mais contestado, sobretudo pelas mulheres. E percebe-se porquê.

Tem havido casos de infanticídio e abandono de crianças. Como de resto, noutros países, como a Guiné -Bissau, sem esquecer o nosso querido Portugal (que no passado criou a famigerada "roda dos expostos", á porta dos conventos e hospitais das misericórdias).

Sabe-se que a igreja católica timorense é bastante conservadora. Pelo menos, em matéria de educação sexual nas escolas, planeamento familiar, contracepção, etc.

E a propósito, um jornal que merece ser lido, ajudado, divulgado é o "Diligente"...Parece um projeto fantástico! (...)


(Pesquisa: LG + Diligente + IA (Vibe / Mistral AI | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)

quarta-feira, 4 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)



(i)  ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; 

(ii) advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, outrora capital de um império macrocéfalo;

(iii) depois de ter passado por Coimbra como estudante;

(iv) é um dos grandes contistas da guerra da Guiné, a da nossa guerra (que não foi pior nem melhor do que as guerras dos outras, foi a "nossa guerra", e bastou, esperemos);

(v) é autor, entre outros,  dos livros de contos "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz",  

(v) tem mais de 160 referências no nosso blogue.

(vi) faz parte da Tabanca Grande desde 26/8/2008, altura em que venceu a relutância de se associar ao nosso blogue,  ao ler o nosso apelo, "Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós".
 

1. O escritor (que continua a ser nosso camarada) Alberto Branquinho tem aceite, com pundonor & pudor, ser "pirateado" e metido, avulso, nesta série, "humor de caserna". 

Há dias comentou: "Obrigado por apreciares o que venho escrevendo. Estou a acabar mais um livro (que, talvez, seja o último)". (...) quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 às 16:43:00 WET). 

Eu interpretei o cumprimento e a (in)confidência como sendo "luz amarela" para, de vez em quando, eu poder lá ir, aos seus livros, roubar-lhev mais um "contito" (não, não é uma nota de mil escudos,  uma fortuna no nosso tempo de meninos e moços), um história do nosso quotidiano de guerra, para a malta  ler com tempo e vagar... 

É, afinal,  como os ovos da avó, a quem a gente assaltava o "galinheiro" (que era o seu "mealheiro"), e ela fingia que não via nada nem sabia de nada...

Hoje escolhi este microconto: há tempos tinha-lhe dado 4 estrelas (apontamento, a lápis, ao alto na página 77)...Hoje acrescento-lhe mais meia estrela, ao relê-lo. 

Lembrei-me, assim de repente,  do "bico-de-obra" que era, para uma companhia de intervenção (como a minha CCAÇ 12, composta por praças do recrutamento local, e meia dúzia de graduados "tugas) ir para o "mato" e "fazer prisioneiros"... Não era nenhum "ronco", era uma "manga de chatice"...

Sabíamos, no regresso ao quartel, que um prisioneira era sempre o "cabo dos trabalhos"... Passados dois ou três dias, o prisioneiro passava à condição de prisioneiro-guia... E lá continuava o nosso calvário...

A partir daí, ele deixava de nos pertencer. E sabíamos que, depois de "cumprida a missão", tínhamos que o entregar, "vivo e inteiro", aos "donos da Spinolândia"... 

Os nossos soldados, fulas, estavam sempre desejantes que ele, mesmo preso por uma corda, tentasse a fuga, para ter um bom pretexto  para lhe "dar cabo do canastro" ( já não me lembro como se diz em fula)...

Eles acreditavam piamente que "um balanta a menos era um turra a menos"... E não eram capazes de se  imaginar  em situação semelhante, "presos dos turras",  em que aí, o Zé Turra, balanta, também rosnaria, entre dentes,  que "um fula a menos era um cão dos colonialistas a menos"!...

O autor faz, como convém, para evitar qualquer suscetibidade, a sua declaração de interesse (e eu corroboro): "“Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”.


Capa do livro de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos.  Lisboa,Vírgula,  2013, 224 pp. 







