sexta-feira, 10 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17123: (D)o outro lado do combate (Jorge Araújo) (6): Vida e morte de Simão Mendes, vítima de bombardeamento, pela FAP, da base central do Morés, em 20 de fevereiro de 1966




O nosso colaborador assíduo do blogue, Jorge Araújo (ex-Fur Mil Op Especiais da CART 3494. Xime e Mansambo, 1971/74): tem já mais de 110 referência no nosso blogue; ainda está no ativo, é professor universitário, doutorado em ciências do desporto. Este texto, a publicar em duas partes, foi submetido ao blogue em 4 de janeiro de 2017]


1. Introdução

Apresentei no início deste ano uma resenha histórica, dividida em duas partes por questões editoriais, relacionada com a realização do I Congresso do PAIGC, organizado nos arredores da tabanca de Cassacá (Frente Sul), entre 13 a 17 de Fevereiro de 1964 [P16991 e P16998].(*)

Nela dei conta, com particular destaque, à importância social da saúde e da instrução literária,. analisadas um mês depois, em 21 de março, na Base Central (Morés), por iniciativa dos responsáveis dessa Frente [Norte], Ambrósio Djassi [nome de guerra de Osvaldo Vieira, 1938-1974] e Chico Té [nome de guerra de Francisco Mendes, 1939-1978], cumprindo deste modo as resoluções aprovadas no encontro de Cassacá.

Nesse âmbito, e no que concerne à área da Saúde, Simão António Mendes [enfermeiro de formação], seu principal responsável na Região Norte, apresentou um relatório [normas ou regulamento] com dez pontos, que foi aprovado por unanimidade.

Hoje, ao ler o P17119, da responsabilidade do camarada Jorge Ferreira (**), onde se faz referência a Simão [António] Mendes, nome com que foi baptizado o Hospital Nacional de Bissau [imagem acima], “antigo enfermeiro da época colonial, militante do PAIGC, morto em combate no Morés, e sobre o qual se sabe muito pouco”, tomei a iniciativa de partilhar convosco o que apurei sobre este tema.


2. SIMÃO ANTÓNIO MENDES – As suas funções e a sua morte

2.1. O que apurei

Como fonte de investigação bibliográfica, utilizei para este caso os arquivos da Casa Comum da Fundação Mário Soares.

Confirma-se, pela nota abaixo reproduzida, que Simão António Mendes fazia parte, de facto, da Direcção de Saúde do PAIGC.

No documento, por si assinado, enviado à Direcção Central do PAIGC em 24 de Março de 1964, ou seja, três dias após ter apresentado na Base Central (Morés) as normas de funcionamento da sua estrutura, pode ler-se:

I – Junto se remete a requisição dos medicamentos e mais artigos para um trimestre para consumo de guerrilheiros e povo da zona libertada por esses últimos não poderem deslocar a outra parte à procura de assistência sanitária.

II – Tomámos boa nota da última carta do nosso camarada Lourenço Gomes [responsável no exterior (Senegal; Base de Samine) pelo acompanhamento dos evacuados do interior da Guiné], sobre doentes a enviar para a fronteira que passarão a ser só os feridos por arma de fogo, tais como fracturas e certos casos graves que não podemos resolver cá, por falta de recursos.

Cumprimentos cordiais. 

Simão António Mendes e João Augusto Costa

Citação: (1964), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_35806 (2017-3-09)

Fonte: Casa Comum

Instituição: Fundação Mário Soares

Pasta: 04613.065.155

Assunto: Remete a requisição de medicamentos e mais artigos para os guerrilheiros e população (para um trimestre). Refere que tomaram boa nota das indicações de Lourenço Gomes de enviar para a fronteira apenas os feridos com arma de fogo.

Remetente: Simão António Mendes, João Augusto Costa.

Destinatário: Direcção do PAIGC.

Data: Terça, 24 de Março de 1964.

Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Correspondência 1963-1964 (dos Responsáveis da Zona Sul e Leste).

Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral.

Tipo Documental: Correspondência

(Reproduzido com a devida vénia...)


2.2. A sua morte em 20 de fevereiro de 1966

De acordo com o comunicado da Base Central (Morés), a morte de Simão António Mendes ocorreu no dia 20 de fevereiro de 1996, domingo, sendo descrita nos seguintes termos:

“No dia 20 de fevereiro [de 1966] o inimigo apoiado por 8 caçadores [caça-bomdeiros  T 6 ? ou companhias de caçadores ?] invadiu a Base Central [Morés]. O combate que durou 6 horas de tempo, teve como resultado a retirada em debandada inimiga que caiu em 3 emboscadas sucessivas.

