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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28484: Notas de leitura (1976): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
Estamos a passar em revista alguns dos pontos altos deste memorável romance de Lobo Antunes, tudo acontece num jantar de militares que anos antes regressaram de Moçambique, vamos ficar a saber como eram os interrogatórios, os espancamentos e os lugares lúgubres para onde eram lançados os adversários do regime; entramos na vida daquele grupo minoritário maoísta e assim chegamos ao 25 de abril, o alferes casado com uma menina muito bem vai contar-nos a reação de uma família abastada que até pensa logo em pirar-se para o estrangeiro, temem as violações das hordas comunistas que por aí vêm, com russos e checoslovacos à frente; a comandar no quartel da Encarnação, mandou às urtigas as ordens transmitidas pelo coronel Ricardo, este irá tornar-se num espantoso vira-casacas, o temível saneador de coronéis e majores, pôs ao seu serviço o tenente-coronel Artur, este, mais tarde, limpa-lhe o sebo. mas ainda há mais coisas a dizer sobre o PREC.

Abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 4

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. "Fado Alexandrino", considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Já aconteceu o 25 de abril, mas não vamos ainda disparados para o processo revolucionário, ficamos a saber que o alferes maoísta foi apanhado pela PIDE, ele diz durante o jantar que da cela se avistava um bocado da praia, a seguir ao muro, o guarda de metralhadora numa espécie de trono de cimento, ele via casas distantes e automóveis minúsculos nas estradas em obras, encontrou no pátio alguém da Organização, o Emílio, reconheceu-o logo apesar dos inchaços das feições, da órbita esquerda destruída, murcha e pendente como um lírio, fora bem espancado de cima a baixo, é um encontro convulsivo, extremamente doloroso, a Organização não dá sinal de vida. Algo tinha acontecido na vida do regime, houvera mudança de carcereiros.

“Já deviam desconfiar da revolução, sugeriu o alferes. Já deviam saber do que se tramava e andavam todos borrados de medo, a tirar as castanhas do lume, a preparar o salto. Querias tratamento de comité central, meu lindo, tortura, pancadaria da boa, isolamento, querias sentir-te importante, certificar-te que existias, mas já não tinhas nenhum interesse para eles. Em certo sentido a revolução lixou-te: fez-te compreender que quando toca a Santos ninguém dá meio tostão furado por ninguém.”

E explica os seus sentimentos de presidiário: “Se alguém comia porrada em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo, se alguém ia aos interrogatórios em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo, se alguém era castigado e posto em dieta em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo.”

É assim que ele rememora Caxias. E depois chegou a liberdade, voltou para o prédio perto da Feira Popular, a tia e a Esmeralda receberam-no, emocionadas.

Começa a vida agitada do período revolucionário, o marido da Inês ouve o telefone tocar, é a mulher que atende, do outro lado a sogra do alferes informa com toda a intensidade melodramática: “Houve uma revolução comunista esta noite, anda tudo aos tiros na Baixa, o povinho quer pendurar nos candeeiros as pessoas decentes. A mãe manda que aa gente vá quanto antes para Carcavelos.”

Segue-se o delírio da fantasia, vêm aí as violações, os roubos dos talheres de prata, engraxadores batendo com as escovas enormes em pobres administradores das empresas indefesos, os russos vão degolar gente, haverá checoslovacos e húngaros a dar tiros por toda a parte. O ambiente em Carcavelos é de gente em pânico, família e amigos, a mãe está consternada:
“Prenderam o governo e o Presidente da República, coitado, educadíssimo, uma joia, que mal é que ele fez seja a quem seja, prenderam centenas de pessoas, há por aí hordas de ateus, desses que dão a pílula às mulheres, a destruir as igrejas, a fuzilar os católicos. Eu aqui não fico, já mandei o pai arranjar bilhetes de avião para todos, não estou para que um bando de selvagens me invada sem mais nem menos a casa e me viole a família inteira.”

Há comentários cataclísmicos sobre prisões de gente de bem, quando os carros já estão atulhados de malas, repensa-se a fuga, descarrega-se a carga, fica-se por enquanto em Carcavelos, voltam as descrições delirantes de violações, de assaltos, de vagabundos a obrar sem cerimónia nos tapetes, o mais que se quiser. Inês, o marido e a filha voltam para a casa de Lisboa.

O soldado do serviço de mudanças entra na conversa, revela que o tio perdera o entusiasmo, a empresa prosperava por inércia, o que lhes tramou a vida foi a trombose da dona Isaura, a tia. Apareceu depois a contabilista, passou a tomar conta não só da escrita como dos negócios, ocupava autoritariamente o lugar da dona Isaura nas refeições. O genro daquela senhora despótica de Carcavelos interrompe a narrativa do soldado para falar das gritarias da sogra: “Leram a pouca-vergonha do jornal? Que vão dar o dinheiro dos ricos a todos, que os católicos se vão poder divorciar, que criam partidos políticos às dúzias. Ó Jaime, você livre-se de me trazer para casa mais porcarias dessas, ainda por cima com fotografias de comunistas horrorosos na primeira página.” Mas o genro também tem outras intimidades para contar, agora ganham uns cobres com relações homossexuais, sobretudo com um pintor, é uma descrição inultrapassável. E ficamos a perceber que a vida amorosa de toda esta gente que está agora a rememorar o 25 de abril fala de alterações profundas, o soldado apaixona-se por Odete, menina muito intelectual que vive lá em casa dos tios, irá saber-se mais tarde que é a maoísta Dália, é ela a controleira do alferes que trabalha no Ministério do Exército.

Mas talvez o episódio mais empolgante aqui narrado seja o que se passou com a vida do nosso tenente-coronel que irá passar a colaborar, como a unha com a carne com o coronel Ricardo, um espantoso vira-casacas que deu em Torquemada, o nosso tenente-coronel Artur recebe uma escabrosa missão:
“Estes revolucionários matam-me de trabalho, vais-me ser utilíssimo aqui. Por vontade de eles, sabes como é, todos os oficiais superiores iam à viola, temos de ceder nalguns casos para ganhar espaço de manobra para os restantes.
Saneamentos, graduações, produções, aí tens o tipo de chatices que te esperam. Consultas as folhas de serviço, elaboras um memorando, formulas o teu parecerzinho, discutimos os dois, em conjunto, a decisão a tomar, eu levo o que a gente resolveu lá acima e os artolas que mandem o que muito bem entenderem, não temos nada com isso.”


É mais um texto espantoso do Lobo Antunes, o vira-casacas torna-se num temível saneador, marca profundas distâncias com o tenente-coronel Artur, quer mais e mais saneamentos: “Assim não vamos lá, Artur: passa-me no mínimo noventa porcento dos oficiais superiores à reserva, eram esses cabrões quem segurava o regime. Dá-me os pareceres que eu carrego-os aqui e ali e convenço os nossos capitãezinhos de fraldas com manias de Guevara: são um bocado esquivos, percebes, mas correndo-lhes a mão pela garupa faz-se deles o que se quiser.” E o tenente-coronel conversa com a sua gente de Moçambique, um dia adoeceu gravemente, visitou-o no hospital, disse-lhe tudo na cara, o moribundo nem se contorceu, o tenente-coronel Artur tirou-lhe o tubo de soro e todo o equipamento que ligava o general Ricardo ainda à vida. A vingança servia-se fria.

Mas que o leitor se acautele, ainda temos 25 de abril e processo revolucionário pela frente.
António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Nota do editor

Vd. post anterior de 26 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 30 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28476: Notas de leitura (1975): Meio século de lutas no Ultramar (Guiné), pelo Tenente-Coronel Bello de Almeida, edição da Sociedade de Geografia de Lisboa em comemoração da Semana das Colónias, 1937 - 1 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
É graças aos transportes de mudanças Ilídio que vamos conhecer a evolução dos acontecimentos na Baixa, a carripana atulhada de móveis vai sendo impedida aqui e acolá de circular, regressa à base, um novo empregado chega ali pelas onze horas e conta o que se passa no Tejo e no Terreiro do Paço, os microfones a pedir insistentemente para que a população fique em casa, uma multidão que se forma ali para os lados do Carmo, um dos presentes do jantar recorda a sua infância, passada naqueles sítios, chega o general do monóculo, mais tarde sai uma viatura militar que transporta o fim do regime em direção à Pontinha, naquele dia, viremos a saber no romance Fado Alexandrino, que mudou a vida de toda a gente, de tenente-coronel a soldado houve amores e desamores, houve quem partiu para o exílio, e até quem defendia o Estado Novo se declarou prontamente estar ao lado da revolução, é aquela longa metáfora, permanentemente repetida, dos vira-casacas.

Um abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 3

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de Abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Digo e repito que encontrei neste romance algumas das páginas mais fulgurantes sobre os acontecimentos vividos em 25 de Abril, Lobo Antunes pretexta uma mudança que vai passar pela Baixa, não resisto a transcrever alguns parágrafos que revelam tal escrita vigorosa, mesmo incandescente, o tio do soldado vai ao lado do motorista, que ele chama o velho, começam a encontrar infantaria nas esquinas, carros de assalto, militares de capacete de bazuca ao ombro, um tenente novinho mandou-os parar:
“Trânsito cortado, amigos, Tenho uma entrega urgente no Chiado, respondeu o tio, não é a nossa camioneta que vos vai estorvar, recuaram, deram meia volta e meteram pelo Entreposto, pelo Rato, pela Escola Politécnica, o soldado ligou a telefonia e as marchas e as cantigas à viola atroaram a cabina onde tudo vacilava e vibrava, a música interrompeu-se, a voz locutora recomeçou a falar, Cala-me essa porra, minha besta, rugiu o tio, possesso, apalpando a bomba para a asma no casaco, edifícios dignos, antiquários, o jardim do Príncipe Real cintilante de luz e quase logo a seguir um tanque atravessado no pavimento, homens fardados, morteiros, viaturas da tropa, e agora um sargento a aproximar-se, abespinhadíssimo, de pistola na mão, Desapareçam daqui antes que eu vos pregue um tiro, A gente espantava-se, nunca tínhamos sonhado aparato de guerra nas ruas de Lisboa, alguns camuflados, em pinha num banco, escutavam de cabeças juntas os hinos bélicos da emissora, rodei o volante, engrenei a primeira, a marcha atrás, a primeira de novo, o sargento fitava-nos numa desconfiança veemente, e dali a dez minutos entravam aos solavancos no armazém, com a caixa da camioneta repleta de móveis.”

Mas o dia mal começou temos mais peripécias para contar. “Às onze horas apareceu o Carmindo, de motorizada, um de bigode que entrara à experiência em março e vivia com a afilhada da contabilista, tirou o capacete e os cabelos puseram-se-lhe todos em pé, Foi o sarilho das Arábias para me deixarem passar, até barcos de guerra andam no Tejo, não querem que ninguém se pire de casa, e uma onda incontrolável de pessoas sobe o Chiado na direção da PIDE, na direção do Carmo.”

O senhor Ilídio, o tio do soldado, proprietário daquele serviço de transportes, não esconde a sua perplexidade, via o negócio a afundar-se, os móveis a desfazerem-se na arrecadação, as mudanças Ilídio sem encomendas nenhumas, congemina os cenários mais apocalíticos, cadáveres por toda a parte, os hospitais inundados de feridos, pelotões de fuzilamento, bandeiras vermelhas nos edifícios públicos.

E o escritor volta aos acontecimentos:
“O general de monóculo saiu por fim do quartel da Guarda, sem se emocionar com entusiasmo, sem corresponder aos aplausos, instalou-se no carro que de imediato principiou a rodar para fora do largo, iam chegando mais tanques de guerra que apontavam os canhões ao prédio deserto, mais oficiais, mais tropa, um fulano, munido de uma alcofa, distribuía cravos.” O senhor Ilídio encontrava-se num estado lamentável: “Se levarem o Presidente do Concelho num carro blindado estamos perdidos, lamentou-se com a cabeça entre as mãos. Não tarda nada vêm-nos buscar, de pistola, aqui ao armazém.”

Voltemos ao cenário do Carmo:
“O número de pessoas no largo não cessava de aumentar, muitas delas munidas de bandeiras e aparelhos de rádio como nos desafios de futebol, as árvores eram novelos de pernas e de braços e de olhos atentos, expectantes, vorazes, um tanque destacou-se da multidão, avançou para o quartel, bocas abertas, centenas de dentes rebrilhando ao sol na espuma verde coada pelas folhas, cotovelos que me empurravam, membros que se colavam aos meus, um suor entusiástico nas narinas, e, de súbito, meu capitão, senti-me de novo com quatro, cinco, seis, sete anos, submergido pelas fantásticas, espessas, terríveis proporções dos adultos.”

Todos berram pela liberdade, há perseguições, há correrias a eventuais membros da PIDE, e volta-se ao relato do que fora vito no Largo do Carmo:
“O carro de assalto, meu capitão, acabou por desaparecer seguido por um enxame de gente, e passados momentos a multidão abandonou o largo, entoando os hinos e as cantigas da rádio, a tropa retirou-se igualmente da praça à exceção de sete ou oito gajos de metralhadora e camuflado que protegiam o quartel contra o friozinho do crepúsculo.” No armazém do senhor Ilídio, um locutor triunfal anunciava na telefonia a vitória completa do Movimento das Forças Armadas.

O tenente-coronel também tem histórias para contar. Era comandante de uma unidade militar de peso, recebe de madrugada um telefonema do seu camarada Ricardo, está no Ministério da Defesa, diz-lhe que há uns tantos palermas que andam por aí a brincar às revoluções, deverá ir até à sua unidade, o mais depressa possível, pô-los na ordem, acabar com aquelas aventuras. “O Secretário de Estado diz que não temos tempo a perder, é necessário meter essa cambada de miúdos nos eixos, a bem ou a mal, antes que aconteça um disparate qualquer. O teu quartel controla a entrada em Lisboa de quem venha do Norte, bastam meia dúzia de carros de assalto por aqui e por ali. Tens de jogar com o teu prestígio junto dos oficiais mais novos, e é escusado sublinhar que todos contamos com isso, que te pedimos que ajudes a evitar custe o que custe uma asneirada infantil.”

Acontece que este Tenente-coronel Ricardo vai aparecer depois do lado da revolução, uma daquelas metamorfoses em que se dão cambalhotas do lado vencido para o lado vencedor, e este lado vencedor nem se inquieta com o ingresso dos cristãos-novos. O Tenente-coronel Artur apresenta-se na sua unidade, diz a todos que se está nas tintas para a revolução e até mesmo para aqueles que a contrariam, ainda não sabe que dentre em breve irá trabalhar às ordens do dito Ricardo saneando no Ministério da Defesa, pela mão do nosso Tenente-coronel Artur, uma barrigada de oficiais, mais tarde haverá saneamento ao contrário, é este o fadário das revoluções.

António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. postanterior de 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28456: Notas de leitura (1973): "Nós, Os Filhos da Guerra", por Frederico Valarinho; Âncora Editora, 2024 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
O jantar dos militares está a findar, já sabemos como lhes correu a vida desde que chegaram de Moçambique, amores, desamores, sonhos, pesadelos, o tenente-coronel viúvo tem agora o apoio da porteira e mulher a dias, não é amor, é companhia, o Jorge alferes casou com a Inês, menina de famílias finas, trabalha no banco e vive jantares abomináveis em casa dos sogros, numa quinta em Carcavelos, o soldado engrenou em serviços de mudanças, empresa do tio, irão a caminho da Baixa no dia 25 de abril de 1974, não tenho dúvida alguma quando um dia se se quiserem resgatar as páginas sublimes que se escreveram sobre o 25 de abril, é inevitável retirar parágrafos luminescentes deste Fado Alexandrino. A reunião dos militares, que começou num jantar, passou agora para uma boate no Intendente, será aí, entre equilibristas e striptease, que se vai viver o 25 de abril.

Um abraço do
Mário.



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 2

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Romance a várias vozes, por vezes interferindo quase em vertigem o que eles vão dizendo uns aos outros ou o que guardam para si no discurso da consciência, falando desabridamente da vida amorosa onde não faltam desastres e desencontros, no seu trabalho, da situação política do país, temos aqui um retrato da década de 1970 e o início da seguinte.