Fonte: Excerto de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos.  Lisboa, Vírgula,  2013, pp. 77-79  

___________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 21 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27756: Humor de caserna (241): O mistério do peixe mole, capturado num afluente do rio Mansoa, perto da Ponta Augusto Barros (Vargas Cardoso, 1935-2023, ex-cap inf, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

domingo, 16 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27430: (Ex)citações (440): Estar com o amok, passar-se dos carretos, perder as estribeiras, estar f*dido dos c*rnos, estar apanhado do clima ou cacimbado... serão expressões equivalentes?


ºSíndroma de Amok"... Ilustração criada,
para o blogue, pelo Chat Português / GPTOnline.ai , sob instruções do editor LG


1. Escreveu o nosso camarada Jaime Silva, numa nota de leitura sobre o livro "Amok", de Stefan Zeig (*):


(...) "Recordou-me o momento, em que, pela primeira vez, ouvi pronunciar a frase: "deu-lhe o amok". Foi em Ninda, leste de Angola – Terras do Cú de Judas. Em fevereiro de 1970, quando fui render o tenente paraquedista Grão, no comando do 3.º Pelotão da 1.ª CCP / BCP 21. A companhia estava em plena fase operacional e, segundo me fui apercebendo, cada um dos 4 pelotões tinham encontrado forte resistência na zona.

"Entretanto, nas conversas que ia travando com os meus novos camaradas de armas, ouvia-os pronunciar, regularmente, uma expressão que nunca tinha ouvido e desconhecia: 'deu-me o amok, assaltámos a base e demos cabo daquilo tudo'; ou, ainda, 'cuidado com o gajo porque ele hoje, está com o amok'; ou, ainda, 'ninguém pode falar contigo, vai-te curar, estás com o amok'.

"Com o tempo fui interiorizando o significado desse termo. Fui percebendo que se referia a alguém que se tinha 'passado dos carretos', 'não via nada à sua frente' ou que 'estava apanhado do clima'!... Foi neste contexto que fui assimilando o sentido do termo, de tal modo que, ao longo da vida, com alguma frequência e, em circunstâncias de menor ânimo, dizia para comigo: 'hoje, não estás bem!... Hoje, estás com o amok'!" (...) (**)


2. Pesquisa do editor LG + assistente de IA / ChatGPT, Gemini, Perplexity,  sobre o termo "amok" / "amoque".

Existe o termo amok (em francês e inglês). Amoque ou amouco, em português.

A síndroma de Amok é, em psiquiatria, uma perturbnação que consiste em uma súbita e espontânea explosão de raiva selvagem, que faz a pessoa afetada atacar e matar indiscriminadamente pessoas e animais que aparecem à sua frente, até que o sujeito se suicide ou seja morto,

A definição foi dada pelo psiquiatra norte-americano Joseph Westermeyer em 1972.

É ainda hoje udsada como sinónimo de "loucura assassina". Mas na aceção que lhe davam os paraquedistas em Angola, ao tempo do Jaime Silva (1970/72),  parece ser mais  sinónimo de, em linguagem de caserna:

  • "estar fodido dos cornos",
  • "passar-se dos carretos",
  • "perder as estribeiras",
  • "estar cacimbado", 
  • "estar apanhado do clima"
  • "estar à beira de um ataque de nervos"...
É uma condição piscológica que pode predispor à violência (física ou verbal). Ora, amok  é já a exteriorização da violência até então latente. 

O nome vem do malaio meng-âmok, que significa “atacar e matar com ira", "atacar furiosamente ou lançar-se sobre alguém num estado de raiva incontrolável".

O termo entrou nas línguas europeias através dos relatos de viajantes e colonizadores portugueses e, mais tarde, ingleses, que observaram este fenómeno no Sudeste Asiático, especialmente na Malásia e Indonésia.


(ii) Registos portugueses do séc. XVI

Os portugueses foram os primeiros europeus a testemunhar e a descrever este comportamento. Aparece em registos logo do início do séc. XVI.

Nos textos de cronistas como Tomé Pires, autor da Suma Oriental (1515), e Duarte Barbosa (1516), já se menciona o termo “amouco”. Eles descrevem guerreiros malaios que, após um insulto, humilhação ou perda da honra, “se lançavam ao combate sem razão aparente, matando quantos encontravam, até que fossem mortos”.

