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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28413: Historiografia da presença portuguesa em África (547): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (15): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Era esperável, nesta fase da narrativa, que o capitão Brosselard nos desse mais detalhes sobre o que apreendeu da economia do Geba e nos desse um quadro mais aprofundado de Bissau. O que aconteceu é que nos veio contar as peripécias da viagem do seu colaborador pelo rio Corubal, onde foram apanhados pelo macaréu, acha que este rio, ao entrar no estuário do Geba, devia continuar a chamar-se rio Corubal, e, abruptamente, a narrativa já está em Ziguinchor, fala de Carabane com bastante pormenor e vai depois visitar a ponta Zozor. Iremos ver adiante quais foram as razões políticas e económicas que levaram a França a teimar em ficar com o controlo de Ziguinchor,mesmo sabendo da presença portuguesa ali há séculos.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 15
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, o Capitão Brosselard descreve Bissau e as potencialidades económicas do rio Geba e dá-nos a saber que o senhor Galibert deixou o Kandiafara, viaja com uma lancha desmontável, enviou por via terrestre o seu intérprete e dois volumes de carga, impossíveis de transportar numa embarcação tão frágil, a lancha comporta um piloto, cinco homens e uma bagagem de 200Kg.

Damos novamente a palavra ao oficial francês. Na primeira parte da sua exploração, o senhor Galibert caiu num rápido do rio e correu grande perigo, vencido este foi surpreendido pelo macaréu que varria a foz do Corubal. Graças a um bloco de pedra no qual se puderam refugiar, os exploradores do Corubal escaparam a uma morte certa. Mas as águas não paravam de subir: foi um salve-se quem puder geral; os homens agarraram-se atrás do barco, que flutuava e ameaçava ser arrastado descontroladamente, abandonando no meio das ondas os cinco náufragos. Privados de víveres e de água doce há mais de um dia, os viajantes chegaram a Gã-Matjetja onde vive um rendeiro da Casa Blanchard que tem neste lugar uma casa telhada.

Mal chegados, acorreram de todas as direções ao mesmo tempo crianças, mulheres e velhos. Queriam ver a embarcação, olharam para ela como se fosse um ídolo, sem ousar aproximar-se. Quando se desmontou o barco e cada um dos viajantes guardou as partes desmontadas na roupa, as pessoas do lugar recusaram acreditar no que os outros diziam ter visto. Foi preciso prometer que se iria remontar o Breton para os deixarem sossegados. O batuque ressoava pelos arredores. Acorria gente das povoações Biafadas onde a notícia se espalhara.

No dia seguinte o senhor Galibert entrou no estuário do Geba onde se espraia o Corubal com uma largura de 1500 a 2000 metros. É, portanto, este rio que continua pelo estuário falsamente denominado de Geba (?). Em Bissau, o nosso companheiro organizou a coluna de abastecimento, de acordo com as instruções que recebera, e dispôs-se a cumprir a segunda parte da sua missão.

A 13 de março, ele embarcou acompanhado de todos os franceses bem como das autoridades portuguesas no veleiro Jean-Baptiste. Este afilado veleiro, célebre pelas viagens do senhor Olivier, Visconde de Sonderval, tinha nos seus porões os abastecimentos das comissões que o senhor Galibert devia fazer chegar à povoação de Geba.

Ele pensava ter de percorrer um rio imensamente largo, como vem indicado nas cartas geográficas. Não encontrou no princípio mais do que um leito de 300 metros, bordejado de lamas cobertas por arvoredo próprio do tarrafe, depois curvas e mais curvas, de modo que o Jean-Baptiste, veleiro de 30 toneladas, não podia navegar a não ser rebocado por uma canoa.

Em Fá, o senhor Galibert, ao tomar conhecimento que o barco tinha mais duas marés até chegar a Geba, partiu a pé com um guia da região.

Comentário meu: a narrativa dá surpreendentemente um salto, o Capitão Brosselard vai de imediato falar de Ziguinchor.

Uma curta navegação conduziu a comissão francesa à foz do Casamansa. Percorrendo um território de aluviões, este rio tem larguras bastante diferentes: até à altura de Selho, elas variam de uma a três milhas. As margens, até a uma curta distância da foz, são constituídas por uma série de ilhas sulcadas por bolanhas; elas diminuem à medida que sobe o rio, estão rodeadas de enormes mangueiras e de banhos de lama muito extensos; são muitas vezes cultivadas com arrozais. Ao longe, despontam florestas impenetráveis.

Todos os navios que entram no Casamansa param em Carabane, onde está instalada a alfândega. Estando o barco ancorado, o aspeto é bastante pitoresco: à esquerda, um belo estabelecimento pertencente à Casa Marcel e Prom, e um cais que permite a acostagem de pequenas embarcações; alguns belos poilões bordejam esta parte do rio; temos depois a escola do padre missionário e, contígua, a capela em madeira.

Na proximidade destes edifícios, há habitações contruídas à europeia representando os estabelecimentos das Casas Blanchard, Irmãos Maurel e Cª; as casas dos indígenas perfilam-se atrás; alguns conjuntos de palmeiras dominam todo este ambiente e, mais adiante, perto da direita, o posto de Carabane destaca-se pela brancura luminosa das suas paredes.

Uma alameda plantada de poilões e palmeiras bordeja o caminho que vai do posto à margem do rio. A natureza dos fundos obriga a que os navios fiquem ao largo para fazer as operações de carga e descarga em Carabane; e o estado do mar, raramente calmo, torna muitas vezes difícil o transbordo das embarcações para terra.

Na ponta Zozor, cuja beleza é admirável, os pescadores instalaram o seu aldeamento à sombra de uma maravilhosa floresta de palmeiras. Do rio vê-se um tipo de casa quadrangular contruída em madeira sobre estacas, estas têm cerca de dois metros de altura. Tendo sabido que esta habitação pertence à patroa e proprietária do lugar, chamada pomposamente pela gente da terra a rainha do Zozor, desci a terra para a cumprimentar. Acompanhado do Tenente Clerc, fui bater à porta da casa senhorial. Foi necessário subir por uma escada sobre a plataforma que dá acesso à habitação. Uma negra fez-nos entrar na casa. A princesa de Zozor é uma mulata possante, casada, ao que parece, com um funcionário de quem vive separada. As linhas do seu rosto mantêm-se bonitas, apesar de bem fornecidas de carnes.

Mandou-nos sentar nuns miseráveis escabelos e sentou-se num sofá que estava em cima de um pequeno estrado. É evidentemente ali que esta representante do regime feudal faz justiça.

Após cumprimentos, despedimo-nos desta Alteza e fomos explorar a região vizinha do domínio de Zozor.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Porto de Ziguinchor
Imagens e bilhetes postais antigos de Ziguinchor, retirados do Google França
O Casamansa no contexto da República do Senegal

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 30 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28391: Historiografia da presença portuguesa em África (546): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (14): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28391: Historiografia da presença portuguesa em África (546): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (14): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Em primeiro lugar uma explicação. Sou um tradutor não qualificado, depara-se-me em cada uma destas páginas termos que os dicionários nem sempre ajudam. O Capitão Brosselard fala em sabre, seguramente que quer dizer catana ou machete; a palavra marigot traduz-se por pântano nesta narrativa não tem tal sentido, tem a ver com bolanha; falando de árvores, sãos empre árvores enormes, da família Bombax, podem ser poilões ou outra coisa, são sempre árvores gigantescas, à cautela ponho sempre poilões. Este trecho da narrativa que envolve a descrição de Buba, onde se volta a relevar o estado de destruição e completa ruína em que se encontra o Forreá, a passagem por Bolama e depois Bissau, onde voltamos a saber que a generalidade do comércio está na mão de franceses, e Brossselard não esconde que o Geba pode transformar-se num potentado agrícola. Caminhamos a passos largos para a viagem até ao Casamansa e aqui findará a viagem do Capitão Brosselard que está a escrever um relatório para as suas autoridades, como é evidente há no documento informações políticas pertinentes.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 14
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

O Capitão Brosselard conta com muita vivacidade o mal-entendido que ocorreu à sua chegada a Buba, vários atiradores tinham feito fogo para o ar para pedir ajuda, os Biafadas vieram de catana em riste temendo um ataque dos Fula-Cundas, desfeita a trapalhada, a comissão francesa foi recebida pelo comandante de Buba, e Brosselard mostra-se impressionado com a postura militar da força portuguesa. Passamos-lhe agora a palavra.

A guarnição de Buba é de 50 homens, comandada por um oficial às ordens do Comandante da Praça. O recinto é formado por uma proteção contruída com peças de madeira bem apertadas entre si e solidamente enredadas. O dispositivo defensivo possui quatro peças de artilharia e quatro metralhadoras, a instalação militar é representada pela habitação do comandante, uma construção com rés-de-chão e primeiro andar.

O rio Grande de Buba não é um rio; é uma espécie de fiorde (entradas de mar entre alturas declivosas), muito recortado por numerosas calhetas (pequenas enseadas) que se ramificam. Buba está situada na extremidade de um desses numerosos pontos formados pelo fiorde principal com os seus braços laterais. A bolanha de Guinala (Brosselard refere sempre a palavra marigot, entre nós pântano, obviamente que tem a ver com campos alagados) é um dos braços mais importante do rio Grande de Bolola; foi sobre as suas margens que se estabeleceram os primeiros colonos portugueses.

Buba é considerada o local mais salubre da Guiné. Aliás, de um modo geral, o rio Grande de Bolola é salubre. O estabelecimento de Bambaïa, propriedade de uma casa francesa situada sobre uma ponta, à entrada deste vasto fiorde, frente à ilha de Bolama é considerado como o sanatório desta região costa africana.

Não se vê nenhuma povoação nas margens do rio Grande, elas estão no interior das enseadas. Veem-se somente sobre os pequenos promontórios algumas feitorias e armazéns, outrora florescentes, hoje arruinados e abandonados.

O Tenente da Marinha Hallez, Comandante da Mésange, informado da presença da nossa missão em Buba, aparelhou e veio fundear a três milhas da povoação. A missão francesa e os oficiais portugueses embarcaram neste aviso e regressaram a Bolama em 27 de março. É a época mais ativa do tráfico dos trabalhadores. Na Praça da Feitoria Maurel e Prom, os negros cortam as bolas de borracha para lhes retirar as pedras fraudulentamente introduzidas; as mulheres e raparigas transportam cargas de amendoim e uma montanha desta leguminosa está no pátio interior. Podemos observar o tipo Fula muito puro destes carregadores. É uma família principesca do Forreá que teve de fugir depois da deposição do rei Bacar Guidali. Estes infelizes exilados estão reduzidos à miséria. No dia seguinte, a Mésange partiu para Bissau.

Vista do mar, Bissau lembra uma pequena cidade da França; as casas estão próximas umas das outras e contruídas à europeia, os tetos estão cobertos por telhas; o recinto e a cidadela, do que nos apercebemos das muralhas, dão a ilusão de uma praça-forte. Existe um desembarcadouro que, na maré-alta, permite às embarcações que possam operar o desembarque das mercadorias; mas quando se desce a terra durante a maré-baixa o desembarque é difícil e, como em Bolama, tem de ser feito às cavalitas.

As ruas estão nitidamente desenhadas pelo alinhamento das casas, e estas estão bastante bem mantidas. O mercado realiza-se perto da aguada, à sombra de grandes poilões; é muito animado pela presença da gente de Bissau, de Manjacos e Balantas que põem à venda laranjas, bananas, galinhas, porcos e alguns legumes.

Em Bissau só há estabelecimentos comerciais franceses. No nosso ponto de vista, a situação desta feitoria é bastante superior à de Bolama. As grandes embarcações que hesitarão sempre a difícil navegação no desembarcadouro do rio Grande de Bolola, devido aos bancos de areia. Poderão vir sem perigo a Bissau. Durante as marés-altas os navios de uma certa tonelagem podem subir até Geba, situada sobre o rio do mesmo nome, cujas margens têm terras muito ricas. Aqui se cultiva um excelente amendoim, e também arroz, cera, coconote e borracha. Esta região possui também imensas manadas. O amendoim de Geba pode rivalizar com o de Cayor, e serve para a preparação de óleos de primeira qualidade.

As casas comerciais têm, vai para alguns anos, plantações de cana-de-açúcar no rio Geba, para a preparação de aguardente e assim evitar os pesados direitos alfandegários sobre álcoois à entrada na Guiné.

A população de Bissau compõe-se de dois elementos bem diferentes. O primeiro compreende os naturais; o segundo gentes de diversas etnias, todos cristãos e fiéis a Portugal. Estes têm o nome de Grumetes; é com eles que se armam as embarcações que sobem o Geba.

Recorde-se que o Sr. Galibert tinha deixado Kandiafara em 29 de fevereiro, com uma lancha desmontado e uma escolta composta de nove carregadores, três estivadores e um intérprete. No dia seguinte chegou a Chan-E-Biro povoação situada a uma hora de Koliba; e, no dia seguinte, atravessou uma sucessão de colinas e ficou surpreendido por se encontrar diante de um rio com uma largura de 500 metros.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Gravura representando trajes típicos da Senegâmbia, à venda na Galerie Napoleon, Paris, com a devida vénia
O cais do porto de Bolama em 1912
Ruínas de Bolama, imagem retirada do site Saiyu Travel Co. Ltd
Ruínas de Bolama, fotografia de Francisco Nogueira, publicada no livro Bijagós Património Arquitetónico, Tinta-da-China, 2016
Fotografia de Sorry Dara, chefe da Província de Telko, Guiné Francesa

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28371: Historiografia da presença portuguesa em África (545): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (13): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28371: Historiografia da presença portuguesa em África (545): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (13): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Confesso que por vezes me maravilham as descrições do Capitão Brosselard, é verdade que estamos num período cultural que deu pelo nome de naturalismo, com um uso na literatura e nas artes plásticas de um especial relevo a todos os elementos de natureza, privilegiando a parte sensorial, a observação cuidada sobre as pessoas no seu meio, etc. O relato, como o leitor se apercebeu, é quase um diário, tem um especial destinatário, as autoridades que virão ou não a aprovar as decisões tomadas pelas comissões lusa e francesa. O que há a destacar neste texto é o exame que ele faz da beleza das Fulas, da ruína em que se encontra todo o Forreá, devido às guerras inter-étnicas e não deixa de nos assombrar o elogio que ele faz à tropa portuguesa em Buba. Dentro em breve os delimitadores irão para norte, iremos assistir ao adeus do Casamansa em português.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 13
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, a coluna francesa às ordens do Capitão Henri Brosselard desloca-se para a colónia portuguesa, estão definidas as fronteiras na região sul. Dotado de um grande espírito de observação, o oficial descreve travessias, riachos, florestas, populações. Veja-se o que ele nos diz dos Fulas em Kevel:
“No chão Fula, eles gozam, em geral, de pouca consideração. Têm o estatuto de rendeiros ou feitores dos chefes que lhes pagam em proteção. Os que temos encontrado não parecem mestiçados, como a maior parte dos seus congéneres, parece que preservam o seu tipo de origem. A sua cor é bronzeada (significa que se trata da sub-etnia Futa-Fula), cor do café ligeiramente queimado. As raparigas são graciosas, algumas são mesmo bonitas; os seus olhos grandes com longas pestanas pretas têm uma expressão de doçura incomparável; os seios têm uma forma notável; os seus membros são bem feitos, os seus braços têm as extremidades finas; as suas pernas são mais robustas que magras. As raparigas Fulas herdaram a beleza das suas ancestrais, mas elas são mais escuras; porém, conservam estes grandes olhos velados de negro que dão um delicado encanto à sua fisionomia.”

Continuando na primeira pessoa do singular:
Pelas nove horas, a vanguarda da coluna e os oficiais entram em Contabane. Esta povoação é a maior do Forreá, a sua povoação estima-se entre 1000 e 1500 habitantes, o povoado está situado na margem direita do rio Gounaba. Estamos nos últimos dias da época seca; os indígenas estão concentrados a fazer buracos para recolher uma água estagnada. Percorremos os dias seguintes para lá de Contabane, uma região coberta de povoados e bem arroteada (desbravada), infelizmente a situação política não permite ainda que se pratique o cultivo; pastavam por toda a parte manadas de bois e vacas. Os riachos são numerosos; correm em geral para o Combidiah (Cumbijã) que é um afluente entre o Cacine e o rio Grande de Buba, porque as suas nascentes (?), que fizemos o reconhecimento, são muito mais a leste que as do Cacine. Todos estes riachos estão rodeados de bosques impenetráveis com árvores de grande porte.

A 23, acampámos perto de um riacho vizinho de Guidali e esperávamos chegar a Buba no dia seguinte. O Sr. Oliveira seguia-nos com um dia de atraso, com a sua coluna.

Para retemperar as forças dos homens da nossa coluna, os cozinheiros estiveram ativos toda a noite e confecionaram uma pantagruélica refeição de arroz e cuscuz, a que se juntou carne de vaca. Come-se à luz das fogueiras e pelas cinco da manhã pomo-nos em marcha. Hoje o despertar teve lugar antes da hora, devido à invasão de formigas que queriam tomar conta de tudo.

Atravessámos uma povoação de nome Kolibouïa onde ficámos surpreendidos por encontrar casas construídas à europeia, mas que estavam em ruína. Foram outrora a residência de comerciantes que abandonaram a sua atividade no Cumbijã, como outros abandonaram Cacine e o rio Grande de Bolola.

Continuámos a nossa marcha na direção de Bolola. Esta povoação compõe-se de muitos grupos de casas; cada grupo está rodeado de uma dupla proteção de vimes entrançados numa malha apertada; cada grupo forma uma pequena cidadela e estas cidadelas têm entre elas posições de defesa. Estas cidadelas estão dispostas em terreno descoberto e circunscritas de um lado, ao alcance de tiro de espingarda, por uma curva de riacho que o mato denso torna intransponível. Outros pontos de defesa estendem-se pela floresta, desbravada e ao alcance do tiro de espingarda, mas dificilmente praticável para lá da orla. Só se pode chegar por campo aberto através do caminho de Buba ou o que vai para Kolibouïa.

Perto de Bolola encontramos o nosso amigo Mahmadou-Paté, no meio do exército que ele já exibira em Simbéli. Os guerreiros conversam em círculo, sentados no chão, a espingarda sobre as pernas. Apesar da insistência do rei, que queria que ficássemos mais tempo, continuámos para Buba e após uma marcha rápida facilitada pela natureza do caminho atingimos o rio Grande de Bolola.

Estava maré-alta, era imprudente, na ignorância dos lugares onde se podia passar a vau, atravessá-la. Do ponto onde nos encontrávamos apercebemo-nos que a 2Km a montante do rio estavam os telhados de Buba. Para se pedir uma embarcação era preciso chamar a atenção do comandante da Praça ou dos habitantes da outra margem. Fez-se uma grande fogueira, arderam à mistura árvores enormes e três atiradores deram tiros para o ar, regularmente espaçados para fazer saber que era um sinal europeu.

Inesperadamente, e para nossa total surpresa, vimos os negros de Buba acorrer da outra margem, armados de catanas e espingardas. Chegam pela margem a 200 metros onde nós descansávamos à sombra das árvores. Agrupam-se, falam entre si e precipitam-se sobre nós lançando gritos que parecem ameaçadores, vêm em direção dos nossos atiradores. Estes, um tanto embaraçados, preparam-se para ripostar a tiro; nós apressámo-nos a chamá-los, batem em retirada, gritando aos outros que não vínhamos fazer guerra, precisávamos simplesmente de uma embarcação. Enfim, os outros chegam e cercam-nos, parecem hostis. Para grande surpresa nossa vem o atirador Semba d’Yaye anunciar que tudo estava esclarecido.

Os Biafadas temiam tratar-se de um ataque dos Fula-Cundas, estavam agora esclarecidos da situação e os nossos inimigos do momento ofereceram-se para atravessarmos às suas cavalitas o rio e levar-nos a Buba. Aceitámos tal proposta como uma solicitude. Havia muita água no rio e a travessia fez-se com uma certa dificuldade. Depois da travessia examinámos a indumentária bizarra destes guerreiros, na sua maioria vestidos de calções de cores berrantes e camisas onde predominavam o vermelho, o amarelo e o verde.

Tendo mudado muitas vezes de carregadores, conservámos sobre as nossas calças brancas a marca de uma série de cores variadas, o que comprova a má qualidade do tingimento dos tecidos de que são feitas.

O comandante Buba, a que não se explicara o que se estava a passar, pusera a tropa de prevenção. Logo que se apercebeu da nossa chegada, veio até nós e introduziu-nos na Praça.

A postura irrepreensível deste oficial fazia um contraste singular com a nossa. Os soldados estavam no seu posto de combate, os artilheiros ao pé das peças, prontos a fazer fogo. Podemos apreciar a disciplina e a compostura das tropas portuguesa. Não me poupei a elogios.

Buba foi uma escala perfeita quando a mancarra estava plantada em toda a região. Hoje o comércio só existe para satisfazer as necessidades locais. Há algumas casas construídas ao modo europeu, mas estão abandonadas e em estado de ruína. O aldeamento indígena conta com 150 moranças e 600 habitantes.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Tipo Serere, desenho de Thiriat, segundo uma fotografia
Edição da Nova Geografia Universal, de Élisée Reclus, 1887, de onde se retiraram as imagens abaixo
Imagem da Guiné retirada da obra de Reclus
Imagem das populações à volta do rio Geba, retirada da obra de Reclus
Tipo Fula, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia da coleção Bayol

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 16 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28351: Historiografia da presença portuguesa em África (544): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (12): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28351: Historiografia da presença portuguesa em África (544): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (12): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Quando um dia os investigadores e até mesmo autores de teses de doutoramento queiram dedicar a sua atenção sobre os graves conflitos que ocorreram na região do Forreá e que levaram à ruína uma economia agrícola que parecia bastante próspera, fará todo o sentido em acompanhar o olhar do Capitão Brosselard. Como se pode ler neste texto, a missão, prestes a encaminhar-se para Buba, percorre Dandum e os grandes rios do sul, das colónias portuguesa e francesa. Fica-se com a opinião sobre Mahmadou-Paté, a importância de Kadé, à ação política de Mody-Yaya. Vai seguir-se a viagem para Buba, prende a nossa atenção a narrativa onde se descreve a vida dos rios, o cuidado em relevar a importância dos povoados e não se esconde a dimensão brutal dos conflitos étnicos que atravessam a região. Brosselard refere várias vezes a ruína do Forreá, proprietários agrícolas e comerciantes abandonaram a sua atividade no Cumbijã, em Cacine no rio Grande de Bolola, ele também descreverá este povoados da agora colónia portuguesa

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 12
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, os dois comissários, Brosselard e Costa Oliveira, percorrem as margens do Corubal e Brosselard cede ao fascínio, rende-se pela escrita ao que vai contemplando:
“As árvores, ávidas de luz, inclinam-se para a clareira que se abre para o rio e os seus ramos alongam-se desmesuradamente, acima das águas. Sobre o rio Corubal está-se ainda em plena floresta, pode perceber-se a margem oposta, mas para reconhecer a direção do rio é preciso caminhar sobre os ramos e avançar até a alguns metros do rio, correndo-se o risco de ser apanhado por um crocodilo. A montante distinguimos alguns pontos de rochedos; este afloramento de rochas permite que na maré-baixa se possa atravessar o rio a vau. Acima desta barragem o rio Koliba chama-se Kokoli, a jusante o curso do rio é livre até à altura de Contabane; a largura do Koliba é de trezentos a quatrocentos metros, é um grande rio.”


Os membros da comissão portuguesa, o Sr. Cabral e o Capitão Bacelar juntaram-se a nós durante a estadia que fizemos em Mahmadou-Guini. As duas missões encontram-se completas e o seu efetivo era o seguinte: a missão portuguesa composta por 4 membros, 50 soldados, 100 carregadores, portanto cerca de 150 a 160 pessoas; a missão francesa composta por 3 membros, 20 soldados e 50 carregadores, portanto 73 pessoas.

A 13 de março, os oficiais continuam as suas operações de reconhecimento para Dandum, o curso do rio Cogon e o do rio Grande (Kokoli, nesta região) divergem, o primeiro para sul e o segundo para norte-noroeste. O rio Grande é um rio majestoso, correndo no meio de uma imensa floresta que se estende a perder de vista. Ligeiras neblinas espalham-se por lugares da floresta da margem direita, e dá para perceber o carácter pantanoso desta região.

Tendo convidado o chefe de Dandum para encontrar um homem de boa vontade para levar a Geba a carta destinada ao Sr. Galibert, este Fula escusou-se a satisfazer o meu pedido; a região entre o Kokoli e Geba, diz ele, está às ordens de um chefe de nome Mahmadou-Paté. É o irmão de Bacar-Guidali, o ex-rei do Forreá destronado e assassinado por Mody-Yaya; ele corta a cabeça a todos os Fulas que apanha, e nenhum homem de Kadé ou Dandum se irá aventurar para lá do Kokoli.

Nós sabíamos, com efeito, que este Mahmadou Paté não deve ser confundido com o seu homónimo do Forreá, fizera-se chefe de todos os descontentes e oprimidos e intersetava todas as comunicações diretas entre Kadé e Geba.

De criação recente, Dandum é uma povoação de escravos do rei de Kadé, a sua população situação entre 800 e 1000 habitantes. Os indígenas fazem grandes esforços para desbravar nas proximidades os terrenos favoráveis ao cultivo. São industriosos e podemos utilizar o concurso dos seus ferreiros para repara certas peças do nosso material. Os seus tecelões fazem com algodão colhido na floresta tecidos talvez grosseiros, mas de uma solidez a toda a prova.

O intérprete Ibrahima regressou de Kadé com dois delegados de Mody-Yaya, mas sem carregadores nem cavalos, mas trouxe cumprimentos calorosos e protestos de amizade. Kadé forma um distrito que depende diretamente da autoridade dos almamis; Mody-Yaya, que usa o título do rei de Kadé, rei do Gabu e rei do Forreá, tem uma autoridade contestada sobre o Gabu, um território essencialmente Mandinga que conseguiu até agora manter uma barreira intransponível ao fluxo Fula. Ele é mais feliz no Forreá, onde fez assassinar em 1886 o rei Bacar-Guidali. Ele deixa de tempos a tempos esta região e só vai a Kadé depois de ter comido o que há nos celeiros, e então rouba tudo o que lhe é conveniente, porque os Fula-Cundas são considerados pela gente de Kadé proprietários sujeitos a impostos discricionários.

Atualmente a povoação de Kadé tem cerca de 400 casas e a sua população é de 3 a 4 mil habitantes. Num raio de 3Km à volta da população estabeleceram-se sucessivamente doze povoados mais pequenos que têm uma população que é o dobro de Kadé, e no seu conjunto pode contar com mil homens livres armados.

A importância que dá a Kadé é devido à ação política de Mody-Yaya. Este chefe, para lá da influência considerável que deve ao seu nascimento, porque ele vem da família dos Alpha que detém com a dos Sory o poder no Futa-Djalon; goza também da devoção absoluta dos seus partidários, que usufruem de benefícios que Mody tem no Forreá. Kadé está situada numa região muito fértil, beneficia de estar próxima das escalas de mercadores, a povoação recebe mercadores europeus e serve de entreposto para as regiões mais longínquas, protegida a norte pelo fosso do Koli e a sul e sudoeste por montanhas inacessíveis, está ao abrigo de investidas dos inimigos da raça Fula e pode ser considerada como uma excelente base de operações para as empresas que se estabeleçam a oeste. Estamos em crer que se não parar o desenvolvimento de Kadé a povoação tornar-se-á a capital do Futa-Djalon.

Chegámos ao fim do primeiro texto publicado em Le Tour du Monde pelo Capitão Henri Brosselard, páginas 97 a 144, primeiro semestre, 1889.

Segue-se também na publicação do primeiro semestre, o segundo e último texto, começa por se dizer que a fronteira sul estava reconhecida e os comissários decidiram regressar a Buba, damos novamente a palavra ao Capitão Brosselard e à primeira pessoa do singular.

A 18 de março, deixo Dandum com a retaguarda da coluna e junto depois a coluna no riacho de Tiancoun-Kapé. A 20, chegámos a Saala, é impossível ver o chefe, partiu à procura do filho. Este andava há seis dias à caça com um escravo, os dois caçadores não regressaram, admite-se na povoação que foram mortos por elefantes. No dia seguinte, mantivemo-nos no local à espera das bagagens deixadas ao cuidado de Mahmadou-Guini. Os oficiais fazem reconhecimentos nos arredores. N’Garanké que tinha trazido uma carta do tenente a Dandum, voltou com um intérprete. Parte de Saala com os carregadores e regressa no dia seguinte, trazendo um grande carregamento, cerca de 40Kg. Em 32 horas percorreram 105Km, dos quais 70 com 40Kg à cabeça. Para encorajar os carregadores faço um presente pecuniário a N’Garanké e dou-lhe uma grande espingarda de caça.

A 22, a coluna francesa deixa Saala, tendo aqui ficado parte das bagagens à guarda de dois atiradores; a coluna atravessa um território abundante em caça e atingimos o riacho de Kevel. O seu leito é rochoso, tem água corrente muito fresca. Faz-se o reconhecimento desta admirável estação que bordeja por toda a parte este curso de água, da foz à sua confluência com o Cogon. Entrámos logo depois em Kevel, povoado e habitado pelos Fulas. Há à sua volta belas savanas onde pastam bois e vacas enormes. A floresta vizinha tem árvores centenárias. As perdizes são aqui abundantes, elas aproximam-se até aos nossos pés e na povoação vêm comer o milho espalhado no chão.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Alameda de poilões, Selho, Casamansa, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Uma rua de Ziguinchor, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Cais de Conacri, bilhete postal antigo
Entrada de Conacri, bilhete postal antigo

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É da maior conveniência fazermos uma recapitulação de tudo o que até agora se tem passado nesta narrativa do Capitão Henri Brosselard, que chefia a comissão francesa para a demarcação das fronteiras da Guiné Portuguesa. Estávamos em 1888, ele saiu em janeiro de França e encaminhou-se para a capital da colónia portuguesa. Daqui seguiu para o sul, para o início de uma região chamada Rivières du Sud, esteve nos rios Nuno e Compony ou Cogon; e fez uma longa marcha até Kandiafara, foi aqui que se encontrou com a comissão portuguesa, ambas as comissões deram como definidas as fronteiras entre Ponta Cajet e a região de Kandiafara. Irão seguir depois para Buba. É uma narrativa onde o seu autor muito provavelmente utilizou o seu relatório oficial, os itinerários da viagem estão todos datados, as diferentes atividades de exploração claramente referenciadas; o Capitão Brosselard é observador, esculpe perfis, é exuberante em tudo quanto menciona das paisagens por onde passam, e dá-nos aqui um belo texto sobre a caçada ao elefante e como aqueles paquidermes em fúria destroçam os corpos dos caçadores. Não é demais insistir que o leitor deve retomar o que se publicou no blog sobre a narrativa do chefe da comissão portuguesa, que irá aparecer minuciosamente transcrito em Guiné, Bilhete de Identidade Tomo II.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 11
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que a coluna do Capitão Brosselard já passou pela fronteira do Forreá e do Futa-Djalon, ia a caminho da pequena povoação de Mahmadou-Guini e assistiu à destruição de uma floresta para a transformar em terras de cultivo. O capitão descreve agora o seu encontro com Mahmadou-Guini.

Mahmadou-Guini veio visitar-me. Este Fula apresenta-se com à-vontade e dignidade. É um negro grande e belo; de largas espáduas, parece estar dotado de um vigor fora do comum, o seu rosto transparece ousadia, tem marca de pertencer a uma raça superior. Na sua conversa, ele testemunha a sua devoção a Mody-Yaya. Em 1886 ele terá prestado grande ajuda ao seu soberano nas lutas que precederam o assassinato do rei do Forreá. Atualmente Mahmadou-Guini contenta-se a fornecer marfim ao rei de Kadé de quem recebe escravos dos dois sexos.

Durante a nossa estadia em Koumataly vi gente de Mahmadou-Guini que regressando a casa devem ter percorrido as florestas ribeirinhas do rio Grande à procura de sinais da passagem de elefantes. Manifestei interesse, se acaso se proporcionasse, de assistir à caça desses grandes animais e acordou-se que eu esperaria a chegada da coluna para nos lançarmos sobre as pistas dos elefantes, se tivéssemos a felicidade de os encontrar.

Alguns dias depois, estes pisteiros chegaram à povoação do seu senhor, anunciando que tinham encontrado a alguns quilómetros indícios muito recentes de um jovem elefante e que não tinham visto nenhum outro nas proximidades; era de supor que todos os da manada tinham atravessado a margem direita do rio Koliba (Koliba em francês, Corubal em português). A experiência indicava aos caçadores que o animal assinalado não ficaria muito tempo sozinho na margem esquerda. Era necessário apressarmo-nos sobre estes vestígios se não se queria perder a oportunidade, não se podia esperar a chegada dos brancos.

Oito caçadores partiram na pista do jovem elefante, bem abastecidos de pólvora e de balas, estavam armados de grandes fuzis que se podem encher de pólvora e de projéteis até à boca do cano. Os caçadores rapidamente reconheceram os indícios identificados pelos pisteiros. Quase nus, para poderem deslizar como répteis através das lianas e silvas, percorreram rapidamente muitos quilómetros e subitamente desembocaram numa clareira; o elefante estava lá, mas era apenas um adolescente e admirámo-nos dos seus companheiros estarem separados dele. Não havia tempo a perder, o jovem elefante deu conta da presença dos caçadores e persentindo um perigo procurou uma saída no matagal. Não havia tempo a perder, era preciso aproveitar deste seu embaraço no meio das lianas para o impedir da fuga rápida, e uma bala atingiu-o quando ele fazia um supremo esforço para abrir caminho. Gravemente ferido, o animal gritou de dor, os seus gritos ecoaram pela floresta. Os caçadores ficaram fora da clareira, na previsão de uma atitude ofensiva do jovem elefante. De repente ouviram-se outros gritos da manada respondendo aos do jovem elefante. Instintivamente os caçadores compreenderam o perigo que os ameaçava, os outros elefantes não estavam longe. Rapidamente os caçadores abandonaram a sua vítima que estava agonizante, e procuraram fugir através da floresta, corriam como loucos, atrás deles estalavam as lianas arrancadas e árvores quebradas, os monstros ganhavam rapidamente terreno.

Para desgraça dos caçadores, esbarraram num mato espinhoso e ficaram bloqueados. Feridos pelos espinhos, com o sangue a escorrer das feridas, não podiam recuar e cinco elefantes avançaram para eles. A fuga era impossível, urgia enfrentar o inimigo e defenderem-se com as armas. A uma boa distância, atiraram-se oito tiros a sangue-frio, todos acertaram, mas o adversário não parava, pelo contrário, precipitaram-se com cada vez mais fúria sobre os Fulas, sete deles foram apanhados pelos elefantes que os tomaram com a tromba e atiraram-nos ao chão ou quebraram-nos contra as árvores. Só um conseguiu escapar, fugiu enlouquecido até ao povoado, aqui os indígenas ficaram horrorizados com o que ele contou: só Mahmadou-Guini não parecia nada perturbado, incitou os mais bravos a segui-lo, todos os homens válidos correram para o lugar da carnificina. Os sete cadáveres que jaziam no chão estavam horrivelmente mutilados e de tal modo desfigurados que só puderam ser reconhecidos pelos familiares, identificados pelos amuletos e vestuário ainda presos aos pedaços de carne.

Mais longe viu-se um dos cinco elefantes, estava ferido, não se podia mexer, foi morto. Enfim, chega-se à clareira onde o jovem elefante fora a causa do acidente, estava sentado sobre o flanco, agonizando, foi morto à catanada.

Durante a nossa estadia ao pé de Mahmadou-Guini uma manhã informaram-me que estava a chegar um Fula que vinha pelo caminho de Dandum. Este homem, vestido de modo ridículo e bizarro, chamou a nossa atenção, os calções cor de cereja e um casaco castanho-esverdeado, trazendo à cabeça um embrulho volumoso e conduzindo pela mão um carneiro com bom tamanho. Passa à frente da habitação onde os oficiais tomam as refeições e apercebendo-se dos negros que comem cuscuz ao pé de uma casa vizinha, dirige-se para ali, senta-se entre os convivas, come e bebe sem ter previamente proferido uma palavra nem dirigindo a palavra a quem ali estava.

Uma vez saciado começa a conversar e cumprimenta todos os presentes, informa-os da finalidade da sua viagem. Parece que esta maneira de proceder é habitual no Futa-Djalon. Este homem era um servidor de Mody-Yaya, dirigia-se a Bolama para oferecer ao governador da Guiné Portuguesa, da parte do rei de Kadé, um dente de elefante quadrado, no volumoso embrulho que transportava à cabeça. Os dois comissários fizeram um reconhecimento do Koliba, eram acompanhados por uma escolta de carregadores, atiradores e soldados portugueses. Não há qualquer caminho para chegar ao rio, caminha-se como se pode através do mato, o capim alto torna por vezes a marcha tão difícil que é necessário deitar-lhe fogo para abrir caminho.

A quinhentos metros do rio, a vegetação toma uma dimensão imponente, é uma verdadeira floresta virgem quase impenetrável, que impede o acesso às margens. Os negros cortam a vegetação com as catanas e os machados, é a única maneira de fazer uma passagem. Chega-se enfim às margens do rio. As roupas estão em farrapos, as mãos feridas, os rostos desfigurados. As imensas árvores em forma de chapéu de sol estão ligadas por uma inextrincável rede de lianas que suspendem e entrecruzam lá nas alturas. Bandos de macacos mandris marcham em filas intermináveis sobre as lianas suspensas no espaço; lançam-se muitas vezes no topo das árvores da extremidade de um ramo para o outro, alguns deixam-se cair, agarram-se a um ramo ou mesmo a uma simples extremidade da folhagem, e lançam-se no vazio. Eles tomam certamente os viajantes por camaradas; não parecem minimamente emocionados pela nossa passagem.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta antiga de África e das ilhas de Cabo Verde, Sanson, cerca de 1680
Bijagós e um morro de bagabaga, desenho de Sirouy, segundo uma fotografia comunicada por Charles Brongniart
Escala de Foundiougne, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Posto de Kawlakh, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28314: Historiografia da presença portuguesa em África (542): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (10): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28314: Historiografia da presença portuguesa em África (542): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (10): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Graças à preciosa colaboração da Biblioteca da Sociedade de Geografia, encontrou-se o mapa contemporâneo desta viagem do Capitão Brosselard que de Bolama desceu ao rio Nuno, subiu o Compony e já está em Kandiafara e conjuntamente com o seu colega português irão em direção a Dandum. É uma narrativa muito impressiva, recheada de pormenores, há quem procure a ligação entre o rio de Buba e o Corubal, a coluna já foi fustigada por um ataque de abelhas, nos acampamentos andam as cobras em perseguição dos ratos, jovens Fulas carregadoras ameaçaram fazer greve, a vegetação é deslumbrante e agora chegámos ao território de um caçador lendário Mahmadou-Guini, estamos na fronteira entre o Forreá e o Futa-Djalon, este caçador Fula, que se socorre de uma legião de pisteiros anda à procura de elefantes na região do Corubal francês, iremos seguidamente assistir a uma caçada de elefantes, onde ocorrerá uma tragédia.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 10
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Ocorreu a chegada do comissário português a Kandiafara, em 25 de fevereiro. A 28, Brosselard declara ao colega português a sua intenção de prosseguir. Estavam asseguradas as provisões, armazenadas a 40Km a leste, na povoação de Koumataly; não havia mais nada a fazer nesta região onde estavam imobilizados, tudo estava completamente estudado e os dois comissários puseram-se de acordo sobre o estabelecimento da fronteira deste a ponte da Cajet até à região vizinha de Kandiafara. O Sr. Oliveira decidiu que partiria conjuntamente com a comissão francesa; organizou uma pequena coluna de carregadores e de soldados e convidou o Sr. Cabral a esperar a vinda do grosso da coluna das provisões que deviam chegar em breve, sob o comando do Capitão Bacelar. O Sr. Galibert recebeu a missão de ir reconhecer o curso do Corubal, estudar o problema geográfico da comunicação deste rio com o rio Grande de Bolola e de regressar a Bissau para tomar posse da coluna de abastecimentos que ele conduziria até Geba. O Sr. Galibert deixou Kandiafara em 29 de fevereiro.

A 1 de março, a comissão franco-portuguesa deixa Kandiafara e começam as operações de reconhecimento da região compreendida entre o rio Cogon (ou rio Compony) e o Koliba (nome francês para o rio Grande de Bolola). No dia seguinte fez-se paragem no riacho de Kével. Uma esplendida vegetação, escreve Brosselard, envolve o riacho numa semiclaridade; estamos à sombra de magníficos poilões. Esperávamos descansar antes do almoço quando ouvimos gente a gritar e apercebemo-nos de que o burro do Sr. Oliveira vinha aos saltos na nossa direção. O burro escoicinha, salta e rola; fora atacado por uma nuvem de abelhas que o perseguem; só o largam para se lançarem à esquerda e à direita sobre os negros e os oficiais. Os fumos das cozinhas perturbam-nas no seu sossego e elas vingam-se à sua maneira. A debandada é geral; os negros, desprovidos de roupa e surpreendidos nas suas abluções, sofrem cruelmente com os ataques das malditas. O campo de batalha pertence ao inimigo. Impunha-se organizar um cerco para inverter as posições. Os indígenas avançam então metodicamente, protegidos, não pelo tradicional cesto de vime cheio de terra, mas com enormes fachos incendiários; aos poucos conseguem fazer recuar o inimigo e asseguram a posse das posições laboriosamente conquistadas, lançando a chama e o fumo de todos aqueles autênticos archotes. Depois almoçámos tranquilamente, os olhos um pouco picado pelo fumo, estávamos envolvidos por uma nuvem protetora.

Na confluência do Kével, o Cogon espraia-se, magnífico, com uma largura de mais de duzentos metros e uma profundidade de metro e meio ao pé das margens. A corrente é pouco sensível, as águas são muito claras e permitem ver uma multidão de peixes em movimento. Os crocodilos e os hipopótamos são numerosos, eles parecem disfrutar de uma segurança absoluta, mostram as suas enormes cabeças e olham-nos com espanto.

À noite, chegámos a Koumataly. Este povoado está situado sob a margem esquerda do riacho do Talidiol, uma autêntica barreira de vegetação, intransponível fora da passagem construída por cima do lugar. Uma cinquentena de casas estavam muradas por uma dupla cerca de caniços entrançados. É um caminho que permite ir ao Cogon ou de subir na floresta e andar sobre os planaltos, podendo permitir, no presente caso, aos negros protegidos pelas cercas de caniços entrançados, de contra-atacar e também de assegurar o abastecimento. O riacho de Talidiol constitui uma admirável linha de defesa para fechar a estrada de Kadé. Aliás, os Fulas ficaram muito tempo em Koumataly, antes de empurrar os seus colonos para as ricas regiões de Contabane e de Guidali. Fortificados na povoação, eles puderam repelir com sucesso todas as tentativas de regresso dos Biafadas.

O cabo Sidi tinha construído uma instalação muito confortável à sombra de enormes toldos. Este palácio de bambu e de colmo compunha-se de quatro divisões, com portas e janelas. Infelizmente o arvoredo que nos protege com a sua sombra impenetrável está povoado de cobras que se deixam cair durante a noite sobre o teto da nossa habitação, a perseguir os ratos que vêm à procura das nossas provisões. As idas e vindas destes animais produzem na palha da habitação um barulho infernal que nos impede de dormir.

Em Koumataly nós contratámos mulheres e raparigas porque era impossível procurar carregadores. Para resolver a dificuldade dos transportes, decido que o intérprete Ibrahima se deve dirigir a Kadé para falar com Mody-Yaya, levará ricos presentes e pedirá sessenta carregadores e cavalos; juntar-se-á à missão em Dandum. Importa assegurar-se da boa vontade do rei de Kadé. A 7 de março continuámos as nossas operações para leste. A região onde estão povoações como Koumataly e Saala parecem-nos bem cultivadas. A presença das belas raparigas Fulas, sempre dispostas a brincar e a rir, espalha um pouco de alegria na coluna; mas estas jovens recusam continuar na coluna, com o pretexto de que faz demasiado calor e que vão morrer de sede; este seu comportamento obrigou a fazer uma paragem dos outros carregadores e obrigam-nos a tomar medidas repressivas. Em 8 de março acampámos no riacho de Nianta-Fara, constatou-se haver por toda a parte indícios de panteras, e apurou-se que o gigantesco arvoredo que cobria o bivaque estava cheio de cobras. Os negros fizeram grande fogueiras para afastar os visitantes indesejáveis.

As raparigas, que não têm vestuário para se abrigarem, juntaram-se à volta de uma fogueira que as protege da humidade noturna. Para pôr termo às suas intermináveis conversas, distribuíram-se alguns cobertores, o que lhe permitiu deitarem-se e dormir. O campo parece mergulhado no silêncio, mas fomos rapidamente alvoraçados pelos rugidos das feras que devem estar descontentes de nos ver instalados nos seus domínios; os macacos respondem em concerto, toda a gente desperta e as jovens Fulas retomam as suas conversas. A 9, atravessámos o belo riacho de Laballére, considerado como fronteira do Forreá e do Futa-Djalon. A região é selvagem, acidentada e muito arborizada e assim chegámos exaustos à povoação de Mahmadou-Guini, o grande matador de elefantes. O Nemrod Fula (referência a Nemrod, um grande caçador da Baixa Mesopotâmia) instalou-se nesta região desértica e selvagem para estar no centro do seu campo de ação. A região é, de facto, muito abundante em caça; os elefantes são numerosos, sobretudo na margem direita do Koliba, onde se estendem entre o rio e o Geba imensas florestas pantanosas, impenetráveis para o homem.

A trezentos metros da pequena povoação de Mahmadou-Guini, no fundo do riacho, está uma mata onde se erguem árvores seculares; a terra aqui é de uma grande riqueza e os escravos do chefe Fula esforçam-se por destruir a soberba floresta para fazer terras de cultivo. Por todos os lados se veem fogueiras fumegantes ao pé de poilões e outras árvores que têm muitas vezes mais de dois metros de diâmetro na base. De vez em quando ouve-se um estalo sinistro: é um desses gigantes que tombam. Já por terra, deitam fogo ao imenso cadáver e em poucos dias o gigante das florestas fica reduzido a poeira.

Mahmadou-Guini vem visitar Brosselard, é o que iremos contar no próximo texto.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Uma rua de Ziguinchor, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Dá-se ao leitor um pormenor da carta da Guiné Francesa contemporânea da demarcação das fronteiras em 1888. Se o leitor aumentar as dimensões da imagem encontrará as povoações percorridas do rio Nuno para o Compony até Dandum. O encontro com o comissário português, o tenente da Armada Real Eduardo Costa Oliveira deu-se a 25 de fevereiro, em Kandiafara. Daqui partiram as duas delegações conjuntamente.
Fula a cavalo, imagem retirada do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28297: Historiografia da presença portuguesa em África (541): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (9): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28297: Historiografia da presença portuguesa em África (541): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (9): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Temos agora uma narrativa sobre a caça ao hipopótamo na região de Kandiafara. Vai aparecer o comissário português, o Tenente Costa Oliveira, da Armada Real, vem acompanhado, traz dez dias de atraso, tinha desembarcado nas margens do rio Cajet, só encontrara obstáculos, por embarcação pôde subir até Cantagniès (provavelmente o Cantanhez). A partir de agora as duas missões andarão irmanadas, irão prosseguir até encontrar as respetivas colunas de carregadores; outro membro da comissão francesa irá reconhecer o curso do Corubal, saber se este comunica com o rio Grande de Bolola. Creio que o leitor apreciará este documento histórico alusivo à primeira demarcação das fronteiras da Guiné, será aqui que se selará o destino de Ziguinchor e de todo o Casamansa de português.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 9
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que o Sr. Galibert recebeu a incumbência por parte do Capitão Brosselard para fazer uma exploração no rio Cogon; experiência sem sucesso, agora o Capitão Brosselard relata uma experiência que ele viveu e que culminou com a morte de um hipopótamo, como se escreve.

Avistou-se um dia na margem oposta um enorme crocodilo que espreitava macacos. Querendo afastar estes perigosos animais das águas de Kandiafara, nas quais as pessoas da nossa missão se banhavam diariamente, dei ordens para atirar sobre eles quando os avistássemos na vizinhança do acampamento. O crocodilo não parecia mover-se, mas depois se ter atirado várias vezes embarquei no barco à vela com o Sr. Galibert e dois estivadores, e dirigimo-nos para a margem oposta.

O crocodilo mergulhou e apareceu a uma certa distância, a embarcação vigiava os seus movimentos e cada vez que ele aparecia davam-se mais tiros. De repente, na vizinhança do barco apareceram dois hipopótamos e olharam-nos com surpresa. Tive o despropósito de disparar sobre um deles, o monstro deu um salto enorme acompanhado de um barulho tal que quem estava na margem se apavorou, pensando o pior. O Sr. Galibert manobrou o barco para meio do rio, sabia por experiência que se navegássemos para um baixio, onde a besta tivesse pé, estávamos perdidos. De súbito, a um metro apenas da embarcação o monstro pôs a cabeça fora de água: a proa guinou e ergueu-se e houve um barulho sinistro que parecia anunciar que a frágil embarcação ficaria em mil pedaços. Achando-me de pé, fui atirado borda fora, isto enquanto a embarcação se enchia de água. Chegou-se à margem direita com dificuldade: não era sem tempo.

Contrariamente a uma opinião muito difundida, os hipopótamos só atacam quando pensam estar ameaçados, os indígenas dão-lhes caça, conhecendo esta particularidade. Tivemos ocasião de assistir a estas caçadas e, em cada uma delas, é utilizado o mesmo método: os monstros eram assinalados na proximidade de um banco de areia e os indígenas atiravam sobre os que se encontravam fora de água. Uma piroga dirigia-se ao mesmo tempo para um deles, o hipopótamo não demorava a dar caça à embarcação que se refugiava prudentemente no banco de areia. O hipopótamo não parava, perseguia os caçadores, começava o tiroteio e o animal ficava num estado enfurecido, dirigia-se contra os agressores, mas, como a sua marcha é lenta não lhes permitia chegar aos caçadores a tempo. Estes vão atirando à queima-roupa, especialmente sobre os olhos e a besta enorme ficava rapidamente cega. Seguiam-se as arremetidas com lanças e golpes de sabre usados para lhes quebrar os jarretes (acima do joelho). O animal cambaleava, a luta tornava-se desigual: o sangue escorrendo por todas as feridas. Nesta altura aumenta o número de caçadores, o solo está empapado de sangue.

Animal esgotado, a sentir que chegou a sua hora, a procurar ainda fugir para o rio, aqui entrando e mergulhando. A superfície da água a ficar rapidamente vermelha, e este indício sangrento indica aos carrascos onde ele está, perseguem-no dando gritos horríveis. O animal, a morrer, é, entretanto, obrigado a vir frequentemente respirar à superfície. A piroga segue-o de perto, levada por dois negros vigorosos: um rema, o outro maneja uma lança de ferro, fere o animal sempre que pode. Não é raro ver a piroga erguer-se e afundar-se. Quando isto acontece, os negros nadam e põem-na a flutuar; a sua vítima, que já não pode distingui-los também já não pode atacá-los com as suas poderosas mandíbulas. Por último, o hipopótamo dirige-se em direção a terra para expirar. Aqui chegado, ele para, a sua respiração é ruidosa, o seu dorso agita-se com violência. Os indígenas dançam, gritam e assistem à agonia do monstro, agonia que por vezes se prolonga por horas.

Os negros são apreciadores da carne de hipopótamo; os primeiros colonos portugueses da Guiné gostavam muito deste alimento e os padres autorizavam mesmo que a comessem à sexta-feira, pois consideravam que o hipopótamo era um peixe.

Durante a nossa estadia em Kandiafara enviei mensagens em diferentes direções para recolher informações sobre a digressão dos portugueses. Ninguém podia atravessar as linhas de demarcação marcadas pelo limite atual da invasão Fula. Todos os caminhos estavam sob vigilância, faziam-se emboscadas nas florestas aos infelizes Nalus quando procuravam escapar aos seus invasores.

A presença da missão não fez cessar os ataques invasores. Assim vi-me obrigado a fazer advertências a Bacar-Lombi, fazendo-lhe saber oficialmente que se eu soubesse que uma povoação Nalu fosse atacada eu iria defendê-la, tomando partido contra o agressor. Na esperança de obter algumas informações, enviei um intérprete a Buba, mas o comandante da praça nada sabia. Temia-se que o Sr. Costa Oliveira estivesse a enfrentar grandes dificuldades: a situação política do país permitia admitir a hipótese de uma resistência armada dos indígenas.

Bacar-Lombi pôs muitas dificuldades para fornecer carregadores. Foi enviando gente em pequenos contingentes, exigindo caso a caso um novo testemunho de reconhecimento. Os que estavam prometidos para 22 só chegavam a 23; enviei ao chefe Fula o intérprete Ibrahima, com ordem de pedir explicações. Nessa circunstância este chefe ganancioso respondeu que “lhe tinha sido prometido como presente dois barris de pólvora e que ele só tinha recebido um; que os brancos não cumpriam a sua palavra e que ele não se sentia obrigado a cumprir a sua”.

O intérprete observou-lhe tinha sido enviado um barril com um conteúdo com o dobro que os de uso habitual. “Pouco importa, respondeu Bacar: prometeram-me dois barris e eu só recebi um”. O intérprete deu-me conta da sua missão e foi enviado um segundo barril a Bacar-Lombi. Ele decidiu agradecer e aproveitou para dar sinal que exigia mais para haver boas relações, pediu açúcar e frascos de perfume. Recebeu açúcar e o incidente ficou sanado. No mesmo dia chegava um correio do Sr. Oliveira, o comissário português estava em Cantagniès (provavelmente Cantanhez) e anunciava-se para o dia 25. A 24, chegou um segundo correio: a missão portuguesa estava em Simbéli. A 25, encontro-me com os portugueses, com os Srs. Oliveira e Cabral. O Capitão Bacelar, teve de regressar a Bolama para repatriar uma parte do pessoal, recrutar novos carregadores e organizar uma coluna de víveres. O comissário português explica que veio atrasado dez dias porque procurou atravessar a região essencialmente pantanosa que separa o Cacine do Compony. Após ter desembarcado nas margens do rio Cajet, não pôde fazer uma só etapa em direção ao leste, detido pela vegetação cerrada e os lodos profundos, precisou de subir a norte e assim alcançar o Cacine. Neste rio, graças a Sayon-Sallifou, que no cumprimento das minhas instruções procurara embarcações, a missão portuguesa pôde subir até Cantagniès. A partir daqui dirigiu-se para Kandiafara seguindo o caminho anteriormente utilizado pelo Tenente Clerc.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta da Guiné em 1897, proveniente do Arquivo Histórico Ultramarino, houve depois alteração de fronteiras
Carta geográfica da autoria do capitão Henri Brosselard referente ao Casamansa e o distrito de Cacheu, podemos ver como o Governo português reivindicava o território até ao Rio Casamansa e como acabou o esbulho
Os homens sobem para a piroga, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Cúter (designação do barco) da ilha de Gorée, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O Casamansa em Carabane, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 19 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28271: Historiografia da presença portuguesa em África (540): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (8): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)