Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Hemeroteca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hemeroteca. Mostrar todas as mensagens

sábado, 27 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27575: Foi há 100 anos (3): O Natal de 1925 e a moda (francesa), na capa e contracapa de "O Domingo Ilustrado", um semnário "inócuo" que, cinco meses deposi, estava a dar vivas aos carrascos da I República


Contracapa (pág. 20): Legenda: "Lisboa elegante e moderna: À porta da elegantíssima étalage Pompadour no Chiado, as mulheres chics de Lisboa, apeiam-se duma deliciosa limousine Citroën da Cooperativa Lisbonense dos Chauffeurs, cujos carros vieram dar à cidade uma tão grande nota de civilisação"... 

Comentário do editor LG:  Numa legenda em duas linhas, detetamos 4 galicismos (étalage, chics, limousine,chauffeurs). O francês era, até á I Grande Guerra,  a língua da ciência e tecnologia, da medicina, da civilização, da cultura, da gastronomia e da moda...


Capa: Legenda:  "A cerimónia da exposição do menino nos templos de Lisboa. [ Desenho inédito do grande artista (Manuel) Roque Gameiro ] : Entre a multidão onde afloram cabeças que são admiráveis expressões da Raça, o sacerdote expõe o símbolo da eterna graça que é o Menino Jesus! Paz aos homens, paz nos corações!... Que a curta vida que vivemos, seja mais de beleza que de  tentação, mais de bondade que de rancor!"

Comentário do editor LG: Na litogravura do Manuel Roque Gameiro (filho do Alfredo Roque Gameiro), parece haver uma falsa mistura de classes sociais: nas igrejas também havia uma clara segregação socioespacial.


O Domingo Ilustrado, Ano I, nº 50, Lisboa, 27 de dezembro de 1925. Preço avulso: 1 escudo (Edição com 20 páginas, grande parte de publicidade) (Diretores: Leitão de Barros e Martins Barata). Cortesia de Hemeroteca Digital / Câmara Municipal de Lisboa.


1. Estávamos a cinco meses do fim da República (1910-1926), derrubada pelo  golpe militar do 28 de maio de 1926, que levaria à instauração da Ditadura Militar (1926-1933) e do Estado Novo (1933-1974). 

Sobre o semanário "O Domingo Ilustrado" (de que um dia dediretores foi o futuro cineasta Leitão de Barros), já aqui dissemos, citando  Rita Lopes, na ficha histórica disponível em formato pdf, no portal da Hemeroteca Digital / Câmara Municipal de Lisboa, que teve um vida efémera (janeiro de  1925 - dezembro de 1926);

(...)  "A sua curta existência coincide com um período de grande perturbação política e social, que muitos autores consideram mesmo de guerra civil latente, e que conduzirá à Ditadura Militar, instaurada pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926.

(...) [Espelha] uma imagem profundamente negativa da política, enquanto jogo protagonizado por partidos, e, consequentemente, da própria democracia, enquanto sistema político. 

"Esta será a mensagem de fundo que trespassará subliminarmente todas as edições até ao golpe de 28 de Maio de 1926. Era então chegada a hora de aclamar sem reservas as forças que, sob o comando do general Gomes da Costa, se sublevaram em Braga e se põem em movimento para Lisboa para confiscar o poder." (...)

 Este semanário, "apolítico", "inócuo", que se pretendia aberto a todos, ao grande público, com muita parra e pouca uva (de que este nº 50, de 27 de dezembro de 1925,  é um exemplo), pôs-se de imediato ao serviço dos golpistas: 

«Este homem [general Costa Gomes] tem poder: Ajudemos este homem a salvar Portugal!» − proclama em primeira página, ilustrada com a bandeira nacional e uma fotografia do militar" (...).

O nº 50 traz na capa e contracapa ilustrações contraditórias de um Portugal, que na época ainda se resume a Lisboa, a cabeça de um vasto e desvairado império  e que está longe de ser um país moderno e desenvolvido. 

A circulação automóvel começa a mudar a paisagem da capital (há já uma cooperativa de "chauffeurs") e a moda parisiense instala-se no Chiado, burguês, chique, elegante... (A loja "A Pompadour", na rua Garrett, tinha sido inaugurada em 23 de junho de 1924.)    

Nesse ano de 1925, entre 4 e 13 de  julho, tinha-se realizado entretanto o I Salão Automóvel de Lisboa, no Coliseu dos Recreios. Na exposição estiveram presentes mais de 100 carros de cerca de 60 marcas diferentes (Buick, Mercedes, Chrysler, Studebaker, etc.). 

Há 100 anos Lisboa teria entre 6 a 9 mil veículos automóveis, entre 50% a 60% do total da frota nacional. Mas a "motorização" era já uma realidade imparável, alterando o quotidiano de uma cidade ainda dominada por elétricos, carruagens a cavalo e sobretudo peões que circulam livremente pelas ruas.

2. Nesse Natal de há 100 anos ainda se mantém, entretanto, a tradição do "beija-pé" do menino Jesus, nas igrejas, contrariando todas as boas práticas da saúde pública... 

O país estava ainda, lentamente, a recuperar da maior tragédia demográfica do séc. XX, que foi a "pneumónica" , a pandemia de gripe de 1918/19.  E a taxa de mortalidade por tuberculose era altíssima em 1925, agravada pelo regresso do  CEP - Corpo Expedicionário Português:  (i) aproximadamente entre 150 a 180 mortes por 100 mil habitantes a nível nacional; mas com grandes disparidades regionais; (ii) no distrito de Lisboa, a taxa rondava os 245 óbitos por 100 mil habitantes; e (iii) no Porto chegava a atingir os 300.

Restringindo-nos à "pneumónica",  estima-se que tenha sido responsável por um número de mortes superior ao de qualquer guerra ou desastre natural anterior em território nacional (com exceção da "peste negra"). 

Terão morrido cerca de 120 mil portugueses (2% do total da população, na altura de 6 milhões).  O ano de 1918 foi o único no século XX em que Portugal registou um saldo fisiológico negativo (mais mortes do que nascimentos), com uma perda líquida de mais de 70.000 pessoas.

Já agora acrescente-se que a epidemia manifestou-se em três momentos distintos: (i) maio/junho de 1918: uma vaga moderada, com muitos contágios mas baixa letalidade; (ii) outubro/novembro de 1918: a vaga mais letal, que paralisou o país, sendo nesta fase que a doença se tornou fulminante, muitas vezes matando em menos de 48 horas; e (iii) início de 1919: uma última vaga menos intensa, mas que ainda provocou milhares de mortos.

 A pandemia atingiu um país já de si fragilizado pela participação na I Guerra Mundial (Flandres, Angola e Moçambique), pela crise económica e financeira, pela instabilidade política do regime de Sidónio Pais e por graves crises de subsistência (fome, com todas as letras). 

Foi o colapso do incipiente sistema de saúde: total incapacidade de resposta dos hospitais e do corpo médico; falta de  caixões e coveiros; pânico generalizado  com o fluxo constante de funerais  (traduzido, por exemplo, na proibição dos  sinos das igrejas  tocarem a finados).

Face aos graves acontecimentos políticos e militares da época, e apesar da sua dimensão trágica,  a pandemia acabou por ser rapidamente esquecida e manteve-se assim durante décadas. Voltou a falar-se da "pneumónica" aquando da pandemia de Covid-19 (2020/21).
 
_______________________

Nota do editor LG:

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27484: Recortes de imprensa sobre o império colonial (2): a nau "Portugal", vida e morte de uma réplica de um galeão quinhentista, que foi uma das principais atrações da monumental Exposição do Mundo Português (Lisboa, 1940) - Parte I




A nau "Portugal", uma das principais atrações  da Exposição do Mundo Português
 Tinha 3 mastros e cerca de meia centena de canhões. Pretendia ser uma réplica de um agleão quinhentista.

(Fonte: Ilustração Portuguesa,nº 979, 7 de setembro de 1940,. pág, 6 (cortesia de Hemeroteca Municipal de Lisboa)



1. Ainda não tínhamos nascido, a maior parte de nós em 1940. Em plena II Guerra Mundial, Portugal era, milagrosamente (?), um oásis de paz. Precário, é certo. Milhares de refugiados fugidos da barbárie nazi, nomeadamente judeus, chegavam a Portugal, país neutral, na esperança de conseguir um visto e uma passagem para o Novo Mundo, e em especial os EUA.

 O Duplo Centenário (1140, "fundação da nacionalidade"; e 1640, "restauração da independência") foi o pretexto, genial, para a organização de um grande evento político-cultural de consagração do regime de Estado Novo. 

Toda a sociedade portuguesa e a sua elite (incluindo os seus melhores arquitetos, engenheiros, escultores, decoradores, pintores, cenógrafos,  artesãos, escritores, jornalistas, poetas, cineastas, etc.) foram mobilizados: cinco mil trabalhadores sob as ordens do arquiteto Cottinelli Telmo (1897-1948) ergueram um espaço equivalente a 56  campos de futebol, no tempo recorde de um ano, e com limitados recursos financeiros. Em Belém, na zona ocidental de Lisboa,entre o mosteiro dos Jerónimos e o rio Tejo, zona até então considerada pobre e periférica de Lisboa.

De 23 de junho a 2 de dezembro de 1940, a Exposição do Mundo Português, em Belém, teve 3 milhões de visitas. Gente de todo o país vinha em excursão a Lisboa, num tempo em que a mobilidade era reduzida, e um ribatejano nunca tinha ido ao Algarve, nem um transmontano conhecia sequer o Porto, e muito menos Macau ou Angola. A visita tornou-se quase obrigatório para os portugueses da época. Os clichés do Portugal do Minho a Timor vêm desse evento, do casa de sobrado colonial ao solar do Minho, da tabanca guineense à roça são-tomense. O ingresso custava 2 escudos e 50 centavos. Ficou na memória da geração dos nossos pais. Tal como ficou na nossa memória a Expo 98.


Hemeroteca Municipal de Lisboa > Efemérides | Exposição do Mundo Português (1940) (excerto) (com a devida vénia)


(...) Em plena guerra civil de Espanha, quando os regimes autoritários pareciam impor-se na conturbada cena política europeia, o Estado Novo consolidava-se.

É neste ambiente que, em 27 de Março de 1938, Salazar anuncia a realização, em nota oficiosa, de uma grande comemoração do duplo centenário da independência (1140) e da restauração (1640), para o ano de 1940.

A iniciativa assumiu então, em termos de recursos materiais e humanos, uma dimensão inédita, tornando-se o mais importante acontecimento político-cultural do Estado Novo.

O empenho político nas comemorações resulta da compreensão do que estava em jogo: passar ao acto (em forma de comemoração) a consagração pública de uma legitimidade representativa própria, desta feita, eminentemente ideológica e histórica.

Ao invés da legitimidade eleitoral dos regimes democráticos, esforçou-se o Estado Novo por associar os traços mais marcantes do seu nacionalismo – autoritarismo, elitismo, paternalismo e conservadorismo – a um passado mítico legitimador do presente.

Mais, buscou, pela mão dos artistas e a pena dos historiadores, difundir, com «a clareza» possível, essas linhas invisíveis da continuidade, que uniam a grandeza do passado, do presente e do futuro de Portugal.

Corolário de uma «política de espírito», lançada na década anterior pelo audacioso director do Secretariado de Propaganda Nacional, António Ferro, assiste-se à mais conseguida conciliação da arte com a política no Estado Novo. Efémera e irrepetível, contudo.

Ninguém escondia o valor propagandístico da exposição que o próprio António Ferro sintetizaria: «1140 […] explica 1640, como 1640 prepara 1940».

Evocação histórico-ideológica dos momentos edificantes, recheados de heróis e lições exemplares. Espécie de fábula contada em imagens, símbolos, frases e palavras. A exposição ficaria como marco crucial da cumplicidade dos artistas com o Estado Novo ensaiada nos anos 30 e, simultaneamente, o seu ponto final e de viragem.

O certo é que, enquanto em Junho os portugueses assistiam pacíficos à inauguração da sua «cidade mítica», nas chancelarias acendera-se já o alarme – a guerra alastrava por toda a Europa.

Quatro anos volvidos, e o jovem e vigoroso regime atravessaria a sua primeira crise política. A exposição viera afinal comemorar, em apoteose, o fim do ciclo mais sólido da sua existência.


Para saber mais, ver:

BARROS, Júlia Leitão de, “Exposição do Mundo Português”, in BRITO, J. M. Brandão de, e ROSAS, Fernando (dir.), Dicionário de História do Estado Novo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, vol. 1, pp. 325-327;

MÓNICA, Maria Filomena, “Exposição do Mundo Português”, in BARRETO, António, e MÓNICA, Maria Filomena (Coord.), Dicionário de História de Portugal, Vol. 7, Lisboa, Livraria Figueirinhas, 1999, pp. 710-711. (...).


Fonte: excertos de © 2005 | Hemeroteca Municipal de Lisboa

Vd. também: RTP Ensina > Exposição do Mundo Português, vídeo: 23' 42''



2. A nau “Portugal” (vd. foto acima), idealizada pelo cineasta Leitão de Barros (1896-1967), construída em 1940 para a Exposição do Mundo Português, foi pensada como um símbolo grandioso da epopeia marítima e do imaginário dos Descobrimentos.

No entanto,  alguns 
historiadores e críticos culturais olham para ela como uma "encenação", uma versão romantizada e artificial de um passado que o regime do Estado Novo queria promover. Há quem, mais radical, não esconda que foi uma caricatura de um "império de papel".

De facto, a Exposição do Mundo Português (1940) foi, em grande parte, uma obra de arte efémera (e sobretudo de arquitetura), se bem que que tenha sido também um grande êxito, enquanto evento cultural e propagandístico, prestigiante para o País e para o Estado Novo. Seis dezenas de anos depois, só a Expo 98, também em Lisboa, lhe poderia pedir meças.

Muitos dos pavilhões e estruturas foram construídos com materiais baratos e temporários, tais como madeira, estuque / gesso, pasta de papel (incluindo papelão moldado e reforçado), fibrocimento, telas pintadas, revestimentos decorativos não duráveis, etc,

Estes materiais permitiam criar uma cenografia monumental a baixo custo, dado que as estruturas não eram pensadas para durar após o encerramento da exposição.

Contudo, alguns elementos mais importantes, como o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, já existentes, ou certas infra-estruturas de apoio, como o jardim colonial, a Praça do Império, o espelho de água, o padrão dos Descobrimentos, o Museu de Arte Popular, etc., são marcas que ainda hoje nos falam desse momento de glória, irrepetível, que foi, para Portugal e o Estado Novo, a Exposição do Mundo  Português.

3. O que infelizmente não chegou aos nossos dias foi a pobre nau "Portugal". (Tal como a nau "Catrineta", teria hoje muito que contar.)

Tópicos a reter sobre a Exposição do Duplo Centenário e o papel da nau "Portugal" que mimetizava um galeão quinhentista:

  • Propaganda do Estado Novo: a Exposição de 1940 tinha como objetivo enaltecer a “missão civilizadora” de Portugal e reforçar a narrativa de um país com um destino imperial, por desígnio divino (imperial mas não "imperialista"....); a nau servia mais como peça cénica do que como reconstrução museográfica rigorosa;
  • Falta de autenticidade e rigor históricos: embora se inspirasse nos galeões quinhentistas, a nau incorporava elementos estilizados e não seguia fielmente aas técnicas de construção naval da época nem adoptava os materias originais; daí a perceção de “caricatura”;
  • Símbolo de um império já decadente: em 1940, Portugal já não tinha o império que proclamava; a nau torna-se assim um símbolo paradoxal: imponente à vista, mas representante de um poder mais mítico do que real, um "império de faz-de-conta", gerido a distância;
  • Valor cultural atual: apesar do seu evidente  caráter propagandístico, a nau “Portugal” podia continuar a ter interesse enquanto objeto histórico, revelando como o país (o regime, falando em seu nome) quis representar-se a si próprio naquele momento político, numa conjuntura internacional de excepcional gravidade (estava-se em plena guerra e as democracias ocidentais estavam em sério risco de se desmoronarem).

Recorde-se, entretanto. que entre a união ibérica, monarquia dual ou III dinastia (filipina) (1580–1640) e a independência do Brasil (1822), Portugal enfrentou um período de enorme pressão de potências europeias (sobretudo Holanda e Inglaterra) mas também do próximo oriente (como Omã),  perdendo vários territórios, praças e feitorias estratégicas do seu império oriental e africano, ou alienando outras (como as praças de Tanger, no Norte de África, e de Bombaim, na Índia, parte do dote da princesa Catarina de Bragança...). Eis os principais: territórios perdidos:

  • Ceilão (Sri Lanka)
  • Cochim, Quilon, Cananor e feitorias menores na Índia
  • Fortes no Coromandel
  • Ormuz (Irão)
  • Mascate (Omã)
  • Mombaça (Quénia) e domínio na costa suaíli, etc,

O império português reduziu-se sobretudo no Índico e no Golfo Pérsico, devido à ascensão holandesa, inglesa e omanita. E em 1822 perdeu a sua jóia da coroa, que era o Brasil. A "redescoberta" de África vem depois da independência  do Brasil, a única colónia do Novo Mundo.

Mas voltando à nau "Portugal"... Acabou por tombar mal do saiu do estaleiro, na Gafanha da Nazaré, no chamado dia do "bota-abaixo"... E esse episódio (caricatural) reforça ainda mais a ideia simbólica de fragilidade do “império” que o Estado Novo tentava encenar com pompa e circunstância.

De facto, assim que a nau “Portugal” foi lançada à água, adornou  devido ao mau cálculo do casco e ao desajuste do centro de gravidade (defeitos de desenho e construção conjugados também com um eventual erro de manobra). 

Foi um embaraço público, especialmente porque a embarcação tinha sido concebida para representar a glória marítima portuguesa na Exposição do Mundo Português. E causou grande comoção entre o público que assistia a esse momento único.

Alguns aspetos relevantes para se entender este revés (de que vale a pena falar com mais detalhe na II Parte).

  • Erro técnico evidente: a construção foi feita com grande preocupação estética, mas menos rigor técnico; o resultado foi um navio visualmente imponente, mas estruturalmente desequilibrado;
  • Reação na época: apesar de se tentar minimizar o episódio, ficou para a posteridade como símbolo do improviso,   do efeito perverso da propaganda ( e talvez do "desenrascanço" lusitano):
  • Força simbólica posterior: alguns historiadores interpretam o acidente como uma metáfora involuntária: um projeto grandioso mas mal fundamentado, refletindo a discrepância entre a imagem do império projetada pelo regime e a realidade.

Depois do acidente inicial, a história da nau “Portugal” continua a ser, de certa forma, tão simbólica como o próprio projeto.

Depois de ter adornado, logo após o lançamento à água, em 7 de junho de 1940,  a embarcação teve de ser endireitada e estabilizada: foram feitas modificações de emergência para permitir que o navio pudesse cumprir minimamente a função decorativa e cénica que lhe tinha sido atribuída na Exposição do Mundo Português.

E foi, de facto, uma das grandes atrações da Exposição  (a partir de 17 de setembro, depois de recuperada), servindo como cenário flutuante, mais ornamental do que funcional, e tornado-se parte do percurso expositivo que celebrava a epopeia marítima...  

Enfim, era mais um símbolo do que um navio. Tinha problemas estruturais persistentes: a embarcação nunca foi estruturalmente sólida. Era demasiado pesada no cimo, pouco estável e feita sobretudo para “parecer”, não para navegar, embora tivesse sido pensada como uma réplica navegável, para ser usada depois na promoção de produtos portugueses, como os vinhos (nomeadamente no Brasil).

Teve um triste fim: depois de cumprir o seu papel cénico num ambicioso programa propagandístico, a nau deixou de ter utilidade. Uns escassos meses depois, em 16 de fevereiro de 1941, sofreu danos irreparáveis devido ao ciclone que atingiu o país e sobretudo a região de Lisboa.  O seu casco foi aproveitado para batelão ou barcaça para transporte de mercadorias no estuário do Tejo. E em 1952 acabou ingloriamente por ser abatida.

Hoje a nau "Portugal" nem sequer é  lembrada, ou quando muito é
 citada como uma "anedota", uma peça de propaganda estética do Estado Novo; um símbolo da tentativa de recriar um passado grandioso com materiais frágeis; e um caso curioso de engenharia naval que revelou os limites entre o mito e  o realidade. (Na década de 1940 Portugal não tinha acesso a planos originais detalhados de galeões quinhentistas: ou não existiam muito simplesmente ou eram incompletos.)

 (Pesquisa: LG + Net + IA / Gemini, ChatGPT)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG

domingo, 30 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27479: Recortes de imprensa sobre o império colonial (1): Sociedade Agrícola do Gambiel, Lda, Aldeia do Cuor, Bambadinca: entrevista a um administrador ("Portugal Colonial", nºs 55-56. set/out 1935)

 














Fonte: Excertos de Portugal Colonial: Revista de Expansão e Propaganda Colonial (Diretor: Henrique Galvão, 1895 - 1970-), Lisboa, nºs 55-56, setembro / outubro de 1935, pp. 12-13 (Cortesia de Câmara Municipal de Lisboa / Hemeroteca Digital)

Veja-se aqui a excelente ficha história sobre a recvista mensal "Portugal Colonial", de 9 páginas,  de Rita Correia. Publicaram-se 72 números, de março de 1931 a fevereiro de 1937. 

(...) Entre todas as colónias, Angola foi a que mereceu maior atenção, sobretudo nos primeiros anos. O assunto era caro ao diretor da Portugal Colonial, que ali viveu uma curiosa experiência, entre 1927 e 1929, que o catapultou da condição de degredado à de governador da província de Huila. 

Mas sobretudo porque a crise económica de Angola, filiada numa não menos gravosa crise financeira, teve um impacto significativo na vida da metrópole. Desde logo porque significou uma quebra nas trocas comerciais entre ambas, mas que foi mais penalizadora para a produção nacional,  em particular para a indústria têxtil e o setor dos vinhos, repercutindo-se também na atividade da marinha mercante, nas receitas tributárias, e nas transferências bancárias. 

MoDepois, porque desencadeou uma sequência de episódios e decisões que contribuíram para a clarificação do quadro político da Ditadura Militar, instituída pela revolução de 28 de Maio de 1926. (...) 


1. Há muitas referências no nosso blogue a esta Sociedade Agrícola do Gambiel Lda, que foi um fiasco, bem como ao regulado do Cuor, à Aldeia do Cuor, e ao rio Gambiel... 

Estes eram domínios do "Tigre de Missirá", o nosso amigo e camarada Mário Beja Santos (cmdt, Pel Caç Nat 52, 1968/70). Ele ainda hoje fala do Cuor com emoção e paixão.

 E outros camaradas do nosso blogue, como o saudoso Jorge Cabral,  cmdt do Pel Caç Nat 63 (Fá Mandinga e Missirá, 1969/71) bem como a malta da CÇAÇ 12 (eu próprio, o Humberto Reis, etc.), temos recordações ainda muito vivas desses lugares, que palmilhámos muitas vezes, em patrulhamentos ou a caminho de operações mais a norte... 

Mas eu, pessoalmente, já não me recordo de ver os restos das instalações e das máquinas da Sociedade Agrícola do Gambiel Lda, se é que ainda existiam no nosso tempo... O Beja Santos julgo que sim, deve lá ter andado a vasculhar o sitio... 

Para quem ainda acredita, piamente, que o colonialismo  (português) nunca existiu, leia, com o devido distanciamento e espirito critico, este resumo de uma entrevista, que tem 90 anos, ao então administrador desta empresa agrícola, o ribatejano Sebastião Nunes de Abreu (que veio em 1930, de Angola, para se enterrar naquelas terras palúdicas do Cuor). 

Em 1935, ainda havia a distinção entre portugueses da metrópole, "assimilados" e "indígenas"... Mas uma empresa agrícola como aquela, onde foi enterrado bastante dinheiro em máquinas e equipamentos, não conseguia recrutar gente para nela trabalhar...

O entrevistador foi Armando de Landerset Simões, que  terá nascido em Moçambique, Caconda, em 1909. Além de funcionário da administração colonial, foi escritor e etnógrafo, tem 8 referências na Porbase. como Simões Landerset. Destaque para a sua obra, "Babel negra: etnografia, arte e cultura dos indígenas da Guiné" (Porto, Oficinas Gráficas de O Comércio do Porto, 1935) (prefácio de Norton de Matos).


2. Para melhor contextualizar a entrevista, acrescente-se que, em 1935, o diploma legal que regulava o trabalho indígena nas colónias portuguesas, incluindo a Guiné, era o Código do Trabalho dos Indígenas nas Colónias Portuguesas de África (sic), aprovado pelo Decreto n.º 16:199, de 6 de Dezembro de 1928.

Este Código estabelecia o regime jurídico do trabalho para os africanos considerados "indígenas" e tinha caráter obrigatório, embora a legislação colonial o apresentasse como uma forma de combater a "ociosidade" e promover a "civilização" (sic).

Todo o "indígena" á partida "não gostava de trabalhar": este era o preconceito básico do administrador, do chefe posto, do colono, do comerciante, de missionário e do soldado. Logo, "era preciso obrigá-lo". 

Principais aspetos do Código de 1928:

(i) Obrigatoriedade: impunha o trabalho obrigatório aos indígenas do sexo masculino, com exceções limitadas (como régulos, sobas e outros  chefes gentílicos, repatriados por seis meses, e homens alistados no exército);

(ii) Curador: criava a figura do "Curador dos Indígenas" e seus agentes (delegados, administradores), responsáveis pela "proteção, tutela e fiscalização" dos trabalhadores, mas também por distribuir os encargos de trabalho;

(iii) Contratos: regulava os contratos de trabalho, estabelecendo direitos e deveres para patrões e trabalhadores, mas com garantias que, na prática, permitiam o uso de métodos coercivos por parte dos patrões para manter a disciplina e evitar o abandono do trabalho (veja-se o drama dos "contratados" das roças de São Tomé);

(iv) Estatuto diferenciado: este Código integrava um sistema jurídico mais amplo que consagrava a inferioridade jurídica do indígena, afastando-o da legislação civil e penal aplicável aos cidadãos portugueses da metrópole (o chamado "Estatuto do Indigenato");

(v) a legislação sobre o trabalho indígena, depois de muitas críticas  (de instâncias internacionais como  a OIT - Organização Internacional do Trabalho, etc. ) foi posteriormente revista e alterada ao longo do período colonial, sendo o Código de 1928 substituído pelo Código do Trabalho Rural em 1962, através do Decreto n.º 44309.



Guiné > Região de Bafatá > Carta de Bambadinca (1955)   (Escala 1/50 mil) > Posição relativa de Aldeia do Cuor, Rio Gambiel (afluente do Rio Geba), Missirá, Fá Mandinga e Bambadinca, uma das regiões mais exuberantes da zona leste, pela sua vegetação e hidrografia... 

O rio Geba (Estreito) entre o Xime, Mato Cão, Bambadinca e Bafatá espraiava-se por aquelas terras baixas como uma autêntica cobra, e originava riquíssimas bolanhas e lalas. No tempo das chuvas, redesenhava-se o curso do rio.  Imaginem uma viagem, de  "barco turra" no Xaianga (ou Geba Estreito).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)

domingo, 11 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26790: Nunca Tantos Deveram Tanto a Tão Poucas (11): Enfermeiras & paraquedistas!... Que desaforo, terão pensado os "velhos do Restelo" do "Estado Velho", em 8 de agosto de 1961...











Ilustração Portuguesa, nº 1021, Ano 55, 29 de setembro de 1961. (Diretor: Guilherme Pereira da Rosa; propriedade da Sociedade Nacional de Tipografia). Preço: 1$00. Cortesia de Hemeroteca Digital / Câmara Municipal de Lisboa


1.  Foi um acontecimento social, militar, político e até religioso, que deu direito a títulos de caixa alta na imprensa portuguesa da época. 

O então Secretário de Estado da Aeronáutica, o ten-cor eng Kaúlza de Arriaga,  tinha conseguido a competente e devida autorização de Salazar para criar o Quadro de Enfermeiras Paraquedistas integrado no pessoal da Força Aérea, equiparado a militar.  A guerra em Angola (1961) a isso obrigava...

Recrutadas nos hospitais civis, as candidatas a enfermeiras paraquedistas deviam cumprir os seguintes requisitos: 

(i) nacionalidade portuguesa;
(ii) idade entre os 19 e os 30 anos;
(iii) curso de auxiliar de enfermagem ou curso geral de enfermagem;
(iv) solteiras ou viúvas sem filhos;
(v) sem cadastro;
(vi) com boa formação moral.

Mas em nenhum diploma legal desse tempo se fala em "enfermeiras paraquedistas"!... O que não deixa de ser curioso...

Alargou-se o quadro de pessoal de  tropas paraquedistas  (batalhão, criado em 1955, mais tarde regimento), para elas poderem caber em 1961, mas só se fala em "enfermeiros" (sic)... quando a profissão era (e continua a ser) maioritariamente  feminina (vd. Decreto-Lei nº 42073, de 31/12/1958, Dec-Lei nº 42792, de 31/12/1959, e  Dec-Lei nº43663. de 5/6/1961;  Portaria n.° 18462., de 5/5/1961.

Assim, o
 Dec-Lei nº43663. de 5/6/1961, vem definir quem era o "pessoal equiparado a militar pára-quedista":

  • 1 major ou capitão graduado médico
  • 2 capitães ou subalternos graduados médicos
  • 1 capitão graduado médico veterinário
  • 1 subalterno graduado médico veterinário
  • 1 tenente graduado enfermeiro
  • 5 alferes graduados enfermeiros
  • 5 sargentos graduados enfermeiros.

Não se percebe por que razão é que na altura não se abriram as portas do batalhão de caçadores paraquedistas também às mulheres médicas, mas tão só às  enfermeiras... 

A  primeira seleção foi feita pela Escola das Franciscanas Missionárias de Maria (criada em 1950, hoje Escola Superior de Enfermagem São Francisco das Misericórdias), em Lisboa.  Era então diretora (e professora), a irmã Emaús, a madre superiora da congregação em Portugal.

Pode-se dizer que foram escolhidas a dedo as primeiras 11 candidatas (ou "convidadas"),  as quais frequentaram depois o 1º curso de enfermeiras-paraquedistas, a convite da FAP.  Só chegaram ao fim e receberam o brevet (ou brevê)  e a boina verde seis delas, ultrapassadas as provas de aptidão, médicas, psicotécnicas, físicas e militares. Ficaram conhecidas como as "seis Marias", graduadas em alferes  (e uma em sargento) (vd. aqui vídeo da RTP Ensina, de 2009):

  • Ivone  (†)
  • Arminda
  • Nazaré (†)
  • Lourdes ("Lurdinhas") (graduada em sargento)
  • Céu (Policarpo)
  • Zulmira  (†)

O 1º curso de enfermeiras paraquedistas iniciou-se em 6 de julho de 1961, em Tancos, no Regimento de Caçadores Paraquedistas, e terminou a 8 de agosto, com a imposição do brevê e da boina verde (a cinco das seis: a Maria da Nazaré, por se ter magoado num salto, só terminaria o curso uma semana depois).

As fotos que publicamos acima  são da cerimónia do dia 8 de agosto de 1961. As mulheres portuguesas estavam a fazer história nesse dia!... Os jornais da época deram larga cobertura ao acontecimento, alguns ainda elevados de preconceitos ( para não falar em misoginia, estupidez, ignorância ou sensacionalismo,  como chamar-lhe "monjas do ar"):

  • Monjas do ar: cinco  jovens enfermeiras conquistaram ontem em Tancos o "brevet" de pára-quedistas" (Diário de Notícias, 9 de agosto de 1961);
  • As primeiras mulheres pára-quedistas portuguesas (O Século, 9 de agosto de 1961);
  • Enfermeiras pára-quedistas lançadas em Tancos receberam o "brevet" e vão seguir para Angola (Diário de Lisboa, 8 de agosto de 1961)


A revista Ilustração Portuguesa, propriedade da empresa que publicava O Século. escolheu este acontecimento para a capa edição nº 1021 (em 1961 só se publicaram dois números, este, e o nº 1020, de 29 março; a revista era semanal, I e II Séries, de 1903 a 1930; depois passou a editar 2 números por ano,  de 1931 a 1980, para garantia legal do título).

PS -  A Maria Arminda seria a terceira de quatro, a contar da esquerda, na foto de topo (inicialmente parecia-nos a segunda)... Ora a  segunda é a  Maria Ivone Reis, já falecida. Da quarta, no lado direito, não se vê a cara. Legendagem com a ajuda da Maria Arminda,  a decana das enfermeiras-paraquedistas e que honra a Tabanca Grande com a sua afável presença e ativa colaboração.

___________________

Nota do editor:

Último poste da série > 10 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26787: Nunca Tantos Deveram Tanto a Tão Poucas (10): Quando a "última" foi a "primeira"... A cap enf pqdt Maria de Lurdes Lobão, que fez história: em 16 de março de 1990, foi a primeira mulher a fazer de oficial de dia num estabelecimento militar, a Escola de Serviço de Saúde Militar (ESSM)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26506: Historiografia da presença portuguesa em África (467): "Campanhas de pacificação": contra os papéis e os grumetes, Bissau, 1915 - Parte II ("Ilustração Portuguesa", 2.ª série, n.º 514, 27 de dezembro 1915, páqg. 806)

 

Foto nº 1 > Guiné > Bissau >  1915 > "Salva de artilharia dada na fortaleza da Amura. O edifício ao fundo é o do comando militar".



Foto nº 2 > Guiné > Bissau >  1915 >  "Os oficiais que fizeram parte da coluna. Da esquerda para a direita: os srs. segundo tenente da marinha Queimado de Sousa, capitão médico R. Augusto Regala, capitão de infantaria Teixeira Pinto, segundo tenente da marinha José Francisco Monteiro, tenente de infantaria Henrique de Sousa Guerra" (há um erro no nome do capitão médico, Francisco Augusto da Fonseca Regala)


Foto nº 3 > Guiné > s/l (Bissau ) > s/d  (c.1915) > "O tenente de segunda linha,  régulo Madoul-N'djou" (erro no nome, era mais conhecido por Abdul Injai ou Indjai, ou Abdoul Ndaiye, de etnia uolofe, nascido em Ziguinchor, hoje Senegal).


Foto nº 2 > Bissau > 1915 > "O senhor cpitão Teixeira Pinto que comandou a coluna de operações contra os papéis e  grumetes e mais revoltados da ilha de Bissau" (referência aos portugueses reunidos na Liga da Guiné, mas também comerciantes estrangeiros)

1. Notícia da "Ilustração Portuguesa", Lisboa,  27/12/1915:

A Campanha de Bissau

Foi um triunfo para as armas portuguesas a vitória alcançada na África contra os 'papéis0, que desde longa data vinham causando graves prejuízos à nossa soberania.

A lenda de que essa raça era invencível está, felizmente, posta de parte, sendo preciso agira fazer ver aos 'grumetes', almas danadas dos 'papéis0, que Portugal quer restabelecer ali a obediência às suas autoridades, o que fará, custe o que custar,



Diretor: J. J. da Silva Graça; Propriedade: J.J. da Silva Graça, Lda; Ed lit. José Joubert Chaves. 

(Cortesia de Hemeroteca Municipal / Càmara Municipal de Lisboa; é de reconhecer publicamente o extraordinário trabalho dã Hemeroteca Municipal de Lisboa, em termos de arquivo, tratamento, digitalização e divulgação destes periódicos centenários, cujo conteúdo merece ser conhecido pelos nossos leitores, antigos combatentes na Guiné, 1961/74).

 
(Seleção, revisão / fixação de texto, edição e legendagem das fotos: LG)



Guiné > Bissau > s/d  [c. 1960] > Monumento a Teixeira Pinto  no Alto do Crim < Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, nº 112. (Edição Foto Serra, C.P. 239,  Bissau. Impresso em Portugal, Imprimarte, SARL)... 

(Teixeira Pinto, o "capitão-diabo",. tem 90 referências no nosso blogue; esta estátua foi derrubada a seguir à independência e levada para o forte do Cacheu).

Colecção de postais ilustrados do nosso camarada Agostinho Gaspar (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4612/72, Mansoa, 1972/74), natural do concelho de Leiria.Selecção dos postais,  digitalização, edição de imagem e legendagam: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010)



2. Excerto de Carlos Bessa - Guiné. Das feitorias isoladas ao 'enclave' unificado. In: Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira, ed. lit - Nova Históriaa Militar de Portugal. Vol. 3. S/l: Círculo de Leitores. 2004. 257-270.


(...) A Liga Guineense não parou de atacar Teixeira Pinto e o seu auxiliar Abdul Injai, mas o governador Oliveira Duque não lhe retirou o apoio. A 13 de maio de 1915 foi decretado o estado de sítio na ilha de Bissau e iniciou-se a campanha contra os papéis. 

Desta vez Teixeira Pinto aceitou a colaboração de um oficial, o tenente Sousa Guerra. Concentrou em Nhacra forte  coluna que entrou em Bissau a 1 de junho. Nesse dia, porém,  os irregulares foram atacados em Antim, fugindo aos milhares. Mas o ataque dos papéis e grumetes contra a cidade foi detido e evitou-se o massacre.

No dia dia 5, após violenta preparação de artilharia contra Bandim e Antim, Teixeira Pinto ocupou aquelas colinas, mas a 7 os papéis e grumetes refizeram-se e atacaram o acampamento.

Após nova preparação de artilharia, a coluna apoderou-se de Antula,a inexpugnável, sem resistência, a 10 de junho.

Com grandce perícia seguiu-se a  penetração nas aldeias, sendo Teixeira Pinto ferido e substituído por Sousa Guerra. As negociações de rendição com os papéis fracassaram e a conquista de Quinhanel abriu a pista para o Biombo no extremo da ilha, onde terminou a campanha após uma armadilha do régulo Cassande, que simulou uma rendição e disparou, mas veio a ser abatido e a prisão do régulo do Biombo  e a a rendição do de Tor.

Teixeira  Pinto mandou construir quatro postos militares: Bor, Bijemita, Safim e Biombo.

A Guiné estava pacificada e, mais do que isso, ficava unificado o "enclave" que os Franceses sempre esperaram vir um dia a pertencer-lhes, fomentando para isso a hostilidade dos guineenses, como vimos. 

A coluna foi dissolvida em 17 de agosto de 1915. Teixeira Pintio bem mereceu, portanto, a estátua  lhe foi erguida  numa das colinas de Bissau por ele conquistada. Tal só aconteceu pela sua energia excecional, determinação e raro conhecimento do modo de ser dos nativos, que permitiu dominá-los por vias apropriadas e pouco acessíveis  à guerra clássica" (Bessa, 2004, op cit, pp. 269/270),

(Seleção, revisão / fixação de texto, edição: LG)


______________________

Nota do editor:

Último poste da série > 17 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26503: Historiografia da presença portuguesa em África (466): "Campanhas de pacificação": contra os papéis e os grumetes, Bissau, 1915 - Parte I ("Ilustração Portuguesa", 2.ª série, n.º 502, 4 de Outubro de 1915, pp. 447/448)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26503: Historiografia da presença portuguesa em África (466): "Campanhas de pacificação": contra os papéis e os grumetes, Bissau, 1915 - Parte I ("Ilustração Portuguesa", 2.ª série, n.º 502, 4 de Outubro de 1915, pp. 447/448)

 

Foto nº 5 > Guiné > s/l (Nhacra,  donde partiu a coluna que entrou em Bissau a 3 de junho ou) > 1915 > Ao centro, o Abdul [Injai], "chefe de guerra" (1); e à esquerda, "o capitão [médico], sr. Francisco Regala", de chapéu  e bigode (2)... Em primeiro plano, quatro músicos, três dos quais tocadores de cora (cujo papel deveria ser o de galvanizar os combatentes, irregulares, sob a chefia do Abdul Injai). (A numeração dos combatentes é da responsabilidade da revista, "Ilustração Portuguesa").


