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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28392: Foi há... (13): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultramar - Parte II: Sobretudo os Açores (mas também a Madeira e Portugal continental) foram a "moeda de troca" de Salazar para entrar na NATO... que no entanto nãp connegiu salvaguardar o império coloniall

 



Foto (e legenda): "5. Desembarque de um Batalhão de Infantaria em Ponta Delgada - II Guerra Mundial. Col. R. Soares; Rezendes, 2019."


Fonte: Sérgio Rezendes: Receios, Privações e Misérias num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores. Portal de Defesa Nacional, 2023 (com a devida vénia...). cd,. artigo oroiginal: Rezendes, Sérgio – Receios, Privações e Miséria Num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores​. Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Portugal no Contexto da Segunda Guerra Mundial, 1939-1945. [Em linha] Ano III, nº 4 (2023).[Consultado em 30 de setembro de 2026.], https://doi.or​g/10.56092/FWBM1414​

Restauro, melhoria técnica e colorização: IA (ChatGPT/OpenAI), sob prompting e orientação editorial de LG.

Foto original a sépia, do famoso N/T Serpa Pinto (1914-1955), Construído em 1914 na Irlanda , foi adquirtida pela CCN - Companhia Colonial de Navegação em 1940. A duas hélices, tinha c. 142 metros de comprimento, e c. 8,27 mil toneladas de arqueação bruta. Capacidade: 160 tripulantes,m e 600 passageiros. Comhecido como o "Navio da Amizade" devido ao seu papel crucial durante a Segunda Guerra Mundial, com inúmeras viagens transatlânticas transportando milhares de refugiados de guerra, incluindo uma grande quantidade de judeus que fugiam do nazismo rumo às Américas. O seu casco exibia orgulhosamente o nome e a bandeira de Portugal em letras garrafais para evitar ataques de submarinos. Mas chegou a estar, em na noite de 26 de maio de 1944, ao largo das Bermudas, a caminho de Filadélfia, na mira de um U-boat para ser afundado, valeu-lhe o veredicto final do almirante Karl Dönitz (1891 - 1980), em Berlim.



Madeira > Funchal > Parque de Santa Catarina > Monumento aos gibraltinos (excerto da lápide, em português e em inglês) (Fonte: adapt de Tripadvisor)

Durante a 2ª Guerra Mundial, cerca de 2000 gibraltinos, na sua maioria mulheres e crianças, foram evacuados para o Funchal, ficando instalados em hotéis, pensões e casas particulares até ao fim do conflito. Muitos deles criaram raízes na Madeira, contribuindo para que a respetiva comunidade tenha, até hoje, uma estreita relação com a cidade.  Cerca de 7 dezenas também morreram durante esse período (1940-1945), a maioria devida a surto de tifo.

O pequeno monumento em mármore foi oferecido à RAM pela comunidade de Gibraltar e  inaugurado em 2008. A cidade do Funchal tem, desde 2009, um acordo de geminação com Gibraltar.

 

1. A II Guerra Mundial e o seu fim (1945) foram vividos de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos diferentes territórios (ilhas adjacentes e colónias)   e as consequências humanitárias, demográficas, sociais e económicas 

Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época, disponíveis em acesso livre:

Ilhas Adjacentes: Açores e Madeira


A importância das Ilhas Adjacentes (Açores e Madeira) no contexto da Segunda Guerra Mundial e no xadrez diplomático da "neutralidade colaborativa" de Salazar é um dos capítulos  da nossa história contemporânea que os portugueses não conhecem ou conhececm mal.

Falemos primeiro dos Açores. O arquipélago  teve um papel estratégico crucial na guerra, especialmente a partir de 1943, quando Portugal cedeu bases aos Aliados sob pressão britânica e americana.

Recorde-se que pelo Acordo de 17 de agosto de 1943, Salazar autorizou os britânicos a usar os portos de Horta (Faial) e Ponta Delgada (São Miguel), bem como os aeródromos de Campo das Lajes (Terceira) e Campo de Santana (São Miguel).

A 8 de outubro de 1943, os britânicos desembarcaram em Angra do Heroísmo e construíram a Base Aérea das Lajes, que se tornaria um ponto de viragem na Batalha do Atlântico.

Em 1942, os Aliados tinham perdido 5,48 milhões de toneladas de mercadorias no Atlântico Norte. No último trimestre de 1943, com as operações a partir das Lajes, as perdas caíram para apenas 146.000 toneladas. 53 submarinos alemães (U-Boats) foram afundados graças às operações dos Açores  

Em 1944, oss americanos construíram uma base em Santa Maria e, em 1945, uma nova base na Terceira (a atual Base das Lajes).

  • Açores: a Operação Alacrity e a mudança de rumo na Batalha do Atlântico

O papel dos Açores no conflito transcorreu entre a diplomacia cautelosa  e o realismo militar do Governo Português, mas também dos dois lados do conflito que nunca esconderam a importância do arquipélago.

Antes da cedência formal das instalações em 1943, os Açores estiveram sob ameaça constante de ocupação por ambos os blocos. Ou seja, viveu-se sob o fantasma da invasão (1940–1942).

Os britânicos planearam a Operação Stimson (e mais tarde a Operação Alacrity) para tomar o arquipélago "manu militari" se Portugal caísse sob influência do Eixo. Por seu turno, o Alto Comando alemão equacionou a Operação Félix e a ocupação dos Açores para fechar o Atlântico aos Aliados.

Face ao risco iminente de invasão estrangeira e da perceção de que o continente não conseguiria defender as ilhas à distância (são cerca de 1450 km a distância que separa Lisboa de Ponta Delgada), o governo reforçou massivamente as defesas insulares. 

Entre 1941 e 1943, cerca de 30 mil expedicionários portugueses (do Exército e da Armada) foram enviados para o arquipélago, transformando o quotidiano de ilhas pacatas como a Terceira, São Miguel e Faial. Teve grande impacto demográfico na altura (sxegundo o censo de 1940, os Açores contavan com 287 mil habitantes!). Por outro lado, esta expedição foi um desastre do ponto de vista do planeamento, do financiamento, da logística e da execução, segundo o  historiador açoriano Sérgio Rezendes (op. cit., 2023(.
.
Até meados de 1943, existia uma vasta zona no centro do Atlântico Norte fora do alcance da cobertura aérea baseada em terra. Era o chamado "Buraco do Atlântico" (Mid-Atlantic Gap). Era ali que os U-Boote, os submarions alemães,  atacavam os comboios de abastecimento com quase total  impunidade. A abertura da Base das Lajes fechou essa lacuna operacional, permitindo patrulhas antisubmarinas contínuas com aviões de longo alcance (como os B-24 Liberator).
 
Embora as facilidades tenham sido inicialmente concedidas à Grã-Bretanha, no âmbito da velha Aliança Luso-Britânica de 1373, a entrada em cena dos Estados Unidos (através da construção do aeródromo de Santa Maria pela US Army Air Forces em 1944) redefiniu a importância geopolítica dos Açores para o pós-guerra, inserindo Portugal na esfera de segurança atlântica das potências ocidentais.

 A presença militar trouxe dinamismo económico, mas também tensões com a população local, que via a ocupação estrangeira como uma violação da neutralidade.

A Base Aérea N.º 4, sediada na Ilha Terceira, nos Açores, celebrou,  no passado dai 12 de junho de 2021, oito décadas de existência

A importância geoestratégica do arquipélago dos Açores só por si justificou a necessidade de existir uma grande infraestrutura aeronáutica, sobretudo porque garantia uma superioridade aérea sobre a naval. Tal fator foi determinante para a chegada de meios aéreos aos Açores pela primeira vez.

Face à evolução da II Guerra Mundial, em 1941 o Governo Português destacou para os Açores um Corpo Expedicionário, formado por duas Esquadrilhas de Caça: a Esquadrilha n.º 1 com destino à Ilha de São Miguel e a n.º 2 para a Ilha Terceira.

Aquando da chegada da Esquadrilha da Caça n.º 2, a construção da pista nas Lajes já se encontrava quase concluída, tendo sido declarada como apta para operações em 11 de julho de 1941.

A presença das forças da aeronáutica nos Açores conduziu em 4 de agosto de 1942 à criação da Base Aérea n.º 4, na Ilha de S. Miguel, e da Base Aérea n.º 5, no Aeródromo das Lages, na Terceira.

  • Madeira: evacuação de Gibraltar e crise social

Embora a Madeira não tenha acolhido bases aéreas militares estrangeiras, desempenhou um papel importrante, no plano humanitário, logístico e estratégico:

(i) Operação de evacuação de Gibraltar (1940):  dada a sua proximidade com o Rochedo de Gibraltar (sob controlo dos britânicos), a Madeira serviu como ponto de apoio para os Aliados, especialmente após a evacuação de Gibraltar em 1940.

Antecipando potenciais ataques alemães ou espanhóis à fortaleza de Gibraltar, o Reino Unido evacuou a sua população civil. A Madeira acolheu cerca de 2 000 gibraltinos (sobretudo mulheres, crianças e idosos), que permaneceram na ilha até ao final do conflito. Estabeleceu-se uma forte ligação afetiva entre os evacuados e os madeirenses, mobilizando hotéis e quintas no Funchal para os alojar.

A ilha recebeu também outros refugiados (incluindo judeus e outros europeus em fuga do nazismo), embora em menor escala do que Macau ou Lisboa.

(ii) Guarnição militar: a Madeira contou com um contingente reforçado de cerca de 1 000 a 1 500 expedicionários continentais, encarregados da defesa da ilha, do controlo das comunicações por cabo submarino e da vigilância das rotas navais; a ilha não tinha um 
aeródromo.

(iii) Operação Ripper: foi o nome de código de uma operação militar que os britànicos planearam para capturar a Madeira, acção ponderada entre fevereiro de 1942 e meados de 1943.

(iv) Privações económicas e mercado negro: o bloqueio naval e a escassez de combustível paralisaram o comércio tradicional do vinho da Madeira e do bordado, além de dizimarem o turismo. A ilha viveu anos de  escassez de alimentos, inflação, racionamento severo, racionamento de eletricidade, surtos de fome pontuais e o florescimento da especulação e do mercado negro.  A população madeirense teve de enfrentar privações semelhantes ou até maiores do que as do continente

  • Reações insulares ao fim do conflito (maio–agosto de 1945)

A notícia da rendição da Alemanha (Maio de 1945 - Dia V-E) e do Japão (Agosto de 1945 - Dia V-J) provocou reações distintas, mas intensas, em ambos os arquipélagos

(i) Alívio social e desmobilização: a primeira reação da população e das tropas foi de enorme alívio; o fim do conflito significava o regresso progressivo dos milhares de jovens expedicionários ao continente e o restabelecimento das rotas marítimas civis e do abastecimento de bens essenciais;

(ii) Manifestações públicas e tensões políticas: nos Açores e na Madeira, o fim da guerra levou multidões às ruas em celebração da vitória dos Aliados; em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e no Funchal, os desfiles de celebração pró-Aliados transformaram-se por vezes em manifestações de aspiração democrática; setores da oposição ao Estado Novo viam a vitória das democracias ocidentais como o prenúncio da queda das ditaduras ibéricas; o governo de Salazar acompanhou atentamente estas celebrações, limitando ajuntamentos que pudessem derivar em contestação política ao regime;

(iii) O legado das infraestruturas: o fim da guerra deixou um património transformador, sobretudo nos Açores: as pistas, instalações e redes telefónicas construídas em Santa Maria e na Terceira converteram os Açores num nó central da aviação comercial transatlântica no pós-guerra.

A centralidade estratégica demonstrada pelas Ilhas Adjacentes (e sobretudo dos Aççores) durante o conflito foi a principal "moeda de troca diplomática que permitiu a uma ditadura como a de Salazar figurar como membro fundador da NATO em 1949.

Essa é uma das grandes contradições históricas da fundação da NATO / OTAN. . Portugal entrou na NATO em 4 de abril de 1949 como um dos 12 membros fundadores, apesar de o Estado Novo de Salazar ser um regime autoritário e não democrático (partido único "de facto", censura, polícia política, ausência de vredadeirias eleições livres, repressão da oposição). 

Como explicar ? O Tratado dizia, no preâmbulo, que os membros estavam determinados a defender uma civilização fundada na democracia, liberdades individuais e Estado de direito.

Mas o artigo 10.º, que regulava a entrada de novos membros, era muito mais pragmático: permitia convidar, por unanimidade, qualquer Estado europeu, independentemente do seu regime político,  capaz de contribuir para a segurança do Atlântico Norte e promover os princípios do Tratado.  

E a  azão fundamental era bipolarização do mundo no pós-guerra e o início da Guerra Fria.

Os Estados Unidos e o Reino Unido olhavam sobretudo para a geografia militar. A questão do carácter ditatorial do regime de Salazar foi metida debaixo do tapete. Portugal era então extraordinariamente importante:

  • Açores: posição a meio do Atlântico, fundamental para a ligação aérea e naval entre a América do Norte e a Europa;
  • Portugal continental: posição atlântica e controlo das aproximações marítimas;
  • Madeira: completava, juntamente com o continente e os Açores, o chamado triângulo estratégico português.

Salazar, político hábil,  percebeu perfeitamente o valor dos Açores, o porta-aviões "natural" do Atlântico Norte... Mas Salazar não deu os Açores e recebeu a NATO. Foi uma troca diplomático-estratégica muito mais complexa: Portugal oferecia uma posição atlântica de enorme valor militar e Salazar obtinha reconhecimento internacional e legitimidade para o seu regime.

Mas há aqui uma ironia histórica, que importa sublinhar:  Portugal tentou aproveitar a negociação para, "à boleia",  obter outras vantagens, nomeadamente a inclusão das colónias portuguesas na área do Tratado (que só abrangia o Atlàntico Norte)  e a entrada da Espanha franquista. Os aliados recusaram ambas as pretensões. Portugal entrou, mas não conseguiu transformar a NATO numa garantia da manutenção do império colonial.

 A própria história oficial da NATO hoje reconhece explicitamente que Portugal era, em 1949, uma ditadura sob Salazar,  e que a sua importância estratégica ajudou a ultrapassar essa questão.  Mais: a NATO  não ajudou a “democratizar” Portugal, como alguns esperavam (incluindo alguns setores da oposição democrática) em 1949. Pelo contrário: o regime de Salazar iria permanecer no poder durante mais 25 anos ! 

Mas a NATO também foi uma escola de valores e competências para muitos militares portugueses (de Humberto Delgado a Costa Gomes) que, direta ou indiretamente, acabaram por contribuir para a restauração da democracia e o fim da guerra colonial.

(Pesquisa: LG + Wikipedia + Revista Minerva + Diário de Notícias  (Funchal) + NATO +  Defesa Nacional + IA)

(Condensação, revisão / fixação detexto, negritos; LG)
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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28294: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XII : Que futuro para os jovens que, dizem, são o futuro ?!


Timor-Leste > "Estudantes protestaram em frente ao Parlamento Nacional de Timor-Leste, exigindo o fim da lei da pensão vitalícia e pedindo mais investimento nos setores produtivos para criar oportunidades e desenvolver o país.

"Com poucas oportunidades de emprego e salários que muitos consideram insuficientes para construir uma vida estável, milhares de jovens timorenses continuam a olhar para o estrangeiro como uma oportunidade para mudar de vida. Outros preferem ficar e apostar no empreendedorismo, na agricultura ou em pequenos negócios.

"Timor-Leste é um dos países mais jovens da região. De acordo com os Censos de 2022, cerca de 65% da população tem menos de 30 anos. Esta geração representa uma enorme reserva de energia e potencial para impulsionar o desenvolvimento do país."

Entre partir e ficar: o futuro da juventude timorense (com a devida vénia...)

 

1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).


São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e fez recentemente uma operação cirúrgica, delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Ele é um exemplo vivo de amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar (a ASTIL), Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia, o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Estamos agora a publicar as do ano de 2019.



III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XII: semana de 21  a 27 de abril



21.04.2019, domingo  - Feliz Páscoa!...


O sol brilha. “ Ele é belo, radiante e com todo o esplendor: de Ti Altíssimo é a
imagem.” (Cântico das Criaturas)

E, se ontem à noite a lua quis associar-se ao evento da da vigília pascal, hoje o sol não quis ficar para trás, espalhando a notícia: ALELUIA! O SENHOR RESSUSCITOU!... FELIZ PÁSCOA!...  

E vêm à memória uma catadulpa de canções e músicas relacionadas com a Páscoa (...).

O Domingo de Páscoa aqui em Timor, para além das cerimónias religiosas/ missas dominicais em que muita gente participa, pouco ou nada se passa fora do normal.

Nada que se compare com a animação que se observa sobretudo no norte de Portugal, onde a visita pascal é a raínha. As procissões, as ruas com tapetes de flores, os folares, as amêndoas, os ovos de páscoa, etc fazem-nos alguma saudade e fazem crescer a água na boca. Paciência! Quem estiver mal que se mude (...).


Timor Leste > s/l > 2016 > O crvo vermelho e o acordeáo... O que seria o Rui sem eles, o carvo e o  acordeão ? O Rui, à esquerda, e o seu acordeão, levando às montanhas de Liquiçá a alegria, a esperança e a solidariedade das gentes da Malcata/Sabugal, e de outros lados de Portugal, de Coimbra à Lourinhã.  

O Rui com parte da  família Sobral, em Dili, no bairro Ailok Laran, em cuja casa ele fica quando vai a Timor-Leste.


Com a devida vénia à página do Facebook, Malcata.net, 21 de junho de 2016

 
22.04.2019, segunda feira  - Lições de acordeão

O acordeão é um instrumento pouco conhecido em terras do oriente, ainda que as suas origens mais remotas sejam na China. Era então um instrumento de sopro - o “Sheng” sendo o som produzido por palhetas numa das extremidades de cada tubo. 

Muitos anos mais tarde, fizeram diversas adaptações, sobretudo na Europa, sendo o ar produzido através de um fole que devidamente pressionado pelos braços faz vibrar as palhetas e tocar as notas da mão direita e da mão esquerda. Na Itália e na França situam-se as fábricas mais famosas da suas melhores marcas.

Aqui em Timor há quem toque (muito poucos instrumentistas) acordeão de teclado, mas acordeão de botões, acho que foi uma novidade quando eu apareci em 2016, tocando este estimado instrumento. Já explicarei a palavra “estimado'

Por isso há sempre alguma surpresa quando se ouve o toque do acordeão, que é um
timbre muito activo, e por isso impossível de lhe ser indiferente. Há dias lancei um repto à minha afilhada Adobe, que tem muito jeito para a música, sobretudo para cantar: 

- Não queres aprender a tocar acordeão? Eu ensino-te... 

Foi o que ela quis ouvir. Disse logo que sim, e a partir daí começamos já as lições. Hoje já foi a segunda e, digo-vos, a rapariga depressa vai aprender.

Porque é que referi “estimado” instrumento? Este acordeão é da Carolina, a filha mais nova do meu primo (irmão) Carlos, que Deus chamou para si na flor da idade, logo após fazer os dezassete anos. Tenho a certeza que ela lá no céu exulta quando eu, com carinho, me lembro dela e faço tocar o seu acordeão. O Carlos diz-me sempre: 

- Deixa-o estar que ele está em boas mãos.

 Terei todo o gosto do o estimar como se fosse meu. Mas não!... Ele é da Crolina e disso faço questão que o saibam.

A Adobe é uma menina com quase doze anos, que dentro de mais alguns terá a idade com que tu nos deixaste. Eu já lhe falei de ti, e tenho a certeza que nunca te irá esquecer, pois está a ter lições neste teu acordeão. Espero sinceramente que ela seja uma boa acordeonista e que, sempre que ela toque, a sua música chegue aos céus para júbilo de todos os que aí estão. Beijos meus e da Adobe. Sempre no coração!...

25.04.2019, quinta feira  - 25 de Abril...SEMPRE!...

Há quarenta e cinco anos. Aconteceu aquilo que muitos esparávamos: a libertação dos jugos de uma ditadura. Houve festa, houve flores, houve música e canções, houve alegria “ o povo saíu p’ra rua com alegria que (não) costumava ter”, manifestada em abraços e sorrisos rasgados; houve marchas, houve comícios e grandes concentrações.

Quem teve a sorte de viver este dia nunca mais poderá esquecer o que realmente se passou. Por isso, concordem ou não comigo, gritarei sempre, de peito bem erguido: 25 DE ABRIL ... SEMPRE!...

E não adianta que “os velhos do Restelo” ou “os profetas da desgraça” ostracizem esta comemoração, argumentando que isto está cada vez pior, clamando até pelo antigo regime, perguntando: “Foi para isto que foi feito o 25 de Abril?!” 

Claro que não!... A culpa dos males atuais não é do 25 d Abril. A culpa é de quem se serviu ou serve do poder, seja ele político ou económico, para escravizar os outros, para dominar e apropriar-se do que, por direito ou justiça não lhe não lhe pertence, para explorar e servir-se de esquemas de compadrio e corrupção. E, quem não se sente não é filho de boa gente. Mas até esta liberdade de nos podermos queixar é ao 25 de Abril que a devemos. (...)

E, sem ligar muito ao que irão dizer uns e outros, pois neste momento estou muito distante do local das operações, dir-vos-ei apenas que, à minha maneira, irei viver este dia com intensidade, pois nada nem ninguém poderá prender esta minha liberdade interior. 25 de Abril sempre!... VIVA O 25 DE ABRIL!....

25.04.2019 - Jovens timorenses... Que futuro?...

Já o afirmei noutros relatos: “a força de Timor Leste está nos seus jovens”.

É um chavão bem comum,  “os jovens são o futuro “. Mas não é por isso que eu estou escrevendo.

Esta manhã, ao ir dar um recado a casa do Anô, deparei-me com um grupo de jovens de 17 aos 30 anos (+ ou -) que, aparentemente,  nada faziam a não ser passar o tempo em amena cavaqueira. É frequente passarem por aqui durante o dia muitos jovens, individualmente ou em pequenos grupos,

A explosão demográfica aconteceu, consequência do incremento à natalidade que fizeram, depois da chacina feita pelas tropas indonésias e milícias timorenses (de 700.000 ficaram mais ou menos 500.00 habitantes).

 Famílias muito numerosas são a base atual desta sociedade timorense que, de um momento para o outro, se vê a rebentar pelas costuras, como soe dizer-se. Os diversos governos que têm exercido o poder, embora tenham já feito muita coisa, parecem impotentes de responder a todas as necessidades, particularmente às necessidades básicas de água, luz, saneamento. Há ainda muito a fazer neste domínio.

As escolas estão repletas de crianças que as frequentam. As universidades e institutos de ensino superior, idem. É uma alegria saber e verificar que a maioria das crianças vai à escola (exceção feita às crianças que vivem no interior, nas montanhas que, por dificuldades de deslocação, pais e crianças optam por ficar em casa). 

Nos dia de hoje, oitenta por cento da população timorense é alfabeta, resultado de um grande investimento na educação.

Chega?...É claro que não. Para além da quantidade, falta a qualidade. Mas é notório o esforço que todos vêm fazendo.

Então, qual é o problema? O problema é que estes jovens, muitos deles com cursos
superiores e universitários, não têm emprego. E trabalhar só para aquecer, sem o justo salário do seu trabalho, não dá. 

Muitos procuram trabalho no exterior, emigrando para a Coreia do Sul, para a Austrália, para a Inglaterra. Mas até neste sector já houve mais facilidades. Os processos de pedido de nacionalidade portuguesa, para depois poderem rumar para Inglaterra,  estão cada vez mais emperrados devido ao elevado número de pedidos e aos entraves da documentação incompleta ou falsificada.

A capacidade de resposta a esta juventude desempregada é insuficiente perante tantas solicitações. Eu não sei o que será de toda esta juventude que espera desesparada por uma resposta favorável. Até quando irão aguentar?

É compreensível que se houver um lider, venha ele de onde vier, que lhes prometa e responda aos seus anseios, possa rebentar esta bolha de ar comprimido que se está formando-

Mas o pior será se, para atingirem os fins em vista, esta matéria incandescente vira para a violência e outras coisas indesejadas. As memórias recentes das guerras e guerrilhas travadas pela independência, no último quarteirão do século passado, ainda estão muito presentes. Seria um castigo demasiado pesado para toda esta gente que, de alma e coração, é timorense. Oxalá que nunca mais!

Jovens, que futuro?... Incerto. Deus vos guie por bons caminhos!...

26.04.2019, sexta feira  - Lágrimas de alegria...

Quem espera sempre alcança. A Dílsia Rosa Oliveira, a Rosinha como carinhosamente lhe chamamos, foi das primeiras jovens a inscrever-se no programa de apadrinhamento que, há três anos, acabava de ser criado, integrado no Projeto de Solidariedade em Timor Leste. 

Quase todos os dias ela aparece por aqui, pois mora bem perto do local onde moramos, em Ailok Laran. Confesso que me dava pena sempre que chegava a notícia de algum apadrinhamento, ver a Rosinha ansiosa por saber se seria a sua vez.

Ontem, a meio da tarde, recebi um telefonema da educadora Mariana Gomes, que
trabalha na Escola Cafe de Taibessi, perguntando se era possível um encontro nesta tarde. De pronto respondi: 

- Claro que sim! Às horas que quiser...

Não demorou muito tempo, e já a Mariana e o seu “motor” davam entrada no pátio da família Sobral. Falamos de crianças, de música, da profissão, da vida neste país que agora nos acolhe. Por fim, a Mariana abordou o programa de apadrinhamento, pois já anteriormente tinha manifestado a vontade de apadrinhar uma criança /Jovem. 

Sendo sempre a decisão da responsabilidade de quem apadrinha, e depois de ser pedida a minha opinião uma vez que conheço todas as propostas, sugeri que fosse apadrinhada a Rosinha. Mais a mais a Rosinha pode vir aqui de imediato para que o conhecimento mútuo se estabeleça. A Mariana aceitou a minha sugestão e, em minutos, mandou-se chamar a afilhada que, surpreendida, perguntou várias vezes, sem querer acreditar:

- Ai?!... Vai ser minha madrinha?!... 

E, nervosa, levava as mãos ao seu rosto, chorando de alegria. A madrinha Mariana por sua vez repetia:

- Sim! Quero ser tua madrinha. 

E selaram este pacto com beijos e abraços bem apertados e lágrimas à mistura. Que cena de ternura que até faz inveja a quem faz de testemunha!...

A seguir será o preenchimento da ficha de apadrinhamento a incluir no processo.
Obrigado, Mariana,  em nome da Astil, por fazeres parte do nosso projeto de
solidariedade. Parabéns, Rosinha , pela madrinha que Deus te deu. Tens muita sorte de ter a Mariana como madrinha. Tenho a certeza que será uma relação muito eficaz.

27.04.2019, sábado  - As mães ... e os filhos

Vou falar-vos de mães e filhos galinhas e de mães e filhos teques (osgas) (náo confundir com as toqués). Ambas as mães na sua tarefa de ensinarem os seus filhotes a procurarem os alimentos que os sustentam e fazem crescer.

Ontem, uma galinha com os seus pintaínhos faziam aqui em frente uma demonstração de “ensinar para aprender” ou, por outras palavras, “aprender fazendo”. A mãe galinha esgravatava no chão e indicava o fruto do seu trabalho: um grão de arroz, um verme, um bicharoco, etc. Os pintaínhos, ainda mal saídos da casca, picavam também e aproveitavam as descobertas da mãe. Coisas da natureza...

Hoje, ainda mal se via, e estando à espera da luz do dia, vejo na parede do quarto uma mãe teque e a sua cria. A mãe estava ensinando a caçar mosquitos, uma verdadeira arte dos teques. Todas as noites presenciamos esta caça ao tesouro. Mas ver dar uma lição destas, de mãe ou de pai para o seu filho ou filha,  é um privilégio.

E eu, que tantos mosquitos tenho matado com a dita “raquete assassina”, começo a pensar que a natureza tem sempre surprezas para nos dar. Quem sabe se os mosquitos, estes seres tão odiados e perseguidos, não são mesmo necessários neste mundo em que vivemos. Pelo menos para alimentar esta ditas criaturas,  os teques que até dizem por cá darem sorte aos da casa. Que assim seja!...

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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domingo, 16 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28263: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (46): Muita honra e pouca glória...




















Prompt
original e composição editorial: Luís Graça.
Colaboração: João Rodrigues Lobo
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


Muita honra e pouca glória...

por Luís Graça

A pátria fora-lhe ingrata. Falava dela como se fosse uma mãe. Que abria o regaço. Que acolhia "filhos e enteados" . No meio da confusão. Dos tiros, dos golpes de Estado, das greves, das revoluções, das guerras.  Uma mãe nem sempre atenta, serena, lúcida, justa. Metendo por vezes todos no mesmo saco, "os bons e os maus". 

E continuava o seu solilóquio: mãe que retribuía com amor, com bonomia, com "benesses e tabefes" (sic), os sacrifícios que faziam por ela. Incluindo o supremo sacrifício da vida. Até à última gota de sangue.

 Sim, jurara perante  a "nossa bandeira verde-rubra", mesmo sendo "monárquico" ... Rituais que hoje se perderam, já não havia serviço militar obrigatório,  juramento de bandeira... Nem verdadeiro patriotismo.  Podiam julgá-lo antiquado mas ele ainda dava valor a esses símbolos. E  "à palavra dada".

Fora educado por professores e capelães, desde o Colégio Militar à Escola do Exército,  segunda a velha máxima: "É doce morrer pela pátria!"...

Doce ?!... Diziam  que sim mas era coisa que a  "alegre mocidade"  do seu tempo não levava muito a sério.  Aos 10, 15,  20 anos ninguém pensava na morte.

−  "Dulce et decorum est pro patria mori"... É a divisa do brasão de armas da Academia Militar que sucedeu à Escola do Exército...

− Ah!,  sim, doce e honroso  −  repetiu o coronel com um sorriso amargo. 

−  Teríamos  que saber o que pensam os mortos de todas as guerras.

−  Não pensam nada, meu caro.

E quis mostrar este ponto de vista com a sua experiência,  justamente de antigo combatente da "guerra de África".

A... , oitenta e tal  anos. Feitas as contas por alto   devia ter nascido por volta de 1933 ou 32. "Monárquico mas liberal",  por tradição familiar. Alentejano do Alto Alentejo (fazia questão de frisar).  Descendente do Visconde de V...

Coronel de cavalaria, tirocinado,  na situação da reforma. Cruz de guerra de terceira classe por feitos em combate no teatro de operações da Guiné. Viúvo, pai de um filho,  avô de dois  netos (que ele mal conhecia) . 

− O primeiro soldado que vi morrer na Guiné, e logo  nos meus braços,  só me balbuciou entre golfadas de sangue: 'Ai, meu ca...pi...tão, ... qu' eu... es...tou  fo...di...do! '

Hoje, concluia o coronel, havia várias formas de morte para um antigo combatente.  Tudo menos doce e honroso. A sua (e da sua geração) era  também a da amargura,  da ingratidão,  do abandono e do esquecimento. 

Falava de si e dos seus homens que "morreram para nada"  e que iam morrendo todos os dias,  um pouco por toda a parte, em Portugal, na diáspora lusófona, na Guiné, em Angola,  em Moçambique e por aí fora.

− Sinto-me  órfão da Pátria!... Sofro de  claustrofobia... Afinal fui criado no Portugal do Minho a Tiimor.

 O seu filho (o único que tinha) nunca o compreendera nem aceitara a sua opção de vida,  a carreira militar. Pouco conviveu com ele.  Fizera-lhe falta o pai nos anos mais decisivos da formação da sua personalidade. 

Quando o filho nasceu, em 1958, estava o pai  em Goa na sua primeira comissão de serviço no Ultramar.  Como alferes. Faria mais três comissões, duas como capitão  e outra como  como major.

E quando o filho  arranjou uma bolsa de estudo em 1976 para  ir frequentar uma  universidade nos EUA, o pai tinha acabado de regressar de  Moçambique, uns meses antes. (Fora um dos "últimos soldados do império", fez questão de lembrar, já com o posto de major, desempenhando funções de oficial de informações e operações, num batalhão,  cargo em que já não saía para o mato.)

O filho acabou por ficar lá, nos EUA. "Até hoje" .  E lá casara "com uma americana, rica,  de origem nipónica" . 

Tinha um grande desgosto: os seus netos não falavam português. Tinham  vindo a Portugal todos juntos uma única vez,  por ocasião da morte da mãe, sogra e avó. 

− Eu era um estranho para eles... E, como  pai,  fiquei com a certeza de que tinha perdido o meu único filho para sempre. 

De facto, não voltaria a visitar o pai  em  Portugal. Foi ele que os foi visitar à Califórnia. Os netos nada sabiam sobre Portugal, um pequeno país que  ficava completamente fora do seu radar, dos seus interesses e das suas  preocupações. 

E confirmava o seu pessimismo com o facto de,  a partir de 1975,  "termos ficado reduzidos à geografia do início do século XV, antes da conquista de Ceuta em 1415".

 Agora o que mais lhe gostava era sobretudo a solidão da viuvez e da velhice. Uma vez por ano juntava-se aos "seus rapazes" (sic),  com quem lutara na Guiné durante mais de 2 anos (contando com o tempo  inicial de formação da companhia, em Estremoz).

Adorava a sua "família militar"  com  quase  o mesmo amor que tinha pela sua família biológica. 

−  Juntos chorámos os nossos mortos e cuidámos  dos nossos feridos.

Faziam um encontro anual todos os anos desde o início de 90 mas, duas décadas depois, faltava-lhe já o ânimo e as pernas começavam a claudicar, obrigando-o a arranjar desculpas de mau pagador para não comparecer. Invocava a saúde ou a falta dela, "cada vez mais remendada".

Confidenciou-te que, sobretudo, não queria perder o seu orgulho, a sua dignidade,  a sua pose de "oficial e cavalheiro"  que sempre cultivara. Já não se gostava de se ver ao espelho. E muito menos fardado. 

−  Não me leve  a mal  se lhe disser que sempre tive sorte com as mulheres... 

−  Não de todo, coronel. Como se costuma dizer, a sorte dá muito trabalho.

Mas o contrário não era  verdadeiro : as mulheres nunca terão tido sorte com ele.  Casou tarde, não teve um casamento feliz e enviuvou cedo.

Gabava-se de,  nesse tempo, nunca ter dado uma "porrada"  em nenhum dos seus homens. Soubera sempre resolver os conflitos,  mesmo os mais graves,  do foro disciplinar, com frontalidade e bom senso,  contrariamente à tradição da sua arma, a cavalaria. Tinha camaradas que ainda usavam, na mesmo na Guiné, o "murro da ordem" para prevenir males maiores.

−   Mais valia um bom  murro nos queixos do que uma nódoa na caderneta, achavam eles. E,  se calhar, pensando bem, hoje até teriam  razão.

E lembrava-se de uma situação, grave, em que, passados mais de quarenta anos, reconhecia  que agira mal. Um dos seus cabos fora acusado de violar a sobrinha do régulo e comandante do pelotão de milícias.  Era a rapariga mais linda da tabanca. 

O então capitão fez tudo o que sabia e podia para que a "bronca" não chegasse aos ouvidos do general Spínola, o "Homem Grande de Bissau". O cabo era um dos seus melhores homens como operacional e inclusive tinha chegado a ser proposto como candidato ao Prémio Governador da Guiné.   

− Tive uma conversa séria com ele... Comecei por lhe enumerar as virtudes,  como militar e até como  homemk, acabando nos defeitos e na "borrada" que lhe ia estragar o resto da vida.... Acabou por  dar-se como culpado, com a desculpa esfarrapada de que "ela era linda de morrer" e que "um homem não era de pau"...Além disso, era a sua lavadeira e teria havido livre consentimento...  Encostei-o à parede: "Põe-te no teu lugar: e se ela fosse tua irmã ?"... Não tugiu nem mugiu...

O então capitão castigou o cabo,  obrigando-o a pagar uma reparação à família da bajuda, uma vaca que lhe custou um mês de pré. E retirou-lhe, obviamente,  a candidatura ao Prémio Governador da Guiné... 

Ao régulo calou-lhe a boca com a oferta, por parte da companhia, de uns valentes sacos de arroz para  o pelotão de milícias. Fora-lhe sempre leal. Soube mais tarde que também ele fora, infelizmente, fuzilado pelo PAIGC. 

−  Quanto ao cabo, ficámos amigos para a vida.

 Na sua  casa em Oeiras, aonde ele te convidara um dia para te mostrar o seu  "velho  álbum das glórias", ficarás a conhecer um pouco melhor a sua história de vida e a sua origem sociofamíliar.

Sim,  fora preparado para defender a pátria numa época em que o patriotismo ainda estava na ordem do dia. Tinha treze anos quando a II Guerra mundial  acabara. "Lá em casa eram todos anglófilos" . Depois veio a Guerra Fria,  passaram todos  a ser anticomunistas. 

Era da geração do "Deus, Pátria e Família". A "Santissima Trindade" do Estado Novo. Nunca fora homem (nem miliitar) de ligar à política.  Nem nunca questionara o beco sem saída da guerra em África. 

− Infelizmente, só sabia obedecer aos meus superiores hierárquicos, e dar ordens aos meus homens.

Por outro lado, a sua família sempre fora de proprietários e militares, que serviram três regimes (Monarquia constitucional, República e Estado Novo).  

No passado tinham chegado a ser grandes produtores de trigo e cortiça.  Mas  eram sempre mais os filhos e as filhas  do que as mães. Para os descendentes do Visconde de V... , a solução de vida terá sido "Coimbra, o seminário e a carreira de armas".

Gostava de falar do passado da família paterna, mas havia ali uma relação de amor-ódio ancestral   que tu não te achavas no direito de  esmiuçar, nas conversas que mantiveras com ele antes da pandemia. Uma das ocupações do coronel  era então a da reconstituição da árvore genealógica da família.

Tinha especial prazer em falar do "passado de luz e sombra" (sic)  do Visconde de V..., o patriarca da família, onde começava a "primeira geração": dali  para trás não se sabia mais nada, havia o "silêncio dos arquivos" , restava apenas uma fita de seda azul, "sinal de exposto" na Misericórdia de Lisboa. 

Mas tivera sorte, esse enjeitado, para viver e sobreviver numa época  tão conturbada como a das invasões francesas, a da fuga da corte para o Brasil,  a do fim da sociedade senhorial, e a das guerras civis liberais.

Na casa oitocentista  de Paço d' Arcos, de piso térreo, ainda estava dependurado da parede, um mau quadro, a  óleo,  com o retrato do futuro Visconde. Daqueles que ainda se encomendavam a pintores académicos antes da  chegada do "daguerreótipo". Ostentava já alguns sinais de riqueza, os  botões dos punhos de renda e o relógio de bolso, com um grosso cordão, tudo em ouro de lei.

Havia enriquecido o seu património com a compra em leilão de "bens de mão morta" . Ninguém sabia como, ainda jovem,  conseguira arranjar os "cabedais, para poder licitar uma tão vasta propriedade no Alto Alentejo. Foi dos primeiros a modernizar um latifúndio que até então só dava "caça e sobro".  

Sabe-se que fora um bravo soldado de Dom Pedro IV e correligionário de Dona Maria II. Ter-se-á afastado da política com a Patuleia, onde foi um feroz opositor dos Cabrais. Foi nobilitado já no tempo de Dom Luís. Filantropo, abriu uma escola na sede do concelho, no Alto Alentejo,  ainda antes das escolas do Conde Ferreira.  

 O coronel falava com mais conhecimento de causa da 4ª geração, do seu avô , que era bisneto do Visconde, e que terá sido um dos que mais ajudaram a delapidar o património familiar, com o vício do jogo, das amantes e dos cavalos.

− O meu pai, nascido uns anos antes  da República, não teve outro remédio se não seguir a tropa. E eu, idem, aspas...

Fez questão de ir buscar uma garrafa de uísque velho, uma preciosidade ainda do tempo da Guiné. Agora raramente bebia. Era para abrir na festa dos  90 anos. Com o seu filho e netos. Se lá chegasse... Mas já não tinha qualquer esperança de que eles se quisessem associar a essa efeméride, e ter a maçada de vir de propósito, de tão longe, da Califórnia.

− O que vale um herói da Pátria aos 90 anos ?!... Se nem sequer a família mais próxima se lembra dele ?!

Fizeste um "tchim-tchim" com o dono da casa, cada um longe de imaginar que aquele seria o seu último encontro. Umas semanas depois veio a pandemia e o confinamento... E o coronel  A...,  morreria uns meses depois. Ia fazer 87 anos. Ainda se falaram ao telefone. Recordas as suas últimas palavras:

− Fui de cavalaria mas nunca gostei de cavalos... Fui spinolista, na Guiné,   por conveniência mas também  por convicção... Fui partidário da sua política "Por uma Guiné Melhor"... O senhor marechal, que eu conheci em Angola, já coronel, fez o favor de ser meu amigo, deu-me apoio a nível moral,  operacional e logístico. Visitou-me duas vezes, na Guiné. Não esqueço esses favores.  Como não esqueço o seu papel no 25 de Abril.

Como não esquecera a cena, caricata, do general Spínola escangalhado a rir, com o monóculo na mão (o que era raro nele), e a chamar-lhe  "grande nabo" quando ele, ingenuamente, lhe contou que tivera uma queda desastrada e desastrosa  de cavalo na Escola Prática de Santarém. 

− Sou coronel tirocinado mas  fiquei às portas do generalato.  Desconheço as razões. Mas considero-me injustiçado. Nunca fui militar político. 

E esclareceu-te que no 25 de Abril ("notícia completamente inesperada", recebida no norte de Moçambique) estivera "de bico calado", à espera que a ordem regressasse aos quartéis, depois de restituída a liberdade aos portugueses.

− Como regressa sempre. O meu pai esteve envolvido  no 28 de maio de 1926. Ainda  era um jovem cadete imberbe. E arrependeu-se. Não beneficiou nada com isso. O golpe de Estado acabou por ir contra as suas ideias de monárquico liberal. Mas eu sempre me considerei um simples servidor da Pátria, como o Salgueiro Maia, a quem cheguei a dar instrução, e a quem não posso deixar de bater a pala, mesmo que eu não tenha aderido ao Movimento.... Pela sua coragem (que eu não tive) e pelo seu papel na História.  E a minha vida resume-se a isso, tal como a dele, que também foi mal tratado em vida: Muita honra e pouca glória!...

Luís Graça, agosto de 2026

Aviso legal: Os factos aqui narrados são verdadeiros. Mas qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28236: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (45): O último candando

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28108: Historiografia da presença portuguesa em África (531): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, até ao 25 de Abril (90) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Despeço-me de uma pesquisa que bate um século do Boletim Oficial que começou por se chamar Boletim Official de Cabo Verde e da Costa da Guiné e acabou como Boletim Oficial da Província da Guiné. Em 1977, num livro intitulado "África, a Vitória Traída", publicado pela Intervenção, colaboraram quatro generais: J. da Luz Cunha, Kaúlza de Arriaga, Bethencourt Rodrigues e Silvino Silvério Marques. No que toca ao último Governador do Estado Novo na Guiné, ele irá elencar a realização do V Congresso do Povo, a visita do Ministro do Ultramar, os êxitos do setor da educação onde existia uma população de cerca 61.000 alunos com 2200 professores (56.000 alunos pertenciam ao ensino primário e cerca de 75% de professores eram militares ou seus familiares), os serviços de Saúde funcionavam com 82 médicos (dos quais 4 civis), mantinham-se em construção as estradas Jugudul-Bambadinca, Piche-Buruntuma, Catió-Cufar e Aldeia Formosa-Buba; havia graves problemas com o abastecimento e o preço do arroz. Falando como Comandante-Chefe, dirá: "Em março de 1974, o esforço do inimigo exercia-se sobre as guarnições militares do canto nordeste da Guiné (região de Canquelifá) e do sul, em especial Jemberém, Gadamael e Bedanda, materializando-se por prolongadas e sucessivas flagelações, conseguindo por vezes tiros ajustados." Quanto a quem estava a ganhar a guerra, dirá nim. Recorde-se que a 24 de abril escreveu aos seus superiores: "Chegámos à exaustão dos meios".

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1974, até ao 25 de abril (90)


Mário Beja Santos

Faz-se aqui referência aos primeiros quatro meses que antecedem o fim do Estado Novo. No Boletim n.º 1, de 2 de janeiro, o Governador concede medalhas de ouro de assiduidade ao Dr. José Mendes Moreira e ao administrador João Batista Godinho Gomes. José Mendes Moreira foi um administrador colonial que fez carreira de investigação e participou em missões nacionais e internacionais. Colaborou com o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa desde 1946, logo no n.º 1 publicou o Breve Ensaio Etnográfico acerca dos Bijagós. Em 1948, o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa publica uma das suas obras mais relevantes, os Fulas do Gabu.

No Boletim n.º 4, de 22 de janeiro, publica-se o reforço dos orçamentos privativos da Força Aérea, das Forças Terrestres e das Forças Navais a operar na Guiné. No Boletim n.º 5, de 29 de janeiro, o Ministério da Defesa determina que o Comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné seja um oficial do quadro de pilotos aviadores com o posto de brigadeiro. No Boletim Oficial n.º 8, de 19 de fevereiro, há um Despacho a criar um posto escolar na povoação de Sare Chicamo, regulado de Mancrosse, concelho de Bafatá, o pretexto era a necessidade de continuar a dar às povoações os indispensáveis meios de acesso à educação.

A exploração de petróleo continuava na berlinda. No Boletim Oficial n.º 9, de 26 de fevereiro, a Repartição Provincial de Serviços de Geologia e Minas, na pessoa no Engenheiro Geólogo a exercer as funções de chefe de serviços, António Pedro de Carvalho Daun e Lorena Santos torna publico que a firma Texas Pacific Oil Company of Portugal Inc., com sede em Dallas, pretende requerer uma concessão para a prospeção, pesquisa, desenvolvimento e exploração de hidrocarbonetos sólidos, líquidos e gasosos, e apresentam-se as delimitações do requerimento, eram prospeções a 200 metros de profundidade. O respetivo edital vem publicado no Boletim Oficial n.º 10, de 5 de março, Mas também temos notícias da Esso Exploration Guiné Inc. No Suplemento ao Boletim Oficial n.º 10, de 7 de março, noticia-se a convocatória de uma Assembleia Geral Ordinária a ter lugar em Lisboa em 29 de março, com os pontos habituais de discussão do Relatório, Balanço e Contas do Conselho de Administração e do parecer do Conselho Fiscal, seguindo-se eleições dos órgãos sociais. Encontra-se no Boletim Oficial n.º 11, de 12 de março, uma referência a Francisco José Fadul, que virá a ser primeiro-ministro da Guiné-Bissau. É um Despacho da Repartição Provincial dos Serviços de Educação, Francisco José Fadul, habilitado pela frequência do 2.º ano de Direito é nomeado professor eventual na Escola Preparatória do Marechal Carmona.

No Suplemento ao Boletim Oficial n.º 12, de 22 de março, temos notícia de que a crise petrolífera de 1973 chegou à Guiné. O Governador manda publicar um Despacho que diz o seguinte:
“Considerando a necessidade de serem revistos os preços de venda dos combustíveis, fixados por Despacho de 1 de julho de 1963, face ao novo condicionalismo resultante do aumento de custos na origem, e no sentido de ser evitada tanto quanto possível uma repercussão altista na indústria e nos transportes, determina-se que passem a vigorar a partir de 1 de Abril próximo os seguintes preços na comercialização da gasolina super, gasolina normal e petróleo:
Preço de venda ao público:
Em Bissau:
Gasolina super – 9$20/litro
Gasolina normal – 8$60/litro
Petróleo – 4$95/litro
Em relação à distribuição para o interior mantém-se as zonas actualmente fixadas bem como os respectivos diferenciais de transporte que deverão acrescer aos preços estabelecidos para Bissau.”


Nesse mesmo dia e neste mesmo Suplemento temos notícia de que a Companhia Industrial de Cervejas e Refrigerantes da Guiné entrara em funcionamento e a fabricar cerveja, tanto para as Forças Armadas como para o público. O público tinha ao seu dispor as marcas Cristal e Sagres. Em 25 de março haveria cerveja da CICER.

No Boletim Oficial n.º 14, de 2 de abril, o Governador louva um oficial, o Tenente-Coronel de Artilharia João Manuel do Carmo de Sousa Teles, que desempenhara durante cerca de quinze meses as funções de Delegado de Governo no Chão Manjaco, tendo-se evidenciado pelas suas altas qualidades de competência, dedicação, inteligência, dinamismo e bom-senso. No Boletim Oficial n.º 16, de 16 de abril, publica-se um Despacho dos Ministérios do Ultramar e da Economia, prende-se com a produção e comercialização do amendoim, estabelecem-se preços de 6$92 FOB/Kg para o amendoim descascado destinado à Metrópole. No Boletim Oficial n.º 17, datado de 23 de abril, o Governador convoca a Assembleia Legislativa para uma reunião a realizar no dia 30 do corrente, pelas 16:30 horas, na Sala das Sessões do Palácio do Governo, a fim de tomar conhecimento e emitir parecer sobre as conclusões aprovadas no V Congresso do Povo.

E assim chegámos ao 25 de abril. No 2.º Suplemento do Boletim Oficial n.º 17, datado de 27 de abril, publica-se um comunicado da Junta de Salvação Nacional:
“Por deliberação do Movimento das Forças Armadas na Província da Guiné confirmado pela Junta de Salvação Nacional faz-se saber o seguinte:
1. Assume as funções de Encarregado do Governo da Província da Guiné, o Tenente-Coronel Engenheiro António Eduardo Domingos Mateus da Silva, com os poderes e atribuições previstos nas leis anteriores;
2. Mantém-se nas funções de Secretário-Geral o Inspetor Superior da Administração Ultramarina Dr. Guilherme Libânio Pires.”


Aqui finda a pesquisa que efetuei sobre um século do Boletim Oficial desde os tempos do Boletim Official de Cabo Verde e da Costa da Guiné até ao 25 de abril. Vou verificar se ainda há alguma informação de relevo no Boletim Oficial deste ano, que se publicou até setembro.


O General Bethencourt Rodrigues durante a visita que fez às obras do asfaltamento entre Buba e a Aldeia Formosa. Imagem retirada dos Arquivos da RTP
Visita do Ministro do Ultramar à Guiné em janeiro de 1974
Dança Nalu
Rapazes Felupes
Fula a cavalo

No ano de 1974 já não se publicou o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, daí ter andando a respigar imagens de números de boletins de anos anteriores.
Balantas da Guiné-Bissau nas comemorações do Dia Internacional dos Povos Indígenas
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Nota do editor

Último post da série de 10 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28088: Historiografia da presença portuguesa em África (530): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1973 (89) (Mário Beja Santos)