Eis uma descrição típica (em ortografia moderna):

“Há entre eles alguns que, tomados de raiva e desesperação, correm pelas ruas com a espada desembainhada, ferindo e matando quem encontram; a isto chamam amouco.” (Duarte Barbosa, 1516)

Aqui está um excerto adaptado da Suma Oriental de Tomé Pires (c. 1515), um dos primeiros registos europeus do termo “amouco”, como era grafado então. Este texto é considerado uma das fontes mais antigas sobre o fenómeno que viria a ser conhecido em inglês como amok:

“Há entre estes malaios alguns que, de súbito e sem razão conhecida, tomam uma fúria tamanha que, correndo pelas ruas com uma adaga na mão, matam quantos acham pelo caminho, até que os matem.

Dizem que, nesse tempo, não sentem dor nem razão, e que é o diabo que os toma. A este furor chamam amouco.” (Tomé Pires, Suma Oriental, c. 1515)

(iii) Contexto histórico:

Tomé Pires era um boticário (farmacêtico) e diplomata português que viveu em Malaca logo após a sua conquista (1511). O seu livro descreve em detalhe as gentes e costumes do Oriente. A referência ao “amouco” mostra como os portugueses foram os primeiros a documentar este comportamento que, séculos mais tarde, seria objeto de estudo da etnopsiquiatria.

Mais tarde, exploradores ingleses e holandeses adotaram o termo, passando a escrever “amok”. No século XIX, a palavra tornou-se conhecida na Europa através da literatura colonial e da medicina tropical.

(iv) Significado em etnopsiquiatria:

A síndroma do “amok” descreve um estado súbito e extremo de fúria homicida em que o indivíduo, geralmente homem, entra num transe violento e ataca indiscriminadamente pessoas à sua volta, frequentemente terminando com a sua própria morte (por suicídio ou pelas mãos de outros). Se for apanhado e desarmado, pode ter um ataque de choro e não se lembrar de nada...

Tradicionalmente, acreditava-se que este comportamento estava ligado a crenças culturais, questoes honra pessoal ou possessão demoníaca.

Os estudiosos modernos (como Linton, Benedict ou Yap) interpretam o amok como uma resposta culturalmente moldada ao stress social e psicológico, comum em sociedades onde a repressão das emoções e a importância da honra (caso do Japão, por exemplo) são grandes.

Os portugueses interpretaram o fenómeno em termos religiosos e morais (como “possessão demoníaca”), enquanto os estudiosos modernos o entendem como uma crise psicossocial aguda, associada a contextos de pressão cultural e perda de honra.

O conceito de amok evoluiu na medicina ocidental, desde os relatos coloniais até à sua inclusão no DSM-4

(v) Uso moderno na psiquiatria:

Na psiquiatria contemporânea, o termo é usado para descrever um comportamento impulsivo, súbito e violento, muitas vezes associado a perturbações psicóticas, depressivas ou dissociativas.

No DSM-4, o “amok” era classificado como uma síndrome culturalmente específica (culture-bound syndrome). No DSM-5 essa categoria desapareceu. (DSM-5 é a sigla de Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição, publicada pela APA - Associação Americana de Psiquiatria).

(vi) Curiosidades linguísticas:

Em português antigo, “amoucar-se” chegou a ser usado figuradamente, com o sentido de enfurecer-se subitamente ou perder o controlo, embora hoje esteja praticamente em desuso.

A expressão inglesa “to run amok” (correr como um doido / descontrolar-se completamente) é hoje usada de forma figurada para descrever alguém que fica  fora de controlo.

(Pesquisa, condensaçáo, revisão / fixação de texto, negritros: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd.. poste de 7 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27395: Notas de leitura (1859): "Amok", por Stefan Zweig; Lisboa: Relógio D'Água, 2022 (Jaime Bonifácio da Silva, ex-Alf Mil Paraquedista)

(**) Último poste da série > 28 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27360: (Ex)citações (439): Ainda a propósito dos bravos de Contabane... "O maluco do Carlos Azeredo está a bombardear a Guiné-Conacry", dizia, em pânico, o QG... (Carlos Nery, ex-cap mil, CCAÇ 2382, 1968/70)

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27420: (In)citações (281): Praxes assassinas... para "maçarico", "periquito" ou "checa" se começar a habituar...


Angola > Moxico >Léua  > c. 1970 > O alf mil pqdt Jaime Siva com uma criança da aldeia.


Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O episódio que o Jaime Silva partilha connosco (*),  é forte, tenso e revelador da dureza mas  também da profunda ambiguidade moral, que marcaram muitos momentos da guerra colonial, vividos por nós.  Nem todos, por outro lado, teriam coragem de o contar, em público, em livro. 

Há vários aspetos que vale a pena comentar, e que são comuns às experiências por que passámos no CTIG.

Recorde-se que o  Jaime Silva. de rendição individual, era comandante, "maçarico", de um pelotão da 1ª CCP/ BCP 21 (Angola, 1970/72). E que na Op Broca (c. 20-29 de maio de 1970), no norte de Angola, tem o seu "batismo de fogo". O seu pelotão já tinha experiêwncia operacional, e pôde contar com a dois bons graduados, o 1º cabo Onofre e srgt Mirra.

(i) O choque do “batismo de fogo”

O  Jaime Silva descreve algo comum entre jovens oficiais enviados para cenários de guerra: a passagem abrupta da formação teórica (neste caso, recebida na EPI, em Mafra, e depois em Tancos, no RCP) para a realidade pura e dura  da guerra de guerrilha e contraguerrilha (fosse em Angola, na Guiné ou em Moçambique),

O “maçarico” (em Angola), o " periquito" (na Guiné) ou o "checa" (em Moçambique) era confrontado de imediato com a imprevisibilidade do IN,   e a brutalidade do combate num terreno que lhe era desfavorável.  E isso marcava-o para sempre. O dia e o local do batismo de fogo.

(ii) O contraste entre comportamentos

A narrativa mostra três tipos de comportamento operacional num momento de grande tensão:

  • serenidade, a coragem e a experiência  do 1º cabo Onofre, que representa o militar que já tem traquejo  e sabe agir com sangue-frio:  

(...) "E 'vejo'.,  ainda hoje, o local e o momento em que um guerrilheiro armado progride na nossa direção e faço sinal ao cabo Onofre, que se encontrava à minha frente, para estar atento. Este correu na direção… do combatente e capturou-o, à mão! " (...)
  • lucidez e a maturidade do sargento Mirra, que confirma o papel fundamental dos graduados na estabilidade dos pelotões:  

"(...) Com efeito, os dois pelotões conseguiram desalojar os guerrilheiros e chegar ao paiol. Nunca vi tanto material durante a minha comissão em Angola: armas, granadas, outro material de guerra, medicamentos, material de apoio escolar, etc.! " (...)

(...) " Você é doido, meu alferes. Primeiro – ordena o sargento Mirra – saia de trás dessa cubata e proteja-se nessa árvore grossa que se encontra ao seu lado. Não vê as balas a saltar à sua frente? Saia daí e depressa! Depois, agarre no rádio e peça ajuda ao 1.º pelotão que se encontra na zona para nos vir ajudar no assalto". (...)
  • e, por fim,  a conduta chocante do tenente miliciano, comandante de outro pelotão da 1ª CCP, cuja atitude ultrapassa qualquer ética militar,  revelando como, em cenários de guerra, alguns indivíduos cruzavam fronteiras morais sob o pretexto da “praxia” ou da necessidade de endurecer os mais novos, os "maçaricos", liquidando crua e friamente um prisioneiro indefeso:


 "(...)  Face ao guerrilheiro sentado à nossa frente, rapa de um sabre de uma espingarda Simonov e, sem que nenhum dos três militares presentes (eu, o comandante de companhia e um soldado) esperássemos, num ápice, dá uma “saibrada”  no coração do guerrilheiro e, depois, outra nos temporais, matando-o a sangue frio.  Estupefacto, o comandante de companhia repreende-o daquele ato ignóbil e cobarde. Como se tudo aquilo fosse o mais natural, ele respondeu: – É para praxar, aqui, o alferes maçarico. É para ele aprender. Tem de se habituar." (...)

(iii) “Habituação": uma lógica perversa

A ideia de que um ato de extrema violência como aquele serviria como “lição” para um oficial recém-chegado, "maçraico", e logo ali "praxado".  mostra bem como a guerra pode distorcer valores, normalizar atrocidades e criar um ambiente em que o desprezo pela vida humana se disfarça do mais miserável militarismo.