Foto nº 4A  > Guiné > s/l (Nhacra, donde partiu a coluna para atacar Bissau) > 1915 > Partida para a guerra contra os papéis e grumetes da ilha de  Bissau: os oficiais da coluna; o capitão de infantaria Teixeira Pinto, à esquerda (1); o capitão médico Francisco Regala, ao centro (2); e à direita, o segundo tenente de marinha, José Francisco  Monteiro (3).


Foto nº 4 ...Faltam aqui mais dois oficiais: segundo tenente da marinha Queimado de Sousa e ten inf Henrique de Sousa Guerra. De se



Foto nº 6 > Guiné > s/l  (Nhacra) > 1915 > Aparelhando os cavalos para a partida da coluna.


Foto nº 7 > Guiné > s/l (Nhacra) > 1915 > Partida de um grupo de irregulares que vão juntar-se às restantes forças.


Foto nº 1 > Guiné > s/l> 1915 > O veleiro Luso, transportando as forças irregulares que vieram combater os 'papéis'.

Foto nº  2 >  Guiné > s/l (Nhacra) > A coluna preparando-se para partir para a guerra.  


1. A propósito das "campanhas de pacificação" (um eufemismo...) (*),  reproduzimos aqui um pequeno texto e fotos das operações  de 1915 (13 de maio / 17 de agosto), contra os papéis e os grumetes da ilha de Bissau (apoiados direta ou indiretamente pelos franceses que nunca viram com bons olhos aquele "enclave" português na grande África ocidental francesa), operações em que participaram, entre outros, o cap inf Teixeira Pinto, o cap médico Francisco Regala, o tenente da marinha José  Francisco Monteiro, e o cap inf Sousa Guerra,  e o chefe das tropas auxiliares,  Abdul Injai (, de etnia Uolofe, nascido em Casamansa, hpoje Senegal.


"Para as as tropas portuguesas que operam na Guiné tem sido assaz trabalhosa a sua campanha contra o gentio que estrangeiros e portugueses desnaturados e antipatriotas têm açulado contra a nossa soberania.

Mas,apesar das rudes marchas por terrenos empestados, não afrouxou o ardor dos nossos soldados que parece animarem-se ainda mais quanto maiores forem os perigos a que se expõem.

A insubmissa ordem dos 'papéis' tem sentido os resultados da sua rebeldia  no castigo eficacíssimo que as nossas tropas lhes têm aplicado, obrigando-os a uma pacificação tão desejada para aquela nossa colónia que, apesar de insalubre, possui uma agricultura invejável pela sua enorme riqueza.

A campanha continua ainda muito acesa em vários pontos, mas espera-se, pelos reforços que para lá têm sido enviados, que dentro em breve as tropas portuguesas dominem a região, o que decerto constituirá mais  uma brilhante  vitória para o prestígio nacional".

Fonte: "Ilustração Portuguesa".   2.ª série, n.º 502, 4 de Outubro de 1915, pp. 447/448.  Diretor: J. J. da Silva Graça; Propriedade: J.J. da Silva Graça, Lda; Ed lit. José Joubert Chaves. 

(Cortesia de Hemeroteca Municipal / Càmara Municipal de Lisboa; é de reconhecer publicamente o extraordinário trabalho dã Hemeroteca Municipal de Lisboa, em termos de arquivo, tratamento, digitalização e divulgação destes periódicos centenários, cujo conteúdo merece ser conhecido pelos nossos leitores, antigos combatentes na Guiné, 1961/74).
 
 (Seleção, revisão / fixação de texto, edição e legendagem das fotos: LG)


2. A notícia é dada em outubro de 1915, já a campanha tinha terminado, em 17 de  agosto, com a vitória inequívoca do hábil e destemido cap inf Teixeira Pinto (a quem os guineenses hoje devem possivelmente o facto de terem um país que não foi engolido pelo colonialismo francês; hoje seria parte integrante do Senegal e/ou da Guiné-Conacri).

A "Ilustração Portuguesa" (fundada em 1903, com uma II série a partir de 1906) era uma edição semanal do jornal "O Século", republicano. Custava 10 centavos o número avulso  A assinatura anual era de 4$80 centavos (Portugal, colónias portuguesas e Espanha). 

Recorde-se que, com a proclamação da República (em 5 de outubro de 1910), o escudo (=1000 réis) passou a ser a nova moeda. Estava dividido em 100 centavos. 10 centavos eram portanto 100 réis. O escudo irá sofrer uma grande desvalorização com I Grande Guerra.

Foi a primeira publicação a fazer grande uso da fotografia, recorrendo não só a fotógrafos profissionais (como o Joshua Benoliel, o primeiro grande fotojornalista português), como amadores: muitas das fotos da I Grande Guerra e da guerra em África são dos próprios participantes no conflito (no caso destas fotos de Bissau, 1915, desconhece-se o seu autor).

Entretanto, e a propósito dos oficiais portugueses acima retratados, recorde-se o nome do cap médico Francisco Regala, já aqui referido no nosso blogue, por um seu bisneto (**), e nosso leitor:  Francisco Augusto Monteiro Regalla "combateu em 1915 na coluna de operações em Bissau" e fez parte, durante algum tempo, da guarnição da Fortaleza da Amura...  

Francisco Regala nasceu em Aveiro, em 1871, e morreu em 1937, com o posto de coronel médico. Foi autarca no Mindelo, São Vicente, onde está sepultado. Era uma figura muito querida dos mindelenses

Enfim, apontamentos sobre a  historiografia da presença portuguesa (nem sempre "pacífica"...) em África (***)...
  
____________

Notas do editor: