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sábado, 27 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27578: Manuscrito(s) (Luís Graça) (279): em dezembro e era natal

















Candoz, 27 de dezembro de 2025 > Chegou o inverno, e dantes matava-se o porco

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


em dezembro e era natal

por luís graça

em dezembro
ainda não fazia frio

em dezembro
ainda não caía neve 
na serra de montemuro ali em frente

em dezembro era natal
e comiam-se rabanadas

em janeiro
cantavam-se as janeiras
e bebia-se o vinho novo
o vinho verde tinto
a que chamavam jaqué

em dezembro
ainda não havia neve
pra cozer as pencas pró natal
na casa de pedra dos camponeses pobres do norte

em dezembro
não viste as peugadas dos pés descalços
das criancinhas do augusto gil
 
"batem leve levemente
como quem chama por mim"...
ah onde estava o tipicismo da miséria rural
de a cidade e as serras do eça de queiroz

em dezembro
o pai natal não descia pelo fumeiro
por entre salpicões e moiras

vinha de peugeot pelas estradas de frança
e trazia tiparillos para a  malta fumar
à lareira

em dezembro
matava-se o porco
e fritavam-se rojões
na panela de ferro

ainda não havia salpicões e moiras no fumeiro
nem presuntos na salgadeira
mas as criancinhas já usavam socas de madeira

em dezembro
a maria do norte cortava erva pró toirinho
e cantava a plenos pulmões
uma canção que não era do sul
e que não passava na rádio

lá vai o comboio lá vai
lá vai ele a assobiar
lá vai o meu rico amor
para a  vida militar

para a  vida militar
para aquela triste sina
lá vai o comboio lá vai
leva pressa na subida

leva pressa na subida,
leva pressa no andar
lá vai o meu rico amor
para a vida militar

era  um cantaréu
mas um cantaréu
um moça não o pode cantar sozinha
são precisas três moças três vozes

não se cantavam cantaréus no natal
nem o trenó do pai natal 
passava por aqui

em dezembro
mesmo quando nevava e era natal

candoz | natal de 1976
revisto |  27 dez 2025
______________

Nota do editor LG:

Último poste da série : 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27529: Manuscrito(s) (Luís Graça) (278): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte IV: O Ester, o "menino Zeca" que era mecânico de aviões na base de São Jacinto

14 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Os mouros/moiros estão ainda muito presentes no imaginário dos cristãos do Norte

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Nas lendas, no vocabulário, na gastronomia.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

"Moiras" são chouriços de sangue.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Cozidas com arroz de grelos são um dos meus pratos favoritos.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Os cantaréus são das coisas mais fascinantes que tenho ouvido, do nossa música popular portuguesa.

Anónimo disse...

Da graciosidade das coisas vivas e mortas do ecossistema de Candoz dás-nos conta Luís, com mestria de quem faz da máquina fotográfica o que quer. E a policromia das cores do início de inverno ajudam ao encanto dos teus retratos que parecem dar mais beleza aos objectos retratados.
Um grande abraço, Luís.
Carvalho de Mampatá

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Obrigado, António. Sabes bem que eu sou o "sulista" que mais gosta do Norte... Depois de muitos outros á minha frente...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Não, não tenho essa veleidade... Gosto do meu país, de Norte a Sul, de Leste a Oeste...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

E gosto de Candoz.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A poesia e a fotografia são apenas formas de dizer que gosto. Das pessoas, da natureza, do ser e do estar... Tratam-me bem. Mesmo que não o digam por escrito. Como tu.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Infelizmente, o tempo é sempre curto. Passei o Natal em "Portus Cale", já "terra de mouros", Madalena, Vila Nova de Gaia, a sul do Douro. Foi a Serralves. Estive com o Zé Teixeira. Dei um salto a Candoz. Muito frio, muitas gripes. Já ontem passei pela Lourinhã (preciso também do mar, para "lavar a vista", como dizia o meu velho...) e vim dormir a Alfragide.

Boas saídas deo 25, melhoras entradas no 26 para todos os amigos e camaradas nortenhos da Tabanca Grande. E também para os do Sul e do Centro. Particularizar é sempre discriminar...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

E ontem, ao chegar à Lourinhã, tive uma notícia triste. O João Crisóstomo soube que tinha morrido o Horácio Fernandes, o nosso antigo capelão na Guiné e ainda meu parente, do clã Maçarico de Ribamar, membro da nossa Tabanca Grande. Vou fazer-lhe um "In Memoriam".

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Como é que este país, montanhoso (Norte e Centro), com poucas terras aráveis, conseguiu alimentar-se e alimentar a nobreza e o clero ? E depois meter-se nas guerras do Norte de África e na "aventura da expansão marítima" ?

Tabanca Grande Luís Graça disse...

No alto da quinta de Candoz , junto ao meu sobreiro, que deve ter 60 anos, e olhando as serras em redor, as vezes penso nestas coisas.