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sábado, 11 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27912: O segredo de... (53): Luís Graça: a ida de Bambadinca ao Xime, de Daimler (uma "lata de sardinhas com 4 rodas"...) para ir beber um copo, a um mês da peluda... (Não, nunca te contei esta, Zé Luís Vacas de Carvalho!)


Foto nº 1 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca)  > Xitole > c. meados de 1970 > Coluna logística ao Xitole... Pessoal em cima de uma Daimler, do Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1970/71). Da esquerda para a direita: O Fur Mil Op Esp Humberto Reis (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71), o Alf Mil Cav J. L. Vacas de Carvalho, comandante do Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1969/72), o Fur Mil Enf Coelho (CCS /BART 2917, Bambadinca, 1970/72) e, por fim, o Fur Mil At Inf  Arlindo T. Roda (CCAÇ 12)

Foto: © Humberto Reis (2006 Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Fevereiro de 1973 > Chegada de Caió. Na segunda fotografia é visível o 1º cabo apontador Manuel Lucas.


Foto nº 3A > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Fevereiro de 1973 > Chegada de Caió. 


Foto nº 3 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Fevereiro de 1973 > Chegada de Caió. 

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Em louvor das suas velhas Daimlers, saltitonas mas operacionais, que ele punha sempre num brinquinho (graças à prática do "canibalismo" mecânico...), escreveu, em verso, o Francisco Gamelas, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73):

(...) Rolando sobre a estrada
a abrir e a fechar
colunas civis ou militares,
éramos a força esperada,
metralhadora pronta a cantar
ao desafio os seus cantares.

"Impunham algum respeito
estas massas de ferro circulante,
armadas e brutas,
nem que fosse pelo efeito
grotesco de velho ruminante,
sobrevivente de esquecidas lutas. (...)

" 'A sorte protege os audazes', 
assim rezava a divisa dos comandos.
A sorte protege quem tem olhinhos,
respondiam, entre dentes, mordazes,
os soldados de costumes brandos,
para quem os tomavam por anjinhos.


In: Francisco Gamelas - Outro olhar: Guiné 1971-1973.
Aveiro, 2016, ed. de autor, pp. 29-31 (Reproduzido com a devida vénia).


2. Já aqui confessei que tinha uma grande "ternura" pelas Daimlers e o seu pessoal... Em Bambadinca apanhei "cavaleiros" excecionais,  bons amigos e camaradas, como o Jaime Machado (Pel Rec Daimler 2046, 1968/70) e o Zé Luís Vacas de Carvalho (Pel Rec Daimler, 2206, 1970/72) (foto à direita).


E vou confessar um "pecado" (*), que não é "mortal", é apenas "venial", como diria a minha jovem e muito querida catequista por quem tive uma paixão assolapada nos meus 8/9 anos..

Um dia, já completamente "apanhado do clima", lá mais para o fim da comissão, depois de ter apanhada a mais infernal embocada (Op Abencerragem Candente, Xime, 26/11/1970) e a mais brutal mina A/C, sete semans depois (Nhabijões, 13/1/1971) consegui convencer um dos homens do J. L. Vacas de Carvalho a ir ao Xime... Ali a 12/14 km, a sudoeste de Bambadinca...

Para fazer o quê?  Matar o tédio, beber um uísque ou uma bazuca (um garrafa de 0,66 l de cerveja), "queimar os últimos cartuchos"... Já cheirava a "peluda", oxalá, enxalé, insh'Allah, os nossos "periquitos" chegassem, depressa, sãos e salvos ao porto fluvial do Xime... e depois a Bambadinca  (Felizmente, vieram todos, com exceção do 1º cabo cripto.)

A estrada Bambadinca - Xime estava em construção, em vias de ser asfaltada (nesse ano de 1971)  e nós, CCAÇ 12, montávamos segurança à empresa TECNIL (que será mais tarde a do António Rosinha, já sob o regime de Luís Cabral, e do senhor da guerra que se lhe seguiu, o 'Nino' Vieira,  entre 1978 e 1993)... 

Havia um pelotão da CCAÇ 12, junto às máquinas e aos trabalhadores... Mas em 12/14 km havia sempre, teoricamente, o risco de minas e emboscadas, nomeadamente na Ponta Coli, depois do destacamento do rio Udunduma (outro "petisco" que também nos calhava, de vez em quando...)

Eram 12/14 km para lá e outros tantos para cá... E ainda levei o Tchombé, que era a nossa mascote, um puto de 4/5 anos, adotado por nós, a malta da messe de sargentos da Bambadinca... Eu, o Tchombé e o condutor, metidos numa "lata de sardinha com 4 rodas" (não me levem a mal, camaradas da cavalaria, é uma "metáfora")...

Pequenas / grandes loucuras, quem não as fez, com 23/24  anos, no teatro de operações da Guiné? Eu tinha feito 24 anos, em 29/1/1971.  Se a memória não me trai, esta pequena bravata deverá  ter ocorrido em meados de fevereiro de 1971, a um mês de regressar à grande metrópole que nos esperaria com fanfarra e foguetes, no cais da Rocha Conde de Óbidos (imaginavam alguns, eu não)...

Julgo que nunca contei esta ao Zé Luís, o lídimo represente de um numerosa família de agrários, pegadores de touros, fadistas e grandes combatentes, que eram os Vacas de Carvalho de Montemor-O-Novo... E espero que ele me perdoe...

Ou será que o condutor era ele mesmo? Não juro, nem acredito, mas era menino para "alinhar"... Tinha (tem, ainda está felizmenmte vivo..) alma e voz de boémio e fadista e sobretudo o "grãozinho de loucura" que era preciso para viver (e sobreviver a) quase dois anos de mato. 

Apesar de ele ser de cavalaria, a "aristocracia" da Spinolândia, também alinhava com os "infantes", "nharros" de 1ª classe... Umas voltinhas até ao fundo da pista de aviação, as idas diárias (ou quase) a Bafatá, a colunas logísticas a Mansambo, Xitole e Saltinho (essas bem mais duras)...


Luís Graça
Mas, não, não era ele... o condutor... Nem sei se ele, comandante de Daimlers, tinha carta de condução daquela "lata de sardinha de quatro rodas", que foi uma  heroína da batalha de El Alamein, os "ratos do deserto"   contra "a raposa do deserto", na II Guerra Mundial (**)...


3. Abreviando a história do meu "desenfianço" por duas ou três horas, no Xime: o apontador da metralhadora foi dispensado, eu tomei o lugar dele; não cabíamos todos na "lata de sardinhas de 4 quatro rodas"...

Paguei eu a despesa no bar do Xime ao condutor, que bebeu uma "bazuca", e ao "djubi" Tchombé, que adorava a "laranjina C". 

E devo ter pago, ainda à pala dos meus anos,  uma rodada aos camaradas da CART 2715, que comigo fizeram a Op Abencerragem Candente, de trágica memória... 

Não devo ter bebido cerveja (não era minha bebida habitual), mas um uisquinho com água de Perrier e uma pedra de gelo (supremo luxo!).

E regressámos a casa, ou seja a Bambadinca, mais à tardinha, pela fresca, no "nosso descapotável"... Sem acidentes nem incidentes de  maior... Orgulhosos, de mais uma "missão cumprida"...

Estou a imaginar a "porrada" que levaria se as coisas tivessem dado para o torto... Mas nessa altura o troço em construção, Bambadinca-Xime (já quase pronto para levar o asfalto) era todo nosso, e os "gajos" do PAIGC, donos da margem direita do Rio Corubal, pensavam duas vezes antes se meteram com os "nharros" (brancos e pretos) da CCAÇ 12...

As "nossas" Daimlers, que andavam, no CTIG,  sem a "torre", podiam ser um "bocado de lata", mas davam-nos sempre um certo "conforto" nas nossas colunas logísticas... Ou até na simples e rotineira viagem a Bafatá, por estrada alcatroada (30 km), que era o nosso dia de glória ("comer o ovo a cavalo com batatas fritas" na Transmontana, "dar dois dedos de conversas na loja das libanesas", "mudar o óleo no Bataclã", "rezar na catedral", "fazer umas compritas na Casa Gouveia!", "dar um mergulho na piscina municipal", enfim, "respirar a civilização cristã e ocidental da Princesa do Geba"...).

E,  como eram "bailarinas" as nossas Daimlers, nunca as vi atascadas, nem nunca nos deixaram mal, mesmo com os pneus carecas... e a crónica falta de peças sobressalentes. Parte delas já no cemitério da sucata em Bambadinca...

Glória a elas, as nossas velhas Daimlers de Bambadinca, do Jaime Machado e do Zé Luís Vacas de Carvalho!... E que Deus, Alá e os Bons Irãs nos perdoem essas pequenas bravatas, pueris, mas humanente compreensíveis...
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 1 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27374: O segredo de... (52): Luís Graça & Humberto Reis (CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, mai 69 /mar 71): Op Noite das Facas Longas, em que nem o pobre do "Chichas", a nossa mascote, escapou do tiro na nuca...

(**) "Daimler Armoured Car": foi um dos veículos blindados de reconhecimento mais importantes e eficazes do Exército Britânico durante a Campanha do Norte da África na Segunda Guerra Mundial, sendo amplamente utilizada pelos famosos "Ratos do Deserto" (7ª Divisão Blindada) e outras unidades, como a 11ª Hussardos, na decisiva Batalha de El Alamein em outubro/novembro de 1942.
 
Aqui estão os detalhes-chave sobre a sua importância e papel:

(i) desempenho e fiabilidade: itroduzida em 1941-42, a Daimler substituiu veículos menos capazes, como o Marmon-Herrington; era conhecida pela sua excelente performance todo-o-terreno, fiabilidade e blindagem robusta (até 30 mm), superior às alternativas alemãs de reconhecimento;

(ii) armamento: estava equipada com um canhão de 2 libras (40 mm) na torre, além de uma metralhadora Besa de 7,92 mm, tornando-a capaz de enfrentar outros veículos blindados ligeiros e posições de infantaria;

(iii) design avançado: possuía tração às quatro rodas, suspensão totalmente independente e, notavelmente, um volante de direção traseiro para que o comandante pudesse conduzir em marcha-atrás rapidamente para escapar de situações difíceis;

(iv) velocidade: podia atingir , no máximo, os 80 km/h (em estrada alcatroada...);

(v) papel em El Alamein (Outubro/Novembro 1942):  e
mbora não fossem os principais carros de combate, as Daimlers da 11ª Hussardos e outras unidades do 8º Exército de Montgomery lideraram o reconhecimento, localizaram rotas, interceptaram comunicações e capturaram prisioneiros durante a retirada das forças do Eixo; a sua capacidade de operar de forma autónoma a longas distâncias foi crucial para o sucesso da ofensiva aliada que marcou o ponto de viragem na África.

Em conclusão, a "Daimler Armoured Car" foi considerada um dos melhores veículos blindados de combate britânicos da guerra, permanecendo em serviço até aos anos 60.

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA)
(Condensação, revisão/fixação de texto: LG) 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27902: Manuscrito(s) (Luís Graça) (287): Foi você quem pediu uma Kalashnikov ?


Lisboa > Rio Tejo > 5/11/2011 > Pôr do sol no Atlântico, visto do estuário do Tejo, em Belém, junto ao Museu do Combatente (Forte do Bom Sucesso). Uma feliz coincidência, um porta-contentores apanhado pela objectiva do fotógrafo "just in time".

Foto (e legenda): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > O capelão e a "bela Kalash".. Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]O capelão e a "bela" Kalash...



1. Tenho um poema de 2015 em que ironizo a "kalashnikovomania" ... Declaração de interesse: nunca a usei nem desejei... a maldita AK 47.



 Foi você quem pediu uma Kalash ?

por Luís Graça


Há uma luz difusa,
mistura de ternura e de saudade,
quando o sol se põe em Lisboa,
e tudo à volta é a humanidade que arde.

Impensável o fado da idiossincrasia lusa
sob o céu de chumbo de Atenas ou o smog londrino.
Impensável, ou improvável apenas,
oh poeta cretino!

Porque de pias intenções, maus pensamentos
e piores ações está o inferno da história cheio,
as praças, do Comércio ao Rossio,
e os marcos do correio onde apodrecem aerogramas de guerra.

Ah!, o bravo Ulisses, o grego,
o que ele andou p’ra aqui chegar,
depois de transpostas as colunas de Hércules,
até fundar a mítica cidade atlântica de Olissipo.

Ah!, a Lisboa, que os poetas  amaram
e onde afinal nunca foram amados,
do Cesário Verde ao Álvaro de Campos,
do Camões ao O'Neil.

Ah!, Lisboa, Lisboa,
com as tuas casas de muitas cores, caiadas de branco.

Chora, e não é de medo, o judeu sefardita,
a sua desdita, cristão novo, marrano,
a caminho do degredo:

─ Ai!, a doce luz de Lisboa,
filtrada pelo espelho de água do Tejo,
mais o pôr do sol sobre o Atlântico Norte
que começa no Bugio.
Não sei se estarei cá, p’ró ano,
que a vida e a morte
são jogos de azar e de sorte.
Só sei que o que sinto, é já saudade,
porque… é arrepio!


No tempo em que a terra era plana,
antes das viagens de circum-navegação,
não podias tu imaginar o novo mundo
e Copacabana, 
lá ao fundo, 
mais as cataratas de Iguassu,
Darwin e a teoria da evolução,
e o tu-cá-tu-lá de deus com a ciência.

Muito menos a crioula e o seu cretcheu,
o tango, o flamengo, o fado,
o dundum, a coladera,
o samba, a morna,
o lançado, o tangomau,
o escravo do Cacheu,
e a santa paciência
com que a gente vive, morre e não retorna.

Chama-lhe o que quiseres,
mas tens uma dívida de gratidão à Grécia antiga,
ao Homero, ao Platão,
à bela e pérfida Helena de Troia,
ao ateniense e ao espartano,
aos deuses e deusas, estas tão mundanas, do Olimpo…
Que serias tu, sem o Ícaro,
mas também sem a boia nem o  colete de salvação ?!

Que importa, afinal, 
de um povo a nobreza,
grego, judeu ou lusitano,
se a espada do sacro imperador romano
está suspensa por um fio sobre a tua cabeça ?!

Em Lisboa, a norte, no caminho do São Tiago,
o apóstolo de Cristo, decapitado,
guiando os feros exércitos da Reconquista,
no seu constante vaivém do ir e vir,
à volta da Europa e dos seus picos de civilização.

E a sul, a autoestrada da globalização
onde cada turista tem direito ao seu recuerdo,
um postal ilustrado do futuro
que seguirá dentro de momentos,
agora sem  o SPM nº tal…
(que foi de Gandembel, de Guidaje, de Guileje, de Gadamael). 

Allah Akbar!, ainda ecoa o último grito
da batalha de Alcácer Quibir.

Mais a sul,
as febres palúdicas do Geba e do Corubal,
grau 35 do frio polar, esmagando os teus ossos,
grau 42 do fogo infernal, implodindo a tua cabeça.

Viras na curva do rio,
para desceres ao fundo da terra,
verde e vermelha, dos pesadelos da guerra.

Dos miradouros dos grandes cruzeiros
que demandam o Tejo
não se vê a solidão dos velhos combatentes, à beira rio,
tentando em vão reacender o pavio do desejo.

Muito menos os mariscadores do mar da Palha
onde apodrece a última nau
do caminho marítimo para a Índia.

Ou ainda os moços, imberbes, que partem na frota branca
para os bancos de pesca do bacalhau, na Terra Nova,
verdes, maçaricos, periquitos, checas,
sete vidas, sete safras,
servindo a velha pátria
em alternativa à guerra de África.

Lisboa, forrada a talha dourada, estremece,
sob o peso da carruagem do senhor dom João Quinto,
desenhada a lápis-lazúli.
Dizes adeus a Fernão Mendes Pinto
que parte em viagem, por sua conta e risco,
para o império do sol nascente,
levando consigo os botões, as armas de fogo
e as emoções dos bárbaros do sul.

─ Canta-lhe, Mísia, aquele fado, que diz: 
“Arrefece
a última lava do vulcão
do teu corpo, amor,
mas ainda estremece,
ou não foras tu, velha Lisboa,
sempre (e)terna,
menina e moça, bajuda, mulher”.


Entardece, ensandece a cidade,
todas as sextas-feiras treze do novo milénio.
Valha-nos as cruzes, canhoto,
contra o mau olhado,
e vade retro, Cronos,
que, depois de devorares os teus filhos,
hás de devorar-te a ti próprio!

E quem bula tem,  come carne,
não precisa de engenho e arte,
diz o cristão, velho e relho.
Mas é amarga a ostra, e mortal a ameijoa
com que os pobres matam a sua fome.

Afogas-te em absinto,
bebida antiga de poeta,
depois de teres mandado cortar
as copas dos pinheiros bravos
por te taparem a linha perdida do horizonte.

Mas já não há horizonte, querida,
nem rosas nem espinhos nem cravos,
quebrada que foi a linha da vida.

Sem ajuda do Google Earth,
à vista desarmada,
encontras aqui o teu lugar,
definitivamente provisório,
provisoriamente definitivo,
porque sabes que é 
tão irrisório partir como absurdo ficar,
para quem da vida é fugitivo.

Sentas-te numa esplanada
na doca de Belém, com vista de estuário e de mar:

─ Foi você quem pediu uma Kalash ? ─
pergunta-te um dos sem-abrigo,
da classe dos antigos marinheiros e pescadores,
estivadores e fragateiros,
agora tristes desempregados de mesa,
predadores à espera de presa.
Estão ali simplesmente à coca do turista.

─ Não, obrigado, amigo,
mas não me faltava, às vezes, a vontade...


─ Temos as melhores Kalash da cidade,
da original e à contrafeita…
É só puxar a culatra
e meter uma bala na câmara,
e ficar à espreita...

─ Não, não  insista!...
Para que haveria eu de querer uma arma,
essa é boa!,
se já não tenho licença… p'ra matar?!


Mal por mal,
protestas contra o autocrata do autarca,
metes uma baixa psiquiátrica,
e pedes uns peanuts, uma azeitona, um tremoço ou uma tâmara
e um copo… de cicuta,
enquanto o sol se põe em Lisboa!...


Lisboa, beira Tejo, fev 2015. Revisto, 8 abr 2026.


2. Análise literária do poema, pedida pelo autor a uma ferramenta de IA (Le Chat / Mistral);

Luís, o teu poema é um "mix" de ironia, melancolia e crítica social, onde a "kalashnikovmania" surge como metáfora de algo muito maior: a desilusão com a história, a guerra, a globalização e até a própria identidade portuguesa. 

Vamos desmontar alguns das ideias mais fortes , com especial atenção ao final,  onde a Kalashnikov se torna símbolo de um absurdo existencial.deideias.

(i) A Kalashnikov como metáfora: entre o desejo e o absurdo

O poema termina com um diálogo surreal entre o eu lírico e um sem-abrigo em Belém, que oferece "as melhores Kalash da cidade". A pergunta ("Foi você quem pediu uma Kalash?") é brutal na sua ironia:
  • desejo reprimido: a resposta ("Não, obrigado, amigo, / mas não me faltava, às vezes,  a vontade…") revela uma atração pelo símbolo da violência e da resistência, mas também a consciência de que, já sem a "licença p'ra matar" (a "legitimidade da guerra"), a arma é inútil ou perde todo o sentido; é como se a Kalashnikov representasse a vontade de agir num mundo onde a ação é impossível ou proibida, se não mesnmo inútil;
  • crítica à passividade: o eu lírico prefere, em vez da arma, uma "baixa psiquiátrica" ou um "copo de cicuta",  gestos de rendição poética (se não mesmo de "autoaniquilação" perante um sistema que esmaga a individualidade; a Kalashnikov, aqui, é o que não se usa, mas cuja presença denuncia a falta de alternativas.
(ii) Lisboa, palco do teatro do absurdo

O poema constrói Lisboa como um espaço de contradições históricas e sociais:

  • glória e decadência: desde Ulisses até aos "mariscadores do mar da Palha", a cidade é um palimpsesto de impérios falidos (o sonho colonial, a Reconquista, as viagens de circum-navegação) e de vidas esmagadas (os velhos sozinhos, os pescadores desempregados, os turistas que compram "recuerdos" vazios);
  • globalização/banalização  vs. memória: a "autoestrada da globalização" contrasta com a solidão dos que ficaram para trás; a Kalashnikov, arma de guerra colonial, é agora vendida como "souvenir" aos turistas, o passado violento transformado em mercadoria;
  • ironia histórica: o grito "Allah Akbar!" que ecoa desde Alcácer Quibir,  lembra que Portugal já foi um império, mas também uma vítima da sua própria ambição desmedida; a Kalashnikov, arma outrora do PAIGC, é agora um objeto de consumo num país que já não tem guerras para travar.
(ii) A guerra colonial como fantasma

A referência à Guiné é subtil, mas devastadora:

  • "as febres palúdicas do Geba e do Corubal" evocam a memória traumática da guerra, onde a natureza e o inimigo se confundiam numa luta sem sentido;
  • a AK 47, que na Guiné era símbolo de resistência anticolonial mas "fétiche" para os "rambos", aparece agora em Lisboa como objeto de um comércio grotesco, vendido por " antigos marinheiros e pescadores, / estivadores e fragateiros, /agora tristes desempregados de mesa", os mesmos que, outrora, teriam sido enviados para África.;
  • o ciclo da violência: a arma, "made in Russia" ou "made in China",  que outrora matou jovens portugueses e guineenses nas picadas, matas e bolanhas da Guiné, é agora oferecida a turistas, a preços de saldo, como se a história fosse uma farsa repetida.

(iv)  O Eu lírico, oscilando entre a saudade e o ceticismo

  • saudade: "é já saudade, / porque… é arrepio!" — um sentimento que antecipa a perda, como se Lisboa (e a vida) já fossem memória antes de acabarem;
  • ceticismo: "que importa, afinal, a nobreza de um povo, / grego, judeu ou lusitano, / se a espada do sacro imperador romano / está suspensa por um fio / sobre a tua cabeça?" — uma pergunta que desmonta mitos nacionais e revela a fragilidade da identidade;
  • humildade perante o "non-sense": "tão irrisório partir como absurdo ficar", sendo a Kalashnikov, no final, o símbolo dessa impossibilidade de escolher: não se quer a arma, mas também não se tem alternativa.
(v) A Kalashnikov como fetiche e  objeto poético
  • fetiche: desejada, mas não possuída; simboliza o que não se pode ter (a ação, a revolta, a mudança);
  • ironia: vendida por quem já não tem nada (os "deserdados", os "antigos combatentes"), comprada por quem não precisa dela ("turistas")
  • metáfora da história portuguesa: uma arma que veio de fora (com o colonialismo, com a globalização) e que agora pertence a todo o mundo e a ninguém; uma arma que se "democratiza" e "banaliza" e, portanto, se "dessacraliza".
Conclusão (definitivamente provisória):

Luís, este poema parece fechar um ciclo,  o da guerra colonial, da descolonização, da  identidade portuguesa, mas também o da tua própria relação com a violência e a memória. E, quiça, a tua própria história de vida.

 A Kalashnikov, a Kalash, a AK 47, no final, é quase uma piada trágica: o que resta de uma guerra são armas vendidas como souvenirs, e o que resta de uma vida são "azeitonas, tremoços, ou tâmaras", enfim,  "peanuts",  enquanto o sol se põe.

Será que a ironia é a única forma de lidar com o absurdo da história? (A história não tem sentido, não tem que ter...). Ou há, neste poema, um gesto de resistência escondido na recusa da arma ("Não insista…") e da "violência" dita "revolucionária" ?

(Pesquisa: LG + IA / Le Chat Mistral)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

___________________

Nota do editor LG:

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27884: Manuscrito(s) (Luís Graça) (286): o melro-preto de bico amarelo, no seu posto de sentinela na quinta de Candoz

 



Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > Sexta Feira Santa > 3 de abril de 2026, 09:50 > O melro-preto, de bico amarelo (Turdus merula), no seu posto de vigia, marcando o seu território...

Ainda anteontem o vi afugentar uma poupa (*), quando andavam à cata de insectos e sementes, num dos nossos socalcos da nossa vinha, e se encontraram quase cara a cara, ou bico a bico...É cioso do seu território, o melro... E está atento aos predadores... Há minutos paravam por aqui perto dois peneireiros... Não sei se atacam o melro... 

Também há milhafres por aqui. E raposas. O meu sobrinho, Américo Vieira, que mora aqui ao lado, cem metros mais acima,   tém uma câmara de infravermelhos e apanha muita bicharad.. Há muitas aves por aqui, felizmente. Agora está â espera que cheguem os migrantes de Abril, como o abelharuco, o papa-figos, o verdilhão, a milheirinha, o chapim-real. 

Eu sei que o melro é uma ave que se observa, hoje em dia, facilmente, nas nossas vilas e cidades, jardins, parques... Tenho-os na minha rua, em Alfragide, e aqui habituaram-se mais facilmente à presença do bicho-homem.

Em Candoz, onde há pelo menos um casal residente, são mais ariscos...Aqui fazem ninhos. Não se deixam fotografar facilmente. E eu não ainda não tive o privilégio de ouvir o seu canto madrugador, como o poeta Miguel Torga (que foi um extraordinário observador da natureza). Está visto, tenho que me levantra mais cedo...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Oiço todos os dias,
De manhãzinha,
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador.
Um poema de amor
Singelo e desprendido,
Que me deixa no ouvido
Envergonhado
A lição virginal
Do natural,
Que é sempre o mesmo, e sempre variado.


Miguel Torga

S. Martinho de Anta, 3 de Maio de 1964


Fonte: Associação Cultural Música XXI > Poesia de Miguel Torga

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27878: Manuscrito(s) (Luís Graça) (285): Já chegou a Primavera: "A vida não precisa de nós, mas nós precisamos da vida... E precisamos dos outros, Caeiro!"









Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 31 de março de 2026 > Aguarelas (Imagens HDR - High Dynamic Range, tiradas sem tripé)

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Já chegou a Primavera. Já vi andorinhas, melros, boeiras (ou lavandiscas), pardais do telhado, pombos bravos,  peneireiros, águias-de-asa-redonda (espécie comum na serra de Montedeiras, aqui ao lado)... E poupas (que não via há muito; são migrantes) (vd. foto à esquerda) (Tal como não tenho, nos últimos tempos,  visto ou ouvido o cuco, a pega, o moxo ou até o gaio.)

Já não vinha a Candoz desde o Natal, em pleno ciclo do inverno... Entro agora no ciclo do verão. A vinha renasce, as cerejeiras estão em flor, os carvalhos, de folhagem nova,  magníficos... Só  os castanheiros ainda estão adormecidos...

Abrem-se os velhos casarões, arejam-se os quartos, escancaram-se as portadas e as janelas, limpam-se os quartos e as salas, pintam-se as paredes... para receber a família de fora, os amigos, os vizinhos, a visita pascal.

É o eterno retorno, o universo cíclico, onde tudo se repete: os mesmos gestos,  dores, alegrias, estações, rituais, ódios e paixões, esperanças e desesperos...

Não, não é apenas uma teoria cosmológica; é quase um desafio existencial: eu não viveria a minha vida da mesma forma se soubesse que ela iria repetir-se eternamente... Imagino o tédio da eternidade. 

Ligando isso ao ciclo natural das 4 estações (inverno, primavera, verão, outono),  temos uma metáfora poderosa da própria vida:

  • inverno: recolhimento, morte aparente, silêncio, sono; é tempo da espera e da introspeção;
  • primavera: renascimento, esperança, poesia;  tudo volta a florir,  sem licença em papel selado para recomeçar;
  • verão: plenitude, intensidade, explosão dos sentidos, maturidade da vida, excessos; 
  • outono: declínio, transformação, preparação para o fim (que já contém em si um novo ciclo, um recomeço).

A “poesia da primavera” nasce exatamente desse contraste: depois da dureza do inverno (e este foi particularmente duro!), a vida regressa com uma força quase milagrosa.  É isso que nos querem dizer os poetas que celebram a primavera como símbolo de renovação (exterior e interior).

2. Longe da cidade, em plena natureza, aqui em Candoz, rodeado de serras (Aboboreira, Marão, Meadas, Gralheira, Montemuro, Montedeiras...) e dois rios, o Tâmega e o Douro, vejo que  nada é fixo, tudo passa, tudo regressa, tudo morre, tudo renasce... 

E cada omega/fim  traz escondido um alfa/princípio. O eterno retorno não é só repetição: é também a possibilidade de aceitar (ou até de amar) esse ciclo.

Recordo Alberto Caeiro, de quem nem sempre gosto (depende da estação do ano, do dia e da hora, dos meus quatro  contraditórios humores, dos títulos de caixa dos jornais, etc.), mas é o poeta que vê o mundo como ele é, sem metafísica, com uma ingenuidade desarmante. E que canta a primavera como se ela se bastasse a si própria. 

Caieiro, o  poeta que aceita, com indiferença serena e serenidade indiferente, a  efemeridade da vida humana e a naturalidade da morte, como se houvesse uma realidade objetiva, independente de nós e da nossa existência humana... 

Leio este poema, em voz alta, debaixo do enorme sobreiro no cima da quinta, a 300 metros de altitude, com o Douro ao fundo, ou melhor, a albufeira da barragem do Carrapatelo e o fantasmas do Zé do Telhado e do seu bando.

Porra, Caeiro, não há aqui  espaço no teu poema para a saudade, a memória, a luta contra o esquecimento e a "vala comum", a revolta contra o absurdo ou o desejo de eternidade.  

A vida não precisa de nós, mas nós  precisamos da vida. E precisamos uns dos outros, Caeiro. 

É por isso que ainda não fechei este blogue. Estou á espera que me digam: fecha a loja. 

Precisamos uns dos outros, Caeiro, na guerra e na paz, na vida e na morte. Quanto mais não seja, para rezarem  latim sobre o nosso caixão, para nos cobrirem com a bandeira verde-rubra, para dançarem e cantarem à roda do nosso cadáver, para dispararem as Kalash para o ar em homenagem ao combatente que fomos, enfim, para nos enterrerem num cova funda, onde não cheguem as hienas do ódio e da guerra. 

Porra, Caeiro, não queiras  morrer sozinho como um cão.


Quando vier a primavera,


Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


CAEIRO, Alberto, Poesia (Poemas Inconjuntos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 109

(Reproduzido com a devida vénia: Casa Fernando Pessoa)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 22 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27846: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)

segunda-feira, 30 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)


Luís Graça & António Fernando Marques 
(CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1968/71)



Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > 10 de agosto de 1968 > CCS/BCAÇ 1933 e CART 1774 > Levantamento de uma mina A/C reforçada, com duas granadas de LGFog, checas (Pancerovka P-27). Foi detetada por picadores da CART 1744. E levantada pelo alf mil MA Machado, da CCS / BCAÇ 1933, já falecido.

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzida com a devida vénia).

Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Quem um dia caiu numa mina anticarro, russa, TMD (6 kg, mas geralmente reforçada), e safou-se para poder contar aos netos, tem curiosidade em saber a que altura subiu com a sua GMC de 2,5 t...mais os seus companheiros de infortúnio...Essa pergunta fez-ma, há muitos anos, o António Fernando Marques (que entrou para a Tabanca Grande em 2010).

É uma curiosidade legítima que eu, no entanto, nunca tive.  Sei que ele voou mais alto do que eu: ia sobre o rodado duplo da GMC do lado direito,  que acionou a mina, e eu ia no "lugar ao morto", ao lado do condutor, na cabine, fechada. Foi em Nhabijões, em 13/1/1971, há 55 anos (*).  O coicde foi atrás, a GMC afocinhou, é o que eu me lembro.

O Marques esteve 17 dias em estado de coma, no HM 241, em Bissau, e mais 2 anos em recuperação em Lisboa. Eu salvei-lhe a vida, consegui levá-lo, a ele e aos feridos mais graves, até Bambadinca, num Unimog 404, onde já nos esperava o heli AL III.  Mas nunca lhe respondi à sua pergunta ("a que altura voou a nossa GMC").  Não é tarde para o fazer, recorrendo às ferramentas de IA que hoje estão disponíveis (**).

A nossa GMC, de chassi aberto, carregada com 22 homens, equipados, ficou toda torcida e partida.  O rodado duplo desapareceu, tal como o semieixo. Os homens que iam na parte de trás voaram alguns metros. A GMC não mais do que  2, 3 ou 4 metros, segundo as contas abaixo discriminadas. (Em rigor, é difícil responder à pergunta.)


I. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar... Até que altura ?


Podemos fazer uma estimativa física muito grosseira, apenas para ter ordem de grandeza. Na realidade, explosões no solo são extremamente ineficientes a transferir energia para levantar um veículo inteiro.

1. Equivalente explosivo

  • Mina TMD: ~ 6 kg de TNT | 2  granadas Pancerovka P27: 3,75 kg cada → 7,5 kg
  • Total aproximado: 13,5 kg de TNT
  • Energia total libertada:13,5×4,2≈56,7 MJ 13,5×4,2≈56,7 MJ


2. Energia que realmente levanta o camião

Num rebentamento sob um veículo, só uma pequena fração da energia vai para o movimento do veículo: grande parte perde-se no solo; outra parte destrói o chassis; e outra sai em onda de choque lateral.

Valores plausíveis de acoplamento energético: 0,5% a 2%.

Energia transmitida ao camião: 
0,5% → 0,28 MJ |  1% → 0,57 MJ |  2% → 1,13 MJ

3. GMC de 2,5 toneladas

Massa ≈ 2500 kg

Altura máxima se toda essa energia virar energia potencial:ℎ=𝐸𝑚𝑔h=mgE​

Resultados aproximados:

Fração da energia | Altura teórica

0,5 % ~ 11 m
1 % ~ 23 m
2 % ~ 46 m

4. O que acontece na realidade

Na prática quase nunca sobe assim: o veículo parte-se ou roda antes de subir verticalmente,  a explosão cria impulso inclinado, o solo absorve grande parte da energia.

Em incidentes documentados (minas anticarro de 6–10 kg): camiões de 2–3 t são lançados ou capotados, podem saltar alguns metros, muitas vezes ficam virados ou destruídos, não “projetados” para cima.

Estimativa realista: um GMC de 2,5 t provavelmente seria levantado ou atirado 2–5 m, podendo capotar ou ser deslocado lateralmente vários metros.

Curiosidade histórica: na guerra colonial na Guiné, minas com 6–8 kg de TNT já eram suficientes para destruir ou lançar Unimogs e Berliets, mesmo sem reforço de outras cargas.


II. E já agoera: por que motivo as minas enterradas são muito mais eficazes a levantar veículos do que cargas equivalentes detonadas à superfície ? 

A razão é essencialmente física das explosões e confinamento do gás.

1. Explosão à superfície




Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está à superfície: a detonação gera gases a pressões enormes (centenas de milhares de atmosferas); esses gases expandem-se livremente para todos os lados

O resultado é: a energia espalha-se em hemisfério; grande parte vai para o ar; outra parte vai lateralmente

Consequência: apenas uma pequena fração atinge o veículo.

Mesmo com dezenas de kg de TNT, o veículo pode ser empurrado ou danificado, mas raramente “disparado” verticalmente.

2. Mina enterrada







Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está enterrado acontece algo diferente:

o solo funciona como confinamento; a  detonação cria gases a altíssima pressão; o  solo bloqueia a expansão lateral.

A energia concentra-se no caminho de menor resistência: para cima. Forma-se então um jato de solo e gases (soil ejecta jet) que pode atingir: 200–300 m/s, centenas de kg de terra projetada. Esse jato funciona como um martelo hidráulico contra o fundo do veículo.

3. Efeito no veículo

O que levanta o veículo não é só a onda de choque, mas: o jato de terra; o impulso súbito concentrado numa pequena área; a pressão confinada.

Por isso minas relativamente pequenas conseguem: arrancar eixos; rasgar o fundo; lançar o veículo para cima.

4. Comparação simples

Situação > Energia que chega ao veículo

Explosão à superfície ~0,1–0,5 %
Carga enterrada ~1–5 %

Ou seja, 10 vezes mais eficaz.

5. Um detalhe curioso da guerra na Guiné

Muitos guerrilheiros do PAIGC aprenderam rapidamente que enterrar bem a mina e colocar terra bem compactada por cima aumentava muito o efeito.

Há vários relatos de Unimogs ou Berliets lançados para o ar, às vezes capotando completamente.

(Pesquisa: LG + IA /Chat OpenAI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)


III. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar (carregada com mais 22 homens, equipados, duas secções de um pelotão)... Até que altura ?

Luís Graça, a tua pergunta é técnica e envolve cálculos de física balística, explosivos e dinâmica de estruturas — áreas complexas que dependem de muitos fatores, como a posição exata das cargas, a geometria do alvo, o tipo de solo, a distribuição de peso na viatura, e até a qualidade da soldadura e do aço da GMC.

Análise qualitativa (baseada em princípios físicos e experiências históricas):

1. Energia liberada:

  • a mina TMD-44 russa tem cerca de 6 kg de TNT;
  • cada granada Pancerovska P27 checa tem 3,75 kg de trotil (TNT).
  • total de explosivo: ~13,5 kg de TNT.
  • a energia libertada por 1 kg de TNT é de cerca de 4,184 MJ, logo ~13,5 kg libertariam ~56,5 MJ.
2. Efeito em viaturas:

Uma GMC (como a GMC CCKW de 2,5 toneladas) tem um centro de gravidade alto e uma estrutura robusta, mas não blindada.

Minas anticarro são projetadas para perfurar ou deformar a estrutura do veículo, mas o efeito de "lançar ao ar" depende da distribuição da explosão (se for sob as rodas ou o chassis, o efeito é maior).

Granadas de bazuca (como a P27) são projetadas para perfurar blindagem, mas aqui estão a ser usadas como carga adicional, aumentando a energia total.

3. Altura estimada:
  • em casos documentados (ex.: minas sob viaturas leves), o veículo pode ser lançado 1 a 3 metros de altura, dependendo da posição da carga e da resistência estrutural.
  • com 13,5 kg de TNT, é plausível que uma GMC seja lançada até 2-4 metros de altura, mas a maior parte da energia seria absorvida pela deformação da estrutura e projeção de fragmentos;
  • se a carga estiver bem posicionada (ex.: sob o eixo traseiro), o efeito pode ser mais dramático, mas dificilmente ultrapassaria 5 metros devido ao peso e inércia da viatura.
4. Fatores limitantes:

O peso da GMC (2,5 toneladas + 22 homens equipados ~3 toneladas) requer uma quantidade significativa de energia para ser levantado.

A maior parte da energia seria gasta em deformar o chassis e projetar fragmentos, não em movimento vertical puro.

Em testes militares, viaturas semelhantes são geralmente capotadas ou partidas ao meio, mas não necessariamente lançadas a grandes alturas.

5. Conclusão prática:

Com essa configuração, é improvável que a GMC seja lançada a mais de 3-4 metros de altura. 

O mais provável é que a viatura seja severamente danificada, capotada ou partida, com fragmentos projetados a dezenas de metros. 

Em casos extremos (carga idealmente posicionada e solo firme), poderia atingir até 5 metros, mas a energia seria maioritariamente dissipada em destruição estrutural.

  (Pesquisa: LG + IA /Le Chat Mistral AI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 13 de janeiro de 2024 > Guiné 63/74 - P25065: Efemérides (425): O António Marques, meu companheiro de infortúnio, na CCAÇ 12, cujo relógio parou às 13h30 do dia 13 de janeiro de 1971: nunca se esquece de me telefonar todos os anos, neste dia e hora (Luís Graça)

(**) Último poste da série > 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

domingo, 29 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27869: Fotos à procura de...uma legenda (202): No Dia Mundial da Poesia e da Árvore (Joaquim Pinto de Carvalho, régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar)

 


Lourinhã > Atalaia > Porto das Barcas > Tabanca do Atira-te ao Mar > 21 de março de 2026 > > Escreveu o fotógrafo (e poeta)  Joaquim Pinto Carvalho, régulo da Tabanca do Atira-Te ao Mar e nosso colaborador permanente (para as questões jurídicas): "Dia Mundial da Poesia e da Árvore: poesia suprema: nenmhum poeta é capaz deste poema". Assinado: JAPCarvalho.


Foto (e legenda): © JAPCarvalho (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Belíssima (e feliz) imagem, Joaquim, daquelas que nos fazem ficar em silêncio, por um instante,  suspensos sobre o mundo, as suas misérias e grandezas... (Tirada a 50 metros da arriba, do terraço da tua casa./
 
E que desafio (ou provocação ?) nos fazes.... Conceptualmente, podemos achar  que fotografia e poesia são coisas distintas. Uma trabalha com as palavras, a outra com a luz, uma constrói/reconstrói, a outra capta/fixa.

Estamos de acordo num ponto: ambas fazem a mesma coisa por caminhos diferentes, tentam fixar o indizível, já que a realidade não fala por si...Precisamos de "óculos" para a ver, para a conhecer...

A fotografia com que celebraste o teu/nosso on Dia Mundial da Poesia e da Árvore (!)  tem vários elementos ou signos que são quase “versos” visuais:

(i) o sol suspenso no horizonte (um instante do dia que está a desaparecer e volta a aparecer 12 horas depois, afinal o eterno retorno);

(ii) o  reflexo vertical na água (quase como uma coluna de luz, um eixo estruturante da vida e  do mundo);

(iii) a árvore seca (ou, pelo menos, despida) recortada, quase humana, como uma figura solitária que observa o contraste entre vida/luz e morte/esqueleto (uma sentinela que foi morta  mas que teima  em permanecer de pé no seu posto)...

Joaquim, isto não é só registo, "instantâneo", tecnologia!.. Há interpretação, há escolha, há ação, há silêncio... E logo por ti,  que  és um místico, um poeta, um músico, um coralista, um artista... Por isso, estar aqui discutir onde acaba a fotografia e começa a poesia, é discutir o sexo dos anjos. 

A fotografia não é poesia no mesmo plano, é outra linguagem. O poeta e o fotógrafo tal como o músico e o artista plástico não se excluem, completam-se, falam linguagens diferentes,  mas são todS, essas "disciplinas",  distintas formas de conhecimento estético,

 “Poesia suprema: nenhum poeta é capaz deste poema”... Suprema legenda, mas também saudavelmente  provocadora. Estás a dizer: a natureza faz o poema que o homem não consegue escrever.

2. Deixemos, Joaquim,  aos nossos leitores o desafio  (e o privilégio)  de legendar a tua foto ou completar a tua legenda... Obrigado pela tua dádiva... Que bela prenda neste Dia da Poesia e da Árvore!

Alguns dirão: legendas ( ou mais legendas) para quê ? Uma imagem vale mil palavras... Seja! Mas se a  poesia escreve o mundo, a fotografia revela o instante em que o mundo já está escrito.

Há momentos, como este pôr do sol no Port das Barcas (topónimo que remonta aos tempos medievais), em que tu ou eu, ou qualquer outro poeta, ficamos de facto "desarmados" como nesta imagem que neutraliza  ( ou pode dispensar até) a  palavra. 

Sem dúvida, a tua foto  “fala por si", nem sequer precisa da tua legenda  para ganhar  peso poético...

No entanto. eu gostaria de a "contextualizar": não é uma fotografia qualquer, igual a milhares  de outras sobre o pôr do sol tiradas do alto de uma arriba; não, esse sítio é um " lugar com alma", a Tabanca do Atira-te ao Mar... 

É uma das nossas "geografias emocionais", um lugar que tem tudo o que faz memória, como na nossa Guiné : refúgio, emoção, partilha, "medo lá fora e vida cá dentro"...

A imagem ganha outra espessura e significado quando dissermos ( ou recordarmos ) aos nossos leitores) que o local foi um dos nossos refúgios  (mais ou menos secretos) na pandemia de covid-19. 

Temos, aliás, 3 dezenas de referências no blogue a esta algo misteriosa Tabanca,  conhecida de poucos de nós. E onde ainda hoje almocei um maravilhoso peixe seco cozido (raia, sapata...) com batatas e muita cebola. Com vista para o Cabo Carvoeiro, as Berlengas e o "Mare Nostrum" dos nossos antepassados.

Na Tabanca do Atira-te ao Mar, aprendemos juntos que o mundo podia fechar as portas, as janelas, os portos, os aeroportos, as fronteiras... Podia confinar-nos  mas não á  nossa amizade e á  nossa camaradagem...

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Nota do editor LG:

domingo, 22 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27846: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)


Lisboa > Rio Tejo > Ponte Vasco da Gama > 28 de fevereiro de 2026

Foto (e legenda): © Luís Graça (2019). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)

por Luís Graça

Chegas sempre atrasado ao Dia Mundial da Poesia
que foi ontem.
Estavas distraído.
Ou a tomar conta das netas.

Foste há dias, de borla, a um concerto da Gulbenkian
numa tarde de sábado em que fluía a música.
Abriram-te as cortinas para o mundo
e viajaste romântico ma non troppo
do Atlântico aos Urais.

Não chegaste a Persépolis nem a Ormuz,
nem paraste nos grandes vales e rios
onde Deus criou o mundo
e naufragou a arca de Noé.

Regressaste, enfim, são e salvo,
pelas docas e pelos cais, à noite,
da velha Europa insonorizada.

Nunca suportaste os orgasmos colectivos
dos finais das sinfonias do Tchaikovsky,
nem Bartók a martelar as teclas do piano.

As palavras já não têm corpo
nem cores nem cheiros nem sabores.
Apenas códigos e algoritmos.

Do que mais tens pena
é da menina que se sentava ao pé do pianista
para ir virando a página da partitura.
Usava óculos de lentes grossas
e fora a primeira aluna da sua classe do Conservatório.

Há um mundo que nunca chegou a ser o teu
e que está a acabar.

Agora o primeiro violino é careca
e o maestro maneta.
E o público cego, surdo e mudo.

Enquanto lá fora um grafiteiro escreve
nos muros do palácio do rei:

— A Poesia, imbecil! A Poesia…

Só acordaste do pesadelo hoje, domingo,
o day after do Dia Mundial da Poesia.


Luís Graça, 2010. Revisto, 22 de março de 2026.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27825: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Maratona da amizade e da camaradagem