(iv) A importância do testemunho

Ao relatar o episódio, o Jaime Silva não só expõe uma realidade dura da época, como também reafirma a importância de não "romantizar" a guerra dos paraquedistas, tropa de elite. Como ele diz, "na guerra não vale tudo".

O facto de ainda recordar esse momento (traumático),  demonstra que, para muitos de nós, a guerra colonial foi menos uma aventura turistico-militar e mais um conjunto de situações -limite (que deixaram  cicatrizes, nalguns casos, físicas, mas sobretudo morais, psicológicas e humanas).

É um relato que merece ser preservado e discutido, aqui no blogue, mas também nas academias militares, porque ajuda a compreender o que significou, realmente, para milhares de nós, jovens portugueses,  sermos enviados para África como "maçaricos", "periquitos" ou "checas"(**)


quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27417: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (4): o meu batismo de fogo e a praxe ao alferes “maçarico”


Espingarda semiautomática Simonov SKS-45, calibre 7,62 x 39mm M43, 1945 (Origem: ex-URSS). Uma das caracte5rístcias distintivas é incluir uma baioneta, em forma de faca,  dobrável permanentemente anexada e um carregador fixo articulado. Como a SKS não tinha capacidade de tiro seletivo e seu carregador era limitado a dez tiros, tornou-se obsoleta nas Forças Armadas Soviéticas com a introdução da AK-47 na década de 1950. Na Guiné, era usada sobretudo pelas milícias do PAIGC.

Fonte: Cortesia de Wikipedia
Monumento aos combatentes
do Ultramar. Lourinhã. Pormenor.
Foto: LG (2025)



Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (4): o meu batismo de fogo e a praxe ao alferes “maçarico”

por Jaime Silva

Não esqueci que o meu batismo de fogo aconteceu no decorrer da “Operação Broca”, realizada no Norte de Angola, na Mata Bala, entre 20 e 29 de maio de 1970.

Participaram nessa operação, em que esteve presente o general Luz Cunha, comandante da Região Militar Norte, várias companhias: 
  •  uma companhia do exército, sediada em Zalala,
  •  a 19ª companhia de comandos 
  • e 1ª e 2ª companhias de paraquedistas, sediadas em Luanda. 
O objetivo era destruir a Base COBA, da FNLA. Foi a minha primeira operação com a responsabilidade de comandar um grupo de combate, cujos soldados já tinham meses de experiência operacional no Norte e no Leste. 

Os dois sargentos tinham participado na guerra da Guiné e/ou de Moçambique e eu era um “maçarico” inexperiente, acabadinho de aterrar do “Puto” [#].


Jaime Silva, em 2013.
Foto LG
Na véspera, ainda em Luanda, tinha participado no briefing de preparação da operação, juntamente com os responsáveis das várias forças intervenientes.

 O que mais me impressionou, para além de uma parafernália de normas e indicações a seguir rigorosamente para o êxito da operação, foi, no final, o Oficial de Operações ter anunciado “as baixas previsíveis” nas nossas tropas:  3 a 4 mortos.

No contexto dessa operação, fomos transportados pelos helicópteros,  Alouette III. Após o assalto à base, sem oposição, ficámos na zona.

E “vejo”, ainda hoje, o local e o momento em que um guerrilheiro armado progride na nossa direção e faço sinal ao cabo Onofre, que se encontrava à minha frente, para estar atento. Este correu na direção… do combatente e capturou-o, à mão! 

Depois de interrogar o guerrilheiro, este revelou o local onde os seus camaradas guardavam o material de guerra, provisões, material médico e escolar, etc.

O paiol encontrava-se dissimulado numa caverna no alto de um morro e, ainda, no sopé do mesmo. Seguimos um trilho indicado pelo guerrilheiro, mas fomos atacados com um forte poder de fogo de metralhadoras, armas ligeiras e morteiro 60.

Nesse momento, pondo em prática os “ensinamentos” sobre “a arte de bem fazer a guerra” (que tinha recebido e treinado exaustivamente, primeiro em Mafra, na EPI, durante o COM e, depois, no RCP, em Tancos, durante o tirocínio após o curso de paraquedismo), dou ordens ao sargento Mirra, que já tinha experiência de cumprimento de uma comissão em Moçambique:

–  Mirra, envolva pela direita com a sua seção. Eu vou pelo centro com a segunda e vamos desalojá-los.

 –  Você é doido, meu alferes. Primeiro – ordena o sargento Mirra – saia de trás dessa cubata e proteja-se nessa árvore grossa que se encontra ao seu lado. Não vê as balas a saltar à sua frente? Saia daí e depressa! Depois, agarre no rádio e peça ajuda ao 1.º pelotão que se encontra na zona para nos vir ajudar no assalto.

Com efeito, os dois pelotões conseguiram desalojar os guerrilheiros e chegar ao paiol. Nunca vi tanto material durante a minha comissão em Angola: armas, granadas, outro material de guerra, medicamentos, material de apoio escolar, etc.!

 A Base até tinha uma escola com quadro preto pendurado numa árvore!

Nunca mais esqueci estes factos da minha primeira operação: 
primeiro, a lição de serenidade e coragem do Cabo Onofre, a sua lucidez e experiência naquela contexto;  depois, a do sargento Mirra;  por último, e inversamente, a atitude “sacana” do meu camarada, tenente miliciano, comandante do outro pelotão, que, face ao guerrilheiro sentado à nossa frente, rapa de um sabre de uma espingarda Simonov e, sem que nenhum dos três militares presentes (eu, o comandante de companhia e um soldado) esperássemos, num ápice, dá uma “saibrada” [## ] no coração do guerrilheiro e, depois, outra nos temporais, matando-o a sangue frio.

Estupefacto, o comandante de companhia repreende-o daquele ato ignóbil e cobarde. Como se tudo aquilo fosse o mais natural, ele respondeu:

 
– É para praxar, aqui, o alferes maçarico. É para ele aprender. Tem de se habituar.

O alferes maçarico era eu!

Foi assim! Um mundo surreal!



Notas de JS / LG:

[#] Puto, era a designação comum para referir Portugal (Continente), dada a sua dimensão reduzida em relação ao tamanho de Angola (e Moçambique).

[##] Saibrada, termo usado na gíria oral da guerra quando se uso o sabre (arma branca perfurante) para matar ou ferir o inimigo; o termo correto e que está grafado nos dicionários é "sabrada":

O uso do terno "saibrad"pode ser explicado por "contaminação (ou cruzamento Lexical)". Isto não é uma regra fonética, mas sim um lapsus linguae (lapso de língua) ou um ato falho. A contaminação ocorre quando o falante, ao tentar dizer uma palavra, a "contamina" inconscientemente com outra palavra que está semanticamente ou foneticamente próxima no seu cérebro. Neste caso, o falante queria dizer: "Sabrada" (o golpe de sabre). Mas o cérebro misturou com a palavra "Saibro" (o tipo de terra/cascalho, muito comum em campos de treino militar, "pistas de saibro", etc.).

A proximidade sonora (ambas começam com "Sa-") e a possível proximidade contextual (ambas as palavras existem no ambiente militar) levam o cérebro a fundir as duas, resultando em "Saibrada"


1. Com a devida vénia e autorização do autor, Jaime Bonifácio Marques da Silva (antigo alf mil pqdt, 1º CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, conterrâneo do nosso editor LG; membro da Tabanca Tabanca desde 21/1/2024, com c. 120 referências no nosso blogue), passámos a criar uma nova série "Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci..."

É natural de Seixal, Lourinhã. Foi condecorado com a medalha de Cruz de Guerra de 3* Classe. Foi professor de educação física e autarca em Fafe. Está reformado. É sócio de várias associações de antigos combatentes, incluindo a AVECO - Associação de Veteranos Combatentes do Oeste, com sede na Lourinhá,  e a Associação de Pára-Quedistas da Ordem dos Grifos63,com sede em Vila Nova da Barquinha.

Este é o quarto poste da série (que terá 15 postes, correspondentes a excertos das pp. 75-98 do seu livro, Capítulo Dois):


Fonte: Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 84-86.

(Revisão / fixação de texto: LG)
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