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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27722: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (1): Os desastres (do Cheche a Alcácer Quibir das Cheias de 1967 à tempestade Kristin) e a teoria do bode expiatório

1. Nunca é demais lembrar esta trágica efeméride (o "desastre do Cheche") e honrar a memória dos nossos camaradas que lá ficaram, nas águas turvas e nas margens do rio Corubal. Foram 47 vítimas inocentes de uma guerra que não tinha fim à vista e era cada vez mais sem sentido (para ambos os lados).

"Desastre", em contexto de guerra, é sempre um eufemismo. Pode até ser um insulto. Para as Forças Armadas Portuguesas, da época, não havia suicídios, homícidios, automutilações, e outros atos de violência autoinfligida.
  

A verdade é que estes nossos camaradas não se suicidaram nem morreram por ação direta do inimigo. Em combate. Mas morreram pela Pátria. Aos 21, 22, 23 anos. Em plena juventude.  A última coisa que queriam era morrer. No Cheche. Na cambança do rio Corubal. Deixavam para trás o inferno de Madina do Boé. 

57 anos depois, a vida continua, a Pátria continua... E alguém sabe lá onde era esse sítio de cambança do Rio Corubal, que uns chamavam Cheche, outros Ché-Ché... "Tchetche" dizem os locais. (Na carta de Jábia, o cartógrafo grafou "Ché-Ché" e a gente devia seguir a sabedoria dos nossos cartógrafos que chegaram a ser os melhores do mundo... Dizem. Não sou bom em cartografia.)

A vida é curta. E a memória ainda mais. Cabe-nos honrar a memória dos que morreram. Uma frase estafada.

2. Diz o nosso querido amigo e camarada Carlos Pinheiro (em comentário, na página do facebook da Tabanca Grande | 6 fev 2026, 11h30)

Eu estava lá, em Bissau, e devo ter sido dos primeiros a receber a triste notícia porque estava no STM no QG/CTIG. 

Dois sobreviventes, da CACÇ 1790,  vieram parar ao meu serviço como estafetas. Um era um soldado normal mas o outro era analfabeto e mal sabia falar.
Estiveram meses a viver debaixo do chão mas um senhor de muitos galões insistiu que o abandono de Madina do Boé se realizasse nas jangadas constituídas sobre três canoas.

Ao princípio a operação corria bem mas na última travessia uma das canoas estava partida e a jangada, com tanto peso mal arrumado, afundou-se. Foi uma grande tragédia.

Mas o Coronel,  que estava ao longe a comandar a operação, no 10 de Junho a seguir foi condecorado no Terreiro do Paço. Era assim...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026 às 12:42:45 WET



3. Permito-me, na minha qualidade de "marginal-secante",  alinhavar duas ideias sobre o caso:

Carlos, eu (ainda)  não estava lá... Parece que é preciso "ter estado lá" para falar de cátedra. Lá, no meio dos acontecimentos,  na cratera do vulcão, no epicentro do terramoto... Adiante: nunca fui ao Boé, mas andei por esses rios (o Geba), e o Corubal (nas margens.). Fiz muitas "cambanças" (de canoa) no Geba. Nunca andei de jangada. Aquelas águas, barrentas, sujas, na época das chuvas, metem respeitinho.

Conheci a malta do BCAÇ 2852 a que pertencia a CCaç 2405... O "desastre de Cheche" ainda era comentado, quando eu cheguei a 2 de junho de 1969 a Contuboel e,  mês e meio depois, a Bambadinca, E conheci malta que lá esteve, na retirada de Madina do Boé.

Temos, de resto, vários camaradas dessa subunidade, a CCAÇ 2405, Os "Baixinhos de Dulombi",  que integram a Tabanca Grande, e nomeadamente os quatro alferes: o Rui Felício, o Paulo Raposo, o Jorge Rijo e o Victor David (infelizmemnte já falecido em 2024)...
Quando cheguei à Guiné, em finais de maio, ainda se falava, com comoção, do desastre do Cheche... Como se falava de Gandembel,  abandonad pela NT em finais de janeiro desse ano.  Foi um ano de muitas emoções.

Por outro lado, não é verdade que o cor inf Hélio Felgas (1920-2008) "estava ao longe a comandar a operação"... O homem viveu ao milímetro a Op Mabecos Bravios,  do planeamento à execução, do  pionés no mapa à caixa de velocidades das GMC. É verdade que malta de Madina vivia como toupeiras.

E verdade que o coronel recebeu a Torre e Espada um ano e tal depois, no 10 de junho de 1970. E depois? O Estado Novo precisava de heróis. Eu não sei se a condecoração é "justa ou injusta". Não sei (nem sequer me interessa saber) os seus fundamentos. 

Claro que nessa época, em plena guerra colonial, os critérios teriam que ser, tendencialmente, os político-militares.  Hélio Felgas, que eu saiba, nunca contestou o regime. Não conspirou. Não cuspiu na sopa, como dizem os que se arrogam o monopólio do patriotismo cego e incondicional. Quem dá as honras, sabe a quem e porquê.

Mas vamos ao essencial: é "humano" arranjar um bode expiatório... Para o desastre do Cheche, ou outros mais recentes ou recuados no tempo, sejam militares ou naturais: Alcácer Quibir, as cheias na Grande Lisboa em 1967, a tragédia de Pedrógão Grande em 2017, a tempestade Kristin em 2026...

A teoria do bode expiatório é um dos mecanismos psicológicos e sociais mais persistentes da história da humanidade. É extremamente perigosa porque tende a simplificar o que é altamente complexo (o "caos", para o homem comum: terramotos e desastres naturais, pandemias, por exemplo, mas também outras catástrofes como a guerra, incêndios, acidentes brutais de comboio ou avião, naufrágios, etc.) convertendo uma "culpa coletiva" (?) ou um "azar sistémico" (?) num alvo individualizado.

Na idade média, e até tarde, os médicos eram judeus (ou cristãos-novos). Sanches Ribeiro, natural de Penamacor (a terra do recém-eleito Presidente da República) foi o nosso maior médico do séc. XVIII. Mas teve que se pôr na alheta para não cair nas malhas da Santa Inquisição, que foi uma máquina de matar "herejes" e sacar-lhes o património. Morreu em Paris.

No caso da Op Mabecos Bravios, o bode expiatório só poderia  seria o seu comandante, o cor inf Hélio Felgas, que é para isso que  os comandantes (também) servem. É um facto que no ano seguinte foi ao 10 de junho receber a sua "Torre e Espada" (o galardão mais cobiçado por um  militar português). 

Não sei se podemos estabelecer alguma associação, muito menos de causa e efeito: não faria qualquer sentido. Ninguém recebe uma condecoração por um desastre.  A verdade é que, para a história, o seu nome ficará para sempre associado ao "desastre do Cheche".

Quando a "desgraça" nos bate à porta, como nos dias de hoje (de Leiria a Alcácer do Sal), o "homem comum" raramente busca as causas complexas dos fenómenos (militares, sociais, demográficos, económicos, naturais, ambientais, etc.) ou assume a quota-parte (mesmo ínfima) de responsabilidade que lhe cabe, enquanto cidadão, munícipe, consumidor, contribuinte,  predador, poluidor, etc..

A nossa tendência é arranjar logo um rosto para culpar, bater e odiar. Em geral, alguém (ou algum grupo) fora do nosso "círculo" de influência, conforto, território, pertença... No passado, os bárbaros, os hunos, os mouros, os infiéis, os judeus, os médicos, os hereges, os cristãos-novos, os jacobinos, os maçons, os fascistas, os comunas... Agora há muitos mais...

