Candoz, 27 de dezembro de 2025 > Chegou o inverno, e dantes matava-se o porco
Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
em dezembro e era natal
por luís graça
em dezembro
ainda não fazia frio
ainda não fazia frio
em dezembro
ainda não caía neve
ainda não caía neve
na serra de montemuro ali em frente
em dezembro era natal
e comiam-se rabanadas
e comiam-se rabanadas
em janeiro
cantavam-se as janeiras
e bebia-se o vinho novo
cantavam-se as janeiras
e bebia-se o vinho novo
o vinho verde tinto
a que chamavam jaqué
a que chamavam jaqué
em dezembro
ainda não havia neve
pra cozer as pencas pró natal
na casa de pedra dos camponeses pobres do norte
em dezembro
não viste as peugadas dos pés descalços
das criancinhas do augusto gil
das criancinhas do augusto gil
"batem leve levemente
como quem chama por mim"...
ah onde estava o tipicismo da miséria rural
de a cidade e as serras do eça de queiroz
em dezembro
o pai natal não descia pelo fumeiro
por entre salpicões e moiras
como quem chama por mim"...
ah onde estava o tipicismo da miséria rural
de a cidade e as serras do eça de queiroz
em dezembro
o pai natal não descia pelo fumeiro
por entre salpicões e moiras
vinha de peugeot pelas estradas de frança
e trazia tiparillos para a malta fumar
à lareira
em dezembro
matava-se o porco
e fritavam-se rojões
na panela de ferro
ainda não havia salpicões e moiras no fumeiro
nem presuntos na salgadeira
mas as criancinhas já usavam socas de madeira
em dezembro
a maria do norte cortava erva pró toirinho
e cantava a plenos pulmões
uma canção que não era do sul
e cantava a plenos pulmões
uma canção que não era do sul
e que não passava na rádio
lá vai ele a assobiar
lá vai o meu rico amor
para a vida militar
para a vida militar
para aquela triste sina
lá vai o comboio lá vai
leva pressa na subida
leva pressa na subida,
leva pressa no andar
lá vai o meu rico amor
para a vida militar
era um cantaréu
mas um cantaréu
um moça não o pode cantar sozinha
são precisas três moças três vozes
não se cantavam cantaréus no natal
nem o trenó do pai natal
passava por aqui
em dezembro
mesmo quando nevava e era natal
candoz | natal de 1976
revisto | 27 dez 2025
______________
Nota do editor LG:
Último poste da série : 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27529: Manuscrito(s) (Luís Graça) (278): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte IV: O Ester, o "menino Zeca" que era mecânico de aviões na base de São Jacinto
14 comentários:
Os mouros/moiros estão ainda muito presentes no imaginário dos cristãos do Norte
Nas lendas, no vocabulário, na gastronomia.
"Moiras" são chouriços de sangue.
Cozidas com arroz de grelos são um dos meus pratos favoritos.
Os cantaréus são das coisas mais fascinantes que tenho ouvido, do nossa música popular portuguesa.
Da graciosidade das coisas vivas e mortas do ecossistema de Candoz dás-nos conta Luís, com mestria de quem faz da máquina fotográfica o que quer. E a policromia das cores do início de inverno ajudam ao encanto dos teus retratos que parecem dar mais beleza aos objectos retratados.
Um grande abraço, Luís.
Carvalho de Mampatá
Obrigado, António. Sabes bem que eu sou o "sulista" que mais gosta do Norte... Depois de muitos outros á minha frente...
Não, não tenho essa veleidade... Gosto do meu país, de Norte a Sul, de Leste a Oeste...
E gosto de Candoz.
A poesia e a fotografia são apenas formas de dizer que gosto. Das pessoas, da natureza, do ser e do estar... Tratam-me bem. Mesmo que não o digam por escrito. Como tu.
Infelizmente, o tempo é sempre curto. Passei o Natal em "Portus Cale", já "terra de mouros", Madalena, Vila Nova de Gaia, a sul do Douro. Foi a Serralves. Estive com o Zé Teixeira. Dei um salto a Candoz. Muito frio, muitas gripes. Já ontem passei pela Lourinhã (preciso também do mar, para "lavar a vista", como dizia o meu velho...) e vim dormir a Alfragide.
Boas saídas deo 25, melhoras entradas no 26 para todos os amigos e camaradas nortenhos da Tabanca Grande. E também para os do Sul e do Centro. Particularizar é sempre discriminar...
E ontem, ao chegar à Lourinhã, tive uma notícia triste. O João Crisóstomo soube que tinha morrido o Horácio Fernandes, o nosso antigo capelão na Guiné e ainda meu parente, do clã Maçarico de Ribamar, membro da nossa Tabanca Grande. Vou fazer-lhe um "In Memoriam".
Como é que este país, montanhoso (Norte e Centro), com poucas terras aráveis, conseguiu alimentar-se e alimentar a nobreza e o clero ? E depois meter-se nas guerras do Norte de África e na "aventura da expansão marítima" ?
No alto da quinta de Candoz , junto ao meu sobreiro, que deve ter 60 anos, e olhando as serras em redor, as vezes penso nestas coisas.
Enviar um comentário