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domingo, 21 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças









Recortes de imprensa, "Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975, 2ª ed., pp. 1 e 20.

Fonte: Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso |  Pasta: 06822.172.27196 | Título: Diário de Lisboa | Número: 18752 | Ano: 55 | Data: Quarta, 30 de Abril de 1975 | Directores: Director: António Ruella Ramos; Director Adjunto: José Cardoso Pires | Edição: 2ª edição | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: Imprensa  




Vietname > Saigão> 29 de abril de 1975 > Um membro da CIA ajuda um grupo de evacuados civis,  a subir uma escada para um helicóptero da Força Aérea Norte-Amerivcana, no telhado do número 22 da rua Gia Long, pouco antes da queda iminente de  Saigão às  mãos das tropas norte-vietnamitas.  Foto histórica do fotojornalista neerlandês Hubert van Es (1941-2009). Imagem do domínio público. Cortesia de Wikimedia Commons.


1. Há 51  anos a agência Reuters e o Diário de Lisboa, de 30/4/1975, noticiavam o fim da guerra do Vietname (*).  Uma guerra que se arrastou por  3 décadas, e que foi um pesadelo para todos, como todas as guerras o sao: os vietnamitas e os outros povos da Indochina (Laos e Camboja), os franceses, os americanos e outros aliados... (e demais povos e todo o mundo, já que não foi  uma mera guerra colonial nem regional, desenrolou-se em pleno clima de "guerra fria").

A guerra do Vietname envolveu diretamente mais de 10 países. O conflito militar abrangeu três palcos principais (Vietname, Laos e Camboja) e foi também um confronto entre dois blocos ("capitalista" e "comunista", oeste e leste). Os EUA começaram a mandar tropas para o Vietname a partir de 1965, atingindo um pico de 543 mil  em abril de 1969.
 
Foi também uma guerra que esteve no nosso "imaginário"... Mais do que isso: também sobrou para nós... Os mísseis russos terra-ar Strela, por exemplo, já tinham sido testados no Vietname... bem como a passagem da guerrilha à guerra convencional (no caso, por exemplo,  da Guerra dos 3 G: Guidaje, Guileje, Gadamael)...

E havia até quem, mal ou bem, na nossa geração, comparasse a guerra da Guiné com a do Vietname... É evidente que foram duas realidades incomparáveis: pelos meios bélicos empregues, em homens e armas, pela extensão do território, pela violência, pelo nº de baixas, pelas implicações geopolíticas a nível mundial,  etc.. As nossas guerras (em 3 TO, Angola , Guiné e Moçambique) foram de "baixa intensidade". 

Estima-se que em 1967 as forças do Vietname, Vietcongues e  seus aliados fossem da ordem dos 860 mil, enquanto que do lado do Vietname do Sul, EUA e demais aliados rondassem os 1,4 milhões (em 1968). 

O número de mortos (civis e militares), apenas vietnamitas, são difíceis de calcular, estimando-se entre menos de 1 milhão, e 3 milhões. Do lado das forças dos EUA,  as baixas seriam as seguintes: c. 58,2 mil mortos; mais de 150 mil feridos graves (evacuados); 1626 desaparecidos (ainda em 1975) (Fonte: Wikipedia). 



Luís Gonçalves Vaz 
2.  
A retirada portuguesa da Guiné-Bissau em 15 de outubro de 1974 e a evacuação americana de Saigão em 29/30 de abril de abril de 1975 podem ser apresentadas como dois exemplos, diferentes, se não mesmo opostos, do fim de uma guerra prolongada e de uma presença militar "além-mar". 

Ao analisamos, porém os detalhes, constatamos que s diferenças são tão importantes quanto as semelhanças.

O texto do Luís Gonçalves Vaz (**) descreve a retirada portuguesa como uma operação cuidadosamente planeada, e melhor executada, baseada na Ordem de Operações n.º 1/74, na sequência do acordo político entre Portugal e o PAIGC. 

Cerca de 2.500 militares metropolitanos (os últimos de um exército que totalizava dez vezes mais, sem contar com cerca de 15 mil homens em armas, do recrutamento local, incluindo milicias), foram retirados por via marítima, sob coordenação da Marinha (Comodoro Al,meida D'Eça), mantendo-se dispositivos de segurança até ao último momento.

 E tudo aconteceu com dignidade, segurança, ordem, disciplina, com respeito, até essa data, no que foi assinado nos acordos de paz entre as NT e o PAIGG. ( O que se passou depois é outra história, a "caça" aos "cães dos colonialistas"...)

O que têm em comum as duas retiradas, separadas no tempo apenas por seis meses? E, no espaço: os portugueses estavam a 4 mil km de casa, os norte-americanos a 13 mil (***).

(i)  O fim de uma guerra sem vitória militar clara

Em ambos os casos, os exércitos retiravam-se sem terem sido derrotados numa batalha decisiva nos dias finais. Portugal abandonava a Guiné após o 25 de Abril e o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, em 10 de setembro de 1974, aceitando retirar as últimas tropas até 15 de outubro de 1974. Por seu turno, os EUA abandonavam o Vietname do Sul após anos de guerra (1965/73)  e depois dos Acordos de Paris de 1973.

Em ambos os casos, a decisão foi sobretudo política.

(ii) Forte componente logística

Tanto em Bissau como em Saigão, o desafio principal foi retirar pessoal, equipamento e documentação.

No caso português, o texto do Luís Gonçalves Vaz destaca o papel dos navios T/T  Uíge e Niassa e da fragata NRP Comandante Roberto Ivens como núcleo da operação, além das LFG  Lira e Orion.

Em Saigão, os americanos recorreram a uma gigantesca ponte aérea por helicópteros a partir da embaixada e de navios da 7.ª Frota. Foram evacuados 6500 militares e civis, incluindo diplomatas.

(iii) O simbolismo das imagens

As imagens do arriar da bandeira portuguesa em Bissau e das multidões junto à embaixada americana em Saigão tornaram-se símbolos do fim de uma época. 

As diferenças fundamentais;

  • A retirada portuguesa foi negociada; a de Saigão foi uma evacuação de emergência

Esta é provavelmente a maior diferença. Na Guiné, existia o Acordo de Argel (26 de agosto de 1974). O PAIGC cooperou na transição. E a retirada foi planeada com datas, meios e responsabilidades relativamente bem definidas. 

Em Saigão, o exército norte-vietnamita e o Vietcongue avançavam rapidamente. A capital estava prestes a cair. A  evacuação dos últimos soldados e funcionários diplomáticos bem como de milhares civis (sobretudo sul-vietnamitas)  foi feita sob enorme pressão temporal, para não dizer pânico.

  • Não houve colapso militar português

O texto da autoria do Luís Gonçalves Vaz (que tinha 14 anos em 1974, quando deixou Bissau, antes do pai, que foi dos últimos militares a sair, por avião),  insiste numa ideia importante: o sucesso consistiu precisamente em não haver violência armada porque as forças portuguesas mantiveram capacidade de combate até ao último momento. Ou seja, as NT não depuseram as armas. Embarcaram de armas na mão.

Em Saigão aconteceu o contrário: o exército sul-vietnamita desintegrou-se em muitas zonas.  Houve pânico entre civis e militares, e a  evacuação tornou-se caótica. Enfim, foi uma retirada humilhante e traumatizante para quem a viveu.

  • O ambiente psicológico foi diferente

Em Bissau, foi mantida a disciplina militar (de um lado e do outro). A  cadeia de comando manteve-se intacta.  A  transferência formal de soberania foi feiota como o prevista. E, por outro lado, não houve praticamente civis a evacuar.

Em Saigão, pelo contrário, houve pânico generalizado, milhares de pessoas (mais próximas no núcleo duro do regime do Vietname do Sul e dos seus aliados) tentavam desesperadamente embarcar nos helicópteros, ao mesmo tempo que se verificava o colapso administrativo do Estado sul-vietnamita.

As famosas imagens dos helicópteros sobre os telhados  (vd,. foto acima) refletem isso.

Onde é que a comparação é válida?   Historicamente, pode dizer-se que ambos os acontecimentos representam o  fim de projetos coloniais ou de influência geopolítica. Reconhecia-se (e aceitava-se) que a solução militar para o conflito deixara de ser sustentável.  Houve, num caso e noutro,  impactos de natureza societal e psicológica.

Para muitos militares portugueses que serviram na Guiné, Angola ou Moçambique, o 15 outubro de 1974, em Bissau,  terá  tido um peso emocional semelhante ao que  o 29/30 de abril de 1975 teve para muitos veteranos  americanos do Vietname. (Salvaguardadas as devidas distâncias...).  Em todo o caso, não se pode falar da Guiné como o "Vietname Português"...

Onde é que as duas retiradas não são comparáveis ? Se estivermos a falar da execução militar da retirada, a comparação torna-se mais fraca.

Segundo os elementos do documento que partilhámos no blogue (**), a retirada da Guiné aproxima-se mais de uma extração militar organizada e negociada enfim, uma retirada planeada sob paz armada; enquanto que,  no caso de Saigão  (29/30 de abril de 1975),  foi uma evacuação de emergência perante o colapso de um regime aliado dos EUA  (o Vietname do Sul).

~
Manuel Beleza Ferraz 
É precisamente essa diferença que torna a operação portuguesa relativamente pouco conhecida a nível tanto interno como externo: não teve visibilidade mediática, nem no nosso "Diário de Lisboa", que eu lia todos os dias, era o meu jornal... 

E até terá passado despercebida da maior parte dos antigos combatentes portugueses..... De facto, não houve imagens de pânico, não houve combates finais (nem sequer escaramuças), nem multidões a tentar fugir. 

De resto, os portugueses em Portugal (mas também em Angola e Moçambique, as duas verdadeiras "joias da Coroa"),   seis meses depois do 25 de Abril, tinham mais do que se preocupar  do que com o fim da "guerra da Guiné"... 

De qualquer modo, do ponto de vista militar, o que fica para a história é que o planeamento logístico cumpriu o seu objetivo, como diz o nosso Luís Gonçalves Vaz (**). Os 2500 militares, os últimos soldados do império no território da Guiné (a partir de então Guiné -Bissau), 
puderam finalmente chegar a casa. Incluindo o primo  marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz,   da guarnição da LFG Lira, felizmente ainda vivo, e autor de algumas das fotos que o Luís Gonçalves Vaz aqui publicou. 
___________________

Notas         do editor LG:

(*) Vd. poste de 5 de maio de 2025 Guiné 61/74: P26766: Efemérides (454): O fim da guerra do Vietname foi há 50 anos ("Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27633: Humor de caserna (234): Cuidado com a língua, ó noviço! (João Crisóstomo, Nova Iorque)


Excerto da primeira página do "Diário de Lisboa", de 3 de janeiro de 1962

(1962), "Diário de Lisboa", nº 14029, Ano 41, Quarta, 3 de Janeiro de 1962, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_15909 (2026-1-13)



Braga > Convento e seminário de Montariol > 1959 > Esta foi a foto dos “finalistas" de Montariol de 1959 (5º ano), prontos a ir para o Varatojo, em Torres Vedras, ao pé da minha casa, “tomar o hábito de noviços". 

Sem desprimor para os outros, permito-me identificar o padre capelão (falecido), José Sousa Brandão, que é o segundo na última fila, da direita para a esquerda [assinalado a amarelo, com o nº 1]; ao centro está o padre, meu primo direito, António Alves Sabino (de Vale Martelo, Silveira, Torres Vedras); e o prefeito do colégio nessa altura [2].

A seu lado, estou eu, o único de braços cruzados [3]… A meu lado, à minha esquerda, está o Padre Diamantino Maciel [4], fundador duma paróquia (igreja St. António da Arancária, Vila Real). 

 O padre frei (e mais tarde, 1967/69, capelão no CTIG) Horácio Fernandes (1935-2025) não aparece nesta foto. Só o conheci mais tarde, já padre, em Leiria, no início dos anos 60.

Foto (e legenda): © João Crisóstomo (2020). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Mensagem do João Crisóstomo, que está de despedida, com a sua querida Vilma, da sua "dupla terra natal", Torres Vedras e Lourinhã (embarca dia 15 no avião para Nova Iorque, mas amanhã estará connosco, em Algés, na festa da Magnífica Tabanca da Linha, que comemora 16 anos de existência)

Data - 12 jan 2026 20:36 
Assunto - Humor de caserna (*)

Não sei se é pertinente ou não. Mas,  como estamos em campanha eleitoral,  em maré de discursos políticos… aí vai um história pícara, em ambiente fradesco... João

 
Humor de caserna > Cuidado com a língua,  ó noviço!

por João Crisóstomo (Nova Iorque)

A presente campanha eleitoral para a Presidência da República, os candidatos e os seus discursos, trouxeram-me à memória um desses “comícios” de há 65 anos, em 1961.

A Índia do Pandita Nehru tinha acabado de se apoderar, pela força, de Goa, Damão e Diu. E, de repente, apareceram as manifestações patrióticas de repúdio pelo vil ataque à nossa jóia da Coroa. Goa estava sob jurisdição portuguesa há 450 anos.  

Recordo-me de que, a pedido de um dos dirigentes locais da União Nacional, muito ligado à  Igreja, um dos meus antigos colegas de curso, no colégio seráfico de Leiria, ter sido incumbido de ler um discurso numa dessas manifestações.

Embora os frades, em princípio, não se devessem meter na política, não sei por que carga d’água fomos autorizados, a assistir a um desses eventos. (Ainda não éramos exatamente noviços, isso só no ano seguinte, no Varatojo.)

O orador, de posse do papel que lhe tinha sido entregue, ficou entusiasmadíssimo com a qualidade literária do discurso que ia proferir e, ao saber que entre os manifestantes se contavam indivíduos estrangeiros — homens e mulheres, talvez representantes diplomáticos de países amigos de Portugal — resolveu impressionar a assistência com os seus conhecimentos linguísticos, introduzindo da sua lavra a seguinte invocação:

Senhoras e Senhores… Misters and Mistresses

Os estrangeiros, sentados na primeira fila, olharam atónitos uns para os outros…

Explique-se a estranheza da seleta assistência: o meu colega, fogoso, voluntarioso e marrão, mais papista que o Papa, queria dizer Ladies and Gentlemen. Mas o  seu inglês não era o de Oxford, era o do colégio seráfico…

Como sabem, a palavra mistress pode ser usada de várias maneiras, mas é geralmente empregue de forma depreciativa para indicar mulheres de poucos escrúpulos, fraca virtude, má fama. De “mau porte”, como se dizia no nosso tempo... Enfim, "matrona" ou... "amante" (**)

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 13 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27632: Humor de caserna (233): "Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexee, não respira, nem que lhe passe um car*lho pela boca" (José Teixeira)

(**) Oxford Languages

mistress /ˈmɪstrɪs/

noun
plural noun: mistresses; plural noun: Mistresses

1. a woman in a position of authority or control.
"she is always mistress of the situation, coolly self-possessed"

2. a woman (other than the man's wife) having a sexual relationship with a married man.
"Elsie knew her husband had a mistress tucked away somewhere"

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27381: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte II: a nata do regime no cais da Fundição, à despedida

 








Fonte: (1935), "Diário de Lisboa", nº 4572, Ano 15, Sábado, 10 de Agosto de 1935, pp. 6-7 Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_28743 (2025-11-3)




1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 4 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte II


1. Foi um acontecimento social e político, a partida do N/M Moçambique  para o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (sic). A notícia foi título de caixa alta nas páginas centrais (pp. 6/7) do "Diário de Lisboa" (e por certo nos restantes diários da capital).

Pela lista das figuras públicas acima identificadas, ninguém faltou à largada do paquete da Companha Nacional de Navegação (CNN), atracado no Cais da Fundição, desde o Cardeal Patriarca ao ministro das Colónias. Salazar, naturalmente, não compareceu. Saía pouco, até por razões de segurança. Mas estava lá a nata do regime. Ministros e ministeriáveis.

O Cais da Fundição não existe mais.   Era um nome histórico para uma área do Porto de Lisboa, entre Santa Apolónia e o cais do Jardim do Tabaco, associado principalmente à CNN, desde os finais do séc. XIX / princípios do séc. XX.   Situava-se perto da zona de Santa Luzia. Funcionava como um cais de carga e descarga, especialmente para a CNN. Atualmente, a área é agora ocupada por outras infraestruturas portuárias, como o Terminal Multiusos do Beato ou o Terminal Multipurpose de Lisboa (TSA). 

Embora não haja nenhuma foto do jovem professor da Faculdade de Direito de Lisboa, Marcello Caetano, ele era uma das figuras VIP do evento, sendo  o "diretor cultural" do cruzeiro.  À despedida, não faltou o sogro, João de Barros (1881-1960), poeta, publicista, pedagogo, político republicano, figura respeitada da oposição democrática à Ditadura Militar e ao Estado Novo.

Estava planeado que o cruzeiro visitasse, em 56 dias, Cabo Verde, Guiné,  São Tomé e Angola (a visita mais demorada). No regresso devia passar ainda pela Ilha do Príncipe e  Ilha da Madeira.   
  
O Moçambique largou festivamente ao som da sua orquestra  privativa.  Provavelmente com grande relutância, Salazar teve pagar do seu bolso (quer dizer, do erário público) um subsídio de 150 contos para custear a viagem. 

(Continua)

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27174: Felizmente que ainda há verão em 2025 (29): Olha que não, Rosinha, olha que não... Sempre houve incêndios florestais no Portugal Mediterrânico... Mas há quem proponha que se corte as mãos aos incendiários...


edição de 9 de setembro de 1966. Reportagem de Joaquim Letria e Pedro Rafael Santos


1. Trágica efeméride: d
aqui a dias cumprem-se 59 anos sobre o incêndio que devastou 5 mil hectares (cerca de um terço da área plantada)  na Serra de Sintra e causou a morte a 25 militares do Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa de Queluz.

Cinco mil hectares. Esta foi a área aproximada que ardeu no trágico incêndio que deflagrou na Serra de Sintra em setembro de 1966, um dos maiores e mais devastadores incêndios florestais da história da região.

O fogo, que teve início a 6 de setembro de 1966, lavrou durante vários dias, consumindo uma vasta mancha florestal, estimada em cerca de um terço da área arborizada da serra na altura. As chamas, impulsionadas por ventos fortes, alastraram rapidamente, ameaçando a vila de Sintra e marcos históricos e naturais.

Para além da imensa perda a nível de património natural, o incêndio de 1966 na Serra de Sintra ficou marcado, para sempre,  pela morte de 25 militares do Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa de Queluz, que perderam a vida enquanto combatiam as chamas.

A tragédia teve um profundo impacto no país e levou a uma maior consciencialização sobre a necessidade de prevenção e combate a incêndios florestais em Portugal.

2. Disse o Fernando Ribeiro, em comentário ao poste P27166(*):

Antº Rosinha, em Portugal sempre existiram incêndios e sempre existirão, porque são uma forma de a Natureza se renovar. Não há volta a dar-lhe. 

O que não existia, era tantos eucaliptos e tantos pinheiros bravos, que ardem como palha, nem tanto despovoamento do interior. 

Em 1966, concretamente, morreram 25 militares no combate a um incêndio ocorrido na serra de Sintra. 

Durante as muitas caminhadas que fiz na serra de Sintra, aos fins de semana, estive mais do que uma vez no local onde eles morreram, que se situa perto do convento dos Capuchos. O local está assinalado por uma cruz e uma placa de mármore com os nomes das vítimas, e o terreno em volta estava totalmente desmatado. 

Para lá se chegar, sai-se de uma encruzihada próxima dos Capuchos, onde confluem as estradas para o palácio da Pena, para o convento dos Capuchos, para o Pé da Serra e para a Peninha. Sobe-se por uma "picada" que sai dessa encruzilhada no sentido do Monge (um túmulo pré-histórico) e que acaba por desembocar perto da Peninha. 

Os pormenores do trágico incêndio podem ser lidos aqui: 


3. De facto, sempre houve fogos florestais em Portugal ao longo dos séculos, não é só um fenómeno exclusivo da atualidade... 

Só por populismo, demagogia ou ignorância histórica se pode afirmar o contrário, nomeadamente nas redes sociais,  procurando-se tirar partido, emocional e politico-partidariamente, da tragédia que são sempre, todos os anos, os incêndios em Portugal e demais países de clima mediterrânico (Espanha, Sul de França, Itália, Grécia, etc.).

Mas em breve voltaremos à barbárie: cortem-se as mãos aos incendiários, já se ouve por aí... Ou, então, acabem-se com os isqueiros e as caixas de fósforos em Portugal. E até mais: encerrem-se as gasolineiras...

A afirmação
 de que sempre houve incêndios florestais em Portugal ao longo do séc. XX acaba por ser uma realidade histórica inegável. 

O que mudou, e muito,  foi perceção pública e a escala dos incêndios  nas últimas décadas. Estamos de acordo o Fernando Ribeiro.

E depois, é bom não esquecer (!),  havia quem, até aos 25 de Abril de 1974,  decidisse por nós, cidadãos de 2ª classe,  o que podíamos ler ou não nos jornais, ouvir ou não na rádio, ver ou não na televisão...

Os registos históricos confirmam que o fogo foi um elemento recorrente e transformador das paisagens rurais e florestais portuguesas durante todo o século passado e séculos anteriores.

Uma conjugação de fatores, desde políticas de florestação a profundas alterações socioeconómicas, moldou a história dos incêndios no país.

Os incêndios florestais em Portugal têm raízes históricas profundas e são resultado tanto de processos naturais quanto de atividades humanas de gestão do território ao longo dos séculos. 

Se olharmos para registos históricos, relatos de cronistas, arquivos municipais e até estudos de paleobotânica, vemos que os incêndios rurais e florestais existiram sempre, de Norte a Sul do país, associados a vários fatores.

(i) Registos históricos de incêndios florestais

Existem indicações de uso e ocorrência de fogos florestais que remontam a milhares de anos, detetados por depósitos de carvão com mais de 11 mil  na Serra da Estrela, associados a grandes incêndios ligados à ocupação humana e gestão agropastoril.

Desde a Idade do Bronze e do Ferro, o fogo foi utilizado para desflorestação e construção de novas áreas agrícolas, o que provocava incêndios regulares.

Registos escritos de municípios portugueses já no século XIV documentam preocupações e legislação para evitar incêndios em matas, particularmente zonas de sobreiros e azinheiras.

(ii) Incêndios notáveis nos séculos XIX e XX

No Pinhal de Leiria, registaram-se grandes incêndios, como os de 1806, 1814, 1818, 1824 (cerca de 4.000 ha), 1825 (cerca de 5.000 ha) e 1875 (cerca de 300 ha).

No séc. XIX, já se encontravam em vigor portarias e legislação para proteção florestal e combate às queimadas.

Desde a década de 1960, os incêndios passaram a ser mais frequentes, intensos e recorrentes.  

Tornam-se mais comuns a partir dos anos 1970 devido a profundas transformações sociais, demográficas e económicas (guerra do ultramar, emigração, expansão de áreas florestais, sobretudo de eucalipto, abandono rural, industrialização e urbanização do país, etc.).

Repare-se nestes dados:

1930 > Censo da população > 6 825 883 habitantes (Continente e Ilhas). Só 1 em cada cinco portugueses (19%) residia em cidades (594 mil em Lisboa, 232 mil no Porto e 485 mil nas restantes);

1950 > População activa: 3.2 milhões (50% no sector primário, 24% no sector secundário e 26% no sector terciário); por outro lado, mais de quarenta anos depois da instalação, por Alfredo da Silva, das primeiras fábricas de produtos químicos nos terrenos de aluvião da Margem Sul do Tejo, o complexo químico-industrial do Barreiro ocupava então uma área de 21 hectares; o maior grupo económico português era constituído por centena e meia de empresas e 10 mil trabalhadores.

1951 > Inauguração da barragem de Castelo de Bode, uma obra emblemática do Estado Novo e elemento-chave do plano de electrificação de 1944, e da industrialização do país; inaugurada, também nesse ano,  a ponte de Vila Franca de Xira, permitindo uma mais rápida ligação Norte-Sul.

(iii) O fogo como fenómeno mediterrânico natural

O fogo é considerado um fenómeno natural nos países do Mediterrâneo, tendo papel importante na dinâmica ecológica e na sucessão de algumas espécies vegetais. Factos a destacar:
  • o uso tradicional do fogo para renovação de pastagens e controle de vegetação sempre esteve presente na paisagem portuguesa e mediterrânica;
  • os pastores eram recorrentemente acusados de "incendiários";
  • clima mediterrânico. verões longos, quentes e secos,  favorecem a propagação do fogo;
  • práticas agrícolas tradicionais, como as queimadas para renovação de pastagens ou limpeza de terrenos, que muitas vezes saía fora de controlo;
  • trovoadas secas (factor a não negligenciar como causador de incêndios, tal como na Guiné);
  • descuidos e acidentes: desde tempos medievais há relatos de incêndios ligados a fogueiras,  produção de carvão, cal, forjas, etc. ou até relâmpagos;
  • estrutura da vegetação: matos, pinhais, sobreirais, giestais e eucaliptais (mais recentes) sempre foram combustíveis disponíveis; todavia, o coberto mediterrânico, com sobreiros, azinheiras e castanheiros é mais resistente ao fiogo.
Refira-se que o eucalipto foi introduzido em Portugal em meados do séc. XIX:  os  primeiros exemplares plantados em jardins e hortos botânicos destinavam-se a  fins... terapêuticos e científicos.

 Planta exótica, acabou por se tornar uma praga:  as plantações comerciais iniciaram na década de 1880, invadindo propriedades privadas e Matas Nacionais. 

 O Eucalyptus globulus tornou-se a espécie dominante (devido à sua boa adaptação ao nosso clima e ao seu rápido crescimento). (Passemos por cima do seu peso na economia portuguesa, na estrutura do emprego, etc.)

A diferença em relação ao passado, e no que diz respeito aos incêndios florestais,  é a escala, a frequência e o impacto socioeconómico:

  • antes, os fogos eram mais localizados, porque a floresta estava mais fragmentada entre campos agrícolas, baldios e áreas de pastoreio;
  • nos nossos dias, com o abandono rural, a continuidade de matos e florestas densas e a expansão do eucalipto e do pinheiro, o fogo alastra de forma muito mais rápida e devastadora.

Portanto, dizer que "só há incêndios hoje" é, de facto, uma mistificação histórica. O que mudou foi o contexto social, económico e ambiental, que faz com que os fogos atuais sejam mais extensos e difíceis de combater.
 
Aqui vão alguns exemplos documentados que ajudam a perceber que os incêndios florestais fazem parte da história de Portugal muito antes do século XX:

 
(iv) Portugal a ferro e fogo... Da Idade Média à Época Moderna

Séc. XIV

Nas Ordenações Afonsinas já aparecem normas para punir quem fizesse queimadas descuidadas que levassem a incêndios em montes e matos.

Séc. XV-XVI 

Há registos em cronistas e câmaras municipais de incêndios em pinhais e matos, sobretudo ligados à preparação de terras para agricultura ou pastoreio.

Pinhais de Leiria (plantados desde o reinado de D. Afonso III e expandidos por D. Dinis) sofreram incêndios várias vezes nos séculos XVI e XVII; há referências a fogo “que ardeu muitos pinheiros” e necessidade de reflorestação.

Séc. XVIII

O Terramoto de 1755 originou também incêndios urbanos e rurais que se estenderam a zonas florestais próximas de Lisboa e outras zonas atingidas.

Em 1792, um alvará régio regulava o uso do fogo em baldios e pastagens, por causa dos “grandes danos dos fogos desmandados que frequentemente incendeiam os matos e arvoredos”.

Séc. XIX

Há várias notícias em jornais da época sobre incêndios em pinhais, matas e serras. Por exemplo:

1824: referência a incêndios no Pinhal de Leiria; criação da AGMR (Administração Geral das Matas do Reino).

1843: notícia no Diário do Governo sobre fogos em matas nacionais.

1853: grandes incêndios em Trás-os-Montes e Beiras são relatados como “desgraças repetidas”;

1876: grandes incêndios no Alentejo;
 
1882/83:  grandes incêndios na Mata do Buçaco.

Desde o início do século XIX, existiam preocupações institucionais e técnicas sobre a gestão florestal e a prevenção de incêndios, especialmente com a criação em 1824 da AGMR e os trabalhos de campo e científicos de silvicultores como:

  • José Bonifácio de Andrada e Silva (fim do século XVIII / início do XIX); 
  • Bernardino António de Barros Gomes (1839–1910);
  • Adolfo Möller (formado na Alemanha, responsável pela arborização de margens do rio Mondego, na década de 1860).

Em resumo: podemos afirmar com segurança que os incêndios florestais sempre existiram em Portugal. 

O que acontece nos séc. XX e XXI é que, com o êxodo rural, a continuidade do coberto vegetal e a monocultura florestal (eucalipto), os fogos passaram a ser mais extensos e mais frequentes. E as preocupações com a sua prevenção já são não de agora.

 
(v) Incêndios florestais: uma constante na paisagem portuguesa do Séc. XX 

Embora a sistematização de dados sobre áreas ardidas só se tenha tornado mais rigorosa a partir da década de 1980, é possível delinear uma cronologia de eventos significativos que marcaram o século XX.

No início do século, os incêndios eram frequentes, mas muitas vezes de menor dimensão e mais ligados a práticas agrícolas e pastoris. 

A gestão do fogo fazia parte do quotidiano rural, sendo utilizado para a renovação de pastagens e limpeza de terrenos. No entanto, a falta de controlo resultava frequentemente em incêndios de maior escala.

A partir da década de 1960, a frequência e a dimensão dos grandes incêndios florestais começaram a aumentar de forma notória.

 Eventos como os incêndios em Vale do Rio/Figueiró dos Vinhos e Viana do Castelo (1961), na Serra de Sintra (1966) (que resultou na morte trágica de 25 militares) e na Serra de Monchique (1966), evidenciaram uma nova e mais perigosa realidade.

As décadas seguintes foram marcadas por uma escalada no número de ocorrências e na área ardida. 

O ano de 1986 assinala um marco sombrio, com o primeiro incêndio a ultrapassar os 10 mil  hectares. 

A partir daí, os "mega-incêndios" tornaram-se uma preocupação crescente, culminando em anos de extrema severidade já no final do séc. XX e no início do séc. XXI.


(vi) As Raízes do problema: causas e consequências

A omnipresença dos incêndios florestais em Portugal no séc. XX pode ser atribuída a um complexo de causas interligadas:
  • Políticas de Florestação: 
No Estado Novo nacionalizou baldios e implementou uma vasta campanha de florestação, com o objetivo de combater a erosão dos solos e aumentar a riqueza florestal do país. 

No entanto, a aposta em monoculturas de espécies de rápido crescimento e elevada inflamabilidade, como o pinheiro-bravo e, mais tarde, o eucalipto, criou vastas áreas contínuas de combustível, propícias à propagação de grandes incêndios.

  • O Êxodo rural e o abandono de terras: 
A partir de meados do século, a intensificação do êxodo rural para os centros urbanos e para o estrangeiro provocou uma profunda alteração na paisagem e na estrutura social do interior do país. 

O abandono de terras agrícolas e de práticas tradicionais de gestão do território levou à acumulação de matos e outro material combustível, tornando as florestas mais densas e perigosas.

  • Declínio da agricultura e pastorícia tradicionais: 
A diminuição da pastorícia extensiva (incluindo a transumância)  e da agricultura de subsistência, que anteriormente garantiam a limpeza de vastas áreas de mato, contribuiu significativamente para o aumento da carga de combustível nas florestas.

  • Fatores humanos: 
A esmagadora maioria das ignições teve origem humana, seja por negligência (queimadas mal controladas, fogueiras, foguetes lançados em festas e romarias, etc.) ou por ação intencional (fogo posto, piromaníacos, incendiários). 

A falta de sensibilização e de fiscalização foram fatores que potenciaram este problema ao longo de décadas.


(vii) A evolução (lenta) da prevenção e do combate

A resposta do Estado, das empresas e da sociedade aos incêndios florestais evoluiu de forma lenta e reativa ao longo do século XX.

Nas primeiras décadas, o combate aos incêndios era rudimentar, dependendo largamente da mobilização de populares, com meios escassos e pouco eficazes. 

A estrutura de bombeiros voluntários, embora fundamental, debatia-se com a falta de formação e de equipamentos adequados para fazer face a grandes incêndios florestais.

A tragédia da Serra de Sintra em 1966 foi um ponto de viragem que expôs as fragilidades do sistema de combate e alertou para  a necessidade de uma estrutura mais bem organizada. 

No entanto, só nas últimas décadas do século se assistiu a uma aposta mais significativa na:

  • profissionalização dos bombeiros;
  • criação de corpos especializados;
  • aquisição de meios terrestres e aéreos mais sofisticados.

As políticas de prevenção também tardaram em ser implementadas de forma eficaz. A aposta centrou-se durante muito tempo no combate, em detrimento de uma gestão florestal integrada que promovesse a descontinuidade dos combustíveis e a criação de mosaicos agrícolas e florestais mais resilientes ao fogo.

Em suma, a história dos incêndios florestais em Portugal no século XX é a crónica de uma paisagem em transformação, marcada por decisões políticas, mudanças sociais profundas e uma crescente vulnerabilidade ao fogo, agravadas pelas alterações climáticas. 

A afirmação de que "sempre houve incêndios" é, portanto, um ponto de partida para a compreensão de um problema complexo e multifacetado que continua a desafiar o país no presente e no futuro imediato. (**)


(Pesquisa: LG | Assistente de IA / ChatGPT, Gemini, Perplexity)

(Revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)
________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 30 de agosto de 2025 Guiné 61/74 - P27166: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (9): Secas e fomes levaram ao longo do séc. XX à morte de mais de 100 mil pessoas

sábado, 5 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P26987: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (8): Luís de Sttau Monteiro (1926-1993), enviado especial do "Diário de Lisboa", à cerimónia da independência em 5 de julho de 1975: "Daqui a três horas, sou estrangeiro"



As duas bandeiras de Cabo Verde: a das ilusões da "unidade" com a Guiné-Bissau (1975-1992) e a atual (desde 1992)...  A mudança de bandeiras não foi consensual...

O último dia duma colónia

por Luís de Sttau Monteiro 

(1926-1993) 










Fonte: Diário de Lisboa, sábado, 5 de julho de 1975, ano 56,. nº 18807, pág, 10 (Inserido no caderno especial "Cabo Verde Ano Um" (com a colaboração de uma equipa de luxo: Fernando Assis Pacheco, Alexandre Oliveira, Eugénio Alves, Luís Stau Monteiro e José A. Salvador). 

Fonte: (1975), "Diário de Lisboa", nº 18807, Ano 55, Sábado, 5 de Julho de 1975, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_4405 (2025-7-5)

Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 06823.173.27275 | Título: Diário de Lisboa | Número: 18807 | Ano: 55 | Data: Sábado, 5 de Julho de 1975 | Directores: Director: António Ruella Ramos; Director Adjunto: José Cardoso Pires | Observações: Inclui supl. "Cabo Verde ano um". | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: Imprensa (com a devida vénia...)

(Seleção de excertos, e fixação do texto: LG)



Luís de Sttau Monteiro
(1926-1993)

1. O jornal "Diário de Lisboa" tinha então como diretor o A. Ruella Ramos e diretor-adjunto o escritor José Cardoso Pires. O Sttau Monteiro foi a Cabo Verde, como "enviado especial",  fazer a cobertura noticiosa da independência do país. 

Filho do embaixador em Londres, Armindo Monteiro, anglófilo e rival de  Salazar que o demitiu em 1943 (tinha sido ministro das colónias e dos negócios estrangeiros na fase inicial do Estado Novo),  Sttau Monteiro foi dos espíritos mais livres do Portugal dessa época. E um dos nossos grandes dramaturgos  do séc. XX, além de  "cronista social" ("As redações  
da  Guidinha", publicadas no "Diário de Lisboa",  nos anos de 1969 e 1970, e entretanto reunidas em livro, em 2003,  já depois da morte do autor, são um monumento, uma delícia, uma referência obrigatória para se compreender melhor o país onde nascemos.)

A crónica que escreveu, há 60 anos, para o jornal, "O último dia de uma colónia", é uma pequena obra-prima de bonomia, bom humor, empatia e ironia, onde não há a mínima concessão ao populismo revolucionários da época. Eis alguns nacos de prosa:
  • "(...) Sinto-me comovido porque isto de assistir ao parto de um país,  é uma epxeriência nova para mim"
  • " (...) Cor ? Que é isso ?"
  • "Há dois bêbados agora, na esplanada, o da água do mar, e um que canta o hino nacional!"
  • "(...) os cabo-verdianos descobriram Portugal"
  • "O que nós, portugueses, poderíamos ter feito nesta terra, por esta gente!"
  • "O que vale é que fazemos parte da festa"
  • "São três da tarde e a cachupa ainda me anda às voltas no estòmago"
  • "Daqui a três horas, sou estrangeiro. Mas... alguma vez serei estrangeiro nesta terra ?".
___________________

Nota do editor:

Último poste da série > 5 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P26985: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (7): reportagem do 5 de julho de 1975 - III (e última) Parte (Carlos Filipe Gonçalves)

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Guiné 61/74: P26766: Efemérides (454): O fim da guerra do Vietname foi há 50 anos ("Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975)

 












Recortes de imprensa, "Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975, 2ª ed., pp. 1 e 20.

Fonte: Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso |  Pasta: 06822.172.27196 | Título: Diário de Lisboa | Número: 18752 | Ano: 55 | Data: Quarta, 30 de Abril de 1975 | Directores: Director: António Ruella Ramos; Director Adjunto: José Cardoso Pires | Edição: 2ª edição | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: Imprensa  


1. Há 50 anos a agência Reuters e o Diário de Lisboa, de 30/4/1975, noticiavam o fim da guerra do Vietname.  Uma guerra com 3 décadas, que foi um pesadelo para todos: os vietnamitas e os outros p0vos da Indochina, os franceses, os americanos... (e demais povos e todo o mundo, já que não foi  uma mera guerra regional, desenrolou-se em pleno clima de "guerra fria"...).

Foi também uma guerra que esteve no nosso "imaginário"... Mais do que isso: também sobrou para nós... Os mísseis terra-ar Strela, por exemplo, já tinham sido testados no Vietname... bem como a passagem da guerrilha à guerra convencional (no caso, port exemplo,  da Guerra dos 3 G: Guidaje, Guileje, Gadamael)...

E havia até quem, mal ou bem, na nossa geração, comparasse a guerra da Guiné com a do Vietname... É evidente que foram duas realidades incomparáveis: pelos meios bélicos empregues, em homens e armas, pela extensão do território, pela violência, pelo nº de baixas, etc.; as nossas guerras foram de "baixa intensidade". Os militares norte-americanos tiveram cerca de 58 mil mortos, e perto de 300 mil feridos. As perdas entre os vietnamitas, civis e militares, do Norte e do Sul são impossíveis de calcular (há estimativas que apontam para 2 a 4 milhões).

Em 30 de abril de 1975 estávamos no rescaldo das eleições, realizadas uns dias antes (em 25 de abril) para a Assembleia Constituinte.  As primeiras eleições livres!... Tinha havido o 11 de março e depois a fúria das nacionalizações...Mas já antes o 28 de setembro de 1974, que alguns historiadores apontam como o  início do PREC (Processo Revolucionário Em Curso). 

O "verão quente de 1975", já estava em banho maria... E em Angola, a 6 meses da independência,  já havia crescentes sinais da brutal guerra civil que se iria desencadear depois do 11 de novembro de 1975 e  prolongar durante anos e anos até 2002 (com escassos períodos de paz podre pelo meio). 

Os últimos militares portugueses em Angola regressaram a 10/11/1975, na véspera da "dipanda". A sangria de quadros foi brutal... Um amigo meu, angolano, médico, disse-me que nesse dia, histórico, o número de médicos que restavam no território era der 26...

Cinquenta anos depois perguntamo-nos, ingenuamente: porquê ? para quê ? como foi possível ?  A guerrra do Vietname, a guerra da Guiné, a guerra de Angola... A(s) guerra(s)... 

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 26 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26732: Efemérides (453): Lourinhã, 25 de abril de 2025: cerimónia de homenagem aos combatentes da guerra do ulltramar / guerra colonial