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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27659: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (17): o sold aux enf Porfírio Dias (1919-1988), meu pai, que me contou a história do submarino alemão que atracou no Mindelo e só se foi embora quando lhe apeteceu (Luís Dias, ex-alf mil, CCAÇ 3491, Dulombi, 1971/74)


Foto nº 1 > Porfírio Dias (1919-1988) > Ainda na metrópole, sold aux enf (1940)


Foto nº 2 > Porfírio Dias: foto tirada em Cabo Verde, depois do acidente que o obrigou a usar óculos para sempre... Foi mais uma vítima da habitual falta de material para cumprir com o necessário cuidado as tarefas de que era incumbido, como soldado auxiliar enfermagem: ao usar umas  luvas já deterioradas numa intervenção cirúrgica, em que apoiavas o médico, depois de tocar  com os dedos num dos olhos, arranjou o problema de saúde que o  obrigou a usar óculos desde então.


Foto nº 3 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >Mindelo > c. 1941/44 >  Porfírio Dias,  com a braçadeira de enfermagem e com pistola à cintura. A  viatura parece ser uma GMC.


Foto nº 4   > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >Mindelo > c. 1941/44 > À porta da enfermaria, no  com outros camaradas enfermeiros e com o alferes médico (o que não tem bata branca).


Foto nº 5 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >Mindelo > c. 1941/44 > O sold aux enf, Porfírio Dias,  de bata branca. com outros camaradas. 

Recebeu em fevereiro de 1943, no Mindelo, Cabo Verde, do Comandante de Batalhão, o louvor militar seguinte: "Louvo pelo muito zelo com que tem desempenhado as suas funções no Posto de Socorros na Enfermaria do Batalhão, muitas vezes com o prejuízo da sua própria saúde, dando com a sua actividade, excelente exemplo de dedicação pelo serviço e pela saúde dos seus camaradas e manifestando-se assim um óptimo auxiliar do senhor oficial médico".

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > RI 23 >  c. 1941/44 > O sold aux enf, Porfírio Dias (1919-1988), 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5, que partiu para Cabo Verde no T/T Mouzinho em 18/7/1941, juntamente com o Luís Henriques, pai do nosso editor LG  (ambos eram do mesmo regimento e batalhão). Esteve lá dois anos anos e dez meses (até 7/5/1944)..

Fotos (e legendas): © Luís Dias (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Luís Dias, alf mil, CCAÇ 3491,
Dulombi, 1971/74
1.  Escreveu o  Luís Días, membro da nossa Tabanca Grande, ex.alf mil inf, CCAÇ 3491, Dulombi, 1071/74, em comentário ao poste P27656 (*)

(...) Uma das aventuras que o meu querido pai me contou, foi que em determinada altura atracou no Mindelo um submarino, ostentando o pavilhão da Alemanha nazi.

O comandante da força portuguesa terá ordenado que uma pequena força militar fosse junto do mesmo exigindo que partissem imediatamente do local.

Do contacto havido e tendo sido dito a quem comandava o submarino que devia deixar de imediato as nossas águas, o mesmo terá encolhido os ombros e só largaram muito tempo depois, quando acharam que deviam partir.

Abraço e um bem hajam por mostrarem que houve gente em Cabo Verde, que passou um mau bocado, em especial em termos de comida e de apoios e lembrar que, no caso do meu pai, oriundo do Bairro da Graçam Lisboa, e amante do fado, veio de lá com problemas de saúde, mas a gostar do povo que ali habitava e a amar as "mornas", que lhe faziam lembrar o nosso "fado", do qual era um fã, em especial da Amália e do Fernando Maurício. (...)


2. Recorde-se que o nosso camarada Luís Dias integrou, desde 1975,  a carreira de  investigadores da Polícia Judiciária, tendo sido nomeado, 25 anos mais tarde,  Director do Departamento de Armamento e Segurança, pelo Ministro da Justiça. Hoje está reformado. No nosso blogue, é o nosso especialista em armamento.

Escreveu ele,  em carta, póstuma ao pai, em 19 de março de 2009, no Dia do Pai;

(...) Beste dia queria lembrar que também tu foste mobilizado e enviado para Cabo Verde, no tempo da 2ª Guerra Mundial, que cumpriste também um dever que te foi imposto pelo teu/nosso país. Sei que a tua comissão não teve os riscos de combate, de guerra, como eu tive na Guiné, embora se falasse da possibilidade de um ataque alemão ou mesmo inglês, conforme o governo de Salazar se fosse inclinando para um lado ou para o outro, mas houve outros perigos: muita fome, doenças e as desgraças que assististe por força da tua especialidade.

 (...) Aqueles tempos de 18/7/941 a 7/5/44 (2 anos e 10 meses!!!!), em terras de Cabo Verde, não terão sido pera doce e lembro-me da história que tu contaste do submarino alemão (...). (**)

Pai, estou a invocar-te aqui no blogue da minha companhia, porque tu também foste um mobilizado para África. Um, entre os muitos milhares que a Pátria foi lançando para as terras bravas e quentes daquele Continente. Foste um soldado português, como nós fomos. O país, como aos combatentes da 1ª Grande Guerra, onde o meu avô também esteve, aos do teu tempo, aos da Índia e a nós combatentes da guerra colonial, nunca nos agradeceu, porque é ingrato ou, se calhar, também não mereceu tanta brava gente. (...)

(Revisão / fixaçãode texto, itálicos, negritos: LG)

(**) Vd. poste de 25 de março de 2012 > Guiné 63/74 - P9657: Meu pai, meu velho, meu camarada (26): Porfírio Dias (1919-1988), ex-sold aux enf, Cabo Verde, São Vicente, Mindelo (de 18 de julho de 1941 a 7 de maio de 1944) (Luís Dias)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27655: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (16): Quando Hitler e Churchill cobiçaram o Porto Grande, Mindelo, São Vicente, que Salazar mandou transformar em fortaleza do Atlântico Médio (Texto: Memórias d'Mindel, página do Facebook de Luís Leite Monteiro) - Parte I






Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo  c. 1941/45 > A defesa do Porto Grande
 

1. O nosso amigo Nelson Herbert, jornalista reformado da VOA - Voice of America, nascido em Bissau, de pais cabo-verdianos, membro da nossa Tabanca Grande, sabe do grande amor que temos por Cabo Verde, em geral, e pelo Mindelo, em particular. Acabou de nos dar ontem, às 21h30, a informação sobre esta publicação, que interessa aos nossos leitores e a alguns de nós, mais em particular. 

Ele sabe bem porquê: o pai dele, o Armando Lopes (1920-2018);  o pai do Hélder Sousa, o Ângelo Ferreira de Sousa (1921-2001); o pai do Luís Dias, o Porfírio Dias (1919-1988); o pai do Augusto Silva Santos, o Feliciano Delfim Santos (1922-1989); o meu pai,  Luís Henriques  (1920-2012) eram todos veteranos da II Guerra Mundial, expedicionários em Cabo Verde, a quem neste blogue tratamos com a ternura da expressão “Meu pai, meu velho, meu camarada”… 

São apenas cinco dos seis e mil tal homens que poderiam ter todos morrido ou sido aprisionados, se o arquipélago  (Sal e São Vicente, não era preciso mais...) tivesse sido invadido. Hitler e Mussolini, de um lado, e os Aliados, do outro, sabiam do valor estratégico do Sal e de São Vicente. 

Mas não foi apenas o arquipélago de Cabo Verde (São Vicente, Santo Antão e Sal) onde estiveram expedicionários... As ilhas atlânticas (Madeira, Açores e Cabo Verde) tiveram (e continuam a ter) uma posição privilegiada nas "autoestradas do  Atlântico". 

Para além dos 6500 para Cabo Verde, Salazar mandou mais 30 mil homens para os Açores e mil para a Madeira. Portugal fez na altura um brutal esforço de guerra (em homens, material, meios logísticos e financeiros), que é desconhecido ou mal conhecido de todos nós (portugueses e cabo-verdianos).

2. Com a devida vénia, transcreve-se então a postagem do Facebook Memórias d'Mindelo > 29 de janeiro de 2025, 16h56, de resto ilustrada com fotos também do nosso blogue (as três primeiras que reproduzimos acima, agora reeditadas por nós). 

O autor do blogue é Lucas Leite Monteiro (LLM), "alfacinha" por nascimento,   "mindelense" por paixão, também conhecido como jovem empresário agrícola (Projeto Ecofarm Cabo Verde, em Ribeira Grande de Santo Antão, onde os seus avós tinham propriedades, e onde faz agora produção orgânica de frutas e legumes).

A sua página Memórias d'Mindel tem 9 mil seguidores, e está a caminho de um milhão de visualizações:

(...) Chegamos a um marco que nos enche de orgulho. Mais do que um número, estes 9000 seguidores representam 9000 guardiões da nossa memória coletiva.
Através de cada fotografia antiga, cada história partilhada e cada recordação de infância, mantemos viva a chama da "Morabeza" e a elegância histórica da nossa cidade do Monte Cara.

​A nossa página cresce porque o amor por São Vicente não tem limites. É um privilégio ver como estas imagens unem gerações, desde os que viram estas ruas crescer até aos mais novos que hoje as descobrem através da "Memórias d'Mindel"

Ao unir gerações, garante que o "sentir" mindelense não se perde no tempo, transformando a saudade de uns na herança de outros.

 (...) O que este marco representa:
  • Ponte geracional: o diálogo entre os mais velhos (os guardiões da memória) e os novos (os continuadores da história).
  • Alcance global: a diáspora cabo-verdiana, espalhada pelo mundo, encontra na nossa página um "regresso a casa" diário.
  • Preservação viva: a história de Mindelo deixa de estar apenas no imaginário e passa a estar na palma da mão de todos.(...)

3.  Facebook Memórias d' Mindelo > 29 de janeiro de 2025, 16h56, 

MEMÓRIAS BÉLICAS II

O Porto Grande na Mira do Mundo: Mindelo e a Segunda Guerra (1939-1945) - 1ª Parte
Houve um tempo em que o destino do mundo, jogado entre mapas de generais e gabinetes de guerra em Londres e Berlim, passava obrigatoriamente pelas águas azuis da nossa baía.

Entre 1939 e 1945, o Mindelo não era apenas a cidade-porto; era a sentinela do Atlântico Médio, um "porta-aviões" de pedra que tanto Aliados como o Eixo desejavam controlar a todo o custo.

​A fortaleza de São Vicente

​Enquanto a Europa ardia, Mindelo militarizava-se. Portugal, sob a neutralidade vigilante de Salazar, sabia que o Porto Grande era o seu bem mais precioso e, simultaneamente, o mais perigoso. Para desencorajar invasões, a ilha transformou-se: a sede militar mudou-se da Praia para o Mindelo e as nossas encostas ganharam "dentes" de aço.

​Quem hoje sobe à Ponta João Ribeiro ou ao Morro Branco ainda encontra as cicatrizes dessa época. Ali foram instaladas baterias de artilharia pesada (peças de 150mm) prontas para fustigar qualquer navio que ousasse entrar no canal sem autorização. 

No Lazareto, as metralhadoras antiaéreas apontavam ao céu, temendo que os aviões da Luftwaffe ou da Royal Navy transformassem o nosso porto num cenário de bombardeamento.

​Entre a "Alacrity" e a "Felix"

​O que poucos sabiam na altura, é que estivemos por um fio. O Mindelo esteve na mira de dois planos secretos de invasão:

• ​A Operação Alacrity: 

Os ingleses, liderados por Churchill, tinham planos prontos para ocupar o Porto Grande à força se sentissem que a neutralidade portuguesa vacilava.

• ​A Operação Félix: 

O plano de Hitler que previa tomar Cabo Verde para fechar as rotas de abastecimento que vinham do Sul.

​O Mindelo viveu esses anos num estado de "blackout" constante, com as luzes da cidade apagadas à noite para não servir de guia aos submarinos ("U-Boats") que rondavam as nossas águas, caçando comboios de mantimentos.

​O Pão e a Espada

​Para a memória coletiva do povo de Soncente, porém, a guerra não trouxe apenas canhões; trouxe a "Crise". 

Enquanto o Porto Grande fervilhava de navios de guerra e batalhões expedicionários vindos da Metrópole, a população enfrentava a fome severa de 41-43. O contraste era cruel: o porto estava cheio de importância estratégica, mas os estômagos estavam vazios pelo bloqueio das rotas comerciais.

​Os soldados expedicionários, que enchiam as ruas do Mindelo, trouxeram novas dinâmicas, amores de guerra e histórias de além-mar, mas também partilharam a escassez de um tempo em que o horizonte, em vez de trazer o pão, trazia o medo do perscópio de um submarino.

O quotidiano militar no Mindelo

​A chegada de milhares de soldados de Portugal continental (os "expedicionários") alterou completamente a dinâmica da cidade:
  • ​Mão de obra: os soldados ajudaram em infraestruturas, mas também pressionaram o já escasso stock de alimentos;
  • ​Vigilância: o Porto Grande passou a ter patrulhas constantes e o uso de luzes na cidade era estritamente controlado para evitar ser um alvo fácil à noite ("blackout").

​Um legado de silêncio

​Hoje, as ruínas das baterias militares são monumentos ao silêncio. Lembram-nos de que o Mindelo já foi o centro de um xadrez global.

Lembrar a Segunda Guerra no Mindelo é honrar a resiliência de um povo que, isolado no meio do oceano, viu o mundo passar pela sua baía e sobreviveu para contar a história.

Fotos: Cabo Verde Postcard/ Luís Graça & Camaradas da Guiné 61/74

Texto/Pesquisa: Memórias d'Mindel (LLM)

​As principais referências bibliográficas para estas informações são:

António Leão Correia e Silva: Um dos maiores historiadores de Cabo Verde, obra - Nos Tempos do Porto Grande.

Daniel A. Pereira: Pelos seus estudos sobre a história política e diplomática de Cabo Verde.

Arquivos Militares de Portugal: Relatos sobre o envio das Forças Expedicionárias (1941-1945) para São Vicente.

Planos de Guerra (Aliados e Eixo): Documentos desclassificados sobre a Operação Alacrity (Inglaterra/EUA) e a Operação Felix (Alemanha), que comprovam o interesse estratégico no Porto Grande.

(Seleção, revisão/fixação de texto: LG, com a devida vénia, e os parabéns ao autor)
_______________

Nota editor LG: 

17 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27433: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (15): recordações do meu tempo de menino e moço (Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense, CefInt / QG / CTIG, Bissau, 1973/74)

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27433: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (15): recordações do meu tempo de menino e moço (Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense, CefInt / QG / CTIG, Bissau, 1973/74)


Aurélio Gonçalves (1901-1984), "Nhô Roque",
"nick name" que o Carlos Filipe Gonçalves 
herdou do seu tio

Foto: Bibliotwca Nacional de Cabo Verde.
1. O I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (10 de agosto-3 de outubro de 1935) e os 50 anos de independência de Cabo Verde (5 de julho de 1975) continuam a ser um pretexto para ouvirmos alguns dos nossos amigos e camaradas cabo-verdeanos, e para mais mindelenses, como é o caso do Carlos Filipe Gonçalves (n. 1950) e o Adriano Lima (n. 1943).  O Carlos vive hoje na Praia, sendo radialista e jornalista aposentado, mas continua ativo como o unvestigador musical. (Fez no passado dia 12 de outubro, très quartos de século;
o nosso blogue ainda vai a tempo de lhe desejar boa continuação da caminhada pela picada da vida, 
com a proteção dos nossos bons irãs
da Tabanca Grande.)

 O Adriano Lima, por sua vez,  vive em Tomar, é cor inf reformado, escritor e colaborador do blogue Praia do Bote e do jornal Expresso das Ilhas.  Deixou a sua terra natal em 1963 e só lá voltou 40 anos depois.

Espantosa coincidêncai, o Carlos acaba por revelar que viveram amos, nos anos 50, na mesma rua no Mindelo, Rua de Papa Fria, depois  Rua dos Descobrimentos,  atualmente, Rua António Aurélio Gonçalves,  tio do Carlos (O Aurélio Gonçalves, "Nhô Roque", 1901-1984,  é uma figura de referência da cidade do Mindelo e da cultura de Cabo Verde.)

Mensagem de Carlos Filipe Gonçalves

Data - quarta, 12/11/2025, 12:29 

Olá, Bom dia,

Desculpas, pelo atraso na resposta…. Olha, fiquei entusiasmadíssimo com os dois emails recebidos, sobre a visita a Mindelo do I Cruzeiro de Férias, em 1935. Mas, cliquei em todos os links, do «I Cruzeiro» que me enviaste…. Mas não tenho acesso! Talvez, porque o ficheiro é volumoso, deve levar um bom tempo para carregar… vou, pois, experimentar, outra vez, com mais vagar.

Mas, despertou-me logo a curiosidade para pesquisar num jornal daquela época, «Notícias de Cabo Verde»,  que publicou/publicava muitas notícias da vida social na cidade do Mindelo, sobretudo bailes e actuações de orquestras… fui ao meu arquivo, mas… não encontrei nada sobre o baile em 1935 no átrio do Liceu Infante D. Henrique! 


Carlos Filipe Gonçalves

 Mas devo ir depois ao Arquivo Histórico, verificar, pois o que tenho, são pesquisas específicas sobre músicos e orquestras que constam, do meu livro “Kab Verd Band AZ Música & Tradições” (2023). 

Naquela época, um cruzeiro deste tipo era sempre notícia, por isso, deve lá estar…, mas, faltam muitos números e só existe a colecção completa na Biblioteca Municipal de S. Vicente… e eu estou na Praia. Mas irei tentar. 

Olha, o Liceu Infante D. Henrique mudou de nome e passou a ser o Liceu Gil Eanes, no edifício onde eu estudei até o 4.º ano em 1967… Depois passou para um novo edifício mais moderno e construído de raiz… mudou de nome mais uma vez, depois do 25 de Abril de 1974 para Ludgero Lima, um antigo porteiro no tempo do tal edifício em 1967… Coisas da «revolução»!

Por falar da Guiné, ainda não enviei o que escrevi sobre «o depois da Guerra» porque, é «terrível» o que aconteceu, e eles estão agora em eleições…. Também tenho estado a testar «reacções» aos meus textos junto do pessoal amigo da Guiné, mas, infelizmente, não correspondem…

Desejos de vida e saúde.

Forte abraço
Carlos Filipe Gonçalves
Jornalista Aposentado

2. Resposta do editor LG:

Data - quarta, 12/11, 14:50 (há 3 dias)
Assunto  - Mindelo 1935

Obrigado, Carlos: o link é este:


http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=1378&type=Video


Atenção: o url  deve começar começa por http (e nunca por https).

O sítio é seguro. o documentário merece ser conhecido, não entrou na época no circuito comercial... (Ainda não descobri as razões, tanto mais que o Secretariado Nacional de Porpaganda entrou com 150 contos, hoje um milhão de euros, de subsídioa0o cruzeiro).

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2025/11/guine-6174-p27386-1-cruzeiro-de-ferias.html


Vou publicar a Parte II sobre o Mindelo (incluindo a cena do baile noliceu Infante Dom Henrique) (**).. A visita ao Mindelo e ao interior da ilha de São Vicente), Ribeira de Julião o Adriano Lima) deve ter sido de menos de um dia... 

Depois o "Moçanbique" seguiu para a Praia... Não sei as datas precisas. O Vapor partiu a 10 de agosto de 1935 (e regressou a 3 ou 4 de outubro).

São cerca de 15 minutos (preciosos) dedicados a Cabo Verde (Mindelo e Praia) e outro tanto à Guiné (Bissau e Bolama).. Vais gostar de ver...Ainda náo tinhas nascido...Nerm eu. Nem o Adriano Lima-.

Vamos falando. Agora estou com pressa. Luis

PS - Dou conhecimento a outros "mindelenses". E tu, divulga.


3. Resposta do  Carlos Filipe Gonçalves:

Data sexta, 14/11, 11:50 (há 1 dia)

Olá, caro amigo e camarada:

Antes de mais, Saúde e Boa disposição.

Respondendo à tua pergunta, claro que conheço o Adriano Lima, sou muito mais novo. Conheço e bem a família dele, a mãe, os irmãos… sobrinhos… moravam na minha rua, nos velhos tempos, Rua de Papa Fria, depois Rua dos Descobrimentos, actualmente, Rua António Aurélio Gonçalves, o meu tio que me criou desde os 3 anos de idade…. E saí da nossa casa, naquela rua, aos 21 anos, em meados de dezembro, rumo ao CISMI em Tavira e nunca mais voltei.

Nos seus comentários, Adriano Lima, cita pessoas, que eu conheci, claro muito mais velhas, na época eu era um miúdo dos 7 a 8 anos: Manuel de Matos, era o dono da Fábrica Favorita que fazia pão e bolachas, Julio Bento Oliveira que foi Presidente da Camara de S. Vicente até ser substituído pelo escritor Teixeira de Sousa…


Quanto aos músicos, B.Léza, não o conheci, mas lembro do dia do falecimento, tinha eu, os meus 7 anos em Julho de 1958… fiquei sozinho em casa, pois toda a gente foi ao funeral… Mochim d'Monte e o Manuel Querena, ambos violinistas, bem com o Xavier da Cruz B.Leza, constam do meu livro «Kab Verd Band AZ Música & Tradições2 (2023) (vd. capa do livro, à esquerda).


Interessante, as recordações do Adriano Lima, pois podem servir para um texto explicativo da «banda sonora» do documentário, o que ajuda a compreender e situar as imagens…. 

Olha, ainda nos anos de 1950 na minha infância, os miúdos ainda andavam nús pelas ruas, ou perto da casa… e todos nós andávamos descalços… E na praça da cidade, onde tocava a Banda Municipal aos domingos, era proibida a entrada daqueles que ainda andavam descalços… e há muitas anedotas a respeito… a polícia, fiscalizava… Enfim, pata te dizer, só entramos na «idade moderna» depois de  1960… Eu já não já não apanhei os miúdos que mergulhavam para apanhar moedas, mas ouvi dizer

A terminar desejos como sempre, de Vida e Saúde para todos nós.

Forte Abraço
Carlos Filipe Gonçalves
___________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 16 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27429: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (14): a dupla "sodade", de Manuel Lema Santos (1942-2025) e de Cesária Évora, "Cize (1941-2011)

(**) Vd. poste de 13 de novembro de4 2025 Guiné 61/74 - P27416: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (12): o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente: Mindelo, agosto de 1935 - II ( e última) Parte

domingo, 16 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27429: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (14): a dupla "sodade", de Manuel Lema Santos (1942-2025) e de Cesária Évora, "Cize (1941-2011)


Foto nº 1 > Cabo Verde > Sáo Vicente > Mindelo> c. 16/17/18 de Março de 1968 > Cesária Évora, aos 26 anos. Festa privada para os cadetes do 11º CFORN, de visita ao Mindelo.


Foto nº 2 >Cabo Verde > Sáo Vicente > Mindelo> c. 16/17/18 de Março de 1968 >  Atuação de Cesária Évora, "Cize", para os cadetes do 11º CFORN (Curso de Formaçáo de Oficiais da Reserva Naval). Já cantava descalça.


Foto nº 3 >Cabo Verde > Sáo Vicente > Mindelo> c. 16/17/18 de Março de 1968 >   A "Cize" com os seus músicos.



Foto nº 4 >Cabo Verde > São  Vicente > Mindelo> c. 16/17/18 de Março de 1968 > Com Cesária Évora, então com 26 anos. Da esquerda para a direita, Henrique Oliveira Pires, António Campos Teixeira, José Manuel Vieira de Sá e José António Trindade Leitão, todos do 11.º CFORN (Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval)

Fotos (e legendas): ©. Manuel Lema Santos  (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Manuel Lema Santos (1942-2025).  Foto de LG (2012).

1. O nosso camarada Manuel Lema Santos (1942-2025), que hoje se despede da Terra da Alegria (*), era um apaixonado por Cabo Verde, a sua gente e a sua música, nomeadamente, a da "diva dos pés descalços",  Cesária Évora (1941-2011).  Essa era uma faceta que eu ignorava completamente.

Tinha família em Cabo Verde, pelo lado da mãe das suas filhas, sobrinha do poeta Jorge Barbosa (1902-1971). E ele próprio tem doces memórias daquela terra, como se pode ler nestes excertos de dois postes que publicou no seu blogue, "Reserva Naval", em 2018. 

São também uma genuína e sincera homenagem à grande cantora e mulher grande do Mindelo e um tributo à nossa Marinha e às guarnições das LFG - Lanchas de Fiscalização Grande que, durante anos, ali aportaram, vindas da Guiné, para trabalhos de reparação e manutenção. É uma homenagem a Cabo Verde, nos 50 anos da sua independência. E é sobretudo uma homenagem a um camarada da Reserva Nacional  que a morte, aos 83 anos, vem privar do nosso convívio.

Excertos de Blogue Reserva Naval > 28 de setembro de 2018 > Cabo Verde, 1968 - Cesária Évora com a Reserva Naval no Mindelo 

(...) Também como outros camaradas, cadete da Reserva Naval, incógnito, tive apenas um primeiro contacto efêmero com as gentes, hábitos e música de Cabo Verde, no decorrer da viagem de instrução do 8.º CEORN – Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, efectuado nas fragatas «Diogo Cão» e «Corte Real» que, na segunda quinzena de Abril de 1966, aportaram àquelas ilhas. Eram comandadas, respectivamente, pelos CFR Peixoto Correia e CFR Pinheiro de Azevedo, vindo este último a exercer mais tarde as funções de Primeiro-Ministro, após o 25 de Abril.

Era tradicional organizarem-se festas, convívios ou recepções por ocasião da visita de navios da Marinha Portuguesa a Cabo Verde. Recordo esses momentos quer na ilha de S.Vicente, no Grémio do Mindelo,  quer na ilha de Santiago, na cidade da Praia, com visitas guiadas às ilhas a que não faltou uma passagem pelo Tarrafal.

Mais tarde, no decorrer dos anos de 1966 a 1968, voltei ali nas deslocações que, aproximadamente de seis em seis meses, a LFG «Orion», tal como todas as outras lanchas do mesmo tipo, faziam da Guiné a Cabo Verde, por imposição de trabalhos de conservação e manutenção nos estaleiros navais da ilha de S. Vicente.

Quando ali aportavam mantinham-se ali estacionadas cerca de um mês em cada uma das vezes que o faziam. Então, já casado e com família próxima ali estabelecida, sempre fui naquelas casas recebido e tratado com carinho e atenção especiais que aqui gratamente recordo e, entre guarnição e familiares ou amigos, nunca me senti acossado por qualquer sentimento de solidão ou insularidade.

Tudo fez parte de uma etapa da minha vida de que recordo, entre muitas outras pessoas, um tio da mãe das minhas filhas, o poeta Jorge Barbosa cujo nome mais tarde foi atribuído à Escola Secundária do Mindelo, e um sem número de familiares e amigos que partilharam comigo mesa e convívio.

Na nostalgia de quem lembra de forma gratificante estas memórias, ficaram na “sodade di nha tempo ido” as sempre eternas mornas e coladeras que Cesária Évora tão bem interpretou e legou como herança cultural de um Povo. Algumas gravações, sempre escassas, guardo-as há muito comigo.

Como outros cursos, também o 11.º CFORN – Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, em 1968, ali rumou na viagem de instrução de final de curso, nas mesmas Fragatas «Diogo Cão» e «Corte Real», desta vez comandadas respectivamente pelos CFR Eurico Serradas Duarte e CFR Mário Dias Martins. 

Teve lugar entre os dias 4 e 29 de Março de 1968, saindo de Lisboa e aportando a Ponta Delgada, Angra do Heroísmo, Horta, S. Vicente de Cabo Verde, Funchal e Porto Santo, antes de entrar de novo em Lisboa.

Tendo Cesária Évora nascido em 1941, no mês de Agosto, em Março de 1968 contava ainda 26 anos. A partir da chegada a Lisboa no dia 29 daquele mês, vamos ter em conta que no regresso da viagem de instrução as fragatas não foram a Porto Santo. Rumaram directamente para Lisboa, dois dias de viagem, com saída do Funchal num final de tarde.

 Fazendo contas "às arrecuas",  concluir-se-á que a saída do Funchal se efectuou no dia 27. Deduzindo o tempo de permanência na Madeira de 2 a 3 dias e mais outros 3 a 4 para ali chegarem de Cabo Verde, ficará o dia 19 de Março como provável dia de saída de S. Vicente.

Sem a pretensão de total rigor, quer na data quer na informação, nos dois ou três dias anteriores, terá decorrido uma festa-convívio que incluiu a actuação de Cesária Évora e de alguns elementos que, com "Cize", formavam o conjunto musical que a acompanhava.

Ainda que com meios empíricos, improvisados na hora, a sessão foi gravada, como é visível numa das fotos (a nº 1), mas da sua guarda e eventual conservação no tempo nada se sabe de concreto. Muito provavelmente, perdurará ainda esquecida num baú de recordações pertencente a algum dos muitos participantes na viagem.

Depois da chegada a Lisboa, do Juramento de Bandeira daquele 11.º CFORN e já como oficiais da Reserva Naval:

  • Henrique Oliveira Pires foi destacado para a Guiné como comandante da LFP «Canopus»;
  • António Campos Teixeira,  para o Grupo n.º 1 de Escolas da Armada:
  •  José Manuel Vieira de Sá,  para Angola como comandante da LFP «Fomalhaut»;
  • e José António da Trindade Leitão, para o Grupo n.º 2 de Escolas da Armada.

Como curiosidade adicional, foi o último ano em que aquelas duas unidades navais efectuaram viagens de instrução a Cabo Verde. A Fragata «Diogo Cão» foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 21Out68 e Fragata  «Corte Real» em 19Nov68.

Fontes:
Texto, fotos de arquivo, edição e arranjo de imagem do autor do blogue com fotos cedidas por elementos do 11.º CFORN


Manuel Lema Santos
1º Ten RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto


Excertos de Blogue Reserva Naval > 24 de setembro de 2018 >  Cabo Verde, Mindelo - Cesária Évora, "Cize", desaparecimento aos 70 anos.



Cesária Évora (1941-2011)


(...) 

Nascida no Mindelo a 27 de Agosto de 1941, Cesária Évora desde muito cedo que encarnou o espírito da genuína música tradicional das ilhas cabo-verdianas.

A afinidade com o Mar, o Mindelo na ilha de S.Vicente e as inúmeras arribadas de navios àquele porto transformaram muitos marinheiros em testemunhos desse talento mais que cinquentenário, sempre manifestado de forma singela, popular e simpática, mas arrebatadoramente livre numa expressão melancólica e magoada.

Mindelo, as noites de fresca aragem marítima, os banhos madrugada dentro na Baía das Gatas, as idas com os mergulhadores apanhar lagostas, o convívio com um povo culto, são e alegre, as manhãs na praia da Matiota e tantas vivências mais, foram retemperadoras para muitos "marujos" que, vindos da Guiné, aportavam ao cais de S. Vicente para fabricos, integrados nas guarnições das LFG-Lanchas de Fiscalização Grandes.

Também muitos Oficiais, Sargentos e Praças, quer dos Quadros Permanentes quer da Reserva Naval, que ali prestaram serviço ou em viagem de instrução, em unidades navais ainda cadetes, a quem tantas vezes foi dada a oportunidade de partilha daquele fraterno ambiente de convívio, participam certamente deste sentimento, já que Cesária Évora por diversas vezes actuou de forma quase privada, “a pedido”, 
com a simplicidade que se lhe conhecia.

Naquele dia de Dezembro  (**) ficaram especialmente tristes todos os que estiveram em Cabo Verde, tenha sido numa fugaz passagem ou em mais prolongadas estadas. Toda a força e vida de Cesária Évora, expressa em anos de embaixadora mundial da morna e diva dos pés descalços de Cabo Verde não foi suficiente para a manter entre nós.

De nada valeu o apoio médico, carinho de familiares, amigos e admiradores. Nascida no Mindelo a 27 de agosto de 1941, deixou o nosso convívio com 70 anos.

Ficou mais pobre Cabo Verde (***), privado de um património histórico cultural e musical de eleição. Mesmo todos os que, como nós, com ela conviveram e tiveram o privilégio de partilhar a sua presença e voz ao vivo, mesmo que só pontualmente, sentiram a perda.

Cize, como era conhecida, ficará para sempre entre nós, recordada nas mornas coadas entre memórias em cálidas noites de Cabo Verde e do Mindelo, do Grémio à Baía da Gatas, num talento reconhecido mundialmente ao mais elevado nível de consagração.

E que saudade... (****)

Manuel Lema Santos
1º Ten RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, edição e numeração das imagens: LG. O MLS náo seguia o acordo ortográfico em vigor. Respeitámos a sua vontade.)

___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 15 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27427: In Memoriam (560): Manuel Lema Santos (1942 - 2025) , ex-1º tenente da Reserva Naval, 1965-1972; ex-Imediato no NRP Orion, Guiné, 1966/68... O velório é amanhã ,dia 16, das 10h00 às 17h30, no Centro Funerário de Cascais

(**) A Cize morreu a 17 de dezembro de 2011, aos 70 anos, na terra que a viu nascer.

(***) Último poste da série > 15 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27424: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (13): Mindelo, agosto de 1935: o que mostra e o que omite o filme de San Payo, de 1936 ("1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente") - Comentários -. ParteI (Adriano Lima, cor inf ref)

(****) A escolha deste tema é do próprio MLS:  Ver aqui a letra em crioulo.

Sodade

Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Es kaminhu pa Santumé

(bis)

Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau
Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau

Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Es kaminhu pa Santumé

(bis)

Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau
Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau

Si bo skrevê-m, N ta skrevê-be
Si bo skesê-m, N ta skesê-be ate dia ki bo voltá
Si bo skrevê-m, N ta skrevê-be
Si bo skesê-m, N ta skesê-be ate dia ki bo voltá

Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau
Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau

(bis)

Composição: Amândio Cabral / Louis Morais.

Fonte: Com a devida vénia, Letras

sábado, 15 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27424: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (13): Mindelo, agosto de 1935: o que mostra e o que omite o filme de San Payo, de 1936 ("1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente") - Comentários -. ParteI (Adriano Lima, cor inf ref)



Cabo Verde > São Vicente > Mindelo > c. 1943 > A cidade, a baía do Porto Grande e o Monte Cara ao fundo.  Ao centro,  em segundo plano, o edifício de maior volumetria é o Liceu Gil Eanes (Infante Dom Hienrique, até 1937), por onde passou a elite do Mindelo e onde estudou Amílcar Cabral (que ali completou o 7º ano do liceu, em 1944, seguindo depois para Lisboa onde se licenciou em engenharia agronómica, no Instituto Superior de Agronomia
). Mas por lá passaram também os nossos camaradas Adriano Lima e Carlos Filipe Gonçalves, que agora se reencontram através do nosso blogue. E viveram na mesma rua! O Adriano Lima só voltou a sua terra 40 anos depois. E o Carlos vive ha muito na Praia (desde que regressou da Guiné -Bissau em 1975).

Cortesia de Adriano Miranda Lima / Blogue Praia de Bote (2012). Informação complementar de Adriano Miranda Lima: Foto de origem desconhecida mas que parece ser da Foto Melo ou do José Vitória. Legenda: LG.



Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Outubro de 1941 > "O belo porto de mar de São Vicente; ao centro o ilhéu que se confunde com um barco [o ilhéu dos Pássaros]"... Foto (e legenda) do álbum de Luís Henriques, ex-1º cabo at inf, 3ª Companhia do 1º Batalhão do RI5, unidade mais tarde integrada no RI 23 (São Vicente, Cabo Verde), 1941/43). Origem: provavelmente Foto Melo.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2020). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.




1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Agosto de 1935 > O jovem professor Marcello Caetano, diretor cultural do Cruzeiro, discursando na câmara municipal. Visto de perfil, à esquerda. Ao meio, o fundador dos Sokols de Cabo Verde, Júlio Bento Oliveira (1905-1984), parente do Adriano Lima. Está de farda branca (a de comandante dos Sokols).





 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Agosto de 1935 > A miudagem disputando as moedas deitadas para o meio da rua pelos turistas do "Moçambique"... Um espectáculo degradante, aos olhos de hoje, mas que fazia parte do "folclore" de "Soncent". A ilha, do Barlavento, a segunda mais populosa do arquipélago, continua a perder hoje o concurso dos seus melhores filhos para a Praia (a capital política) e para emigração. Apesar do desenvolmento socioeconómico da ilha e do resto do arquipélago.

Cortesia de Cinemateca Digital, documentário "I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", realizado em 1936 por San Payo. Disponível aqui:

http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=1378&type=Video


(Seleção e edição de imagens, numeração, legendagem, revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)

1. Comentários, por email, aos postes P27409 e P27416 (*), enviados por Adriano Lima  (cor inf ref, membro da Tabanca Grande nº 560, desde 2/12/2012; natural de Mindelo, Ilha de Sáo Vicente, Cabo Verde, reside em Tomar; fez comissões de serviço em Angola e Moçambique):

Data - quarta, 12/11/2025, 22:58 

Caro Luís.

Agradeço ter sido um dos destinatários deste mail.

Não respondi mais cedo porque andei a tentar abrir o filme, coisa que me escapava de todo. Só agora o consegui, mas sem o respectivo som. Tentei de todas as formas, mas sem sucesso.

Mas, vá lá, vi o filme. Quanto aos músicos, não consigo identificar nenhum deles. Foi pena que a ausência de som me tenha impedido de ao menos ouvir as músicas tocadas.

Abraço amigo.
Adriano

2. Resposta do editor LG:

Data - 13/11/2025, 09:42

Adriano, é mesmo "sem som". Os documentários na época não tinham som . O som síncrono ainda era tecnicamente complicado.

Olha, divulga pela Praia do Bote. Um abraço para o  Joaquim Saial e colaboradores. Ab, Luís
PS. - Descobri um texto teu,  fabuloso,  sobre a Fazenda Tentativa, Angola. Vou cita-lo mais a frente.

3. Novo comentário Adriano Lima: 

Data - 13/11/2025, 17:01 

Luís, boa tarde.

Sim, desconfiava que o filme não tinha som, mas precisava confirmar. Vale pelas imagens e pelo estilo narrativo, que nos retratam o Estado Novo na sua genuinidade. A visita destes excursionistas foi uma decisão simpática e compreensível, exemplo que estava longe do pensamento de Salazar, que nunca pôs os pés no Ultramar.

Os meus olhos centraram-se na miséria bem patente nos jovens e crianças com vestes esfarrapadas e descalças, com os miúdos mais novos completamente nus, em disputa para apanhar umas moedas que os visitantes lhes terão atirado junto ao Mercado Municipal. 

Claro que 1935 estava ainda sob os efeitos da crise mundial de 1929, que afectou drasticamente todo o mundo, mesmo os países ricos. Mas era endémica a pobreza em Cabo Verde, pois lembro-me de ver na minha infância quadros idênticos ao observado, com crianças (rapazes) completamente nuas nos atredores de Mindelo. 

Mais tarde, já na minha adolescência/juventude, o panorama melhorou um pouco, pois crianças nuas eram já raras. Em todo o caso, bem antes do meu tempo as autoridades terão proibido a ida de crianças nuas à cidade, que em crioulo se diz "morada". 

No filme vêem-se também miúdos desnudados em botes, que asssediavam os navios que chegavam. Era hábito atirar moedas para o mar para eles as irem apanhar no fundo. Desde muito cedo faziam pela vida no meio da baía.

As coisas mudaram bastante e hoje, aliás desde há muito, e já não se vêem pessoas com roupas rotas ou remendadas ou descalças.


Francisco Xavier da Criuz
(B.Leza) (1905-1958)

Voltei a mirar os músicos e não consegui reconhecer nenhum (eu só nasceria 10 anos depois deste acontecimento). Era já célebre o músico e compositor B. Leza (Francisco Xavier da Cruz), que em 1935 tinha 30 anos, mas não sei se é alguns dos músicos. À época também eram já célebres o Mochim d' Monte e o Manuel Querena, ambos violinistas. Serão alguns dos que estão no filme? O B. Leza é este da foto (à direita).

Ah, no filme reconheço o que foi o fundador dos Sokols de Cabo Verde, Júlio Bento Oliveira, meu parente. Está de farda branca (a de comandante dos Sokols) e ao lado de Marcelo Caetano quando este discursa na recepção da Câmara. 

Creio ter também identificado o industrial Manuel de Matos 
na recepção dada aos visitantes numa propriedade rural num lugar chamado Ribeira do Julião.
 
Já não me lembrava desse texto, "Sentimentos Retroactivos", que escrevi em 2016. Obrigado pela tua apreciação.

Vou enviar o mail ao Joaquim Saial.
Abraço amigo

Adriano

(Revisão / fixação de texto,negritos: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Últimos postes da série :

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27416: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (12): o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente: Mindelo, agosto de 1935 - II ( e última) Parte



Fotograma nº  17 e 17A > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > O grupo musical que animou o bailo liceu Infante Dom Henrique. São seis jovens midelenses (presume-se): duas rebecas, duas violas, um cavaquinho, percussão... 


Fotograma nº 18  > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Espero que o nosso grande especialista em música de Cabo Verde, o mindelense Carlos Filipe Gonçalves,nos ajude a completar as legendas...


Fotograma nº 19  > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 >  Interior do liceu Infante Dom Henrique (Gil Eanes, a partir de 1938)... Uma das figuras de referência deste importantíssimo estabelecimento de ensino e polo de desenvolvimento cultural foi o professor e escritor Baltazar Lopes 
 da Silva ( São Nicolau, 1907 — Lisboa, 1989). Fou um dos fundadores, em 1936.  da revista "Claridade". E é autor de uma das obras-primas da literatúra em língua portuguesa, "Chiquinho" (1947).




Fotograma nº 20 e 20A > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Agosto de 1935 > Damas e cavalheiros dançando a rigor a morna (1)


Fotograma nº 21 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Fachada do mercado municipal que é dos anos 20


Fotograma nº 22 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Monumento a Sacadura Cabral e Gago Coutinho (1922) (1)



Fotograma nº 23 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 >Monumento a Sacadura Cabral e Gago Coutinho (1922) (2)

 

Fotograma nº 24 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Uma vendedor5a de rua com a bnandeirinha portuguesa.



Fotograma nº 25 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Dois polícias locais junto ao quiosque da Praça Nova



Fotograma nº 26 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Aspeto parcial da Praça Nova.. Ao fundo o coreto.


Fotograma nº 27 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Outra vista da Baía Grande e, ao fundo, o sempre presente Monte Cara.




Fotograma nº 28 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Uma ida ao interior, para visitar uma pequena exploração agrícola apresentada no filme como um verdadeiro oásis


Fotograma nº 29 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Marecllo Caetano em primeiro plano, vestido a rigor, de fato completo... Visita ao "oásis"... As senhoras ficaram na cidade a tomar chá... SEgundo oo nosso camarada mindelense Adriano Lima o sítio é na Ribeira do Julião.



Fotograma nº 30 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > O "ponteiro", diríamos na Guiné.. O domo do "oásis#"



Fotograma nº 31 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >  Ribeira do Julião > Agosto de 1935 > Jovens da comitiva, tomando notas e fotografando...Dois deles envergam chapéus colonais... O preto parece que estava na moda: vejam-se as camisas (negras ou pretas) e as calças (brancas) dos jovens do lado direito. 


Cortesia de Cinemateca Digital, documentário "I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", realizado em 1936 por San Payo. Disponível aqui:


(Seleção e edição de imagens, numeração, legendagem, revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)


1. Estas imagens foram obtidas de fotogramas do filme do realizador (e fotógrafo)  San Payo (Por, 1936, 91' 13'', em formato 35 mm, a preto & branco, sem som). O detentor dos direitos é a Cinemateca Portuguesa. Mas o filme já é, presumo, do domínio público. E merece ser conhecido dos nossos amigos e camaradas mindelenses. 

E não só. Merece ser conhecido de todos nós, amigos e camaradas da Guiné. Para já ajudam- nos a seguir a seguir a rota deste l Cruzeiro de Férias as Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola).

Sobre a ilha de São Vicente e em especial o Mindelo, gostariamos que os nossos amigos e camaradas que são naturais do Mindelo ou que lá vivem ou que conhecem o Mindelo, se pronunciassem: o Carlos Gilipe Gonçalves. o Adriano Lima, o Manuel Amante da Rosa, a Lia Medina, o Nelson Herbert... (São membros da Tabanca Grande.)

O filme tem 15 minutos dedicados a Cabo Verde, São Vicente e Santiago. Durante algumas horas os nossos "excursionistas" (sic) visitaram o Mindelo (de 7 a 15') e a Praia (de 15' a 23'), com breves incursões pelo interior.

Selecionámos alguns fotogramas desta visita de cerca de 200 "turistas coloniais" (mais de 1/3 eram jovens estudantes, finalistas do liceu). O diretor cultural do cruzeiro era o então professor Marcello Caetano, que viria a ser, em plena II Guerra Mundial, o comissário nacional da Mocidade Portugueesa (1940-1944) e a seguir Ministro das Colónias (1944-1947), e já na altura apontado como delfim de Salazar.

Nunca fui ao Mindelo. Fiz apenas uma paragem técnica, no avião da TAP, na ilha do Sal.  Tenho pena. E sobretudo penitencio-me de nunca ter lá levado o meu pai, expedicionário em 1941/43, Luís Henriques (1920-2012). É também em homenagem a ele e ao seu amor a "Soncent" que edito estas imagens, que me deram uma trabalheira a visionar, selecionar, editar, legendar...

PS - Vejo, pela consulta do "Diário de Lisboa", que o paquete "Moçambique" regressou a Lisboa, em 3/10/1935. É, portanto,a data do términmus do cruzeiro, um sucesso segundoos seus organizadores.

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