segunda-feira, 31 de maio de 2021

Guiné 61/74 - P22242: Notas de leitura (1359): "Impérios ao Sol, a luta pelo domínio de África”, por Lawrence James; Edições Saída de Emergência, 2018 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Agosto de 2018:

Queridos amigos,
Na trajetória desta recensão ouvir-se-á falar na supremacia branca e nas doutrinas da inferioridade negra, no exato momento em que certas potências coloniais vão recrutar em África forças militares que eram consideradas destemidas e ferozes, serão muito úteis nas guerras mundiais que se seguirão. África foi um teatro de guerra e um reservatório de combatentes. O autor lembra-nos que pouco antes do início do conflito Londres e Berlim caminhavam para um acordo para retalhar Angola e Moçambique a seu favor. A I Guerra Mundial fez ascender o nacionalismo, o Egito tornou-se no farol das independências. No prelúdio da II Guerra Mundial, aspirava-se a novos impérios, Mussolini e Franco foram bons exemplos. As correntes a favor da independência foram minoritárias até à II Guerra Mundial, a partir de 1945, ninguém ignorava que se tinham levantado novos ventos.
Tudo começara em 1941, na Carta do Atlântico Roosevelt deixava bem claro que os velhos impérios iriam ter curta vida.

Um abraço do
Mário


“Impérios ao Sol, A Luta pelo Domínio de África”, por Lawrence James (3)

Beja Santos

“Impérios ao Sol, a luta pelo domínio de África”, por Lawrence James, Edições Saída de Emergência, 2018, põe em imenso ecrã as ambiguidades deste conceito de progresso e de missão civilizadora e de ocupação que se forjou a partir de 1830, aproximadamente; desvela uma luta sem quartel para tomar posse de domínios por todo o continente, entre 1882 e 1918, no Egito e no Sudão, na África Austral, no Congo, em combate religioso; assistimos à ascensão dos nacionalismos, a presença de contingentes africanos em duas guerras mundiais para medir as consequências do que se seguiu, aproveitando a boleia da Guerra Fria; e de 1945 a 1990 o continente africano foi mudando de look, todos os povos se encaminharam para a independência; e assim chegamos aos últimos dias da África branca.

O africano, no momento exato em que se consolidavam os impérios europeus, ocupava um escalão inferior nos conceitos raciais. Inventaram-se as mais estrambóticas “doutrinas” para justificar estas considerações sobre o indígena ou autóctone: imperfeições genéticas, indolência, superstição, canibalismo, até a promiscuidade sexual. Serão postas em prática pseudodoutrinas antropológicas, medição da caixa craniana e das linhas do rosto, por exemplo. Depois, veio o assombro pelas manifestações da arte: estátuas, placas de bronze, máscaras, ourivesaria. Não chegou para demover o racismo, continuou-se a justificar o corte de mãos e de narizes e o chicote.

Retenha-se que estamos a caminho do nacionalismo chauvinista, instaurara-se a supremacia branca e a paranoia da pureza racial. O que os colonialistas admiravam era poder usar a ferocidade de africanos nas tropas. Em 1912, a França alargou o recrutamento militar obrigatório à Argélia e à África Ocidental como primeiro passo para a criação de um exército africano para servir na Europa.

A questão sexual também será motivo de estudos, muitos artistas sentir-se-ão atraídos pelos temas do harém, das odaliscas, as paixões românticas. Em contrapartida, hábitos e influências de origem europeia ir-se-ão difundindo por toda a África, os seus mediadores serão os membros da classe média negra da África do Sul e o funcionalismo africano.

África e as suas riquezas não foram a questão central que levou à eclosão da I Guerra Mundial, os Impérios Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia) e os Aliados (Grã-Bretanha, França e Rússia) disputavam influências mundiais, precisavam de cereais, de petróleo, em primeiro lugar. E precisavam de gente para combater, que foram igualmente buscar a África, num cenário de guerra total. A Grã-Bretanha, a França e a Alemanha recrutaram mais de dois milhões de africanos, queriam reforçar os seus exércitos na Frente Oriental e no Próximo Oriente. Senegaleses e argelinos combateram em Gallipoli, milhares de fellahin egípcios foram recrutados para defender as bases e linhas de comunicações britânicas. África foi um teatro de guerra, a Alemanha estava numa posição fragilíssima, não podia contar com a sua Marinha de guerra, as parcelas coloniais estavam entregues à sua sorte e em 1916, os Camarões, a Togolândia e o Sudoeste Africano estavam em poder dos Aliados. O que restava do Exército Alemão nos Camarões retirou-se para a pequena colónia espanhola do Rio Muni. O autor recorda que nos meses que antecederam a deflagração da guerra os governos britânicos e alemão haviam discutido entre si a repartição das colónias portuguesas.

As campanhas em África foram bem planeadas. As forças alemãs opuseram uma forte resistência em todas as suas colónias, distinguiu-se na África Oriental o General Paul von Lettow-Vorbeck cujas colunas invadiram Moçambique e a Rodésia do Norte.

E não se pode iludir que a guerra no Norte de África e na África Ocidental estava imbuída de uma forte componente ideológica, guerra religiosa, o forte sentimento nacional egípcio, a manipulação de árabes contra turcos. Com tanta participação numa guerra mundial que não lhes pertencia, foi fermentando o nacionalismo, recorde-se que no tempo da guerra entravam em propulsão o comunismo, o fascismo e o nazismo, as democracias parlamentares apareciam desacreditadas. Hitler não sonhava com África, limitou-se a examinar o projeto que podia levar à expulsão de todos os judeus da Europa para Madagáscar; Mussolini queria um império à porta, a Líbia, a Abissínia e a Somália e o comunismo soviético encarava o africano como um potencial revolucionário. Estas novas ideologias foram invadindo uma África que possuía uma nova cartografia depois do confisco das colónias alemãs.

O Egito apareceu na vanguarda da independência, encontrou pela frente a intransigência britânica. Só que o exemplo do Egito foi uma inspiração para os nacionalistas indianos. Apareceram de forma incipiente movimentos nacionalistas em Marrocos e na Argélia, o Islão era um aliado desses movimentos. Os senegaleses começaram a manifestar-se, o movimento pela independência encontrou figuras de proa em George Padmore, natural da Trindade, Jomo Kenyatta e mais tarde Nkrumah (Costa do Ouro), Julius Nyerere (Tanganica), Lamine Senghor (Senegal), Kenneth Kaunda (Rodésia do Norte), Nnamdi Azikiwe (Nigéria) e Hastings Banda (Niassalândia), todos eles educados em missões. O embate foi inevitável, as forças imperiais sabiam que tudo mudara, estes movimentos eram minoritários, a independência total parecia distante. Só que uma nova Guerra Mundial acelerou as mentalidades, o processo imperial entretanto estava a viver más experiências. Primeiro a Espanha, perdera praticamente todo o seu império, lançou-se numa atividade colonial em Marrocos, em 1904 Espanha e França acordaram secretamente em partilhar Marrocos, com os franceses a ganhar. 

É aqui que se vai estrear Francisco Franco, daqui partirá logo no início da guerra civil de Espanha, em 1936. É bem interessante o capítulo que Lawrence James consagra a esta força marroquina e a estes oficiais devotos e reacionários que ficarão à espreita de uma oportunidade para entrarem em guerra com os republicanos. Franco sonhava com um império colonial. “Em 1940, solicitou aos alemães que lhe cedessem a Córsega, a Tunísia, o Djibuti e as bases navais de Toulon, Ajaccio e Mers-el-Kébir, na costa argelina, planeando invadir o Sudão e a Somalilândia britânica”. Pretensões que deixaram Hitler indiferente, tais como as de Mussolini, que pretendia anexar o Quénia, o Egito, a Nigéria e a Libéria. Não menos interessante é o capítulo que o autor dedica a África das vésperas da guerra. E assim chegamos a uma guerra que quando findou em 1945, deixara os africanos numa expetativa de liberdade, tinham andado a combater a favor da liberdade dos europeus e da sua independência, e em prol dos valores democráticos, queriam o mesmo para si. E vão tê-lo.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 24 DE MAIO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22221: Notas de leitura (1358): "Impérios ao Sol, a luta pelo domínio de África”, por Lawrence James; Edições Saída de Emergência, 2018 (2) (Mário Beja Santos)

4 comentários:

antonio graça de abreu disse...

Diz o Mário Beja Santos, a concluir: "Os africanos numa expectativa de liberdade, tinham andado a combater a favor da liberdade dos europeus e da sua independência, e em prol dos valores democráticos, queriam o mesmo para si. E vão tê-lo."
A liberdade e independência, os valores democráticos. Acho que sim, acho que os vão ter, um dia, com todo o respeito, talvez daqui a alguns séculos. O jeito com que o Mário Beja Santos desmonta e monta outra vez obras datadas, eivadas de consciência europeia de culpa, que explicam tudo e não explicam nada.

Abraço,

António Graça de Abreu

Tabanca Grande Luís Graça disse...

António, hoje o Mário faz anos... Podes ao menos mandar-lhe os teus votos de parabéns e de saúde, para ele e para todos nós, que fazemos todos os dias o blogue da Tabanca Grande.

Mantenhas, amigo e camarada. Luís

antonio graça de abreu disse...

Mando. com certeza, os votos de muita saúde ao Mário Beja Santos, e que conte muitos e bons anos. Acho que já me está a passar uma demasiada fixação que conduz a lado nenhum. Tenho idade para ter juízo, o MBS é meu camarada da Guiné. Mas posso discordar, apenas isso.

Abraço,

António Graça de Abreu

Antº Rosinha disse...

Gosto de ler estas coisas de Beja Santos para poder comparar por onde nós andávamos "orgulhosamente sós", e os outros orgulhosamente acompanhados.

...("Mussolini queria um império à porta, a Líbia, a Abissínia e a Somália e o comunismo soviético encarava o africano como um potencial revolucionário").

...(Franco sonhava com um império colonial. “Em 1940, solicitou aos alemães que lhe cedessem a Córsega, a Tunísia, o Djibuti e as bases navais de Toulon, Ajaccio e Mers-el-Kébir, na costa argelina, planeando invadir o Sudão e a Somalilândia britânica”).

E nós, isso não diz o historiador nem Beja Santos, digo eu aqui, miseravelmente continuávamos a colonizar lentamente, caladinhos para ninguém nos ouvir.

Há "boa" gente que acha que estávamos errados com a atitude tomada pelo Big Brother do momento.