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quinta-feira, 19 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27836: Antologia (101): "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", a publicar brevemente (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2026, trazendo em anexo um texto intitulado "Agradecimentos e Dedicatória", no qual reproduz as razões curriculares que o conduziram ao lançamento do seu próximo livro "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", cuja data de lançamento será anunciada oportunamente.


Agradecimentos e dedicatória

Permita-me o leitor que reproduza no Tomo II as razões curriculares que me conduziram a este empreendimento, tal como as escrevi na obra anterior:

O país que é hoje a Guiné-Bissau foi o local onde combati entre 1968 e 1970, matéria que tratei em dois volumes diarísticos, agradecendo penhoradamente as lições recebidas do povo amável com quem convivi, nomeadamente nos regulados do Cuor e Bambadinca; motivado por conhecer melhor os antecedentes deste território em décadas anteriores, meti mãos a um outro empreendimento, uma digressão um tanto romanesca à volta das memórias de uma nonagenária que casou com um administrador colonial, nos alvores da década de 1950 e conheceu os primeiros sinais da insurreição, assim escrevi A Mulher Grande; participante regular naquele que é, sem margem para dúvida, o blogue mais influente para antigos combatentes na então Guiné Portuguesa, Luís Graça & Camaradas da Guiné, senti impulso de ali regressar para me despedir dos meus soldados guineenses, e assim urdi A Viagem do Tangomau; ao longo desses anos de íntima relação com a realidade guineense, fui também procurando ler tudo quanto era literatura da guerra colonial, fundamentalmente do lado português – assim nasceu Adeus, Até ao Meu Regresso.

Os anos passavam, a Guiné continuava sempre presente, no coração, na memória, no desejo de melhor compreender o seu passado e até os seus tempos atuais. Em parceria, enveredei numa tentativa de fazer o arco cronológico entre dados fundamentais da Guiné Portuguesa até à Guiné-Bissau, assim nasceu o livro Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro. Estava dado o balanço para intensificar as pesquisas, nos anos seguintes apareceram as História(s) da Guiné Portuguesa e História(s) da Guiné-Bissau.

Quis um feliz acaso que batesse à porta do então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória) em busca de um livro ricamente ilustrado, fui não só compensado por o ter folheado demoradamente como surgiu a oportunidade de ter acesso a documentação inédita, e assim escrevi Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba: O BNU da Guiné. A saga teve uma nova deriva, encontrei num alfarrabista o livro de um poeta popular, antigo combatente na Guiné, ali fez comissão entre 1963 e 1965, o seu poema galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro em que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dada à estampa Nunca Digas Adeus às Armas.

Mais recentemente, novo surto para a deriva romanesca, desta feita na cidade de Bruxelas dois cinquentões apaixonam-se, ele vai regularmente a esta sede europeia, ela é intérprete e aceita o repto de passar a escrito as memórias de guerra, cronista amorosa num romance feito fundamentalmente de cartas, Rua do Eclipse, a Guiné atravessa-se nas suas vidas, do princípio ao fim.

Quando tudo levava a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso: elaborar, por seriação do século XV ao século XX, um género de antologia com peças umas determinantes outras possuidoras de vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos denominavam a região por nomes inconclusivos e até bizarros como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros ou Senegâmbia, termo que curiosamente foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir uma costa ocidental africana entre o Cabo Verde e a Serra Leoa. Devo advertir o leitor que muitos outros textos aqui poderiam caber, mas creio não ter omitido intencionalmente nenhum que me tenha parecido essencial para a natureza desta obra de divulgação.

Esta antologia decorre de um processo laborioso, escrevi bastantes textos, de forma avulsa e um tanto ao corroer da pena no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, recebi sugestões de mãos amigas, caso dos investigadores António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, um sem número de sugestões; jamais poderia esquecer as ajudas ou propostas de leitura que recebi da Helena Teotónio Pereira, então à frente da biblioteca do CIDAC, um espaço onde há relevante documentação histórica, e o mesmo podia dizer dos incentivos que tive no Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória); não esqueci a estimulante parceria que tive a felicidade de encontrar para escrever Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro e também naquele outro livro a quatro mãos Nunca Digas Adeus às Armas.

Sendo eu um infoexcluído, tive a dita de receber uma admirável prestação na colaboração de Linda Sioga, vai para mais de três anos que andamos em belíssima colaboração intermediada pelo Skype/Teams. Naturalmente que agradeço e a junto a esta dedicatória.

Este livro, tal como o anterior, é dedicado a todos aqueles que se iniciam num estudo das relações luso-guineenses, seja em que local for; bem gostaria de lhes ser útil, porventura abrindo-lhes portas, dando-lhes dicas, o que aqui aparece ordenado pela cronologia de há muito foi investigado, ou nunca obteve tratamento público, caso dos documentos que consultei nos Reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Dedico, igualmente, o livro a duas figuras da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, Helena Grego e José Carlos Silva; ao longo de todos estes anos em que frequento tais instalações históricas, possuidoras de fascinante documentação, eles tudo têm feito para ter acesso a livros, revistas, relatórios, e, fundamentalmente, a papelada que consta dos Reservados, aqui encontrei textos fervilhantes ou esclarecedores, que o leitor agora vai encontrar deste período histórico em análise dos séculos XIX e XX.

A minha dívida com estes bibliotecários é impagável. Tanto mais que quando disse à Dr.ª Helena Grego que chegara ao fim da linha, nada mais havia para remexer nos arquivos, depois deste tomo II, ela desenganou-me: “Nem pense, agora vai começar a ler o Boletim Oficial do Governo Geral de Cabo Verde e depois o Boletim Oficial da Guiné, Colónia e Província, tem ali trabalho para os próximos anos.”
É o que presentemente está a acontecer, pelas minhas contas será o adeus neste vasculhar que levo à presença portuguesa na Guiné entre meados do século XV e primeiro quartel do século XXI.

"Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo I, A Presença Portuguesa na Senegâmbia", de Mário Beja Santos, lançado em Setembro de 2024(*)
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Nota do editor

(*) Vd. post de 10 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26371: Agenda cultural (876): Apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", de Mário Beja Santos, dia 13 de Janeiro de 2025, pelas 14h30, na Livraria Municipal Verney, Rua Cândido dos Reis, 90 - Oeiras

Último post da série de 20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Guiné 61/74 - P25333: (De) Caras (204): É-se um Soncó para toda a vida (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Abril de 2024:

Queridos amigos,
Pode demorar mais de meio século, mas os Soncó encontram-se, é mais do que uma questão de sangue, foi a intensidade das ligações que as circunstâncias proporcionaram, ainda hoje me interrogo o que teria Mamadu Soaré Soncó visto em mim, que confiança eu lhe merecia, para me ter suplicado vezes sem conta que queria vir comigo para Portugal, queria estudar, se eu tinha ajudado os meninos a ter escola em Missirá, ele queria ir mais longe. Não foi possível satisfazer o pedido de Mamadu, mas ele sabia que numa outra ocasião nos encontraríamos, como aconteceu num domingo de março de 2024. São as imagens deste encontro e as do que antecede que deposito nas vossas mãos.

Um abraço do
Mário



É-se um Soncó para toda a vida

Mário Beja Santos

Toca o telefone, sem demora Abudu Soncó anuncia que Mamadu chegou a Portugal, perguntei que Mamadu, pois, o Soncó, aquele a quem davas aulas, que queria vir contigo para Portugal, em 1970. Veio muito doente, assim que nos telefonámos perguntou por ti, tem urgência em ver-te. Mora na Damaia. Negociámos a data, almoço num domingo de março, e vejo chegar o casal acompanhado de Abudu. Sentados à mesa (os doentes crónicos não estão sujeitos às regras do Ramadão), lembrámos muita coisa, fiquei informado de que Mamadu é um diabético em estado grave, com elevado colesterol a pedir medidas severas, está a fazer uma bateria de exames. Quando lhe ofereci os meus livros, lembrei aquele episódio que está registado no nosso blogue e que aparece no segundo volume do meu Diário da Guiné. Mamadu apareceu-me em Bambadinca, que queria falar comigo, terá sido na primeira semana de julho de 1970. Que queria vir comigo para Portugal, que eu sabia que ele era afeiçoado aos estudos, não me deixaria mal, era só uma questão de pedir licença no barco para vir comigo, estamos a falar de um jovem que teria entre 12 a 13 anos. Enterneceu-me tudo quanto me estava a dizer. Talvez fosse possível eu trazer um filho de um ano, inteiramente impossível trazer um jovem numa embarcação exclusiva de militares, Mamadu não se rendeu, disse-me categoricamente que ficava na minha companhia e esperava que eu reconsiderasse, pedisse ao comandante do barco para vir comigo. E à cautela apresentava-se todas as noites naquele quarto de quatro camas, e dormia num colchão que trazia, a meus pés, os meus camaradas alferes da CCAÇ 12, ao princípio ficaram atónitos com a intrusão, depois habituaram-se à presença do Mamadu, que saía logo de manhã da camarata e só regressava à noite. E não quero reproduzir o que foi a nossa despedida, momentos antes da coluna me levar ao Xime, uma despedida lancinante, ele, mortificado, viu-me partir só com promessas, que nunca foram cumpridas. É assim o destino, mais meio século depois um Soncó procura alguém a quem o régulo do Cuor, quando partia em novembro de 1969 para Bambadinca me pediu para jurar que nunca esqueceria os Soncó. Mal ou bem, cumpri ou estou a cumprir. E que no Cuor, os Soncó não me esqueçam como eu não os esquecerei até que a luz se apague na minha vida.
Estou de braço dado com a Djassió Soncó, à minha direita está o marido, Quebá Soncó, um dos irmãos do régulo do Cuor, o meu guia, o nosso relacionamento nem sempre é dos mais felizes, mas na verdade ele conhece o regulado a palmo, mesmo quando denota temor é de uma lealdade sem mácula. Depois da independência, apareceu morto no cárcere em Bafatá. São os pais de Mamadu Soaré Soncó, que conheci em menino, a quem dei efemeramente aulas de português, o resto é para contar depois. O que tem de especial esta imagem? Há a convicção geral dos civis que se incorporam nesta coluna dita de abastecimento que vamos para Bambadinca. A Djassió aperaltou-se para ir visitar família. Os picadores receberam a incumbência de picar bem até Canturé, depois viram à direita, pela estrada que liga Jugudul- Porto Gole-Enxalé-Missirá-Gambiel-Bafatá, uma via que está interdita há anos. Pois hoje, vamos até ao Enxalé, depois de montar segurança em Mato de Cão. Consigo neste momento ver o ar de pânico da Djassió quando viram em Canturé e lhe digo que hoje vai visitar a família no Enxalé… Como aconteceu. No regresso, a malta do PAIGC em Madina não deixou de se manifestar contra, lançou umas morteiradas à distância, rimos a bom rir, mas a malta do PAIGC apareceu dias depois e flagelou Missirá, felizmente com poucas consequências.
No final do Ramadão de 1968, Missirá a jogar com uma equipa de Bambadinca, juntaram-se voluntários do Pel Caç Nat 52, do Pelotão de Milícias n.º 101 e dois civis. Com que saudade olho para a direita e vejo o furriel Casanova, o soldado Ieró Djaló, que me arranjou uma embrulhada na Operação Anda Cá, em 22 de fevereiro de 1969, quando deixou fugir um prisioneiro; à minha esquerda está o Teixeira das Transmissões e depois o Barbosa, segue-se um jovem que esqueci o nome, tenho de perguntar ao Abdul, ele guarda uma memória de elefante. Mas de pé, mesmo à ponta esquerda, aquele jovem chama-se Mamadu Soaré Soncó.
Em pleno Ramadão, comprei 14 metros de tecido e mandei fazer a minha fatiota com um lindo bordado, manga di ronco! E fez-se uma fotografia, a braço o régulo Malã Soncó, um verdadeiro príncipe, na plena aceção da palavra, temos novamente Quebá Soncó e depois o chefe da tabanca, Mussá Mané, este dava-me cabo da cabeça com os pedidos insistentes para fazer colunas para suprir as faltas de arroz. E eu todos os dias percorria aquelas terras férteis que a guerra as tornara infecundas…
Fotografia tirada no vestíbulo da minha casa, abraço Mamadu Soaré Soncó, já lá vão mais de 50 anos, a Sónia Intchasso, quem diria que é sexagenária, guarda um olhar doce e veio visitar-me formosa e segura, e depois o Abdu Soncó, um irmão que Deus me deu, vive aqui desde 1996, estou sempre a pedir-lhe que se naturalize, os seus problemas do foro cardiovascular não lhe permitem voltar à Pátria, cheguei àquela idade em que nos inquietamos muito pela sorte daqueles que amamos profundamente.
Exigência de Mamadu, traja de branco, é sinal que foi a Meca, é fotografia que ele quer mandar para o Cuor e arredores, o Branco de Missirá está vivo e apresenta-se.
Sónia Intchassó na varanda onde almoçámos, em todo o seu esplendor, veja-se a etiqueta e o modo natural como estende as suas mãos, as Mandingas gostam de caprichar.
Outra exigência de Mamadu, sei lá o que lhe passou pela cabeça, sei lá quem o ajudou a arranjar esta foto, trouxe este pano de pente e mandou bordar o meu nome e pôr fotografia. Fiquei a gaguejar, agradeci muito, o Mamadu impôs a fotografia, para que conste, para que se veja no Cuor.
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Nota do editor

Último post da série de 15 DE FEVEREIRO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25174: (De) Caras (203): Nota solta (José João Domingos, ex-Fur Mil At Inf)

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Guiné 61/74 - P23352: Historiografia da presença portuguesa em África (321): Grande polémica (2): Luís Loff de Vasconcelos versus Teixeira Pinto e Abdul Indjai (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Junho de 2021:

Queridos amigos,
Permanecem muitos pontos de interrogação quanto às razões fundadas que poderão ter levado à extinção da Liga Guineense, instituição declaradamente republicana, outrora reconhecida como muitíssimo útil e que passa a ser tratada como uma entidade demoníaca por se ter oposto aos planos perpetrados pelo Capitão Teixeira Pinto para submeter os indígenas de Bissau. Como ficou demonstrado, Abdul Indjai saqueou e destruiu por anos a economia dos Papéis e dos Grumetes da ilha. Não se conhece melhor documento que rebata as teses triunfalistas pró-Teixeira Pinto que o opúsculo escrito por Luís Loff de Vasconcelos, conceituado escritor cabo-verdiano que seguramente teve acesso a depoimentos que a versão oficial silenciou.

É inaceitável que a História da Guiné Portuguesa deixe na penumbra uma investigação determinante para se perceber não só o caráter da campanha de pacificação mas pelo facto de se dever atribuir o sucesso da mesma a um saqueador que foi régulo e déspota tão turbulento que pela segunda vez foi levado ao exílio.

Respeitando o contraditório, vamos ver agora as teses que se opõem.

Um abraço do
Mário



Grande polémica (2):
Luís Loff de Vasconcelos versus Teixeira Pinto e Abdul Indjai


Mário Beja Santos

Em "A presença portuguesa na Guiné, História Política e Militar, 1878-1926", por Armando Tavares da Silva, Caminhos Romanos, 2016, a versão das depredações praticadas pelo chefe de quadrilha Abdul Indjai e os seus irregulares e as responsabilidades do capitão Teixeira Pinto distinguem-se literalmente das acusações apresentadas por Luís Loff de Vasconcelos. 

Aliás, Tavares da Silva dá-nos um quadro curricular mais alargado do que o do publicista cabo-verdiano. Logo em 1906, o Governador Almeida Pessanha vê-se obrigado a refrear Abdul Indjai, este tinha servido de auxiliar na campanha do Churo. O mercenário senegalês tentara várias vezes atacar o Oio, fora sempre repelido, a sua gente de guerra fazia razias, servindo-se do nome do Governo. 

Em abril, Abdul é preso e o seu bando disperso, é enviado para S. Tomé. No ano seguinte, o príncipe real D. Luiz Filipe de visita a S. Tomé, concede permissão para Abdul regressar à Guiné, e este participará nas campanhas de Badora e Cuor, conta o revoltoso régulo Infali Soncó. 

Ao lado do Governador Oliveira Muzanty, Abdul e os seus irregulares participam nas operações, põe o régulo revoltoso em fuga e Abdul irá ser nomeado régulo do Cuor, suscitando inúmeras queixas. Em 1912, o Capitão João Teixeira Pinto chega à Guiné como Chefe de Estado-Maior, irá dedicar-se à ocupação e pacificação da província. Dá prioridade à ocupação das regiões de Mansoa e Oio, parte disfarçado em inspetor da Casa Soller, atravessa a região, sugere ao governador Carlos Pereira que se recorra a grumetes ou a irregulares. Pede-se a colaboração da Liga Guineense que mostra indisponibilidade e Teixeira Pinto aproveita-se de Abdul Indjai e dos seus irregulares, pretende atacar o Oio num flanco e o administrador de Geba, Calvet de Magalhães, atacará pelo outro.

Tavares da Silva descreve minuciosamente as operações no Oio e o pedido de paz das gentes da região de Mansabá, são presos vários revoltosos, dá-se como submetidos os Balantas do Oio. Calvet de Magalhães tem uma progressão mais acidentada, mas também chega a bom porto. O êxito das operações leva à concessão de medalhas e louvores. 

Pouco depois de Carlos Pereira ter deixado a Guiné começam a surgir notícias que atribuem atrocidades a Abdul e aos seus quadrilheiros no Oio. A Legação Britânica na Guiné enviara uma nota para o ministro em Lisboa informando-o do aventureiro Abdul e dos seus 400 indígenas senegaleses, que praticariam terríveis barbaridades, massacres, roubos e raptos. 

Troca-se inúmera correspondência entre as autoridades mas as queixas não cessam. Chega novo governador, Andrade Sequeira, que nomeia uma comissão para ir ao Oio apurar as atividades de Abdul e dos seus homens. É neste tempo que se dá o massacre do Pelotão de Polícia Rural do alferes Pedro e Teixeira Pinto segue para Bissorã e Mansoa, correm operações em Cacheu, no seu relatório ao Governador, Teixeira Pinto não deixa de observar que a revolta dos indígenas era proveniente não só do seu espírito de guerreiro mas ainda e principalmente da sua falta de educação. 

Temos novas queixas contra a gente de Abdul, vêm do tenente António José Teixeira de Miranda, comandante do posto de Mansabá. Mas Andrade Sequeira nomeia Abdul tenente de 2.ª Linha. Seguem-se as operações para submeter os Balantas, Abdul Indjai colabora e Teixeira Pinto pede ao governador a nomeação do chefe de quadrilha para régulo do Oio. 

Depois de uma pausa em Lisboa Teixeira Pinto regressa à Guiné e temos agora a Campanha de Bissau que irá levar Luís Loff Vasconcelos a escrever acusações demolidoras. É escusado procurar transparência nas argumentações utilizadas se era ou não evitável a guerra na ilha de Bissau. A Liga Guineense opunha-se tenazmente e tinha razões de sobra, o seu espírito republicano era definido por uma elite de mercadores profissionais liberais e contavam com a simpatia de gente cristianizável e em vias de alfabetização, os Papéis e os Grumetes, pedia-se tolerância e prudência, o imposto de palhota começara a ser pago e o armamento em posse dos régulos inquietos eram armas de pedreneira, argumentavam. E a operação é decidida, mesmo havendo vozes discordantes no Conselho Administrativo.

Desenrolam-se as operações em maio de 1915, Teixeira Pinto leva um fraquíssimo contingente regular, os irregulares de Abdul, é apoiado pelo régulo mandinga Mamadu Sissé e pelos Futa-Fulas de Alfa Mamadu Seilu. Não houve mistério na argumentação trocada sobre quem e porquê mandou prender os dirigentes da Liga Guineense, teria havido um prisioneiro que confessara às gentes de Abdul e quem dirigia a resistência e fornecia cartuchame eram figuras ligadas à Liga.

Tavares da Silva dá um amplo desenvolvimento às queixas de Andrade Sequeira sobre o comportamento dos auxiliares. Temos que admitir que mesmo na hipótese de haver excessos na argumentação de Luís Loff sobre as pilhagens e destruições dos quadrilheiros de Abdul, não havia relação sustentada quanto às responsabilidades da Liga Guineense, entretanto entredita e depois extinta. Houve inquestionavelmente movimentações de diferentes interesses para amnistiar ou incriminar os Grumetes, Andrade Sequeira é enérgico, manda sair da ilha os quadrilheiros de Abdul. O comportamento do governador é dúbio, informa o ministro que no atual momento político seria inexequível aniquilar de vez Abdul, havia que o desarmar. Vasco Calvet de Magalhães envia um documento a Andrade Sequeira biografando Abdul, é arrasador, escravizava os prisioneiros e diz mesmo: “Abstenho-me de me ocupar também das barbaridades que lhe deixaram praticar em Bissau e que são do domínio público, não faltando testemunhas dos factos entre os quais o de ter enterrado gentes vivas, etc.”.

E começam as acusações a Teixeira Pinto. Quanto às atrocidades, permitira, tudo vem perfeitamente documentado na obra de Tavares da Silva, e inclusive as inquirições que foram ordenadas fazer a Brito Capello, em dado passo já se insinua práticas administrativas irregulares, tudo acabará arquivado quer porque o governador Andrade Sequeira deixa a Guiné quer porque Teixeira Pinto morre em combate em Moçambique.

E assim chegamos a 1919 e à campanha contra Abdul Indjai, régulo do Oio. O Secretário-geral Caetano Barbosa informa o novo Governador Oliveira Duque das prepotências praticadas pelo chefe de quadrilha. Abdul ainda entrega armas, por exigência do Governo, mas a situação na região, mormente em Mansabá, era de nítido mal-estar entre as populações. Abdul comete o erro de querer oferecer resistência, será preso e deportado para a cidade da Praia, onde irá falecer.

A despeito de inúmera documentação existente, permanecem mistérios que só uma investigação mais apurada permitirá desvendar: quanto à fundamentação da extinção da Liga Guineense, instituição criada por republicanos; se existiram conivências de alguns dos seus membros com os revoltosos Papéis e Grumetes da ilha de Bissau; se Teixeira Pinto se permitiu a fazer vista grossa das atrocidades e pilhagens praticadas pelo chefe de quadrilha e os seus irregulares; como foi possível encontrar justificação por manter este praticante de barbaridades como régulo que agia por conta própria, saqueando, escravizando, fazendo coleta de impostos, armado até aos dentes. 

É uma investigação muito incómoda para este período colonial: o heroico capitão Teixeira Pinto teve de se socorrer de um chefe de quadrilha e notório criminoso; não são evidentes as ligações entre a Liga Guineense e a rebelião dos régulos da ilha de Bissau; é politicamente insustentável na segunda década do século XX uma potência colonial se apoiasse num bandido sanguinário para fazer ocupação e pacificação. Há que sair deste mar de trevas e procurar apurar o rigor da verdade.
Luís Loff de Vasconcelos
Abdul Indjai
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Nota do editor

Último poste da série de 8 DE JUNHO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23337: Historiografia da presença portuguesa em África (320): Grande polémica (1): Luís Loff de Vasconcelos versus Teixeira Pinto e Abdul Indjai (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Guiné 61/74 - P21069: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (6): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Maio de 2020:

Queridos amigos,
Aqui vos deixo mais um episódio em que a realidade emparelha com a ficção, torce-se e retorce-se tempos, lugares, pessoas e situações, um amplo ecrã que abarca a Guiné, Bruxelas e Lisboa, dois cinquentões que se deixam envolver numa barafunda que, imagine-se, começa numa Bruxelas da II Guerra Mundial, uma criança judia recolhida, hoje intérprete de profissão, filhos já crescidos, ela disponível para amar, e aparece-lhe aquele sujeito que veio com o pretexto de uma insinuante história de amor, com a guerra da Guiné ao fundo, os dois já embarcaram, como por magia, nessa aventura da escrita e nessa aventura dos primeiros encontros, sabe-se lá se não está para aparecer a mais inesperada das paixões...

Um abraço do
Mário


Esboços para um romance – II (Mário Beja Santos):
Rua do Eclipse (6): A funda que arremessa para o fundo da memória

Mário Beja Santos

Chère Annette, respondo prontamente à sua linda missiva, que li e reli com imenso prazer. Quando olho para estas fotografias que tenho vindo a acumular ao longo dos anos, quando posso calcorrear Bruxelas sozinho ou na companhia de amigos, interrogo esta ironia de frequentar lugares, ao longo de vinte anos, e a Annette a viver ali tão perto. Quando os programas de trabalho me permitem ter para mim um dia de fim de semana, e o tempo está de feição, vagueio por essa Bruxelas que já teve casco histórico e que mudou de pele para tapar o Rio Senne, enquanto se fazia ligação ferroviária entre Bruxelas Central e Bruxelas Midi, eu vejo as fotografias antigas, e posso perceber que se fez implodir uma arquitetura em nome do progresso. As imagens que junto são apontamentos de curiosidade. Na primeira, aparece um antigo armazém de vinhos e as Armas de Portugal, a propósito do Vinho da Madeira, era muitíssimo apreciado neste Norte da Europa; igualmente imagens que bem conhece, têm a ver com os alfarrábios, os CD’s e depois imagens de arquitetura, pormenores que me cativam; e quis o destino que um dia passasse pela Rua do Eclipse, aqui está um edifício que não é muito longe do seu apartamento.



Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Bom Socorro, Bruxelas




Falávamos da minha primeira viagem para o Cuor, eu sentia-me fascinado por aquele caminho frondoso que vai de Finete para Canturé, cheia de poilões e cajueiros, mas ia muito inquieto pelo estado degradado em que encontrei Finete, além disso não apreciara as explicações dadas pelo comandante da milícia, um sujeito vaidosão que rapidamente me apercebi que saía pouco para patrulhar, faltava-lhe genica e sentido de liderança para manter o destacamento altamente seguro, como se veio a comprovar.

Eu não quero perder o sentido cronológico, ele é indispensável para que a Annette me possa ajudar no desenvolvimento da trama do romance, se a história tem pés para andar. Mas conto-lhe um episódio que ocorreu mais de um ano depois de eu viver no Cuor, e é por isso que envio um extrato da carta para se aperceber do teatro em que ocorreu um drama. Eu estava há uma semana em Finete, a acompanhar as obras dos dois novos abrigos, punha-se uma nova segunda fieira de arame farpado, substituía-se a que estava completamente apodrecida, as estacas onde se prendia o arame farpado tinham caído. Levara comigo um conjunto de militares vindos de Missirá. E quando se anunciava o fim da tarde, inopinadamente, como deve ser na circunstância de uma guerra de guerrilhas, informei que íamos montar uma emboscada na região de Malandim, era suposto que os grupos de abastecimento do PAIGC por aqui passassem, vindos da outra margem do Geba, ainda não conversámos acerca das populações sobre duplo controlo, era este o caso, do outro lado havia um local chamado Mero, onde a população de Madina e Belel trocava produtos, obviamente que informações.

Quase no lusco-fusco dispôs-se uma linha de cerca de vinte homens na horizontal, com atiradores nos extremos, a ver nos dois sentidos, fiquei em cima do trilho, anoiteceu, começaram a ouvir-se os ruídos próprios da floresta, movimentos de javalis, o piar das aves, o murmurar das águas do rio Geba. À minha direita estava um bravo soldado, Mamadu Camará, a quem julgo dever a vida, mais tarde contarei a história. Estávamos naquela letargia, aquela infindável espera, tinha anunciado que regressaríamos pela meia-noite, quando, pouco passava das sete horas, Mamadu ergue-se e grita, manda parar, levanto-me e é nesse instante que alguém que vinha seguramente em marcha apressada me abalroa, tinha a espingarda em riste, alvejei, o vulto cai a meus pés, isto enquanto se ouve uma restolhada de gente a fugir, veio-se a apurar que era uma coluna de abastecimento vinda da outra margem, largaram os mantimentos para se escapulirem pela mata. A meus pés, envolta num pano amarelado, jazia uma mulher, estava morta. É nisto que um dos meus auxiliares africanos, homem que fizera estudos em Bissau, sabe-se lá porquê, perdeu as estribeiras e começou aos gritos “Branco assassino!”, “Branco assassino!”, os outros camaradas procuravam acalmá-lo, toda aquela conversação ocorria em crioulo, e aquela acusação feria-me e trespassava-me como ferro em brasa, como era possível alguém que me via todos os dias, inserido num quartel com centenas de civis, procurando cuidar de todos com os modestíssimos recursos ao meu alcance, com as melhores relações com o régulo e com a população em geral, perder a tramontana e vociferar tão descabelada acusação?

Regressamos a Finete, pedi ao meu amigo Bacari Soncó que fosse tratar da recolha do corpo enquanto eu seguia para Bambadinca com o conjunto de homens que trouxera de Missirá, incluindo quem me acusava de ser branco assassino. Na sede do batalhão, os oficiais já tinham jantado, dirigi-me ao comandante, dizendo que se tratava de um assunto grave, precisava que ele tomasse uma decisão urgente, fomos então para o seu gabinete onde expus a situação. Ele tentava fazer uma leitura benévola, era tudo uma questão de nervos, o caso ajeitar-se-ia com o regresso à razão. A minha leitura era completamente diferente, fora desautorizado, não excluía a questão dos nervos, mas aquele homem tinha que ser detido, e prontamente, há normas no comportamento militar inabaláveis, se assim não fosse considerar-me-ia enxovalhado e desautorizado, e se o comandante insistisse na dita serenidade e palmadinhas nas costas no dia seguinte eu regressaria definitivamente a Missirá, tinha perdido as condições de comando. A discussão prolongou-se, ninguém perdeu as estribeiras, e então o comandante tomou a decisão de deter o militar. 

A Annette não pode imaginar o meu estado de espírito enquanto regressava a Finete e aqui estive. Dias depois, em plena parada de Missirá, tinha ordem de serviço com os dias de prisão daquele militar, sabia ser do domínio público toda aquela ocorrência e queria transmitir quer aos meus militares quer à população que fora insultado, que estava no Cuor para defender aqueles guineenses de todas as idades, e que esperava que nada de semelhante se voltasse a repetir. Anunciei que aquele militar ia regressar ainda naquele dia a Missirá, que o receberia de braços abertos, como manda a camaradagem e que queria que ele fosse muito bem acolhido por todos, ponto final numa história lamentável, todos tínhamos colhido o ensinamento. Como aconteceu, o meu relacionamento não foi afetado, ele foi um dos meus convidados para o meu casamento, em abril de 1970, está bem sorridente no filme que se fez, ao lado do Cabo Barbosa e do médico Joaquim Vidal Saraiva.

A que propósito vem esta história, Annette? Todos os anos, praticamente todos os anos, ele vem a Portugal fazer um tratamento. Esteve cá há dias, telefonou-me, recebi-o em casa, os camaradas merecem o melhor dos acolhimentos, falámos de tudo e está previsto que dias depois de eu regressar de Bruxelas aqui vai acontecer um almocinho de bacalhau para seis velhos combatentes, a velha guarda está firme. Foi a coincidência de datas, o facto de eu ter aqui a imagem dele à mão que me levou a desrespeitar a cronologia, saltei de agosto de 1968 para o presente.

Estou ansioso para me encontrar consigo. Concordo com as suas sugestões, tudo depende do tempo. Estive a pensar na sua proposta de envolvimento da história, já que começou a contar as suas origens, como foi acolhida, com poucos meses, por uma família católica residente em Marolles, ainda havia o espetro dos judeus belgas serem deportados, quando descobertos. Acho curioso para a trama narrativa e para se ir progressivamente adensando o clima passional, nessa altura, penso eu, já se passou por toda a experiência da minha guerra na Guiné, e manda a ficção que estamos disponíveis para um amor verdadeiro.

Penso que vai receber esta carta depois de eu aí chegar, ela tinha que seguir, impetuosa, pelas recordações que me trouxeram, confidências a que a Annette tem direito, já que é cúmplice neste enredo forjado pelas rodas do destino. Afetuosamente, Paulo Guilherme


Mamadu Camará



Há uns anos atrás, quando estava a preparar a edição de História(s) da Guiné-Bissau, tive a dita da fotógrafa Andrea Wurzenberger me ter oferecido um conjunto de imagens soberbas tiradas na Guiné-Bissau. Usei uma delas na contracapa, simbolizava o caminhar para a luz da esperança, aqui se publica uma outra imagem dessa coleção, com o meu profundo agradecimento.


(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 5 de junho de 2020 > Guiné 61/74 - P21043: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (5): A funda que arremessa para o fundo da memória

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Guiné 61/74 - P20248: Efemérides (312): Mina anticarro em Canturé, regulado do Cuor, 16 de Outubro de 1969 (Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Outubro de 2019:

Queridos amigos,

Quando soube que o nosso camarada António Carlão partira para as estrelinhas, veio a lume no blogue a sua imagem junto da viatura destruída em Canturé, em 16 de outubro de 1969.

Hoje, neste meu dia de luto, detive-me diante da fotografia em que o meu camarada, o 1.º Cabo António da Silva Queirós, conhecido no nosso meio por o 81, era ele que metia a braçadeira enquanto eu manejava o morteiro, revela espanto diante de um buracão onde jaz o Unimog 404.

Por tudo ser verdade, por ter havido incúria da minha parte e múltiplo sofrimento alheio, aqui guardo lembrança. Porque quanto a penitência e consolação o assunto é íntimo.

Um abraço do
Mário


Efeméride: Mina anticarro em Canturé, regulado do Cuor, 16/10/1969

Beja Santos

Confronto-me com aquele destroço e a estupefação tão espontânea do Cabo António da Silva Queirós, quem captou esta imagem não sabia se havia feridos e mortos, o Queirós está de mão estendida, jamais saberemos o sobressalto em que se encontra, saíram de manhã cedo de Missirá, deparou-se esta viatura esventrada mesmo à esquina da picada em direção a Canturé, por aqui se podia rumar, para sul, até Mato de Cão, e em tempos de paz, umas horas depois, chegava-se a Bissau, depois de Enxalé, Porto Gole, Jugudul; para norte, rumava-se para Gambiel, a ponte fora destruída no início da guerrilha, em tempo de paz por aqui se prosseguia até Geba e Bafatá.

Vivia-se então tempos muito ásperos. O comando de Bambadinca sangrava efetivos de milícias, uma secção de Finete para Demba Taco, uma outra secção de milícias de Missirá para a região de Galomaro. Ia-se praticamente todos os dias a Mato de Cão, é pura coincidência este frenesim a que estávamos a ser submetidos, as obras do porto do Xime estão à beira da conclusão, o arrebol de idas e vindas para patrulhar Mato de Cão diminuirá significativamente a partir de novembro.

Efetivos esgotados, uma grande parte do contingente do Pel Caç Nat 52 formara-se no CIM (Bolama) em 1966, passaram por Porto Gole, Enxalé, Missirá, sonham com o meio urbano, o que irá acontecer em novembro, não percebo porque é que ficaram desapontados, sabiam de antemão que não haveria descanso nas tarefas de toda a ordem, sete dias sem descanso, o que mudava era viajar para uma operação, para uma coluna de reabastecimento, para uma patrulha nos Nhabijões ou emboscada noturna no Bambadincazinho ou na estrada para Mansambo. O que se passou naquele dia 16 de outubro decorreu de um estado de derrisão, de quase inconsciência, na perda da noção das precauções básicas, de quem liderava a coluna, eu.


Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné

Ao amanhecer, viera-se até Bambadinca com uma lista farta para suprir carências na comida, nas munições, nos materiais de construção e na manutenção de viaturas. No regresso, viatura ajoujada, efetivo mínimo, doentes com pernas entrapadas. Com incrível displicência, com o dia já a declinar, ainda fui vistoriar obras em abrigos em Finete. O condutor, Manuel Guerreiro Jorge, de Monte da Cabrita, Santana da Serra, Ourique, suplica-me para partirmos imediatamente, acedo quando vejo o céu plúmbeo, o Unimog trepa a ladeira de Finete, temos a reta de largos quilómetros pela nossa frente, anoitece. Mandaria o bom senso que ficássemos em Finete, não se viaja dezasseis quilómetros na noite escura. Respondo sempre que não se pode perder tempo, há muitos afazeres para o dia seguinte, peço ao Manuel Guerreiro Jorge para ir na gáspea, o piso está bom, a picada não tem quaisquer reentrâncias, é uma reta colossal até Gã Gémeos, daí até Sansão e depois Missirá é que é altos e baixos.

Mas houve um momento de inquietação, exatamente quando no fim da ladeira de Finete fomos acolhidos na picada por um pesado silêncio, era uso e costume haver chilreios, macacada de galho em galho, tive uma premonição de presença humana, coisa de segundos, vamos seguir. E o Unimog partiu à desfilada, faróis coruscantes atravessavam as trevas da noite. Caminhava para as seis e meia da tarde.

Conheço a palmo a picada, por aqui andámos centenas de vezes, é um deslumbramento com as suas áleas de poilões, simetricamente colocados, só encontrei coisa parecida na estrada para o Enxalé. Suspiro quando já estamos bem perto de Canturé, mais uma hora e descarregamos todos estes bidons, sacos e fardos e caixas de munições. E o fragor da explosão toma conta de tudo, o Unimog parece levantar voo, silvam os curto-circuitos, Cherno Suane, que seguia no guincho, parece o homem-canhão, vai disparado até ao fundo, junto de um morro de bagabaga. O instinto leva-me a saltar com a G3 na mão, uma rajada até despejar por completo o carregador varre aquela margem direita, onde há gente que nos espera, deu para sentir uma fuga precipitada. Desapareceram-me os óculos, não vejo do olho esquerdo, sinto queimaduras na cara, no pescoço, um potente zumbido no ouvido esquerdo. Mas são os gritos de Manuel Guerreiro Jorge que tomam conta da nossa atenção, tem o corpo desarticulado, a mina anticarro explodiu sobre o seu rodado.

Fecho os olhos enquanto recordo tudo isto, quando os abro é para ver o espanto do António Silva Queirós. Tudo se passou há cinquenta anos, meio século não é nada quando sei que foi uma noite que mudou a minha vida, que por displicência se perdeu uma outra vida, houve feridos graves, contei com a generosidade dos camaradas de Bambadinca que vieram sem um gemido pela noite fora, atravessando aos tombos a bolanha de Finete, veio o médico, David Payne Pereira, tudo fez por aquele moribundo, a quem fechou os olhos em Finete.

Levantei-me cedo, tirei a fotografia emoldurada e pu-la numa mesa, faço questão de vos mostrar que retenho todo este filme e para todo o sempre. Tratei os olhos, descurei alguns dos feridos que foram para Bissau, um deles perdi-lhe o rasto, o meu devotado amigo Alcino Barbosa, que regressou com fratura de calcâneo.

Dir-me-ão que são coisas da vida, que o cansaço nos leva por vezes a comportamentos ligeiros, às tais displicências que depois matam e ferem. São os tais momentos que nos afundam ou nos fazem crescer. Olhando esta fotografia que gravou há meio século um sinistro, guardo o dilema que esta efeméride comporta. Só que a vida continua, haja o que houver de amarguras na alma.

E peço perdão por tudo quanto aconteceu naquela destemperada corrida noturna, em 16 de outubro de 1969.
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20214: Efemérides (311): Convite para a cerimónia do Dia Municipal do Combatente, a realizar no 11 de Outubro, às 11 horas, na Praça dos Heróis do Ultramar, em Fânzeres - Gondomar (Carlos Silva, ex-Fur Mil da CCAÇ 2548)

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Guiné 61/74 - P19964: Historiografia da presença portuguesa em África (165): À procura de Sambel Nhantá (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Setembro de 2018:

Queridos amigos,
Chegara o tempo de mexer três fartos caixotes com documentação antiga, joeirar o que podia ir para o lixo, um fartote de agendas que perderam préstimo, resmas de brochuras associadas a viagens de um passado já longínquo, e algo mais. É nisto que o coração bateu mais forte, primeiro a longa carta de Abudu Soncó, cumpria uma promessa feita no ano anterior de me transmitir as lembranças de Infali Soncó, de que pouco se sabe, ele que deu dores de cabeça às autoridades portuguesas, foi o responsável pelas campanhas de 1907 e 1908, a última mobilizou um forte contingente europeu e moçambicano, como jamais acontecera. Havia que juntar peças, encontrar nexos entre os Soncó e este humilde escriba que um dia, por vontade de Malan Soncó, passou a pertencer à família, com as obrigações inerentes, como vai acontecendo, sobretudo com a saudade sem fim com aqueles que lhe deram tanta fidelidade e bravura e já pousaram nas estrelas.

Um abraço do
Mário


À procura de Sambel Nhantá

Beja Santos

Quando comecei a estudar a Guiné e a procurar localizar todas as povoações do regulado do Cuor, subsistiam duas interrogações sem resposta: aquele colosso de pedra que existia (e espero que exista) em Aldeia do Cuor, era fortaleza, quartel ou sede de uma grande empresa? Porque é que em Sansão, abaixo de Missirá havia túmulos de régulos, não teria feito mais sentido eles terem sido todos exumados na sede do regulado? A questão da Aldeia do Cuor só ficou resolvida ao tempo em que fiz o levantamento documental do BNU da Guiné. Era dado assente que aqui tinham funcionado duas empresas de grande porte, que acabaram na água. Ao tempo da Sociedade Agrícola do Gambiel é claramente referida a construção daquela imensidão de pedra, ali trabalhou Armando Cortesão, que se iria destacar na cultura portuguesa como um dos mais eminentes cartógrafos. Encontrava por toda a parte, nos mapas e livros a referência a Sambel Nhantá, procurava nos mapas modernos e nada.

Em 1991, durante os meses em que fui cooperante na Guiné-Bissau, fiz amizade com o filho mais novo do régulo Malan Soncó, Abuduramane Serifo Soncó, na época mestre de escola. Deu para conversarmos longamente sobre empreendimentos que houvera no Cuor, e aquela dúvida que me acicatava, a falta de elementos sobre o bisavô de Abdu, Infali Soncó.
Numa carta que me enviou de Bissau com data de 24 de janeiro de 1992, revela ter conversado longamente com o seu velho tio Aladjé Soaré Soncó, que tinha uma versão bem segura sobre Infali, passo a transcrever a sua carta:
“Infali Soncó era filho de Bacar Soncó e de Mussó Quebá Mané, natural de Berrecolom, Gabú, era comerciante. Conquistou a zona de Cumpone na região de Boké, Guiné Conakri, para onde fora designado régulo. Estava constantemente a ser ameaçado pelos Fulas, caso de Alfa Iaia.
Anos depois, foi solicitado pelo seu tio Calonandim Mané, régulo de Cossé, Bafatá, amigo dos portugueses. O objectivo era invadir o Cuor, o régulo da região impedia a passagem de barcos portugueses. Esse régulo Fula chamava-se Sambel Nhantá, vivia em Sansão. Infali Soncó e o seu tio acompanhados dos guerreiros cercaram a tabanca do régulo Sambel Nhantá durante uma semana, ninguém entrava nem saía. A população teve medo de morrer de sede e fome e o régulo Sambel Nhantá fugiu, não deixou paradeiro. Os portugueses agradeceram, o comércio no Geba voltava a funcionar.

Bolama deu posse a Calonandim Mané como régulo do Cuor, mas ele morreu numa batalha no Enxalé, a lutar contra os Balantas. Na circunstância, foi eleito Infali Soncó como régulo do Cuor.
Revoltou-se contra os portugueses. Tudo terá começado quando um alferes português, de nome Fortes, o foi visitar a Sansão. Enquanto se aproximava, Infali e os seus “djidius” (músicos) deram boas-vindas ao visitante, surpreendido e confuso, o alferes terá dado uma bofetada a um dos músicos, dizendo que estava a fazer muito barulho, o que agastou Infali, teve ganas de matar toda a comitiva portuguesa. Os homens grandes pediram-lhe que não o fizesse, o ambiente estava tenso, esses homens grandes conseguiram que a comitiva portuguesa retirasse. Tinha-se instalado a ideia de rebelião e Infali cortou a navegação entre Bissau e Bafatá. Atacaram um barco português na região de Gã Gémeos, prenderam o alferes, mas um amigo de Infali, o comerciante cabo-verdiano Pedro Moreira, que tinha uma destilaria em Gã Gémeos, pediu-lhe que não matasse o alferes, pedido aceite, o alferes foi entregue às autoridades portuguesas em Bolama. Apercebendo-se da hostilidade das autoridades, Infali foi transferido para Fulacunda, aqui morreu, e depois a sua família e os seus guerreiros voltaram para Sansão. O novo régulo foi o seu filho Bacari Soncó, foi este que transferiu a sede do regulado de Sansão para Missirá.”

É este o teor da carta com as informações de Infali prestadas pelo seu filho sobrevivente, Aladjé Soaré Soncó. Haverá aqui algumas questões a resolver. Em abril de 1908, terá lugar a campanha do Cuor, Canturé e Sansão serão incendiadas, como mais tarde Madina, Infali fugiu, andou a monte. Em Caranquecunda foi instalada uma guarnição de tropa europeia e de macuas, por ali esteve algum tempo. Há relatos da recuperação de Infali, pediu perdão aos portugueses. Daí esta neblina de Fulacunda, há que descobrir elementos que fundamentem que ele ali tenha sido régulo, como tivesse havido perdão. Juntam-se algumas imagens sobre todas estas figuras aqui faladas: este que se assina aparece de braço dado com o régulo Malan Soncó, o seu irmão Quebá e o chefe de tabanca Mussá Mané, que todos os dias lhe pedia colunas a Bambadinca para trazer arroz ou levar membros da família, são questões que aparecem em livros do signatário. No mapa do Cuor destacam-se a Aldeia do Cuor e Sansão, este que se assina por ali andarilhava quase diariamente, a caminho ou no regresso de Mato de Cão, era piso seguro, evitavam-se emboscadas e minas antipessoal, a despeito da poeirada que se infiltrava em todos os poros do corpo. Felizmente que a fotografia dos meninos do Cuor foi enviada para Lisboa antes de todo o espólio fotográfico do signatário ter desaparecido na flagelação de 19 de março de 1969. Tumulu, o primeiro à esquerda, impressionava por andar sempre de Mauser, teve há anos um AVC, recuperou parcialmente, é o último irmão que resta a Abdu, vive em Lisboa, e que o signatário trata por irmão, tem a saúde combalida depois de dois enfartes de miocárdio, aqui pode tratar-se e vive com alguma dignidade.
E fica contada a história, foi com imensa alegria que se reencontrou uma carta escrita acerca de 26 anos, num dossiê onde apareceu a fotografia de José Jamanca e uma carta enviada por Ussumane Baldé, o 104, o soldado prussiano de alfero, questões de que se falará mais tarde, sempre com uma inabalável saudade.

Missirá, 1968 - Retrato de meninos Soncó e Mané. Abuduramane é o segundo menino a contar da direita, está ao pé de Nhalim Cassamá, mulher de Quebá Sonco, irmão do régulo.

Uma das pouquíssimas imagens de Infali Soncó, está sentado no centro, com uma arma na mão. Em breve, vai começar a guerra no Cuor, de que sairá derrotado, estamos em 1908. 
Fotografia retirada do álbum O Primeiro Fotógrafo de Guerra Português: José Henriques de Mello, por Alexandre Ramires e Mário Matos e Lemos, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2008, com a devida vénia.

Malan Soncó, à esquerda, neto de Infali e filho de Bacari Soncó, na minha companhia e de familiares.


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Nota do editor

Último poste da série de 8 de julho de 2019 > Guiné 61/74 - P19956: Historiografia da presença portuguesa em África (164): Alfa Moló Baldé e o mito fundador do reino de Fuladu, em 1867 (Cherno Baldé) - Parte I

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Guiné 61/74 - P17928: Notas de leitura (1010): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (7) (Mário Beja Santos)

Chegada dos aviadores a Bolama em 1925  
Foto: Com a devida vénia ao Blogue Bernardino Machado


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,
A correspondência oriunda do gerente da filial de Bolama, nas décadas de 1910 e 1920, não esconde as desavenças entre republicanos, o nepotismo e o arrivismo, a troca de papéis entre os protagonistas que vão da política para o comércio, da vida militar para a de fazendeiro.

Foi durante a organização da documentação deste período que encontrei um ofício datado de 16 de Fevereiro de 1923 onde se apresenta a Companhia de Fomento Nacional, que tinha a sua sede na Aldeia do Cuor, regulado onde vivi 17 meses consecutivos.

Há 50 anos intrigava-me aqueles panos monumentais de pedra perdidos dentro da natureza bravia, mesmo a beijar o Geba Estreito. Esse mistério está dilucidado, resta saber como esta empresa deu lugar a outra dentro do Cuor, a Sociedade Agrícola de Gambiel, onde trabalhou o professor Armando Zuzarte Cortesão, cuja cama em ferro herdei, dádiva do régulo Malâ Soncó. Coisas da vida...

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (7)(*)

Beja Santos

O relatório de 1922, ano em que o governador é já o Tenente-Coronel Velez Caroço, anuncia uma certa lufada de ar fresco quanto aos termos da governação, mas não esconde as graves dificuldades económicas e financeiras e o permanente caos administrativo.

De uma forma sintética, o gerente da filial de Bolama aborda diferentes pontos. Sobre a vida económica e financeira do município de Bolama, fala das poucas receitas e da necessidade de auxílio do governo; em contrapartida, o estado da Fazenda Pública revela desafogo devido ao aumento das contribuições, incluindo o do imposto de palhota. Quanto a vias de comunicação para o interior, reporta que falta completar a estrada que liga S. João a Jabadá (sede da circunscrição civil de Quínara) e dá conta que se tem em vista a construção de uma ponte de alvenaria que ligue aquela região à de Geba, daí deduzindo que ficaria Bolama ligada ao continente; falando das estradas, diz que não são macadamizadas por falta de pedra e que as valetas não têm escoante. Pela primeira vez refere-se ao Governador, Tenente-Coronel Velez Caroço:

“Continua a merecer os encómios dos europeus residentes nesta província. Pena é que a sua ação, entravada muitas vezes porque questiúnculas políticas locais, não se estende, como seria para desejar, a todos os serviços públicos por forma a que os diversos ramos da atividade colonial tivessem o desenvolvimento necessário para bem da província”.

Informa-se Lisboa que o governo vai adquirir a propriedade urbana e rústica da Empresa Comercial de Bijagós para aí instalar oficinas navais, tribunal e residência de alguns dos seus funcionários. E estando a falar de serviços públicos, desembesta sobre comportamentos estimados por negligentes e obtusos:

“Na magistratura desta comarca existe um elemento de valor, Dr. Horácio Baptista de Carvalho, Delegado do Procurador da República; porém, o juiz Dr. Pedroso de Lima, criatura pouco inteligente, cretina e pirrónica por princípio e feitio, é algo prejudicial às causas que correm pela sua vara. Quando alguém se admira dos seus estranhos despachos, responde invariavelmente: ‘Recorra!’. Como se um recurso não custasse atualmente muito dinheiro e não representasse, quase sempre, prejuízos grandes, devido à demora que estas questões costumam levar nas instâncias superiores. Numa acção que a nossa agência de Bissau intentou, só tem criado embaraços, não revelando a menor consideração pelo nosso banco. Em compensação, desejaria entrar para o serviço do mesmo, como Contencioso, e queria que, como Juiz, de que muito se envaidece, lhe fossem concedidas regalias excecionais para as pouquíssimas transferências que têm efetuado para Coimbra e Cabo Verde, quando, pela sua parte, no diz que respeito a Lisboa, não dá o menor interesse a esta filial, pois a mesada e as suas economias são pagas naquela cidade por intermédio da Casa Gouveia que pouco ou nada lhe leva de prémio”.

E se surpreende a forma desaforada que usa com o juiz, a mesma linguagem se estende ao que se passa nas alfândegas:

“À testa dos serviços alfandegários encontra-se um sujeito que até hoje se ignora se é europeu se cabo-verdiano, chamado Fernando Oliveira, criatura sem simpatias de ninguém, nem sequer dos seus correligionários democráticos. Foi este senhor que, como principal fator, influiu no espírito de Tribunal Administrativo, Fiscal e de Contas da Província da Guiné, composto na sua maior parte, entre os quais o nosso Juiz, de pessoas pouco propensas a interpretarem conscientemente a letra do contrato entre o nosso banco e o Estado, para indeferir o requerimento desta filial que pedia a isenção de direitos aduaneiros para a entrada na província das suas notas Chamiço, conforme estava em expresso no dito contrato. Por este motivo tivemos de recorrer para o Concelho Colonial, esperando que ali nos dêem um despacho favorável”.


Igualmente de forma sintética expende considerações sobre a agricultura, indústria e permutas. Diz que o principal ramo da agricultura indígena continua a ser o da mancarra (a produção promete ser superior à do ano pretérito), auspicia uma melhor produção de arroz, com preços muito superiores aos do ano anterior. Esclarece que os indígenas cultivam em muito pequena escala milho miúdo aqui conhecido pelo nome de milho preto. E ajuíza surpreendentemente:

“A palmeira que, sem esforço e auxílio do indígena, produz bastante coconote, se fosse beneficiada, ainda que de longe em longe produziria muito mais, vindo assim dar maior valor à riqueza desta colónia. Mas o indígena, mercê das quantias fabulosas que lhe dão pelos seus produtos, é rico, e portanto pouco se preocupa com isso.

A agricultura do europeu resume-se em plantações de coleiras e árvores frutíferas, mas estas tentativas esbarram quase sempre na falta de capitais, não obstante, pelo nosso banco, tem sido facultado ao governo da província um crédito destinado ao fomento agrícola, de 134 contos. Ao que parece, tão pouco cuidado tem merecido ao mesmo governo aquele crédito, para o fim a que é destinado, que o chamam a si, escriturando-o como receita do Estado, sob a rubrica ‘Receita Eventual’. Sobre este caso temos instantemente trocado correspondência com a direção dos serviços da Fazenda a fim de, por indicação da nossa sede, fazerem a reposição daquela importância, visto não lhes ter sido dada aplicação. Mas os nossos esforços até ao presente ainda nenhum êxito obtiveram”.

Também refere que não há indústrias na Guiné, o que há é uma tentativa de fabrico de sabão, pouco prometedora, e volta a surpreender-nos:

“O indígena não se dedica a qualquer espécie de indústria, limitando-se apenas ao fabrico das suas esteiras e adornos para seu uso. Quando a permutações com o gentio, esclarece que as principais são feitas com a mancarra, o coconote, o arroz, e numa escala mais diminuta com cera, borracha e gergelim, tudo trocado por dinheiro".

É a remexer nos dossiês desta época que este pobre escriba foi alvo de uma grande emoção. É necessário explicar porquê.

Quem põe os olhos nestas montanhas de papel e procura os aspetos mais salientes das informações que seguem de Bolama para Lisboa sobre a vida da província, viveu 17 meses consecutivos, entre 1968 e 1969, como responsável militar por dois destacamentos no regulado do Cuor. Sucede que aqui chegou em 4 de Agosto de 1968, e logo na manhã seguinte, no seu primeiro patrulhamento, por recomendação do furriel mais antigo, Zacarias Saiegh, foi conhecer Aldeia do Cuor, qualquer coisa como cerca de sete quilómetros distantes de Missirá, sede do principal destacamento.

Fez-se o percurso sem nenhum incidente, era visível tratar-se de caminhos ao abandono, entregues à natureza. De um lado, imensa vegetação, belos palmares, e do outro uma vegetação rala que permitia ver à distância do outro lado do rio Geba, que ali corre em leito estreito até Bafatá, e nessa distância o Furriel Saiegh ia explicando ao novel comandante que havia para ali terras fertilíssimas, mesmo pelos caminhos que estavam a percorrer houvera seguramente riqueza agrícola, que a guerra interrompera. E assim se chegou a Aldeia do Cuor.

Ficou uma sensação de assombro para toda a vida, pois percorrera-se aqueles quilómetros todos a ver a natureza verde, luxuriante, uma barreira de palmeiras de um lado e do outro um desafogo de panorama, alguém comentou que andariam certamente por ali gente de Mero e Santa Helena nos seus cultivos, e inopinadamente emergia do capim uma enorme construção em pedra, parecia pano de fortaleza, o novel comandante, um tanto azamboado, percorreu pelos diferentes lados aquele maciço de alvenaria, ninguém explicou do que se tratava, era empreendimento antigo, votado há muito ao abandono, nada tinha a ver com a guerra. Em Missirá, ninguém deu explicação satisfatória para tão invulgar construção, a pedra é escassa naquele território, fora seguramente trazida para construção reluzente. Mas que construção?

Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Carta de Bambadinca > Escala 1/50 mil (1955) > Detalhe, posição relativa de Aldeia do Cuor, na margem direita do Rio Geba Estreito; a norte, ficava o regulado do Cuor (onde havia 3 destacamentos das NT e milícias: Finete e Missirá, Fá Mandinga).
Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2017)

E o enigma persistiu, até que de repente apareceu um documento no Arquivo Histórico do BNU datado de 16 de Fevereiro de 1923, papel timbrado da Companhia de Fomento Nacional, com sede na rua Augusta n.º 176 - 2.º, Lisboa, mas quem escrevia fazia-o de Aldeia do Cuor. Desvendava-se o segredo, o primeiro, pois como se adiantará a dita Companhia de Fomento Nacional terá dado lugar a outra empresa, a Sociedade Agrícola do Gambiel, porventura, ainda não se encontraram provas concludentes nessa associação. O que para o caso interessa é que aquele alferes miliciano descobria, cerca de 50 anos depois o nome da exploração agrícola respeitante àqueles paredões de pedra acastanhada, como reza no documento que ora tem nas mãos:

“Exploração na Guiné situada na circunscrição civil da Bafatá, ocupando em parte os regulados do Cuor, Joladu e Mansomine, fazendo sede no lugar denominado Aldeia de Cuor, à margem do rio Geba”. (**)

(Continua)

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Notas do editor

(*) Poste anterior de 27 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17908: Notas de leitura (1008): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (6) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 30 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17917: Notas de leitura (1009): “A PIDE no Xadrez Africano, Conversas com o Inspetor Fragoso Allas”, por María José Tíscar; Edições Colibri, 2017 (1) (Mário Beja Santos)

(**) Vd. poste de 9 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14337: Notas de leitura (689): A minha querida Aldeia do Cuor! (Mário Beja Santos)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Guiné 63/74 - P16777: Antropologia (25): Um sonô, o mais valioso tesouro artístico da Guiné-Bissau (Mário Beja Santos, ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52)

1. Em mensagem do dia 24 de Novembro de 2016, o nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) enviou-nos este artigo sobre  o valor atingido por um sonô, ceptro real, da Guiné-Bissau.


O mais valioso tesouro artístico da Guiné-Bissau

Beja Santos

Em 1969, estava eu no Cuor e Avelino Teixeira da Mota em Bissau (era Chefe do Estado-Maior do Comando da Defesa Marítima da Guiné, recebi deste um aerograma em que a dada altura me perguntava se conhecia a existência de algum sonô na região, visto que os Mandingas do Cuor eram Beafadas mandinguizados. E explicava-me que eram os cetros reais Beafadas de que havia notícia desde o século XVII. E adiantava alguns elementos, curiosamente coincidentes com a apresentação que sobre os mesmos fez num colóquio internacional de antropologia, documento que me ofereceu mais tarde. Todas as diligências junto do régulo foram infrutíferas, mesmo em Bambadinca e Bafatá. Um velho, em Bambadinca adiantou que há muitos anos um comerciante alemão que circulava no Xime e no Xitole também procurava semelhantes objetos.

Imprevistamente, ao folhear um catálogo da conceituada leiloeira Christie’s, de um leilão de arte africana e da Oceânia que se realizou em Paris em Dezembro de 2015, deparou-se-me um sonô cuja base de licitação oscilava entre os 10 e 15 mil euros. Não resisto a mostra-vos esta jóia disputada pelos colecionadores mais exigentes de arte africana, são peças que constam dos mais importantes museus do mundo, como o Moma. Dá vontade de rir quando se diz que a Guiné-Bissau está fora do mapa da melhor arte africana.



































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Nota do editor

Último poste da série de 18 de janeiro de 2016 > Guiné 63/74 - P15636: Antropologia (24): Esculturas e objectos decorados da Guiné Portuguesa (João Sacôto)