sábado, 5 de junho de 2021

Guiné 61/74 - P22256: Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo (António Graça de Abreu) - Parte VIII: Mosteiro de Yuste, Estremadura, Espanha, 2003



Foto nº 1 > Mosteiro de São Jerónimo de Yuste, Estremadura, Espanha



Foto nº 2 > Mosteiro de Yuste, Estremadura, Espanha: leito de morte de Carlos V (1500-1558)



Foto nº 3 > Mosteiro de Yuste, Estremadura, Espanha: 
 Isabel de Portugal (1503-1539), filha de D. Manuel, irmã do nosso D. João III, mãe de Filipe II

Texto  e fotos enviadas em 21/5/2021, pelo António Graça de Abreu  



1. Continuação da série "Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo" (*), da autoria de António Graca de Abreu [, ex-alf mil, CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74.

Escritor e docente universitário, sinólogo (especialista em língua, literatura e história da China); natural do Porto, vive em Cascais; é autor de mais de 20 títulos, entre eles, "Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura" (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, 220 pp); "globetrotter", viajante compulsivo com duas voltas em mundo, em cruzeiros.

É casado com a médica chinesa Hai Yuan, natural de Xangai, e tem dois filhos dessa união, João e Pedro; é membro da nossa Tabanca Grande desde 2007, tem mais de 275 referências no blogue.

 

Mosteiro de Yuste, Estremadura, Espanha, 2003


Primavera de 2003. Subo a encosta por antigos caminhos, entre carvalhos e castanheiros, bosques de zimbro e azinheiras. No jardim, uma velha nogueira deu sombra a Carlos V, amigo de Fernão de Magalhães, monarca das Espanhas, imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

O mosteiro de São Jerónimo, do ano de 1415, jaz hoje alquebrado na Estremadura castelhana, rasgado, construído com pedra da montanha. Aposentos reais, a igreja, um claustro gótico, outro renascentista.

Venho ao encontro do rei-imperador Carlos V, envelhecido, decrépito, a doença, a gota, o bem e mal de viver e governar. O augusto soberano viu morrer a sua Isabel portuguesa, filha de D. Manuel, irmã do nosso D. João III, mãe de Filipe II, tão jovem, tão formosa, tão amada, tão cedo de partida. Ficou o sucessor, Filipe, príncipe para todos os poderes, para todos os reinos, para todas as virtudes.

Neste mosteiro de Yuste, o quarto de Carlos V. Desde há quinhentos anos, panos negros e dourados permanecem suspensos nas paredes frias. Ao fundo, a porta para a igreja e a cama do rei voltada para o altar de Deus, o monarca preparando-se para a última viagem, ao encontro da esposa, Isabel de Portugal.

Simplicidade solene nos espaços da vida e da morte.

Regresso ao jardim. Carlos e Isabel na brisa da tarde. Dois cisnes negros deslizam no lago.

António Graça de Abreu

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 Nota do editor:

Último poste da série > 27 de maio de 2021 > Guiné 61/74 - P22227: Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo (António Graça de Abreu) - Parte VII: Peru, Lima, fevereiro de 2020

Guiné 61/74 - P22255: Os nossos seres, saberes e lazeres (454): Na Sertã, no dia em que aqui recebi a primeira dose da vacina (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Maio de 2021:

Queridos amigos,
Cumpriu-se o destino, na Sertã coube-me receber a primeira dose da vacina e aqui se regressará para a segunda. A Sertã é-me familiar, como aqui se conta, há 20 anos bem vividos. Aproveitou-se para fazer uma romagem de saudade, cirandar pela Sertã e projetar no regresso a ir a locais onde nunca se entrou, é o caso do seminário das missões e o ateliê do pintor Túlio Vitorino, em Cernache do Bonjardim. Mas regressou-se de Pedrógão Grande, as saudades são muitas, visita-se sempre a biblioteca onde há um acervo de alguns milhares de livros em memória de uma filha falecida. Vinte anos em que se assistiram a incêndios devoradores e a natureza a regenerar-se, o coberto vegetal continua assombroso. Aqui vivem-se as agruras da interioridade, felizmente que há gente talentosa que busca recursos para tornar a região um apetecível roteiro turístico, o património natural é exuberante, em vales e fragas, há belas praias fluviais e estão bem organizados os passeios pedestres, e o património histórico não é dispensiendo. Por isso vale a pena continuar a falar da Sertã e das suas redondezas.

Um abraço do
Mário


Na Sertã, no dia em que aqui recebi a primeira dose da vacina (1)

Mário Beja Santos

A minha relação com a Sertã vem de longe, como o brandy e constantino. Com casa rústica numa freguesia de Pedrógão Grande, passeava-me pelas imediações e era inevitável ir espreitar a barragem do Cabril e bisbilhotar o chamado Bairro da EDP, então numa fase ainda de grande degradação. E aconteceu que um dia ali se adquiriu uma vivenda arruinada com vista esplendorosa, com o rio Zêzere ao fundo, o Penedo do Granada, sendo bem visível a foz da Ribeira de Pera, que ali conflui com o Zêzere. Mudam-se os tempos e mudam-se as vontades, 20 anos depois a vivenda mudou de dono, só que os vínculos afetuosos permanecem pelos dois concelhos, o de Pedrógão Grande e o da Sertã, mais de 20 anos entre frondosa vegetação deixa marcas profundas. Ali arranjei médico de família e insiste em manter-me vivo até aos 150 anos, nenhum exame ao interior e ao exterior desta carcaça lhe escapa. E não me surpreendeu o telefonema para comparecer à primeira vacina, nos Bombeiros da Sertã. E disse para os meus botões: aproveita, desfruta e dá a conhecer aos teus confrades algumas belezas da região, pode ser que se sintam atraídos quando se suavizar o confinamento, roteiro turístico não falta, sobretudo no património natural, o Vale do Cabril é coisa única, a biblioteca tem uma vitalidade assombrosa, é indispensável ir a Pedrógão Pequeno e descer à Ponte Filipina, chegado à vila da Sertã há que procurar alguns belos vestígios do passado e percorrer a Alameda dos Carvalhos (onde também pontificam os plátanos), passar pela Ponte Velha ou Ponte Filipina e admirar o recuperado Convento de Santo António, hoje uma admirável instalação hoteleira fruto de uma intervenção imaginativa. E descer ao Jardim da Cerrada, na outra margem da Carvalha, bem agradável passear naquele verde e ver o murmúrio das águas em cascata. Tudo é uma questão de tempo de que dispõe o forasteiro, a Albufeira do Cabril tem panoramas admiráveis e dir-se-á o mesmo das albufeiras da Bouçã e de Castelo de Bode. Em Pedrógão Pequeno, convém acrescentar, aguarda quem dispõe de curiosidade uma descida ao Moinho das Freiras, há ali marcas do passado, um túnel escavado na pedra calcária do vale, veio do tempo em que a Companhia Nacional de Viação e Eletricidade ali projetou, ainda na década de 1910, edificar uma central elétrica; desce junto ao Zêzere para contemplar os maciços rochosos por onde corre o rio, até pode acontecer que passem por ali caiaques ou haja pescadores. Não esquecer as belas praias fluviais da região.

Na segunda vacina falaremos mais detalhadamente do castelo da Sertã, resta pouco, andou séculos arruinado e ouvem-se críticas para a requalificação a que se sujeitou este espaço. Da Ponte Velha ou Ponte Filipina só oiço dizer bem das intervenções recentes. A Ponte foi construída no início do século XVII, tem cerca de 64 metros de comprimento e assenta sobre 6 arcos redondos. Vale a pena vê-lo à distância, é imponente o sistema de reforço composto por talha-mares triangulares. No volume primeiro de As mais belas igrejas de Portugal, 1988, referencia-se a Igreja Matriz da Sertã, de que se falará noutra oportunidade. Mas convém reter: “A atual Matriz, da invocação de São Pedro, eleva-se em privilegiado sítio, alto terreiro miradouro da lindíssima paisagem da vila, sabiamente disposta entre montes florestados e no encontro da Ribeira da Sertã com a de Amioso. Ao redor da igreja o espaço é amplo, florido, debruado com murete convidativo para contemplar o panorama. Mas o próprio exterior da Matriz, sóbria remodelação pós-renascentista, oferece perspetivas admiráveis pelo seu movimento de volumes – corpos acrescentados, telhados a diferentes alturas, ângulos reentrantes, janelas, num jogo arquitetónico de surpreendentes efeitos”.

O tempo escasseia para quem vem à vacina, noutra circunstância se falará de outros pontos de visita, mal de mim se não vos falasse de uma joia arquitetónica que são os paços do concelho da Sertã, projeto de Cassiano Branco, um dos nomes sonantes da arquitetura modernista portuguesa. Trabalhava ele no Mercado de Santarém e já estava enfronhado no projeto dos paços do concelho da Sertã, isto em 1925, mas o edifício só ficou concluído em 1933. O velho edifício fora devorado por um incêndio, escolheu-se um outro local, o Alto do Soalheiro, sonhava-se com uma ampliação urbana, tudo foi preterido para pôr aqui o novo edifício num ponto dominante. O que há nesta obra que traga pasmo e admiração? Elementos do passado dentro de uma exposição simétrica e de uma cobertura que goza de inspiração francesa. Surpreende a dimensão dos alçados, uma escadaria um tanto recuada que faz com que o visitante fique especado com o tamanho e a dimensão dos alçados, das arcadas do andar superior e a luz que não deixa qualquer sombreado naquele interior. A sobriedade é imensa, o que não lhe retira imponência, o edifício foi recentemente intervencionado para dispor de confortos atuais, mas houve o extremo cuidado de não prejudicar a conceção das peças essenciais do genial arquiteto. Convém ao forasteiro, caso goste muito de arquitetura, de pedir previamente ajuda de um guia, será regalado com comentários esclarecedores a tão bela obra.

Posta esta visita, chegou a hora da vacina, a boa disposição está inalterável, à cautela, e porque todos os restaurantes ainda estavam encerrados, voltou-se à Carvalha para despachar o piquenique. E ainda houve tempo para ir a outras paragens, como se deixará exarado neste espaço.

(continua)
Casa brasonada e apalaçada, virá o dia do merecido restauro
Pormenor de uma bela casa apalaçada que aguarda obras
Fachada da Igreja de São Pedro, a Matriz da Sertã
Sertã, entrada para o castelo
Alameda dos Carvalhos
A Ponte Velha cercada de calçada portuguesa
Fachada do edifício camarário concebido por Cassiano Branco
Outro aspeto da fachada
Imagem do envidraçado que proporciona a bela luminosidade da escadaria concebida por Cassiano Branco para a Câmara Municipal
Cadeiras Arte Deco, muito provavelmente dos tempos primeiros da década de 1930
Um dos corredores que percorrem várias direções os gabinetes da Autarquia
A majestosa escadaria, uma amostra da poderosa imaginação de Cassiano Branco na mistura de estilos e na exigência da supremacia de um espaço aéreo que quase esmaga quem pela primeira vez aqui entra
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Nota do editor

Último poste da série de 29 DE MAIO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22233: Os nossos seres, saberes e lazeres (453): A estação de Metro dos Anjos, Maria Keil intemporal, a obra como ela a deixou (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Guiné 61/74 - P22254: O nosso blogue por descritores (3): "Apanhados do clima" (com mais de 20 referências)

 





Alguns membros da FNAC - Fundação Nacional dos Apanhados do Clima (, criada em Jolmete, em meados de 1970, pelos graduados da CCaç 2585 do BCaç 2884, Jolmete, Pelundo e Teixeira Pinto,1969/71):De cima para baixo, da esquerda para a direita: (i) Fur Mil Araújo, Alf Mil Godinho, Fur Mil Gomes; (ii) Fur Mil Gondar, Alf Mil Ferreira, Fur Mil Filipe; (iii)  2º Sgrt Mesquita, Fur Mil Rodrigues e 1º Srgt Vinagre... Cada membro (chamado "organizado" nos estatutos)  tinha um "nome artístico". (Vd. poste P8377 (*).

Foto (e legenda) : © Manuel Resende (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Inaugurámos há duas semanas uma nova série, "O nosso blogue por descritores" (*)... Com mais de 5 mil "descritores", de A a Z, torna-se difícil (se não impossível) aos nossos leitores fazer uma pesquisa exaustiva de um determinado tema ou assunto no nosso blogue que já tem 17 anos de existência e mais de 22 mil e duzentos postes.

O descritor "lavadeiras" (com mais de 4 de dezenas de referências no nosso blogue) inaugurou esta série. Hoje temoa a frase feita "apanhados do clima", Além de uma mini-imagem, o poste é refenciado por:

(i) data;
(ii) número de ordem (cronológica);
(iii) série em que vem inserido;
(iv) título (e subtítulo);
(v) autor(es) (dentro de parênteses, no final) (não aparecendo este campo, o poste é, por defeito, da autoria de um ou mais editores do blogue)

A listagem só não traz o link de cada poste, porque seria muito consumidor de tempo para os editores recuperá-lo. Mas os nossos leitores podem consultar o poste inserindo o seu número na janela do canto superior esquerdo do blogue, antecedido sempre da consoante P, de poste: por exemplo P2272).

A título de curiosidade, refira-que o poste que teve mais visualizações (n=6348) foi o P2272... mas apenas com 2 comentários.

O nosso blogue por descritores (3): apanhados do clima
(que tem mais de 2 dezenas de referências)




4 de junho de 2021 > Guiné 61/74 - P22253: Estórias avulsas (106): o aspirante Carvalho e a nossa (in)sanidade mental (Fernando de Sousa Ribeiro , ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535 / BCAÇ 3880, Zemba e Ponte do Zádi, Angola, 1972/74)


12 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21889: Pequenas histórias dos Mais de Nova Sintra (Carlos Barros, ex-fur mil at art, 2ª C/BART 6520/72, 1972/74) (17): O morcego, a cria, os pelicanos... e os apanhados do clima


10 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21878: Os nossos médicos (91): recordando o sentido do humor do nosso saudoso J. Pardete Ferreira (1941-2021), ex-alf mil médico (CAOP, Teixeira Pinto, e HM 241, Bissau, 1969/71)


29 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15173: O nosso querido mês de férias (10): Eu fui um dos que nunca teve férias...Razão: por ser o "eterno comandante interino"... No máximo, passei oito dias em Bissau a tratar de assuntos oficiais... e a descansar não ficar de todo "apanhado do clima"! (Manuel Vaz, ex-alf mil, CCAÇ 798, Gadamael Porto, 1965/67)


 4 de março de 2015  > Guiné 63/74 - P14320: Inquérito online: resultados finais (n=112): três em cada quatro reconhece que mudou muito, fisica e/ou psicologicamente


 1 de janeiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14105: Manuscrito(s) (Luís Graça) (42): Requiem para um paisano... (à memória do meu infortunado camarada Luciano Severo de Almeida)


16 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14037: Estórias cabralianas (85): uma floresta de árvores de Natal... (Jorge Cabral)


17 de junho de 2014 > Guiné 63/74 - P13300: Histórias da CCAÇ 2533 (Canjambari e Farim, 1969/71) (Luís Nascimento / Joaquim Lessa): Parte XI: (i) a história de um acidente com uma viatura por causa do "enterro do bacalhau"; (ii) sonâmbulos e "apanhados do clima"; e, por fim, (iii) com minas e armadilhas não se brinca(va) (Avelino Pereira, madeirense)


15 de fevereiro de 2013 > Guiné 63/74 - P11097: Álbum fotográfico de Abílio Duarte (fur mil art da CART 2479, mais tarde CART 11/ CCAÇ 11, Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, 1969/70) (Parte III): A nossa messe, no Quartel de Baixo, em Nova Lamego, decorada pelo famoso Pechincha, fur mil op esp e desenhador de profissão


25 de outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10569: (Ex)citações (201): Não me lixem com o Pifas! (Salvador Nogueira)


13 de outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10528: (Ex)citações (200): Pois que viva... o VAT 69! (Tony Borié / Luís Graça)


6 de junho de 2011 > Guiné 63/74 – P8377: Memórias de Jolmete (Manuel Resende) (2): FNAC - Fundação Nacional dos Apanhados do Clima
 

29 de maio de 2011 > Guiné 63/74 - P8346: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (18): Não se brinca com coisas sérias...


8 de julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4658: Vindimas e Vindimados (José Brás) (6): Achamos nós que não nos conhecíamos
 

17 de novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2272: As nossas (in)confidências sobre o Cupelom, Cupilão ou Pilão (Helder Sousa / Luís Graça)


7 de setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1056: Estórias avulsas (1): Mato Cão: um cozinheiro 'apanhado' (Joaquim Mexia Alves)


28 de julho de 2006 > Guiné 63/74 - P1003: Eu, cacimbado, me confesso (João Tunes) (II): tirem-me daqui!


19 de julho de 2006 > Guiné  63/74 - P972: Cacimbados ou apanhados do clima? (Zé Teixeira)


19 de julho de 2006 > Guiné 63/74 - P970: Os efeitos do 'cacimbo' (Joaquim Mexia Alves)
 
17 de julho de 2006 > Guiné 63/74 - P965: 'Cacimbados', 'apanhados do clima'... ou os nossos comportamentos de risco, bravatas, diabruras, loucuras...


13 de março de 2006 > Guiné 63/74 - P605: Estórias cabralianas (6): Sexa o Caco (Baldé) em Missirá...

16 de junho de 2005 > Guiné 63/74 - P59: Esquecer a Guiné...por uma noite! (Luís Graça)
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 6 de junho de 2011 > Guiné 63/74 – P8377: Memórias de Jolmete (Manuel Resende) (2): FNAC - Fundação Nacional dos Apanhados do Clima

(**) Postes anteriores  da série > 

Guiné 61/74 - P22253: Estórias avulsas (106): O Aspirante Carvalho e a nossa (in)sanidade mental (Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535/BCAÇ 3880, Zemba e Ponte do Zádi, Angola, 1972/74)


Angola > Ao centro, o capitão miliciano de infantaria João Manuel de Morais Lamas de Mendonça e Silva, que comandou a CCaç 3535 até à primeira quinzena de janeiro de 1973.  


Foto (e legenda) : © Fernando de Sousa Ribeiro (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem de Fernando de Sousa Ribeiro [ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535 (Zemba e Ponte de Rádi, 1972/74), do BCAÇ 3880; é licenciado em Engenharia Electrotécnica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto; vive no Porto; está reformado; é membro da nossa Tabanca Grande desde 11/11/2018, sentando à nossa sombra do nosso poilão no lugar n.º 780; tem 2 dezenas de referências no blogue.]
 
Date: terça, 1/06/2021 à(s) 18:22
Subject: Mais um texto meu (o último) (*)
 

Caro Luís,

Tenho mais um texto a partilhar contigo, e que poderás publicar no teu blogue se quiseres, relativo a um aspirante que conheci em Angola e que era doente mental. O texto não faz parte do meu livro, porque eu não tenho qualquer intervenção na história. O meu estatuto foi unicamente de observador. Posso, contudo, assegurar-te que os casos narrados no texto se passaram tal como os descrevo, nomeadamente o incidente com a granada de mão. A versão do incidente que o próprio agressor pessoalmente me contou é coincidente, quase palavra por palavra, com a versão que a vítima me tinha contado antes. Garanto, por isso, que o incidente se passou tal como o descrevo. 

Eu não tenho em minha posse qualquer fotografia do aspirante, nem sei onde poderei encontrar uma. Nesta situação, só posso descrever-to, dizendo que ele era um indivíduo relativamente baixo e entroncado e que usava óculos, uns óculos bastante redondos, que apropriadamente lhe davam um aspeto um tanto ou quanto alucinado.

Um abraço

Fernando de Sousa Ribeiro, 
ex-alferes miliciano, 
CCaç. 3535 / BCaç 3880, Angola 1972-74


2. Estórias avulsas > O Aspirane

No meu tempo de tropa, os muitos capitães milicianos que tiveram a responsabilidade de comandar companhias operacionais na guerra colonial eram habitualmente selecionados para esse posto em função da idade. Seguia para capitão, e não apenas para alferes, quem estivesse indicado para vir a ser oficial miliciano com uma especialidade operacional e tivesse uma idade superior a um determinado limite. Não me lembro ao certo de qual era esse limite, mas julgo que devia ser à volta de 23 ou 24 anos. Olhe-se para os jovens que agora têm 23 ou 24 anos, repare-se nas criançolas que quase todos eles ainda são e compare-se com as brutais responsabilidades que foram exigidas aos capitães milicianos na guerra. 

Depois de frequentarem o COM (Curso de Oficiais Milicianos) em Mafra, tal e qual como acontecia com os militares que iriam ser alferes milicianos de Infantaria, os futuros capitães milicianos frequentavam o chamado CCC (Curso de Comandantes de Companhia). 

Eu não estou em condições de descrever em que é que consistia o CCC mas calculo que os futuros capitães teriam que aprender a lidar com as diversas questões relacionadas com o comando de uma companhia, nas quais se incluiam as questões operacionais, administrativas, contabilísticas, logísticas, disciplinares, etc. 

No âmbito do CCC e em jeito de estágio, já com o posto de alferes, os futuros capitães milicianos eram enviados para África por cerca de quatro meses, para que, integrados numa companhia real, pudessem aprender como é que as coisas se faziam na prática. Na minha própria companhia, a Companhia de Caçadores 3535, em Zemba, esteve durante algum tempo um destes alferes, que tinha ido para lá estagiar junto do capitão Lamas da Silva, que era então o comandante da mesma. O próprio Lamas da Silva já tinha tido um estágio deste tipo, antes de se tornar capitão miliciano. O estágio do Lamas deve ter acontecido no ano de 1971 e ocorreu na cidade do Luso (agora chamada Luena), no leste de Angola. 

Quando o Lamas da Silva (Foto n.º 1, acima) chegou ao Luso para o seu estágio, estava lá colocado um aspirante a oficial miliciano que sofria de sérias perturbações mentais. Era o aspirante Carvalho. Nalgumas unidades chamavam-lhe Meireles, mas Carvalho é que era o seu último apelido. Este aspirante, porém, nunca assinava Carvalho com todas as letras; sempre e sistematicamente assinava Carvalho sem V! Até no bilhete de identidade ele tinha assinado Carvalho sem V… 

Enquanto esteve no Luso, este aspirante fez diversas tropelias, algumas inocentes, mas outras perigosas. Por exemplo, uma noite ele foi visto a correr completamente nu pelas ruas da cidade, com a malta atrás dele para o agarrar! 

Este indivíduo mantinha-se no posto de aspirante sem ser promovido a alferes, por causa das asneiras que ia fazendo e das sucessivas punições que estas lhe iam valendo. Ele não tinha um comportamento que lhe permitisse ser promovido. Na verdade, ele nem aspirante deveria ser. A sua doença mental era tal, que ele deveria ter sido isentado de todo o serviço militar e submetido a um tratamento psiquiátrico em condições. Mas não foi isso o que lhe fizeram. Limitaram-se a passá-lo aos auxiliares. 

De vez em quando, ele era enviado para o Serviço de Psiquiatria do Hospital Militar de Luanda, onde ficava internado. O Serviço de Psiquiatria era uma coisa verdadeiramente tenebrosa. Nem os campos de concentração nazis conseguiam ser piores do que aquilo. O Serviço ficava numas instalações situadas na zona da Samba, longe do centro da cidade. Estas instalações eram constituidas por alguns pavilhões muito próximos uns dos outros e estavam rodeadas por muros altíssimos e coroados de arame farpado. Lá dentro, era impossível estabelecer todo e qualquer contacto com o mundo exterior, a não ser que alguém abrisse o portão, a única ocasião em que os doentes lá internados poderiam ver uma nesga do largo fronteiro às instalações. De resto, o isolamento do mundo para quem estava internado era total. Lá dentro, não se via outra coisa que não fossem muros e paredes, nas quais se roçavam os doentes de olhar perdido, encharcados em drogas. Estar internado em tais condições implicava ficar doido varrido para o resto da vida. 

No entanto, o aspirante Carvalho não se deixava amarfanhar por aquilo e, por mais sedativos que lhe dessem e por mais tratamentos que lhe fizessem, ele conseguia sempre fugir dali para fora. Como fugia só com a roupa que trazia no corpo e sem dinheiro, acabava depois por ser encontrado a dormir na rua... 

O incidente mais grave que o aspirante protagonizou no Luso envolveu o então alferes Lamas da Silva. Por razões que desconheço ou sem razão alguma, o aspirante ganhou um ódio de morte a um certo sargento que estava lá no Luso. Uma noite, depois de jantar, enquanto o resto do pessoal que estava na messe de oficiais ia conversando e bebendo as suas cervejas e os seus whiskies, o aspirante levantou-se de repente e afirmou: 

— Vou matar o filho da puta do sargento Fulano. 

Foi ao seu quarto, saiu de lá com uma G3 nas mãos e dirigiu-se à messe de sargentos. Logo se gerou uma enorme confusão, com o pessoal a procurar demovê-lo dos seus intentos, mas a medo, porque aquele maluco estava armado. No meio da confusão, o Lamas da Silva conseguiu arrancar a arma das mãos dele. 

O incidente parecia ter terminado desta forma, mas não terminou. Quando foi para a cama, o Lamas levou consigo a espingarda do aspirante, colocou-a debaixo do travesseiro e deitou-se. 

A dado momento, o aspirante apareceu à porta do quarto do Lamas com uma granada na mão, dizendo: 

— Dá-me a espingarda ou atiro-te a granada. 

— Não dou — respondeu o Lamas da Silva. 

— Dá-me a espingarda ou atiro-te a granada — repetiu o aspirante.

 — Não dou. 

— Dá-me a espingarda ou atiro-te a granada. 

— Já disse que não dou!... 

O aspirante lançou a granada para dentro do quarto do Lamas da Silva.  Este só teve tempo de saltar para debaixo da cama e proteger-se o melhor possível, antes de a granada explodir. Se a granada fosse defensiva, daquelas que espalham estilhaços de ferro quando rebentam, o Lamas não teria saído dali com vida. 

Mas a granada era ofensiva. Não espalhava estilhaços de ferro, mas tinha um grande poder explosivo. Ao rebentar, a granada destruiu o recheio do quarto e o Lamas da Silva ficou ferido por estilhaços. Foi evacuado e ficou internado no hospital. Mesmo quando, mais tarde, comandou a companhia 3535, o Lamas ainda tinha no corpo alguns estilhaços, que os  médicos não tinham podido tirar-lhe. Ele valeu-se disso para conseguir sair definitivamente de Zemba e abandonar o comando da companhia. 

Um dia, quando o capitão Lamas da Silva ainda estava em Zemba, quem foi que desembarcou lá, chegado numa coluna vinda de Santa Eulália, a fim de cumprir uma pena de prisão de um mês? O aspirante Carvalho! 

Quando o viu, o Lamas da Silva ficou branco como a cal da parede. 

— Tu aqui?... — balbuciou o Lamas, espantado. 

— É a vida! — respondeu o aspirante, encolhendo os ombros. 

E nunca mais se falaram. Mais do que isso, até. Não só não se falaram, como nem sequer se cruzaram mais. Se o Lamas da Silva ia para um lado, o aspirante ia para outro e vice-versa. O aspirante tinha ido para Zemba cumprir uma pena de um mês de prisão por causa de um incidente que ele tinha provocado em Santa Eulália, onde estivera colocado ultimamente. 

Uma noite, encontrando-se ele de serviço como oficial de dia ao Comando de Agrupamento 3952, a que então pertencia, o aspirante abandonou o seu posto e foi para a sanzala, onde andou aos tiros com a pistola de serviço. Felizmente não acertou em ninguém. O coronel de Infantaria Carlos Lacerda, que com o posto de major foi segundo-comandante do Batalhão de Caçadores 3880. Como não podia deixar de ser, quando chegou a Zemba, o aspirante foi apresentar-se ao comandante da unidade, que naquele momento era o major Carlos Lacerda, porque o tenente-coronel estava de férias. O major, ao observar os papéis que o aspirante tinha trazido, comentou: 

— Você tem aqui um currículo impressionante! São porradas e mais porradas... E agora vem aqui cumprir mais um mês de prisão... Pois olhe, a única prisão que temos aqui em Zemba é uma coisa que há ali num torreão. Mas aquilo não tem condições nenhumas, não é prisão nem é nada. Este quartel aqui em Zemba é que é todo ele uma prisão, isso sim! Isto é um autêntico campo de concentração. Até eu, que não cometi crime nenhum, estou aqui preso. Se eu quiser sair daqui, só posso ir com uma escolta. Portanto, considere-se preso e ande por aí... Mas veja lá como é que se comporta! Ao mais pequeno incidente, eu abato-o, ouviu? Abato-o! 

— O meu major abate-me?! — admirou-se o aspirante. 

— Abato-o, já disse! 

— Ó meu major, se isto aqui em Zemba é assim à Texas, então o melhor é irmos os dois ali para o meio da parada, para ver quem é que dispara primeiro... 

— O quê? Você não se assustou com o que eu lhe disse? — perguntou o major, surpreendido com a reação do aspirante. 

— Eu não — respondeu este. 

— Não teve medo? A sério? 

— A sério. 

— Eh, pá! — exclamou o major. — Você é dos meus! É de gajos assim que eu gosto! Gajos de tomates, sem medo... Acho que nos vamos dar bem. Venha daí beber um whisky. 

E assim nasceu uma grande amizade entre o major Lacerda e o aspirante Carvalho. Como poderão confirmar todos quantos estiveram em Zemba nessa altura, o aspirante nunca causou qualquer problema, fosse de que ordem fosse, enquanto lá esteve. Quem o visse em Zemba, diria que ele era um indivíduo perfeitamente normal, alegre e bem disposto e que se dava bem com toda a gente (menos com o Lamas, claro). Fartou-se de jogar matraquilhos com a malta. 

— Aqui em Zemba é que me sinto bem — confessou ele uma vez. — Sinto-me tão bem, que até já deixei de tomar os medicamentos para a cachimónia. Não sinto falta nenhuma deles. 

Quando terminou a pena de prisão, o aspirante, em vez de voltar para Santa Eulália, foi transferido para o Batalhão de Artilharia 3860, sediado na Damba, a cerca de 100 km a sul de Maquela do Zombo. Foi a sorte dele, e já vamos ver porquê. Na Damba, as condições mentais do aspirante voltaram a deteriorar-se. Os incidentes que ele provocava eram cada mais frequentes e cada vez mais graves. O comandante do batalhão da Damba já estava pelos cabelos, já não podia aturá-lo mais. O aspirante arriscava-se a apanhar mais uma punição de um momento para o outro. 

Um dia, chegou à Damba a notícia de que tinha mudado para Maquela do Zombo um tal Batalhão de Caçadores 3880... Logo o aspirante pediu licença ao comandante para integrar a próxima coluna que se deslocasse a Maquela, para fazer uma visita ao seu amigalhaço Lacerda. Talvez para se ver livre dele por umas horas, o comandante deu-lhe autorização e o aspirante lá foi. Quando voltou à Damba, o aspirante vinha mais bem disposto e passou a comportar-se melhor. A visita ao major Lacerda tinha-lhe feito bem. 

Então o comandante da Damba passou a ter o seguinte procedimento para com o aspirante: sempre que este começasse a fazer muitas asneiras, era metido numa viatura e levado para Maquela. Mais tarde, quando ficasse mais calmo, voltava para a Damba. 

E assim se passaram alguns meses, sem que o aspirante voltasse a sofrer qualquer punição. Por volta de janeiro de 1974, o batalhão da Damba chegou ao fim da sua comissão militar e o aspirante Carvalho (ou Meireles, como era chamado na Damba) regressou finalmente à Metrópole, juntamente com o batalhão. 

Ao todo, o aspirante fez cerca de quatro anos de comissão. E nunca foi promovido a alferes; ficou aspirante até ao fim. (**)

 [Tíitulo do poste,  da resposnsabilidade do editor: LG ]
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Notas do editor:

Guiné 61/74 - P22252: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (55): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Maio de 2021:

Queridos amigos,
Trata-se de um período que deixou recordações muito desagradáveis, estamos a falar da quadra natalícia e tudo vai culminar com o amanhecer de 1 de janeiro de 1970 em que me caiu redondo nos braços Uam Sambu atingido por três tiros que o deixaram na agonia, um estúpido acidente. Aqui se fala de andanças mil, um pelotão retalhado em trabalhos de recoveiro, de entregas ao domicílio, patrulhamentos aberrantes e operações com guia perdido que pôs um forte contingente a percorrer as matas, por caminhos incertos, longe do objetivo escolhido. Annette tudo quer saber, é muito questionadora, e a memória, meu Deus, registou muita coisa, e parece estar dotada daquela rara felicidade que permite remeter para o esquecimento absoluto as coisas mais amargas. Adiante!

Um abraço do
Mário


Rua do Eclipse (55): A funda que arremessa para o fundo da memória

Mário Beja Santos

Annette, ma femme extraordinaire, femme unique, mon avenir, perdoa-me o laconismo dos últimos dias, breves telefonemas, estou a ver pontos, a preparar exames, o Concurso Europeu do Jovem Consumidor é uma consumição de tempo e energia, há depois os artigos das minhas colaborações, o dilúvio de correspondência da Françoise Mandroux, a nossa excelente secretária de apoio, é o expediente que tem a ver com a Associação Europeia dos Consumidores, e não se pode demorar a resposta, reencaminhar pedidos de informação para uma série de organizações em diferentes países. Suspiro por estar ao pé de ti, e não escondo a felicidade de te ver cada vez mais exigente com o pedido de elementos sobre este fim de ano de 1969. Estou dominado por sentimentos contraditórios, foram tempos que vivi com insatisfação, estou exausto, deprimo, encolerizo-me, é insuportável a variedade de tarefas, a generalidade delas tem pouco risco, há que confessar, nesse tempo ainda não há minas nas estradas dos Nhabijões, estacionar na ponte do rio Undunduma, é um tremendo desconforto, colaborámos nas melhorias, e suspirávamos quando amanhecia, mais uma noite sem o pesadelo de uma flagelação. Tens aí os papéis com o rol das diferentes nomadizações. Um tanto esporadicamente, é certo, participámos em operações, agora não estou a falar de colunas de abastecimento ao Xitole ou acompanhamento de materiais provindos ou destinados ao porto do Xime. Confesso-te que são muitas as saudades do Cuor, mas com aquelas andanças já quase esqueci que ao anoitecer fazíamos a lista dos que permaneciam em vigilância, com os petromaxes ao fundo, as rondas de madrugada, as conversas com Lânsana Soncó, o gralhar das crianças, as conversas avulsas com homens e mulheres que vão para as tarefas agrícolas. Gosto dos meus dois camaradas com quem vivo num quarto de quatro camas, há sempre uma cama disponível para quem chega de surpresa ou aqui pernoita para no dia seguinte apanhar um avião em Bafatá. Registei numa carta que tens aí os comentários desses dois camaradas, de nome Magalhães Moreira e Abel Rodrigues, o Magalhães foi direito ao assunto quando eu ligava o gira-discos para ouvirem trechos de óperas: “Pá, aquela gaja que canta italiano e que parece que está a desfalecer, ainda podes ouvir um bocadinho alto, não sei o que ela canta, mas acho bonito. Mas aquela outra gaja está mais de 20 minutos aos berros e que até consegue cantar mais alto do que a música, por favor, ouve-a quando estiveres aqui sozinho, aquilo arrepia e até tira o sono”. O meu estimado Magalhães Moreira, dito por outras palavras, gostava daquele trecho de La Bohème, de Puccini, na voz do soprano Renata Scotto, e abominava o final da ópera Salomé, de Richard Strauss, cantada pela prodigiosa Inga Borkh. Faço amizades, aprecio imenso o novo médico, Vidal Saraiva. Tive há dias a alegria de ser visitado por um civil do Cuor, Braima Mané. Quando cheguei a Missirá dei com um homem com um braço tolhido, explicaram-me que na grande flagelação de 1966, um estilhaço mobilizara-lhe aquele braço direito, o David Payne foi impecável, enviou ao Hospital de Bissau uma carta onde ao pormenor explicava o sucedido. E tudo correu bem, o braço ganhou vida, ali estava ele diante de mim a gesticular com os dois braços, a pedir-me cinco escudos para comprar arroz, apareceu-me todo sujo e barrento, anda a fazer uma morança no Bambadincazinho, não quer viver em Finete onde o irmão mais velho lhe engravidou a mulher e depois escorraçou-o. Prometi ao Braima que nos tempos mortos alguns dos nossos homens seguramente o irão ajudar.

Annette adorée, sei que tu queres saber muito mais sobre as chamadas atividades operacionais, aquelas que podem meter tiroteio, a explosão de granadas, sinistros. Num desses dias de dezembro, não sei precisar qual, o nosso pelotão com o outro está acantonado em Fá fizemos um patrulhamento ao nascer do dia àquela bolanha de Mero, nós patrulhando Santa Helena, Fá de Baixo e entrando, quase com intimidação na tabanca de Mero, onde claramente não somos bem-vindos, no outro lado do rio Geba está o Alves Correia, de Missirá, na expetativa de apanhar gente que queria escapar devido à nossa presença, entretanto o pelotão de Fá avança para o outro lado da bolanha de Mero, resultado zero, se tinha lá estado gente afeta ao PAIGC ou se dissimulara ou escondera ou já tinha partido. Recordo com dificuldade que quando regressei a Bambadinca, com as marcas das lamas e dos mosquitos da região de Fá, fui chamado ao oficial de operações, tratava-se da operação que enviei o relatório, intitulava-se Punhal Resistente, eu sei que tu te sentes confusa com esta terminologia, não podes imaginar os nomes que considerarás inacreditáveis e que tinham estas operações. Segundo este major de operações, eu iria integrado numa operação que visava chegar a uma base de guerrilha numa região não muito longe do Xime chamada Burontoni, ali perto, em Baio, talvez houvesse uma outra barraca com população. Resumidamente, saímos do Xime com os primeiros alvores do dia, sempre fora da estrada Xime – Ponta do Inglês, iríamos encontrar outra força amiga num local chamado Gundaguê Futa-Fula, seria deste ponto que nos encaminharíamos para Baio e Burontoni. O guia mostrou-se perdido, há gente entre nós que se apercebe que estamos a caminhar não para o Burontoni, mas para a Ponta do Inglês, a avioneta lá do alto ou não nos vê ou não nos pode dar indicações, mas segue-nos com insistência, é o suficiente para começarmos a ouvir fogo de morteiro, caminhamos horas a fio, e quando anoitece o guia confessa que está completamente desorientado, justifica-se com o capim alto. E ali ficamos de noite, a enregelar e a ser perturbados pelas formigas. A via-sacra recomeçou ao amanhecer, havia já quem ameaçasse de morte o guia, pela hora do almoço quem ia na avioneta compadeceu-se do nosso vaivém atormentado, mandou retirar, regressamos entorpecidos depois daquela andança sem parar, umas vezes perto do Geba outras vezes perto do Corubal, seguramente que aquela avioneta ajudou à festa com tanta insistência, quem estava no Baio e Burontoni não se poupou a expelir morteiradas pelas proximidades, felizmente sem qualquer consequência para nós. Os meus soldados detestam esta região, na forçada paragem noturna, enquanto repartia a minha ração de combate com o bazuqueiro Mamadu Djau, natural de Amedalai, ele falou-me da morte de Mário Adulai Camará, um bazuqueiro que em 1977 andou ali a combater lançando fogo da bolanha para dentro da mata, foi combate encarniçado, do lado do Burontoni respondiam com fogo de morteiro 82, ele foi mortalmente atingido.

E para tua surpresa, meu adorado amor, começaram os preparativos do Natal, vamos passar o dia de Natal e os dias seguintes na ponte de Undunduma, quem veio de férias até 15 de dezembro obriguei a trazer-me iguarias natalícias, é certo que em pequenas quantidades, mas iremos ter na ponte de Undunduma bolo rei, broas castelares e de milho, coscorões e rabanadas. Depois vou contar-te o que se passou nesse Natal, que não se pôde igualar ao Natal mágico de 1968, que me continua a inebriar até aos dias de hoje.

(continua)
25 de dezembro de 1969, Ponte do rio Undunduma, entre Bambadinca e Amedalai, o nosso dia de Natal feito de comunhão de amizade, mas as memórias do ano anterior revelaram-se inesquecíveis
Pormenor de abrigo na ponte do Rio Undunduma, uma imagem vale por mil palavras, imagem do nosso blogue, não foram poucos os sacrificados que aqui viveram em ligeiro purgatório
Fachada de Notre-Dame de la Chapelle, entre o Grand e o Petit Sablon
A opulenta nave central, carregada de elementos barrocos, a sobrepor-se ao gótico
Pormenor do interior de Notre-Dame de la Chapelle
Uma imagem do interior da Galeria Bortier, perto da Gare Central, Bruxelas
É inevitável, uma visita à Feira da Ladra de Bruxelas, há sempre o sonho de encontrar uma preciosidade, um livro que se procura há muito e que se compra por 1€, é frequente ver-se aqui à venda porcelana da Vista Alegre ou Cerâmica de Alcobaça, alguém que regressou e entregou a um feirante árabe um recheio que não quer levar para Portugal.
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Nota do editor

Último poste da série de 28 DE MAIO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22231: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (54): A funda que arremessa para o fundo da memória