Será assim uma tendência "tão" instintiva? Afinal, somos "primatas", dizem os zoólogos... Como explicar as "desgraças" de que somos vítimas?

Talvez estas pistas da área da psicologia social ajudem a explicar o fenómeno:  (i) redução da ansiedade; (ii) sentimento de controlo (mesmo falso); (iii) coesão grupal e (iv) mecanismo da desgraça.

A incerteza é insuportável para o ser humano. Os gregos consultavam a pitonisa de Delfos antes de tomarem grandes decisões. Os calvinistas e os luteranos criaram a "teoria da predestinação":  eu não sei se estou condenado ao céu ou ao inferno,  é uma angústia insuportável para mim, cristão; mas Deus manda-me sinais de que estou no bom caminho: tenho sucesso, ganho dinheiro, invisto que o ganho, sigo  a lógica do custo-benefício, sou racional... 

Na maioria dos casos, é  mais reconfortante acreditar que existe um "vilão" específico causando o problema do que aceitar que o sistema (sociotécnico, "societal", o Estado e a sociedade, a economia) falhou ou que o azar (o "fatum") é aleatório. Ou então alimentar o "sebastianismo"...

Se há um culpado, a solução é fácil: basta eliminá-lo, puni-lo, isolá-lo (os "terroristas", os "insurgentes", as "minorias", os "feios, porcos e maus", etc.) para que a "normalidade" seja restabelecida. Quase por magia.

Nada une tanto um grupo quanto a existência um "inimigo comum" (cristãos 'versus' mouros, brancos 'versus' pretos, puros 'versus' impuros, colonizadores 'versus' colonizados, etc.). 

Apontar o dedo (ou a arma) para "o outro", fortalece o "espírito de grupo", ao mesmo tempo desvaloriza, ignora, escamoteia, nega ou faz esquecer as nossas próprias fissuras internas, as nossas divergências, as nossas fraquezas, as nossas misérias, etc.

Há ainda o mecanismo da "desgraça": isso tem a ver com a nossa cultura judaico-cristã... O termo tem origem bíblica (o ritual do Levítico, onde um animal carregava simbolicamente os pecados do povo "eleito" para o deserto).

Transposto para os dias de hoje, esse mecanismo opera em várias escalas:

(i) a família: o "filho problema" (drogado, psicótico, vagabundo, falhado, criminoso,  marginal, 
etc.) absorve as tensões de um casamento infeliz;

(ii) empresa / organização / grupo empresarial: o gestor ou o CEO demitido pelos "maus resultados" imputáveis à "crise económica; ou, exemplo mais comezinho, o treinador de futebol... que "paga as favas" dos maus resultados da equipa;

(iii) sociedade / Estado / Nação: minorias ou estrangeiros que são culpados por crises económicas, derrotas militares, pandemias, etc. (veja-se o que se passou com a ascensão de Hitler ao poder; ou, na idade média, a acusação de que eram os judeus e os médicos a evenenar os poços de água, provocando a "peste", do latim "peius", a "pior doença"...

É mais fácil usar o chicote (num desgraçado) (fisica e metaforicamente falando) do que sentarmo-nos à mesa para aprender com a análise partilhada de um problema (causas próximas e remotas, processo, consequências) de modo a prevenir ou atenuar os efeitos de problemas mais graves no futuro...

A onda de populismo, negacionismo, irracionalidade, autoritarismo, ódio (contra a ciência, a arte, a cultura, as elites, a democracia, as liberdades e garantias, a Constituição, ), etc. que varre hoje o mundo (de Portugal aos EUA, da Rússia à China, etc.), tem muito a ver com essa teoria do bode expiatório.

Carlos, recuso-me, por isso, em entrar na tentação de procurar um "culpado" para o desastre do Cheche... Ainda falei com o major-general Hélio Felgas antes de morrer... Pareceu-me um homem que amava o seu país e que tinha orgulho na sua condição de militar. Outras posições mais polémicas que tomou, não comento. Não sei o texto nem o contexto: por exemplo, a Op Lança Afiada (8-19 de março de 1969, Sector L1).

Não o absolvo nem o condeno, não o glorifico nem o demonizo: o nosso blogue não é, felizmente, um tribunal da História.

Mas se eu fosse professor da Academia Militar juntaria este caso ("o desastre de Cheche") à minha casoteca. Devemos aprender com os erros.  Em Porttugal, infelizmente, não nos damos a esse trabalho.

Não vou analisar o caso: eu, que escrevi tanto, ao longo de 40 anos, sobre saúde e segurança no trabalho, sei que todos os acidentes são de etiologia multifactorial: acusar o maquinista do comboio de "erro humano" ou desculpar o acidente por "falha técncia", é a mais redutora e simplista das explicações. 

No caso de Cheche, houve uma "falha" de um sistema, em termos mais simples, o sistema homem-máquina. Não li o relatório encomendado ao cor cav Fernando Cavaleiro, herói do Como.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

Foto nº 1A, 1B, 1 > Guiné > Região do Boé  >  "Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic)... Estranha (e perturbante) foto do Arquivo Amílcar Cabral, sem legenda nem uma data precisas (1963-1973)... Estas cruzes só podem ser de militares portugueses, mortos por afogamento na travessia do Rio Corubal, em Cheche, em 6/2/1969... Devem ser captadas por gente do PAIGC.  Parecem ser 11 campas improvisadas, 8 assinaladas com cruzes de ferro e 3  em madeira.

Fonte: Instituição:Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.124 | Título: Cemitério à beira do rio Cheche | Assunto: Cemitério à beira do rio Cheche, Guiné-Bissau | Inscrições: Cheche. | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias |

(1963-1973), "Cemitério à beira do rio Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43446 (2026-2-9)
Foto nº 2 > Guiné > Região do Boé  > Cheche > Parecem ser restos do destacamento de Cheche, abandonado pelas NT em 6/2/1969, aquando da retirada de Madina do Boé.  A sua missão era proteger a jangada que fazia a cambança do rio Corubal. Ficava na margem esquerda. Chegou a lá haver uma pequena povoação.

Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.251 | Título: Depósito de combustível, em Cheche | Asunto: Depósito de combustível, em Cheche, localidade junto ao Rio Corubal. | Inscrições: Cheche | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias

(1963-1973), "Depósito de combustível, em Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43064 (2026-2-7)



Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.  (Habituámos-nos a a grafar o topónimo como "Cheche". Mas na carta de Jabiá vem Ché Ché.)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Ao que parece não foram resgatados nenhum corpos das 47 vítimas, por afogamento, na travessia do rio Corubal, em Cheche, na manhã,  de 6/2/1969, quinta feira. Foi a última travessia efectuada. A coluna (5 dezenasd de vituras) seguiu para Nova Lamego:

(...) " O Comandante da Operação  [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Ché Ché para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego" (...).(*)

O cor inf Hélio Felgas, mais tarde, em 1995, já brigadeiro na reforma, escreveria:

(...) Aguardámos horas, com o helicóptero sobrevoando o local na esperança de localizar alguns dos desaparecidos. Dois ou três bons nadadores também mergulharam na zona onde acorrera o acidente. Nada foi encontrado.(...) (**)

No dia 20, quinta feira, duas semanas depois depois (!),  é que alguns corpos (11)  serão  resgatados a  jusante: a dúvida é saber exatamente em que local do rio.

No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  terão conseguido resgatar  os restos mortais de 11 militares (de resto, irreconhecíveis)

Outra dúvida: teriam sido, ou não, seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes ? Ficaram as cruzes e levaram os restos mortais dos nossos camaradas  ? Não nos parece. Os corpos deviam estar em adiantado estado de putrefacção.

E já agora: porquê 8 cruzes de ferro e 3 de madeira ? Teriam sido trazidas de Bissau, obviamente, as cruzes de ferro (que são do mesmo modelo das  usada no talhão dos combatentes portugueses,  no Cemitério Municipal de Bissau). E essas só podem ter sido colocadas pelas NT.

As cruzes de madeira temos que admitir que tenham sido improvisadas por gente da população local, fula, que conheciam os "tugas" antes da independência. De qualquer modo,  a foto  nº 1 tem se ser da época do acidente (1969). O Arquivo Amílcar Cabral só contempla imagens e outros documentos com datas até 1973 (ano da morte de Amílcar Caberal). Por outro, é de todo improvável  que estass inprovisadas e precárias  sepulturas tenham sobrevido às cheias que vieram logo a seguir, na época das chuvas de 1969.


Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério Municipal > Talhão Militar Central > Abril de 2006 > Monumento que celebra os soldados portugueses, mortos nas diversas "campanhas de pacificação" da Guiné, desde a Campanha do Geba (1890) à Campanha do Cuor (1907/08), passando pelas Campamhas do Oio e Bissorã (1913), onde se destacou o Capitão Diabo, Teixeira Pinto. Este cemitério tem três talhões, reservados aos combatentes portugueses mortos em campanha).

Foto ( e legenda): © Hugo Costa (2006).Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Mais provável é que que  o brigadeiro  Spínola (acompanhado de um  capelão de Bissau) tenha  assistido a esta delicada operação, como de resto era sua intenção,  operação que foi enquadrada por fuzileiros especiais e terá tido forte apoio aéreo.

Estas 11 cruzes da foto nº 1 vêm baralhar a nossa narrativa, também por causa da sua localização...  A foto do Arquivo Amílkcar Cabral tem como legenda: 

"Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic).

Ora, não há nenhum rio Cheche, perto do local onde se deu o acidente. Há vários afluentes do rio Corubal, a montante e a jusante de Cheche (vd. carta de Jábai): o mais perto, é o rio Campossabane, a 600 metros,  a montante; a jusante, temos o rio Cambengoi (ou Cambengol), a 3,5 km;  o rio Canchã, a 7,5 km; e o rio Ché Ché Piri, muito mais longe, depois de várias curvas e contracurvas  do Corubal (vd. carta de Padada). Todos afluentes deste.

As cruzes foram colocadas pelos fuzileiros que terão recuperam alguns corpos, no dia 20 de fevereiro de 1969. Irreconhecíveis.

 A legenda deve, pois, estar errada. O rio Ché Ché Piri, afluente do Rio Corubal, ficava a jusante do local da tragédia, uns largos quilómetros abaixo. 

A seguir a Ché-Ché, uns 4 km, no sentido jusante, o rio Corubal fazia uma curva de 90 graus. A corrente deve ter arrastado os corpos. As margens aqui eram altas, cota 40/50. Estamos na época seca, o rio tem muito menor caudal, mas mesmo assim  a corrente era forte, segundo os testemunhos da época.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Padada (1959) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Burmeleu, do  rio Ché Ché Piri, e de um troço do rio Corubal,  largos quilómetros a jusante do antigo destacamento de Ché Ché (na estrada Nova Lamego - Madina do Boé)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


De qualquer modo, esta foto deve ter sido tirada por alguém do PAIGC e enviada para Conacri. É a única referência (mesmo que indireta) que encontrei, no Arquivo Amílcar Cabral, a esta brutal tragédia que nos enlutou.

Há cinco referências a Cheche  (topónimo) no Arquivo Amílcar Cabtral:
  • as duas que publicamos acima (fotos nºs 1 e 2);
  • e, por fim, uma mensagem urgente do Secretário Geral, para o Boé, com data de 29 de janeiro de 1971, com informações sobre "uma grande ofensiva militar portuguesa no Boé (concentração das forças inimigas em Cheche)", solicitando-se ao Humberto e ao Silvino preparação cuidadosa da defesa da região e ligação permanente com o Secretariado Geral.
O erro no título ("Cemitério à beira do Rio Cheche" também pode ser imputado, eventualmente, aos ténicos da Fundação Mário Soares que trataram o Arquivo Amílcar Cabral. Mas inclinamo-me mais para a hipótese de ter sido legendada por gente do PAIGC, que conhecia mal o nome dos rios naquela zona. 

O António Rosinha reconheceu o local, onde esteve em 1986: ficaria a " montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio" (!)... e não a jusante, como imaginávamos nós...(afinal, todos os rios correm para foz).

A haver ali um rio era o  o rio Campossabane, a montante,  a meio quilómetro de Cheche (segundo a carta de Jábia).  

2. Já tínhamos publicado em tempos esta foto (nº 1) que mereceu diversos comentários de dois  camaradas que conheceram a zona (*)

De qualquer modo, Cheche era  passagem obrigatória para quem vinha de Nova Lamego até Madina do Boé (e Guiné-Conacri) passando por Canjadude, sede da CCAÇ 5 (Os Gatos Pretos, a que pertenceu o fur mil trms José Martins, 1968/70). 

E a verdade é que ainda hoje não há ponte nenhuma, ali, no Cheche, para facilitar as comunicações com  o país vizinho. E, se calhar ainda bem (por razões ambientais).

(i) O nosso camarada José Martins pode esclarecer-nos melhor sobre onde terá sido tirada a foto.

(...) Esta foto, para mim, não é só surreal como ofensiva. A zona de Burmeleu, a jusante do Cheche, não tem as margens como a imagem sugere.

A tragédia ocorreu no rio Corubal e não no Rio Ché Ché Piri. Acho muito estranho que os militares do PAIGC, mesmo depois da independência, fossem retirar cruzes das campas dos militares portugueses, para as colocar ali.

Alguns corpos foram recolhidos por guineenses, mas não prestariam esta homenagem, até porque ocuparam o espaço de cemitérios com novas moranças, como se viu em reportagens televisivas, na zona de Bafatá. (...)

(ii) O Antº Rosinha que foi cooperante na Guiné, como topógrafo, depois da independência,  conheceu o local (em 1986):

(...) penso que aquele lugar fica a montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio.

Evidentemente que ali não há cemitério nenhum. Pode ter havido ali algum tipo de cerimónia de militares nas margens do rio, como se costuma fazer de pôr uma cruz e flores à beira da estrada onde morre de acidente um familiar.

Aquele rio chega, ou chegava quando a Guiné estava mais longe do deserto que é hoje, a ter cheias em que esse lugar está debaixo de água.

Este acidente deu-se no tempo seco, e as chuvas começam em maio /junho (e vão até outubro/novembro),.

Ali é difícil o acesso às margens junto à agua, devido aos grandes arbustos que se debruçam sobre a água, e aquele lugar (que é igual àquele que eu penso) é alcantilado (arriba) mas sem os tais arbusto fechados.

Conheço bem o lugar, porque trabalhei como cooperante das Obras Públicas vários dias a tentar pôr aquela jangada e seus acessos funcionais, em 1986.(...)


(Não sei se é verdade tudo o que eu digo, mas o que digo é apenas o que vejo)

A imagem que se consegue ver no Google é apenas em cheias, pelo que não se vê este pormenor da margem que eu digo.

Mas a foto ou foi tirada de canoa ou de algum bote de fuzileiros, pois como se vê aquilo é uma arriba de dificil acesso, mesmo para uma foto, quanto mais para fazer sepulturas.

Em arribas não se fazem cemitérios, embora lá se encontrem dinossauros.

Contemos a história, e em memória dos que morreram, mesmo sem pôr cruzes, afirmar que não foram eles os culpados de haver tantos guineenses junto ao arame farpado de Ceuta. (...)

sábado, 6 de fevereiro de 2016 às 11:20:00 WET

Enfim, fica aqui o desafio aos nossos leitores para trazerem novos contributos para o esclarecimento deste "misterioso cemitério de Cheche"(***). 


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)



EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo,   na Parada alusiva ao Dia de Portugal,  em Mineola, NY, 10 de junho de 2018: 



1. Mensagem do nosso John Crisóstomo, o luso-americano régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona   (*) 

João Crisóstomo, membro da nossa Tabanca Grande, com 290  referências no blogue, a viver em Queens, Nova Iorque, ativista social, ex-alf mil inf, CCAÇ CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).


Data - 4 fev 2026 08:17
Assunto - Comentário ao poste P 27695 (**)

Pus-me a escrever um comentário ao poste 27695 e depois ficou tão grande que não tive coragem de o publicar

Permito-me uma “confissão", uma conversa com os meus camaradas, pois que, como irmãos que somos pelo que todos experimentámos, sei que a maioria vai compreender e aceitar este meu “desabafo", que talvez seja coisa que suceda com outros também. 

Creio que um dos muitos benefícios que este blogue tem proporcionado a muita gente, é exactamente o de uma "catarse" terapêutica (do grego kátharsis, "purificação"). A mim, pelo menos, tem-me ajudado.

É que tenho vindo a seguir, mais ou menos, os postes relacionados com o saudoso Horácio Fermandes (1935-2025) e sei que devia fazer uns comentários ao muito que se tem escrito. E não o tenho feito. "Desculpas de mau pagador" nunca são boas, por melhores que elas sejam e por mais voltas que se lhe deem; e portanto não mereço desculpas.

Não sei se virei “bipolar”, pois de vez em quando tenho momentos de muita energia para logo voltar ao mesmo marasmo. Explicarei apenas que,  de há bastante tempo,  já me sinto muito em baixo e é sempre com esforço que faço algo.

Mas este poste de ontem (**) menciona o nome dum quarto Maçarico, desconhecido  até aqui,  e que eu conheço bem. 

Como o Luís Graça descreve, o João Maria Maçarico era de Ribamar e a casa dele era mesmo junto da casa do Horácio. Eu conhecia-o bem assim como o pai (mas não me lembro da mãe ) e o irmão, o Veríssimo, que emigrou para o Canadá. 

Por instruções do Padre António Alves Sabino, que era meu primo direito e que era na altura subprefeito do colégio de Montariol, o João Maria Maçarico veio-me buscar a minha casa e levou-me pela mão, literalmente, que para que os meus pais ficassem descansados. Foi no dia 7 de setembro de 1954. Eu era muito novo.

O facto do meu aniversário de nascimento ser em fins de junho levou a que eu fosse sempre muito jovem em relação aos meus colegas de cursos. Isso sucedeu até na minha entrada para a tropa onde entrei muito novo em comparação com os outros que entraram nesse dia. É que,  ao sair do seminário de Leiria,  logo verifiquei que não conseguia arranjar qualquer trabalho. Meus pais tinham dificuldades e eu queria trabalhar imediatamente mas não conseguia nada. 



João Maria Maçarico (*):  nascido em 1937, também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico

Foto: cortesia de : Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002.


Recordo-me que entre outros lugares onde fui pedir emprego, foi ao gerente do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Torres Vedras. A resposta foi a mesma que me davam em toda a parte: "faça a tropa primeiro” e depois venha falar comigo. E por isso informei-me como devia fazer para cumprir o serviço militar logo que pudesse. Fui a Santarém e aceitaram-me logo, dando-me as devidas instruções para o fazer. Entrei em Mafra,  em janeiro de 1964,  aos 19 anos! Fiz 20 anos em junho desse ano.

Ainda sobre o João Maria Maçarico: ele veio a minha casa para me acompanhar nessa primeira e longa viagem de comboio de Torres Vedras a Braga. E da estação do comboio de Braga até ao colégio de Montariol onde chegãmos à noite desse mesmo dia e me “entregou" ao meu primo.

Devo dizer que pouco ou muito pouco me valeu o facto de eu ser primo do subprefeito: vivi e sofri física e mentalmente o mesmo que o Horácio viveu e descreve no seu livro “Francisco Caboz : a construção e desconstrução de um padre”.

Eu e o João Maçarico estivemos juntos dois anos em Montariol. Depois disso,  porque ele andava sempre três anos à minha frente,  eu apenas sabia notícias dele pela família. Só o vim a reencontrar anos mais tarde,  quando soube que ele trabalhava em Lisboa na companhia de telefones (TLP, mais tarde Portugal Telecom).

E depois outra vez em 2018 ou 2019: eu soube que havia um encontro de antigos alunos em Ourém e eu quis lá ir. Convidei o Rui Chamusco e fomos. Quando lá chegámos, foi-nos dito que o encontro era apenas por vídeo, embora fossemos bem-vindos se quisessemos participar nesses encontro. E quando através dos écrãs se fizeram as apresentações e eu ouvi o nome do João Maria Maçarico,  eu interrompi para perguntar se este era o João Maria Maçarico, de  Ribamar, Lourinhã. 

Depois ficámos em contacto,  soube que ele tinha feito o serviço militar em Moçambique em 1966/67, como alferes miliciano. Mas um encontro pessoal como eu queria,  nunca foi possível e acabei por perder o contacto pois ele deixou de atender o telefone. 

Este ano, já depois do Ano Novo, quando estive em Portugal soube pela Carmitas, irmã mais nova do Horácio,  que ele está internado num lar na zona do Oeste, na Marquiteira, não longe da casa onde nasceu. Mas foi tudo o que me soube dizer.

PS1 - Estou quase a acabar de ler o livro “Os Có Boys” do Luís da Cruz Ferreira, que comprei no encontro da Magnífica Tabanca da Linha, em 14 de janeiro deste ano,  Não vou fazer comentários sobre ele pois nunca saberei fazer pertinentes comentários como os muitos que foram feitos nos postes dedicados a este livro.

Entre estes,  o teu comentário "as suas observações críticas (mesmo que 'anedóticas') sobre o quotidiano da tropa naquela época merecem, só por si, uma nota de leitura à parte” resume tudo o que se pode dizer. Acrescentarei da minha parte que o Luís Ferreira tem a minha muita admiração.
 
PS2 - Li também algures (agora não encontro onde!) um comentário/resposta a um outro do António Graça de Abreu e sua esposa em que sugeres ou pões a ideia de virem um dia "à casa do João e da Vilma" … Mas que grande ideia!

Quanto a vocês… nós e a nossa casa estamos à vossa espera desde o primeiro dia em que os encontrámos. E,  quanto a eles, eu convidei-os logo no primeiro encontro que tive com eles, se me não engano foi em Algés na primeira vez que lá fui. Se o facto de eles vierem,  ajuda a que tu e a Alice venham finalmente … Abençoados sejam todos, vai ser mesmo “manga de ronco” …

Um grande abraço nosso,
João e Vilma

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 12 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27310: Tabanca da Diáspora Lusófona (38): Parabéns, João & Vilma, acabados de se unir com a benção de Deus, na igreja eslovena de São Ciro, Nova Iorque...Hoje, âs 10h30 locais, 15h30, em Lisboa.

(**) Vd. poste de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27697: Humor de caserna (238): Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! (Alberto Branquinho, "Cambança", 2009. pp. 26-29)



Capa do livro de contos de Alberto Branquinho, "Cambança: Guiné. morte e vida em maré baixa", 2ª ed.. Lisboa: setecaminhos, 2009, 99 pp. (ISBN: 978-989-602-164-1)



1. Mais uma história de "cambança(s)"(*)  do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, depois de ter passado por Coimbra como estudante).

"Cambança", para ele, é mais do que  "passagem para o outro lado" do rio. É uma metáfora: "por vezes uma fuga ou uma mudança. Pode ser uma partida ou um regresso. Quase sempre com a vida em maré baixa" (pág. 6).

Qualquer semelhança com a realidade da Guiné é pura coincidência, avisa o autor. Mas quem não conheceu o cabo Tomé ? E que nunca apanhou uma "cardina" ?


Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! 

por Alberto Branquinho



− Eh,  pá! Deu a “maluca” ao Tomé. Ele vem aí.

− Qual “maluca”… Ele está é com uma “cardina” que nem se endireita.

O cabo Tomé aproximava-se daquele espaço chamado “bar”, feito de tábuas e de chapas de zinco. Vinha em tronco nu, debaixo de uma chuva contínua e miudinha, que há um mês caía sem parar. Trazia um guarda-chuva aberto, quase sem pano, na mão esquerda e uma garrafa de cerveja na mão direita. Tinha as divisas de cabo penduradas das orelhas. E berrava:

−  Cá o filho da Marianinha é o maior. Não há pai p'ra ele.

Repetia e repetia o discurso. E cantava:

O cabo festejava, assim, os vinte e três anos.

Não entrou no bar e atravessava a parada, em chinelos, calções e tronco nu, pisando água e lama. Sentia-se grande, agigantado pelo álcool, com a água a correr por ele abaixo. Sentia a cabeça do tamanho do rebentamento de uma granada de obus, a ferver, a ferver e a pôr-lhe à frente dos olhos pataniscas de bichas-de-rabear.

Era um entardecer cor de chumbo, com pequenas pinceladas de amarelo-rosa no horizonte, por cima da cobertura de zinco da caserna.

−  "Ó rosa, ó linda rosa, ó rosa"… Anda uma mãe a criar um filho… p’ra… p’ra…

Tropeçou e caiu de joelhos na lama, apoiado no cotovelo direito. Tentou levantar-se, mas o pé direito fugiu-lhe muito lá para trás. Até pareceu que o pé lhe ia fugir do corpo. Agarrou o pé com a mão direita e fugiu a garrafa. Puxou o pé, puxou, puxou, perdeu o equilíbrio, caiu sobre o lado direito e, depois, ficou deitado de costas. Ouviram-se gargalhadas do pessoal que, em volta e debaixo dos telheiros, observava a cena.

O Tomé atirou o guarda-chuva. Tentou abrir a braguilha, não conseguiu e rebolou sobre si mesmo, rindo, rindo. Cheio de lama, voltou a tentar abrir a braguilha, mas não conseguia.

 
−  Quero mijar. Eh, pá, abram-me aqui isto, qu’eu quero mijar.

Dois ou três tentaram levantá-lo.

 
−  Eh,  pá, eu só quero mijar.

Com a ajuda conseguiu levantar-se. Os que o ajudaram,  correram para debaixo dos telheiros. Conseguiu abrir a braguilha e, com a mão direita, procurava, procurava dentro dos calções, em dificuldades de equilíbrio.

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha.

Ajoelhou-se e desatou a chorar:

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha. Ai, minha mãezinha…

Levantou-se, escorregou na lama e caiu de novo.

 
−  Sou um desgraçado! O filho da Marianinha… Mãe, mãe, cortaram-me a gaita!

Chorava, chorava. As lágrimas corriam pela cara, misturadas com chuva e ranho. Tossia, tossia, engasgou-se e desatou a vomitar. Acudiram-lhe de novo.

Vomitava aos arrancos e estremecia-lhe todo o corpo. Levaram-no, amparado pelos sovacos.

Colocaram-no debaixo da água do “chuveiro” que corria dos bidões, ao lado da caserna. Deitaram-no na cama, ainda molhado. Chorava,  abraçado aos mais próximos, entre risos de uns e críticas de outros.

 
−  Este gajo é sempre a mesma merda.

−  Sou uma merda. É, sou uma merda… Mas não vou mais p’ró mato. Nã é, Zé? A gente nã vai mais p’ró mato, nã é,  Zé?

O Zé abanou a cabeça, concordando. O Tomé agarrou-o pelo pescoço, puxou e deu-lhe um beijo na cara.

−  A gente nã vai mais p’ró mato. Que vá o capitão, que leve o comandante e os oficiais todos. Que se fodam. P’ra que é a guerra? P’ra ganhar a taça? Que se foda a taça. Andamos aos tiros p’rás árvores. Os cabrões dos turras pintam-se de verde. Nã é,  Zé? A gente nem os vê. Deixa vir o alferes:  “Ó Tomé, tu hoje levas a bazuca.” ... “Leve-a você”!

−  Vá pá, tem calma. Vou-te buscar uma Pérrier.

−  Água?! Arranja-me uma cerveja.

 
−  Não. Tu já bebeste muito.

−  Apetece-me apanhar chuva.

 −  Não, tens que dormir. Faz-te bem.

−  Dormir? Ah.  Zé, a gente nã vai mais p’ró mato. Que se fodam. Um gajo quase na “peluda” e ir p’rá Metrópole num sobretudo de pau.

Teve um vómito e sujou a almofada.

−  Deixa lá. Está na hora do jantar. Queres que te traga alguma coisa?

−  Nã. Não.

Ficava mais calmo. Adormecia. O outro foi jantar.

No telheiro grande, coberto de zinco, que servia de refeitório, amontoavam-se para o jantar, apupando o cozinheiro.

−  Ide-vos foder! 'Ó tempo que não há frescos…

No meio do barulho das conversas ouviram-se, lá longe, para norte o som das “saídas” de granadas de morteiro pesado e de canhão.

Num instante era uma barafunda. Corriam aos magotes em várias direções, para as armas pesadas, para os abrigos, em busca das G-3 e cartucheiras.  As primeiras granadas começaram a assobiar por cima das cabeças, seguidas dos rebentamentos e dos ruídos que parecem loiça a partir-se.

Gritos, ordens, cheiro intenso, excitante a explosivos, pó, fumo, mais rebentamentos, gritos e mais gritos. Duas ou três granadas caíram dentro do quartel, voaram coberturas de zinco em placas retorcidas, pedaços de tijolo e cimento, vidros partidos. Um barracão começou a arder.

Dois grupos saíram a correr, pelas portas norte e leste, para cortarem caminhos de acesso. Parecia que o pandemónio nunca mais parava.

Começou a diminuir o fogo. Só pequenas rajadas de arma ligeira e vozes que interpelavam ou berravam ordens. Vultos apagavam o fogo com baldes de água. A serenidade voltou aos poucos. Havia movimentações para o posto de socorros. Alguns comeram como puderam o que, frio, ficara a aguardar nos pratos. Outros não saíram tão depressa dos postos ou dos abrigos.

Quando os primeiros voltaram à caserna, viram o cabo Tomé mesmo à entrada, nu, deitado de costas, de olhos espantados, como que olhando o teto de zinco, retorcido, enquanto um fio de sangue lhe escorria do lado esquerdo da boca, passava pelo pescoço e fazia uma poça de sangue debaixo da cabeça.

(Revisão / fixação de texto, links, título: CV / LG)


2. Comentário do editor LG:


Com a devia vénia, ao meu amigo e camarada Alberto Branquinho, bem como ao Carlos Vinhal,  achei que  "Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha!" é um título mais forte:  daqueles que não deixam ninguém indiferente: tem a força do calão, a dor do Tomé e a ironia trágica que só a guerra sabe criar.

"Humor de caserna" ?, perguntarãoo alguns dos nossos leitores, eventialmente chocados Sim, é um dos melhores contos da guerra colonial, que eu já li, uma narrativa  portentosa de  humor trágico: mistura o grotesco, a desolação e a ironia amarga da guerra da Guiné, que eu, o Alberto e muitos de nós conhecemos. 

A "cardina" do cabo Tomé, no dia em que fazia 23 anos, é, entre o patético e o cómico, um espelho da desumanização e do absurdo que a guerra  nos impunha, a nós, seus protagonistas. 

O final, abrupto e brutal, em três linhas e meia, é um murro no estômago: reforça a tragédia por trás do riso até então forçado. 

Não, não é só para a gente passar o tempo. É também para a gente pensar. E nos ajudar a indignarmo-nos quando vemos a nossa bandeira e o nosso fato camuflado serem usados indevidamente, na praça pública, em ambientes comicieiros, por quem não tem nada a ver com este filme e, no fundo,só pensa no seu umbigo (o mesmo é dizer, no seu ego de todo o tamanho).

3. Zé Teixeira,  Mário Fitas e Luís Graça comentaram em devido tempo:

(...) Porra! Se eu não tivesse o azar de ter passado pela Guiné, diria este tipo está a "mangar" comigo.

Depois de começar a ler, revi-me no cabo Tomé, até ao ponto da reviravolta, quando eles, os nossos "amigos" entraram na festa e fiquei arrepiado.

Veio-me à memória o Conceição Caixeiro: era de Lisboa, não bebia em demasia, era pacato e pachorrento, mas passava o tempo a cantar e a cantar morreu... Sabes aonde ? Na cagadeira, simplesmente porque estava a cagar, cantando como sempre e não ouviu a saída da granada que o vinha matar, nem o grito de vários colegas - Aí estão eles!

Ficou-se, com a nuca desfeita de encontro à parede da rectaguarda e só meia hora depois, quando à porta da enfermaria eu gritava de contente "Filhos da puta ! Cabrões ! Não há feridos", aparece  o Pedro, que faleceu há dias, e me disse: "Teixeira, vem comigo" e eu fui, para ficarmos os dois agarrados um ao outro a chorar, de desespero.

Ainda bem que escreveste. quanto me ajudaste ! (...) 


(...)  São momentos destes, que fazem esta Tabanca muito Grande. São estes os momentos em que nos tresmalhamos, nos escorregadios carreiros e nas neblinas cobrindo as bolhanhas.

Regredi! 21h00 a Companhia estava formada, o Meco (da Nazaré) segredou-me: "O  furriel  G... acabou de foder a prisioneira maneta."

A Companhia saíu. Madruga dia seguinte 05h00: o furriel  G... , o único a usar capacete, ficou com a cabeça em duas e o capacete com dois furos.

Maldita mata de Cabolol! Estavam à nossa espera!

Escreve!... Escreve, Alberto Branquinho,  mostra aos incrédulos o que foi chafurdar na lama, no álcool e na morte.

Sempre do tamanho do Cumbijã, o velho abraço.

Mário Fitas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009 às 23:44:00 WET 


(...) São estes momentos, Alberto, Zé, Mário, que nenhuma televisão do mundo (muito menos a nossa RTP) conseguiu filmar... É um quadro portentoso sobre as nossas misérias e grandezas. 

Obrigado, Alberto, pelo teu talento, delicadeza, ternura e compaixão com que falas, não de ti, mas de todos nós, camaradas da Guiné. E viva a nossa Tabanca Grande, que nunca será nem poderá ser política, social e literariamente correcta... Nem nunca precisará de pôr um bolinha vermelha ao canto superior direito... Que o nosso quotidiano também era feito de merda, umbigos, cus, caralhos, tomates, nervos, fel, coração, massa encefálica, medos e coragens, alegria e tristeza, vida e morte... E acima de tudo, camaradagem, o cimento que nos unia, para lá de todas as nossas diferenças, reais e imaginárias... Luís


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos


Lourinhã > Ribamar > c. 1959 > Da esquerda para a direita  os então padres franciscanos (Ofm - Ordem dos Frades Menores)  Horácio Neto Fernandes (1935-2025) e Júlio Alberto Maçarico Fernandes (1934 -  falecido, no Canadá, em data desconhecida)


De acordo com o   "livro da família Maçarico", tanto o Horácio  como o Júlio eram meus parentes: no caso do Horácio,  as nossas bisavós paternas, Maria da Anunciação e Maria Augusta,  nascidas por volta de 1860, eram irmãs;  no caso do Júlio, o  seu avô materno, Manuel Filipe Maçariço, era o primeiro dos cinco irmãos, machos, da Maria da Anunciação e da Maria Augusta.  
Um outro irmão do clã Maçarico foi  José Martinho.



 José Martinho ficou conhecido por Frei José de Cristo (Ribamar, Lourinhã, 1861 - Varatojo, Torres Vedras, 1937). Vestiu o hábito aos 16 anos, em 1888, iniciando assim o Noviciado. Trabalhou e deixou obra artística em vários conventos  (Montariol, Braga; Colégio de Tuy, Galiza; Varatojo, Torres Vedras) como carpinteiro-entalhador, arte que já vinha da famíla. Morreu aos 76 anos, com quase meio século de vida religiosa. Era tio-avô do Júlio, e tio-bisavô do Horácio (e meu...). 

O Júlio foi missionário, OFM, em Moçambique (João Belo, Mavila, Zvala, Maxixe). Regressou à metrópole em 1970. Saiu da ordem, franciscana, nessa altura. Emigrou para o Canadá, lá casou e lá morreu, em data que desconheço.

Fui de resto à missa nova de ambos, em agosto de 1959, com uma semana de intervalo. Eu tinha 12 anos. Lembro-me da terra (casas, ruas...) toda engalanada com ramos de palmeira, eucalipto, flores, numa alegria indescritível. Ainda não havia igreja, na altura Ribamar nem sequer era freguesia. Começava-se a ganhar bom dinheiro com a pesca da lagosta. E os filhos da terra deixaram de ir para o Varatojo, começavam a estudar no Externato Dom Lourenço, na sede do concelho, Lourinhã, inaugurado em 1958.

Há um quarto Maçarico, o João Maria Maçarico, nascido em 1937, que também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico.


Ribamar da Lourinhã era uma terra vizinha de Varatojo, sofrendo portanto a sua influência. A restauração da Província Portuguesa da Ordem Franciscana ou dos Frades Menores (OFM) oficializou-se no final de 1891, após a extinção das ordens religiosas em 1834. Embora tenham sido expulsos, os franciscanos organizaram o seu regresso progressivo, celebrando o 1.º centenário desta restauração em 1991. Mas em 1888 o "Maçario" José Martinho já era noviço no Varatojo.

A família Maçarico tinha tradição na arte da construção naval e da capintaria. (LG)

Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002,  pag.123.

