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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28330: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIV: semana de 5 a 11 de maio


Prompt e orientaçáo editorial: Luís Graça
Texto: "Luta de galos, euforia masculina e sofrimento dos animais", 
por Nicodemos do Espírito Santo (Diligente, 13 de outubro de 2023)
Ilustração em estilo banda desenhada
gerada por IA (Gemini / Google) (2026)









Gente linda da ASTIL:

 Da esquerda para a direita:

Rui Chamusco, 
João Crisóstomo 
e Eustáquio (irmão do Gaspar Sobral, e em cuja casa, em Ailok Laran, nos arredores de Díli, o Rui costuma ficar alojado nas suas estadias em Timor-Leste). 


1. Prosseguimos a publicação das crónicas de 2019 (III Viagem a Timor-Leste) do nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, natural da Malcata, Sabugal, a viver na Lourinhã.

Vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22). Ele é um exemplo vivo do que é a solidariedade e o amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar (a ASTIL).

Essa história de dedicação às crianças das montanhas de Liquiçá (onde está funcionar, em Manatti / Boebau, a Escola de São Francisco de Assis) merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné. Bem como outros aspetos da geografia, história e cultura de Timor-Leste, membro da CPLP, que as crónicas do Rui também ajudam a conhecer melhor.

E, a propósito, é bom recordar a efeméride de 11 de setembro de 1945, data em que o Japão se rendeu formalmente, em Timor-Leste, aos Aliados, depois de uma dolorosa ocupação do território desde a madrugada de 19 de fevereiro de 1942 (que terá custado muitas dezenas de milhares de vidas, de timorenses, mas também de portugueses, australianos, holandeses e outros: a estimativa aponta para 40 mil a 70 mil, vítimas diretas e indiretas da guerra, ou seja 10% a 15% da população que lá vivia, estimada em 450 mil no início da década de 1940. Enfim, foi um dos capítulos mais trágicos e esquecidos na na guerra do Pacífico.

Mas mais brutal ainda foi a invasão e a ocupação do território, em 1975-1992, pelos indonésios. Numa população que em 1975 rondava os 650 mil a 680 mil habitantes, a perda de mais de 100 mil a 150 mil vidas entre 1975 e 1992 representou, uma vez mais na história de Timor-Leste, a perda de cerca de 20% da sua população em menos de duas décadas.



III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIV: semana de 5 a 11  de maio (*)


06.05.2019, segunda feira- “ O gato e o rato ...”


É uma história sobejamente conhecida de todos nós: o gato que persegue o rato...e o rato que se esconde do gato. Um jogo da vida com aplicação em muitas situações reais.

O Amali e a Adobe são os dois irmãos mais novos do casal Aurora e Eustáquio (irmão do Gaspar Sobral, dirigente e cofundador da ASTIL, juntamente com o Rui Chamusco).

Várias vezes ao dia ouvimos os “berros” de um para o outro, as provocações, as corridas de um atrás do outro, o agarra, bate e foge, os choros da Adobe, os risos e as gargalhadas - uma panóplia de gestos e atitudes mais próprias do “ jogo do gato e dorato.” E não venham os “katuas” (os mais velhos)  repreender ou afligir-se com a situação, porque isto é “o pão nosso de cada dia”. Eu até ouso dizer que, dia em que isto não aconteça, algo vai mal cá na casa.

No entanto, a relação de irmãos, incluindo a Eza e o Zinon, é invejável. Faz lembraras famílias mais antigas em que cada irmão mais velho tinha o cuidado dos irmãos mais novos. A fratria está bem guardada. É impossível quebrar esta relação, esta união, este amor em família.

E nós a pensar em tantas crianças que, sendo filhos únicos, estão privados deste amor familiar: os manos. Por mais que nos justifiquemos, nunca saberemos dar o verdadeiro valor a este dom da vida partilhada entre irmãos. Pena é que depois, por imperativo da vida de cada um, a gente se separe. Muitas vezes até separações definitivas, por dá cá aquela palha, por questões de herança, ou por outras coisas inexplicáveis.

Por mim, quero continuar a ouvir esta algazarra, a presenciar este jogo, a ser testemunha desta verdadeira amizade. Adobe e Amali, continuai a brincar como bem sabeis fazer...


07.05.2019, terça feira  - “ As aparências ...iludem. “


Tantas vezes pensamos que a rama viçosa que cobre a sementeira é sinal de abundante colheita, e enganamo-nos. Quando abrimos o rêgo das batatas dsecobrimos que, afinal,nos enganamos. E poucas apanhamos. A ilusão seguida do seu contrário. Tantas vezes pensamos em projetos mirabolantes, capazes de revolucionarem o mundo, e nunca chegamos a vê-los realizados. Tantas vezes construímos “castelos no ar”,  e nunca essas construções foram habitáculos de reis, raínhas ou vassalos.

Vem tudo isto a propósito do que vemos e ouvimos neste recanto do mundo. É frequente encontrarmos crianças e jovens de telemóvel ne mão, servindo-se dele para diversos fins: telefonar, ouvir música, mandar mensagens, etc, como em qualquer parte do mundo. Uma interrogação ressalta logo à nossa mente: então esta gente que dizem ter tantas carências, sobretudo económicas, ostenta e utiliza estes objetos sofisticados tão caros? Donde lhes vem este poder de compra?

Pois é!... Felizmente que também os pobres têm acesso a alguns benefícios dos ricos. Enquanto que os ricos dispendem quatrocentos, quinhentos ou mais euros por um telemóvel, outros mais não gastam que dez a vinte dólares por um aparelho com as mesmas funções. Aqui pouco importa a marca, nem se é de primeira ou segunda mão.

O que interessa é que funcione bem. Graças a acordos bilaterais entre os governos da Coreia do Sul e de Timor-Leste, e porque a maioria destes utilizadores até nem são esquisitos, podem assim usufruir destes bens, destes meios de comunicação.

 A perícia com que eles manejam estes objetos é notável. Fazem inveja a quem, como eu, tem dificuldades em “mexer” em tais artificios, por falta de competência ou por pouca destreza.

Esta gente sabe muito. Nem sempre o “doutor” bem vestido e de pasta na mão sabe mais que um destes jovens ou crianças. Até porque porque parece que os meninos e asmeninas de de hoje já nascem ensinados.