O inimigo,  não podendo realizar o plano, reforçou a aviação. Com o fim de bombardear a base, onde os nossos camaradas de armas anti-aéreas deram uma grande prova de corage,  não os deixando realizar o plano.

Depois de duas horas de combate, só conseguiram lançar uma bomba dentro da Base causando a morte a 3 camaradas entre os quais o responsável da saúde do C.I.R.N., Simão António Mendes.

Dois aviões foram atingidos pelo fogo da D.C.K. [metralhadora pesada de 14.5 mm]

Região Oío, Zona Morés, Base Central.





Citação: (s.d.), "Comunicado [Região 3]", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40720 (2017-3-09)

Fonte:  Casa Comum

Instituição: Fundação Mário Soares

Pasta: 07065.068.011

Título: Comunicado [Região 3]

Assunto: Comunicado da Base Central, na Região de Oío, Zona de Morés, dando conta da invasão desta Base pelo exército e aviação portugueses, tendo sido atingidos dois aviões pelos combatentes do PAIGC, munidos de armas antiaéreas.

Data: s.d.

Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Exército Popular Zona Norte (Comunicados)

Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral.

Tipo Documental: Documentos.

(Reproduzido com a devida vénia...)


Mapa da Região do Oio - Base Central (Morés)


2..3. A versãodo cmdt Bobo Keita:

A antiga glória do futebol guineense, Bobo Keita (1939-2009), nas suas memórias, tem  uma versão um pouco mais detalhada sobre a vida e a morte de Simão Mendes:

(i) "trabalhou na administração colonial como responsável pela saúde" (sic), em Binar ou Bissorã ("não tenho a certeza");

(ii) numa das suas deslocações, "caiu num emboscada montada pelo camarada Agostinho Cabral d'Almada", o famoso "Gazela";

(iii) essa emboscada foi já "perto da base de Morés";

(iv) "foi levado como prisioneiro" (sic)  para o Morés e aí explicou que já há tempo "procurava estabelecer contactos" com o PAIGC;

(v) ingressou, deste modo pouco ortodoxo, no Partido;

(vi) "morreu,  mais tarde, no intenso bombardeamemnto da base de Morés ocorrido no dia 14 de novembro de 1964" [, aqui é que a data não bate certo com a do comunicado, acima reproduzido, que refere 20/2/1966, ou seja um ano e três meses depois...];

(vii) nesse bombardeamento, "os camaradas Juvêncio Gomes e  Tiago Aleluia Lopes foram atingidos por estilhaços", na cabeça (o Tiago) e  nas mãos e parte do rosto (o Juvêncio).

Fonte: CARVALHO, Norberto Tavares - De campo em campo:  dos estádiso de futebol à luta de libertação nacional dos povos da Guiné e de Cabo Verde; conversas com o comandanet Bobo Keita. Edição de autor, Porto, 2011, p. 244.
_____________________


Obrigado pela atenção.
Um forte abraço de amizade com votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

09MAR2017.
______________

Notas do editor:

11 comentários:

Tabanca Grande disse...

Esta história (do Bobo Keita) parece estar mal contada… Em dezembro de 1960, o Simão Mendes era enfermeiro em Safim, a norte de Bissau e já fazia trabalho político a favor da causa nacionalista, segundo o historiador e nosso grã-tabanqueiro Leopoldo Amado (In: "Da embriologia nacionalista à guerra de libertação na Guiné-Bissau”,Revista “Soronda”, INEP, Guiné-Bissau, 2002).

Por outro lado, o Bobo Keita não é bom em datas. Antecipou, ao que parece, a morte do Simão Mendes em 1 ano e três meses… Tem que se dar o desconto: são “memórias orais”, e quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto…

Não sei como o Amílcar Cabral idou com este problema... NO mato, na guerrilha, mais vale um bom enfermeiro do que um mau médico…. O PAIGC não tinha, no início, nem uns nem outros… Mas teve que aliciar os poucos e bons enfermeiros que havia nos serviços de saúde administração colonial…

Gostava de ler outras versões sobre a “entrada” do Simão Mendes para o PAIGC… Se o homem já era do Partido (na altura, PAI) em finais de 1960, como é que é “apanhado à unha” perto da base do Morés, mais tarde, pelo “Gazela” ? O que é que o enfermeiro lá fazia por esses sítios ?...

Talvez algum dos nossos leitores tenha mais informação sobre este caso… Simão Mendes acaba por ser um dos heróis nacionais guineenses mas os jovens guineenses pouco ou nada devem saber saber ele… O mesmo acontece com todos os outros "combatentes da liberdade da Pátria", praticamente todos mortos, com uma exceção ou outra...

É uma triste sina um povo ignorar a sua história e os homens que a fizeram...Para mais Simão Mendes dá o nome oao único Hospital Nacional, infelizmente também de triste fama....pelas reportagens que tenho lido ou visto...

Antº Rosinha disse...

A gente mais politizada nas diversas colónias africanas, além dos "Estudantes do Império" eram os enfermeiros e jogadores de futebol e atletismo.

Mas tal como a maioria dos velhos régulos e dos estudantes, o grosso de atletas e futebolistas, sempre duvidaram da seriedade, sinceridade e oportunidade daqueles movimentos.

Portanto a maioria não aderiu, ficou na retranca, na selecção nacional de futebol, a jogar no Setúbal e Sporting e Benfica, a olhar de esguelha.

O Enfermeiro mais notório e activo foi Samora Machel.

O último tratamento que fiz a uns ferimentos em acidente de Unimog, na minha guerra em Angola, foi atravez de um enfermeiro que vi ir preso.

O comandante da companhia lá saberia porquê.

Eu não soube.

Cumprimentos


Anónimo disse...

Camaradas,

As minhas desculpas pelo lapso.

No ponto 2.2 - onde se lê «20 de fevereiro de 1996» deve-se ler «20 ... de 1966».

O mesmo lapso ocorreu no primeiro parágrafo.

Bom fim-de-semana.

Jorge Araújo.

Tabanca Grande disse...

Jorge, já está corrgido o ano...Calro que era 1966 e não 1996...

Outra questão, que operação fopi esta, em 20 de fevereiro de 1966, contra a base do Morés, envolvendo 8 companhias de caçadores (?) e aviação ?

Algum dos nossos leitores tem informações sobre esta operação ?

Anónimo disse...

Caro Luís,

Na busca de uma resposta à tua pertinente questão, apenas posso acrescentar o seguinte:

Na História da Unidade da CART 1525, Capítulo II, 2.1 - Introdução, pp.14/15, encontrei a seguinte referência:

"(...) Numa transferência interna do Batalhão [BCAÇ 1857], esta Companhia [CART 1525] recebeu ordem para substituir a CCAÇ 1420. Para seu cumprimento a CART 1525 deslocou-se para o novo aquartelamento de Bissorã no dia 25 de Fevereiro [de 1966], recebendo o material da Companhia que substituia, enquanto deixava em Mansoa uma equipa que entregaria a carga anterior. [...]
O sector de Bissorã estendia-se nessa altura predominantemente para Leste, abrangendo uma grande extensão da região do Oío já tristemente célebre. Era aí que o IN se havia estabelecido criando a sua Base Central (Morés) rodeada de inúmeras bases satélites, o que dificultava imenso a acção das nossas Forças nessa zona ou talvez mesmo impossibilitava a penetração até ao seu refúgio escondido no interior das matas quase virgens."

Em função do acima exposto é muito provável que tenha sido a CCAÇ 1420 a estar envolvida na acção relacionada com a morte do Simão António Mendes, em 20 de fevereiro de 1966.

Será que é esta a verdade dos factos?

Ab. Jorge Araújo

Tabanca Grande disse...


Luís Graça
10/03/2017


Paulo:

Bom dia... Andamos à procura de dados sobre o Simão Mendes...
Conheceste bem o hospital, foste lá administrador, e deves ter ouvido
histórias sobre este homem... Afinal, sabemos pouco ou quase nada
sobre ele... Dá uma ajudinha... Ab. grande, Luís

Anónimo disse...

Paulo Salgado
11 mar 2017 07:03

Meu Caro Luís,
Bom dia.
.
Do Simão Mendes, nada sei, infelizmente. O que nos ficou, à Paula, à Maria da Conceição e a mim, foi a visita a uma espécie de cemitério ao seu túmulo no Morés, ao lado de um comandante cubano e, se estou certo, de Osvaldo Vieira. Deveria ter perguntado mais ao Prof. Quintino que, simpaticamente, nos fez visitar toda a povoação e promoveu o encontro com um antigo combatente na tabanca. Isto está relatado numa das crónicas. A propósito de crónicas, estou convencido de que fiz um bom livro, passe a vaidade...

Irei falar com o Dr. João Maria Goudiaby - pode ser que saiba algo mais sobre o Simão Mendes...

Fico satisfeito com a continuação do teu trabalho. Prossegue, pois.

Uma arreliadora rotura parcial do tendão supra-espinhoso limita-me grandemente na escrita, na condução e na ajuda em casa. Estou (estava...) comprometido em fazer uma intervenção em cada número da Tecnohospital (revista dos engenheiros e arquitectos hospitalares) e tenho na cabeça outro livro, além de já estar concluído um para crianças, faltando apenas a parte de desenhos...


Forte abraço.

Paulo

Bispo1419 disse...

Meus caros camaradas Luís Graça e Jorge Araújo:

Eu participei nesta operação, de seu nome "CASTOR". Confiando na minha memória, vou tentar recordar alguma coisa sobre o assunto, um assalto muito bem sucedido a uma arrecadação de material da base inimiga de Morés, na manhã do dia 20/02/1966.

Neste blogue há, pelo menos, duas referências à "CASTOR". A mais desenvolvida e importante é a do Rui Silva, fur. milº CCaç.816 (P3806: Golpe-de-mão a Morés). A outra é minha, eu fur. milº CCaç.1419 (P11614: Religiosidade). Com estas duas CCaç. também participaram na operação a CCaç. 1418 e um ou dois pelotões de milícias.

A op. CASTOR foi feita de emergência, delineada poucas horas depois de se obter a colaboração de alguém do In que conhecia muito bem a principal arrecadação da base de Morés e que de lá tinha saído há tão pouco tempo que ainda não tinham dado por falta dele. Umas muito poucas dezenas de horas depois estava a operação montada.

Penso que a estratégia delineada não andaria longe disto:
Enquanto pelo norte as CCaç 816 e CCaç.1419 tentariam cumprir o objectivo da operação, a CCaç. 1418 avançaria pelo lado sul com a missão de atrair o IN com diversas manobras de diversão, sem qualquer intenção de avançar para a base inimiga.

Vou só falar da parte que me calhou. Sobre a acção da CCaç.1418 nada sei para além de ter a certeza de que participou na "CASTOR" e penso que não teve quaisquer baixas.

Saídos do Olossato na noite de 19 para 20, estávamos perto do objectivo ao alvorecer e sem quaisquer problemas no percurso. Aproveitando a qualidade do guia que conhecia tudo ao pormenor, a CCaç.816 avançou para o assalto devidamente apoiada pela CCaç.1419 em segurança de retaguarda. Com alguma surpresa percebeu-se que não havia segurança no local, nem sequer próxima (nunca ouvi que tivesse sido abatida qualquer sentinela). Talvez os seus membros, a existirem, se tivessem deslocado em apoio à defesa da Base contra o "ataque" da CCaç.1418 vindo do sul.

O que é certo é que foi "um ver se te havias" a esvaziar a grande arrecadação da base de Morés. Durante mais de uma hora foi-se acumulando material numa clareira pouco distante, sem qualquer sinal do IN, mesmo depois de os helicópteros começarem a carregar o material apreendido. E assim se continuou até que umas rajadas assinalaram a presença do IN, "acordado" da surpresa, interrompendo assim o serviço de carga.
Os helis já tinham retirado umas boas toneladas de material, digamos que à volta de três toneladas. O muito material ainda não carregado foi distribuído e transportado por todos nós ( mais de 200) e assim carregados retirámo-nos do local. O único contacto directo com o IN deu-se, pouco tempo depois, na orla norte da mata do Morés e já na antiga estrada Bissorã-Mansabá, perto da saída para Olossato. Foi um fogachal medonho mas as NT não tiveram baixas.
Daí até ao Olossato, foi uma pressa. Lá fomos fazendo o caminho carregados mas satisfeitos, ao som dos bombardeamentos à base IN que se seguiram após a nossa saída da mata.

(Continua)











____________

Bispo1419 disse...

(Continuando)

Há no meu P11614 deste blog algumas referências sobre a operação "CASTOR" motivadas pelo tema "religiosidade", tema este em apreço numa carta minha para a namorada. Também tem publicadas fotos de algum do material apreendido:

« Bissorã, 17 Março 66
(… … …)
Olha lá, não ouviste aí falar, na rádio ou nos jornais, numa grande operação realizada aqui, em que tivemos um êxito enorme? Foi na noite de 19 para 20 de Fevereiro. O teu M. lá andou. Vi-me tão atrapalhado nesse dia que até gritei pela minha Mãezinha e por ti. Não te rias, é verdade! Um “sacana” estava mesmo a atirar-me para cima. As balas picavam o chão à minha volta e só estava à espera de sentir uma pelo corpo dentro. Mas saí incólume. Éramos perto de 250 homens e só tivemos quatro feridos [ligeiros]. Capturámos muitíssimo material de guerra. (…). As fotografias do material capturado deveriam ter circulado pelos jornais e pela TV. Não viste? [*]
(… … …). »

E sobre isto, no mesmo "post", este esclarecimento:

« [*] [ “Vi-me tão atrapalhado nesse dia que até gritei pela minha mãezinha e por ti”:
Referência à “Operação Castor” (20/02/1966) que consistiu num bem sucedido golpe de mão a um depósito de material de guerra do IN na sua grande base de Morés. Correu tudo de tal modo que o IN só reagiu bastante tempo depois, interrompendo o serviço dos helicópteros que já tinham recolhido e transportado para o Olossato a maior parte do material (cerca de três toneladas), tendo o restante de ser levado às costas pelo pessoal participante na acção (CCaç 816, CCaç 1419 e Pel Milicias). Nesta retirada, no caminho para o Olossato, sofremos uma forte emboscada. Na preocupação de coordenar os “meus” homens, aconteceu ver-me no meio da “estrada” e ter de me deitar aí, ficando a descoberto, de bruços, com a cabeça a tentar “esconder-se” atrás de um saco de carregadores vazios que antes levava aos ombros. Dei por um levantar de poeira provocado por uma rajada com as balas a picar o chão à minha frente, a centímetros da cabeça. Comecei a sentir-me alvo de alguém que tentava acertar-me. Sem hipóteses de me levantar e de mudar de lugar fiquei, imóvel, colado ao chão, à espera de ser “costurado”. Ainda hoje, quando penso nisto, sinto um calafrio a percorrer-me a coluna, desde o “buraco” ao fundo das costas até à nuca. E é verdade, “juro”, que nesta aflição me não ocorreu qualquer ideia e/ou expressão de índole religiosa. Se “gritei” pela namorada, já me não lembro. Mas o “Ai, minha mãezinha!” continua fortemente a ecoar na minha mente quando recordo o acontecimento. »


Segue-se, ainda neste P11614, uma correcção minha ao "P3806: Golpe-de-mão a Morés".
Pelo que vejo, também eu agora a necessitar de ser corrigido pois chamei a operação de "Condor"(!) em vez de "CASTOR":

« Sobre esta operação militar, “Condor”, ver neste blogue o P3806 de 27/01/2009, do camarada Rui Silva da CCaç 816, de onde foram recolhidas as imagens acima publicadas. Neste “post” do nosso estimado “tabanqueiro” há dois erros a merecer correção:

(i) não foi a CCaç 1418 quem acompanhou a CCaç 816, mas sim a CCaç 1419, a que pertenci, deslocada de Bissorã para Olossato precisamente para esta operação.

(ii) também a CCaç 1481 não foi a outra companhia que atuou “à distância” pois estava em Moçambique (BCaç 1873). Julgo que na identificação houve troca dos algarismos 1 e 8 e, por isso, creio ter sido, aqui sim, a CCaç 1418 a atuar. »

E por aqui me fico, meus caros camaradas. Perante o que digo acima se verifica quanto de "verdade" existe na cartinha-relatório da base de Morés, motivo deste meu comentário.
É que, salvo o bombardeamento sofrido e seus efeitos, muito pouco ou nada tem a ver com o que realmente aconteceu em Morés naquela manhã de 20 de fevereiro de 1966.

Abraços amigos do
Manuel Joaquim
_

Anónimo disse...

Caro Camarada Manuel Joaquim,

Bom dia.

Acabo de ler os teus testemunhos acima, classificando-os de excelentes, na medida em que me permitiram alargar os meus conhecimentos sobre a actividade operacional das NT, particularmente na Região do Oío (base central do Morés), e os seus resultados.

OBRIGADO!

Oportunamente, voltarei a este tema contando outras pequenas histórias, com o mesmo objectivo de sempre... o de contribuir para o seu aprofundamento na busca da verdade factual.

Pode ser que lhes acrescentes mais algumas do teu baú de memórias.

Bom fim-de-semana.

Com um forte abraço,

Jorge Araújo.

Bispo1419 disse...

Caro Jorge Araújo:

Muito obrigado pelas tuas palavras e pela qualidade e excelência das tuas publicações neste blog.

Abração
Manuel Joaquim