sábado, 10 de dezembro de 2022

Guiné 61/74 - P23864: Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Parte XIII: uma incursão à Ilha do Como, em princípios de 1965, com o Grupo "Fantasmas" a 18 operacionais...


Guiné > Região de Tombali > Catió > Interior do aquartelamento  >
 CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Álbum fotográfico de Victor Condeço (1943-2010), ex-fur mil furriel mecânico de armamento.


Guiné > Região de Tombali > Catió >  CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Avenida das palmeiras.


Guiné > Região de Tombali > Catió >  CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Chegada a Catió da lancha vinda do Cachil.  

Fotos (e legendas): © Victor Condeço (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Tombali > Ilha do Como > Cachil > 1966 > Interior do aquartelamento. Foto do álbum de Benito Neves, ex.fur mil,  CCAV 1484, (Nhacra e  Catió,  1965/67) d 

Foto (e legenda): © Benito Neves (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mais um excerto das memórias do nosso camarada Amadu Djaló (Bafatá, 1940- Lisboa, 2015), membro da nossa Tabanca Grande desde 2010, autor do livro "Guineense, Comando, Português" (Lisboa, Associação de Comandos, 2010, 229 pp.).

O Virgínio Briote, nosso coeditor jubilado (ex-alf mil, CCAV 489 / BCAV 490, Cuntima, jan-mai 1965, e cmdt do Grupo de Comandos Diabólicos, set 1965 / set 1966) disponibilizou-nos o manuscrito, em formato digital. Recorde-se que, durante cerca de um ano, com infinita paciência, generosidade, rigor e saber, ele exerceu as funções de "copydesk" (editor literário) do livro do Amadu Djaló, ajudando-o a reescrever o livro, a partir dos seus rascunhos e da sua prodigiosa memória.



Quinta do Paul, Ortigosa, Monte Real, Leiria > IV Encontro Nacional do nosso blogue >
20 de Junho de 2009... O Virgínio Briote e o Amadu. Foto: LG (2010)



Capa do livro de Bailo Djaló (Bafatá, 1940- Lisboa, 2015), "Guineense, Comando, Português: I Volume: Comandos Africanos, 1964 - 1974", Lisboa, Associação de Comandos, 2010, 229 pp, + fotos, edição esgotada.


A edição de 2010, da Associação de Comandos, com o apoio da Comissão Portuguesa de História Militar, está infelizmente há muito esgotada. E não é previsível que haja, em breve, uma segunda edição, revista e melhorada. Entretanto, muitos dos novos leitores do nosso blogue nunca tiveram a oportunidade de ler o livro, nem muito menos o privilégio de conhecer o autor, em vida.

Recorde-se, aqui, o último poste desta série (*): O Grupo de Comandos "Fantasmas", da Companhia de Comandos do CTIG, comandado pelo alf mil 'comando' Maurício Saraiva, nascido em Angola,  faz um incursão de 3 dias nas matas no Oio, com apenas 12 operacionais.





"Vinte dias em Catió, Cachil e Como, no princípio de 1965, com o Grupo de Comandos  "Fantasmas" agora com 18 operacionais ...
(pp. 108/112)

por Amadu Djaló (*)

 
(i) Na toca do lobo, na ilha do Como


João Parreira,
ex-fur mil op esp,  'comando', 
CART 730 / BART 733
e Grupo de Comandos “Fantasmas”,
 
Bissorã e Brá, 1964/66,
membro da Tabanca Grande
desde 3/12/2005


Em resposta ao pedido do alferes Saraiva de voluntários para reforçar o grupo, o QG enviou  alguns militares que se tinham oferecido. Com a chegada a Brá do furriel João Parreira, europeu [em fevereiro de 1965], de um soldado africano, Braima Bá, e de mais quatro praças europeus, o grupo “Fantasmas” ficou com 18 homens operacionais.

A primeira missão com o grupo reforçado foi no Como. Primeiro deslocámo-nos para Catió, onde estivemos três dias.

Depois seguimos de barco, chegámos à tarde ao Cachil e ficámos a fazer tempo para a hora de saída.

Depois de jantarmos pusemo-nos a caminho, rumo ao objectivo. Ia connosco um guia balanta.

O Como é uma ilha com mata muito densa nalguns locais. A mata é cercada por uma clareira toda à volta, que, segundo as informações que nos deram, a guerrilha tinha cavado abrigos onde sentinelas espaçadas, se vissem tropa a aproximar-se, chamavam gente para defender a posição.

O alferes, antes de sairmos, explicou como íamos fazer. O pessoal da companhia ia servir de isco, preparavam-se como se fossem fazer uma operação e de forma que fossem vistos pelas sentinelas do PAIGC. Nós que iríamos andar toda a noite, o mais silenciosamente possível, quando os guerrilheiros fossem chamados pelas sentinelas, cairíamos então em cima deles. Esta era a ideia do alferes.

Mas as coisas não correram desta forma.

À meia-noite e qualquer coisa, encontrámos os abrigos ocupados pelos seus donos. Quando progredíamos no máximo silêncio,  ouvimos murmúrios, o alferes mandou parar e parámos todos, ninguém piou. Mandou-nos avançar com toda a precaução, novas conversas chegaram aos nossos ouvidos e parámos novamente. Como deixámos de ouvir, continuámos, sempre com o máximo cuidado. Só que um companheiro meteu um pé num daqueles buracos e vimos logo duas pessoas a correr. Quando nos apercebemos,  era um grande barulho de pessoal a abandonar os abrigos.

Não tínhamos alternativa, retirámo-nos cautelosamente e entrámos no capim, que era mais alto que nós, e deitámo-nos. De repente, uma granada rebentou tão perto de mim, que fiquei surdo. A seguir uma rajada e outras se seguiram para cima do local onde estávamos deitados. O barulho dos tiros ecoava na minha cabeça como se fosse muito longe, a quilómetros.

Levantámo-nos e, aos ziguezagues,  começamos a correr em direcção às palmeiras, para nos podermos abrigar melhor. Sempre acompanhados pelas chicotadas dos tiros, atingimos o quartel do Cachil.

No porto do Cachil, embarcámos no mesmo barco que nos tinha trazido de Catió e que transportava géneros e regressámos nele a Catió, onde chegámos quase ao meio-dia.

Aproveitámos para descansar uns dias,  para depois partimos para fazer uma emboscada na picada para Cufar. Num dia desses aproveitei para ir às rolas com uma espingarda de pressão. Não correu muito bem a caçada. Quando foi preciso que disparasse, a espingarda não disparou, depois, quando eu estava a tentar ver porque não tinha disparado, disparou e acertou-me, de raspão, num dedo do pé direito.

O alferes disse que eu me tinha ferido de propósito, para não ir. E eu respondi, mas eu vou, custe o que custar. E o alferes a dizer não vais!... Senti-me tão mal comigo que até chorei.

O grupo saiu, emboscou-se na picada, e um grupo da guerrilha caiu na emboscada, perderam homens e quatro armas automáticas. O grupo entrou em Catió, sem baixas e com as armas.

Tivemos mais dois dias de descanso, enquanto o alferes preparava um golpe de mão a um acampamento na zona de Cufar.

Deixámos o quartel aí pelas 20h00 e andámos sempre sem problemas até às 02h00 da madrugada, quando chegámos à mata de Cufar. Tínhamos quatro horas, mais ou menos à nossa frente, para podermos atacar durante a noite.

A mata era tão cerrada como escura era a noite. Agarrámo-nos uns aos outros pelo cinto, para não nos perdermos. A progressão foi difícil e muito lenta. Aí pelas 07h00, com o sol já alto, fomos dar a um carreiro que levava ao acampamento. Vimos que estava bem utilizado.

O alferes entrou em contacto rádio com o capitão Lacerda da companhia que nos dava apoio e segurança  
CCav 703 / BCAV 705, Bissau, 1964/66, comandada pelo cap cav Fernando Manuel dos Santos Barrigas Lacerda]. 

 Entretanto, nós continuámos a andar até que,  ao ver, a pouca distância, ramos de uma árvore a mexer, disparei um tiro. Logo uma pessoa saltou a correr e desapareceu no mato. Corri para o sítio e apanhei a arma que ele não teve tempo de levar.

Regressámos ao encontro da companhia do capitão Lacerda e tomámos juntos o caminho para Cufar. Aqui a companhia ficou e nós prosseguimos para Catió. No caminho ainda encontrámos uma vaca e uma vitela, que uma secção de milícias que ia connosco, aproveitou para tomar conta delas.

Entrámos em Catió de manhã e, naquele dia, jantámos vitela. No dia seguinte apanhámos o barco para Bissau.


(ii) Com uma noiva no barco, de regresso a Bissau

Na lancha ia uma noiva e a comitiva, três raparigas e três mulheres. A mais velha dava-se mais ao respeito, as restantes, incluindo a noiva, iam numa grande brincadeira. A noiva ia vestida com roupa branca e queria manter-se séria.

Na zona de Bolama, apanhámos tempestade e o barco balançava muito. Ficámos todos mal dispostos e, como é costume, alguns vomitaram. Rapazes, raparigas, senhoras, a noiva até, tudo começou a vomitar. Nenhum de nós conseguia ficar de pé com o temporal. O Braima Bá pediu-me para dizer ao irmão dele que o Braima não tinha morrido na guerra, mas tinha morrido no barco. 

A viagem não foi nada para graças, chegámos a ter dúvidas se chegaríamos a Bissau. Mas chegámos, quase à meia-noite, ao cais onde as nossas viaturas nos aguardavam.

Esta estadia em Catió durou 20 dias.

[Seleção / Revisão e fixação de texto / Negritos / Parênteses retos com notas / Subtítulos: LG]

(Continua)
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Nota do editor:

Guiné 61/74 - P23863: Os nossos seres, saberes e lazeres (545): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (80): Do Atelier Júlio Pomar à visita de uma bela coleção privada no Museu do Chiado (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Dezembro de 2022:

Queridos amigos,
Tratou-se de uma visita a gente que tenha felicidade de pendurar pelas paredes. Logo uma gravura de Pomar premiada pela Gulbenkian em 1961, creio que na segunda exposição de artes plásticas. Tenho uma certa atração por este atelier da Rua do Vale, estão sempre prontos a pôr este grão-mestre das artes plásticas em confronto com outras gerações, é este o caso. E dali parti para o Museu do Chiado para me despedir de uma exposição de grande beleza, um casal que, sobretudo nos anos 1960 e adiante, se fez cercar de obras de arte de seus contemporâneos ou antigos, não falta ali Almada Negreiros e António Pedro, mas o mais representativo eram artistas plásticos na fase ascensional, caso de João Vieira, João Hogan, Eduardo Nery e Joaquim Rodrigo. Asseguro que o visitante não sairá dececionado, ignoro o caminho que a coleção vai ter, oxalá possa ficar patente para desfrute do público, é muitíssimo esclarecedora de um tempo e de correntes artísticas que conseguiram passar à margem dos chamados Anos de Chumbo, aqui não há arte plástica nacionalista, imperial ou devedora do gosto do Estado Novo, são marcas de uma contemporaneidade que anunciam a liberdade em que vivemos.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (80):
Do Atelier Júlio Pomar à visita de uma bela coleção privada no Museu do Chiado

Mário Beja Santos

N
ão escondo a profunda admiração que nutro por este artista plástico de uma enorme exigência no campo experimental, é figura indeclinável na pintura, no desenho, na gravura e na serigrafia, na cerâmica, na ilustração, no diálogo de matérias-primas, no azulejo, e algo mais. Será seguramente o artista mais irrequieto da segunda metade do século XX, desde o neorrealismo, de que foi figura pioneira, até às correntes contemporâneas, sem se ter acantonado em qualquer das escolas.
À porta deste atelier veio-me à memória uma visita que fiz na companhia do meu saudoso amigo, o pintor Rolando Sá Nogueira, à retrospetiva de Vespeira, no Museu do Chiado em 2000. Andávamos pela Sala dos Fornos, ali se exibia o principal acervo deste grande artista que primou no surrealismo, Sá Nogueira ia fazendo as suas exclamações, como se houvesse descobertas ou inusitadas lembranças, e à saída, a caminho de uma tasca em S. Paulo, fez-me o seguinte comentário: “Acabo de constatar o que é o drama de ser o n.º 2”. Enquanto comíamos um belíssimo polvo, pediu-me que me explicasse o que era isso de ser o n.º 2: “Vespeira tudo fez para poder emparceirar e até superar Pomar, de facto foi inexcedível no período ascensional, mas cedo percebeu que não era possível competir com o furacão Pomar, sempre em revolução, dominou por excelência própria este meio século e continua revigorado. A exposição que acabamos de ver mostra o Vespeira inovador, mas insuscetível de poder concorrer com o Pomar”.

O atelier que ora visito é uma bela instalação, sempre com exposições palpitantes, desta vez está patente um confronto entre Pomar, André Romão, Jorge Queirós e Suzanne Themlitz, como se interseciona a matérias das matérias, o que podemos ver neste espaço desafogado são tipologias da matéria com figurações e narrativas que parece que se entrechocam, não falta areia, vidro, ferro, madeira, panos, sugerindo hipóteses de haver uma noção para o diálogo de tais matérias-primas com diferentes peças pictóricas de Pomar, caso dos “Mascarados de Pirenópolis”.
Há anos atrás recebi uma prenda envolvendo o nome de Júlio Pomar, um livro intitulado Caracóis, o poeta Pedro Tamen dialogava com o artista plástico Pomar, eram imagens retiradas de um caderno de viagens, e Tamen versejava: “Desliza, liso / pé, lisa palma / sobre a ruga da pedra / - suave, lima obstinada”. Adiante: “Estas antenas não buscam outra coisa / que a luz que as ilumina”. Pois não resisti a captar imagem destes Caracóis que nos recebem à entrada do atelier.

Atelier-Museu Júlio Pomar, Rua do Vale, 7, com a Igreja de Nossa Senhora das Mercês ao fundo
Um pormenor da sala de exposição, as matérias-primas e os objetos de arte acabados têm muito para conversar
O pintor Jorge Queirós entra no diálogo com o companheiro Pomar, até se gera uma confusão quando o visitante se aproxima destas 4 telas, não parece que são as cores de Pomar, persistentemente fabricadas há um ror de décadas?
Mascarados de Pirenópolis VII, 1987, Coleção privada, Fundação Júlio Pomar

Sobe-se agora a calçada do Combro, atravessa-se o Camões, passa-se o Largo das Duas Igrejas, desce-se junto ao Teatro S. Carlos e pela Serpa Pinto chega-se ao Museu Nacional de Arte Contemporânea, crismado de Museu do Chiado depois das obras de beneficiação que o governo francês apoiou, na sequência do incêndio do Chiado, em 1988. O que me traz aqui é despedir-me de uma coleção privada, bem singular. A quem me ler, recomendo a sua visita até ao final do ano. Chama-se Coleção Maria Eugénia e Francisco Garcia, dois entusiastas por colecionar arte, conversavam com vários amigos, alguns deles aqui representados, caso de Fernando de Azevedo ou Fernando Lemos, isto independentemente de nunca terem tergiversado em questões de gosto, desde pintura à gravura, encontramos aqui artistas de referência e um conjunto de obras só possíveis de disfrutar por o Museu do Chiado as ter acolhido. Aqui ficam imagens avulsas de algumas das obras e artistas que ainda hoje tanto me emocionam.
Fotografias de Maria Eugénia e Francisco Garcia patentes na exposição
Quadro de Joaquim Rodrigo, uma abstração que nos lembra Piet Mondrian
João Vieira, já muito igual a si próprio
Alice Jorge e a sua Sargaceira
Sonia Delaunay
Fotografia do interior da casa do casal
Noronha da Costa, na sua fase mais original
Almada Negreiros

(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 3 DE DEZEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23842: Os nossos seres, saberes e lazeres (544): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (79): A exposição de homenagem a Francis Graça, pioneiro do bailado em Portugal, Museu Nacional do Teatro (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P23862: História de vida (49): Sinto-me muito realizada e feliz por ter sido uma simples enfermeira e, durante a guerra, enfermeira paraquedista (Rosa Serra) - Parte II: A guerra e a sua violência... mas também havia situações "engraçadas" (como, por exemplo, quando "eles", em Tancos, tentavam esconder a revista "Playboy" quando eu chegava ao bar de oficiais...)


Guiné > Região do Oio > Jumbembem > CART 730 (1964/66) e CCAÇ 1565 (1966/68) > Domingo, 10 de julho de 1966 > Um dia trágico: pormenor da evacuação do cap mil inf Rui Romero, na foto a ser transferido para a maca do helicóptero Alouette II... A enfermeira paraquedista era a alf Maria Rosa Exposto.

Foto (e legenda): © Artur Conceição (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



História de vida (excertos): sinto-me muito realizada e feliz por ter sido uma simples enfermeira e, durante a guerra, enfermeira paraquedista (Rosa Serra)

Parte II: A guerra e a sua violência... mas também havia situações  "engraçadas" (como, por exemplo, quando "eles", em Tancos,  tentavam esconder a revista "Playboy" quando eu chegava ao bar de oficiais...) 



Rosa Serra, hoje (2020)

Perguntaram-me, no Hospital de Cascais onde estive recentemente internada (*), onde trabalhei, e ficaram admiradas, as enfermeiras, quando desfiei os vários locais e as experiências que tive durante quarenta anos.

Há um que deixou todas ainda com mais espanto. Foi o período em que estive na Força Aérea, como enfermeira paraquedista.

Naturalmente que não escondi que foi uma experiência profissional interessante, mas acrescento sempre que essa realidade foi muito específica e muito diferente da prestação de cuidados em outros contextos, mas talvez não superior aos desempenhos como enfermeira, antes e depois, dos anos que estive ao serviço da Força Aérea.

A Arte do Cuidar é muito variável e sempre adaptada ao contexto onde se exerce. A nossa ação, como enfermeiras paraquedistas, foi num palco de guerra, que desencadeava estados de stresse elevado, sendo necessário geri-lo com mestria, para que a nossa intervenção fosse útil e eficaz. Tínhamos de ter atenção ao nosso estado emocional, pois ele refletia-se naqueles que eram socorridos por nós.

Foi uma mais valia fazermos o curso de paraquedismo, que não nos ensinou a ser enfermeiras, pois já o eramos antes de entrar no RCP - Regimento de Caçadores Paraquedistas, mas foi durante o curso de paraquedismo que aprendemos a controlar os nossos medos e emoções, para que aterrássemos em segurança. Esse treino repercutiu-se na nossa ação, que passou a ser mais calma e mais eficaz.

Os nossos combatentes tinham uma confiança ilimitada nas enfermeiras paraquedistas, foram eles que nos apelidaram de “Anjos“ que desciam do céu para os socorrer. Acredito que a maioria de nós, se não todas, se via como seres espirituais, mas foi uma expressão carinhosa, utilizada pelos nossos combatentes.

Com os pilotos, quando alguma coisa os preocupava, nós, mesmo não entendendo nada de aviões, tentávamos acalmá-los.

Recordo de uma vez na Guiné. O sr. capitão, piloto aviador Cartaxo, ao atravessar o Rio Geba, o maior rio da Guiné, que ficava em frente à cidade de Bissau, par irmos buscar um paraquedista à outra margem desse rio, deparou-se com um inesperado nevoeiro que, sem qualquer “aviso”, fechou o nosso caminho, impedindo que o rumo que estava traçado inicialmente, teria de ser alterado ou adiada a missão. Já estávamos a sobrevoar Tite quando esta alteração climática aconteceu.

De início, o piloto tentou ultrapassar as nuvens, e eu também fiquei atenta ao comportamento das mesmas e andamos ali um bom bocado a sobrevoar Tite, na expetativa de não ser necessário regressamos a Bissau, sem a nossa missão cumprida que era trazer o nosso ferido.

– Olha ali, as nuvens estão a abrir e a nosso favor – disse eu, mas o Capitão mexia na manche,  alheio à minha informação.

Eu sem perceber por que razão o seu foco era apenas os instrumentos da aeronave. Só no fim de uns bons minutos, acedeu ao meu pedido e acabámos por aterrar no aldeamento donde vinha o pedido.

A pista que nos recebeu era de terra batida, cujas pedrinhas batiam na fuselagem da frágil avioneta, uma DO-27. O ferido que íamos buscar era um paraquedista da companhia do, na altura,  capitão paraquedista Terras Marques [, a CCP 121 / BCP 12],   que na noite anterior pernoitara nesse quartel do Exército, vindo de uma operação.

Quando aterramos, chegou até nós o militar ferido,  que já apresentava alguma dificuldade respiratória, porque ao cair da tarde foi tomar banho a um pequeno rio, mergulhando numa parte baixa e lesionou a coluna cervical, razão suficiente para eu pedir ao capitão que pedisse à BA 12, em Bissalanca, para ter um helicóptero disponível na pista à nossa chegada.

O hospital militar [, o HM 241, em Bissau], ficava relativamente perto da BA 12, mas não seria indicado ser transportado por terra, percorrendo uma estrada de piso degradado até lá.

O sr. capitão piloto aviador acedeu ao meu pedido e, quando aterrámos na BA 12, lá estava o Alouette III à espera. Fez-se transferência do ferido para o helicóptero e, antes de ele descolar, coloquei dois frascos de soro em cada lado do seu pescoço, para o manter minimamente estável e já não o acompanhei até ao hospital. O trajeto era demasiado curto, não justificava minha presença durante a viajem.

Depois do helicópetero levantar voo rumo ao Hospital Militar de Bissau, virei-me para o aviãozinho, para perguntar ao capitão se queria acompanhar-me ao bar dos pilotos para tomarmos o pequeno almoço, e qual não é o meu espanto quando vi num buraco na asa do avião, e em cima dela estava um cabo mecânico da Força Aérea que, com ar animado, informa:

– Meu capitão, já a encontrei.

Foi quando vi o furo no DO-27 e ingenuamente disse ao capitão:

– Eu,  quando ouvia as pedras a bater na barriga do avião,  pensei que estas iriam criar moça ao nosso aviãozinho. 

Ele não reagiu á minha observação. Só no bar dos pilotos, não ele, mas quem ouviu a sua narrativa, ria descaradamente na minha cara. Até eu ri pela minha ignorância e estupidez.

Por vezes parecia que vivíamos num mundo de “anedotas”, estou a lembrar-me de outra reação que os pilotos tinham quando chegava um avião da TAP, com passageiros idos de Lisboa.

Após o almoço no Bar dos Pilotos, onde geralmente eu tomava café, de repente alguém me segura por um braço e diz:

– Vamos já para a pista.

E um deles arrasta-me me para dentro de um jipe que já estava à espera dos meninos pilotos, nesse dia acompanhados por uma enfermeira paraquedista. Explicaram-me:

– Vamos ver as miúdas que vêm de Lisboa.

Quando chegamos muito perto da pista, e na distância permitida, estacionaram o jipe e lá ficamos a olhar o belo avião TAP, de portas abertas com um assistente de bordo à espera da colocação das escadas, por onde desceriam os passageiros que chegavam de Lisboa.

Colocada a escada, os passageiros aparecem começando a descer os passageiros e iniciou-se o alvoroço:

– Olha a loiraça que aí vem, é o máximo – diz outro.

E eu pensava:

– Estão todos apanhados pelo clima, o que é que eu tenho a ver com isto ?!

Até que de repente se instala a desilusão total e começaram a lamentações, dizendo:

– Ó, pá, é a Rosa Exposto (uma enfermeira paraquedista)

Eu arregalei os olhos, pensando como é enfermeira paraquedista já não interessa!... Mas, ri com gosto, pela desilusão dos nossos amigos pilotos.

"Essa enfermeira é gira mas é... uma enfermeira paraquedista", acredito que a frase, dita à minha frente, os incomodou por considerar o comentário pouco respeitoso.

Foi bom confirmar que, para além dos paraquedistas, também os pilotos tinham alguma preocupação em terem atitudes delicadas, pelo menos na nossa presença.



Rosa Serra, ex-alf enf paraquedista
(Guiné, 1969/79; Angola, 1970/71;
Moçambique, 1973)


Há um caso dramático que ainda hoje me custa falar. Embora eu não assistisse, nem tão pouco eu estava na Guiné, mas conhecia a enfermeira em questão, quando eu estava em Luanda e lhe fiz a adaptação no transporte de feridos e doentes de Luanda para Lisboa.

Segundo a narrativa das enfermeiras que estavam na Guiné na época, essa enfermeira nesse dia quando almoçava no BCP 12, chegou um jipe, que sabia sempre onde estava a enfermeira de alerta do dia, informando que havia uma evacuação. A jovem interrompeu a refeição, meteu uma peça de fruta no bolso, entrou na viatura que arrancou em direção á pista.

Com todo aquele stresse, teve uma atitude impensável e sem lógica nenhuma. Foi colocar a bolsa dos primeiros socorros na porta de trás, pelo lado do piloto e voltou para o seu lugar pelo mesmo lado.

Sem que o piloto se apercebesse que ela voltara pela frente do avião, para ocupar o seu lugar,  o lugar dela, ele põe o motor a trabalhar, atingindo-a mortalmente com as pás. É impressionante como ela não se lembrou dos ensinamentos dados pelos paraquedistas, que nos ensinaram; nunca se passa pela frente de um avião, nem por trás de um helicóptero, visto ser lá que está instalado o rotor de cauda. (**)

As enfermeiras que estavam a almoçar com ela, ficaram sem perceber porque é que o jipe voltou logo de seguida, chamando todas as enfermeiras à pista. Elas foram e depararam-se com aquele cenário horrendo.

Por muito preparadas que estivéssemos, há sempre situações que é impossível não nos abalar profundamente.

Apesar de tantas situações violentas, não foram só tristezas, havendo sempre algumas engraçadas para recordar. Eu sou do tempo em que em Portugal não se vendia a revista Playboy, ela só chegava ao RCP quando alguém a trazia da Base Americana dos Açores. Eu estava em Tancos nessa altura a dar um curso de primeiros socorros avançados a socorristas paraquedistas e,  quando chegava o fim da tarde, antes do jantar, passava pelo bar dos oficiais que era composto por três salas: o bar propriamente dito, uma segunda sala destinada à leitura e uma terceira com televisão.

Era lá nessa sala de leitura que estava a dita revista. Quando eles davam conta que eu estava a entrar, tentavam disfarçar passando as revistas, de cima para baixo e avisavam em surdina:

– É, pá,  cuidado, vem aí a Rosa. 

Eu fingia não perceber,,, Só mesmo paraquedistas têm este comportamento para com as suas camaradas, e assim contribuíam para que a nossa confiança, respeito e admiração por eles, fosse cada vez maior.

À primeira vista até parece que não, mas este comportamento de respeito e delicadeza influenciou a nossa postura quando tínhamos um ferido nas nossas mãos, fosse ele amigo ou inimigo, era sempre preciso respeitá-lo e entender o seu desespero.

Não esqueço o livrinho sobre a ética militar, que me foi oferecido pelo Batalhão de instrução no nosso RCP em 1968, que ainda o tenho, onde está escrito; quando estamos perante um inimigo, ferido temos de o respeitar pois ele nessa situação deixa de ser inimigo e é obrigação socorre-lo, com todo o respeito.

Quando li isto tive uma sensação ótima, por ver que os princípios éticos dos paraquedistas não colidiam com os meus próprios princípios como enfermei

A minha evolução, como enfermeira e como pessoa, foi grande.

Achei curioso quando eu ainda estava internada no Hospital de Cascais, perguntarem-me se eu era contra a guerra. Expliquei que não é essa a questão, pois todos sabemos que as guerras são indesejáveis em qualquer situação, mas enquanto existirem dois homens à superfície Terra, haverá sempre conflitos.

   É   anuíram elas.

(Continua)

[Seleção / Revisão e fixação de texto / Negritos / Links / Titulo e subtítulo / Parênteses retos com notas / LG]
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(**) Vd. poste de 6 de janeiro de 2015 > Guiné 63774 - P14123: As nossas queridas enfermeiras paraquedistas (32): A morte da camarada Enfermeira Paraquedista Celeste Costa (Giselda Pessoa)

Guiné 61/74 - P23861: Parabéns a você (2123): Fernando Barata, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2700/BCAÇ 2912 (Dulombi, 1970/72) e Mário Santos, ex-1.º Cabo Especialista MMA (Bissalanca, 1967/69)

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Nota do editor

Último poste da série de 5 DE DEZEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23846: Parabéns a você (2122): Manuel Carvalho, ex-Fur Mil Armas Pesadas Infantaria da CCAÇ 2366/BCAÇ 2845 (Teixeira Pinto, Jolmete e Quinhamel, 1968/70)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Guiné 61/74 - P23860: Convívios (949): Almoço de Natal da Tabanca de Matosinhos, dia 14 de Dezembro de 2022, no restaurante Espigueiro, em Matosinhos, a partir das 12 horas (José Teixeira)


1. Mensagem do nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70) com data de 8 de Dezembro de 2022:

Bem-vindo ao almoço de Natal na Tabanca de Matosinhos.

Quarta feira dia 14 de Dezembro na Tabanca de Matosinhos.

Podes vir acompanhado e traz uma pequena prenda para dar a alguém. Levarás de volta uma recordação deste dia que alguém trouxe para ti.

Um grande abraço

Pela Tertúlia da Tabanca de Matosinhos
Zé Teixeira

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Nota do editor

Último poste da série de 22 DE NOVEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23805: Convívios (948): 82.º Encontro da Tabanca do Centro, a levar a efeito no próximo dia 30 de Novembro no Restaurante "Tertúlia do Manel", Cortes, Leiria

Guiné 61/74 - P23859: Notas de leitura (1530): "O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume I: Eclosão e Escalada (1961-1966)", por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2022 (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Novembro de 2022:

Queridos amigos,
Eu só espero que o coautor José Augusto Matos esteja a acompanhar criticamente esta adaptação de partes essenciais do seu livro que eu aqui faço um tanto às três pancadas, desconhecedor que sou da terminologia mais fiável e inclusivamente a leitura que eu faço e procuro transcrever de aspetos essenciais não corresponderá ao olhar dos autores, daí o pedido de auxílio a quem sabe da poda. O que aqui se elenca é a escolha, com os recursos possíveis, de aeronaves que melhor se adaptassem à realidade do solo guineense. Quando, em 1961, já não era possível camuflar mais que em breve iria eclodir a luta armada foi necessário apetrechar Bissalanca a diferentes níveis, tinha que ser aeródromo civil , dispôr de hangares, pistas bem mantidas, uma proteção de segurança, instalações compatíveis com as forças dotadas para a permanente intervenção. E os autores vão nos dando explicações quanto à natureza das aeronaves, dando os porquês daquelas que vingaram, caso do DO-27, dos Alouette II e III, do Dakota, do Noratlas e do Fiat G-91, revelaram-se preponderantes, deram uma colaboração extraordinária, até que a supremacia aérea foi posta em causa.

Um abraço do
Mário



O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974
Volume I: Eclosão e Escalada (1961-1966), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2022 (7)


Mário Beja Santos

Este primeiro volume d’O Santuário Perdido, por ora só tem edição inglesa, dá-se a referência a todos os interessados: Helion & Company Limited, email: info@helion.co.uk; website: www.helion.co.uk; blogue: http://blog.helion.co.uk/. Depois de sumariar o prefácio, entrámos no primeiro capítulo intitulado “O Vento da Mudança”, verificaram-se as alterações operadas no início da era de descolonização e as consequências que vieram a ter na colónia da Guiné. Seguiram-se outros capítulos, fez-se a contextualização sobre a ascensão dos movimentos de libertação e estamos nesta altura já a falar sobre a implantação da FAP na Guiné num contexto de zona aérea de Cabo Verde e Guiné, 1961, prepara-se Bissalanca para as operações de combate mediante de um programa de construção para reabilitar e ampliar a pista do aeródromo, também com a construção de hangares e outras instalações para manutenção e suporte.

Quando os primeiros pilotos da FAP chegaram em julho desse ano, ainda não encontraram em funcionamento qualquer centro de operações ou alojamentos de pessoal, foram preciso mais 6 meses para dar por concluídas as melhorias essenciais e a base aérea de Bissalanca iniciar as suas operações. De acordo com a classificação apresentada pelos autores, temos uma base aérea e aeródromos de manobra e trânsito. Bissalanca não podia apoiar todas as atividades da FAP, daí ter-se criado uma rede de mobilidade, o ponto focal era o aeroporto do Sal, uma plataforma para operações na Guiné ou para a Base Aérea n.º 9 em Luanda. Com os aperfeiçoamentos introduzidos em Bissalanca, aqui puderam aterrar aviões de carga, incluindo o Boeing 707. Procurou-se igualmente estabelecer uma rede de aeródromos e pistas auxiliares para maior apoiar as unidades de superfície. Identificaram-se 28 pistas de aterragem, mas nenhuma foi pavimentada e apenas uma poderia ser usada pelo DC-3 ou aeronave similar. A maior parte destas pistas podia receber aviões utilitários leves e vários aeródromos (Bafatá, Tite e Bubaque) foram melhorados para acomodar caças com motor de pistão e Bubaque passou a dispor de logística como aeródromo suplente de Bissalanca. Apareceram posteriormente aeródromos em Cufar, Nova Lamego e Aldeia Formosa. No aceso da guerra, havia mais de 70 campos de aterragem, uma boa parte deles não passava de clareiras ou trechos abertos de estradas. Ao longo da guerra na Guiné, os aviadores portugueses chegaram a fazer até 7 surtidas por dia para estas pistas rudimentares.

Os planos elaborados em 1960 previam um complemente de 4 aeronaves de observação, transporte médio e apoio de fogo para estarem permanentemente na base aérea de Bissalanca. Este dispositivo foi alterado depois das primeiras flagelações, em 1963 (houve um antecedente, perpetrado por um movimento rival do PAIGC, o Movimento de Libertação da Guiné, que atacou S. Domingos, Susana e Varela em julho de 1961, mas que não passaram de incidentes que levaram a maioria dos residentes europeus a fugir para Bissau. Por essa altura já a FAP tinha começado a transferir aeronaves militares para os territórios africanos envolvidos em conflito. Em fevereiro de 1961, a FAP deslocou 12 F-84 para Luanda, em agosto desse ano chegaram os primeiros helicópteros Alouette II. No verão de 1961, já havia uma expetativa de rebelião na Guiné e Moçambique, a Guiné recebeu dois aviões Dakota e um Auster, mas os ataques do movimento de libertação da Guiné exigiram que se despachasse para ali caças F-84. E havia pedidos para pôr na Guiné F-86, a operação denominou-se “Atlas”. Em agosto de 1961, oito aviões Sabre chegaram à ilha do Sal, este contingente chegou a Bissalanca em 15 de agosto. Os pilotos portugueses do F-86 passaram rotineiramente a permanecer 3 meses na base aérea, com funções de reconhecimento. Chegaram depois dois T-6 desmontados e encaixotados por via marítima. No início de 1962, oito T-6 tinham sido montados e organizados como esquadrilha de apoio de fogo. Na opinião de peritos da FAP, o T-6 representou um bom compromisso entre simplicidade, facilidade de manutenção, durabilidade, carga e flexibilidade para dar apoio de fogo às forças terrestres. Chegaram igualmente Texans e Harvards, que tinham servido na Argélia e foram equipados para fazer fogo e lançar bombas. Mais tarde, a Alemanha Federal forneceu T-6, DO-27 e caças G-91.

Os T-6 eram os aviões considerados menos apropriados para ataques contra bases do PAIGC ou concentrações de guerrilheiros, devido ao ruído dos motores e à sua baixa velocidade, sobretudo. O T-6 precisava de 2 a 3 minutos para metralhar ou lançar uma bomba, ficando exposto a fogo terrestre hostil. Para muitos era considerado um estorvo nas operações. Contudo, tornou-se no avião de ataque a solo da FAP na Guiné e assim permaneceu até ao fim da guerra. A aeronave de patrulha marítima Lockheed P2V-5 Neptune foi introduzido na Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné nessa época, quando o F-86 e o T-6 se estrearam em África. Portugal tinha adquirido uma dúzia de aeronaves oriundas da Holanda em 1960 e a sua implantação foi imediatamente reconhecida como uma prioridade operacional, devido ao seu longo alcance e resistência, transporte de carga pesada e capacidade de monitorar a atividade costeira. Chegara a Bissalanca em 1961, mas os dois Neptunes, tripulações e pessoal de manutenção transferiram-se para o Sal no início de 1962. No ano seguinte, os P2V-5 realizaram operações marítimas e de reconhecimento terrestre sobre a Guiné e ilhas adjacentes procurando cartografar as possíveis rotas de infiltração do movimento insurgente. No entanto, as reparações exigiam longos períodos de inatividade enquanto não chegavam as peças ou os especialistas da base aérea do Montijo. Também estas aeronaves eram obrigadas a regressar ao Montijo após 60 horas de voo para inspeção programada e manutenção. Contra as dificuldades, aquele destacamento que fora criado em 1961 teve que ser dissolvido, e a partir de então um par de aviões P2V-5 e suas tripulações permaneciam em permanente estado de alerto no Montijo, prontos para ajudar as forças portuguesas em Cabo Verde e Guiné, sempre que necessário.

Para as missões de transporte em distâncias médias, a FAP contava com o Dakota, desde 1961 que havia um disponível em Bissalanca. Pelo menos em 1967 e 1968 os aviões Dakota foram também usados para lançar paraquedistas em grandes operações terrestres. As tarefas de observação, ligação e transporte mais leve recaíam originalmente em aviões como os Auster e Broussard, que tiveram passagens relativamente curtas na Guiné até serem substituídos pela DO-27, a partir do final de 1963. A FAP realizou testes com o DO-27, de fabrico alemão, a partir da primavera de 1961 e descobriu que a sua capacidade, resistência e versatilidade eram ideais para o serviço em África. O DO-27-A4 tinha uma autonomia de mais de 6 horas, carregava equipamentos da rádio VHF e HF, incluindo um conjunto ARC-44 que permitia a comunicação de voz com as forças terrestres. Entraram ao serviço entre dezembro de 1961 e janeiro de 1962, estava-lhes destinado uma longa permanência na Guiné entregando cargas, fazendo reconhecimentos, evacuando pessoal doente ou ferido, acompanhando equipas de comando, entre outras missões. Nenhuma outra classe de aviões teve um peso tão simbólico na guerra aérea na Guiné.

Como tem vindo a ser observado, os helicópteros revelaram-se insubstituíveis. O primeiro helicóptero foi adquirido em França, era o Alouette II, três deles foram enviados para Bissalanca e prontamente usados em funções de ligação, logística, evacuação médica, até terem sido suplantados, em 1966, pelos Alouette III. Não levantavam problemas de substituição de peças, como era o caso dos F-86 e o P2V-5, que exigiam manutenção depois de 10 a 15 horas de voo, vivia-se uma situação agravada pela falta de técnicos qualificados.

A falta de peças, equipamentos de manutenção e respetivo pessoal foi sempre um tormento para a FAP na Guiné, mesmo quando chegou o Noratlas e o Fiat G.91, foi sempre uma escassez que acompanhou a presença da FAP durante toda a luta de libertação.

Aeródromo de Nova Lamego, que dispunha de T-6 e Alouette III (Coleção Virgílio Teixeira)
Base aérea e aeródromos do ZACVG
Kaúlza de Arriaga cumprimentando pilotos dos F-86 destacados para a “Operação Atlas” no Montijo (Coleção Conceição e Silva)
Capitão Almeida Brito, um dos pilotos do F-86 envolvidos na “Operação Atlas”. Será anos mais tarde vítima de um míssil Strela, na Guiné (Coleção Conceição e Silva)
Um F-86 à noite na ilha do Sal (Coleção Conceição e Silva)
Os F-86 em Bissalanca, ao lado do T-6 e C-47 (Coleção Lobo Fernandes)
Mapa da Operação Atlas (Matthew M. Hurley)

(continua)

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Notas do editor

Poste anterior de 2 DE DEZEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23839: Notas de leitura (1526): "O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume I: Eclosão e Escalada (1961-1966)", por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2022 (6) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 7 DE DEZEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23852: Notas de leitura (1529): Paparratos e João Pekoff: as criaturas e o criador, J. Pardete Ferreira - Parte IV: Os cafés de estudantes e a crise académica de 1962 em Lisboa (Luís Graça)

Guiné 61/74 - P23858: História de vida (48): sinto-me muito realizada e feliz por ter sido uma simples enfermeira e, durante a guerra, enfermeira paraquedista (Rosa Serra) - Parte I: A minha mãe achava que eu tinha jeito para ser enfermeira


Rosa Serra, em Ponte de Lima,
24 de agosto de 2020.
Foto: António Leitão (2020)


1. Uma boa notícia, uma prenda natalícia: depois de ter superado um problema de saúde, a nossa Rosa Serra parece ter aceite o desafio de pôr no papel as suas memórias como enfermeira e enfermeira paraquedista... O mesmo é dizer, que pode estar em vias de  publicar um livro. Ao telefone disse-me para não fazer grande alarido da coisa... Quando estiver no prelo, daremos mais (boas) notícias... É uma mulher discreta, avessa à publicidade, a Rosa. 

Mão amiga, a do Jaime Silva (ex-alf mil paraquedista, BCP 21, Angola, 1970/72) fez-nos entretanto chegar um excerto dos escritos recentes da Rosa Serra, com a autorização para ser revista e publicado no nosso blogue, o que muito nos sensibiliza.  (Ficaram amigos, estiveram juntos no BCP 21, em Angola.)

Falámos depois ao telefone, eu e a Rosa, que é uma minhota de Vila Nova de Famalicão que vive aqui no Sul, em Paço de Arcos, Oeiras... (A Rosa Serra, membro da nossa Tabanca Grande desde 25/5/2010, foi alf graduada enfermeira paraquedista, tendo passado pelos 3 TO: Guiné 1969-70 / Angola 1970-71 / Moçambique 1973).

História de vida (excertos): sinto-me muito realizada e feliz por ter sido uma simples enfermeira e, durante a guerra, enfermeira paraquedista (Rosa Serra)

Parte I:  A minha mãe achava que eu tinha jeito para ser enfermeira


Muito recentemente, ao sair do Serviço de Urgência para o internamento do Hospital de Cascais, uma enfermeira jovem fez-me as seguintes perguntas: (i) quando resolveu ser enfermeira?;  (ii) nunca se arrependeu por ter escolhido enfermagem?;  (iii) onde trabalhou? (iv) quantos anos exerceu essa profissão?;  e (v) teve alguma desilusão ou desilusões?

Após a minha narrativa dos vários locais onde exerci a minha profissão, logicamente também referi que fui enfermeira paraquedista. A jovem, de olhos abertos de espanto, informou-me:

– O meu marido é militar paraquedista.

Sorri…

Capa do livro de que a Rosa Serra foi coautora e coordenadora,
"Nós, enfermeiras paraquedistas" (Porto, Fronteira do Caos, 2014, 
439 pp. (Prefácio de Adriano Moreira)



– Só conheço paraquedistas velhotes como eu – respondi.

Continuei com as minhas explicações.

– Quando fui para a Escola de enfermagem, e até muito depois disso, ouvi muitas colegas dizerem que foram para a enfermagem por vocação. Várias dessas enfermeiras faziam questão de acrescentar que queriam muito ajudar e cuidar as criancinhas, os velhinhos, os doentinhos e até os pobrezinhos. Ouvi de tudo... ao ponto de me interrogar se eu algum dia seria boa enfermeira.

Diz-me ela:

– Hoje ninguém vem para enfermagem por vocação.

E continuou:

– Nós vamos para a enfermagem porque não entramos em medicina, farmácia ou outro qualquer curso mais de nosso agrado.

Eu respondi:

– Eu também não fui. No meu caso foi por conveniência familiar. Eu fui porque um dia um dia a minha mãe, que eu já tinha reparado andar muito pensativa, disse-me que o dinheiro era pouco para pagar o meu Externato, que era particular, porque não havia liceu na minha Vila. E assim sendo, talvez fosse melhor eu interromper e ir para um curso para que me permitisse, ao fim de 3 anos ter uma profissão, um ordenado e logicamente ser independente monetariamente.

Respondi, à minha mãe, que gostava de ir para a Universidade.

– Que curso gostavas de fazer? – perguntou ela.

– Não sei…

Pegou-me nas mãos e continuou:

– Sabes que eu acho que tinhas jeito para seres enfermeira ... Penso que era bom para ti...

E acrescentou:

– Verás que vais gostar.

Ficou logo ali, definido o meu destino.

Apesar das minhas dificuldades, sobretudo económicas, lá fui aprender a ser enfermeira sem saber muito bem o que me esperava.

Fui para o Porto estudar. Na minha primeira escola, adquiri obrigatoriamente um livro; Técnica de Enfermagem, que era da Escola da Imaculada Conceição (Casa de Saúde da Boavista no Porto) que alguém informou a minha mãe ser uma boa escola, e foi aí que fiz o primeiro ano.

Os dois anos seguintes foram feitos numa outra escola que, passado pouco tempo descobri, que ficava mais económica.

Uma coisa que pesou muito era haver nesta segunda escola, um lar onde residiam as alunas que não eram da cidade do Porto, isso não acontecia com a Escola da Boavista, ficando assim bem mais barato.

Dessa primeira escola, não esqueci os desenhos logo na primeira folha do livro de Técnica de Enfermagem. O primeiro era uma cabeça feminina, com uma touca de enfermeira da época, sobre cabelos curtos e várias setas apontando para os mais diversos pontos da mesma, onde estavam enumeravam as qualidades indispensáveis de uma boa enfermeira: inteligência, memória, conhecimento, espírito de observação autodomínio, reserva.

Um pouco abaixo, mais dois desenhos. Um deles, era um coração (forma humana), com três setinhas apontando para as palavras: compreensão, sensibilidade, bondade.

Do outro lado mais um desenho, duas mãos segurando uma seringa com mais três setas indicando: segurança, desembaraço, leveza.

Estas eram as qualidades indispensáveis a uma boa enfermeira no Ano de 1963. Dessa mesma Escola de Enfermagem.

Com a continuação do tempo, fui interiorizando estes conceitos e aceitei-os como compromisso. Mesmo quando me deparava com determinada tarefa que me custasse fazer, sempre pensava nas setinhas do coração e nunca deixei de as executar e muito menos pedir a alguém que a fizesse por mim, por mais que me custasse ou até mesmo me enfastiasse...



Rosa Serra, ex-alf enf paraquedista
(Guiné, 1969/79; Angola, 1970/71;
Moçambique, 1973)




A minha vocação se calhar só a minha mãe a viu...! O certo é que sempre vivi a minha profissão com gosto, com proximidade daqueles que em determinado momento precisavam de uma enfermeira que se entregasse em plenitude.

A enfermagem, para mim, passou a ser vivida com grande rigor ético e com permanente desafio na aquisição de saberes, para melhor cuidar.

Hoje mais que adulta, penso: é impressionante como sempre me apercebi da mutabilidade dos conceitos, da sua significação ao longo dos tempos, da importância do progresso e da evolução da enfermagem.

É um gosto ver o enriquecimento que, ano após ano, se verifica na formação dos enfermeiros, na perceção da necessidade da existência das especialidades em enfermagem, do avanço científico da mesma. Orgulha-me ver o patamar que atingiu a enfermagem de hoje, e a respeitabilidade que os países estrangeiros manifestam ter pelos Enfermeiros Portugueses.

Em relação a mim, sempre fui movida pelo desejo de um saber abrangente na arte do cuidar em enfermagem.

Assim para fazer frente aos mais variados desempenhos que tive durante quarenta anos, e faze-los de forma responsável e eficaz, apostei na formação contínua durante toda a minha vida profissional.

Ainda pensei fazer uma especialidade, um pequeno grupo de enfermeiras paraquedistas a fizeram, quando estas começaram a surgir. Mas logo percebi que não encaixava na minha personalidade ter sempre o mesmo tipo desempenho e conclui que só serviria para obter mais um título.

Sempre tive uma grande vontade de um saber alargado, para dar resposta às variadas necessidades do ser humano, num período desafinado do seu estado físico ou mental.

Essa simbiose entre um crescendo desejo de experiências e o dinamismo aportado pela minha juventude, foi o motor causador para uma formação variada e contínua.

Nesta caminhada transformadora, tive um desempenho multifacetado e a formação contribuiu muito para um crescimento profissional que, embora despretensioso, foi significativo, permitindo-me para além de aquisição de vários saberes, entender melhor a alma humana e sempre me senti feliz por isso.

Não fui para nenhuma Faculdade na minha juventude, mas completei, bem mais tarde, todo o Liceu (designado hoje como Ensino Secundário).

Quando do Acordo de Bolonha, a enfermagem passou a Curso Superior, já tinha passado quarenta anos e depois de ter iniciado o antigo Curso Geral de Enfermagem, eu regressei à escola para fazer mais um ano, o que fiz na Escola Superior de Enfermagem Francisco Gentil (anexa ao IPO e hoje integreda na ESEL - Escola Superior de Enfermagem de Lisboa) sendo me conferido o grau de licenciada em enfermagem. Sou agora Licenciada em Enfermagem desde 2003, quando ainda eu estava a exercer funções.

Por graça costumo dizer que iniciei o meu Curso de Enfermagem e só o terminei quarenta anos depois.

Também confesso que a obtenção de várias competências, e tão variados desempenhos que tive no contato direto com doentes, proporcionou-me um sentimento de realização muito intenso, e ainda hoje me sinto orgulhosa pelo percurso que tive e, muito, muito feliz, por ter sido uma simples Enfermeira Generalista (sem especialidade). (...)

(Continua)

[Seleção / Revisão e fixação de texto / Negritos / Links / Titulo e subtítulo  / Parênteses retos com notas / LG]

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Nota do editor:


Guiné 61/74 - P23857: Efemérides (378): a crise académica de 1962 que, para muitos estudantes, futuros oficiais milicianos, foi o início da sua tomada de consciência cívica e política

 






Não é referido, certamente por lapso,  que, em 9 de março, se rrealiza em Coimbra o I Encontro Nacional de Estudantes (apesar de proibido), e do qual sai a criação do Secretariado Nacional dos Estudantes Portugueses (de que o Eurico Figueiredo é o líder). Em 10 e 11 de maio a polícia toma de assalto a Associação Académica de Coimbra.

Fonte: Excerto de  PCP - Crise académica 1962 - 40 anos (documento em pdf, três páginas) (com a devida vénia)


1. Há quem fale nos 100 dias que abalaram o regime do Estado Novo. O regime não caiu, nem houve nenhum golpe de Estadou e muito menos revolução....

 Foram "apenas" três meses (de março a junho de 1962) de forte contestação da população universitária (sobretudo em Lisboa e Coimbra mas também no Porto), seguida de brutal repressão. 

Para muitos estudantes foi o início da sua "politização" e militância cívica a favor da liberdade (*). Conheceram a brutalidade da polícia política, da polícia de choque, dos canhões de água com tinta azul e, muitas dezenas, as prisões políticas e os tribunais plenários do regime. Outras dezenas viram as suas carreiras académicas interrompidas... E tudo isso teve consequências, a prazo, na "contaminação pelo vírús subversivo" dos quartéis e depois nos teatros de operações de Angola, Guiné e Moçambique. 

Tudo começou com a proibição das comemorações, nesse ano, do Dia do Estudante. Em Lisboa era reitor o Marcello Caetano, que se demitirá em 5 de abril. Uma atitude de que Salazar não terá gostado...  Para Salazar, tudo não passava de agitação comunista, com o inimigo interno, o Partido Comunista Português (PCP), clandestino, a ser utilizado como "títere" por Moscovo... Diz-se que, em conselho de ministros, ele terá dito: "Temos de dar cabo deles, antes que eles que dêem cabo de nós, sentando-se nestas cadeiras daqui a dez anos"... (Talvez parodiando esta frase, algo premonitória,  vinte e tal depois irá aparecer um provedor de uma conhecida misericórdia a dizer mais ou menos o mesmo, mas em termos ainda mais deliciosos: "É preciso tomar conta dos pobres, antes que os pobres tomem conta de nós"...).

Ora a grande maioria dos estudantes universitários eram oriundos dos meios sociais que apoiavam o regime (classe média e média alta)... A universidade formava as elites e era então ainda muito elitista... O Salazar ( e depois Caetano) arranjou foi uma guerra pemanente, com o movimento estudantil que, em 1962, era constituido por gente que não tinha grande "ideais políticos" (mas outros já militivam em organizações católicas abertas ao espírito do Concílio Vaticano II), como o mosso falecido camarada José Pardete Ferreira) (*), e onde as mulheres começam também já a ter algum protagonismo... 

Outras "crises académicas" , ainda mais graves, como as de 1969 e 1973,  são a prova do divórcio irredutível e irreversível, em relação ao regime, por parte da população jovem que estudava (nos liceus, das capitais de distrito,  e nas universidade de Lisboa, Coimbra e Porto),  divórcio esse agravado pela "eternização" do problema ultramarino... (Eu tinha 14 anos no início da guerra de Angola e logo na altura, em 15 de março de 1961,  tive um estranho pressentimento, ou premonição, de que aquela guerra também ia sobrar para mim; não foi a da Angola, foi a da Guiné, oito anos depois...).

Se é verdade que a PIDE acabou, no fim,  por desmantelar a rede clandestina de estudantes universitários ligados ao PCP e prender os principais "cabecilhas" (caso, por exemplo, de militantes como Eurico Figueiredo ou José Bernardino), o regime acabou  por cavar um fosso em relação  ao movimento estudantil português, o que se vai reflectir, naturalmente, nas três frentes da guerra de África / guerra do Ultramar / guerra cololonial. 

A grande maioria dos nossos leitores não participaram nestes acontecimentos nem terão,  muito provavelmente, ainda hoje, grande informação sobre o que se passou em 1962, e as suas eventuais consequências... Até porque a censura nem sequer deixava que as coisas chegassem aos jornais, à rádio, à televisão...

À distância de 60 anos,  estamos já no domínio da História, razão por que achámos oportuno fazer referência, mesmo que sumária, a esta efeméride (**)... (LG)




Fonte: Guya Accornero - Efervescência Estudantil: Estudantes, acção contenciosa e processo político no final do Estado Novo (1956-1974). Doutoramento em Ciências Sociais. Especialidade de Sociologia Histórica, Lisboa, Universidade de Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 2009. Tese orientada pelo Prof. Doutor Manuel Villaverde Cabral. Tese financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), fundos nacionais do Ministério da Ciência Tecnologia e o Ensino Superior (MCTES), Referência SFRH/BD/23008/2005. 

Disponível em http://hdl.handle.net/10451/321 (Com a devida vénia...)


Efervescência Estudantil - Resumo (Accornero, 2009)

O movimento estudantil, um dos mais activos contra o Estado Novo nas suas últimas décadas, intensificou-se a partir de 1956, quando os estudantes conseguiram bloquear a tentativa do Governo de pôr as associações académicas sob o seu controlo. 

Isso coincidiu com uma conjuntura internacional que provocou profundas consequências na política contenciosa. O XXº Congresso do PCUS [Partido Comunista da União Soviética] com as consequentes crises nos países satélites da União Soviética e com a eclosão do conflito com a China, e o Civil Rights Movements nos Estados Unidos, foram os elementos mais salientes. 

A nível interno, os seus efeitos foram amplificados pela campanha eleitoral do General Humberto Delgado em 1958 e pelo início da guerra colonial em 1961. 

Estes factores contribuíram para a emergência em Portugal de um amplo ciclo de protesto, que concorreu para a politização do sector estudantil e na sua fase final, caracterizada por uma forte repressão, para a radicalização da oposição política, com o aparecimento das primeiras formações maoístas. 

Em 1967 inícia-se um segundo ciclo de protesto, cuja trajectória difusa motiva a definição de “conflitualidade permanente”, impulsionado pela “descompressão política” iniciada por Marcelo Caetano em 1968 e pela contestação estudantil que, sobretudo com o “Maio de ‘68”, estava a eclodir em toda Europa. 

As últimas fases da luta contra o regime foi dominada pelo issue da guerra colonial e por um forte movimento de resistência à incorporação militar. A mobilização e politização estudantil, por seu lado, estendeu-se através um mecanismo de difusão a variados sectores sociais, como o das Forças Armadas, e contribuiu para criar as condições para a mobilização que caracterizou a primeira fase da transição portuguesa, aberta pela Revolução de 25 de Abril 1974. Este ciclo de protesto confluirá portanto no chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC), começando a refluir só depois das eleições de 25 de Abril 1975.

(Reproduzido com a devida vénia...)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 7 de dezembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23852: Notas de leitura (1529): Paparratos e João Pekoff: as criaturas e o criador, J. Pardete Ferreira - Parte IV: Os cafés de estudantes e a crise académica de 1962 em Lisboa (Luís Graça)