


1. O escritor (que continua a ser nosso camarada) Alberto Branquinho tem aceite, com pundonor & pudor, ser "pirateado" e metido, avulso, nesta série, "humor de caserna".
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.



1. O episódio que o Jaime Silva partilha connosco (*), é forte, tenso e revelador da dureza mas também da profunda ambiguidade moral, que marcaram muitos momentos da guerra colonial, vividos por nós. Nem todos, por outro lado, teriam coragem de o contar, em público, em livro.
Há vários aspetos que vale a pena comentar, e que são comuns às experiências por que passámos no CTIG.
Recorde-se que o Jaime Silva. de rendição individual, era comandante, "maçarico", de um pelotão da 1ª CCP/ BCP 21 (Angola, 1970/72). E que na Op Broca (c. 20-29 de maio de 1970), no norte de Angola, tem o seu "batismo de fogo". O seu pelotão já tinha experiêwncia operacional, e pôde contar com a dois bons graduados, o 1º cabo Onofre e srgt Mirra.
(i) O choque do “batismo de fogo”
O Jaime Silva descreve algo comum entre jovens oficiais enviados para cenários de guerra: a passagem abrupta da formação teórica (neste caso, recebida na EPI, em Mafra, e depois em Tancos, no RCP) para a realidade pura e dura da guerra de guerrilha e contraguerrilha (fosse em Angola, na Guiné ou em Moçambique),
O “maçarico” (em Angola), o " periquito" (na Guiné) ou o "checa" (em Moçambique) era confrontado de imediato com a imprevisibilidade do IN, e a brutalidade do combate num terreno que lhe era desfavorável. E isso marcava-o para sempre. O dia e o local do batismo de fogo.
(ii) O contraste entre comportamentos
A narrativa mostra três tipos de comportamento operacional num momento de grande tensão:
a serenidade, a coragem e a experiência do 1º cabo Onofre, que representa o militar que já tem traquejo e sabe agir com sangue-frio:
a lucidez e a maturidade do sargento Mirra, que confirma o papel fundamental dos graduados na estabilidade dos pelotões:
e, por fim, a conduta chocante do tenente miliciano, comandante de outro pelotão da 1ª CCP, cuja atitude ultrapassa qualquer ética militar, revelando como, em cenários de guerra, alguns indivíduos cruzavam fronteiras morais sob o pretexto da “praxia” ou da necessidade de endurecer os mais novos, os "maçaricos", liquidando crua e friamente um prisioneiro indefeso:
(iii) “Habituação": uma lógica perversa
A ideia de que um ato de extrema violência como aquele serviria como “lição” para um oficial recém-chegado, "maçraico", e logo ali "praxado". mostra bem como a guerra pode distorcer valores, normalizar atrocidades e criar um ambiente em que o desprezo pela vida humana se disfarça do mais miserável militarismo.
(iv) A importância do testemunho
Ao relatar o episódio, o Jaime Silva não só expõe uma realidade dura da época, como também reafirma a importância de não "romantizar" a guerra dos paraquedistas, tropa de elite. Como ele diz, "na guerra não vale tudo".
O facto de ainda recordar esse momento (traumático), demonstra que, para muitos de nós, a guerra colonial foi menos uma aventura turistico-militar e mais um conjunto de situações -limite (que deixaram cicatrizes, nalguns casos, físicas, mas sobretudo morais, psicológicas e humanas).
É um relato que merece ser preservado e discutido, aqui no blogue, mas também nas academias militares, porque ajuda a compreender o que significou, realmente, para milhares de nós, jovens portugueses, sermos enviados para África como "maçaricos", "periquitos" ou "checas"(**)
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| Monumento aos combatentes do Ultramar. Lourinhã. Pormenor. Foto: LG (2025) |
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Jaime Silva, em 2013. Foto LG |
1. Com a devida vénia e autorização do autor, Jaime Bonifácio Marques da Silva (antigo alf mil pqdt, 1º CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, conterrâneo do nosso editor LG; membro da Tabanca Tabanca desde 21/1/2024, com c. 120 referências no nosso blogue), passámos a criar uma nova série "Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci..."
É natural de Seixal, Lourinhã. Foi condecorado com a medalha de Cruz de Guerra de 3* Classe. Foi professor de educação física e autarca em Fafe. Está reformado. É sócio de várias associações de antigos combatentes, incluindo a AVECO - Associação de Veteranos Combatentes do Oeste, com sede na Lourinhá, e a Associação de Pára-Quedistas da Ordem dos Grifos63,com sede em Vila Nova da Barquinha.
Este é o quarto poste da série (que terá 15 postes, correspondentes a excertos das pp. 75-98 do seu livro, Capítulo Dois):
Nota do editor LG:
Último poste da série > 6 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27390: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (3): estive sempre no "gastalho", em guerra comigo e contra o IN
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Binhan (n. 1977), jovem cantor e compositor, grande revelação dos últimos anos |
Binhan:
Se fores à Guiné,
se fores à minha terra, leva o meu pedido.
Se por acaso voltares,
quando voltares, traz-me resposta ao meu recado.
Também...
O meu recado, sim, o meu recado.
Monique Séka:
Guiné-Bissau, tu és a minha terra, a terra que é minha.
Guiné-Bissau, tu és a terra dos meus pais.
Mas se Deus quiser, a Guiné vai levantar-se firme.
Não vais ficar só a chorar.
A minha terra é de um povo cansado,
mas se Deus quiser, Guiné, vais melhorar.
Eu não quero ver-te na tristeza.
Eu não quero ver-te no sofrimento.
Eu não quero ver-te na tristeza, ó Guiné, ó!
Liberta os teus filhos, dá-lhes amor.
Amor, felicidade e harmonia para ti, Guiné.
Amor, felicidade e harmonia para todos os filhos da Guiné.
Quem não quer ver-te feliz, ó Guiné,
é porque está cansado, perdeu a esperança.
Mesmo que queiras, às vezes não consegues mais viver,
tens sede… o guineense luta até ao dia da morte.
Ó Guiné-Bissau, ó minha terra, ó meu povo, sim!
Guiné-Bissau, se Deus quiser, vais sair desta tristeza.
Deus há-de iluminar o coração dos teus filhos,
filhos que hão-de tomar consciência
para que o país volte a ter alegria.
Educação, luz, saúde, água — para que nada falte.
Ouvi, ouvi, ouvi bem!
África, minha mãe, chora comigo, por favor!
Fala alto, a mãe veio avisar,
África, a mãe veio avisar do mal.
Refrão final:
Alô, alô, minha terra!
Guiné, Guiné-Bissau!
(Alô, alô, alô, Guiné!)
Alô, alô, minha terra!
(Eu quero ver-te, Guiné, feliz um dia!)
Guiné, Guiné-Bissau!
(O teu povo não vai parar, mesmo cansado!)
Alô, alô, minha terra!
Guiné, Guiné-Bissau!
Alô, alô, alô Guiné!
Alô, alô, alô Abidjan!
Alô, alô, alô Guiné!
Alô, alô, alô Douala!
Alô, alô, minha terra,
Guiné, Guiné-Bissau!
Observação - A canção é uma mensagem de dor, amor e esperança pela Guiné-Bissau... Também uma oração para que o país supere o sofrimento e renasça. Binhan fala como filho da terra, e Monique Séka acrescenta uma dimensão pan-africana, chamando a “África mãe” a solidarizar-se com o povo guineense.
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António Mediba, 2016 |
O António Medina na mata da Caboiana (c. 1964) |