PS - Américo Maçarico (foto à direita, acima),     que era 1º ten ref da Armada, morreu  aos 80 anos, em Ribamar, em finais de 2024.  Nasceu em Ribamar, em 1943. Fez diversas comissões no ultramar:   Angola (1964/66), Moçambique (1967/69), Timor (1972/74).Tinha mais de 41 anos de serviço na Armada. Passou à reserva em 1999.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 

No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  seis postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

(vii) até ser mobilizado para a Guiné, em 1967, ele conta-nos, muito sucintamente, o que foi a sua vida. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution" que eram os ainda os seminários das ordens regulares, e nomeadamente da Ordem dos Frades Menores (OFM): Montariol / Braga, Varatojo / Torers Vedras, Leiria, Carnide / Lisboa...

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 

Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  ainda antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.


Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro.  




História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII:   Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

por Horácio Fernandes


4. 5. Ordenação e Missa Nova (12)

Seis meses antes, juntamente com mais 4  colegas, entre eles o meu primo (13), comecei a aprender as cerimónias da Missa, com a ajuda de um Mestre  de Cerimónias. 

Não cabia em mim de contente. Ia  ser a minha verdadeira entronização em Arribas do Mar [lRibamar, Lourinhã], perante os olhares atónitos daquela gente. 

A cerimónia na Sé Catedral de Lisboa, com  a assistência dos meus pais e de muita gente de  Arribas do Mar, foi o primeiro passo de uma corrida  alucinante, que ia durar todo o mês de agosto de  1959. 

Depois, foi a primeira missa no convento [na Luz, Carnide, Lisboa], com  os recém-ordenados. Todos queriam participar e  beijar-me as mãos, ainda recém-ungidas e sentia-me  importante. 

De casa recebia cartas a revelar-me todos os  preparativos da grande festa. O meu primo  [Júlio Fernandes],celebraria num domingo e eu no seguinte. Uma  festa não ensombrava a outra. A minha festa, asseguravam-me, era mais de todo o povo.

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A Missa Nova, na minha terra, foi além de todas as expectativas. A cerca de um quilómetro de distância, foi toda a população esperar-me com foguetes e procissão a preceito. 

Estavam presentes as autoridades da terra e o meu padrinho de Missa Nova foi o Presidente da Câmara [João Ferreira da Costa, presidente da edilidade, entre 1958 e 1970].    

A missa foi cantada, pelos meus colegas que vieram acompanhar-me. O significado foi maior, porque foi no local da futura igreja, com toda a solenidade. A minha família era cumprimentada por todos e recebeu também as honrarias. Eu nem sabia para onde me havia de voltar, com tanta gente a querer beijar-me a mão de recém-sacerdote.

Seguiu-se o almoço para dezenas de convidados, no recinto, à frente da minha casa toda engalanada e servido pelas pessoas da terra. As despesas foram todas cobertas com ofertas do povo de Arribas do Mar. 

Não me enganara. O povo aderiu entusiasticamente. Tudo se conjugou, portanto, para ser uma festa de arromba. Dormi essa noite em casa dos meus pais, mas ao outro dia vieram buscar-me. 

Regressava agora ao quotidiano do ser padre.

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Nota do autor:

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado

Nota do editor LG

(13)  Falhou esta nota de riodapé. O primeiro era o Júlio Alberto Maçario Fernandes, que seria missionártio OFM em Moçambique, até 1970.

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4. 5. Depois de 13 anos de inculcação do 'habitus' sacerdotal, Francisco com 23 anos feitos já não era o jovem tímido de fato preto e chapéu na cabeça, mas sentia segurança da própria legitimação.

Francisco assumia que foi escolhido e  ungido para sempre (Tu es sacerdos in aeternumentre 47 companheiros e detinha o poder simbólico de administrador do sagrado: perdoar pecados, fazer filhos de Deus pelo baptismo, celebrar a Eucaristia, pregar a palavra de Deus.

Tinham-lhe inculcado que a sua presença era requerida pelos pobres pagãos, que lá longe, em África, pediam, suplicantes, a graça do baptismo para poderem ir para o céu. Sem pensar em compensações terrenas, havia de ser querido pelos fiéis e combatido pelos infiéis, por ser o representante da Santa Igreja «a Nossa Mãe".

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As representações de criança transformaram-se em realidade e não obstante o duro caminho que teve de encetar,  sentia-se recompensado.

À medida que se aproximava o momento da Ordenação, Francisco sentia todo o protogonismo de quem tinha sido vencedor. Tinha conseguido ser o herói não só do seu avô, como dos devotos que tinham confiado nele.

Afinal era a mesma geração que o viu ir para o Seminário, agora mais amadurecida e com mais dinheiro. O povo de Arribas do Mar, culturalmente, mantinha ainda a subordinação ao sagrado, embora estivesse a dar os primeiros passos na senda do progresso económico. O motor substiuira a vela e os barcos de maior calado ganharam outra autonomia. Com a descoberta de novos bancos de pesca e equipados de novas tecnologias, as estadias de 8 e 15 dias em Sesimbra, Cascais, Setúbal e Algarve, abriram brechas no seu ruralismo fechado.

Francisco, alheado dos problemas sociais e vestido do seu duplo hábito, apenas via o povo cristão que era preciso alimentar da palavra de Deus. As suas representações do ser padre e missionário estavam ainda intactas. Afinal, pensava, tinha valido a pena tantos sacrifícios

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5.  Missão

A lógica da instituição era geralmente encaminhar os padres mais novos para os Colégios, os tidos como mais «observantes» (14)  para Mestres de noviços e coristas, e os restantes para as Missões. Para Prefeitos de Disciplina eram escolhidos os maiores domesticadores, sem qualquer formação em Pedagogia. Desta normalidade, ficavam de fora os favoritos na instituição, que, ou por mérito próprio, ou com algum patrocínio,tinha acesso aos saberes da Igreja, numa Universidade transnacional, trampolim mais directo para o poder.

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Nota do autor:

(14) Que, no discurso simbólico, significa, mais conformados com o 'habitus'.

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Francisco, pautado pela normalidade, nunca questionou as tarefas que lhe destinavam os Superiores. Construira, contudo, a par das suas representações simbólicas, o desejo de ajudar a família. O 'habitus', contrariamente ao estatuído, não tinha desenraizado Francisco da primeira instância de socialização. O sangue falava mais alto que o 'habitus'.

Verdadeiramente, Francisco nunca interiorizou que tinha deixado a sua família, e tinha se integrado na família institucional, onde foi domesticado. Nunca lhe deram o afecto e o carinho de uma família. Os superiores não eram os pais. Eram os chefes. A casa não era dele, por mais que no Noviciado e Coristado lhe tentassem meter isso na cabeça. Aí comia e dormia e passava a maior parte do tempo, mas isso não bastava para a considerar sua casa. Nunca encontrou aí um espaço familiar, mas um lugar em que alguém mandava e obrigava a cumprir os Regulamentos e os outros obedeciam, ou procuravam refúgio em famílias amigas.

 O poder sacralizado dos Superiores, envolto em cenários simbólicos de investidura medieval, nunca foram interiorizados por Francisco. A família religiosa, eclesial, nunca substituiu a geneológica. Desde que o desenraizaram das suas raizes familiares, viveu sempre órfão, agarrado às suas representações.

A missão trazia ainda o inevitável contacto com os problemas afectivos da vida real, que tão zelosamente tinham sido escondidos no Colégio Angélico,  Noviciado e Coristado. Os maiores clientes habituais de Francisco eram do sexo feminino, que procuravam na relação espiritual o alívio catársico e simbólico para as suas preocupações e angústias.

Contudo, o 'habitus', estava ainda vigilante qual Prefeito, embora imperceptivelmente fosse abalando as estrumas panópticas ab intra e ab extra.

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Cenário 1 - Professor no Externato,   Capelão de freiras nos dias úteis e servidor   de famílias ricas aos domingos.

O lugar que os Superiores me   destinaram, sem o mínimo de interferência da   minha parte, foi o de professor no Externato,  que funcionava no rés-do-chão do Seminário [em Leiria]

Fui incumbido de dar aulas de Ciências   da Natureza, disciplina em que tinha que estudar   mais que os alunos. Contudo, à força de   persistentes apelos à memória, os meus   alunos não fizeram má figura no liceu.  

Nos dias de semana, o despertar era às  7 horas e ia celebrar missa a um Colégio de  freiras. Ao domingo, levantava-me ainda mais  cedo, pois havia que celebrar missa para os  lados de Setúbal, numa quinta de pessoas muito importantes no meio financeiro (14A),.

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Sempre com a veste regulamentar e sandálias nos pés descalços, fosse inverno ou verão, apanhava o eléctrico até à Baixa, descia a pé até ao Terreiro do Paço e aí tomava o barco para Cacilhas. Depois era a camioneta para uma vila próximo de Setúbal  onde um empregado da quinta me esperava numa furgoneta de caixa aberta.

Cheio de entusiasmo fazia todos os domingos, e dias santos este percurso para; celebrar missa para meia dúzia de criados. Os patrões, a quem estavam reservados genuflexórios de veludo, só assistiam à missa, nas festas principais do ano, mas, assim, ficavam com a consciência tranquila.

No Natal e Páscoa pedia licença para ir um ou dois dias antes, pernoitando numa casa anexa dos hóspedes. Aproveitava para ensaiar cânticos com o pessoal da quinta. 

Numa festa de Natal fiquei muito admirado, porque pedi a uma filha dos senhores para acompanhar os cânticos ao órgão da capela e recebi, como resposta, que não acompanhava os criados.

Conservo, contudo, outras recordações: futuros pretendentes aos tronos europeus e embaixadores participavam nas recepções. Só foi uma vez convidado a estar presente e, não obstante a amabilidade de todos, senti-se usado como um adereço desnecessário.

Ao fim do mês era portador de um cheque para o Seminário, não sei de quanto; porque nunca abri o envelope. Por vezes, aparecia péla quinta um capelão militar, amigo do filho dos senhores, que cumpria o serviço militar, mas não me ligava. Alinhava com o filho do patrão a transpor obstáculos de terra batida, em jeito de diversão, onde os carros novos saiam todos amachucados. Conservo, sim, na memória, um ou outro  passeio, nas alamedas da quinta, de charrete,  com o filho do caseiro, a meu pedido.  

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Entretanto um pensamento me  perseguia: ajudar a minha família endividada. A primeira coisa que fiz, foi pedir uma entrevista ao Provedor  Misericórdia de Lisboa. Expus-lhe a minha   situação e consegui uma bolsa de estudo para a minha irmã, que tinha com grande sacrifício   de meus pais tirado o 2º ano e queria ser enfermeira. 

Entretanto, a mais nova, também   quis estudar. Como os meus pais não podiam  custear os estudos, arranjei uma família algarvia, sem filhos, que a recebeu. Pode assim estudar o 1 ° e 2o anos, sem nada pagar.  

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Nota do editor LG:

(14A) No livro de 2009, o Horácio Fernandes diz que se tratava da Herdade da Comporta.
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Cenário 2 -Prefeito de Disciplina no Colégio Angélico

 Entretanto, abriu outro Colégio Angélico na região Centro para captar novas vocações. Sob pressão das instâncias internacionais da Igreja (...),  os alunos passaram a fazer exame ao liceu, em regime de  ensino doméstico. Registei o meu Diploma do Ensino Natureza Particular no Liceu Nacional da cidade   [Leiria] e fui assumir o cargo de Prefeito aos 26 anos, tendo como Subprefeito um colega mais novo.

 No mesmo edifício havia ainda um asilo, onde era Director também um colega. Quando me nomearam,sem me consultar, tomei conhecimento que o Colégio  tinha um ano de experiência liceal, mas sem resultados satisfatórios, sobretudo a Ciências e Matemática. Era preciso reabilitar a sua imagem.

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O primeiro contacto com Colégio Angélico ficou-me bem marcado na memória. Comecei a receber umas cartas dirigidas ao «Senhor Padre Prefeito» e abri-as. Era a correspondência dos alunos para o meu antecessor. 

Abri uma ou duas e fiquei boquiaberto: os alunos, na sua inocência falavam de momentos de intimidade, que me deixaram estupefacto. Aconselhei-me com o colega e. a partir daí, todas as cartas dirigidas ao ex-Prefeito eram queimadas, sem as abrir.

Estava-se em 1962 e tinha 26 anos, Tomei a peito a tarefa, mas não descurei a promoção social e material da minha família. Trouxe para essa cidade a minha irmã mais nova, para prosseguir a Escola Comercial. Dormia em casa de uma senhora amiga, mas preparava as lições e almoçava no Colégio Angélico.

Era preciso mostrar resultados no liceu, a qualquer custo. Aceitei o desafio e obrigava os alunos a multiplicarem as horas de estudo. 

Os métodos para conseguir manter cerca de 100 alunos em silêncio e a estudar, horas a fio, num largo salão, eram os mesmos com que tinha sido formado: disciplinação a todo o custo. 

Assumi o papel de Prefeito e os métodos que sempre vira praticar. Afinal os Regulamentos eram os mesmos: o ritual da formatura, do silêncio, da domesticação do corpo e espírito. 

Por feitio próprio, não me isolava dos alunos e jogava a bola com eles. Contudo, o Prefeito era o guardião da disciplinação e os castigos dependiam unicamente da representação que ele fazia do delito e tinha sempre razão.

A Ciências já vinha treinado do Externato, mas a Matemática tinha grandes dificuldades. Assumi o desafio de a reaprender e obtive óptimos resultados no liceu, à custa da repetição e mecanização dos exercícios do Palma Fernandes.

Mesmo assim, era um pouco diferente do Colégio Angélico, onde estudara os primeiros cinco anos [em Montariol, Braga]. Os tempos era outros. Os alunos tinham mais contactos com as famílias. Iam a férias do Natal, Páscoa e fim do ano lectivo e podiam receber visitas eisair com familiares, ao fim de semana. Eram quase todos filhos de emigrantes.

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Esta preocupação pela minha fámília, levou a que muitas vezes deixasse o Colégio ao fim da tarde, em conluio com o meu colega,  e fosse visitar os meus pais, de camioneta, a cerca de 130 quilómetros.

Anexo ao Colégio, havia o Seminário de Filosofia. Estava-se nos anos 60 e os Coristas com quem ia por vezes jogar futebol, andavam em autêntica revolução. De noite, tiravam o hábito e iam às escondidas para o cinema da cidade. Tinham um jornal clandestino, 'O Esgravilhão', onde criticavam os Mestres e as normas. Faziam piqueniques com produtos furtados ao Seminário, à noite, durante o silêncio e ninguém conseguia contê-los. 

Iniciara-se a assim a revolta que iria continuar pelos anos 60 e multiplicar as deserções (...).

Como Prefeito do Colégio Angélico, estava relacionado com as famílias dos alunos, com os clientes do Seminário e com o pessoal feminino que trabalhava para o asilo e o Colégio. Era o primeiro contacto informal, mas assumido, com o sexo feminino, depois da repressão de 13 anos.

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 124 -128 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste ds série > 27 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre
 
Vd. postes anteriores: