Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Guiné-Bissau. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guiné-Bissau. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28247: Notas de leitura (1948): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Recomendo sem qualquer hesitação a leitura deste importante estudo organizado por Patrick Chabal e que contou com uma equipa de especialistas de topo que apresentaram estudos sobre as cinco antigas colónias portuguesas africanas. Não é um estudo que aprofunde o pré-colonial, a presença e a colonização em si, a vida dos movimentos de libertação.
A questão fulcral proposta por Chabal e outros é avaliar o primeiro quarto de século da vida destes países independentes, a partir das descolonização, e encontrar pontos de relação entre essas mesmas cinco colónias portuguesas.
O estudo de Joshua Forrest dá-nos conta das governações de Luís Cabral e Nino Vieira, relata o que de fundamental aconteceu no conflito político-militar de 1998-99, no seguimento de outros trabalhos seus não esquece pôr ênfase sobre o afastamento do poder central das comunidades locais e como estas se revigoraram neste quadro de afastamento; o autor procede a uma narrativa que revela como durante esse quarto de século, o povo, mesmo descurado pelo Estado central assumiu energias de subsistência e, espantosamente, sempre que há eleições, vota em soluções genuinamente democráticas.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 4


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Como observa no proémio Patrick Chabal, o livro tem o objetivo de superar a perspetiva especificamente lusófona que penaliza a maioria das descrições da África língua portuguesa, a discussão anda em torno do desenvolvimento destes cinco países. Dedicámos dois textos ao estudo que Chabal fez sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada: a guerra e os seus efeitos; o nacionalismo e o exercício político pós-colonial: como se criou a nação e quis construir o socialismo; o que falhou nas experiências do partido único e como se transitou, mesmo nos estados de guerra civil para o pluralismo político. Sendo a segunda parte do livro dedicada à análise dos cinco países, obviamente, atendendo à natureza do nosso blogue, socorri-me do estudo da Guiné-Bissau elaborado por um incontestado especialista da região, Joshua Forrest.

Recapitulando o que se escreveu nos três textos anteriores, temos um longo ensaio de Patrick Chabal, expondo o propósito de uma história abrangente destes cinco países africanos, seguindo-se estudos complementares desses mesmos cinco países de que aqui se dá destaque à Guiné-Bissau. Já se comentou como o PAIGC não se mostrou capaz de atingir os seus objetivos em matéria de construção do sistema político ou do desenvolvimento económico. Nino Vieira viu-se obrigado a abrir o país a eleições multipartidárias, isto numa atmosfera de reconhecimento de que as experiências socializantes tinham caído na água, houvera mau aproveitamento da ajuda internacional quer na saúde, nos transportes e na habitação, ficara-se cada vez numa maior dependência do FMI e do Banco Mundial. O PAIGC iniciou programas de ajustamento estrutural que incluíam o incentivo à iniciativa privada, à desvalorização da moeda, à redução da despesa pública, cortes em subsídios etc, etc. O Governo da Guiné-Bissau recebeu um total superior a 31 milhões de dólares do FMI no período 1987-90 como incentivo para prosseguir as reformas.

Diferentes autores já se pronunciaram sobre o resultado destas reformas. Apareceram empresas privadas ligadas à cultura do caju e da amêndoa de palmiste, e o caju tornou-se a principal cultura de exploração do país. Mas houve consequências bastante problemáticas. A expansão do comércio de import-export saudou-se numa proliferação de “pontas”. Algumas dessas pontas foram originalmente criadas durante o século XIX como explorações agrícolas do amendoim. A expansão dessas pontas no final da década de 1980 e no decénio seguinte refletiu a viragem do Estado pós-colonial para a privatização, tendo sido os seus proprietários, os ponteiros, quem mais beneficiou do empréstimo a médio e a longo prazo associado ao programa de ajustamento estrutural – a maioria destes ponteiros eram altos funcionários do Governo que não tinham competências para transformar as novas pontas em empresas produtivas. Resultado: dinheiro dos empréstimos perdido, a agricultura não melhorou; com as sucessivas desvalorizações disparou os preços dos bens alimentares sociais; não houve crédito para os pequenos agricultores, não se conseguiu estimular o aumento da produção de amendoim. Cresceu a economia informal, as trocas diretas que asseguraram a subsistência da maioria das pessoas. Os bens importados (caso do vestuário, rádios, pilhas e bicicletas) eram trazidos do Senegal ou da Guiné-Conacri.

Deu-se, portanto, uma combinação do comércio informal local com o comércio não regulamentado de longa distância. As reformas do ajustamento estrutural não beneficiaram os pequenos agricultores, mas os ponteiros; houve uma divisão entre os comerciantes privados, predominantemente orientados para a exportação e ligados ao Estado e a grande maioria dos produtores rurais. Cresceu a dependência do regime de Nino Vieira em relação a fontes de financiamento externas, e num contexto de grande debilidade financeira ponderou-se a hipótese de trocar o peso guineense pelo franco CFA, o que veio a acontecer em janeiro de 1997.

O partido do poder ia-se progressivamente afastando da população em geral. Joshua Forrest detalha como foi desaparecendo a presença do Estado na administração regional e comunitária. “Ressurgiu com um particular vigor um conjunto de estruturas sociais e políticas camponesas localizadas, com raízes no período pré-colonial e que nunca tinham sido totalmente capturadas pelo Estado colonial. As lealdades políticas, as redes sociais e os recursos locais passaram a organizar-se mais claramente em torno de bases de poder controladas pelas aldeias e não pelo Estado. Não pretendo afirmar que os camponeses guineenses eram agora contra o PAIGC, mas sim que estavam mais interessados em reivindicar a sua autonomia política relativa.”

Temos, portanto, um Estado que deixou de exercer o controlo direto sobre as comunidades rurais e que nos seus escalões mais elevados de poder central revelava incoerência e discórdia, dominado por uma burocracia interna. Quem estava no topo do poder só podia subsistir reforçando as suas cliques e integrando nelas apoiantes da burocracia e das Forças Armadas. De Luís Cabral a Nino Vieira vão suceder-se golpes de Estado, repressão dos opositores e rutura da unidade interétnica. Agravou-se o conflito até então surdo entre as alas cabo-verdiana e guineense do PAIGC. Num contexto de dificuldades causadas pela escassez de arroz, Nino Vieira organizou grupos de apoio com as Forças Armadas e concluiu um golpe de Estado praticamente sem derramamento de sangue.

O regime de Vieira assumiu um carácter cada vez mais autoritário. Em setembro e outubro de 1999, descobriram-se duas valas comuns, uma perto de Bissau, com 14 corpos de pessoas que se crê terem sido mortas em meados dos anos 90, e outra perto de Mansoa, contendo 22 corpos, aparentemente de indivíduos acusados de conspiração golpista e executados em 1986. A descoberta destas valas fez aumentar o nível de hostilidade popular contra a ditadura de Vieira. O autor dá-nos um quadro da evolução das eleições, demissões sucessivas de primeiros-ministros, o descontentamento das Forças Armadas era por demais evidente, Vieira forçou a destituição de Ansumane Mané, Chefe de Estado-Maior, foi a gosta de água para a rebelião que se iniciou em 7 de junho de 1998; nem a chegada de tropas estrangeiras fez estancar aa rebelião, pois o apoio popular maciço aos rebeldes fez com que o regime de Vieira ficasse praticamente confinado à Guiné-Bissau.

Houve tentativas de negociação internacionais, procurou-se levar por diante um Governo de transição que não revelou operacionalidade, e em 8 de maio de 1999, cedendo à provocação que foi a chegada de um navio de guerra da Guiné-Conacri que transportava armas pesadas destinadas aos partidários de Vieira, os rebeldes atacaram os aliados do Presidente e as suas tropas de apoio senegalesas. Era a decisiva batalha final, as tropas pró-Mané empurraram para o centro de Bissau todos os apoiantes da fação presidencial e os senegaleses, derrotaram-nos em combates de rua. Vieira refugia-se na Embaixada de Portugal e parte depois para o exílio, primeiro para a Gâmbia e depois das Portugal.

O sonho da estabilidade durou pouco tempo. Formara-se uma Junta Militar, houve eleições em novembro desse ano, ganhou o Partido de Renovação Social, seguido do Partido Resistência Guiné-Bissau, o PAIGC ficou em terceiro lugar.

Em 2000 foi eleito o Presidente Kumba Ialá, tudo acabou mal. Aqui termina o ensaio de Joshua Forrest e damos por concluída a recensão ao livro "História da África Lusófona Pós-Colonial", organizado por Patrick Chabal e outros colaboradores, Tinta-da-China, 2026.


Patrick Chabal (1951-2014)
Joshua Forrest
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 5 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28242: Notas de leitura (1947): "Parábola do livro esquecido", retirada, com a devida vénia, do livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho; Partenon, 2026

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28238: Fauna e flora (31): da enorme biodiversidade à riqueza lexical e linguística da nossa... "Guinesinha" (que é, de facto, uma "África em miniatura"): dari, muntu, tucurtacar, bufre, jagudi ou cacur, sancu, macaco-cão, alma de biafada, peixe-mulher...

Elefante: o nome científico é Loxodonta cyclotis (Matsch). Os fulas chamam-lhe Nhiuá; para o futa.fula é Maubá; em madinga diz-se Samom; em manjaco, Olom; em papel, Oinga; e em saracolé, Turé. 

Fonte: Guia de Identificação dos Animais da Guiné-Bissau. República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Departamento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d (Disponível em formato pdf, aqui, no sítio do IBAP ,https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf


Nenhum de nós, antigos combatentes da Guiné, alguma vez pôs  a vista em cima de um  elefante, solitário ou em manada,  durante a guerra... A não ser o "básico de Bambadinca" que, contava-se, um dia, quando estava de sentinela, acordou todo o quartel e as tabancas à volta, aos tiros de G3 em posição de rajada...

Interpelado pelo graduado que fazia a ronda, jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...  

Há uma réstea de esperança de que o elefante não tenha desaparecido de todo no sudeste da Guiné: nos últimos anos tem sido muito esporadicamente avistado e até fotografado no corredor transfronteiriço constituído pelo  Complexo Dulombi-Boé-Tchetche (Vd. infografia acima reproduzida).  

Em 1955 estava protegido por lei.   Mas a caça furtiva, o tráfico de marfim (que não foi proibido), a(s) guerra(s), e o abate das árvores de grande porte, a par da explosão demográfica humana (a Guiné passou de meio milhão para mais de 2 milhões de habitantes em menos de meio século) são alguns dos factores apontados pelo IBAP (Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas, da Guiné-Bissau) para o desaparecimento progressivo (e se calhar irreversível) desta espécie animal absolutamente emblemática de toda a África. 

O mesmo aconteceu, desgraçadamente,  em Angola e em Moçambique, palcos de violentos conflitos armados, países nascidos de partos com muito sangue, suor e lagrimas...  

A boa notícia é que o número de elefantes duplicou desde 2018 em Moçambique, passando agora para 22,7 mil indivíduos,

Angola terá passado de mais de 70 mil elefantes em meados dos anos 50 para 3,4 mil no princípio do sec. XXI. Uma hecatombe.





1.   Ainda sobre o Decreto n.º 40040, de 20 de janeiro de 1955, emitido pelo Ministério do Ultramar e assinado pelo ministro Manuel Maria Sarmento Rodrigues (*): é de facto um marco fundador na história do direito ambiental e da conservação da natureza na administração colonial portuguesa. É um extenso e detalhado diploma com preâmbulo e 134 artigos, divididos por 6 capítulos e com 2 anexos.

Preâmbulo 
I (Disposições gerais) (art 1º - art 2º) 
II (Dos órgãos superiores de proteção da natureza) (art 3º - art 9º)
III (Da proteção do solo) (art 10º - art 29º)
IV (Da proteçáo da flora) (art 30º - art 41º)
V  (Da proteção da fauna) (art 42º - art 132º) 
VI (Disposições finais) (art 133º - art 134º)
Anexos I e II


(i) Contexto histórico e internacional
 
Já falámos, no poste anterior (*), da necessidade que o Estado Portuguès sentiu, na década de 1950, de fazer o "upgrade"  da sua legislação  em matéria de "conservação da natureza" nos  territórios ultramarinos, incluindo a regulamentação da caça e da pesca. 

O diploma, que merece uma análise  mais detalhada, resulta de uma visão integrada da "proteçáo da natureza" (solo, flora e fauna). Tem, naturalmente, pontos fortes e fracos, que serão analisados em próximo poste.

Era então ministro do ultramar (1950/55) um dos  mais conceituados políticos do Estado Novo, o oficial superor Sarmento Rodrigues (promovido a capitão-de-mar-e.guerra em 1953), depois de ter sido Governador da Guiné (1945-49).

Sarmento Rodrigues trouxe uma visão pragmática baseada na sua experiência de terreno. O seu mandato será marcado por um discurso de "desenvolvimento"  e "modernização" das colónias (rebatizadas em 1951 como "províncias ultramarinas"), onde a conservação da natureza era vista como parte de um projeto civilizacional (e não apenas ecológico).

O diploma integra orientações e recomendações da Convenção de Londres de 1933, ratificada por Portugal em 1948, bem como da Conferência de Bukavu (outubro de 1953 (pontos 6 e 7 do preâmbulo do Decreto nº 40 040).

O primeiro regulamento de caça da Guiné é só de 1948, mas já tem tinha em linha de conta o espírito e a letra da Convenção de Londres. As últimas atualizações da regulamentação da caça em  Moçambique e Angola remontavam a 1941 e 1942, respetivamente. A de Cabo Verde era de 1928 e a de Timor  1935.

Para a contextualização do diploma, é importante saber que a Convenção de Londres (1933) veio estabelece classes de proteção para espécies (A, B, C), que o decreto adotou no Anexo I. Por exemplo:
  • Classe A (+): Espécies com proteção total (ex.: gorila, elefante de floresta, rinoceronte branco).
  • Classe B (×): Espécies com restrições (ex.: chimpanzé, elefante de savana com presas < 5 kg).
  • Classe C ("): Espécies com proteção parcial (ex.: pangolim, urso-formigueiro).
Por sua vez, a Conferência de Bukavu (1953) (Conferência Interafricana sobre Fauna e Flora, em que participaram a Bélgica, país anfitrião, a França,  Portugal e o Reino Unido) introduziu recomendações adicionais para a conservação, que o decreto incorpora, como a criação de zonas de proteção (parques nacionais, reservas integrais) e a regulamentação da caça utilitária. (Bukavu é una localidade da  na atual República Democrática do Congo, na altura, colónia do Congo Belga).

(ii)  Análise da Lista de Espécies Protegidas na Guiné (Anexo I)

O Anexo I estabelece a lista de animais cuja caça passava a ser estritamente proibida (frequentemente correspondendo às classes de proteção da Convenção de Londres, de 1933).

Na lista que reproduzimos no poste anterior, e no que diz respeito apenas à Guiné,  havia  valiosos pormenores taxonómicos, vernáculos e ecológicos, que merecem ser recordados ou conhecidos Para os mais interessados, e eventual pesquisa de informação adicional, aqui ficam os nomes vernáculos e científicos das espécies dos mamíferos e aves protegidas em 1955. (Poderão observá-los, numa próxima ida ao Jardim Zoológico, com os netos.)
 
  • Pangolim / Papa-formigas de escama (Smutsia, Phataginus, Uromanis)
  • Urso formigueiro / Porco formigueiro (Orycteropus afer)
  • Chimpanzé (Pan troglodytes)
  • Macaco bijagó / Macaco de nariz branco (Cercopithecus nictitans)
  • Macaco fidalgo (Colobus polycomos polycomos)
  • Gato almiscarado / Civeta (Civettictis civetta)
  • Leopardo ou onça (Felis pardus)
  • Elefante de floresta (Loxodonta cyclotis)
  • Manatim ou peixe-mulher / peixe-boi (Trichechus senegalensis)
  • Cabra grande / Muntual (Cephalophus silvicultor)
  • Elande gigante (Taurotragus derbianus)
  • Oribi / Gazela da pedra (Ourebia ourebi quadriscopa)
  • Palanca vermelha / Boca branca / Matagaiça (Hippotragus equinus)
  • Sitatonga / Inhala das lagoas (Limnotragus spekii selousi)
  • Tancon (Alcelaphus buselaphus major) ou alcefe da África Ocidental)
  • Abutres / Jagudis (Gyps, Pseudogyps, Trigonoceps, Neophron, Necrosyrtes)
  • Andorinhas (Hirundo, Petrochelidon, etc.)
  • Calaus / Alma de biafada / Peru do mato (Bucorvus abyssinicus)
  • Cegonhas (Ciconia)
  • Estorninhos (Cinnyricinclus, Lamprocolius, Lamprotornis, etc.)
  • Galinha azul / Galinha de poupa (Guttera edouardi pallasi)
  • Garças brancas / Carraceiras (Bubulcus ibis, Casmerodius, etc.)
  • Marabu (Leptoptilos crumeniferus)
  • Papagaio cinzento (Psittacus erithacus timneh), endémico/característico do arquipélago dos Bijagós
  • Pavão gigante (Corythaeola cristata),  o Turaco-gigante)
  • Pratíncolas / Aves das locustas (Glareola, Galachrysia)




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Desenhados nas paredes das instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento em Iemberém

Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 >  Alguns dos animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento

Fotos de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no âmbito do Simpósio Internacional de Guile modje (Bissau, 1-7 de março de 2008).

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

(iii) Observações Histórico-Ecológicas

Nomenclatura vernácula local:  a Guiné-Bissau, apesar de muitos erros do passado e do presente, ainda é uma "Africa em miniatura": a sua riqueza, nomeadamente faunística, vai a par da riqueza lexical e linguística, resultante da existência do português, do crioulo e de dezenas de línguas locais... Tome-se como exemplo o búfalo, que eu nunca vi na natureza (e também nunca fui caçador):
  • nome científico: Syncerus manus planiceros (Bly); 
  • em crioulo, Bufre;  
  • em balanta, Impungde; 
  • em fula, Edá; 
  • e Siô, em mandinga.
O documento acima citada (Decreto nº 40040, de 20 de janeiro de 1955)  é muito rico ao registar nomes tradicionais e crioulos da Guiné. Termos que refletem a assimilação e catalogação da fauna pela administração com recurso aos conhecimentos locais. Alguns destes termos, em crioulo, já nos eram familiares na Guiné, com o coloquial "sancu" (macaco):
  • "Jagudi" para abutre (em crioulo, cacur);
  • "Alma de biafada" para calau;
  • "Boca branca" ou "Matagaiça" para a palanca vermelha;
  • "Muntual" ou "Muntu" para a cabra grande;
  • "Fatango" e "Macaco fidalgo" para os colobos;
  • "Onça" para o leopardo;
  • "Peixe.mulher" para o manatim;
  • "Tucurtacar" para o pangolim;
  • "Lobo" para a hiena (nos contos tradicionais guineenses);
  • "Dari" para chimpanzé; 
  • "Sancu" (macaco, em geral; babuino ou "macaco-cão", em especialidade), etc.
Biogeografia  do território: a  inclusão de mamíferos como o manatim (comum nos ecossistemas estuarinos e no arquipélago dos Bijagós), do chimpanzé (florestas do sul) e do elande gigante e tancon (savanas do interior/Leste) demonstra uma visão abrangente da diversidade de biomas guineenses (desde os mangais e florestas costeiras às savanas do interior).

Impacto do regime de caça utilitária e aborígene: o diploma distingue expressamente os direitos de caça dos indígenas (usando "armas gentílicas" para subsistência em terrenos abertos) da caça recreativa ou utilitária praticada por colonos ou turistas mediante licenças pagas.

Legado na conservação: o Decreto n.º 40040 preparou o terreno técnico para a criação da rede de parques nacionais e naturais da Guiné-Bissau, no pós-.independência. 

Pesquisa: LG + Blogue + IA (Gemini / Google)
(Condenação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
______________

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Após dois textos em que se sumariou o pensamento de Patrick Chabal que analisou em grande angular a guerra e a descolonização, a emergência de políticas pós-coloniais, como se tentou construir o socialismo, quais as falhas do Estado de partido único e como se operou a transição para o pluralismo político, segue-se agora o estudo da Guiné-Bissau, trabalho que coube ao renomado investigador Joshua Forrest.
Veremos neste primeiro texto como o PAIGC não se mostrou capaz de atingir os seus objetivos em matéria de construção do sistema político ou do desenvolvimento económico, analisam-se as reformas económicas, como e porque falharam e, igualmente, como a liderança do PAIGC, desprezando o pensamento de Cabral, se foi afastando de auscultar e fazer vingar as aspirações populares.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 3


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Como observa no proémio Patrick Chabal, o livro tem o objetivo de superar a perspetiva especificamente lusófona que penaliza a maioria das descrições da África língua portuguesa, a discussão anda em torno do desenvolvimento destes cinco países. Dedicámos dois textos ao estudo que Chabal fez sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada: a guerra e os seus efeitos; o nacionalismo e o exercício político pós-colonial: como se criou a nação e quis construir o socialismo; o que falhou nas experiências do partido único e como se transitou, mesmo nos estados de guerra civil para o pluralismo político. Sendo a segunda parte do livro dedicada à análise dos cinco países, obviamente, atendendo à natureza do nosso blogue, socorri-me do estudo da Guiné-Bissau elaborado por um incontestado especialista da região, Joshua Forrest.

A Guiné-Bissau nasce num quase estado de graça, confiava-se no PAIGC pelo seu comportamento durante a luta armada, a liderança de Amílcar Cabral colocara a Guiné com uma enorme visibilidade internacional. Cabral avisara os seus companheiros dos perigos emergentes da independência e da afirmação de comportamentos ingénuos e até imitativos da herança colonial. Foi exatamente o que veio a acontecer, as opções de política económica beneficiaram diretamente as elites do Estado; subavaliaram-se as heranças sociais, políticas e económicas do período colonial e a atividade política do PAIGC tornou-se facciosa, desfasou-se a direção política dos reais interesses da população. As elites políticas tomaram decisões que levaram à explosão da dívida externa; no período de Luís Cabral (1974-1980) alimentou-se a ideia de que o país tinha que acelerar a sua industrialização, o desenvolvimento da agricultura viria depois, isto esquecendo a lição de que a infraestrutura estatal colonial praticamente não é à lei de Bissau, o mesmo é dizer que o Governo não possuía capacidade administrativa para a pôr em prática com êxito. Com empréstimos externos e com a ajuda internacional, sonhou-se na construção de um gigantesco complexo agroindustrial que custou milhões e nunca funcionou; numa fábrica de montagem de automóveis; recebeu-se uma fábrica de refrigerantes pronta a funcionar e não se instituiu um plano de gestão viável, etc. etc. Como observa Forrest, enquanto cresciam as falhas de abastecimento e faltava dinheiro e era bem visível que as elites estavam de costas voltadas para as populações fora dos principais aglomerados, o interior rural onde vivia cerca de 85% da população, as pessoas mantiveram vivas as instituições políticas na dimensão comunitária.

Não se conseguiu romper com este problema existente em toda a África subsariana: a ausência de burocracias bem institucionalizadas e falta de familiaridade com uma cultura política baseada em regras. Problema que se manteve durante a presidência de Nino Vieira, esta agravada pelo personalismo e pelo florescimento da discórdia entre fações. Forrest analisa a reforma económica, seria a trave-mestra para transitar para o socialismo, nacionalizou-se tudo, a economia formal passou a ser gerida através dos Armazéns do Povo, uma cadeia de 120 pontos de venda de mercadorias e da SOCOMIN (Sociedade Comercial Industrial) um organismo governamental de importação-exportação que procurava proporcionar aos guineenses uma troca justa dos seus produtos agrícolas por bens importados. Acontece que se impuseram preços baixos aos produtores, estes procuraram melhores preços fora dos organismos nacionalizados, cresceram as práticas corruptas, como a especulação por parte dos gestores.

As reformas falharam, o Estado tornou-se cada vez mais dependente da ajuda externa e dos projetos internacionais de desenvolvimento. A classe política revelou-se incapaz de criar uma visão rigorosa nos métodos de produção. “Por exemplo, decidiu-se utilizar tratores e vários dispositivos mecânicos modernos em substituição do trabalho normal e da participação local da construção de barragens fluviais, com vista a criar arrozais ou a restaurar os mais antigos. No entanto, tal como sucedera no período colonial, a coordenação múltipla e os erros técnicos produziram resultados insatisfatórios – foi o caso das eclusas dos canais incorretamente instaladas. Como resultado destes e de outros fatores, metade das minibarragens e dos diques modernos teve efeito negativo na produção de arroz.”

O autor recorda que no final da década de 1970 assistia-se a uma paralisia do setor comercial formal, o Governo iniciou reformas de privatização em 1984, apareceu uma linha de crédito do FMI, iniciaram-se programas de ajustamento cultural, que incluíam o incentivo à iniciativa privada, a desvalorização da moeda, a redução da despesa pública, cortes dos subsídios alimentares e o aumento dos preços ao produtor, nomeada no caju e nos óleos.

Estas reformas do ajustamento estrutural e a nova política de privatização teve consequências bem problemáticas. Apareceram em grande quantidade propriedades rurais, as chamadas “pontas”, estas têm uma longa história desde o século XIX. “A expansão destas pontas no final dos anos 80 e no decénio seguinte refletiu a viragem do Estado pós-colonial para a privatização, tendo sido os seus proprietários, os ponteiros quem mais beneficiou de empréstimos a médio e longo prazo. O problema é que a maioria desses ponteiros se compunha de altos funcionários do Governo que não eram comerciantes ou agricultores e, portanto, não possuíam as competências nem o compromisso de transformar as suas novas contas em empresas produtivas. Como consequência, poucos hectares de terra foram efetivamente dedicados à agricultura comercial, apesar de estes ponteiros terem recebido empréstimos favoráveis no âmbito do processo de privatização agrícola.”

Com a dependência do regime de Nino Vieira face às fontes de financiamento externas, acreditou-se no milagre da moeda, integrou-se a Guiné-Bissau na zona do franco CFA, passou a ser a moeda oficial em janeiro de 1997. Alguns comerciantes tiraram proveito da liberalização do comércio. A maior parte dos guineenses continuou a sobreviver à custa dos mercados informais locais e de longa distância. De modo insidioso, o regime no poder deslocava-se confiante para órbitas estrangeiras, completamente indiferente às repercussões mais alargadas das suas decisões para a população em geral.


Patrick Chabal (1951-2014)
Joshua Forrest

(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Patrick Chabal já era um investigador distintíssimo quando se lançou neste empreendimento que se transformou num trabalho que é hoje de consulta obrigatória de quem se lança na pesquisa no antes, no durante e depois do grito anticolonialista das cinco colónias portuguesas em África. Trabalho que se desdobra em duas partes, a primeira completamente a cargo de Chabal, ele disserta sobre as condições em que se processou o fim do Império português em África, como os novos Estados se lançaram na construção do socialismo, como ocorreu o falhanço e se transitou para o pluralismo político; a segunda parte prende-se com os estudos dos cinco países, investigação imensa, a cargo de especialistas altamente qualificados.
Iremos dar voz à dissertação de Joshua Forrest sobre a Guiné-Bissau. Recordo ao leitor que esta vasta investigação compreende os primeiros 25 anos dos cinco novos países independentes de língua portuguesa, foi editado originalmente em 2002 e só este ano é que teve direito à edição portuguesa graças a Tinta-da-China. Por todas as razões, é de leitura obrigatória para todos os públicos.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 2


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Patrick Chabal, como vimos no texto anterior, alude aos aspetos essenciais que levaram ao fim do Império, como se desenvolveu a guerra até ao ponto de se ter enquistado a ideia de não haver solução militar; dá-nos depois uma perspetiva histórica da descolonização, e conclui como historiador dizendo que nos últimos 20 ou 30 anos as análises apresentadas é do Estado na África pós-colonial, mas há um senão que ele aponta:
“É intrigante concluir que durante muito tempo os estudiosos insistiram em alimentar a crença de que a evolução do Estado Africano pós-colonial devia ser igual à de outras partes do mundo. A enorme discrepância que marca o desenvolvimento dos Estados europeus devia ter alertado os africanistas para a improbabilidade de o Estado Africano pós-colonial seguir o exemplo de qualquer antecessor reconhecível. Os africanistas foram durante muito tempo induzidos a acreditar que os caprichos do Estado africano pós-colonial explicavam a política africana.”

E, mais adiante:
“A resistência, assim como as deficiências do Estado pós-colonial explicam-se melhor pela natureza dos laços muito complexos que unem, em vez de simplesmente oporem, Estado e sociedade. As redes clientelistas que ligam o Estado e a sociedade são de tal modo numerosas e extensas que garantem a manutenção de um sistema político neopatrimonialista no qual o Estado só detém a supremacia na medida em que é colonizado pela sociedade. Os políticos derivam a sua legitimidade da capacidade de apaziguar os seus clientes. Na África pós-colonial é, em grande parte, uma ilusão ver o Estado como o agente do desenvolvimento económico (socialista ou capitalista). Enquanto no Sudeste e no Leste Asiático, por exemplo, o Estado tem sido, com frequência, o responsável direto por taxas de crescimento económico impressionantes, em África ele tem sido o principal instrumento do ímpeto neopatrimonialista. Tem facultado aos detentores do poder do Estado e a todos os que a ele estão ligados por múltiplas redes o acesso aos recursos por si controlados.”

Chabal irá versar depois como se deu a criação da nação na África lusófona, qual o legado da experiência colonial, os obstáculos sentidos pelos dirigentes destes países, como se processou a construção do socialismo, já que para todos se afigurava o marxismo como ideologia orientadora; dá-nos um quadro de referência de como atuaram os dirigentes, as atuações foram verdadeiramente díspares. Veja-se como ele observa o caso da Guiné-Bissau:
“Embora se possa dizer com segurança que a ideologia deixou de ser politicamente relevante na Guiné-Bissau a partir do início da década de 1980, os alicerces do regime permaneceram estruturalmente socialistas até à alteração da Constituição, em 1994. A verdade, no entanto, é que o socialismo não afetou de forma significativa a construção da nação, ao contrário da construção do Estado, quer porque a legitimidade do partido não estava inicialmente em causa, quer porque a política formal, não teve repercussões importantes no plano local. Em grande medida, a evolução do regime pós-colonial respeitou a dos países vizinhos da África ocidental: um Estado neopatrimonialista de partido único, autoritário (mas não altamente repressivo), ainda que muitíssimo ineficiente. A alteração de liderança, em 1980, não afetou grandemente a natureza do sistema político. A cisão no interior do partido e a criação do PAICV ajudaram a liderança guineense a acelerar a sua transformação num instrumento de políticas patrimonialistas.”

Obviamente que a dimensão internacional acabou por ser determinante, havia o compromisso ideológico socialista e a ligação com o bloco soviético, mas cada um dos países agiu com flexibilidade, como foi o caso de Cabo Verde, com uma larga diáspora dos EUA e na Europa. Luís Cabral, na Guiné-Bissau, também procurou diversificar as fontes da ajuda externa, sem prejuízo de manter uma atitude amigável em relação ao universo socialista (Cuba e Europa de Leste). Com o tempo, ficou claro que a maioria do auxílio viria do bloco ocidental. Esta transição para uma política externa mais orientada para o Ocidente fortaleceu-se na presidência de Nino Vieira. Como também a Guiné-Bissau e Cabo Verde tinham beneficiado de um forte apoio por parte dos países ocidentais mais progressistas (Escandinávia, Países Baixos e Canadá) que tinham protegido os seus movimentos de libertação antes da independência. Nino, incapaz de corresponder ao modelo de desenvolvimento para o seu país aderiu à zona do franco CFA, estava à espera de um milagre económico e financeiro que não aconteceu. Chabal detalha o comportamento de todos estes cinco países.

A matéria seguinte tem a ver com as falhas dos Estados de partido único, tornaram-se clamorosas com o desmoronamento do Estado soviético, com maior ou menor velocidade mudou-se para um sistema político pluripartidário, também aqui o historiador destaca as nunces da diversidade, havia conflitos que não ficaram sanados, caso de Angola e Moçambique, Cabo Verde revelou a sua maturidade, o PAICV perdeu as eleições para o MPD; também o MLSTP, o partido do poder, foi derrotado pelo Partido de Convergência Democrática; veja-se agora o que ele escreve sobre a Guiné-Bissau:
“O caso da Guiné-Bissau é muito mais típico do que tem acontecido na África negra nos últimos dez anos. Apesar do enorme descontentamento contra o regime existente no país, não houve uma pressão organizada sistemática no sentido de uma mudança para um sistema político multipartidário. O único partido de oposição verdadeiramente ativo, o RGB/MB, estava sediado em Lisboa e contava apenas com um apoio limitado no país. Havia evidentemente cisões no seio do PAIGC, o partido governante, mas o presidente Nino Vieira conseguiu, ao longo dos anos, usá-las a seu favor e manter-se no poder com pulso firme. Foram as pressões externas que forçaram Vieira a aceitar a transição para a política multipartidária. Com efeito, só quando o Banco Mundial se recusou a manter os pagamentos do programa de ajustamento estrutural, é que o regime iniciou as reformas necessárias para a transição política. Vieira só agiu quando não lhe restou alternativa. Quando a Constituição foi alterada, em maio de 1991, o presidente já tivera oportunidade de analisar de perto o resultado das eleições em Cabo Verde e em São Tomé. Decerto, retirou os ensinamentos apropriado da derrota dos partidos no poder.”
Não deixará de agir até com crueldade esmagando oposições, deu brado a perseguição que fez a Vítor Saúde Maria, Paulo Correia e Viriato Pã, em eleições subsequentes perderá temporariamente o poder, irá retomá-lo depois do seu exílio em Portugal, culminará na sua execução bárbara, morto à catanada, e mostrado nas redes sociais.

Finda esta investigação de Patrick Chabal sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada, seguir-se-ão estudos dos cinco países, investigação de altíssima qualidade, iremos no texto seguinte falar da Guiné-Bissau e da investigação topo de gama do historiador Joshua Forrest.


Patrick Chabal (1951-2014)

(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 17 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28197: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (53): o caldo de chabéu e o funge (receitas tradicionais)

´

















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: LG + ChatGPT
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


Guiné-Bissau> Bijagós > Bubaque > Bijana > Chabéu. Foto: Patrício Ribeiro (2026)


1. O caldo de chabéu (também conhecido como
tchebem, em crioulo) é um prato tradicional da Guiné-Bissau, feito com a fruta da palmeira dendém.

Leva cerca de 1 hora e 30 minutos a preparar, à moda tradicional. Aqui fica uma sugestão de receita(s) para os nossos "vagomestres" (*).

Ingredientes

  • 500 g de chabéu (fruta do dendém)
  • 1 kg de carne (vaca), peixe fresco ou galinha
  • Raízes e vegetais a gosto (mandioca, sukulbebem, repolho/couve)
  • Temperos: cebola, tomate, alho, malagueta/gindungo e sal

Modo de Preparação 

(i) Cozer a fruta: coze o chabéu em água até que os caroços se comecem a soltar; escorre a água, guardando-a num recipiente à parte.

(ii) Esmagar: esmaga o chabéu num pilão até a pele e o caroço se separarem da polpa.

(iii) Extrair o caldo: passe a massa por água fria e coa num passador fino, espremendo bem. Volta a pilar e coar se necessário, até obter um caldo grosso e vermelho.

(iv) Preparar a carne/peixe: Num outro tacho, refoga a cebola, o tomate e o alho; junta a carne (ou peixe/galinha), tempera com sal e gindungo, e deixa estufar.

(v) Juntar tudo: adiciona os vegetais cortados e o caldo de chabéu ao tacho da carne. Deixa ferver em lume brando até que a carne e a mandioca estejam tenras. Serve quente. 

2. Não tendo nós, aqui em Portugal, o chabéu propriamente dito, temos de recorrer ao supermeracado...e comprar um garrafa de óleo de dendém.


Aqui vai então a receita refinada e exata utilizando o óleo de dendém de garrafa. Esta versão reduz o tempo de preparação para cerca de 45 minutos.

Ingredientes
(Versão prática)
  • Óleo de dendém: 150 ml (aproximadamente 2/3 de chávena)
  • Água quente: 1 litro
  • Proteína: 1 kg de carne de vaca (em cubos), galinha ou peixe firme
  • Vegetais: 1 mandioca média (em pedaços), 1/2 repolho e quiabos a gosto
  • Base: 1 cebola grande picada, 2 dentes de alho picados e 2 tomates maduros picados
  • Tempero: 1 malagueta (gindungo), sal e 1 cubo de caldo de carne (opcional)
Modo de preparação:

(i) Selar a carne: num tacho grande, deite 2 colheres de sopa do óleo de dendém; refogas a cebola, o alho e o tomate até murcharem; juntas a carne e deixas dourar por 5 minutos. 

(ii) Criar o caldo: temperas com sal, gindungo e o cubo de caldo;  vertes o restante óleo de dendém e adicionas imediatamente 1 litro de água quente; mexes bem para emulsionar.

(iii) Cozer os vegetais: juntas a mandioca e o repolho ao tacho; tapas e deixas ferver em lume médio-baixo durante 20 a 25 minutos (até a carne e a mandioca estarem quase tenras).

(iv) Apurar: adicionas os quiabos nos últimos 10 minutos; deixe o caldo destapado em lume brando para reduzir e engrossar ligeiramente.

O caldo deve ficar aveludado, com uma cor alaranjada escura e os sabores bem concentrados.
Podes acompanhar este caldo com arroz branco solto... ou acompanhar comn funge (vd. receita a seguir)

PS - Atenção: o óleo de palma (ou dendê ou dendém) é o óleo vegetal mais consumido do mundo. Embora seja extremamente eficiente (produzindo até 6 vezes mais óleo por hectare que outras culturas), a sua expansão descontrolada tem causado forte desflorestação em regiões tropicais como o Sudeste Asiático, ameaçando habitats de espécies como os orangotangos do Bornéu. Portanto, há questões sociais e ambientais a ponderar quando se compra o óleo (ou azeite) de dendém ou produtos feitos com recurso a este fruto, como cosméticos, etc. 

Por outro lado, há problemas de saúde a considerar. O uso do azeite de dendém deve ser moderado, tendo benefícios e malefícios.


Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Cananima > Simpósio Internacional de Guileje (Bissua, 1-7 de março de 2008  > 2 de Março de 2008 >  O famoso óleo de palma do Cantanhez. A sua cor vermelha intensa deve-se às características da variedade do chabéu (termo científico, Elaeis guineenses), que é rico em caroteno.


Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Cananima > Simpósio Internacional de Guileje (Bissua, 1-7 de março de 2008  > 2 de Março de 2008 >

A saudosa Cadidjatu Candé, da comissão organizadora do Simpósio Internacional de Guileje e colaborada da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento, servindo um fabuloso "caldo de chabéu" (arroz com filetes de peixe do rio Cacine e óleo de palma local, que tem fama de ser o mais saboroso do país, devido à qualidade da matéria-prima e às técnicas e condições de produção, artesanal. (**)

Na imagem, um diplomata português, o nº 2 da Embaixada Portuguesa, que integrava a nossa caravana (e cujo nome, por lapso, não registei, lapso de que peço desculpa).

Um dos pratos que foi servido no almoço de domingo, aos participantes do Simpósio Internacional de Guileje, foi peixe de chabéu, do Rio Cacine, do melhor que comi em África... Durante a guerra colonial, na zona leste, em Bambadinca, só conheci  o desgraçado peixe da bolanha que sabia  a lodo.... "Chabéu de frango" comi algmnas vezes, delicioso, na casa do comerciante de Bambadinca, o Rodrigo Rendeiro.  O "frango de chabéu" da dona Auá Seidi, mulher do Fernando Rendeiro, ficpou-me no goto. O funge só comi em Angola...

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís  Graça & Camaradas da Guiné] 


3. O funge (ou fufu) tradicional que acompanha o caldo de chabéu é feito à base de farinha de mandioca (ou de milho) e água. O segredo está na força do braço para bater a massa e evitar grumos

Mas atenção: como nos esclarece e bem, o nosso Cherno Baldé, o funge é angolano, não é guineense. (Temos aqui uma "calinada" da IA que é americana e, como tal, não sabe degeografia; ,etemos os dois a pata na poça, ao fazer a ilustração a quatro mãos; vou fazer um outro poste, a corrigir: não quero arranjar nenhum problema diplomático entre os meus amigos angolanos e os guineenses.)

Funge e fufu...Origem dos termos: (i) funge: é o termo utilizado na culinária de Angola e de São Tomé e Príncipe para designar a papa feita de farinha de milho ou de mandioca;  (ii) fufu: tem origem na África Ocidental (Gana e Nigéria) e refere-se à massa elástica feita a partir de inhame, banana-da-terra ou mandioca cozidos e pilados

Esta receita (de funge)  rende 4 porções e fica pronta em apenas 20 minutos.

Ingredientes

  • Farinha de mandioca torrada ou fina: 250 gramas
  • Água: 1 litro
  • Sal: 1 colher de café (opcional, já que o caldo é bem temperado)
Modo de preparação:

(i) Aquecer a água: coloca 800 ml de água numa panela alta com o sal e leve ao lume até ferver.

(ii) Dissolver a farinha: numa tigela à parte, mistura os 250 g de farinha de mandioca com os restantes 200 ml de água fria; mexe bem até formar uma papa lisa e sem caroços.

(iii) Misturar: assim que a água da panela estiver a ferver, verte a papa de farinha lentamente, mexendo sempre e vigorosamente com uma colher de pau (ou um bastão de funge).

(iv) Bater o funge: baixa o lume para o mínimo; usa a colher de pau para esmagar a massa contra as paredes da panela; faz  movimentos circulares rápidos e fortes (isto garante que a massa fique elástica e homogénea).

(v) Cozimento final: deixa cozer em lume muito brando por mais 5 a 8 minutos, mexendo de vez em quando. O funge está pronto quando estiver brilhante, translúcido e a soltar-se do fundo da panela.

Como servir:

(i) molha uma tigela pequena em água fria;
(ii)  coloca uma porção de funge quente lá dentro;:
(iii) abana a tigela em círculos para moldar uma bola perfeita;
(iv) coloca no prato e verte o caldo de chabéu bem quente por cima.

Pesquisa: LG +  Fundação Slow Food para a Biodiversidade +  IA (ChatGPT / Open AI)
Condensação, revisão de texto, negritos: LG
____________________

Notas do editor LG:´
´
(*) Último poste da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28086: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (52): Favas com peixe frito à moda de Monchique (comidas numa tasca de Portimão, em 26/5/2026)

(**) Vd. postes de: