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sábado, 27 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27578: Manuscrito(s) (Luís Graça) (279): em dezembro e era natal

















Candoz, 27 de dezembro de 2025 > Chegou o inverno, e dantes matava-se o porco

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


em dezembro e era natal

por luís graça

em dezembro
ainda não fazia frio

em dezembro
ainda não caía neve 
na serra de montemuro ali em frente

em dezembro era natal
e comiam-se rabanadas

em janeiro
cantavam-se as janeiras
e bebia-se o vinho novo
o vinho verde tinto
a que chamavam jaqué

em dezembro
ainda não havia neve
pra cozer as pencas pró natal
na casa de pedra dos camponeses pobres do norte

em dezembro
não viste as peugadas dos pés descalços
das criancinhas do augusto gil
 
"batem leve levemente
como quem chama por mim"...
ah onde estava o tipicismo da miséria rural
de a cidade e as serras do eça de queiroz

em dezembro
o pai natal não descia pelo fumeiro
por entre salpicões e moiras

vinha de peugeot pelas estradas de frança
e trazia tiparillos para a  malta fumar
à lareira

em dezembro
matava-se o porco
e fritavam-se rojões
na panela de ferro

ainda não havia salpicões e moiras no fumeiro
nem presuntos na salgadeira
mas as criancinhas já usavam socas de madeira

em dezembro
a maria do norte cortava erva pró toirinho
e cantava a plenos pulmões
uma canção que não era do sul
e que não passava na rádio

lá vai o comboio lá vai
lá vai ele a assobiar
lá vai o meu rico amor
para a  vida militar

para a  vida militar
para aquela triste sina
lá vai o comboio lá vai
leva pressa na subida

leva pressa na subida,
leva pressa no andar
lá vai o meu rico amor
para a vida militar

era  um cantaréu
mas um cantaréu
um moça não o pode cantar sozinha
são precisas três moças três vozes

não se cantavam cantaréus no natal
nem o trenó do pai natal 
passava por aqui

em dezembro
mesmo quando nevava e era natal

candoz | natal de 1976
revisto |  27 dez 2025
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Nota do editor LG:

Último poste da série : 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27529: Manuscrito(s) (Luís Graça) (278): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte IV: O Ester, o "menino Zeca" que era mecânico de aviões na base de São Jacinto

Guiné 61/74 - P27575: Foi há 100 anos (3): O Natal de 1925 e a moda (francesa), na capa e contracapa de "O Domingo Ilustrado", um semnário "inócuo" que, cinco meses deposi, estava a dar vivas aos carrascos da I República


Contracapa (pág. 20): Legenda: "Lisboa elegante e moderna: À porta da elegantíssima étalage Pompadour no Chiado, as mulheres chics de Lisboa, apeiam-se duma deliciosa limousine Citroën da Cooperativa Lisbonense dos Chauffeurs, cujos carros vieram dar à cidade uma tão grande nota de civilisação"... 

Comentário do editor LG:  Numa legenda em duas linhas, detetamos 4 galicismos (étalage, chics, limousine,chauffeurs). O francês era, até á I Grande Guerra,  a língua da ciência e tecnologia, da medicina, da civilização, da cultura, da gastronomia e da moda...


Capa: Legenda:  "A cerimónia da exposição do menino nos templos de Lisboa. [ Desenho inédito do grande artista (Manuel) Roque Gameiro ] : Entre a multidão onde afloram cabeças que são admiráveis expressões da Raça, o sacerdote expõe o símbolo da eterna graça que é o Menino Jesus! Paz aos homens, paz nos corações!... Que a curta vida que vivemos, seja mais de beleza que de  tentação, mais de bondade que de rancor!"

Comentário do editor LG: Na litogravura do Manuel Roque Gameiro (filho do Alfredo Roque Gameiro), parece haver uma falsa mistura de classes sociais: nas igrejas também havia uma clara segregação socioespacial.


O Domingo Ilustrado, Ano I, nº 50, Lisboa, 27 de dezembro de 1925. Preço avulso: 1 escudo (Edição com 20 páginas, grande parte de publicidade) (Diretores: Leitão de Barros e Martins Barata). Cortesia de Hemeroteca Digital / Câmara Municipal de Lisboa.


1. Estávamos a cinco meses do fim da República (1910-1926), derrubada pelo  golpe militar do 28 de maio de 1926, que levaria à instauração da Ditadura Militar (1926-1933) e do Estado Novo (1933-1974). 

Sobre o semanário "O Domingo Ilustrado" (de que um dia dediretores foi o futuro cineasta Leitão de Barros), já aqui dissemos, citando  Rita Lopes, na ficha histórica disponível em formato pdf, no portal da Hemeroteca Digital / Câmara Municipal de Lisboa, que teve um vida efémera (janeiro de  1925 - dezembro de 1926);

(...)  "A sua curta existência coincide com um período de grande perturbação política e social, que muitos autores consideram mesmo de guerra civil latente, e que conduzirá à Ditadura Militar, instaurada pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926.

(...) [Espelha] uma imagem profundamente negativa da política, enquanto jogo protagonizado por partidos, e, consequentemente, da própria democracia, enquanto sistema político. 

"Esta será a mensagem de fundo que trespassará subliminarmente todas as edições até ao golpe de 28 de Maio de 1926. Era então chegada a hora de aclamar sem reservas as forças que, sob o comando do general Gomes da Costa, se sublevaram em Braga e se põem em movimento para Lisboa para confiscar o poder." (...)

 Este semanário, "apolítico", "inócuo", que se pretendia aberto a todos, ao grande público, com muita parra e pouca uva (de que este nº 50, de 27 de dezembro de 1925,  é um exemplo), pôs-se de imediato ao serviço dos golpistas: 

«Este homem [general Costa Gomes] tem poder: Ajudemos este homem a salvar Portugal!» − proclama em primeira página, ilustrada com a bandeira nacional e uma fotografia do militar" (...).

O nº 50 traz na capa e contracapa ilustrações contraditórias de um Portugal, que na época ainda se resume a Lisboa, a cabeça de um vasto e desvairado império  e que está longe de ser um país moderno e desenvolvido. 

A circulação automóvel começa a mudar a paisagem da capital (há já uma cooperativa de "chauffeurs") e a moda parisiense instala-se no Chiado, burguês, chique, elegante... (A loja "A Pompadour", na rua Garrett, tinha sido inaugurada em 23 de junho de 1924.)    

Nesse ano de 1925, entre 4 e 13 de  julho, tinha-se realizado entretanto o I Salão Automóvel de Lisboa, no Coliseu dos Recreios. Na exposição estiveram presentes mais de 100 carros de cerca de 60 marcas diferentes (Buick, Mercedes, Chrysler, Studebaker, etc.). 

Há 100 anos Lisboa teria entre 6 a 9 mil veículos automóveis, entre 50% a 60% do total da frota nacional. Mas a "motorização" era já uma realidade imparável, alterando o quotidiano de uma cidade ainda dominada por elétricos, carruagens a cavalo e sobretudo peões que circulam livremente pelas ruas.

2. Nesse Natal de há 100 anos ainda se mantém, entretanto, a tradição do "beija-pé" do menino Jesus, nas igrejas, contrariando todas as boas práticas da saúde pública... 

O país estava ainda, lentamente, a recuperar da maior tragédia demográfica do séc. XX, que foi a "pneumónica" , a pandemia de gripe de 1918/19.  E a taxa de mortalidade por tuberculose era altíssima em 1925, agravada pelo regresso do  CEP - Corpo Expedicionário Português:  (i) aproximadamente entre 150 a 180 mortes por 100 mil habitantes a nível nacional; mas com grandes disparidades regionais; (ii) no distrito de Lisboa, a taxa rondava os 245 óbitos por 100 mil habitantes; e (iii) no Porto chegava a atingir os 300.

Restringindo-nos à "pneumónica",  estima-se que tenha sido responsável por um número de mortes superior ao de qualquer guerra ou desastre natural anterior em território nacional (com exceção da "peste negra"). 

Terão morrido cerca de 120 mil portugueses (2% do total da população, na altura de 6 milhões).  O ano de 1918 foi o único no século XX em que Portugal registou um saldo fisiológico negativo (mais mortes do que nascimentos), com uma perda líquida de mais de 70.000 pessoas.

Já agora acrescente-se que a epidemia manifestou-se em três momentos distintos: (i) maio/junho de 1918: uma vaga moderada, com muitos contágios mas baixa letalidade; (ii) outubro/novembro de 1918: a vaga mais letal, que paralisou o país, sendo nesta fase que a doença se tornou fulminante, muitas vezes matando em menos de 48 horas; e (iii) início de 1919: uma última vaga menos intensa, mas que ainda provocou milhares de mortos.

 A pandemia atingiu um país já de si fragilizado pela participação na I Guerra Mundial (Flandres, Angola e Moçambique), pela crise económica e financeira, pela instabilidade política do regime de Sidónio Pais e por graves crises de subsistência (fome, com todas as letras). 

Foi o colapso do incipiente sistema de saúde: total incapacidade de resposta dos hospitais e do corpo médico; falta de  caixões e coveiros; pânico generalizado  com o fluxo constante de funerais  (traduzido, por exemplo, na proibição dos  sinos das igrejas  tocarem a finados).

Face aos graves acontecimentos políticos e militares da época, e apesar da sua dimensão trágica,  a pandemia acabou por ser rapidamente esquecida e manteve-se assim durante décadas. Voltou a falar-se da "pneumónica" aquando da pandemia de Covid-19 (2020/21).
 
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Nota do editor LG:

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27570: Efemérides (380): Aconteceu há 60 anos em Jumbembem (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 24 de Dezembro de 2025:

Aconteceu há 60 anos

No ano de 1965 foram colocados na Companhia de Artilharia 730 do Batalhão de Artilharia 733 dois Soldados de Transmissões Condutor Auto, que viria estar sediada em Jumbembem, de seu nome Artur António da Conceição, o Artur, e Manuel Mendes Almeida Santos, o MC.

Jumbembem, pertencia ao Sector de Farim e ficava a meio caminho entre Farim e Contima na bifurcação da estrada que vinha de Canjambari. Das instalações de Jumbembem fazia parte uma Casa Residencial, que terá sido a habitação de um Industrial de Serração de Madeiras.

O Artur indigitado para fazer a gestão do material de transmissões, localizou a dada altura um baú contendo todas as figuras necessárias para fazer um Presépio. Nas proximidades do Natal do ano de 1965 o Artur desafiou o MC, catequista tal como a Artur, a construir um presépio em Jumbembem usando para o efeito o material encontrado. O Homem sonha, a Obra nasce.
Presépio de Jumbembem no Natal de 1965

O Batalhão tinha maioritariamente origem no Sul do País, onde determinadas caraterísticas não permitem grande aceitação a eventos de carácter religioso.

Quando o Padre Maia se deslocava a Jumbembem o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC asseguravam as tarefas do auxiliar de Serviços Religiosos.

Se a Missa era por alma do Cachopo e do Baleizão, os dois mortos em combate, a Companhia comparecia em peso, mas se fosse uma Missa para cumprir calendário, só aparecia o Artur e o MC o Senhor Capitão e mais meia dúzia de especialistas.

Permitam-me a imodéstia, mas o Artur teve mais um posto enquanto militar que desempenhou com todo orgulho e aceitação. O Artur foi Decano das Praças da Companhia de Artilharia 730. Para além escala de serviço fazia os autos de destruição, as requisições de material, a manutenção das baterias e ainda tinha tempo para tratar da horta onde cresciam as melhores alfaces e o melhor tomate de Jumbembem.

Artur Conceição
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Nota do editor

Último post da série de 18 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27545: Efemérides (380): No passado dia 10 de Dezembro, a Força Aérea Portuguesa condecorou as nossas Enfermeiras Paraquedistas com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe. A cerimónia decorreu no Comando Aéreo, em Monsanto, e contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27544: Efemérides (379): No dia 24 de Dezembro de 1969 o PAIGC instalou-se com armas pesadas junto à fronteira, mas dentro do Senegal, desencadeando uma violenta acção militar contra Cuntima (Eduardo Estrela, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2592/CCAÇ 14)

1. Mensagem do nosso camarada Eduardo Estrela, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2592/CCAÇ 14 (Cuntima e Farim, 1969/71), com data de 17 de Dezembro de 2025:


24 de dezembro de 1969

Três grupos de combate saíram manhã cedo para interditar os carreiros de infiltração do PAIGC no corredor de Sitató.

Era prática comum estarem no mato 2 ou mais grupos, por períodos de 48 horas. Cuntima tinha como guarnição militar 2 companhias operacionais, naquela época a CCAÇ 2549 e a CCAÇ 14, mais um Pelotão de Armas Pesadas e um Pelotão de Milícias.

A mim e a mais uns quantos sortudos, coube-me ir defender a minha querida pátria, sempre representada na figura da CUF, contra os malfeitores que se propunham tomar como seu, aquilo que lhes pertencia.

Posição relativa, Farim - Cuntima - Colina do Norte - Sitató
© Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné. Carta da Província da Guiné 1/500.000

Deslocámo-nos e emboscámos diversos trilhos e sítios que podiam eventualmente ser passíveis da deslocação de forças do PAIGC.

Não houve contacto. Mas por volta das 21,30 do dia 25 rebenta um fortíssimo ataque a Cuntima.

O PAIGC instalou-se com armas pesadas junto à fronteira mas dentro do Senegal e desencadeou uma violenta acção militar.

Em boa hora a nossa resposta os calou.

Recordo os clarões dos rebentamentos vistos do mato e a preocupação que se apoderou de nós.

Esse foi o meu primeiro Natal da guerra maldita.

Felizmente só houve uns quantos feridos ligeiros.

A todos os que continuam no activo, da memória e da confraternização, votos de boas festas na companhia daqueles que transportem nos vossos corações.

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Nota do editor

Último post da série de 27 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27468: Efemérides (378): foi há 55 anos a Op Abencerragem Candente (25 e 26 de novembro de 1970, subsetor do Xime), com meia dúzia de mortos de um lado e do outro

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26398: Eufemismos: o "acidente com arma de fogo" como causa de morte (1): o caso o cap art Fausto Manteigas da Fonseca Ferraz, cmdt da CART 1613 (Guileje, 1967(68), morto em São João, em 24/12/1966




guardião das memóras da CART 1613 e de Guileje (1967/68). 
Foi um histórico (e um entusiasta) do nosso blogue
 e o primeiro a "deixar-nos"...  Tem mais de 80 referèncias.




Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 8.° volume: Mortos em Campanha, Tomo II, Guiné - Livro I, 1ª ediçáo. Lisboa, 2001,  pág. 224


1. Houve vários casos de homicídio, suicídio, automutilação, "fogo amigo", erro humano ou técnico, falha no manuseamento de arma de fogo, mina ou armadilha, etc,  ocorridos entre as NT, no TO da Guiné, e que originaram baixas mortais, tendo  invariavelmente sido tratadas, para os devidos efeitos (incluindo estatísticos) como "acidentes com arma de fogo". 

Trata-se de um "eufemismo", ou seja, um figura de estilo que usamos para, sem alterar o essencial do sentido,  encobrir, branquear, disfarçar ou atenuar factos, situações ou ideias  grossseiras, rudes, desagradáveis ou dramáticas, recorrendo a expressões mais suaves ("lerpar", por exemplo, em vez de "morrer", "levar um par de patins" em vez de "ser punido")...

O eufemismo é muito usado pelos seres humanos (não sei se os robôs já sabem usá-lo: depois de aprenderem a matar, aprenderão todo o resto). Os portugueses não são exceção. O eufemismo ajuda-nos a alijar a culpa, escamotear a responsabilidade, humanizar a tragédia, dourar a pílula, aligeirar a realidade, suportar o absurdo, fazer humor...e até "fazer amor" (outro púdico eufemismo).

No caso do meio militar, em tempo de paz ou de guerra, a expressão "acidente com arma de fogo" afeta menos o moral da tropa do que expressões ou vocábulos com "carga negativa" como fogo amigo, homicídio, suicídio., erro humano, falha técnica... Não sei como o exército, durante estes período de 1961/75, dava estas "funestas notícias" à família... De qualquer modo, o eufemismo também a ver com o pudor face à morte e sobretudo à "hipocrisia social".

Talvez por isso, por estas e outras razões, se prefirisse usar a expressão "acidente com arma de fogo" em vez  de "chamar os bois pelos nomes"...E no entanto as forças militares e militarizadas correm mais o risco de usar, indevidamente, as armas que estão à sua guarda... (Mas nós, convém dizê-lo,  não somos especialistas em ciências forenses, nem em justiça militar...)

Alguns destes casos já foram relatados aqui no blogue.. Vamos recapitulá-los, esperando com isso sistematizar esta matéria (que é melindrosa e dolorosa) e suscitar eventualmente novos contributos por parte dos nossos leitores.... Em tempo de paz ou de guerra, estes casos não chegam, em geral,  ao conhecimento público. Não chegavam ontem (nem hoje, apesar da liberdade de imprensa)...


2. Foram contabilizadas durante a guerra colonial (1961/75), no conjunto dos combatentes dos 3 ramos das forças armadas (e incluindo os do recrutamento local), em Angola, Guiné e Moçambique:

  • 10425 baixas mortais ("mortos"), por todas as causas (combate, acidente e doença),
  • a par de 31300 feridos graves (3 feridos graves por cada morto; 10 feridos, graves e não graves, por cada morto)
No TO da Guiné, esses números foram os seguintes:

  • 2854 mortos (dos quais 1717 em combate);
  • 9400 feridos graves.
"Excluindo as milícias", os mortos do Exército na Guiné foram os seguintes, discriminados por principais causas:

  • Ferimentos em combate = 1273 (58,5%)
  • Doença = 281 (12,9%)
  • Acidente com arma = 251 (11,5%)
  • Acidente de viação = 166 (7,6%)
  • Afogamento = 138 (6,3%)
  • Acidente de aviação = 2 (0,0%)
  • Outras causas  = 66 (3,0%)
  • Total= 2177 (100%)
(Fonte: adapt de Pedro Marquês de Sousa, "Os números da guerra em África". Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2021, cap. II, pp. 97 e ss.)

Pelo menos, cerca de 12% das mortes no TO da Guiné foram devidas a "acidente com arma de fogo"... 

Estarão aqui, nestes casos,  as situações, mais frequentes de falhas no manuseamento de minas, armadilhas, dilagramas,  granadas de LFog e de armas pesadas, disparos acidentais com pistolas, pistolas-metralhadoras, espingardas automáticas, erro humano ou técnico, etc.,  mas também "fogo amigo", homicídio, suicídio, automutilação...



3. O caso do cap art Fausto Manteigas da Fonseca Ferraz é, inegavelmente, um dos que podemos classificar como homicídio.

 O autor, confesso, do crime, o soldado Cavaco,   foi condenado em Tribunal Militar a 23 anos de prisão maior, a cumprir em estabelecimento penal adequado na Metrópole. Vejamos, sumariamente, como tudo ocorreu.

Na vésperas da noite de Natal de 1966, uma tragédia vai ensombrar a história da CART 1613/BART 1896, a companhia que estava em IAO em São João, na região de Quinara, frente á ilha de Bolama, e que iria, seis meses depois, para Guileje (onde esteve, como unidade de quadrícula,  de junho de 1967 a maio de 1968). 

BART 1896, mobilizado no RAP2, Vila Nova de Gaia, esteve originalmente destinado a Angola. Tinha desembarcado em Bissau em 18 de novembro de 1966 (e regressaria à metrópole em 18 de agosto de 1968).  (Além da CCS, e da CART 1613, era formado ainda pela CART 1612 e CART 1614.).

No livro da CECA (8.° volume: Mortos em Campanha, Tomo II, Guiné - Livro I, 1ª ediçáo. Lisboa, 2001,  pág. 224) diz-se que "o cap mil art com o nº mecanográfico 1036/C", de seu nome Fausto Manteigas da Fonseca Ferraz, a comandar a CART 1613, foi vítima  de "acidente com arma de fogo" (sic), ocorrido no aquartelamento de S. João (e não Cachil...), vindo a morrer a 24 de dezembro de 1966 no HM  241, em Bissau.(*)

 (Há aqui, parece-nos,  um erro a corrigir: O cap art Fausto Ferraz não era milicino, pertencia ao QO, e foi-lhe,  "a posteriori", feita a correção de antiguidade, ao abrigo da Lei 15/2000, de 8 de agosto:  alferes com a antiguidade de 1 de novembro de 1952; tenente com a antiguidade de 1 de dezembro de 1954; capitão com a antiguidade de 1 de dezembro de 1956; major com a antiguidade de 25 de Maio de 1966; na ficha da unidade, publicada pela CECA aparece como "cap mil grad art"; o seu nome também não consta da lista dos antigos cadetes da Academia Militar mortos ao ao serviço da Pátria durante a Campanha do Ultramar, 161/74).

O malogrado cap art Fausto Ferraz (de que não temos, infelizmente, qualquer foto) foi inumado no cemitério da Conchada, em Coimbra. Era casado com Maria Fernanda Ferreira da Costa, filho de Manuel Fonseca Ferraz e Ana Rosa Manteigas, sendo natural da freguesia de Pousafoles do Bispo, concelho de Sabugal.

Houve testemunhas desse funesto acontecimento. O cap SGE ref José Neto (1929-2007), um dos históricos do nosso blogue (**), contou-me (e depois contou-nos), antes de morrer,  que o autor dos disparos foi o soldado condutor autorrodas José Manuel Vieira Cavaco. 

O Cavaco era madeirense, tendo recebido na véspera de Natal provisões remetidas pela família, entre elas uma garrafa de aguardente de cana de açúcar (rum da Madeira) (ou mais provavelmente poncha, a bebida tradicional da Madeira, feita de aguardente de cana-de-açúcar, açúcar ou melaço de cana e sumo de limão). 

Já não poderemos confirmar se era rum da Madeira, só regulamentado em 2021,   ou a tradicional poncha da Madeira, cuja produção e comércio também só foi regulamentada há uns anos atrás, em 2014, pelo Governo Regional da Região Autónoma da Madeira; de qualquer modo,  o rum tem um teor alcoólico minimo de 37,5º, superior à poncha (25º).

Chegado à Guiné há pouco mais de um mês, a CART 1613  estava em S. João, frente a Bolama, em treino operacional.

A mobilização para a Guiné (em vez de Angola), as andanças do batalhão e da companhia, 
as saudades da terra, a incerteza face ao futuro, as recordações do Natal na ilha e a poncha (ou o rum)  fizeram uma mistura explosiva. 

Sob o efeito do álcool, e sem qualquer motivo aparente, o Cavaco abateu a tiro o comandante da companhia, "alferes de artilharia, graduado em capitão", Fausto Manteigas da Fonseca Ferraz, na véspera de Natal, 24  de dezembro de 1966.

Creio que feriu mais militares. O Zé Neto, na altura 2º sargento a exercer as funções de 1º srgt,  "teve que o esconder para ele não ser linchado" (sic). (***)


3. Voltemos ao relato do Zé Neto (que foi a principal testemunha):

(...) No dia 25 de Dezembro [de 1966] vieram dois helis com oficiais que indagaram, investigaram, fotografaram e regressaram a Bissau sem o Cap Corvacho, que ficou a comandar, interinamente, a companhia. (...)

Inicialmente, na orgânica do Batalhão, o Cap Corvacho era o oficial mais antigo no seu posto e desempenhava as funções Oficial de Pessoal e Reabastecimento.

Eu já tinha lidado com ele em Brá, pois foi o oficial instrutor dum processo disciplinar que exigi ao comandante, na iminência de ser punido por uma infracção de trânsito - excesso de velocidade da viatura que me transportava - apenas em face da participação dum furriel da PM [Polícia Militar] e dum sistema de deteção de velocidade discutível.

O Cap Corvacho (que tinha o curso de Polícia Militar) levou as suas averiguações até ao mínimo pormenor e concluiu – e assim o exarou no final do processo – que a minha ordem ao condutor (não dada, mas assumida) de ultrapassar uma camioneta do BENG [Batalhão de Engenharia] que travou ao ver a patrulha da PM, foi a adequada para evitar a possível colisão, e o excesso de velocidade assinalado pelo aparelho, 12 Km/hora (62-50) em nenhum momento pôs em perigo a circulação na faixa contrária. (...)

O primeiro ato de comando do Capitão Corvacho foi mandar formar a companhia. A sua breve alocução resumiu-se a:

 
– Estou aqui para vos comandar até à chegada do novo comandante que há-de vir da Metrópole. Enquanto esta situação se mantiver vou exigir-vos o máximo e dar-vos todo o meu apoio. A minha primeira exigência fica já aqui: O que se passou esta noite foi uma tragédia que, contada e recontada, pode vir a sofrer deturpações que em nada favorecem a companhia. Por isso não vos peço que esqueçam, mas sim que não alimentem as coscuvilhices de Bissau e acho que a melhor resposta que podemos dar aos curiosos é: Isso é um assunto interno da companhia, ponto final.

Mandou destroçar e convocou os oficiais e sargentos para uma reunião. Disse-nos que queria o pessoal o mais ocupado possível. Que fossem à lenha, que fossem jogar a bola, que fossem banhar-se na praia, e que o resto do programa de treino operacional era para cumprir no duro.

Depois chamou-me à parte e fomos dar uma volta para conhecer o quartel – eu tinha chegado ali na véspera, pois tinha ficado em Brá a tratar da papelada e pedi para ir passar o Natal com os “meus rapazes” – e a nossa conversa andou à volta da situação algo calamitosa em que se encontrava o setor da alimentação com os desvarios que o Furriel vagomestre tinha apontado na reunião.

Ficou assente que eu não ia regressar a Bissau no dia 27, como estava previsto, e ficava em São João a fazer um balanço e pôr um pouco de ordem no setor administrativo enquanto ele ia tentar tirar a pele ao pessoal até fazer deles uns combatentes de verdade.

Em princípios de janeiro de 1967, a CART 1613 que regressou a Brá para ficar como companhia de intervenção à ordem do Comando-Chefe, era outra. 

Entretanto chegou a Bissau o oficial nomeado para comandar a companhia, o Capitão de Artilharia Lobo da Costa, e gerou-se um pandemónio dos diabos.

Eu nunca tinha visto, nem achava possível, uma manifestação de soldados. Mas o que é certo é que, por organização espontânea, a minha tropa foi postar-se frente ao gabinete do comando do batalhão a gritar:

 – O nosso comandante... é o capitão Corvacho!

Com a voz embargada pela comoção, o Capitão Corvacho disse-lhes:

– Vocês não sabem o que me estão a pedir… mas fico na companhia. Vou trocar as funções com o vosso novo comandante. Ponham- se a andar.

Toda a companhia, desde o Básico ao Alferes mais antigo, compreendeu aquela decisão do Homem que trocava o sossego da Messa e da Gestetner (máquinas dactilográficas e policopiadoras) pela terrível G3. (...)

PS - Acrescente-se que a quadra natalícia, coincidência ou não, parece que era propícia à ocorrência de baixas mortais (os nossos camaradas do Portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar publicaram uma lista de cerca de seis dezenas de combatentes, dos 3 TO, que tombaram na véspera e no dia de Natal, por todas as causas, incluindo acidente com arma de fogo, acidente de viação e afogamento. Talvez houvesse mais álcool a correr, nesses dias...
 

4. Eis um excerto do relato do Zé Neto sobre o julgamento do Cavaco, realizado um ano depois em Bissau. (O cap inf Eurico Corvacho ficará entretanto no lugar  do cap art Fausto Ferraz, não sabendo nós o destino que foi dado ao cap art Lobo da Costa que o vinha substituir) (****)


(...) No final do ano [1967], eu, o furriel Martins e o 1º cabo Santos fomos chamados a Bissau para depor no julgamento do soldado Cavaco . O Tribunal Militar funcionou nas salas do tribunal civil e, em duas sessões, ficou tudo resolvido. 

O Cavaco deu-se como culpado e o seu defensor, um tenente miliciano de Administração Militar que era advogado, apenas se deu ao trabalho de procurar provar atenuantes para reduzir a pena.

Tanto eu como o furriel e o cabo respondemos apenas às perguntas que nos foram formuladas. O tenente, a certa altura, perguntou-me qual era a minha opinião sobre o comportamento do réu, anterior aos factos.Gerou-se uma pequena quezília processual entre o promotor e o advogado que acabou com o juiz auditor (civil) a intrometer-se e declarar que aquele Tribunal tinha a obrigação de conhecer o caráter do réu e, naquele momento, ninguém mais conhecedor do que o depoente (eu) podia responder a perguntas que levassem a fazer um juízo acertado.

Fiquei sob o fogo cerrado, ora de um, ora de outro, com respostas curtas, quase sim e não. O coronel presidente acabou por me interpelar dizendo-me que, por palavras minhas, classificasse a qualidade de soldado do réu. Respondi com convicção:

– Um excelente e infeliz soldado.

A pena foi de vinte e três anos de prisão maior, a cumprir em estabelecimento penal adequado na Metrópole. Nunca mais o vi, mas tive notícias de que o rapaz não cumpriu nem metade da pena. (...) (***).
______________


Notas do editor:

(*) Vd. poste de 
13 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26386: Humor de caserna (95): Os meus Natais de 66 e 67 no HM 241, em Bissau (António Reis)
 
(**) Vd. postes de:


10 de janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - P417: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (1): Prelúdio(s)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26311: (In)citações (259): A melhor prenda de Natal que vou ter é saber que vocês fazem parte desse exército de sonhos onde a meta é atingir a dignidade e o respeito pelos uns outros (Eduardo Estrela, Cacela Velha,. V. R. Sto António)

1. Mensagem do Eduardo Estrela (ex-fur mil at inf, CCAÇ 2592/CCAÇ 14, Cuntima e Farim, 1969/71; vive em Cacela Velha, Vila Real de Santo António; membro da Tabanca Grande desde 29/2/2012 (foto à direita)


Data - terça, 24/12/2024, 22:57
Assunto - Espera contínua

São 22,28 e a emoção toma conta de mim. Não riam, eu sei que bem lá no fundo vocês aguardam tal como eu a chegada do momento da partilha .

Continuamos a ser as crianças agora mais adultos, que aguardam com algum alvoroço emocional a hora da troca.

Pela vida fora trocamos uns com os outros muita coisa . Felizmente e a maior parte amizade e amor. Mas há quem tenha um prazer mórbido em alterar a força da racionalidade e pretenda transformar o bom no mau .

Desde tempos imemoriais assim tem sido .

Eu acredito que havemos de conseguir transformar este mundo onde estamos num mundo melhor. Um mundo de solidariedade e de concórdia e onde a riqueza seja mais equitativamente distribuída.

A melhor prenda de Natal que vou ter é saber que vocês fazem parte desse exército de sonhos onde a meta é atingir a dignidade e o respeito uns pelos outros.
 
A guerra transformou-nos em irracionais. A sua memória obriga-nos a ser tolerantes .

Abraço fraterno
Eduardo Estrela

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Nota do editor:

Último poste da série > 1 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26221: (In)citações (258): Era ele... Todo inteiro (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26302: Manuscrito(s) (Luís Graça) (263): Neste Natal não mandei cartões de boas festas a ninguém



O arroz doce da "chef" Alice | Luís Graça (2024)


Jardim da Nita (1947-2023), Madalena, V. N. Gaia |  Luís Graça (2024)





Quinta de Candoz |   Luís Graça (2008)

Neste Natal não mandei cartões de boas festas a ninguém

por Luís Graça


Eu poderia ter escrito:

Neste Natal
tornem o mundo mais bonito
com o vosso sorriso,
com as vossas gargalhadas,
com as vossas emoções à flor da pele…

... e ter mandado um cartão
para os meus amigos
com votos de boas festas
nas mais desvairadas línguas do mundo:
Feliz Natal
Merry Christmas,
Joyeux Noël,
Feliz Navidad,
Buon Natale,
Frohe Weihnachten,
God Jul …

Mas não,
não escrevi nem mandei.
Neste Natal não mandei cartões de boas festas a ninguém.
Nem neste ano nem no ano passado.
Não me perguntem porquê…
Estou amuado com o mundo,
com os senhores deste mundo e do outro.
Mas este mundo e o outro
estão-se literalmente nas tintas para comigo
e para com os meus amuos.

Pensando bem,
os meus amigos (incluindo os meus camaradas da Guiné)
deviam merecer um cartão de ocasião,
um bilhete postal,
um 'cartanito', como dizem os alentejanos,
com os meus votos de boas festas
e como prova de vida e pedido de desculpas.
Eles não me levariam a mal,
esboçariam até um sorriso de condescendência,
quiçá até de compaixão…
Coitado,
está radioativo, protésico,parkinsónico,
quiçá alzheimareado!...

Queridos amigos e camaradas:
não é fácil não cair nos chavões
repetidos até exaustão, até à náusea,
nesta época dita natalícia
em que a natureza, a vida, os bichos,
os homens e até os deuses renascem…
Mas por outro lado
também é insuportável o silêncio,
a muralha da China do silêncio às costas do mundo.
Mesmo que haja excessivo ruído e poluição estética
nestes dias que antecedem o Natal e o Ano Novo,
mesmo que haja crise das comunicações,
é nos difícil não-comunicar.
É quase impossível não-comunicar.
É mesmo impossível não-comunicar.

De uma maneira ou doutra
acabamos por dizer aos outros, em geral
e aos amigos, em particular,
que estamos vivos,
que consumimos logo existimos,
que comunicamos logo pensamos,
que pensamos neles
e logo lhes mandamos um cartão, 
um simples email ou um poste no blogue.
Afinal, já não se mandam cartões de Natal pelo correio,
toda a gente tem agora uma caixa de correio eletrónico,
toda a gente está ao alcance de um clique,
já ninguém é infoexcluído,
toda a gente tem um telemóvel
e sabe mandar pelo Whatsapp
um cartão de boas festas natalícias.

No fundo, queremos sentir e fazer sentir
que os nossos amigos estão vivos,
que eles e nós estamos ainda vivos,
que somos uns felizardos por estarmos vivos…
É talvez a altura do ano
em que a solidão dói mais, custa mais,
custa mais a passar,
se é que algum dia passa.
Como se fora uma simples dor de dentes, ou de ouvidos…
Mas não é uma dor que passe com analgésicos.
Estás só, nos dois grandes momentos fulcrais da vida,
no alfa e no omega,
no princípio e no fim, 
no nascer e no morrer.
E, episodicamente, ao longo da vida,
tens a ilusão de estar acompanhado.
Afinal, estás só nas grandes decisões que tomas
ou que tomam por ti:
no nascer e no morrer,
no ir à guerra e matar
no ter um filho,
no assumir a paternidade…

Por isso hesitei
entre a palavra e o silêncio,
entre o pavor da palavra
e o horror do silêncio.
Gostaria de ter a certeza
que os amigos também se entendem através do silêncio,
também sabem deixar espaços em branco
para que o jardim da amizade se construa e se consolide
no silêncio dos dias e no pesadelo das noites,
em que não damos ou não queremos dar
sinais de vida uns aos outros.

Gosto, ou já gostei noutros natais,
da ideia, algo pueril,  de que o Natal deveria ser todos os dias.
Mas, por outro lado, recuo
ante a perspetiva de 365 dias de felicidade bovina,
365 dias todos seguidos,
sem um dia de discórdia,
de conflitos,
de chatices,
de problemas,
de incidentes,
de acidentes,
de stresse,
de adrenalina,
de ameaças,
de desafios,
de alegrias e tristezas,
de vitórias e derrotas,
enfim, de pequenos altos e baixos…

Como bom cristão
ou bom budista,
ou bom muçulmano
ou outra qualquer filiação do catálogo das religiões,
que não sou, 
ou como simples agnóstico,
manifestaria o desejo
de nos podermos organizar nesse sentido,
ou seja, de virmos a ter Natal todos os dias.
Não no calendário ,
mas em nós mesmos,
nos nossos corpos e almas,
nas nossas casas,
colmeias,
casulos,
redes neuronais,
casernas,
ilhas,
ilhotas,
arquipélagos,
empresas,
guetos,
depósitos de velhos a que chamamos lares de 3ª idade,
bairros,
cidades,
países,
mundos…
Nas nossas covas da moura, nas nossas mourarias,
ou nas nossas moradias de um milhões de euros.

Dito isto, hesitei...
hesitei entre o silêncio e a palavra,
sabendo que a comunicação é uma armadilha,
mas mais forte é o apelo dos sons, dos cheiros,
dos sabores, das cores e dos tons
o amor e da amizade
neste princípio de Inverno de 2024,
na despedida de mais um ano,
em que inexoravelmente ficamos mais velhos
e estamos mais sós,
irremediavelmente sós
tão sós como os milhões, biliões, trilióes de estrelas do universo
mas continuamos a ser animais, de sangue quente,
mamíferos, primatas, territoriais, sociais,
circadianos e heliocêntricos.
Animais que deixam peugada, 
muitas peugadas, 
existenciais e ecológicas,
físicas e simbólicas.

Não sei se foi mais um annus horribilis,
mas não foi um ano fácil,
lá isso não foi.
Como o não foi o 2023,  e por aí fora,
e como o não será  o de 2025,
para todos nós, homens e mulheres
que procuramos manter habitável e amigável o planeta,
a começar por aqueles que não têm motivos,
grandes, pequenos, assim-assim,
para sorrir, dar gargalhadas,
ter esperança e ter alegria.
Não foi fácil viver e sobreviver em 2024.

Penso naqueles,
para quem o ano de 2024 não foi pai nem mãe,
mas padrasto e madrasta,
mesmo que o ano, coitado,
não tenha personalidade jurídica,
nem coração nem razão,
contrariamente ao nosso patrão,
ou ao polícia do nosso bairro,
e o calendário seja o bombo da festa das nossas frustações…
Penso naqueles que vão morrer em 2025,
de uma lista onde estamos todos, de A a Z.

Neste Natal gostaria de poder enviar-vos daqui,
uma palavra
que fosse doce, quente, amiga, solidária,
fofa, calorosa, vistosa, feliz,
em forma de bolo-rei 
(gosto mais do bolo-rainha porque não tem frutas cristalizadas),
ou de pires de arroz doce com canela
ou de aletria (para os do Norte)
ou de prato de rabanadas,
acabadas de fritar.
Ou ainda de girândola de foguetes,
do estuário do Tejo à baía do Funchal.

Mas sinto-me colado ao teclado,
vidrado, bloqueado, cristalizado,
enquanto lá fora a neve coze as pencas do Norte
que irão ser comidas na Consoada
com o bacalhau com todos.
Ou chegam grandes paquetes
com gente que pagou uma nota preta para fugir
do Natal da tundra e do deserto e da estepe
com velhos e louros e novos,
que vêm ver a feérica cidade-presépio mais a sul,
que não é seguramente
a cidade do Menino Jesus da minha infância.

Talvez antes
eu devesse convidar-vos
para se sentarem à mesa comigo
nesta consoada ou na passagem de ano.
Mesmo simbolicamente que fosse.
À mesa somos verdadeiramente companheiros,
porque partilhamos do mesmo pão
e bebemos do mesmo vinho.
Na guerra, sim, somos ou fomos camaradas.
Fico na dúvida sobre o que é
física, mental, emocional,
social e espiritualmente mais correto.
Já não acrescento o politicamente correto
porque não queria estragar a quadra que é natalícia
e que deve ser festiva
e que deve ser de paz para todos os homens de boa e má vontade.

Neste ano (nem nos passados anos) 
não vos mandei um cartão de boas festas
com os dizeres:
Neste Natal
tornem o mundo mais bonito
com o vosso sorriso,
com as vossas gargalhadas,
com as vossas emoções à flor da pele…


Não tive coragem,
confesso que não tive coragem nem lata.
Ou sobretudo lata.
Não tive lata, falta de vergonha ou de pudor,
Ou se calhar não quis,
não tive pachorra, não pude,
fiquei sem internet, estive com gripe, ou houve greve dos correios…
Poderia invocar outra desculpa qualquer,
que seria sempre uma desculpa,
esfarrapada…

Este ano (nem nos anos passados) 
não mandei um cartão de boas festas
nem para aqueles que cuidam da minha saúde,
e para quem quem tenho uma dívida de gratidão,
da minha médica  de família aos meus enfermeiros,
do  meu urologista à oftalmologista que me operou às cataratas,
da minha neurologista à minha hematologista,
do meu ortopedista ao meu personal trainer,
da minha audiologista ao meu otorrino,...
sem esquecer a senhora ministra da indústria da doença.

Mesmo não podendo ou não querendo,
ou não querendo e não podendo  ao mesmo tempo,
acabei, afinal, por vos mandar, a todos e a todas, 
os meus votos de boas festas de Natal e Ano Novo.
Atabalhoadamente...

Que sejam, ao menos, quentes e boas
…como as castanhas assadas.

Madalena, 24 de dezembro de 2007.
Revisto:  Funchal, 31 de dezembro de 2008  | Madalena, 23 de dezembro de 2024.| 

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26290: Desejando Boas Festas, Feliz Ano Novo de 2025, e aproveitando para fazer... prova de vida (8): "Outras Festas Natalícias - Natal, uma época mágica", por Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR do BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74

OUTRAS FESTAS NATALÍCIAS

NATAL – UMA ÉPOCA MÁGICA[1]

Juvenal Amado

Naquela casa, pouco mais que remediada, o Natal era celebrado com grande alegria. Na altura a árvore era enfeitada de algodão e bugalhos pintados com purpurinas douradas e prateadas, alguns chocolates seriam pendurados mais próximo da data. Na antevisão das prendas não se sonhava com as grandes e inacessíveis montras das lojas que ofuscavam com o brilho e cores.
Tanta coisa que soava a agressão, para quem não podia reclamá-las.

A mãe fazia os fritos de abóbora, a batata doce frita em rodelas envoltas em açúcar e canela e uns bolinhos também fritos a que chamam hoje carolinas.

Era uma azáfama com que se preparava o festejo.

Comiam carne pois de bacalhau estavam fartos, eventualmente havia laranjada, bebia-se café de cevada e petiscavam os fritos e bolinhos.
As crianças deitadas agitadas mal dormiam para ir ao sapatinho onde as esperavam as alegrias que o menino Jesus lá tinha deixado - e também desilusões.

O comboio tinha ficado nalguma estação e a boneca tinha ido parar por engano a outra casa. A título de justificação o pai e mãe diziam que iam ver como tal tinha acontecido.

O pai fazia a maior parte dos brinquedos às escondidas. Pistolas e espingardas, camas e guarda-roupa para as bonecas. Era tudo lindo, a que se juntava uns lápis e chapéus de chocolate.
O tempo foi passando e, na vez de brinquedos, começaram a receber umas meias, uns sapatos, uma mala para a escola – material que há muito fazia falta. Rapidamente se passou dos brinquedos para as necessidades mais prementes.

Os Natais foram melhorando em função dos filhos que logo que saídos da escola iam trabalhar. Perdia-se a magia em troca de mais alguns bens que se podiam comprar.

Para o filho mais velho o Natal teve mais tarde outro significado, que foi o da saudade, quando em África passou três Natais seguidos.
O tempo corria lento e pesado, o suor corria denso encharcando o caqui nas longas noites de serviço ou em patrulhas esgotantes e perigosas. Não pensava no regresso pois era doloroso, embriagava-se e espantava assim a melancolia junto com os camaradas. Para casa escrevia que tinha sido bom e que estava bem.

Em Abril de 74 regressou a casa. Para trás ficou um muro de recordações de bons, assim-assim e inesquecíveis maus momentos.

Perderam-se os convívios, os calores humanos, tinha regressado - mas nunca totalmente. O que se perdeu lá ficou no passado por vezes sangrento, feito de medo e solidão, que hoje será coragem.

Casou, teve filhos e finalmente reviu-se nos Natais passados ao assistir à agitação dos mais pequenos na antevisão das prendas no sapatinho.
E a magia voltou a acontecer.

17 de Dezembro de 2024
Juvenal Sacadura Amado

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Notas do editor

[1] - Com a devida vénia ao Blogue da Tabanca do Centro

Último post da série de 18 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26285: Desejando Boas Festas, Feliz Ano Novo de 2025, e aproveitando para fazer... prova de vida (7): Mensagens natalícias de José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381; Grã-Tabanqueiro José Carlos Mussá Biai; Grã-Tabanqueiro Patrício Ribeiro, fundador da Impar em Bissau e Joaquim Fernandes Alves, ex-Fur Mil da CART 1659