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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28258: Humor de caserna (287): Era uma vez um soldado básico (o "Espanhol"), um alferes ("Sá de Miranda") e uma madrinha de paz (a "Borboleta") (Jorge Cabral, 1943-2021)


Lisboa > Belém > 10 de junho de 2009 > Dia de Portugal > Encontro Nacional de Combatentes, em Belém, junto ao Forte de Bom Sucesso > J. L. Vacas de Carvalho à direita da foto, Jorge Cabral deliciosamente "cercado" (ou levado preso" ?)  pelas camaradas da Polícia do Exército (PE).

Foto: © Mário Fitas (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 

1. Confesso que já tinha saudades de reler esta  prosa "cabraliana", oral, telegráfica, seca, cúmplice, com as suas elipses e outras figuras de estilo...

E este "microconto", que se reproduz a seguir, é mesmo uma “estória cabraliana”

(i) começa como uma anedota de caserna, com um soldado básico, o "Espanhol", um tigre de Antequera e uma “Borboleta” (travestida de "madrinha de paz");

(ii) dá uma volta inesperada pela Lisboa da Praça  do Chile e das suas clandestinas "casas das mariquinhas" (“Casas de Pouca Permanência”,  uma subliteza do autor que nunca diz asneiras nem é ordinário...); 

(iii) e acaba, uns 40  anos depois, num encontro quase cinematográfico na avenida Almirante Reis, junto à incontornável igreja dos Anjos.

O que é espantoso é que, nas "estórias cabrialianas" (estão publicadas quase um centena, no nosso blogue) o  humor nunca destrói a ternura. 

O "Espanhol" desta história é apresentado como uma figura pícara mas no fim percebemos que,  por baixo da máscara da caricatura do "soldado básico", está um homem com uma vida triste, agarrado ainda ao sonho de ganhar o euromilhões e de encontrar a mãe na Argentina. 

E o "alfero Cabral", em vez de explorar isso de maneira piegas ou sentimental ou de carregar no traço da caricatura, resolve a história com a promessa de uma rua cor de rosa de Buenos Aires e da "Borboleta" a dançar o tango. 

É um final que é um achado e que toca o leitor: a  "Borboleta", "madrinha de paz" (e não de "guerra"), que nasceu numa carta lida há décadas numa mesa suja do rancho do destacamento  de Missirá, reaparece no fim como promessa romântica de um tango em Buenos Aires. 

Há ainda três achados que são tipicamente fruto do génio do "alfero Cabral":

  • “Nem a falta dos dedos o safou...” ( uma frase seca que diz muito, ou tudo, sobre a crescente falta de "carne para canhão", e em que um mancebo, mesmo sem très dedos do pé, era apurado para os serviços auxiliares, como soldado básico):
  • “Meu Alferes, carta da Borboleta!”  (excelente esta "boca" de caserna);
  • "É o  alferes Cabral, não é?!... Ou devo chamar-lhe alferes Sá de Miranda?! (aqui o leitor percebe a cumplicidade entre os dois, sem ser preciso explicar absolutamente nada).

E o título original, “O Espanhol, o Alferes Sá de Miranda e a Borboleta”, está muito bem escolhido: parece anunciar três personagens diferentes, mas são afinal três fios condutores da mesma história.

Enfim, é mais uma história de encontros e desencontros, nas margens do rio da vida... 

Ninguém como o "alfero Cabral", na nossa Tabanca Grande, sabia evocar, com delicadeza, compaixão e empatia, estas figuras de gente humilde que eram os nossos camaradas, ditos "soldados básicos", remetidos quase sempre para funções de "faxineiros" ou auxiliares de cozinheiro, e cujos nomes se nos varreram da memória... 

Todas as companhias tinham um ou mais "soldados básicos"... Muitos deles já levavam, para o CTIG uma cruz às costas: ou "nasceram tortos", ou a curta vida de 20 anos já lhes era madrasta... 

Tenho a imagem de um, que foi comigo no T/T Niassa; "ia a ferros", preso, no fundo do porão, por ser desertor, segundo se dizia...

Recorde-se que o Jorge Cabral (1943-2021) foi alf mil art, Pel Caç Nat 63, Guiné, zona leste, setor L1 (Bambadinca), tendo comandado destacamentos como Fá Mandinga e Missirá, 1969/71; especialista em direito penal , professor do ensino superior universitário, reformado, é autor da série, "estórias cabralianas" (que ainda conseguiu em vida reunir  em livro, e publicar um primeiro volume).

Tem mais de 260 referências no nosso blogue.


Era uma vez um  soldado básico (o " Espanhol), um  alferes ("Sá de Miranda") e  uma  madrinha de paz (a "Borboleta") 

por Jorge Cabral (1943-2021)


Em Missirá, jantávamos cedo. Éramos apenas onze brancos e rapidamente despachávamos o pé de porco com arroz ou a cavala com batatas. 

Depois ficávamos à mesa conversando. Alguns,  mais resistentes,  permaneciam noite dentro. Um deles era o novo cozinheiro, o "Espanhol", soldado básico, que mancava. 

Segundo ele, fora um tigre que lhe comera três dedos do pé esquerdo, num circo de Antequera [ município de Espanha, província de Málaga, comunidade autónoma da Andaluzia].

Contava que a mãe fugira de Lisboa com um palhaço e o levara ainda bebé, mas que quando fizera dezoito anos regressara para procurar o pai, o qual nunca chegara a encontrar. 

Incorporado, nem a falta dos dedos o safou... Na altura tinha uma correspondente, que se intitulava "Madrinha de Paz". 

Escrevia bem e às vezes naqueles serões eu citava pequenos trechos das cartas. Uma noite li, que ela escrevera: 

”Hoje sonhei que era Borboleta. Mas não serei eu uma Borboleta que está a sonhar que é rapariga?” 

 – A gaja é maluca!   – foi a opinião unânime.

A partir de então, quem ía buscar o correio, vinha logo ter comigo, satisfeito:

 – Meu Alferes, carta da "Borboleta"!. 

A comissão acabou. Voltei e nunca mais me lembrei nem do "Espanhol" nem da "Borboleta"... Porém há muitos anos, frequentei com alguma assiduidade uma “Casa de Pouca Permanência”, hoje Hostel, ali para os lados da Praça do Chile. 

Tudo lá era discreto, quase secreto. Tocava-se à campainha, subia-se e as portas da casa e do quarto já estavam abertas. 

Ninguém via a dama, mas o cavalheiro tinha que dar a cara, junto da recepcionista, uma velhota que não pedia qualquer identificação. Pagava-se e escrevia-se o nome num caderno já gasto. 

Por mim fui Gil Vicente, Bernardim Ribeiro e até Luiz Vaz de Camões... 

Ora uma vez, para minha surpresa, a recepcionista fora substituída. E adivinhem, por quem? Pelo "Espanhol". Eu reconheci-o e senti que ele também me reconheceu. Mas não dissemos nada. Paguei e assinei. Desta vez... Sá de Miranda

Ainda lá voltei mas a velha senhora retomara o seu posto. Foi há um mês, descia a Almirante Reis, quando, mesmo em frente à Igreja dos Anjos, deparei com o "Espanhol": 

– É o alferes Cabral, não é?!... Ou devo chamar-lhe alferes Sá de Miranda?!

– Malandro... vamos almoçar! 

À mesa, diante de um arroz de tomate com joaquinzinhos, conversámos. Lembrava-se bem de Missirá e perguntou logo:

 – Então, e a "Borboleta"? 

Foi no entanto parco em informações sobre como lhe correra a vida. Todas as vidas têm altos e baixos, mas deu para entender que a do "Espanhol", só teve baixos. 

Regressado da Guiné, ainda foi a Antequera, mas o palhaço morrera e a mãe emigrara para a Argentina. Durante estes mais de quarenta anos, sonhou ir visitá–la. E ainda sonha... 

–Ah! Alferes Cabral,  se eu ganhasse o euromilhões... 

Adeus, "Espanhol", mas olha não há duas sem três. Vais ver que o nosso próximo encontro será em Buenos Aires. E até vou levar uma "Borboleta", a fingir de rapariga, para dançar o tango. 

Jorge Cabral

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, parênteses retos, título: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd, poste de 18 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14761: Estórias cabralianas (87): O Espanhol, o alferes Sá de Miranda e a Borboleta que sonhava que era rapariga (Jorge Cabral)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27924: Convívios (1059): Magnífica Tabanca da Linha, Algés: 64º almoço-convívio, 5ª feira, 16 de abril de 2026: vamos ser 83 e fazer uma pequena homenagem ao nosso régulo Manuel Resende, o mais magnífico dos Magníficos (Jorge Ferreira / Mário Fitas / Luís Graça)


Ilustração e legenda: Conteúdo e imagem gerados por Inteligência Artificial (Google Gemini, modelo Gemini 3 Flash), em 16 de abril de 2026, com base no prompt do Luís Graça, editor do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.

" É uma honra poder ajudar a preservar estas memórias de forma criativa. e poder contribuir para a vossa tertúlia,  ajudando a celebrar o Manuel Resende, especialmente num dia tão marcante como este 65º almoço-convívio. É o vosso 3º régulo, depois dos saudosos Jorge Rosales e José Manuel Matos. 

A imagem tentou mesmo captar essa energia do 'homem dos sete ofícios',  com a câmara sempre pronta, a prancheta da organização e, claro, a merecida salva de prata no Caravela de Ouro.

Um grande abraço para toda a Magnífica Tabanca da Linha! Que o almoço seja memorável, com boas histórias, muitos brindes e a camaradagem de sempre. Viva o vosso Régulo!"



Há ainda um inscrito de última hora, o José Ramos, ex-fir mil trms, que trabalhou com cap trms João Afonso Bento Soares, hoje maj gen ref.. Será o nº 83.

Por iniciativa do Jorge Ferreira, que é o nosso VCC ("Velhinho Com' Ó Caraças") (foi mobilizado para o CTIG, em 1961, antes da guerra...), e com o apoio do Mário Fitas (cofundador da Tabanca da Linha, em 2010) e ainda o Luís Graça (editor do nosso blogue), vamios prestar uma pequena homenagem ao Manuel Resende, que de facto tem sido um magnífico régulo, nestes últimos anos. Náo deixou morrer a Tabanca da Linha, com a pandemia.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 13 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27916: Convívios (1058): Magnífica Tabanca da Linha, Algés: 64º almoço-convívio, 5ª feira, 16 de abril de 2026: já somos 72, venham mais 8, para o melhor cozido à portuguesa... da Guiné; prazo para as últimas inscrições: até amanhã, 3ª feira, âs 11h00 (Manuel Resende, régulo)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27697: Humor de caserna (238): Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! (Alberto Branquinho, "Cambança", 2009. pp. 26-29)



Capa do livro de contos de Alberto Branquinho, "Cambança: Guiné. morte e vida em maré baixa", 2ª ed.. Lisboa: setecaminhos, 2009, 99 pp. (ISBN: 978-989-602-164-1)



1. Mais uma história de "cambança(s)"(*)  do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, depois de ter passado por Coimbra como estudante).

"Cambança", para ele, é mais do que  "passagem para o outro lado" do rio. É uma metáfora: "por vezes uma fuga ou uma mudança. Pode ser uma partida ou um regresso. Quase sempre com a vida em maré baixa" (pág. 6).

Qualquer semelhança com a realidade da Guiné é pura coincidência, avisa o autor. Mas quem não conheceu o cabo Tomé ? E que nunca apanhou uma "cardina" ?


Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! 

por Alberto Branquinho



− Eh,  pá! Deu a “maluca” ao Tomé. Ele vem aí.

− Qual “maluca”… Ele está é com uma “cardina” que nem se endireita.

O cabo Tomé aproximava-se daquele espaço chamado “bar”, feito de tábuas e de chapas de zinco. Vinha em tronco nu, debaixo de uma chuva contínua e miudinha, que há um mês caía sem parar. Trazia um guarda-chuva aberto, quase sem pano, na mão esquerda e uma garrafa de cerveja na mão direita. Tinha as divisas de cabo penduradas das orelhas. E berrava:

−  Cá o filho da Marianinha é o maior. Não há pai p'ra ele.

Repetia e repetia o discurso. E cantava:

O cabo festejava, assim, os vinte e três anos.

Não entrou no bar e atravessava a parada, em chinelos, calções e tronco nu, pisando água e lama. Sentia-se grande, agigantado pelo álcool, com a água a correr por ele abaixo. Sentia a cabeça do tamanho do rebentamento de uma granada de obus, a ferver, a ferver e a pôr-lhe à frente dos olhos pataniscas de bichas-de-rabear.

Era um entardecer cor de chumbo, com pequenas pinceladas de amarelo-rosa no horizonte, por cima da cobertura de zinco da caserna.

−  "Ó rosa, ó linda rosa, ó rosa"… Anda uma mãe a criar um filho… p’ra… p’ra…

Tropeçou e caiu de joelhos na lama, apoiado no cotovelo direito. Tentou levantar-se, mas o pé direito fugiu-lhe muito lá para trás. Até pareceu que o pé lhe ia fugir do corpo. Agarrou o pé com a mão direita e fugiu a garrafa. Puxou o pé, puxou, puxou, perdeu o equilíbrio, caiu sobre o lado direito e, depois, ficou deitado de costas. Ouviram-se gargalhadas do pessoal que, em volta e debaixo dos telheiros, observava a cena.

O Tomé atirou o guarda-chuva. Tentou abrir a braguilha, não conseguiu e rebolou sobre si mesmo, rindo, rindo. Cheio de lama, voltou a tentar abrir a braguilha, mas não conseguia.

 
−  Quero mijar. Eh, pá, abram-me aqui isto, qu’eu quero mijar.

Dois ou três tentaram levantá-lo.

 
−  Eh,  pá, eu só quero mijar.

Com a ajuda conseguiu levantar-se. Os que o ajudaram,  correram para debaixo dos telheiros. Conseguiu abrir a braguilha e, com a mão direita, procurava, procurava dentro dos calções, em dificuldades de equilíbrio.

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha.

Ajoelhou-se e desatou a chorar:

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha. Ai, minha mãezinha…

Levantou-se, escorregou na lama e caiu de novo.

 
−  Sou um desgraçado! O filho da Marianinha… Mãe, mãe, cortaram-me a gaita!

Chorava, chorava. As lágrimas corriam pela cara, misturadas com chuva e ranho. Tossia, tossia, engasgou-se e desatou a vomitar. Acudiram-lhe de novo.

Vomitava aos arrancos e estremecia-lhe todo o corpo. Levaram-no, amparado pelos sovacos.

Colocaram-no debaixo da água do “chuveiro” que corria dos bidões, ao lado da caserna. Deitaram-no na cama, ainda molhado. Chorava,  abraçado aos mais próximos, entre risos de uns e críticas de outros.

 
−  Este gajo é sempre a mesma merda.

−  Sou uma merda. É, sou uma merda… Mas não vou mais p’ró mato. Nã é, Zé? A gente nã vai mais p’ró mato, nã é,  Zé?

O Zé abanou a cabeça, concordando. O Tomé agarrou-o pelo pescoço, puxou e deu-lhe um beijo na cara.

−  A gente nã vai mais p’ró mato. Que vá o capitão, que leve o comandante e os oficiais todos. Que se fodam. P’ra que é a guerra? P’ra ganhar a taça? Que se foda a taça. Andamos aos tiros p’rás árvores. Os cabrões dos turras pintam-se de verde. Nã é,  Zé? A gente nem os vê. Deixa vir o alferes:  “Ó Tomé, tu hoje levas a bazuca.” ... “Leve-a você”!

−  Vá pá, tem calma. Vou-te buscar uma Pérrier.

−  Água?! Arranja-me uma cerveja.

 
−  Não. Tu já bebeste muito.

−  Apetece-me apanhar chuva.

 −  Não, tens que dormir. Faz-te bem.

−  Dormir? Ah.  Zé, a gente nã vai mais p’ró mato. Que se fodam. Um gajo quase na “peluda” e ir p’rá Metrópole num sobretudo de pau.

Teve um vómito e sujou a almofada.

−  Deixa lá. Está na hora do jantar. Queres que te traga alguma coisa?

−  Nã. Não.

Ficava mais calmo. Adormecia. O outro foi jantar.

No telheiro grande, coberto de zinco, que servia de refeitório, amontoavam-se para o jantar, apupando o cozinheiro.

−  Ide-vos foder! 'Ó tempo que não há frescos…

No meio do barulho das conversas ouviram-se, lá longe, para norte o som das “saídas” de granadas de morteiro pesado e de canhão.

Num instante era uma barafunda. Corriam aos magotes em várias direções, para as armas pesadas, para os abrigos, em busca das G-3 e cartucheiras.  As primeiras granadas começaram a assobiar por cima das cabeças, seguidas dos rebentamentos e dos ruídos que parecem loiça a partir-se.

Gritos, ordens, cheiro intenso, excitante a explosivos, pó, fumo, mais rebentamentos, gritos e mais gritos. Duas ou três granadas caíram dentro do quartel, voaram coberturas de zinco em placas retorcidas, pedaços de tijolo e cimento, vidros partidos. Um barracão começou a arder.

Dois grupos saíram a correr, pelas portas norte e leste, para cortarem caminhos de acesso. Parecia que o pandemónio nunca mais parava.

Começou a diminuir o fogo. Só pequenas rajadas de arma ligeira e vozes que interpelavam ou berravam ordens. Vultos apagavam o fogo com baldes de água. A serenidade voltou aos poucos. Havia movimentações para o posto de socorros. Alguns comeram como puderam o que, frio, ficara a aguardar nos pratos. Outros não saíram tão depressa dos postos ou dos abrigos.

Quando os primeiros voltaram à caserna, viram o cabo Tomé mesmo à entrada, nu, deitado de costas, de olhos espantados, como que olhando o teto de zinco, retorcido, enquanto um fio de sangue lhe escorria do lado esquerdo da boca, passava pelo pescoço e fazia uma poça de sangue debaixo da cabeça.

(Revisão / fixação de texto, links, título: CV / LG)


2. Comentário do editor LG:


Com a devia vénia, ao meu amigo e camarada Alberto Branquinho, bem como ao Carlos Vinhal,  achei que  "Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha!" é um título mais forte:  daqueles que não deixam ninguém indiferente: tem a força do calão, a dor do Tomé e a ironia trágica que só a guerra sabe criar.

"Humor de caserna" ?, perguntarãoo alguns dos nossos leitores, eventialmente chocados Sim, é um dos melhores contos da guerra colonial, que eu já li, uma narrativa  portentosa de  humor trágico: mistura o grotesco, a desolação e a ironia amarga da guerra da Guiné, que eu, o Alberto e muitos de nós conhecemos. 

A "cardina" do cabo Tomé, no dia em que fazia 23 anos, é, entre o patético e o cómico, um espelho da desumanização e do absurdo que a guerra  nos impunha, a nós, seus protagonistas. 

O final, abrupto e brutal, em três linhas e meia, é um murro no estômago: reforça a tragédia por trás do riso até então forçado. 

Não, não é só para a gente passar o tempo. É também para a gente pensar. E nos ajudar a indignarmo-nos quando vemos a nossa bandeira e o nosso fato camuflado serem usados indevidamente, na praça pública, em ambientes comicieiros, por quem não tem nada a ver com este filme e, no fundo,só pensa no seu umbigo (o mesmo é dizer, no seu ego de todo o tamanho).

3. Zé Teixeira,  Mário Fitas e Luís Graça comentaram em devido tempo:

(...) Porra! Se eu não tivesse o azar de ter passado pela Guiné, diria este tipo está a "mangar" comigo.

Depois de começar a ler, revi-me no cabo Tomé, até ao ponto da reviravolta, quando eles, os nossos "amigos" entraram na festa e fiquei arrepiado.

Veio-me à memória o Conceição Caixeiro: era de Lisboa, não bebia em demasia, era pacato e pachorrento, mas passava o tempo a cantar e a cantar morreu... Sabes aonde ? Na cagadeira, simplesmente porque estava a cagar, cantando como sempre e não ouviu a saída da granada que o vinha matar, nem o grito de vários colegas - Aí estão eles!

Ficou-se, com a nuca desfeita de encontro à parede da rectaguarda e só meia hora depois, quando à porta da enfermaria eu gritava de contente "Filhos da puta ! Cabrões ! Não há feridos", aparece  o Pedro, que faleceu há dias, e me disse: "Teixeira, vem comigo" e eu fui, para ficarmos os dois agarrados um ao outro a chorar, de desespero.

Ainda bem que escreveste. quanto me ajudaste ! (...) 


(...)  São momentos destes, que fazem esta Tabanca muito Grande. São estes os momentos em que nos tresmalhamos, nos escorregadios carreiros e nas neblinas cobrindo as bolhanhas.

Regredi! 21h00 a Companhia estava formada, o Meco (da Nazaré) segredou-me: "O  furriel  G... acabou de foder a prisioneira maneta."

A Companhia saíu. Madruga dia seguinte 05h00: o furriel  G... , o único a usar capacete, ficou com a cabeça em duas e o capacete com dois furos.

Maldita mata de Cabolol! Estavam à nossa espera!

Escreve!... Escreve, Alberto Branquinho,  mostra aos incrédulos o que foi chafurdar na lama, no álcool e na morte.

Sempre do tamanho do Cumbijã, o velho abraço.

Mário Fitas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009 às 23:44:00 WET 


(...) São estes momentos, Alberto, Zé, Mário, que nenhuma televisão do mundo (muito menos a nossa RTP) conseguiu filmar... É um quadro portentoso sobre as nossas misérias e grandezas. 

Obrigado, Alberto, pelo teu talento, delicadeza, ternura e compaixão com que falas, não de ti, mas de todos nós, camaradas da Guiné. E viva a nossa Tabanca Grande, que nunca será nem poderá ser política, social e literariamente correcta... Nem nunca precisará de pôr um bolinha vermelha ao canto superior direito... Que o nosso quotidiano também era feito de merda, umbigos, cus, caralhos, tomates, nervos, fel, coração, massa encefálica, medos e coragens, alegria e tristeza, vida e morte... E acima de tudo, camaradagem, o cimento que nos unia, para lá de todas as nossas diferenças, reais e imaginárias... Luís


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27671: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (13): a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!


Guiné _ Região de Tombali > Cufar >  CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67.> Cão de guerra, o "Cadete". Foi formada pela CCAÇ 763 uma secção de caés de guerra, de que o "Cadete" era o chefe. Uma experiência única no CTIG. (*)

Foto (e legtenda) : © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.
 


(

Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(v) é professor de educação física, reformado;
(vi) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).



Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (13):   a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!

por Jaime Silva


Eu não esqueci a única operação do meu pelotão com a ajuda de um cão de guerra (pastor alemão). Foi no Norte de Angola,  na zona dos Dembos.

Após saltarmos dos Hélis, progredimos e, pouco depois, somos confrontados com uma emboscada. Reagimos, tiroteio, silêncio, fase de expetativa e foi o momento de decidir também a atuação do cão:

– Buscs, busca, ataca, ataca ! – ordena o tratador.

Enquanto aguardávamos pelo regresso do cão, protegi-me atrás de uma árvore e, quando olho para o chão, vejo, mesmo encostado ao meu pé direito uma mina antipessoal meia destapada…. Presumivelmente, teria sido pisada pelo cão, aquando da perseguição aos guerrilheiros. 

Entretanto, montámos segurança ao local e o comandante da Companhia, experiente, levanta-a, retira-lhe o detonador, guarda-a no bolso…E continuámos a progressão para assaltar o objetivo.

Já perto da base, o cão deteta uma emboscada e investe sobre os guerrilheiros e no tiroteio é atingido mortalmente. 

á me tinha salvado o pé direito e salvou, certamente, a vida dos paraquedistas que progrediam na frente do pelotão!

De acordo com as normas, o tratador cortou-lhe uma orelha como prova da morte do animal em combate, no regresso ao Batalhão. (**)

Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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sábado, 24 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27668: E as nossas palmas vão para... (33): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte IV


Foto nº 36 > A mesa dos 3 cofundadores: em primeiro plano de costas, o Mário Fitas e  o Zé Carioca. Falta o António Graça de Abreu.


Fotio nº 37 > O "intruso", o Hélder de Sousa (Setúbal), de perfil, em segundo plano, a falar com o Mário Fitas. Ao fundo, a Helena e Ilda.


Foto nº 38 > Em primeiro plano, à direita, a Helena, esposa do Mário Fitas (que aparece aqui na fota a em "conversa amena"  com o Hélder Sousa, que não pertence a esta mesa)


Foto nº 39 > António Graça de Abreu e José Carioca, ambos de Cascais


Foto nº 40 > O Fernando Serrano e o António Graça de Abreu


Foto nº 41 > À esquerda, o Luis Martinho, da Moita, camarada de companhia do Fernando Serrano, a seu lado: ambos eram da CCAÇ 2637; o Fernando Serrano é natural de Penamacor, mora em Linda-A-Velha, freguesia de Algés, Linda-a-Velha e Cruz Quebrada-Dafundo, propfessor primário reformado, poeta,  já o convidei para integrar a Tabanca Grande.
 

Foto nº 42 > João Sacôto, José Carioca e Mário Fitas... (Ofereceu-me,  num dos convívios anteriores, com uma bela dedicatória, o seu ultimo  livro: Mário Vicente - "Do Alentejo à Guiné: Putos, Gandulos e Guerra", ed. autor, maio de 2025, 162 pp.; penitencio-me: ainda não fiz a recensão por absoluta falta de tempo...),.

O João Sacôto é outro dos nososs veteranos: ex-alf mil inf, CCAÇ 617/BCAÇ 619, Catió, ilha do Como e Cachil, 1964/66,

Magnífica Tabanca da Linha > Restaurante Caravela d' Ouro > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >

Fotos: © Manuel Resende (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.


1. Mais uma mesa de "magníficos":  nesta sentam-se pelo menos 3 cofundadores da Tabanca da Linha: o Mário Fitas, o Zé Carioca e o António Graça de Abreu,  todos os três também sócios da Tabanca Grande, com as "quotas em dia"... O Zé Carioca, que vem de Cascais, trouxe a esposa, Ilda,  como habituamente. O Mário Fitas, idem, com a sua Helena.

Mais uma vez é de sublinhar a competência e o empenho que o Manuel Resende pôs na organização deste evento. Felizmente ele náo precisa de medalhas de mérito para, de dois em dois meses, chamar os "magníficos" a capítulo... Mas sabe sempre bem os outros reconhecerem e agradecerem o nosso trabalho, né, Manel ?!

(Continua)
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(Seleção e edição de fotos, legendagem: LG)

sábado, 31 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26867: Convívios (1035): Fotorreportagem do 61º almoço-convívio da Magnífica Tabanca da Linha, Algés, 29 de maio de 2025 (Manuel Resende / Luís Graça ) - Parte I

 

Foto nº 1 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 >  O régulo Manuel Resende visivelmente bem disposto por tudo ter corrido bem: ds 87 inscritos faltaram 4, por razões de força maior... 

E neste convívio tinhamos um "magnífico" que veio de longe: o João Crisóstomo, nosso camarada, que vive em Nova Iorque. 

Na foto, de pé à esquerda, o Luís Graça  (Lourinhã) e à direita,a sentado, o Joaquim Pinto de Carvalho (Cadaval) (fez ntem anos, uma capicua, 77...). Quatro régulos, ao fim e ao cabo: da Tabanca Grande, da Tabanca da Diáspora Lusófona, da Tabanca da Linha e, por último, da Tabanca do Atira-te ao Mar e Não Tenhas... Medo!

Foto nº 2 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 >  Aspeto parcial do 2º (e último) piso do restaurante que estava cheio (11 meses de 8 convivas)... Já há muito, desde antes da pandemia, que não se atingia praticamente a lotação máxima.


Foto nº 3 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > As "nossas mulheres grandes" (sempre "bajudas"!) desta vez responderam à chamada do nosso régulo: a sala estava muito bem composta... 

Aqui o António Duque Marques, com a esposa... O casal viva na Amadora. ("António, como é que ? És "magnífico" desde  18 de maio de 2017, mas ainda não és membro da Tabanca Grande ? Ainda por cima, meu vizinho!... Temos estado distraídos os dois, tu e eu!... Estás 'convocado' para te sentares à sombra do nosso poilão, no lugar nº 906!")... 


Foto nº 4 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Outro casal amoroso, simpatiquíssimo, fotogénico, apanhado pelo nosso fotógrafo com um sorriso lindo: o José Diniz Souza Faro e a esposa (S. Domingos de Rana, Cascais)... (Foi fur mil art, 7.º Pel Art / BAC , Cameconde, Piche, Pelundo e Binar, 1968/70, tem 14 referências no nosso blogue, e é membro da nossa Tabanca Grande desde 23/05: é "magnífico" desde 15/5/2015).


Foto nº 5 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Outro "menino da Linha", o Mário Fitas, com a sua Helena.

 É um dos "pais-fundadores" da Tabanca da Linha, em 2010 (está no livro de baptismo com a data de 19/2/2015, o que não bate certo). Ofereceu-nos, com uma bela dedicatória, o seu ultimo  livro (Mário Vicente - "Do Alentejo à Guiné: Putos, Gandulos e Guerra", ed. autor, maio de 2025, 162 pp.)



Foto nº 6 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Já não nos víamos há muito tempo, desde os bons tempos antes da pandemia!... Teve um grande susto, quase a patinar, disse-me ele...Refiro-me ao António Alves Alves (Carregado, Alenquer), que é "magnífico"  desde 15/11/2015...(Também não és "grão-tabanqueiro", temos de ver isso, camarada!)


Foto nº 7 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Manuel Gonçalves e Tucha, mais dois meninos (Carcavelos, Cascais)... São transmontanos de Bragança... O Manuel Gonçalves, ex-alf mil Manutenção,  CCS/BCAÇ 3852 (Aldeia Formosa, 1971/73),  é "magnífico há "dois anos"... E "grão.tabanqueiro" desde 2 de agosto de 2018 (nº 776); foi alunos dos Pupilos do Exército...


Foto nº 8 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Foi uma grande alegria para todos nós (e para mim e a Alice, em especial) poder abraçar o Manuel Joaquim e a esposa... Problemas de saúde (do foro oftalmológico) tem-no impedido, há muito, de comparecer aos nossos convívios. Tem 110 referências no nosso blogue.

É autor, como se lembram, de uma das mais belas histórias, com fim feliz, contadas no nosso blogue.  Foi fur mil armas pesadas inf da CCAÇ 1419 (Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67), hoje professor do ensino básico reformado: trouxe para a sua casa e educou, como padrinho, o "nosso minino Adilan", o Zé Manel, o José Manuel Sarrico Cunté...

Falámos do Adilan, à mesa, com muita emoção (!)... Agora já avô, e feliz por viver em Portugal, o Zé Manel!... Camaradas: é um grande lição de portuguesismo e de humanidade, a do Manuel Joaquim e do Adilan, aliás, Zé Manel, dois membros da Tabanca Grande (onde raça, etnia, cor de pele, religião, partido, clube, classe social, etc., ficam lá fora).. Dois grandes seres humanos que muito nos honram e a quem desejemos o melhor da vida...


Foto nº 9 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Mais dois meninos (e uma menina) da Linha... Não precisam de apresentação... São veteraníssimos nestas andanças!... São "magníficos" da primeira hora e também membros da Tabanca Grande: António Marques e Gina (Cascais) e Armando Pires (Oeiras)...

Fotos: © Manuel Resende (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Escreveu o Manuel Resende na página do Facebook da Magnífica Tabanca da Linha, quinta feira, 29 de maio, às 21:56:


Mais um convívio se realizou hoje no Restaurante Caravela de Ouro, foi o nº 61. As cadeiras ocupadas foram 83. Creio que fizemos uma boa manifestação de gratidão ao nosso camarada João Crisóstomo, que vive em Nova Iorque  e que fizemos coincidir com as suas férias cá. Quem não souber quem é o Crisóstomo vá ao Blog Luis Graça e procure. Está lá tudo.

Como de costume, e para que fique registado, tirei algumas fotos que junto, clicando neste link.

2. Vamos selecionar algumas das mais de 6 dezenas de fotos do Manuel Resende, editá-las e legendá-las. Este é o primeiro poste.  

Fica aqui também a minha / nossa gratidão ao "magnífico-mor". 

Foi mais um almoço-convívio cuja organização esteve impecável e foi do agrado geral. 

Sempre discreto, o Manuel Resende está em "todas" as funções que cabem a um "régulo":  depois de ter convocado as "tropas", sempre com música suave ao ouvido (não precisa de berrar, vai atualizando o Facebook...), e de ter orientado as coisas com o restaurante,  lá esteve ele, de novo,  para nos nos receber,  dar as boas vindas aos "piras" (7 desta vez vez!), receber a "guita", fazer as contas, pagar,  etc. 

Nunca tem tempo, coitado, para provar os aperitivos e come à pressa... Lá pega na máquina fotográfica e percorre as 11 mesas, tirando 61 chapas... em tempo recorde... E ainda por cima posando, com calma e pachorra, para os "telemóveis" que querem ficar com uma "selfie"...

Tudo começa antes das 12h30 para acabar mais ou menos às 15h00... Vamos ter saudades do nosso "régulo" quando ele se reformar (mas, felizmente, ainda falta muito...). Deus lhe dê muita saúde e longa vida,  que ele merece as duas coisas... (LG)

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Nota do editor:

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26835: Humor de caserna (199): O meu grande "bubu" azul!... Que pena não mo terem deixado levar, vestido, no avião da TAP, de regresso a casa !... (Jorge Cabral, 1943-2021)






Foto nº 1


Foto nº 2



Foto nº 3


Legendas:

Fotos nºs 1 e 2 > Lisboa > Belém > 10 de junho de 2016 > O ex-alf mil art  Jorge Almeida Cabral, antigo cmdt do Pel Caç Nat 63 (Fá Mandinga e Missirá, 1969/71) com uma jovem militar da Marinha (foto nº 1);  e com Maldu Jaló, natural de Catió, e que era do tempo do Mário Fitas, tendo feito  parte da milícia do João Bacar Jaló (foto nº 2, aqui mais a esposa) (Fotos do Mário Fitas, ex-fur mil inf OR / Ranger, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67).

Fotos (e legendas): © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Jovem fula ou mandinga vestido o seu grand boubou, e protegendo-se da canícula por intermédio do seu inseparável chapéu automático (dois luxos que chegavam à tabancas do interior, graças ao comércio dos djilas do tchon francês e ao patacon da guerra).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-fur mil OE/ Ranger,  CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).
 
Foto (e legenda): © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Capa do livro de Jorge Cabral, "Estórias Cabralianas", vol I. 
Lisboa: Ed José Almendra, 2020, 144 pp.  Tinha um II volume, praticamente pronto para ser publicado. A morte surpreendeu-o. A "estória" que reproduzimos não vem no livro... Foi publicada no blogue há 19 anos atrás. Merece ser conhecida dos nossos "periquitos".


1. Um dia o "alfero Cabral", o Jorge Cabral (Lisboa, 1943 - Cascais, 2021), sonhou que podia ser Cabral entre os Cabrais,  fula entre os fulas, mandinga entre os mandingas, guinéu entre os guinéus, homem entre os homens... e até louco entre os loucos!

Foi de tudo um pouco, o mais paisano dos militares que eu conheci na Guiné. Filho de militar e aluno  do Colégio Militar, disse-me em vida que "todos nós tinhamos direito a um pouco de loucura e de humanidade", o que implicava pôrmo-nos na pele do outro; e ele fazia isso como ninguém... 

Morreu cedo demais, aos 78 anos. Lembrá-lo aqui, no blogue que ele tanto amava, é um dever dos seus amigos e camaradas da Guiné.




Má chegada, pior partida... com o meu grande "bubu" azul e sempre com ameaça de porrada...

por  Jorge Cabral (1943-2021)



Com destino à Guerra, viajei no 
Alfredo da Silva, quase um cacilheiro, durante doze dias. Em primeira classe, sete oficiais e uma dona puta em pré-reforma habitavam um ambiente de opereta, jantando de gravata, com a estafada dama na mesa do comando. Depois havia a valsa… Cheirava a mofo, a decadência, ao fim do Império…

Cheguei à noite, sentindo logo a África, no calor, na cor, na humidade. A bordo subiram militares, e o putativo marido da senhora, cuja profissão nunca descobri. 

Um sargento gago carimbou-me a guia de marcha e assinalou:

− Pel Caç Nat 63. 

Bem lhe perguntei o significado da sigla e para onde ia, mas não sabia ou não quis dizer.

Desembarcado, apanhei uma boleia num camião militar carregado de batatas, que me deixou no "Biafra", depósito de alferes em trânsito por Bissau.

Talvez para impressionarem o periquito, todos se mostraram totalmente apanhados. Quanto ao meu destino foram animadores

 É,  pá, vais para um pelotão de nharros. É só embrulhar. Estás lixado.

Apresentado no Quartel-General, ordenaram-me a partida para o Xime. Tinha que tomar um barco no dia seguinte, às tantas horas.

 Regressado ao "Biafra", aconselharam-me a não ir:

 − Recusa-te. Os barcos são sempre atacados.
 
Confiante na experiência dos velhinhos, falhei o embarque tendo voltado ao QG. Aí um capitão barrigudo passou-me a um major nervoso, que me remeteu para um tenente-coronel que, quase apoplético, me descompôs:

 
− Começa mal! Está a pedir uma porrada. As ordens são para cumprir. Desapareça da minha vista!

Desapareci, e o certo é que fui de avião para Bafatá.

Muitos dias, muitos meses, mais de dois anos passaram e eu continuei no mato. (As cunhas funcionavam na perfeição. Chegados a Bissau, em rendição individual, podiam ser encaixados, sem grande escândalo, em qualquer Repartição.) 

Tinha porém de ser rendido, e a solução foi encontrada a nível de Batalhão, substituindo-me por um alferes da Companhia de Mansambo.

Entretanto o meu Pelotão foi para a ponte do rio Undunduma e a Missirá voltou o Pel Caç Nat 52, tendo eu permanecido mais três semanas e entrado ainda numa operação, na qual morreram dois soldados africanos que, indo a fumar o mesmo cigarro, accionaram uma mina antipessoal reforçada.

Finalmente, e após uns dias em Bambadinca, embarquei no Xime com destino a Bissau. Recusara à chegada, mas afinal regressava de barco… e ao "Biafra". Agora eu era o velhinho e o apanhado.

No dia da partida, eu que cismara aparecer em Lisboa vestido com o bubu azul, bordado a ouro, que comprara a um djila senegalês em Missirá, resolvera mandar encurtar a vestimenta a um costureiro de rua. Enquanto esperava, passou por mim um furriel conhecido, que me alertou: o voo havia sido antecipado. 

À pressa, pego no fato, meto-me num táxi e vou para Bissalanca (toda a minha bagagem, fotografias, o meu diário, os versos que escrevi, ficaram no "Biafra").

Chegado ao aeroporto enverguei o meu traje, causando o espanto e o riso dos passageiros, militares. Eis que sou cercado por um coronel e dois majores, os quais em coro me determinam:

– Não pode ir assim, é uma vergonha, lembre-se que é um oficial....E blá, blá, blá…

Tento contestar:

− Se um fula pode embarcar com um fato europeu, porque não posso eu ir vestido à fula?

Nada feito, se persistir não vou e levarei uma porrada. Obrigado a obedecer, lá entro no avião, no qual segue também o coronel, o que impediu de me fardar a bordo.

Teimoso,  porém, mal chego a Lisboa, envergo o grand boubou e é com ele vestido que abraço a família. 

Franze o sobrolho o meu pai que me diz que o Carnaval ainda não chegara, que tivesse juízo e não o fizesse passar vergonhas… Quanto à minha mãe, chorava, talvez de alegria, mas muito mais de tristeza. Coitado do filho…enlouquecera!

Num destes dias vou de novo vestir o meu grand boubou. Pode ser que tenha conquistado o direito a um pouco de loucura. Talvez


(Revisão / fixação de tecto, título: LG)
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Nota do editor:

Último poste da série > 11 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26677: Humor de caserna (198): Carlos Fabião, um oficial duplamente superior, grandalhão e brincalhão (António Novais, ex-fur mil trms, Cmd Agr 2951, Cmd Agr 2952 e Combis, Mansoa e Bissau, 1968/70)