O autor do blogue é Lucas Leite Monteiro (LLM), "alfacinha" por nascimento, "mindelense" por paixão, também conhecido como jovem empresário agrícola (Projeto Ecofarm Cabo Verde, em Ribeira Grande de Santo Antão, onde os seus avós tinham propriedades, e onde faz agora produção orgânica de frutas e legumes).
O Porto Grande na Mira do Mundo: Mindelo e a Segunda Guerra (1939-1945) – 2ª parte (*)
Houve um tempo em que o pulsar do Mindelo ditava o ritmo do Atlântico Médio. Entre 1939 e 1945, o nosso Porto Grande despiu a sua farda de cais comercial para envergar a armadura de sentinela estratégica do mundo.
Eram os anos do "blackout": as janelas da cidade cobriam-se de negro para que o brilho da nossa importância geopolítica não servisse de guia aos "lobos cinzentos" que espreitavam sob as ondas.
A Fortaleza de "Soncente" e os seus 3.000 heróis
Em maio de 1941, o Mindelo transformou-se. Cerca de 3.000 soldados expedicionários portugueses desembarcaram no cais, juntando-se a 400 recrutas locais, formando uma barreira de defesa sem precedentes. As encostas da Ponta João Ribeiro e do Morro Branco ganharam "dentes" de aço com baterias de artilharia anti-aérea.
Mas a guarnição não trouxe apenas o rigor da caserna. Entre as fileiras, vinham figuras que marcariam a nossa cultura: o escritor Manuel Ferreira e o músico Chico da Concertina, cujo fole amansava a distância.
Enquanto a música ecoava nas tabernas do Mindelo, no silêncio do abismo, a nossa ilha "ouvia" os segredos do conflito através da The Western Telegraph Company. Os cabos submarinos (estudados por autores como A.S. Gomes) garantiam que as mensagens das frotas aliadas chegassem aos seus destinos.
Sem este nó central de comunicações, o controlo do Atlântico Sul estaria às escuras. Mas a guerra não vinha apenas por telegrama; ela rugia nas águas vizinhas.
𝐀 "𝐁atalha de Tarrafal de Monte Trigo": O Duelo de Titãs
Enquanto a música ecoava nas tabernas de Soncente, no silêncio do abismo, o destino das ilhas era jogado com códigos secretos.
Três submarinos alemães — o U-67 (Müller-Stöckheim), o U-68 (K.F. Merten) e o U-111 (W.K. Kleinschmidt) — escolheram aquela baía escondida para um encontro clandestino de reabastecimento e assistência médica.
O submarino britânico HMS Clyde, sob o comando do tenente D.C. Ingram, foi enviado para a emboscada. Sozinho contra três, Ingram aproveitou a escuridão e a configuração da baía para semear o caos.
O fim dos 'Lobos Cinzentos'
Embora nenhum submarino tenha sido afundado naquela noite, o destino foi implacável. O encontro no Tarrafal foi apenas o prelúdio do fim para a "alcateia alemã":
- U-111 foi torpedeado e afundado escassos dias depois, a 4 de outubro, a sudoeste de Tenerife, levando consigo 44 marinheiros, incluindo o comandante Kleinschmidt;
- U-67 sucumbiria no Mar de Sargaços a 28 de março de 1943;
- U-68 encontraria o seu túmulo a nordeste da Madeira, a 10 de abril de 1944;
A paz voltaria à baía de Monte Trigo, mas a história guardará para sempre o eco daquela noite em que Mindelo e as suas águas vizinhas foram o epicentro de um xadrez mundial onde o heroísmo e a tecnologia se cruzaram no horizonte de Cabo Verde.
Este incidente de proximidade trouxe a tensão máxima da Batalha do Atlântico para a nossa vizinhança, provando que nem o Tarrafal mais isolado estava imune ao xadrez de Hitler e Churchill.
Fotos: Cabo Verde Postcard e (erenow.org / uboat.net/men/commanders)
Texto/Pesquisa: Memórias d'Mindel (LLM)
Fontes Académicas e Historiográficas:
•A. S. Gomes (António Sebastião Gomes): Citado frequentemente como a autoridade central no estudo da defesa militar e infraestruturas de Cabo Verde durante as Grandes Guerras.
•Daniel A. Pereira: Historiador cabo-verdiano que aborda a importância geopolítica de Cabo Verde em contextos globais.
•Arquivo da Cable & Wireless: A sucessora da The Western Telegraph Company mantém registos históricos sobre as estações de Mindelo e a manutenção dos cabos transatlânticos
•PKT (Porthcurno Telegraph Museum): Este museu no Reino Unido detém o maior arquivo do mundo sobre as companhias de telégrafo submarino, documentando a rede que passava por São Vicente.
•Relatórios das "Cape Verde Islands Patrols": Diários de bordo e relatórios da Marinha Real Britânica e da Marinha dos EUA que operavam no triângulo de comunicações Freetown-Mindelo-Açores
Mais de 2/3 dos efetivos estavam afetos à defesa do Mindelo (ou seja, do porto atlântico, Porto Grande, ligando a Europa com a América Latina, a par dos cabos submarinos).
Os portugueses (e os cabo-verdianos), hoje, desconhecem ou conhecem mal o enorme esforço militar que Portugal fez, na II Guerra Mundial, para garantir a defesa das ilhas atlânticas e dos territórios ultramarinos. Cerca de 180 mil homens foram mobilizados nessa época.
Vd. aqui também o livro do nosso grão-tabanqueiro, o cor inf ref Adriano Miranda Lima, mindelense, "Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II GuerraMundial" (Mindelo, São Vicente, 2020, ed. de autor): morreram em São Vicente, entre 1941 e 1946, 40 militares das forças expedicionários (pág. 172) e 28 na ilha do Sal (pág, 173). POr doença, acidente, suicídio.
Vde. postes anteriores da série:













































