1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Março de 2026:
Queridos amigos,
Confesso que por vezes me maravilham as descrições do Capitão Brosselard, é verdade que estamos num período cultural que deu pelo nome de naturalismo, com um uso na literatura e nas artes plásticas de um especial relevo a todos os elementos de natureza, privilegiando a parte sensorial, a observação cuidada sobre as pessoas no seu meio, etc. O relato, como o leitor se apercebeu, é quase um diário, tem um especial destinatário, as autoridades que virão ou não a aprovar as decisões tomadas pelas comissões lusa e francesa. O que há a destacar neste texto é o exame que ele faz da beleza das Fulas, da ruína em que se encontra todo o Forreá, devido às guerras inter-étnicas e não deixa de nos assombrar o elogio que ele faz à tropa portuguesa em Buba. Dentro em breve os delimitadores irão para norte, iremos assistir ao adeus do Casamansa em português.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 13
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
Recapitulando, a coluna francesa às ordens do Capitão Henri Brosselard desloca-se para a colónia portuguesa, estão definidas as fronteiras na região sul. Dotado de um grande espírito de observação, o oficial descreve travessias, riachos, florestas, populações. Veja-se o que ele nos diz dos Fulas em Kevel:
“No chão Fula, eles gozam, em geral, de pouca consideração. Têm o estatuto de rendeiros ou feitores dos chefes que lhes pagam em proteção. Os que temos encontrado não parecem mestiçados, como a maior parte dos seus congéneres, parece que preservam o seu tipo de origem. A sua cor é bronzeada (significa que se trata da sub-etnia Futa-Fula), cor do café ligeiramente queimado. As raparigas são graciosas, algumas são mesmo bonitas; os seus olhos grandes com longas pestanas pretas têm uma expressão de doçura incomparável; os seios têm uma forma notável; os seus membros são bem feitos, os seus braços têm as extremidades finas; as suas pernas são mais robustas que magras. As raparigas Fulas herdaram a beleza das suas ancestrais, mas elas são mais escuras; porém, conservam estes grandes olhos velados de negro que dão um delicado encanto à sua fisionomia.”
Continuando na primeira pessoa do singular:
Pelas nove horas, a vanguarda da coluna e os oficiais entram em Contabane. Esta povoação é a maior do Forreá, a sua povoação estima-se entre 1000 e 1500 habitantes, o povoado está situado na margem direita do rio Gounaba. Estamos nos últimos dias da época seca; os indígenas estão concentrados a fazer buracos para recolher uma água estagnada. Percorremos os dias seguintes para lá de Contabane, uma região coberta de povoados e bem arroteada (desbravada), infelizmente a situação política não permite ainda que se pratique o cultivo; pastavam por toda a parte manadas de bois e vacas. Os riachos são numerosos; correm em geral para o Combidiah (Cumbijã) que é um afluente entre o Cacine e o rio Grande de Buba, porque as suas nascentes (?), que fizemos o reconhecimento, são muito mais a leste que as do Cacine. Todos estes riachos estão rodeados de bosques impenetráveis com árvores de grande porte.
A 23, acampámos perto de um riacho vizinho de Guidali e esperávamos chegar a Buba no dia seguinte. O Sr. Oliveira seguia-nos com um dia de atraso, com a sua coluna.
Para retemperar as forças dos homens da nossa coluna, os cozinheiros estiveram ativos toda a noite e confecionaram uma pantagruélica refeição de arroz e cuscuz, a que se juntou carne de vaca. Come-se à luz das fogueiras e pelas cinco da manhã pomo-nos em marcha. Hoje o despertar teve lugar antes da hora, devido à invasão de formigas que queriam tomar conta de tudo.
Atravessámos uma povoação de nome Kolibouïa onde ficámos surpreendidos por encontrar casas construídas à europeia, mas que estavam em ruína. Foram outrora a residência de comerciantes que abandonaram a sua atividade no Cumbijã, como outros abandonaram Cacine e o rio Grande de Bolola.
Continuámos a nossa marcha na direção de Bolola. Esta povoação compõe-se de muitos grupos de casas; cada grupo está rodeado de uma dupla proteção de vimes entrançados numa malha apertada; cada grupo forma uma pequena cidadela e estas cidadelas têm entre elas posições de defesa. Estas cidadelas estão dispostas em terreno descoberto e circunscritas de um lado, ao alcance de tiro de espingarda, por uma curva de riacho que o mato denso torna intransponível. Outros pontos de defesa estendem-se pela floresta, desbravada e ao alcance do tiro de espingarda, mas dificilmente praticável para lá da orla. Só se pode chegar por campo aberto através do caminho de Buba ou o que vai para Kolibouïa.
Perto de Bolola encontramos o nosso amigo Mahmadou-Paté, no meio do exército que ele já exibira em Simbéli. Os guerreiros conversam em círculo, sentados no chão, a espingarda sobre as pernas. Apesar da insistência do rei, que queria que ficássemos mais tempo, continuámos para Buba e após uma marcha rápida facilitada pela natureza do caminho atingimos o rio Grande de Bolola.
Estava maré-alta, era imprudente, na ignorância dos lugares onde se podia passar a vau, atravessá-la. Do ponto onde nos encontrávamos apercebemo-nos que a 2Km a montante do rio estavam os telhados de Buba. Para se pedir uma embarcação era preciso chamar a atenção do comandante da Praça ou dos habitantes da outra margem. Fez-se uma grande fogueira, arderam à mistura árvores enormes e três atiradores deram tiros para o ar, regularmente espaçados para fazer saber que era um sinal europeu.
Inesperadamente, e para nossa total surpresa, vimos os negros de Buba acorrer da outra margem, armados de catanas e espingardas. Chegam pela margem a 200 metros onde nós descansávamos à sombra das árvores. Agrupam-se, falam entre si e precipitam-se sobre nós lançando gritos que parecem ameaçadores, vêm em direção dos nossos atiradores. Estes, um tanto embaraçados, preparam-se para ripostar a tiro; nós apressámo-nos a chamá-los, batem em retirada, gritando aos outros que não vínhamos fazer guerra, precisávamos simplesmente de uma embarcação. Enfim, os outros chegam e cercam-nos, parecem hostis. Para grande surpresa nossa vem o atirador Semba d’Yaye anunciar que tudo estava esclarecido.
Os Biafadas temiam tratar-se de um ataque dos Fula-Cundas, estavam agora esclarecidos da situação e os nossos inimigos do momento ofereceram-se para atravessarmos às suas cavalitas o rio e levar-nos a Buba. Aceitámos tal proposta como uma solicitude. Havia muita água no rio e a travessia fez-se com uma certa dificuldade. Depois da travessia examinámos a indumentária bizarra destes guerreiros, na sua maioria vestidos de calções de cores berrantes e camisas onde predominavam o vermelho, o amarelo e o verde.
Tendo mudado muitas vezes de carregadores, conservámos sobre as nossas calças brancas a marca de uma série de cores variadas, o que comprova a má qualidade do tingimento dos tecidos de que são feitas.
O comandante Buba, a que não se explicara o que se estava a passar, pusera a tropa de prevenção. Logo que se apercebeu da nossa chegada, veio até nós e introduziu-nos na Praça.
A postura irrepreensível deste oficial fazia um contraste singular com a nossa. Os soldados estavam no seu posto de combate, os artilheiros ao pé das peças, prontos a fazer fogo. Podemos apreciar a disciplina e a compostura das tropas portuguesa. Não me poupei a elogios.
Buba foi uma escala perfeita quando a mancarra estava plantada em toda a região. Hoje o comércio só existe para satisfazer as necessidades locais. Há algumas casas construídas ao modo europeu, mas estão abandonadas e em estado de ruína. O aldeamento indígena conta com 150 moranças e 600 habitantes.
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Nota do editor
Último post da série de 16 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28351: Historiografia da presença portuguesa em África (544): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (12): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)