09.05.2019, quinta feira  - Conversa de gagos


Mateus e Alula (Félix) são dois irmãos, os dois gagos, filhos do Álvaro Sobral. Por sinal, os dois são meus conhecidos - são sobrinhos do Gaspar e do Eustáquio - e, de vez em quando, veem visitar-nos a Ailok Laran.

Ontem o Eustáquio fez-nos rir à gargalhada, ao contar o que se passou entre os manos.

O “motor” de família teve um furo no pneu, e entre eles decidiram repará-lo. Já no processo de enchimento, enquanto um segurava a roda o outro dava à bomba. Foi quando o Alula sentiu que estava no ponto, e disse para o Mateus: “Pára!” Só que demorou tanto tempo a dizer “ra” que o mano continuou a dar à bomba até que o pneu rebentou. 

Isto contado por eles até tem mais graça. E fica mais ou menos assim: “pá pá pá pá pá pá pá... e PUM!...” Ou seja, em menos palavras que nós relatam o que aconteceu.

Este episódio faz-me questionar mais uma vez sobre a importância da linguagem não-verbal, ou pelo menos na economia das palavras. Para nós é caricato, faz-nos rir o que só nos faz bem, mas quem é privado ou tem deficiência em articular as palavras lá tem outros meios para se fazer entender. Mais pneu ou menos pneu pouco importa. O mais importante é fazer-se entender, comunicar, seja de que forma for.

Como todos nós sabemos, há uma excelente forma de não gaguejar: falar a cantar. Portanto, se for este o seu caso, cante. Cante porque, quem canta “seu mal espanta”...


09.05.2019 - Língua portuguesa e... religião


Há quem diga que Timor-Leste deve a sua independência à língua portuguesa e à religião. 

Dezasseis anos já passados, e damo-nos conta, aqui no terreno, que a religião (sobretudo a religião católica) continua a exercer a sua influência na mentalidade e modo de ser deste povo. 

O mesmo não direi da língua portuguesa pois, apesar de todos os esforços que se têm feito, não se vêm grandes resultados práticos. O tetum e o bahasa continuam de longe a dominar a língua falada desta gente. E ainda que a maioria dos timorenses manifestem a sua afeição pelo povo e pela língua portuguesa, a verdade é que têm grandes dificuldades em aprender e em falar o nosso idioma.

Dizem que a gramática é muito complicada. É mais fácil aprenderem as línguas mais simples, e que utilizam a mesma palavra e os símbolos para várias situações.

Mas vem isto a propósito de quê? É que, durante este mês de Maio, quase todas as noites ouço cantorias pela noite fora.

Quis saber o que se passava, e alguém me explicou: “ um grupo de pessoas foram pedir autorização ao pároco para irem de casa em casa, à noite, a fim de rezarem o terço.” 

Ora já sabemos que aqui em Timor, e particularmente na região de Dili, qualquer motivo serve para fazer festa pela noite fora, que envolve rezar, cantar, comer e beber, e até jogar as cartas. Do nascer ao morrer, vários são os momentos festivos. Parece-me que só o ato de nascer não é festejado tão abundantemente.

Então estão justificadas todas estas interrupções do sono noturno que ao longo da noite vão acontecendo. Às vezes até sabe bem acordar ao som de alegres melodias, normalmente muito bem cantadas porque esta gente tem uma queda natural para a música.

 É muito mais agradável ouvir cantar assim, do que acordar sarapantado pela algazarra dos grupos que, a partir das quatro horas da manhã locais, gritam desalmados quando o seu clube predileto marca golos ou constrói jogadas de perigo.

Estas cantorias noturnas fazem-me lembrar as serenatas ao som do acordeão que, enquanto menino, se faziam ouvir durante a madrugada pelos balcões e ruas da minha aldeia, Malcata. 

Por isso, se a língua portuguesa ou a religião puderem ajudar uma aldeia ou uma nação a crescer e a sermos nós próprios tornando-nos independentes por que não? Quem sabe se assim não seremos mais felizes!...

10.05.2019, sexta feira  - ”Ay flores del...” Aituri!...


Aituri é uma planta que aqui encontramos, a dois ou três metros do aposento onde estou instalado, e que se afirma entre o árvoredo pelas suas flores cor de púrpura com recetáculos e estames esbranquiçados. São de uma beleza invulgar.

A flor de Aituri é comestível em salada, a sós ou acompanhada de temperos. Sabebem ao paladar e à vista, e já não será a primeira vez que aqui a comemos.

Hoje de manhã prontifiquei-me para a apanha destas flores que, juntamente com a Adobe, recolhemos e desfolhamos, pois só as pétalas são comestíveis. A Eza e a mãe Aurora é que as vão preparar para logo ao jantar. Hum!...!...

Este aproveitamento faz-me pensar na mãe natureza, que tudo nos dá e governa. E, já que estamos em Timor Leste, quero recordar que a sobrevivência dos guerrilheiros (Xanana, Matan Ruah e companheiros) na guerra que durante anos travaram contra os invasores indonésios se deveu em grande parte ao conhecimento e utilização dos recursos naturais que a montanha lhes oferecia: raízes, flores e frutos.

Há tempos encontrei e publiquei no facebook uma notícia sobre “43 plantas que podemos utilizar na nossa alimentação.” Claro que haverá muitas mais. Importa por isso conhecê-las bem e, se for o caso, tirar proveito da sua utilização na nossa alimentação, sem ofender ou prejudicar o meio ambiente e agradecendo sempre à mãe natureza.

E já agora, em atalho de foice, congratular-me com o evento que a AMCF (Associação Malcata Com Futuro) irá organizar pela segunda vez em Malcata, no próximo dia 18 sobre “ Flores Comestíveis”.

Saibamos ser gratos à natureza que tanto nos dá.


11.05.2019, sábado  - As mulheres não se medem aos palmos


Pois então!.. A Umbelina. uma moça da montanha, franzina e de baixa estatura, mostrou esta tarde quanto vale. Qual Maria da Fonte, resgatou um senhor galo numabrir e fechar de olhos,

Então foi assim. A meio da tarde ouviu-se um grande burburinho aqui em casa. O Amali e a irmã Eza corriam desalmados pelo caminho que nos leva à mikrolete, ao mesmo tempo que chamavam por alguém. Eu, que estava no quarto e me dei conta do alvoroço, acudi também na intenção de saber o que se passava e de ajudar. 

Foi então que vimos a Umbelina a chegar, toda ofegante, com um lindo galo ao colo, e nos contou o que se tinha passado. Ela regressava da universidade, em mickrolete, e quando desceu avistou um rapaz que triunfante transportava o lindo bicho, roubado há instantes aqui na casa, ninguém sabe como, pois o galo estava preso e havia aqui bastantes pessoas. 

Diz a Umbelina que mal o viu reconheceu logo que era o galo do Painino (Eustáquio). O que disse ao ladrão pouco sabemos. Contou-nos sim o que fez: “dei-lhe um par de chapadas e tirei-lhe o animal.” Toma lá que já as levaste!..

Todos ficamos estupefatos pela coragem da rapariga. Em jeito de graça até diziamos: “a Umbe merece um prémio, pois salvou um atleta...” É que este galo está destinado para a luta de galos, que aqui também se pratica. Até já tem comprador. (**)

E quanto aos perseguidores do larápio,  o que dizer? Não lhe puseram a vista em cima, mas diz o Amali que, pelas características que lho descreveram, sabe quem ele é. Que se cuide!...

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Ultimo pposte da série > 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28308: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIII: semana de 28 de abril a 1 de maio

(**) Vd. artigo de Nicodemos do Espírito Santo > Luta de galos, euforia masculina e sofrimento dos animais > Diligente, 13 de Outubro, 2023

Sinopse: Historicamente associada à resolução pacífica de conflitos, a rituais comunitários e à troca de informações durante a resistência, a luta de galos (Manu Futu) em Timor-Leste converteu-se, após a independência, num motor de entretenimento e apostas informais predominantemente masculino. O artigo analisa a transição desta tradição sociocultural para um negócio rentável, sublinhando o impacto da hegemonia patriarcal que afasta as mulheres e a crueldade imposta aos animais perante a ausência de proteção jurídica no país.

sábado, 15 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!







Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. É proibido o ódio no nosso blogue... O discurso do ódio...

Os editores reservam-se, naturalmente, o direito de não publicar textos e fotos (ou de  eliminar, "a posteriori", comentários) que violem as normas legais do nosso servidor (Blogger/Google), bem como as nossas regras de bom senso e bom gosto que devem vigorar numa comunidade de amigos e camaradas da Guiné... E mais concretamente mensagens com:

(i) conteúdo racista, xenófobo, sexista, supremacista,  homofóbico, etc.;

(ii) sexo explícito, material pornográfico (que é diferente de erótico), nu integral, etc.

(ii) carácter difamatório;

(iii) tom intimidatório, provocatório, insultuoso; 

(iv) acusações de natureza criminal ou violação segredos judiciais;

(v) violência, física e/ou verbal (apelo/incitação, uso);

(vi) assédio sexual e moral ("ciberbullying");

(vi) linguagem desbragada,  inapropriada, etc. (mas o bom humor é bem-vindo);

(vii) publicidade comercial ou propaganda claramente político-ideológica (ou "partidária");

(viii) informações/dados  do foro privado, sem autorização de uma das partes (nome completo, filiação, naturalidade, morada, nº de cidadão, nº de telemóvel, etc.);

(x) spam sob a forma de repetição em série de um mesmo comentário em diversos postes...


2. Mas, afinal, o que é o ódio, camaradas ?

No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné,  é proibido o ódio. O discurso do ódio. Tudo bem.

Mas também não temos que nos amar uns aos outros (combatentes e desertores, "tugas" e "turras",  colonialistas e anticolonialistas, benfiquistas, sportinguistas e portistas, ateus, crentes e agnósticos, brancos, azuis, verdes, vermelhos, amarelos...). 

Talvez por isso tenhamos chegado aos 22 anos de existência na Net. E aos 22 milhões de visualizações de páginas. 

Devemos desconfiar destes números. Sim, como manda a dúvida metódica de Descartes. Visualizações não são "visitas" ou "visitantes" Quem visita, pode visualizar mais do que uma página num dado momento (por exemplo  a esta hora em que eu estou a editar este poste).

Mas é do ódio que importa falar... Sim,  há muito ódio nas redes sociais. No blogue, acho que não tanto, estamos "vacinados"... Temos controlado os "outliers", os extremismos...  

Mas ódio,  ódio, sempre o houve, desde que o homem é homem, um animal mamífero, de sangue quente, territorial, social, omnívoro, predador...(nome científico: "Homo sapiens"; espécie classificada pelos zoólogos na Ordem dos Primatas, tal como o chimpanzé, o gorila, o  orangotanho...mas também o macaco-cão).

Mesmo não havendo  "redes sociais, digitais",  no passado,  sempre houve razões para nos odiarmos uns aos outros e, "in limine" nos matarmos uns aos outros, invocando até (ou quase sempre)  o "sagrado": Deus, Pátria, Família, as nossas crenças, os nossos valores, o nosso solo sagrado...

 Desde o princípio de todas as coisas. Sempre houve "violência" (física e verbal). 

3. A minha dúvida existencial, que levei para a Guiné: posso lutar numa guerra sem ódio ? Sem sentir ódio pelo inimigo, que nem sequer conheço nem sequer vejo muitas vejas ? Tenho mais chances de sobreviver se "odiar"  ou se "não odiar" ? 

O contrário de "amar", não é "odiar",  mas "não-amar", dizem os puristas da língua...

Em suma:  na guerra, tenho que sentir raiva  e ódio ? Ou posso também sentir piedade, compaixão ? Tenho que odiar quem me quer matar ? Quem me aponta uma RPG-7 à cabeça, emboscado, escondido atrás do "bagabaga" ou do grosso tronco do bissilão ? Ou antes, tenho que odiar quem me mandou para a guerra ? 

A "padeira de Aljubarrota" que há 641 anos atrás,  em 14 de de agosto de 1385,  matou (diz a lenda) sete castelhanos (ainda não eram espanhóis...) que se esconderam no seu forno..., só podia matar... por ódio. Os 6 mil e tal portugueses e ingleses que enfrentaram mais de 30 mil castelhanos nesse dia, mês e ano, não poderiam ter vencido essa batalha sem ter experimentado, nessa tarde,  um ódio intenso ao "invasor"... Ou seria "loucura" ? Talvez venha daí a expressão que os "nuestros hermanos" (sic) ainda hoje usam: "Portugueses, pocos pero locos" ("Portugueses, poucos mas loucos")...É verdade, sempre fomos poucos mas...loucos.

Tenho estado a refletir sobre o binómio amor-ódio (interpessoal, intragrupal, intergrupal, a nível nacional e internacional) (*)...  E até intrapessoal: há sempre uma parte de nós que odiamos..., do tamanho do penis ao nariz adunco....

Se não fora assim, os consultórios dos psiquiatras estariam às moscas... Os psiquiatras e demais "psis", os psicólogos, os psicoterapeutas, os médicos, os padres, os feiticeiros,  as bruxas, os astrólogos...

Também desconfio do "Amor com amor se paga"... Altruísmo 'versus' egoísmo ? A sociobiologia também é muito redutora e primária... 

Dei aulas de etologia e sociobiologia, em 1994, a alunos de licenciatura em sociologia,qu se estavam borrifando para o Hawkins, o Wilson, o Lorenzo, etc. Li muito e escrevi muito nesse ano sobre esses temas, incluindo a "pulsão da violènca" que nos leva a matar... 

Mas o que sei eu hoje sobre este campo tão controverso ? Sei que a minha pergunta toca em temas centrais da condição humana: o ódio, o amor, a guerra, a sobrevivência, a moral e até a biologia. 

(i) Afinal, o que é o ódio?

Diz o dicionário:

ódio
(ó-di-o)

substantivo masculino

(a) Sentimento de intensa animosidade relativamente a algo ou a alguém, geralmente motivado por antipatia, ofebsa, ressentimentro ou raiuva= Aversão, repulsa, ≠ Amizade, amor

(b) Objeto desse sentimento.

Etimologia: do latim otium, -ii (ódio, aversão, ressentimento, má vontade, animosidade, irritação, desagrado, insolência).

"ódio", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-br/%C3%B3dio.

O ódio é uma emoção intensa de aversão, hostilidade ou repulsa em relação a uma pessoa, grupo, etnia, classe social, nação, ideia, crença, objeto ou coisa (ex.: odeio o fulano de tal, os ciganos, os balantas, a Guiné, o populismo, os milionários, os comunas, os fascistas, os nazis, as claques de futebol, os "emigras"... mas também a bola, a lampreia, a IA, os tuk-tuk).

Não é apenas uma emoção individual: é também um fenómeno social, muitas vezes alimentado pelo medo, pelo desconhecimento, pela desumanização do outro, pela competição por recursos escassos,  ou pela necessidade de pertencer a um grupo (identidade vs. alteridade).

No contexto das redes sociais (e na guerra), o ódio amplifica-se, devido a a uma série de fatores, como, por exemplo:

  • o anonimato, a impunidade,  o grupo que reduz a responsabilidade individual; na guerra (e nas redes sociais), o "menino de coro" pode transformar-se num "monstro";

  • os algoritmos, que premeiam o conteúdo emocional (incluindo o ódio), pois gera mais interação, mais acessos,  mais visualizações; 
  • as câmaras de eco que  reforçam crenças extremas e demonizam o "outro" (o chamado fenómeno da polarização).

No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné, o facto de moderarmos os comentários (incluindo o "discurso de ódio") não é um acaso: é uma escolha ativa de preservar um espaço de diálogo, de tolerância, de convivilidade, de responsabilidade, de partilha ... Não é um espaço de censura, mas de abertura.

Os 22 anos e 22 milhões de visualizações são um sinal de que a ausência de ódio atrai mais do que repele. 

Afinal, não é caso para desconfiar desses números: são a prova de que a qualidade do debate,  dos conteúdos, a partilha de memórias (e emoções), a credibilidade, a transparência (toda a gente dá a cara, ninguém se esconde por detrás do "bagabaga" ou do "poilão")  pode ser um "valor de mercado", dá dividendos...

 
(ii) Posso lutar numa guerra sem ódio?

Em teoria, e por vivência pessoal, direi  que sim, é possível. A história está cheia de exemplos de soldados que lutaram por dever, por lealdade, por ideais (liberdade, justiça, proteção de civis, amor à pátria, etc. ) sem ter que odiar o inimigo. 

O ódio não é um pré-requisito para a guerra, mas é um catalisador que facilita a desumanização do outro, e o comportamento sobre-humano a que chamamos heroísmo. E isso, sim, aumenta a crueldade e a eficácia na destruição.

Estatisticamente, sabemos que o ódio pode aumentar a coesão do grupo e a disposição para matar, mas também faz aumentar o risco de trauma: soldados que odiavam o inimigo tinham mais dificuldade em reintegrar-se na família, na comnunidade, na sociedade depois da "peluda"... Além disso, reduz a resiliência (o ódio consome muita energia emocional).

O ódio é uma patologia. A longo prazo, o ódio acaba por esgotar e limitar a estratégia do indivíduo ou do grupo: o ódio oblitera o julgamento; a guerra é também um jogo de xadrez; o ódio faz-me jogar sem eu ver o tabuleiro todo. 

Conclusão: sobrevivo melhor sem ódio. A frieza, o profissionalismo, a inteligência emocional ou até a compaixão (sim, até na guerra, pode haver compaixão, que não é a mesma coisa que empatia, e muito menos amor) podem ser vantagens. 

O ódio é um luxo que muitos não podem pagar. Fiz prisioneiros (eu e a minha companhia, a CCAÇ 12); nunca odiei nenhum prisioneiro nem o torturei (mas outros fizeram-no por mim, em meu nome, em nome do grupo)...


(iii) Amor vs. ódio: altruísmo vs. egoísmo

A sociobiologia explica o altruísmo como uma estratégia evolutiva: cooperamos com quem partilha os nossos genes ou os nossos interesses. Mas isso é redutor. O ser humano é muito mais do que instintos, genoma, ADN, sexo, testosterona.. É mais do que o nosso gene egoísta que se quer reproduzir â viva força.

Sim, o amor pode ser um ato de resistência. Em contextos de guerra ou opressão, o amor (pela família, pela pátria, por um ideal, pela liberdade, pela justiça) é muitas vezes o que mantém as pessoas de pé.

"Amor com amor se paga": não é uma lei universal, mas é um contrato social. Se todos agirem com egoísmo puro, a sociedade colapsa. O altruísmo não é ingénuo: é racional a longo prazo. Também é,pois,  "interesseiro".
 
O ódio também é uma  ferramenta de manipulação e mobilização: o ódio pode ser útil para mobilizar massas (viu-se isso durante as guerras civis liberais, em 1828/34, na guerra colonial de 1961/74, no "verão quente de 1975", na ocupação indonésia de Timor Leste e na resistência dos timorenses aos ocupantes, etc.) mas é insustentável a longo prazo. 

Amílcar Cabral pregou o ódio ao colonialismo mas distinguiu os colonialistas e o povo português. Claro que o colonialismo não é uma coisa abstracta...

 As sociedades que duram são aquelas que conseguem gerir o ódio, não as que o celebram (como a Alemanha nazi). 

Dicas práticas para o meu dilema existencial, quando eu tiver/nós tivermos  que me/nos  envolver numa nova guerra (cruzes canhoto!... mas nunca se sabe nem onde nem quando podemos ser apanhados de novo por um conflito armado, nós, os nossos filhos, os nossos netos):
  • o ódio é uma escolha, não uma fatalidade: podes reconhecer a raiva, a injustiça, a dor, sem te deixares consumir por elas;
  • a guerra (metafórica ou real) ganha-se com inteligência, não com ódio;
  • o ódio cega; a estratégia, a empatia (até com o inimigo) e a resiliência são armas mais poderosas do que o ódio;
  • e se tivessemos conseguido  juntar,  numa mesma "seleção nacional",  Sarmento Rodrigues, Adriano Moreira,  Spínola, a "Cilinha" mas também... Amílcar Cabral e a "Maria Turra"?;
  • o altruísmo não é fraqueza;
  • a história mostra que as sociedades mais cooperativas são as mais resilientes; 
  • o egoísmo puro é um beco sem saída;
  • desconfiar dos extremismos (e de quem os defende) é um bom princípio; 
  • tanto o ódio cego como o amor ingénuo são perigosos ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo", diz o provérbio);
  • o equilíbrio (dinâmico) está na difícil lucidez;
  • o ódio é fácil;
  • o amor é difícil;
  • ...mas  é o único que constrói algo que dura nas nossas relações (intragrupais, intergrupais, comunitárias, nacionais, internacionais).
(Continua) (**)
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Notas do editor LG:

terça-feira, 16 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28103: Timor-Leste: passado e presente (35): Barlaque: casamento tradicional e modernidade, o verso e o reverso (resumo analítico de artigo, publicado pelo Diligente, excelente jornal digital, feito em Díli)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: Luís Graça + Rui Chamusco

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

Barlaque: ritual de união familiar ou ataque à igualdade de género?
Autoria: Equipa do Diligente
Fonte: Diligente (16 de julho de 2023)


1. Sobre a "Equipa do Diligente", convirá saber o seguinte:


“Sobre as pessoas. Para as pessoas”

Somos um grupo de jovens jornalistas timorenses ansiosos por melhorar a indústria dos media no nosso país. Queremos difundir informação imparcial que possa ajudar as pessoas a enfrentar todas as questões sociais e económicas com pensamento crítico.

Queremos que o povo timorense seja ouvido. Queremos que todos estejam conscientes do que se passa no nosso país.

Ambicionamos ser um projeto inovador, com uma aposta forte em trabalhos de investigação, reportagens, podcasts e outros conteúdos informativos.

Como primeiro website informativo totalmente em português, em Timor-Leste, temos a preocupação acrescida de produzir conteúdos de fácil compreensão e explicar assuntos complexos de forma simples.

Vamos dar voz aos cidadãos, promovendo debates sobre os direitos humanos e a defesa das minorias, ao mesmo tempo que mostramos ao mundo a riqueza cultural de Timor-Leste e os aspetos que o tornam único.


2. Aqui vai uma sinopse crítica do artigo supracitado, estruturada, para melhor legibilidade.   Inclui os pontos-chave, as tensões culturais e as vozes dissonantes, além de uma reflexão final que convida ao debate.

O barlaque (ou barlak, em tétum) é uma tradição ancestral timorense que formaliza o casamento através da negociação entre famílias, envolvendo a troca de bens (dinheiro, animais, adornos como belak ou kaebauk) como símbolo de união e respeito. 

Originário do termo indonésio berlaki (mulheres com companheiro para casamento), o ritual divide-se em três fases:

(i) Tuku odamantan (“bater à porta”): 

primeiro contacto entre famílias, a do pretendente e a da futura noiva, com troca de presentes simbólicos: cigarros, vinho, cabrito, noz-de-areca (equivalente à noz-de-cola africana).

(ii) Hamos dalan (“abrir o caminho”): 

cerimónia de reconhecimento mútuo, onde a mulher passa a integrar a família do homem (fetosán), e os homens da família da noiva se tornam umane (herdeiros da uma lisan, casa sagrada).

(iii) Kahe aitahan (“prenda”): 

casamento cultural, com troca de anéis e fios de ouro/p e prata; aqui, define-se se o sistema é patriarcal (kaben sai: a mulher e filhos passam à uma lisan do homem) ou matriarcal (habanin: o homem entra na uma lisan da mulher).

A Face oculta: violência, dívida e desigualdade

O artigo desmonta o mito da “união familiar” ao expor casos concretos de exploração económica e opressão de género (os nomes são fictícios, para proteger a privacidade das pessoas entrevistadas):

  • Martinha, mãe de duas filhas, recusa o barlaque por considerá-lo uma "venda de mulheres": os tios da noiva (figuras centrais no processo) decidem o valor e ficam com a maior parte, reduzindo a mulher a um objeto de transação. 

A recusa de Martinha em ser "barlaqueada" (sic) gerou conflitos familiares, mas a sua resistência expôs uma verdade incómoda: mulheres barlaqueadas são frequentemente vítimas de bullying, violência doméstica e controle excessivo por parte do marido e da família do marido.

“Se eu não fosse a um funeral ou não soubesse cozinhar, seria alvo de ofensas. Não quero ser propriedade de ninguém.”

  • Yane Maia, revisora linguística, viu o seu casamento desmoronar-se devido a conflitos entre sistemas matriarcais e patriarcais, na cultura Bunak (matriarcal), as mulheres barlaqueadas não podem pertencer à uma lisan do homem, sob pena de “maldição de morte” para si e para os filhos; a família do marido recusou um compromisso híbrido, demonstrando a rigidez de um sistema que nega autonomia às mulheres.

Mais de 50% das mulheres timorenses (15-49 anos) já sofreram violência física ou sexual por parceiros masculinos (fonte: CEDAW/ONU). 

O barlaque, segundo o artigo, agrava esta realidade: casais endividados para pagar o ritual (que pode ir até aos 20 mil dólares, num país em que os rendimentos médios mensais andam na casa dos 150 dólares) vivem sob stress extremo, gerando divórcios e agressões.
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O artigo opõe três perspetivas

Defensores
do Barlaque
Críticos
do Barlaque
Neutrais
(Antropólogos)

Eugénio Sarmento (lia-nain):

o barlaque é um fator de união familiar e respeito pela fertilidade da mulher.

 
A violência doméstica não é culpa da tradição, mas de “pessoas que não a compreendem”.
Berta Antonieta (ativista feminista):
´
o barlaque reduz a mulher a um bem material, equiparando-a a búfalos ou dinheiro.

A cultura é dinâmica e deve ser mudada.
Alessandro Boarccaech

o barlaque é um facto social com dois lados: união familiar vs. discriminação.

A violência doméstica está ligada a fatores estruturais (educação, hierarquias, álcool, políticas públicas).

Josh Trindade
(antropólogo): os objetos trocados não são para “comprar” a mulher, mas para valorizar a sua fertilidade.

Critica os “colonialistas” que julgam a cultura sem a conhecer.

Martinha/Yane Maia
:

o ritual perpetua a desigualdade e a violência, especialmente quando as famílias pobres usam as filhas como fonte de rendimento.
Paulino dos Santos (engenheiro):

propõe reduzir os custos do barlaque e de outros rituais (lia mate, lia moris) para evitar pobreza e divórcios.
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O Debate Central: Tradição vs. Direitos Humanos

O artigo levanta questões incómodas e urgentes:


(i) O barlaque é compatível com a igualdade de género?

  • Os defensores argumentam que o ritual simboliza respeito e consolida laços familiares.
  • Os críticos respondem que, na prática, a mulher perde autonomia: os tios decidem o seu valor, e ela passa a ser “propriedade” da família do marido (ou, no caso matriarcal, o homem é que se torna dependente).
(ii) O barlaque é a causa da violência doméstica?

  • Não diretamente, segundo os antropólogos: a violência tem raízes mais profundas (educação, poder, álcool).
  • Mas legitima-a: ao tratar a mulher como um bem transacionável, o ritual normaliza a sua subalternização, criando um ambiente propício ao abuso.

(ii) Pode o barlaque adaptar-se aos tempos modernos?

  • Josh Trindade sugere que o pagamento pode ser fracionado (em prestações), aliviando a pressão financeira.
  • Berta Antonieta propõe uma revolução cultural: “A cultura foi feita pelo homem, mas é dinâmica. Podemos mudá-la.”
  • Alessandro Boarccaech questiona: “Para que serve o barlaque hoje? É justo? Respeita a diversidade?

Reflexão final: um espelho para Portugal  ( e Guiné-Bissau) ?

O artigo do Diligente é um retrato cru de como a tradição pode ser ao mesmo tempo um pilar cultural e uma prisão

OkEm Timor-Leste, o barlaque é um sistema complexo, com nuances entre o matriarcal e o patriarcal, mas com um denominador comum: a mulher é o último elo da cadeia de decisão.

Paralelos com Portugal

  • A dote (ou enxoval ou bargal) em Portugal também já foi um símbolo de status e negociação familiar, mas evoluiu para um gesto simbólico.
  • A violência doméstica em Portugal (como em Timor-Leste) tem raízes culturais profundas, muitas vezes mascaradas por “tradições”.
  • A resistência de Martinha lembra as mulheres portuguesas que, nas décadas de 60/70, recusaram casamentos arranjados pelas famílias ou a submissão ao marido, "chefe da família.
  • A igualdade da mulher perante a lei em Portugal é um direito fundamental consagrado no Artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa, que garante que todos os cidadãos são iguais e proíbe qualquer discriminação com base no sexo.A revisão do Código Civil, que entrou em vigor em abril de 1978, marcou uma revolução histórica nos direitos das mulheres em Portugal. Pela primeira vez, a lei instituiu a igualdade de género no casamento, abolindo o estatuto de dependência legal e económica da mulher face ao marido.
  • A revisão do Código Civil, que entrou em vigor em abril de 1978, marcou uma revolução histórica nos direitos das mulheres em Portugal. Pela primeira vez, a lei instituiu a igualdade de género no casamento, abolindo o estatuto de dependência legal e económica da mulher face ao marido.
  • As principais alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 496/77 incluíram: (a) fim da figura de "chefe de família": o poder de decisão exclusiva do marido sobre o agregado familiar foi eliminado; (b) gestão conjunta do património: o marido deixou de ser o único administrador dos bens do casal, passando a direção da família a pertencer a ambos os cônjuges.

Pergunta para os leitores do nosso blogue:

Até que ponto uma tradição (o "fanado", por exemplo, ou o "casamento infantil", na Guiné-Bissau) pode ser “respeitada” se ela perpetua desigualdades ou tem práticas que atentam contra os direitos humanos ?

 Será o barlaque um ritual de união… ou um mecanismo de controle social ? 

Veremos, em próximo poste, algumas semelhanças com o casamento tradicional na Guiné-Bissau.

Nota para citação: Sinopse crítica elaborada por LG +  IA  ( Vibe  / IA Mistral Medium 3.5) a partir do artigo “Barlaque: ritual de união familiar ou ataque à igualdade de género?”, publicado no Diligente, 16 de julho de 2023.

(Revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 11 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28012: Timor-Leste: passado e presente (34): a revolta de Manufai (dez 1911 / out 1912) - Parte I

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28089: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (6): quando a cultura reforça a desigualdade de género e a violência (física, psicológica, simbólica) sobre as mulheres: neste caso o barlaque em Timor-Leste ou o alambamento em Angola ou o "pidi noiva" na Guiné-Bissau




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: LG + RC

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Na sua última crónica, da viagem e estadia de 2019, em Timor-Leste, o nosso grão-tabanqueiro Rui Chamusco escreveu o seguinte apontamento sobre a tradição (cultural) do Barlaque (*):


31.03.2019, sábado - “Barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio [irmão mais novo do Gaspar Sobral, o luso-timorense, casado com a Glória Sobral, cofundadores da ASTIL, juntamente com o Rui Chamusco] foi fazer de negociador no “barlak”  [termo já grafado em português como "barlaque"] de um sobrinho. 

Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o barlaque ?

 O  barlaque é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva,  passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva  os "dotes” para que se realize o casamento. [Em tétum, "manefon" quer dizer homem (mane) novo (foun, fon), o que passa a fazer parte de uma nova família ].

Os "dotes” envolvem dinheiro e bens. 

Neste barlaque  foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que: 

  • 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e temperos; 
  • mais 15 caixas de cervejas, 
  • 10 caixas de coca cola e outras bebidas.  [Um timorense ganha em média 125 dólares por mês, para economizar 2500 dólares tem de trabalhar e poupar muito; pode ser ruinoso casar um filho.]

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. 

Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a,  mais ou menos, 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


 2. Enquanto aguardamos, por parte do Rui Chamusco,  mais esclarecimento sobre a prática do Barlaque, hoje, em Timor-Leste, passados já sete anos sobre aquela crónica, fizemos uma rápida pesquisa sobre o tema através de uma ferramenta de IA (a francesa Vibe,  da Mistral AI).

 Eis o que apurámos, muito sumariamente:

O barlaque é, de facto, uma cerimónia tradicional timorense central no processo de casamento, onde as famílias dos noivos negoceiam os dotes, como parte do acordo pré -matrimonial. (É uma pratica que também se faz no Ocidente...)

A descrição que o Rui Chamusco faz parece estar muito alinhada com o que se sabe sobre esta prática, que é uma das mais importantes e simbólicas nas comunidades timorenses, especialmente nas zonas rurais.

(i) Significado e contexto cultural

  • o barlaque é uma negociação formal entre as famílias do noivo (representado pelo  manefon ou manu-foun) e da noiva, onde se discutem os termos do casamento, incluindo os dotes (dinheiro, adornos, outros bens, animais, comida, bebidas) que a família do noivo deve oferecer à família da noiva; 
  • não é apenas uma transação económica: é um rito de aliança entre famílias, que reforça laços sociais e comunitários; 
  • o  valor e a composição do dote variam conforme a região, a situação económica das famílias, o estatuto social, etc.:
  • em muitas comunidades, o barlaque é também uma forma de "compensar", de algum modo, a família da noiva pela "perda" de um membro (a filha) e pelo seu contributo para a nova família (em sociedades camponesas é, antes de mais, a perda de "dois preciosos braços").

(ii) Composição típica do dote (barlaque)

A descrição do Rui Chamusco é muito detalhada e reflete práticas comuns ainda em vigor na sociedade timorense, mais de 50 anos depois da descolonização e mais de duas décadas depois da independência (em 20 de maio de 2002) (e com mais 2 décadas de ocupação indonésia, entre 1975 e 1999):
  • dinheiro: o valor pode variar muito, mas 2.500 dólares (ou mais) não é invulgar em casamentos mais abastados ou em zonas urbanas; 
  • em áreas rurais, os valores podem ser menores, mas a estrutura e o significado são semelhantes;
  • animais: o búfalo, o boi ou a vaca (krau) é um elemento central, muitas vezes abatido para a festa de casamento; 
  • o seu valor simbólico é enorme: representa fertilidade, riqueza e status; em algumas regiões, o número de bois pode ser negociado (por exemplo, 1, 3 ou até 5, dependendo da importância da família);
  • comida e bebidas: (a) arroz: uma saca de 30 kg (ou mais) é comum, e é partilhada entre as famílias e os mediadores; (ii) bebidas: cerveja (15 caixas ou mais), refrigerantes (como Coca-Cola, 10 caixas), e por vezes tuak / tuaque (vinho de palma, tradicional em Timor); (c) porco: outro animal frequente, abatido e partilhado durante a cerimónia;
  • outros bens: podem incluir tecidos (tais), joias (adornos, com o balaque, o carbauque), ou até eletrodomésticos, dependendo da modernização da prática.

(iii) O papel do negociador (em nome do pretendente ou noivo, manefon, "homem novo"):

  • o manefon (ou manu-foun) é o vem de fora, de outra família, que para pedir a mão da noiva precisa de um intermediário, um mediador, em  geralmente um familiar próximo (em geral, o tio);
  • o negociador tem um papel-chave na discussão do dote e na mediação entre as famílias, como referido pelo Rui,  recebe uma parte simbólica dos bens (como os 3 kg do porco), como reconhecimento pelo seu trabalho.

(iv) Festa e partilha:

  • a família da noiva (geralmente as mulheres, como as irmãs) é responsável por cozinhar a comida para a cerimónia, que pode durar vários dias;
  • a partilha dos bens (carne, arroz, bebidas) é um momento de união entre as famílias e a comunidade; 
  • em algumas regiões, a carne do boi, da vaca  ou do porco é distribuída pelos vizinhos como gesto de generosidade e de alegria.

(v) Variações regionais e modernização:
  • na capital  Díli ou outras zonas urbanas, o barlaque  pode ser mais simplificado, com menos ênfase em animais e mais em dinheiro ou bens modernos (eletrodomésticos, etc.);
  • em áreas rurais (como Aileu, Manatuto, Baucau ou Same), a tradição mantém-se mais forte, com negociações longas e dotes mais elaborados;
  • nos últimos anos, tem havido  um debate sobre o custo elevado do barlaque, que pode ser um fardo para famílias mais pobres, e que ficam endividadas;
  • algumas comunidades tentam adaptar a prática para a tornar mais acessível.

(vi) Comparação com outras culturas lusófonas:

  • o barlaque lembra outras tradições de dote na África lusófona (como o lobolo em Moçambique ou o alembamento / alambamento em Angola), onde também se negociam bens e dinheiro entre famílias; na Guin~e-Bissau,. o equivalemnte é o "pidi noiva"  ( k'mari, entre os papéis)
  • em Cabo Verde, por exemplo, não há uma prática idêntica, mas a cachupa é muitas vezes servida em casamentos como prato de união, um paralelo interessante com a partilha de comida no barlaque (sobre o casamento tradicional nas ilhas, vd. aqui aqui).
(vii) Fontes e aprofundamento

Infelizmente, não encontrámos fontes académicas recentes em português ou tetum que detalhassem o barlaque com a profundidade que merece. 

Há, todavia, um artigo relativamente recente do jornal digital "Divergente" que merece ser analisado num próximo poste, à parte.

No entanto, o apontamento feito pelo Rui Chamusco (em 2019) está totalmente alinhado com relatos de antropólogos e missionários que estudaram os costumes timorenses, como Armando Pinto Corrêa (autor de Gentio de Timor, 1935) ou Ruy Cinatti (que documentou tradições timorenses durante a época colonial).

Talvez o Rui Chamusco (e o Cherno Baldé, no caso da Guiné-Bissau)  nos possa ajudar a:

  • procurar mais informação e conhecimento sobre o barlaque em fontes históricas ou etnográficas;
  • comparar esta prática com outras formas de casamento tradicional na Ásia ou em África, e em especial na Guiné-Bissau;
  • explorar o papel da mulher nestas negociações (por exemplo, como as irmãs da noiva participam);
  • e, por fim, as implicações que estes "usos & costumes" (tal como o casamento infantil e o casamento  forçado na Guiné-Bissau) têm na persistência das desigualdades de género e da violência (física, psicológica e simbólica) sobre as mulheres. (**)

PS - Mandámos ao Rui Chamusco, que está recuperar de uma operação cirúrgica na sua casa na Lourinhã, a seguinte mensagem (com conhecimento ao João Crisóstomo, em Nova Iorque, também ele membro da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste, com sede em Coimbra):

Luís Graça <luis.graca.prof@gmail.com>
10 jun 2026, 19:36
para Rui, Joao

Rui: como é que vão, anos depois, estes "usos & costumes"  ? O barlaque cheira-me a "casamento forçado", como na Guiné do meu tempo (e ainda hoje)...

Ainda há "casamentos forçados", hoje, em Timor-Leste ? Parece que o barlaque é cada vez mais contestado, sobretudo pelas mulheres. E percebe-se porquê.

Tem havido casos de infanticídio e abandono de crianças. Como de resto, noutros países, como a Guiné -Bissau, sem esquecer o nosso querido Portugal (que no passado criou a famigerada "roda dos expostos", á porta dos conventos e hospitais das misericórdias).

Sabe-se que a igreja católica timorense é bastante conservadora. Pelo menos, em matéria de educação sexual nas escolas, planeamento familiar, contracepção, etc.

E a propósito, um jornal que merece ser lido, ajudado, divulgado é o "Diligente"...Parece um projeto fantástico! (...)


(Pesquisa: LG + Diligente + IA (Vibe / Mistral AI | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)

quarta-feira, 4 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)



(i)  ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; 

(ii) advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, outrora capital de um império macrocéfalo;

(iii) depois de ter passado por Coimbra como estudante;

(iv) é um dos grandes contistas da guerra da Guiné, a da nossa guerra (que não foi pior nem melhor do que as guerras dos outras, foi a "nossa guerra", e bastou, esperemos);

(v) é autor, entre outros,  dos livros de contos "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz",  

(v) tem mais de 160 referências no nosso blogue.

(vi) faz parte da Tabanca Grande desde 26/8/2008, altura em que venceu a relutância de se associar ao nosso blogue,  ao ler o nosso apelo, "Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós".
 

1. O escritor (que continua a ser nosso camarada) Alberto Branquinho tem aceite, com pundonor & pudor, ser "pirateado" e metido, avulso, nesta série, "humor de caserna". 

Há dias comentou: "Obrigado por apreciares o que venho escrevendo. Estou a acabar mais um livro (que, talvez, seja o último)". (...) quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 às 16:43:00 WET). 

Eu interpretei o cumprimento e a (in)confidência como sendo "luz amarela" para, de vez em quando, eu poder lá ir, aos seus livros, roubar-lhev mais um "contito" (não, não é uma nota de mil escudos,  uma fortuna no nosso tempo de meninos e moços), um história do nosso quotidiano de guerra, para a malta  ler com tempo e vagar... 

É, afinal,  como os ovos da avó, a quem a gente assaltava o "galinheiro" (que era o seu "mealheiro"), e ela fingia que não via nada nem sabia de nada...

Hoje escolhi este microconto: há tempos tinha-lhe dado 4 estrelas (apontamento, a lápis, ao alto na página 77)...Hoje acrescento-lhe mais meia estrela, ao relê-lo. 

Lembrei-me, assim de repente,  do "bico-de-obra" que era, para uma companhia de intervenção (como a minha CCAÇ 12, composta por praças do recrutamento local, e meia dúzia de graduados "tugas) ir para o "mato" e "fazer prisioneiros"... Não era nenhum "ronco", era uma "manga de chatice"...

Sabíamos, no regresso ao quartel, que um prisioneira era sempre o "cabo dos trabalhos"... Passados dois ou três dias, o prisioneiro passava à condição de prisioneiro-guia... E lá continuava o nosso calvário...

A partir daí, ele deixava de nos pertencer. E sabíamos que, depois de "cumprida a missão", tínhamos que o entregar, "vivo e inteiro", aos "donos da Spinolândia"... 

Os nossos soldados, fulas, estavam sempre desejantes que ele, mesmo preso por uma corda, tentasse a fuga, para ter um bom pretexto  para lhe "dar cabo do canastro" ( já não me lembro como se diz em fula)...

Eles acreditavam piamente que "um balanta a menos era um turra a menos"... E não eram capazes de se  imaginar  em situação semelhante, "presos dos turras",  em que aí, o Zé Turra, balanta, também rosnaria, entre dentes,  que "um fula a menos era um cão dos colonialistas a menos"!...

O autor faz, como convém, para evitar qualquer suscetibidade, a sua declaração de interesse (e eu corroboro): "“Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”.


Capa do livro de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos.  Lisboa,Vírgula,  2013, 224 pp. 







Fonte: Excerto de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos.  Lisboa, Vírgula,  2013, pp. 77-79  

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 21 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27756: Humor de caserna (241): O mistério do peixe mole, capturado num afluente do rio Mansoa, perto da Ponta Augusto Barros (Vargas Cardoso, 1935-2023, ex-cap inf, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)