Já sabemos que há um encontro de militares, de tenente-coronel a soldado, estão a rememorar acontecimentos anteriores ao 25 de abril, vieram todos de Moçambique, terão pertencido a um Batalhão colocado em Mueda ou algures, obviamente que se seguiram itinerários diferentes, o oficial de transmissões está no uso da palavra, colocado no Ministério do Terreiro do Paço a levantar processos e autos, é esquerdista-maoísta, distribuindo folhetos à socapa, “folhetos que entregava depois do serviço nos gabinetes despovoados, toscos e tolos contos da carochinha para aldrabar ingénuos.”

E desabafa para todos os presentes no jantar:

“O que nessa época custava mais na militância política era a falta de contactos, de amigos que nos acompanhassem, da orientação dos camaradas. Nunca nos víamos, nunca nos falávamos, podíamos estar presos ou mortos só o sujeito invisível e desconhecido que nos coordenada sabia, largávamos as informações num envelope, no balcão de uma pastelaria ou de um café, mas não obtínhamos resposta, nenhum fulano convicto e grave, de cara enviesada, nos procurava.”

Intervém agora o soldado, ele está numa empresa de mudanças, iam mesmo à Feira Popular, transportando a mobília de restaurantes inteiros, as girafas, os elefantes e os cavalos do carrossel, houve mesmo cenas de amor assolapado com a Ciganita Dora. Os ex-combatentes já estão bem bebidos, o alferes sugere saírem dali e irem para uma boate do Intendente, mas as conversas estendem-se, as memórias dilatam-se. “Eu sentia o Estado Novo podre, mas firme, disse o oficial de transmissões de pálpebras descidas. Estávamos fartos da guerra, fartos das promessas não cumpridas". 

É a vez do alferes também pôr a sua escrita em dia, recorda que o seu casamento com Inês, menina que vivia num ambiente muito bem, estava a correr mal, a sogra sempre a dar ordens lá na vivenda de Carcavelos, a convidá-los para jantar em cima da hora, conversas descabeladas na viagem com a filha pequena aos gritos.

O tenente-coronel também desabafa, tem como companhia precária a porteira e mulher a dias. O soldado, o da empresa de mudanças, conta que a mulher do tio, em cuja casa ele vive, dera-lhe a trombose, descreve toda aquela cena da ida ao Hospital de São José.

“Uma espécie de claustros gelados, irreais de néon, doentes por toda a parte, cobertos de compressas, sentados no chão, olhando-nos na distintíssima altivez apática do sofrimento, macas, cobertores e camas amontoados numa confusão indescritível, arrastadeiras, algálias, algodão, tribos acocoradas de ciganos comendo em silêncio, funcionários transportando papeis, bêbados a ressonar em longos bancos de pau, gemidos, queixas, suspiros, arranques de vómitos, dois arcos de pedra, munidos dos letreiros HOMENS e MULHERES, a seguir ao relento das retretes, onde as fezes acumuladas se aparentavam a certos rochedos da vazante, e lá dentro, ativíssimos em torno de marquesas vazias, médicos de estetoscópio pendurado ao pescoço como correntes de escanção, examinando, com uma prega douta na testa, radiografias de ossos contra foscas superfícies cintilantes.” 

Seguem-se as peripécias em que os profissionais de saúde decidem que a tia volta para casa com uma receita médica.

Há um certo capitão Mendes que procura o tenente-coronel em 1973, os capitães já começaram a conspirar, Mendes informa o tenente-coronel, cujo nome é Artur de que há solidariedade ativa de todas as unidades do país, Mendes pretende saber se podem contar com o apoio expresso dele, entrega de papelada e rabuja que os militares andam fartos de servir de bode expiatório aos políticos. Segue-se uma longa introspeção de memórias deste tenente-coronel. Ainda estão no jantar, fala-se de tudo um pouco, o nosso alferes maoísta lembra que foi levado pela PIDE.

Agora sim, já estamos no Bar Boate Madrid, rememoram-se festarolas do tempo da guerra, alguém, no bar, anuncia o programa festivo que vai começar, há de tudo desde equilibristas a striptease, as vidas familiares vão-se escancarando, aqui finda a primeira parte, entramos agora na revolução, confesso que encontrei neste livro algumas das páginas mais impressivas e de alto recorte literário sobre os acontecimentos do 25 de abril, como passo a exemplificar:
“Da sala vinham marchas militares, guitarras, vozes de homem que cantavam, um locutor lia de tempos a tempos um pequeno discurso, e a seguir, após um breve silêncio interminável durante o qual o sangue estancava, suspenso nas veias, à espera, mais marchas, mais hinos, mais orfeões, mais música.”

“E foi a primeira vez, contou-me o soldado, que chegámos juntos ao armazém, esbofeteados ao longo das travessas por centenas de telefonias aos gritos. Homens de barba por fazer debruçavam-se nas janelas como bichos de buracos de maçãs, os cães derrubavam os caixotes de lixo esquecidos, o porteiro do hospital dos doidos, de pé junto à entrada, colava o transístor à orelha como se escutasse o mar nas espiras de um búzio, um friozinho acre enregelava as pernas, o tio bufava Se atiram o Governo de pantanas não descansam até arranjar outro ainda pior e nos porem de tanga a pedir esmola, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, e o senhor Ilídio, amargo, Olha para os gajos, olha-me só para a alegria deles, caneco, até parece que vão salvar o mundo.”

E vamos ver seguidamente a carripana das mudanças a avançar para a Baixa, vão testemunhar a queda do Estado Novo.


António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Notas do editor:

Post anterior de 12 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 16 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28441: Notas de leitura (1971): Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905 (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28392: Foi há... (13): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultramar - Parte II: Sobretudo os Açores (mas também a Madeira e Portugal continental) foram a "moeda de troca" de Salazar para entrar na NATO... que no entanto não conseguiu salvaguardar o império colonial

 



Foto (e legenda): "5. Desembarque de um Batalhão de Infantaria em Ponta Delgada - II Guerra Mundial. Col. R. Soares; Rezendes, 2019."


Fonte: Sérgio Rezendes: Receios, Privações e Misérias num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores. Portal de Defesa Nacional, 2023 (com a devida vénia...). cd,. artigo oroiginal: Rezendes, Sérgio – Receios, Privações e Miséria Num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores​. Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Portugal no Contexto da Segunda Guerra Mundial, 1939-1945. [Em linha] Ano III, nº 4 (2023).[Consultado em 30 de setembro de 2026.], https://doi.or​g/10.56092/FWBM1414​

Restauro, melhoria técnica e colorização: IA (ChatGPT/OpenAI), sob prompting e orientação editorial de LG.

Foto original a sépia, do famoso N/T Serpa Pinto (1914-1955), Construído em 1914 na Irlanda , foi adquirtida pela CCN - Companhia Colonial de Navegação em 1940. A duas hélices, tinha c. 142 metros de comprimento, e c. 8,27 mil toneladas de arqueação bruta. Capacidade: 160 tripulantes,m e 600 passageiros. Comhecido como o "Navio da Amizade" devido ao seu papel crucial durante a Segunda Guerra Mundial, com inúmeras viagens transatlânticas transportando milhares de refugiados de guerra, incluindo uma grande quantidade de judeus que fugiam do nazismo rumo às Américas. O seu casco exibia orgulhosamente o nome e a bandeira de Portugal em letras garrafais para evitar ataques de submarinos. Mas chegou a estar, em na noite de 26 de maio de 1944, ao largo das Bermudas, a caminho de Filadélfia, na mira de um U-boat para ser afundado, valeu-lhe o veredicto final do almirante Karl Dönitz (1891 - 1980), em Berlim.



Madeira > Funchal > Parque de Santa Catarina > Monumento aos gibraltinos (excerto da lápide, em português e em inglês) (Fonte: adapt de Tripadvisor)

Durante a 2ª Guerra Mundial, cerca de 2000 gibraltinos, na sua maioria mulheres e crianças, foram evacuados para o Funchal, ficando instalados em hotéis, pensões e casas particulares até ao fim do conflito. Muitos deles criaram raízes na Madeira, contribuindo para que a respetiva comunidade tenha, até hoje, uma estreita relação com a cidade.  Cerca de 7 dezenas também morreram durante esse período (1940-1945), a maioria devida a surto de tifo.

O pequeno monumento em mármore foi oferecido à RAM pela comunidade de Gibraltar e  inaugurado em 2008. A cidade do Funchal tem, desde 2009, um acordo de geminação com Gibraltar.

 

1. A II Guerra Mundial e o seu fim (1945) foram vividos de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos diferentes territórios (ilhas adjacentes e colónias)   e as consequências humanitárias, demográficas, sociais e económicas 

Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época, disponíveis em acesso livre:

Ilhas Adjacentes: Açores e Madeira


A importância das Ilhas Adjacentes (Açores e Madeira) no contexto da Segunda Guerra Mundial e no xadrez diplomático da "neutralidade colaborativa" de Salazar é um dos capítulos  da nossa história contemporânea que os portugueses não conhecem ou conhececm mal.

Falemos primeiro dos Açores. O arquipélago  teve um papel estratégico crucial na guerra, especialmente a partir de 1943, quando Portugal cedeu bases aos Aliados sob pressão britânica e americana.

Recorde-se que pelo Acordo de 17 de agosto de 1943, Salazar autorizou os britânicos a usar os portos de Horta (Faial) e Ponta Delgada (São Miguel), bem como os aeródromos de Campo das Lajes (Terceira) e Campo de Santana (São Miguel).

A 8 de outubro de 1943, os britânicos desembarcaram em Angra do Heroísmo e construíram a Base Aérea das Lajes, que se tornaria um ponto de viragem na Batalha do Atlântico.

Em 1942, os Aliados tinham perdido 5,48 milhões de toneladas de mercadorias no Atlântico Norte. No último trimestre de 1943, com as operações a partir das Lajes, as perdas caíram para apenas 146.000 toneladas. 53 submarinos alemães (U-Boats) foram afundados graças às operações dos Açores  

Em 1944, oss americanos construíram uma base em Santa Maria e, em 1945, uma nova base na Terceira (a atual Base das Lajes).

  • Açores: a Operação Alacrity e a mudança de rumo na Batalha do Atlântico

O papel dos Açores no conflito transcorreu entre a diplomacia cautelosa  e o realismo militar do Governo Português, mas também dos dois lados do conflito que nunca esconderam a importância do arquipélago.

Antes da cedência formal das instalações em 1943, os Açores estiveram sob ameaça constante de ocupação por ambos os blocos. Ou seja, viveu-se sob o fantasma da invasão (1940–1942).

Os britânicos planearam a Operação Stimson (e mais tarde a Operação Alacrity) para tomar o arquipélago "manu militari" se Portugal caísse sob influência do Eixo. Por seu turno, o Alto Comando alemão equacionou a Operação Félix e a ocupação dos Açores para fechar o Atlântico aos Aliados.

Face ao risco iminente de invasão estrangeira e da perceção de que o continente não conseguiria defender as ilhas à distância (são cerca de 1450 km a distância que separa Lisboa de Ponta Delgada), o governo reforçou massivamente as defesas insulares. 

Entre 1941 e 1943, cerca de 30 mil expedicionários portugueses (do Exército e da Armada) foram enviados para o arquipélago, transformando o quotidiano de ilhas pacatas como a Terceira, São Miguel e Faial. Teve grande impacto demográfico na altura (sxegundo o censo de 1940, os Açores contavan com 287 mil habitantes!). Por outro lado, esta expedição foi um desastre do ponto de vista do planeamento, do financiamento, da logística e da execução, segundo o  historiador açoriano Sérgio Rezendes (op. cit., 2023(.
.
Até meados de 1943, existia uma vasta zona no centro do Atlântico Norte fora do alcance da cobertura aérea baseada em terra. Era o chamado "Buraco do Atlântico" (Mid-Atlantic Gap). Era ali que os U-Boote, os submarions alemães,  atacavam os comboios de abastecimento com quase total  impunidade. A abertura da Base das Lajes fechou essa lacuna operacional, permitindo patrulhas antisubmarinas contínuas com aviões de longo alcance (como os B-24 Liberator).
 
Embora as facilidades tenham sido inicialmente concedidas à Grã-Bretanha, no âmbito da velha Aliança Luso-Britânica de 1373, a entrada em cena dos Estados Unidos (através da construção do aeródromo de Santa Maria pela US Army Air Forces em 1944) redefiniu a importância geopolítica dos Açores para o pós-guerra, inserindo Portugal na esfera de segurança atlântica das potências ocidentais.

 A presença militar trouxe dinamismo económico, mas também tensões com a população local, que via a ocupação estrangeira como uma violação da neutralidade.

A Base Aérea N.º 4, sediada na Ilha Terceira, nos Açores, celebrou,  no passado dai 12 de junho de 2021, oito décadas de existência

A importância geoestratégica do arquipélago dos Açores só por si justificou a necessidade de existir uma grande infraestrutura aeronáutica, sobretudo porque garantia uma superioridade aérea sobre a naval. Tal fator foi determinante para a chegada de meios aéreos aos Açores pela primeira vez.

Face à evolução da II Guerra Mundial, em 1941 o Governo Português destacou para os Açores um Corpo Expedicionário, formado por duas Esquadrilhas de Caça: a Esquadrilha n.º 1 com destino à Ilha de São Miguel e a n.º 2 para a Ilha Terceira.

Aquando da chegada da Esquadrilha da Caça n.º 2, a construção da pista nas Lajes já se encontrava quase concluída, tendo sido declarada como apta para operações em 11 de julho de 1941.

A presença das forças da aeronáutica nos Açores conduziu em 4 de agosto de 1942 à criação da Base Aérea n.º 4, na Ilha de S. Miguel, e da Base Aérea n.º 5, no Aeródromo das Lages, na Terceira.

  • Madeira: evacuação de Gibraltar e crise social

Embora a Madeira não tenha acolhido bases aéreas militares estrangeiras, desempenhou um papel importrante, no plano humanitário, logístico e estratégico:

(i) Operação de evacuação de Gibraltar (1940):  dada a sua proximidade com o Rochedo de Gibraltar (sob controlo dos britânicos), a Madeira serviu como ponto de apoio para os Aliados, especialmente após a evacuação de Gibraltar em 1940.

Antecipando potenciais ataques alemães ou espanhóis à fortaleza de Gibraltar, o Reino Unido evacuou a sua população civil. A Madeira acolheu cerca de 2 000 gibraltinos (sobretudo mulheres, crianças e idosos), que permaneceram na ilha até ao final do conflito. Estabeleceu-se uma forte ligação afetiva entre os evacuados e os madeirenses, mobilizando hotéis e quintas no Funchal para os alojar.

A ilha recebeu também outros refugiados (incluindo judeus e outros europeus em fuga do nazismo), embora em menor escala do que Macau ou Lisboa.

(ii) Guarnição militar: a Madeira contou com um contingente reforçado de cerca de 1 000 a 1 500 expedicionários continentais, encarregados da defesa da ilha, do controlo das comunicações por cabo submarino e da vigilância das rotas navais; a ilha não tinha um 
aeródromo.

(iii) Operação Ripper: foi o nome de código de uma operação militar que os britànicos planearam para capturar a Madeira, acção ponderada entre fevereiro de 1942 e meados de 1943.

(iv) Privações económicas e mercado negro: o bloqueio naval e a escassez de combustível paralisaram o comércio tradicional do vinho da Madeira e do bordado, além de dizimarem o turismo. A ilha viveu anos de  escassez de alimentos, inflação, racionamento severo, racionamento de eletricidade, surtos de fome pontuais e o florescimento da especulação e do mercado negro.  A população madeirense teve de enfrentar privações semelhantes ou até maiores do que as do continente

  • Reações insulares ao fim do conflito (maio–agosto de 1945)

A notícia da rendição da Alemanha (Maio de 1945 - Dia V-E) e do Japão (Agosto de 1945 - Dia V-J) provocou reações distintas, mas intensas, em ambos os arquipélagos

(i) Alívio social e desmobilização: a primeira reação da população e das tropas foi de enorme alívio; o fim do conflito significava o regresso progressivo dos milhares de jovens expedicionários ao continente e o restabelecimento das rotas marítimas civis e do abastecimento de bens essenciais;

(ii) Manifestações públicas e tensões políticas: nos Açores e na Madeira, o fim da guerra levou multidões às ruas em celebração da vitória dos Aliados; em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e no Funchal, os desfiles de celebração pró-Aliados transformaram-se por vezes em manifestações de aspiração democrática; setores da oposição ao Estado Novo viam a vitória das democracias ocidentais como o prenúncio da queda das ditaduras ibéricas; o governo de Salazar acompanhou atentamente estas celebrações, limitando ajuntamentos que pudessem derivar em contestação política ao regime;

(iii) O legado das infraestruturas: o fim da guerra deixou um património transformador, sobretudo nos Açores: as pistas, instalações e redes telefónicas construídas em Santa Maria e na Terceira converteram os Açores num nó central da aviação comercial transatlântica no pós-guerra.

A centralidade estratégica demonstrada pelas Ilhas Adjacentes (e sobretudo dos Aççores) durante o conflito foi a principal "moeda de troca diplomática que permitiu a uma ditadura como a de Salazar figurar como membro fundador da NATO em 1949.

Essa é uma das grandes contradições históricas da fundação da NATO / OTAN. . Portugal entrou na NATO em 4 de abril de 1949 como um dos 12 membros fundadores, apesar de o Estado Novo de Salazar ser um regime autoritário e não democrático (partido único "de facto", censura, polícia política, ausência de vredadeirias eleições livres, repressão da oposição). 

Como explicar ? O Tratado dizia, no preâmbulo, que os membros estavam determinados a defender uma civilização fundada na democracia, liberdades individuais e Estado de direito.

Mas o artigo 10.º, que regulava a entrada de novos membros, era muito mais pragmático: permitia convidar, por unanimidade, qualquer Estado europeu, independentemente do seu regime político,  capaz de contribuir para a segurança do Atlântico Norte e promover os princípios do Tratado.  

E a  azão fundamental era bipolarização do mundo no pós-guerra e o início da Guerra Fria.

Os Estados Unidos e o Reino Unido olhavam sobretudo para a geografia militar. A questão do carácter ditatorial do regime de Salazar foi metida debaixo do tapete. Portugal era então extraordinariamente importante:

  • Açores: posição a meio do Atlântico, fundamental para a ligação aérea e naval entre a América do Norte e a Europa;
  • Portugal continental: posição atlântica e controlo das aproximações marítimas;
  • Madeira: completava, juntamente com o continente e os Açores, o chamado triângulo estratégico português.

Salazar, político hábil,  percebeu perfeitamente o valor dos Açores, o porta-aviões "natural" do Atlântico Norte... Mas Salazar não deu os Açores e recebeu a NATO. Foi uma troca diplomático-estratégica muito mais complexa: Portugal oferecia uma posição atlântica de enorme valor militar e Salazar obtinha reconhecimento internacional e legitimidade para o seu regime.

Mas há aqui uma ironia histórica, que importa sublinhar:  Portugal tentou aproveitar a negociação para, "à boleia",  obter outras vantagens, nomeadamente a inclusão das colónias portuguesas na área do Tratado (que só abrangia o Atlàntico Norte)  e a entrada da Espanha franquista. Os aliados recusaram ambas as pretensões. Portugal entrou, mas não conseguiu transformar a NATO numa garantia da manutenção do império colonial.

 A própria história oficial da NATO hoje reconhece explicitamente que Portugal era, em 1949, uma ditadura sob Salazar,  e que a sua importância estratégica ajudou a ultrapassar essa questão.  Mais: a NATO  não ajudou a “democratizar” Portugal, como alguns esperavam (incluindo alguns setores da oposição democrática) em 1949. Pelo contrário: o regime de Salazar iria permanecer no poder durante mais 25 anos ! 

Mas a NATO também foi uma escola de valores e competências para muitos militares portugueses (de Humberto Delgado a Costa Gomes) que, direta ou indiretamente, acabaram por contribuir para a restauração da democracia e o fim da guerra colonial.

(Pesquisa: LG + Wikipedia + Revista Minerva + Diário de Notícias  (Funchal) + NATO +  Defesa Nacional + IA)

(Condensação, revisão / fixação detexto, negritos; LG)
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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28294: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XII : Que futuro para os jovens que, dizem, são o futuro ?!


Timor-Leste > "Estudantes protestaram em frente ao Parlamento Nacional de Timor-Leste, exigindo o fim da lei da pensão vitalícia e pedindo mais investimento nos setores produtivos para criar oportunidades e desenvolver o país.

"Com poucas oportunidades de emprego e salários que muitos consideram insuficientes para construir uma vida estável, milhares de jovens timorenses continuam a olhar para o estrangeiro como uma oportunidade para mudar de vida. Outros preferem ficar e apostar no empreendedorismo, na agricultura ou em pequenos negócios.

"Timor-Leste é um dos países mais jovens da região. De acordo com os Censos de 2022, cerca de 65% da população tem menos de 30 anos. Esta geração representa uma enorme reserva de energia e potencial para impulsionar o desenvolvimento do país."

Entre partir e ficar: o futuro da juventude timorense (com a devida vénia...)

 

1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).


São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e fez recentemente uma operação cirúrgica, delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Ele é um exemplo vivo de amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar (a ASTIL), Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia, o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Estamos agora a publicar as do ano de 2019.



III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XII: semana de 21  a 27 de abril



21.04.2019, domingo  - Feliz Páscoa!...


O sol brilha. “ Ele é belo, radiante e com todo o esplendor: de Ti Altíssimo é a
imagem.” (Cântico das Criaturas)

E, se ontem à noite a lua quis associar-se ao evento da da vigília pascal, hoje o sol não quis ficar para trás, espalhando a notícia: ALELUIA! O SENHOR RESSUSCITOU!... FELIZ PÁSCOA!...  

E vêm à memória uma catadulpa de canções e músicas relacionadas com a Páscoa (...).

O Domingo de Páscoa aqui em Timor, para além das cerimónias religiosas/ missas dominicais em que muita gente participa, pouco ou nada se passa fora do normal.

Nada que se compare com a animação que se observa sobretudo no norte de Portugal, onde a visita pascal é a raínha. As procissões, as ruas com tapetes de flores, os folares, as amêndoas, os ovos de páscoa, etc fazem-nos alguma saudade e fazem crescer a água na boca. Paciência! Quem estiver mal que se mude (...).


Timor Leste > s/l > 2016 > O crvo vermelho e o acordeáo... O que seria o Rui sem eles, o carvo e o  acordeão ? O Rui, à esquerda, e o seu acordeão, levando às montanhas de Liquiçá a alegria, a esperança e a solidariedade das gentes da Malcata/Sabugal, e de outros lados de Portugal, de Coimbra à Lourinhã.  

O Rui com parte da  família Sobral, em Dili, no bairro Ailok Laran, em cuja casa ele fica quando vai a Timor-Leste.


Com a devida vénia à página do Facebook, Malcata.net, 21 de junho de 2016

 
22.04.2019, segunda feira  - Lições de acordeão

O acordeão é um instrumento pouco conhecido em terras do oriente, ainda que as suas origens mais remotas sejam na China. Era então um instrumento de sopro - o “Sheng” sendo o som produzido por palhetas numa das extremidades de cada tubo. 

Muitos anos mais tarde, fizeram diversas adaptações, sobretudo na Europa, sendo o ar produzido através de um fole que devidamente pressionado pelos braços faz vibrar as palhetas e tocar as notas da mão direita e da mão esquerda. Na Itália e na França situam-se as fábricas mais famosas da suas melhores marcas.

Aqui em Timor há quem toque (muito poucos instrumentistas) acordeão de teclado, mas acordeão de botões, acho que foi uma novidade quando eu apareci em 2016, tocando este estimado instrumento. Já explicarei a palavra “estimado'

Por isso há sempre alguma surpresa quando se ouve o toque do acordeão, que é um
timbre muito activo, e por isso impossível de lhe ser indiferente. Há dias lancei um repto à minha afilhada Adobe, que tem muito jeito para a música, sobretudo para cantar: 

- Não queres aprender a tocar acordeão? Eu ensino-te... 

Foi o que ela quis ouvir. Disse logo que sim, e a partir daí começamos já as lições. Hoje já foi a segunda e, digo-vos, a rapariga depressa vai aprender.

Porque é que referi “estimado” instrumento? Este acordeão é da Carolina, a filha mais nova do meu primo (irmão) Carlos, que Deus chamou para si na flor da idade, logo após fazer os dezassete anos. Tenho a certeza que ela lá no céu exulta quando eu, com carinho, me lembro dela e faço tocar o seu acordeão. O Carlos diz-me sempre: 

- Deixa-o estar que ele está em boas mãos.

 Terei todo o gosto do o estimar como se fosse meu. Mas não!... Ele é da Crolina e disso faço questão que o saibam.

A Adobe é uma menina com quase doze anos, que dentro de mais alguns terá a idade com que tu nos deixaste. Eu já lhe falei de ti, e tenho a certeza que nunca te irá esquecer, pois está a ter lições neste teu acordeão. Espero sinceramente que ela seja uma boa acordeonista e que, sempre que ela toque, a sua música chegue aos céus para júbilo de todos os que aí estão. Beijos meus e da Adobe. Sempre no coração!...

25.04.2019, quinta feira  - 25 de Abril...SEMPRE!...

Há quarenta e cinco anos. Aconteceu aquilo que muitos esparávamos: a libertação dos jugos de uma ditadura. Houve festa, houve flores, houve música e canções, houve alegria “ o povo saíu p’ra rua com alegria que (não) costumava ter”, manifestada em abraços e sorrisos rasgados; houve marchas, houve comícios e grandes concentrações.

Quem teve a sorte de viver este dia nunca mais poderá esquecer o que realmente se passou. Por isso, concordem ou não comigo, gritarei sempre, de peito bem erguido: 25 DE ABRIL ... SEMPRE!...

E não adianta que “os velhos do Restelo” ou “os profetas da desgraça” ostracizem esta comemoração, argumentando que isto está cada vez pior, clamando até pelo antigo regime, perguntando: “Foi para isto que foi feito o 25 de Abril?!” 

Claro que não!... A culpa dos males atuais não é do 25 d Abril. A culpa é de quem se serviu ou serve do poder, seja ele político ou económico, para escravizar os outros, para dominar e apropriar-se do que, por direito ou justiça não lhe não lhe pertence, para explorar e servir-se de esquemas de compadrio e corrupção. E, quem não se sente não é filho de boa gente. Mas até esta liberdade de nos podermos queixar é ao 25 de Abril que a devemos. (...)

E, sem ligar muito ao que irão dizer uns e outros, pois neste momento estou muito distante do local das operações, dir-vos-ei apenas que, à minha maneira, irei viver este dia com intensidade, pois nada nem ninguém poderá prender esta minha liberdade interior. 25 de Abril sempre!... VIVA O 25 DE ABRIL!....

25.04.2019 - Jovens timorenses... Que futuro?...

Já o afirmei noutros relatos: “a força de Timor Leste está nos seus jovens”.

É um chavão bem comum,  “os jovens são o futuro “. Mas não é por isso que eu estou escrevendo.

Esta manhã, ao ir dar um recado a casa do Anô, deparei-me com um grupo de jovens de 17 aos 30 anos (+ ou -) que, aparentemente,  nada faziam a não ser passar o tempo em amena cavaqueira. É frequente passarem por aqui durante o dia muitos jovens, individualmente ou em pequenos grupos,

A explosão demográfica aconteceu, consequência do incremento à natalidade que fizeram, depois da chacina feita pelas tropas indonésias e milícias timorenses (de 700.000 ficaram mais ou menos 500.00 habitantes).

 Famílias muito numerosas são a base atual desta sociedade timorense que, de um momento para o outro, se vê a rebentar pelas costuras, como soe dizer-se. Os diversos governos que têm exercido o poder, embora tenham já feito muita coisa, parecem impotentes de responder a todas as necessidades, particularmente às necessidades básicas de água, luz, saneamento. Há ainda muito a fazer neste domínio.

As escolas estão repletas de crianças que as frequentam. As universidades e institutos de ensino superior, idem. É uma alegria saber e verificar que a maioria das crianças vai à escola (exceção feita às crianças que vivem no interior, nas montanhas que, por dificuldades de deslocação, pais e crianças optam por ficar em casa). 

Nos dia de hoje, oitenta por cento da população timorense é alfabeta, resultado de um grande investimento na educação.

Chega?...É claro que não. Para além da quantidade, falta a qualidade. Mas é notório o esforço que todos vêm fazendo.

Então, qual é o problema? O problema é que estes jovens, muitos deles com cursos
superiores e universitários, não têm emprego. E trabalhar só para aquecer, sem o justo salário do seu trabalho, não dá. 

Muitos procuram trabalho no exterior, emigrando para a Coreia do Sul, para a Austrália, para a Inglaterra. Mas até neste sector já houve mais facilidades. Os processos de pedido de nacionalidade portuguesa, para depois poderem rumar para Inglaterra,  estão cada vez mais emperrados devido ao elevado número de pedidos e aos entraves da documentação incompleta ou falsificada.

A capacidade de resposta a esta juventude desempregada é insuficiente perante tantas solicitações. Eu não sei o que será de toda esta juventude que espera desesparada por uma resposta favorável. Até quando irão aguentar?

É compreensível que se houver um lider, venha ele de onde vier, que lhes prometa e responda aos seus anseios, possa rebentar esta bolha de ar comprimido que se está formando-

Mas o pior será se, para atingirem os fins em vista, esta matéria incandescente vira para a violência e outras coisas indesejadas. As memórias recentes das guerras e guerrilhas travadas pela independência, no último quarteirão do século passado, ainda estão muito presentes. Seria um castigo demasiado pesado para toda esta gente que, de alma e coração, é timorense. Oxalá que nunca mais!

Jovens, que futuro?... Incerto. Deus vos guie por bons caminhos!...

26.04.2019, sexta feira  - Lágrimas de alegria...

Quem espera sempre alcança. A Dílsia Rosa Oliveira, a Rosinha como carinhosamente lhe chamamos, foi das primeiras jovens a inscrever-se no programa de apadrinhamento que, há três anos, acabava de ser criado, integrado no Projeto de Solidariedade em Timor Leste. 

Quase todos os dias ela aparece por aqui, pois mora bem perto do local onde moramos, em Ailok Laran. Confesso que me dava pena sempre que chegava a notícia de algum apadrinhamento, ver a Rosinha ansiosa por saber se seria a sua vez.

Ontem, a meio da tarde, recebi um telefonema da educadora Mariana Gomes, que
trabalha na Escola Cafe de Taibessi, perguntando se era possível um encontro nesta tarde. De pronto respondi: 

- Claro que sim! Às horas que quiser...

Não demorou muito tempo, e já a Mariana e o seu “motor” davam entrada no pátio da família Sobral. Falamos de crianças, de música, da profissão, da vida neste país que agora nos acolhe. Por fim, a Mariana abordou o programa de apadrinhamento, pois já anteriormente tinha manifestado a vontade de apadrinhar uma criança /Jovem. 

Sendo sempre a decisão da responsabilidade de quem apadrinha, e depois de ser pedida a minha opinião uma vez que conheço todas as propostas, sugeri que fosse apadrinhada a Rosinha. Mais a mais a Rosinha pode vir aqui de imediato para que o conhecimento mútuo se estabeleça. A Mariana aceitou a minha sugestão e, em minutos, mandou-se chamar a afilhada que, surpreendida, perguntou várias vezes, sem querer acreditar:

- Ai?!... Vai ser minha madrinha?!... 

E, nervosa, levava as mãos ao seu rosto, chorando de alegria. A madrinha Mariana por sua vez repetia:

- Sim! Quero ser tua madrinha. 

E selaram este pacto com beijos e abraços bem apertados e lágrimas à mistura. Que cena de ternura que até faz inveja a quem faz de testemunha!...

A seguir será o preenchimento da ficha de apadrinhamento a incluir no processo.
Obrigado, Mariana,  em nome da Astil, por fazeres parte do nosso projeto de
solidariedade. Parabéns, Rosinha , pela madrinha que Deus te deu. Tens muita sorte de ter a Mariana como madrinha. Tenho a certeza que será uma relação muito eficaz.

27.04.2019, sábado  - As mães ... e os filhos

Vou falar-vos de mães e filhos galinhas e de mães e filhos teques (osgas) (náo confundir com as toqués). Ambas as mães na sua tarefa de ensinarem os seus filhotes a procurarem os alimentos que os sustentam e fazem crescer.

Ontem, uma galinha com os seus pintaínhos faziam aqui em frente uma demonstração de “ensinar para aprender” ou, por outras palavras, “aprender fazendo”. A mãe galinha esgravatava no chão e indicava o fruto do seu trabalho: um grão de arroz, um verme, um bicharoco, etc. Os pintaínhos, ainda mal saídos da casca, picavam também e aproveitavam as descobertas da mãe. Coisas da natureza...

Hoje, ainda mal se via, e estando à espera da luz do dia, vejo na parede do quarto uma mãe teque e a sua cria. A mãe estava ensinando a caçar mosquitos, uma verdadeira arte dos teques. Todas as noites presenciamos esta caça ao tesouro. Mas ver dar uma lição destas, de mãe ou de pai para o seu filho ou filha,  é um privilégio.

E eu, que tantos mosquitos tenho matado com a dita “raquete assassina”, começo a pensar que a natureza tem sempre surprezas para nos dar. Quem sabe se os mosquitos, estes seres tão odiados e perseguidos, não são mesmo necessários neste mundo em que vivemos. Pelo menos para alimentar esta ditas criaturas,  os teques que até dizem por cá darem sorte aos da casa. Que assim seja!...

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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domingo, 16 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28263: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (46): Muita honra e pouca glória...




















Prompt
original e composição editorial: Luís Graça.
Colaboração: João Rodrigues Lobo
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


Muita honra e pouca glória...

por Luís Graça

A pátria fora-lhe ingrata. Falava dela como se fosse uma mãe. Que abria o regaço. Que acolhia "filhos e enteados" . No meio da confusão. Dos tiros, dos golpes de Estado, das greves, das revoluções, das guerras.  Uma mãe nem sempre atenta, serena, lúcida, justa. Metendo por vezes todos no mesmo saco, "os bons e os maus". 

E continuava o seu solilóquio: mãe que retribuía com amor, com bonomia, com "benesses e tabefes" (sic), os sacrifícios que faziam por ela. Incluindo o supremo sacrifício da vida. Até à última gota de sangue.

 Sim, jurara perante  a "nossa bandeira verde-rubra", mesmo sendo "monárquico" ... Rituais que hoje se perderam, já não havia serviço militar obrigatório,  juramento de bandeira... Nem verdadeiro patriotismo.  Podiam julgá-lo antiquado mas ele ainda dava valor a esses símbolos. E  "à palavra dada".

Fora educado por professores e capelães, desde o Colégio Militar à Escola do Exército,  segunda a velha máxima: "É doce morrer pela pátria!"...

Doce ?!... Diziam  que sim mas era coisa que a  "alegre mocidade"  do seu tempo não levava muito a sério.  Aos 10, 15,  20 anos ninguém pensava na morte.

−  "Dulce et decorum est pro patria mori"... É a divisa do brasão de armas da Academia Militar que sucedeu à Escola do Exército...

− Ah!,  sim, doce e honroso  −  repetiu o coronel com um sorriso amargo. 

−  Teríamos  que saber o que pensam os mortos de todas as guerras.

−  Não pensam nada, meu caro.

E quis mostrar este ponto de vista com a sua experiência,  justamente de antigo combatente da "guerra de África".

A... , oitenta e tal  anos. Feitas as contas por alto   devia ter nascido por volta de 1933 ou 32. "Monárquico mas liberal",  por tradição familiar. Alentejano do Alto Alentejo (fazia questão de frisar).  Descendente do Visconde de V...

Coronel de cavalaria, tirocinado,  na situação da reforma. Cruz de guerra de terceira classe por feitos em combate no teatro de operações da Guiné. Viúvo, pai de um filho,  avô de dois  netos (que ele mal conhecia) . 

− O primeiro soldado que vi morrer na Guiné, e logo  nos meus braços,  só me balbuciou entre golfadas de sangue: 'Ai, meu ca...pi...tão, ... qu' eu... es...tou  fo...di...do! '

Hoje, concluia o coronel, havia várias formas de morte para um antigo combatente.  Tudo menos doce e honroso. A sua (e da sua geração) era  também a da amargura,  da ingratidão,  do abandono e do esquecimento. 

Falava de si e dos seus homens que "morreram para nada"  e que iam morrendo todos os dias,  um pouco por toda a parte, em Portugal, na diáspora lusófona, na Guiné, em Angola,  em Moçambique e por aí fora.

− Sinto-me  órfão da Pátria!... Sofro de  claustrofobia... Afinal fui criado no Portugal do Minho a Tiimor.

 O seu filho (o único que tinha) nunca o compreendera nem aceitara a sua opção de vida,  a carreira militar. Pouco conviveu com ele.  Fizera-lhe falta o pai nos anos mais decisivos da formação da sua personalidade. 

Quando o filho nasceu, em 1958, estava o pai  em Goa na sua primeira comissão de serviço no Ultramar.  Como alferes. Faria mais três comissões, duas como capitão  e outra como  como major.

E quando o filho  arranjou uma bolsa de estudo em 1976 para  ir frequentar uma  universidade nos EUA, o pai tinha acabado de regressar de  Moçambique, uns meses antes. (Fora um dos "últimos soldados do império", fez questão de lembrar, já com o posto de major, desempenhando funções de oficial de informações e operações, num batalhão,  cargo em que já não saía para o mato.)

O filho acabou por ficar lá, nos EUA. "Até hoje" .  E lá casara "com uma americana, rica,  de origem nipónica" . 

Tinha um grande desgosto: os seus netos não falavam português. Tinham  vindo a Portugal todos juntos uma única vez,  por ocasião da morte da mãe, sogra e avó. 

− Eu era um estranho para eles... E, como  pai,  fiquei com a certeza de que tinha perdido o meu único filho para sempre. 

De facto, não voltaria a visitar o pai  em  Portugal. Foi ele que os foi visitar à Califórnia. Os netos nada sabiam sobre Portugal, um pequeno país que  ficava completamente fora do seu radar, dos seus interesses e das suas  preocupações. 

E confirmava o seu pessimismo com o facto de,  a partir de 1975,  "termos ficado reduzidos à geografia do início do século XV, antes da conquista de Ceuta em 1415".

 Agora o que mais lhe gostava era sobretudo a solidão da viuvez e da velhice. Uma vez por ano juntava-se aos "seus rapazes" (sic),  com quem lutara na Guiné durante mais de 2 anos (contando com o tempo  inicial de formação da companhia, em Estremoz).

Adorava a sua "família militar"  com  quase  o mesmo amor que tinha pela sua família biológica. 

−  Juntos chorámos os nossos mortos e cuidámos  dos nossos feridos.

Faziam um encontro anual todos os anos desde o início de 90 mas, duas décadas depois, faltava-lhe já o ânimo e as pernas começavam a claudicar, obrigando-o a arranjar desculpas de mau pagador para não comparecer. Invocava a saúde ou a falta dela, "cada vez mais remendada".

Confidenciou-te que, sobretudo, não queria perder o seu orgulho, a sua dignidade,  a sua pose de "oficial e cavalheiro"  que sempre cultivara. Já não se gostava de se ver ao espelho. E muito menos fardado. 

−  Não me leve  a mal  se lhe disser que sempre tive sorte com as mulheres... 

−  Não de todo, coronel. Como se costuma dizer, a sorte dá muito trabalho.

Mas o contrário não era  verdadeiro : as mulheres nunca terão tido sorte com ele.  Casou tarde, não teve um casamento feliz e enviuvou cedo.

Gabava-se de,  nesse tempo, nunca ter dado uma "porrada"  em nenhum dos seus homens. Soubera sempre resolver os conflitos,  mesmo os mais graves,  do foro disciplinar, com frontalidade e bom senso,  contrariamente à tradição da sua arma, a cavalaria. Tinha camaradas que ainda usavam, na mesmo na Guiné, o "murro da ordem" para prevenir males maiores.

−   Mais valia um bom  murro nos queixos do que uma nódoa na caderneta, achavam eles. E,  se calhar, pensando bem, hoje até teriam  razão.

E lembrava-se de uma situação, grave, em que, passados mais de quarenta anos, reconhecia  que agira mal. Um dos seus cabos fora acusado de violar a sobrinha do régulo e comandante do pelotão de milícias.  Era a rapariga mais linda da tabanca. 

O então capitão fez tudo o que sabia e podia para que a "bronca" não chegasse aos ouvidos do general Spínola, o "Homem Grande de Bissau". O cabo era um dos seus melhores homens como operacional e inclusive tinha chegado a ser proposto como candidato ao Prémio Governador da Guiné.   

− Tive uma conversa séria com ele... Comecei por lhe enumerar as virtudes,  como militar e até como  homemk, acabando nos defeitos e na "borrada" que lhe ia estragar o resto da vida.... Acabou por  dar-se como culpado, com a desculpa esfarrapada de que "ela era linda de morrer" e que "um homem não era de pau"...Além disso, era a sua lavadeira e teria havido livre consentimento...  Encostei-o à parede: "Põe-te no teu lugar: e se ela fosse tua irmã ?"... Não tugiu nem mugiu...

O então capitão castigou o cabo,  obrigando-o a pagar uma reparação à família da bajuda, uma vaca que lhe custou um mês de pré. E retirou-lhe, obviamente,  a candidatura ao Prémio Governador da Guiné... 

Ao régulo calou-lhe a boca com a oferta, por parte da companhia, de uns valentes sacos de arroz para  o pelotão de milícias. Fora-lhe sempre leal. Soube mais tarde que também ele fora, infelizmente, fuzilado pelo PAIGC. 

−  Quanto ao cabo, ficámos amigos para a vida.

 Na sua  casa em Oeiras, aonde ele te convidara um dia para te mostrar o seu  "velho  álbum das glórias", ficarás a conhecer um pouco melhor a sua história de vida e a sua origem sociofamíliar.

Sim,  fora preparado para defender a pátria numa época em que o patriotismo ainda estava na ordem do dia. Tinha treze anos quando a II Guerra mundial  acabara. "Lá em casa eram todos anglófilos" . Depois veio a Guerra Fria,  passaram todos  a ser anticomunistas. 

Era da geração do "Deus, Pátria e Família". A "Santissima Trindade" do Estado Novo. Nunca fora homem (nem miliitar) de ligar à política.  Nem nunca questionara o beco sem saída da guerra em África. 

− Infelizmente, só sabia obedecer aos meus superiores hierárquicos, e dar ordens aos meus homens.

Por outro lado, a sua família sempre fora de proprietários e militares, que serviram três regimes (Monarquia constitucional, República e Estado Novo).  

No passado tinham chegado a ser grandes produtores de trigo e cortiça.  Mas  eram sempre mais os filhos e as filhas  do que as mães. Para os descendentes do Visconde de V... , a solução de vida terá sido "Coimbra, o seminário e a carreira de armas".

Gostava de falar do passado da família paterna, mas havia ali uma relação de amor-ódio ancestral   que tu não te achavas no direito de  esmiuçar, nas conversas que mantiveras com ele antes da pandemia. Uma das ocupações do coronel  era então a da reconstituição da árvore genealógica da família.

Tinha especial prazer em falar do "passado de luz e sombra" (sic)  do Visconde de V..., o patriarca da família, onde começava a "primeira geração": dali  para trás não se sabia mais nada, havia o "silêncio dos arquivos" , restava apenas uma fita de seda azul, "sinal de exposto" na Misericórdia de Lisboa. 

Mas tivera sorte, esse enjeitado, para viver e sobreviver numa época  tão conturbada como a das invasões francesas, a da fuga da corte para o Brasil,  a do fim da sociedade senhorial, e a das guerras civis liberais.

Na casa oitocentista  de Paço d' Arcos, de piso térreo, ainda estava dependurado da parede, um mau quadro, a  óleo,  com o retrato do futuro Visconde. Daqueles que ainda se encomendavam a pintores académicos antes da  chegada do "daguerreótipo". Ostentava já alguns sinais de riqueza, os  botões dos punhos de renda e o relógio de bolso, com um grosso cordão, tudo em ouro de lei.

Havia enriquecido o seu património com a compra em leilão de "bens de mão morta" . Ninguém sabia como, ainda jovem,  conseguira arranjar os "cabedais, para poder licitar uma tão vasta propriedade no Alto Alentejo. Foi dos primeiros a modernizar um latifúndio que até então só dava "caça e sobro".  

Sabe-se que fora um bravo soldado de Dom Pedro IV e correligionário de Dona Maria II. Ter-se-á afastado da política com a Patuleia, onde foi um feroz opositor dos Cabrais. Foi nobilitado já no tempo de Dom Luís. Filantropo, abriu uma escola na sede do concelho, no Alto Alentejo,  ainda antes das escolas do Conde Ferreira.  

 O coronel falava com mais conhecimento de causa da 4ª geração, do seu avô , que era bisneto do Visconde, e que terá sido um dos que mais ajudaram a delapidar o património familiar, com o vício do jogo, das amantes e dos cavalos.

− O meu pai, nascido uns anos antes  da República, não teve outro remédio se não seguir a tropa. E eu, idem, aspas...

Fez questão de ir buscar uma garrafa de uísque velho, uma preciosidade ainda do tempo da Guiné. Agora raramente bebia. Era para abrir na festa dos  90 anos. Com o seu filho e netos. Se lá chegasse... Mas já não tinha qualquer esperança de que eles se quisessem associar a essa efeméride, e ter a maçada de vir de propósito, de tão longe, da Califórnia.

− O que vale um herói da Pátria aos 90 anos ?!... Se nem sequer a família mais próxima se lembra dele ?!

Fizeste um "tchim-tchim" com o dono da casa, cada um longe de imaginar que aquele seria o seu último encontro. Umas semanas depois veio a pandemia e o confinamento... E o coronel  A...,  morreria uns meses depois. Ia fazer 87 anos. Ainda se falaram ao telefone. Recordas as suas últimas palavras:

− Fui de cavalaria mas nunca gostei de cavalos... Fui spinolista, na Guiné,   por conveniência mas também  por convicção... Fui partidário da sua política "Por uma Guiné Melhor"... O senhor marechal, que eu conheci em Angola, já coronel, fez o favor de ser meu amigo, deu-me apoio a nível moral,  operacional e logístico. Visitou-me duas vezes, na Guiné. Não esqueço esses favores.  Como não esqueço o seu papel no 25 de Abril.

Como não esquecera a cena, caricata, do general Spínola escangalhado a rir, com o monóculo na mão (o que era raro nele), e a chamar-lhe  "grande nabo" quando ele, ingenuamente, lhe contou que tivera uma queda desastrada e desastrosa  de cavalo na Escola Prática de Santarém. 

− Sou coronel tirocinado mas  fiquei às portas do generalato.  Desconheço as razões. Mas considero-me injustiçado. Nunca fui militar político. 

E esclareceu-te que no 25 de Abril ("notícia completamente inesperada", recebida no norte de Moçambique) estivera "de bico calado", à espera que a ordem regressasse aos quartéis, depois de restituída a liberdade aos portugueses.

− Como regressa sempre. O meu pai esteve envolvido  no 28 de maio de 1926. Ainda  era um jovem cadete imberbe. E arrependeu-se. Não beneficiou nada com isso. O golpe de Estado acabou por ir contra as suas ideias de monárquico liberal. Mas eu sempre me considerei um simples servidor da Pátria, como o Salgueiro Maia, a quem cheguei a dar instrução, e a quem não posso deixar de bater a pala, mesmo que eu não tenha aderido ao Movimento.... Pela sua coragem (que eu não tive) e pelo seu papel na História.  E a minha vida resume-se a isso, tal como a dele, que também foi mal tratado em vida: Muita honra e pouca glória!...

Luís Graça, agosto de 2026

Aviso legal: Os factos aqui narrados são verdadeiros. Mas qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28236: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (45): O último candando