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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos


Lourinhã > Ribamar > c. 1959 > Da esquerda para a direita  os então padres franciscanos (Ofm - Ordem dos Frades Menores)  Horácio Neto Fernandes (1935-2025) e Júlio Alberto Maçarico Fernandes (1934 -  falecido, no Canadá, em data desconhecida)


De acordo com o   "livro da família Maçarico", tanto o Horácio  como o Júlio eram meus parentes: no caso do Horácio,  as nossas bisavós paternas, Maria da Anunciação e Maria Augusta,  nascidas por volta de 1860, eram irmãs;  no caso do Júlio, o  seu avô materno, Manuel Filipe Maçariço, era o primeiro dos cinco irmãos, machos, da Maria da Anunciação e da Maria Augusta.  
Um outro irmão do clã Maçarico foi  José Martinho.



 José Martinho ficou conhecido por Frei José de Cristo (Ribamar, Lourinhã, 1861 - Varatojo, Torres Vedras, 1937). Vestiu o hábito aos 16 anos, em 1888, iniciando assim o Noviciado. Trabalhou e deixou obra artística em vários conventos  (Montariol, Braga; Colégio de Tuy, Galiza; Varatojo, Torres Vedras) como carpinteiro-entalhador, arte que já vinha da famíla. Morreu aos 76 anos, com quase meio século de vida religiosa. Era tio-avô do Júlio, e tio-bisavô do Horácio (e meu...). 

O Júlio foi missionário, OFM, em Moçambique (João Belo, Mavila, Zvala, Maxixe). Regressou à metrópole em 1970. Saiu da ordem, franciscana, nessa altura. Emigrou para o Canadá, lá casou e lá morreu, em data que desconheço.

Fui de resto à missa nova de ambos, em agosto de 1959, com uma semana de intervalo. Eu tinha 12 anos. Lembro-me da terra (casas, ruas...) toda engalanada com ramos de palmeira, eucalipto, flores, numa alegria indescritível. Ainda não havia igreja, na altura Ribamar nem sequer era freguesia. Começava-se a ganhar bom dinheiro com a pesca da lagosta. E os filhos da terra deixaram de ir para o Varatojo, começavam a estudar no Externato Dom Lourenço, na sede do concelho, Lourinhã, inaugurado em 1958.

Há um quarto Maçarico, o João Maria Maçarico, nascido em 1937, que também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico.


Ribamar da Lourinhã era uma terra vizinha de Varatojo, sofrendo portanto a sua influência. A restauração da Província Portuguesa da Ordem Franciscana ou dos Frades Menores (OFM) oficializou-se no final de 1891, após a extinção das ordens religiosas em 1834. Embora tenham sido expulsos, os franciscanos organizaram o seu regresso progressivo, celebrando o 1.º centenário desta restauração em 1991. Mas em 1888 o "Maçario" José Martinho já era noviço no Varatojo.

A família Maçarico tinha tradição na arte da construção naval e da capintaria. (LG)

Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002,  pag.123.

PS - Américo Maçarico (foto à direita, acima),     que era 1º ten ref da Armada, morreu  aos 80 anos, em Ribamar, em finais de 2024.  Nasceu em Ribamar, em 1943. Fez diversas comissões no ultramar:   Angola (1964/66), Moçambique (1967/69), Timor (1972/74).Tinha mais de 41 anos de serviço na Armada. Passou à reserva em 1999.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 

No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  seis postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

(vii) até ser mobilizado para a Guiné, em 1967, ele conta-nos, muito sucintamente, o que foi a sua vida. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution" que eram os ainda os seminários das ordens regulares, e nomeadamente da Ordem dos Frades Menores (OFM): Montariol / Braga, Varatojo / Torers Vedras, Leiria, Carnide / Lisboa...

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 

Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  ainda antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.


Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro.  




História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII:   Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

por Horácio Fernandes


4. 5. Ordenação e Missa Nova (12)

Seis meses antes, juntamente com mais 4  colegas, entre eles o meu primo (13), comecei a aprender as cerimónias da Missa, com a ajuda de um Mestre  de Cerimónias. 

Não cabia em mim de contente. Ia  ser a minha verdadeira entronização em Arribas do Mar [lRibamar, Lourinhã], perante os olhares atónitos daquela gente. 

A cerimónia na Sé Catedral de Lisboa, com  a assistência dos meus pais e de muita gente de  Arribas do Mar, foi o primeiro passo de uma corrida  alucinante, que ia durar todo o mês de agosto de  1959. 

Depois, foi a primeira missa no convento [na Luz, Carnide, Lisboa], com  os recém-ordenados. Todos queriam participar e  beijar-me as mãos, ainda recém-ungidas e sentia-me  importante. 

De casa recebia cartas a revelar-me todos os  preparativos da grande festa. O meu primo  [Júlio Fernandes],celebraria num domingo e eu no seguinte. Uma  festa não ensombrava a outra. A minha festa, asseguravam-me, era mais de todo o povo.

- 124 -

A Missa Nova, na minha terra, foi além de todas as expectativas. A cerca de um quilómetro de distância, foi toda a população esperar-me com foguetes e procissão a preceito. 

Estavam presentes as autoridades da terra e o meu padrinho de Missa Nova foi o Presidente da Câmara [João Ferreira da Costa, presidente da edilidade, entre 1958 e 1970].    

A missa foi cantada, pelos meus colegas que vieram acompanhar-me. O significado foi maior, porque foi no local da futura igreja, com toda a solenidade. A minha família era cumprimentada por todos e recebeu também as honrarias. Eu nem sabia para onde me havia de voltar, com tanta gente a querer beijar-me a mão de recém-sacerdote.

Seguiu-se o almoço para dezenas de convidados, no recinto, à frente da minha casa toda engalanada e servido pelas pessoas da terra. As despesas foram todas cobertas com ofertas do povo de Arribas do Mar. 

Não me enganara. O povo aderiu entusiasticamente. Tudo se conjugou, portanto, para ser uma festa de arromba. Dormi essa noite em casa dos meus pais, mas ao outro dia vieram buscar-me. 

Regressava agora ao quotidiano do ser padre.

- 125 -

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Nota do autor:

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado

Nota do editor LG

(13)  Falhou esta nota de riodapé. O primeiro era o Júlio Alberto Maçario Fernandes, que seria missionártio OFM em Moçambique, até 1970.

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4. 5. Depois de 13 anos de inculcação do 'habitus' sacerdotal, Francisco com 23 anos feitos já não era o jovem tímido de fato preto e chapéu na cabeça, mas sentia segurança da própria legitimação.

Francisco assumia que foi escolhido e  ungido para sempre (Tu es sacerdos in aeternumentre 47 companheiros e detinha o poder simbólico de administrador do sagrado: perdoar pecados, fazer filhos de Deus pelo baptismo, celebrar a Eucaristia, pregar a palavra de Deus.

Tinham-lhe inculcado que a sua presença era requerida pelos pobres pagãos, que lá longe, em África, pediam, suplicantes, a graça do baptismo para poderem ir para o céu. Sem pensar em compensações terrenas, havia de ser querido pelos fiéis e combatido pelos infiéis, por ser o representante da Santa Igreja «a Nossa Mãe".

- 124 - 


As representações de criança transformaram-se em realidade e não obstante o duro caminho que teve de encetar,  sentia-se recompensado.

À medida que se aproximava o momento da Ordenação, Francisco sentia todo o protogonismo de quem tinha sido vencedor. Tinha conseguido ser o herói não só do seu avô, como dos devotos que tinham confiado nele.

Afinal era a mesma geração que o viu ir para o Seminário, agora mais amadurecida e com mais dinheiro. O povo de Arribas do Mar, culturalmente, mantinha ainda a subordinação ao sagrado, embora estivesse a dar os primeiros passos na senda do progresso económico. O motor substiuira a vela e os barcos de maior calado ganharam outra autonomia. Com a descoberta de novos bancos de pesca e equipados de novas tecnologias, as estadias de 8 e 15 dias em Sesimbra, Cascais, Setúbal e Algarve, abriram brechas no seu ruralismo fechado.

Francisco, alheado dos problemas sociais e vestido do seu duplo hábito, apenas via o povo cristão que era preciso alimentar da palavra de Deus. As suas representações do ser padre e missionário estavam ainda intactas. Afinal, pensava, tinha valido a pena tantos sacrifícios

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5.  Missão

A lógica da instituição era geralmente encaminhar os padres mais novos para os Colégios, os tidos como mais «observantes» (14)  para Mestres de noviços e coristas, e os restantes para as Missões. Para Prefeitos de Disciplina eram escolhidos os maiores domesticadores, sem qualquer formação em Pedagogia. Desta normalidade, ficavam de fora os favoritos na instituição, que, ou por mérito próprio, ou com algum patrocínio,tinha acesso aos saberes da Igreja, numa Universidade transnacional, trampolim mais directo para o poder.

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Nota do autor:

(14) Que, no discurso simbólico, significa, mais conformados com o 'habitus'.

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Francisco, pautado pela normalidade, nunca questionou as tarefas que lhe destinavam os Superiores. Construira, contudo, a par das suas representações simbólicas, o desejo de ajudar a família. O 'habitus', contrariamente ao estatuído, não tinha desenraizado Francisco da primeira instância de socialização. O sangue falava mais alto que o 'habitus'.

Verdadeiramente, Francisco nunca interiorizou que tinha deixado a sua família, e tinha se integrado na família institucional, onde foi domesticado. Nunca lhe deram o afecto e o carinho de uma família. Os superiores não eram os pais. Eram os chefes. A casa não era dele, por mais que no Noviciado e Coristado lhe tentassem meter isso na cabeça. Aí comia e dormia e passava a maior parte do tempo, mas isso não bastava para a considerar sua casa. Nunca encontrou aí um espaço familiar, mas um lugar em que alguém mandava e obrigava a cumprir os Regulamentos e os outros obedeciam, ou procuravam refúgio em famílias amigas.

 O poder sacralizado dos Superiores, envolto em cenários simbólicos de investidura medieval, nunca foram interiorizados por Francisco. A família religiosa, eclesial, nunca substituiu a geneológica. Desde que o desenraizaram das suas raizes familiares, viveu sempre órfão, agarrado às suas representações.

A missão trazia ainda o inevitável contacto com os problemas afectivos da vida real, que tão zelosamente tinham sido escondidos no Colégio Angélico,  Noviciado e Coristado. Os maiores clientes habituais de Francisco eram do sexo feminino, que procuravam na relação espiritual o alívio catársico e simbólico para as suas preocupações e angústias.

Contudo, o 'habitus', estava ainda vigilante qual Prefeito, embora imperceptivelmente fosse abalando as estrumas panópticas ab intra e ab extra.

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Cenário 1 - Professor no Externato,   Capelão de freiras nos dias úteis e servidor   de famílias ricas aos domingos.

O lugar que os Superiores me   destinaram, sem o mínimo de interferência da   minha parte, foi o de professor no Externato,  que funcionava no rés-do-chão do Seminário [em Leiria]

Fui incumbido de dar aulas de Ciências   da Natureza, disciplina em que tinha que estudar   mais que os alunos. Contudo, à força de   persistentes apelos à memória, os meus   alunos não fizeram má figura no liceu.  

Nos dias de semana, o despertar era às  7 horas e ia celebrar missa a um Colégio de  freiras. Ao domingo, levantava-me ainda mais  cedo, pois havia que celebrar missa para os  lados de Setúbal, numa quinta de pessoas muito importantes no meio financeiro (14A),.

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Sempre com a veste regulamentar e sandálias nos pés descalços, fosse inverno ou verão, apanhava o eléctrico até à Baixa, descia a pé até ao Terreiro do Paço e aí tomava o barco para Cacilhas. Depois era a camioneta para uma vila próximo de Setúbal  onde um empregado da quinta me esperava numa furgoneta de caixa aberta.

Cheio de entusiasmo fazia todos os domingos, e dias santos este percurso para; celebrar missa para meia dúzia de criados. Os patrões, a quem estavam reservados genuflexórios de veludo, só assistiam à missa, nas festas principais do ano, mas, assim, ficavam com a consciência tranquila.

No Natal e Páscoa pedia licença para ir um ou dois dias antes, pernoitando numa casa anexa dos hóspedes. Aproveitava para ensaiar cânticos com o pessoal da quinta. 

Numa festa de Natal fiquei muito admirado, porque pedi a uma filha dos senhores para acompanhar os cânticos ao órgão da capela e recebi, como resposta, que não acompanhava os criados.

Conservo, contudo, outras recordações: futuros pretendentes aos tronos europeus e embaixadores participavam nas recepções. Só foi uma vez convidado a estar presente e, não obstante a amabilidade de todos, senti-se usado como um adereço desnecessário.

Ao fim do mês era portador de um cheque para o Seminário, não sei de quanto; porque nunca abri o envelope. Por vezes, aparecia péla quinta um capelão militar, amigo do filho dos senhores, que cumpria o serviço militar, mas não me ligava. Alinhava com o filho do patrão a transpor obstáculos de terra batida, em jeito de diversão, onde os carros novos saiam todos amachucados. Conservo, sim, na memória, um ou outro  passeio, nas alamedas da quinta, de charrete,  com o filho do caseiro, a meu pedido.  

- 127 - 

Entretanto um pensamento me  perseguia: ajudar a minha família endividada. A primeira coisa que fiz, foi pedir uma entrevista ao Provedor  Misericórdia de Lisboa. Expus-lhe a minha   situação e consegui uma bolsa de estudo para a minha irmã, que tinha com grande sacrifício   de meus pais tirado o 2º ano e queria ser enfermeira. 

Entretanto, a mais nova, também   quis estudar. Como os meus pais não podiam  custear os estudos, arranjei uma família algarvia, sem filhos, que a recebeu. Pode assim estudar o 1 ° e 2o anos, sem nada pagar.  

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Nota do editor LG:

(14A) No livro de 2009, o Horácio Fernandes diz que se tratava da Herdade da Comporta.
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Cenário 2 -Prefeito de Disciplina no Colégio Angélico

 Entretanto, abriu outro Colégio Angélico na região Centro para captar novas vocações. Sob pressão das instâncias internacionais da Igreja (...),  os alunos passaram a fazer exame ao liceu, em regime de  ensino doméstico. Registei o meu Diploma do Ensino Natureza Particular no Liceu Nacional da cidade   [Leiria] e fui assumir o cargo de Prefeito aos 26 anos, tendo como Subprefeito um colega mais novo.

 No mesmo edifício havia ainda um asilo, onde era Director também um colega. Quando me nomearam,sem me consultar, tomei conhecimento que o Colégio  tinha um ano de experiência liceal, mas sem resultados satisfatórios, sobretudo a Ciências e Matemática. Era preciso reabilitar a sua imagem.

- 126 - 

O primeiro contacto com Colégio Angélico ficou-me bem marcado na memória. Comecei a receber umas cartas dirigidas ao «Senhor Padre Prefeito» e abri-as. Era a correspondência dos alunos para o meu antecessor. 

Abri uma ou duas e fiquei boquiaberto: os alunos, na sua inocência falavam de momentos de intimidade, que me deixaram estupefacto. Aconselhei-me com o colega e. a partir daí, todas as cartas dirigidas ao ex-Prefeito eram queimadas, sem as abrir.

Estava-se em 1962 e tinha 26 anos, Tomei a peito a tarefa, mas não descurei a promoção social e material da minha família. Trouxe para essa cidade a minha irmã mais nova, para prosseguir a Escola Comercial. Dormia em casa de uma senhora amiga, mas preparava as lições e almoçava no Colégio Angélico.

Era preciso mostrar resultados no liceu, a qualquer custo. Aceitei o desafio e obrigava os alunos a multiplicarem as horas de estudo. 

Os métodos para conseguir manter cerca de 100 alunos em silêncio e a estudar, horas a fio, num largo salão, eram os mesmos com que tinha sido formado: disciplinação a todo o custo. 

Assumi o papel de Prefeito e os métodos que sempre vira praticar. Afinal os Regulamentos eram os mesmos: o ritual da formatura, do silêncio, da domesticação do corpo e espírito. 

Por feitio próprio, não me isolava dos alunos e jogava a bola com eles. Contudo, o Prefeito era o guardião da disciplinação e os castigos dependiam unicamente da representação que ele fazia do delito e tinha sempre razão.

A Ciências já vinha treinado do Externato, mas a Matemática tinha grandes dificuldades. Assumi o desafio de a reaprender e obtive óptimos resultados no liceu, à custa da repetição e mecanização dos exercícios do Palma Fernandes.

Mesmo assim, era um pouco diferente do Colégio Angélico, onde estudara os primeiros cinco anos [em Montariol, Braga]. Os tempos era outros. Os alunos tinham mais contactos com as famílias. Iam a férias do Natal, Páscoa e fim do ano lectivo e podiam receber visitas eisair com familiares, ao fim de semana. Eram quase todos filhos de emigrantes.

- 127 -

Esta preocupação pela minha fámília, levou a que muitas vezes deixasse o Colégio ao fim da tarde, em conluio com o meu colega,  e fosse visitar os meus pais, de camioneta, a cerca de 130 quilómetros.

Anexo ao Colégio, havia o Seminário de Filosofia. Estava-se nos anos 60 e os Coristas com quem ia por vezes jogar futebol, andavam em autêntica revolução. De noite, tiravam o hábito e iam às escondidas para o cinema da cidade. Tinham um jornal clandestino, 'O Esgravilhão', onde criticavam os Mestres e as normas. Faziam piqueniques com produtos furtados ao Seminário, à noite, durante o silêncio e ninguém conseguia contê-los. 

Iniciara-se a assim a revolta que iria continuar pelos anos 60 e multiplicar as deserções (...).

Como Prefeito do Colégio Angélico, estava relacionado com as famílias dos alunos, com os clientes do Seminário e com o pessoal feminino que trabalhava para o asilo e o Colégio. Era o primeiro contacto informal, mas assumido, com o sexo feminino, depois da repressão de 13 anos.

- 128 -  


Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 124 -128 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste ds série > 27 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre
 
Vd. postes anteriores: 




domingo, 10 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26135: As nossas geografias emocionais (32): Bafatá, 1959, ano de cheias, fazendo jus ao nome da vila ("o rio vai cheio") (Leopoldo Correia, ex-fur mil, CART 564, Nhacra, Quinhamel, Binar, Teixeira Pinto, Encheia e Mansoa, 1963/65)

 

Foto nº 1 > Guiné > Região de Bafatá > Bafatá > 1959 > O jardim local, na margem direita do rio Geba Estreito. Ao centro, a estátua de Oliveira Muzanty.


Foto nº 2 > Guiné > Região de Bafatá > Bafatá > 1959 > Cheias (1): Uma das ruas da zona ribeirinha inundadas; à esquerda, o comerciante Carlos Marques da Silva


Foto nº 3 > Guiné > Região de Bafatá > Bafatá > 1959 > Cheias (2):  uma loja com um passadiço improvisado


Foto nº 4 > Guiné > Região de Bafatá > Bafatá > 1959 > Cheias (3):  o mercado que já existia nos 30, de arquitetura revivalista



1. Ainda não se falava de "alterações climáticas", mas já o rio Geba Estreito (ou Xaianga) transbordava, periodicamente, as suas margens, inundando a baixa da vila de Bafatá (próspera, a partir dos anos 30/40, graças ao "ciclo da mancarra")...


As fotos chegaram, há uns largos anos atrás, ao nosso blogue, pela mão do nosso tabanqueiro Leopoldo Correia (ex-fur mil, CART 564, Nhacra, Quinhamel, Binar, Teixeira Pinto, Encheia e Mansoa, 1963/65) (foto à esquerda).

Estas e outras fotos de Bafatá, de 1959, foram tiradas por um familiar seu, ligado ao comércio local (Casa Marques Silva), casado com uma senhora libanesa, filha do senhor Faraha Henen.

Mais tarde, falando com o Leopoldo Correia, ao telefone, vim a descobrir que afinal o Mundo é Pequeno e a Nossa Tabanca... é Grande!...

De facto:

(i) era um homem das sete partidas: depois da "peluda", viveu em Angola, trabalhou na Diamang;

(ii) voltou para o "Puto', trabalhou na EDP, por exemplo na Central Termoelétrica do Barreiro onde fez amizade com amigos e conterrâneos meus, o Carlos e o Hugo Furtado (que andou comigo na escola primária);

(iii) na Guiné, também conheceu, entre outros, o Fernando Rendeiro, comerciante de Bambadinca a cuja casa fui algumas vezes almoçar, no tempo em que lá estive (julho de 69/março de 71)...

(iv) falou-me da viúva do Rendeiro, mandinga, Auá Seid (entretanto já falecida) e dos filhos (que  o comerciante de Bambadinca, natural da Murtosa,  nunca nos mostrava mas de quem falava com tanto carinho e orgulho: tinha uma filha a tirar direito, em Coimbra)...

(v) vivia em Águas Santas, Maia;

(vi) não tenho, há muito, notícias dele.

As fotos revelam um drama que se tem agravado com o tempo: as cheias do rio Geba (ou Xaianga).

A antiga cidade colonial de Bafatá (topónimo que vem do mandinga, "baa faata", "o rio vai cheio), infelizmente ainda não conseguiu ultrapassar a decadência urbana,demográfica e económica, que tem a idade da independència do país. (**)

O fim do "ciclo da mancarra", " a semente do diabo" (imposta pelos "colonialistas", e de queo grupo CUF, através da Casa Gouveia, foi o grande beneficiário)  foi também, material e  simbolicamente, o fim da "princesa do Geba". Em contrapartida, o "ciclo do caju", imposto pela nova economia planificada de Luís Cabral, não produziu a riqueza que se esperava, para a grande maioria dos guineenses, em geral, e os bafatenses, em particular, que criaram novas tabancas  ao longo do eixo rodoviário do leste, que liga Bambadinca a Nova Lamego. 

No nosso tempo havia as tabancas da Rocha,da Ponte Nova, da Nema... Há muitas mais... Mas continua a haver inundações no Vale de Bafatá, como este ano, provocando grandes estragos, em culturas (arroz de bolanhas de água doce) e em habitações, ao longo do curso do rio até Bambadinca,
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Notas do editor:

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Guiné 61/74 - P24731: Notas de leitura (1622): "Os Desastres da Guerra, Portugal e as Revoltas em Angola (1961: Janeiro a Abril)", por Valentim Alexandre; Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2021 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Janeiro de 2022:

Queridos amigos,
Esta obra de Valentim Alexandre é um portento de rigor, não se conhece estudo mais exaustivo quer para a génese do movimento anticolonial quer para estes tão profundamente documentados três primeiros meses dos acontecimentos angolanos de 1961. E não hesito sequer a dizer que todo este trabalho de História Colonial que cronologicamente o autor abriu com o seu monumental Contra o Vento - Portugal, o Império e a Maré Anticolonial (1945-1960), em 2017, e que agora tem os seus primeiros capítulos que garantem não só uma leitura palpitante e esclarecedora como um acervo documental único. E o distanciamento, pedra angular dos historiador, fica suficientemente comprovado para tornar todo este corpo de investigação uma pedra angular da História de Portugal Contemporâneo.

Um abraço do
Mário



O início da guerra em Angola, os três primeiros meses (1):
Uma surpreendente obra de referência sobre a génese da convulsão anticolonial


Mário Beja Santos

Os Desastres da Guerra, Portugal e as Revoltas em Angola (1961: Janeiro a Abril), por Valentim Alexandre, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2021, marca o regresso de Valentim Alexandre à história colonial, de que possuí extenso e brilhante currículo, ainda há escassos anos nos ofereceu outra obra de referência, Contra o Vento – Portugal, o Império e a Maré Anticolonial (1945-1960), também publicado em Temas e Debates/Círculo de Leitores, que pode ser encarada como a primeira peça de algo que se afigura vir a ganhar corpo como a História da Guerra Colonial (1961-1975), empreendimento de grande dimensão, que até hoje nenhum investigador nem nenhuma equipa se acometeu, tal a grandeza da tarefa e o distanciamento que impõe.

Logo na introdução o autor equaciona os propósitos da obra a partir do momento em que o movimento de descolonização se pôs em marcha em vários continentes. As incidências no sistema político português tiveram uma resposta lenta, mesmo com a crise de Goa e os primeiros sinais das independências africanas, em 1958. 

O Estado Novo procurou responder com uma muita prudente reforma das Forças Armadas, uma certa preparação em contraguerrilha, o envio a conta-gotas de unidades militares para África e a criação de delegações da PIDE. Mesmo no crescendo de informações inquietantes, nada de significativo se tinha alterado na Guiné e em Angola, os locais onde se previa que viesse haver turbulência, com independências à volta. 

É nesse contexto que irrompem três grandes convulsões angolanas, a revolta da Baixa de Cassange, de janeiro a março; o assalto às prisões de Luanda, em fevereiro; e a insurreição no Norte do território a partir de 15 de março, o autor dar-nos-á uma empolgante, metódica narrativa dos acontecimentos e protagonistas. 

E teremos o repositório dos efeitos da crise angolana, torna-se percetível que velhos aliados se posicionem prudentemente à distância. É uma narrativa que entreabre as portas para uma guerra de 13 anos, este período do primeiro trimestre de 1961 é de grande turbulência, sangrento, timbrado para acontecimentos horríveis onde não faltam corpos desmembrados a execuções sumárias e bombardeamentos aéreos arbitrários.

Com o rigor que pauta sempre os seus trabalhos, Valentim Alexandre aborda os prenúncios e avisos dirigindo-se exatamente para o local onde era suposto haver o primeiro incêndio, a Guiné. Em 1958, é enviada uma missão militar à Guiné, constata que ainda não havia qualquer ação ativa, mas não deixou de se referir que já se fazia sentir uma “pressão insidiosa” que poderia “causar dificuldades num espaço de tempo relativamente curto”, não se ignorava que os dirigentes dos novos países independentes eram manifestamente anticoloniais e revindicavam a retirada dos europeus. 

Por esse tempo há um relatório de Silva Cunha assinalando o significado da independência da Guiné-Conacri e anotando um “sentimento geral de descontentamento” que começava a verificar-se nas camadas de nativos mais evoluídos, principalmente em Bissau […] quanto à sua situação social. E Silva Cunha não dourava a pílula, acusava “Portugal de não cuidar suficientemente de proporcionar aos nativos da Guiné meios de progresso cultural, social e político equivalentes aos que se encontravam nos territórios vizinhos”.

No ano seguinte, ocorreram os acontecimentos de 3 de agosto de 1959, no Pidjiquiti, de que resultou um número elevado de mortos e feridos. Uma comissão militar presente na colónia ajuizava a natureza do incidente devido aos baixos salários pagos pela Casa Gouveia e Sociedade Ultramarina. 

A propaganda de Conacri fazia-se sentir a partir das transmissões de rádio, proponham-se medidas, desde a neutralização desta propaganda até à ocupação em superfície do território, dizia-se mesmo que o interior se encontrava completamente desguarnecido. Boa parte destas recomendações só anos mais tardes serão aplicadas, o poder central limitou-se a remeter um chefe de brigada e seis agentes da PIDE, um destacamento de paraquedista com cerca de 30 homens e por mar partiu uma companhia de caçadores que chegou a Bissau em 18 de agosto.

Passamos agora para Angola, o grande abalo no continente e na política mundial veio do Congo Belga, estamos em 1959 quando se inicia a crise congolesa que o autor explica ao pormenor. Nesse mesmo ano os colonos do distrito do Congo (Angola) reclamavam que lhes fossem fornecidas armas para sua defesa pessoal, pressintam que a convulsões batiam à porta. 

O autor dá-nos a situação no Norte de Angola, a importância do Reino do Congo, cuja existência independente voltava a ser reclamada pelos autóctones, que eram um perigo sentido pelo Ministério do Ultramar investiram o novo Reino do Congo; há agitação política a que a campanha presidencial de 1958 deu algum folgo, dado o impacto que teve em Angola a candidatura de Humberto Delgado, formam-se vários movimentos anticoloniais, cresce a concertação entre movimentos independentistas provenientes das colónias portuguesas, formara-se em 1957 o MAC – Movimento Anticolonialista, que agregava, entre outros, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Lúcio Lara e Eduardo Santos, com antenas no exterior, tentava-se obter apoio dos países africanos já independentes, iniciativa que se revelou frustrante. 

No fim da década de 1950, o MAC transformou-se na FRAIN – Frente Revolucionária para a Independência das Colónias Portuguesas, o MPLA e o PAI (futuro PAIGC) são acolhidos em Conacri; o MLG – Movimento de Libertação da Guiné, de Rafael Barbosa, incorpora-se no PAIGC, os são-tomenses criam o seu próprio movimento de libertação. 

O autor procura dar-nos um quadro da génese do MPLA e da UPA, ideologias e influências. Este contexto da deterioração da situação na Guiné e em Moçambique não é ignorado pelos departamentos oficiais portugueses, ademais o cenário internacional modifica-se com a chegada dos países independentes à ONU, as resoluções anticoloniais surgem umas atrás das outras.

E temos a rebelião da Baixa de Cassange, tudo bem contextualizado por Valentim Alexandre, ficamos a saber como trabalhava a Companhia Geral dos Algodões de Angola (COTONANG), de nacionalidade portuguesa, com capitais luso-belgas, uma exploração miserável, com descarado trabalho forçado, temos um quadro da rebelião, as influências externas e até religiosas, a resposta foi brutal, logo os bombardeamentos com metralha e bombas por parte da aviação. As autoridades portuguesas tudo farão para que não se fale desta revolta onde a força motriz, de acordo com os factos documentais existentes, teve a mão declarada da UPA. 

Os militares portugueses no terreno não se escusaram a dizer a verdade do que viam: os castigos corporais, caso das chicotadas, as sovas dos capatazes que aplicavam arbitrariamente multas a torto e a direito, os roubos no peso e no pagamento e na qualificação da fibra, a corrupção impetrada pela COTONANG às autoridades administrativas que recebiam envelopes com quantias avultadas para fecharem os olhos aos abusos. Valentim Alexandre também releva o caráter messiânico na contestação ao poder colonial. E chegamos assim a fevereiro de 1961, os assaltos às prisões de Luanda.

(continua)

Imagens da reportagem de James Burke para a LIFE Magazine em 17 de fevereiro de 1961
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Nota do editor

Último poste da série de 2 DE OUTUBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24719: Notas de leitura (1621): "Tertúlias da Guerra Colonial"; edição da Associação dos Pupilos do Exército, 2021 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 24 de março de 2023

Guiné 61/74 - P24166: Dossiê Pidjiguiti, 3 de agosto de 1959 - Parte II: A versão do guarda-livros da Casa Gouveia, e dirigente do PAI, o Luís Cabral

Guiné-Bissau > Bissau > Cais do Pidjiguiti

Fogo (e legenda) © Paulo Salgado (2005).Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Bissau > Postal de Maio de 1966 > Ponte-cais de Bissau e não cais do Pidjiguiti (que ficava mais à direita e onde atracavam as embarcações de pesca e de transporte de cabotagem),

Foto: © Virgínio Briote (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné > Bissau > s/d > Vista aérea da Ponte Cais, e de parte da zona ribeirinha da Bissau Velha: à direita o edifício da Alfândega, em frente a praça e a estátua de Diogo Gomes e portão de armas e as muralhas (lado sul) do forte de São José da Amura (coberto de seculares poilões)... Do lado esquerdo (e já não visível na imagem) ficava o cais do Pidjuiguiti.

A ponte-cais do porto de Bissau (obra emblemática do governo de Sarmento Rodrigues, remontando o início das obras a julho de 1948) é inaugurada em 1953 por Raúl Ventura, subsecretário de estado do Ministério do Ultramar, sendo Sarmento Rodrigues ministro da tutela.

Pormenor de: Bissau. Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, 119" . (Edição Foto Serra, COP 239 Bissau. Impresso em Portugal, Imprimarte - Publicações e Artes Gráficas, SARL).


Guiné > Bissau > s/d > Vista  da ponte-cais (ou porto) de Bissau, a partir da praça Diogo Gomes).

Pormenor de: Bissau. Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, 119" . (Edição Foto Serra, COP 239 Bissau. Impresso em Portugal, Imprimarte - Publicações e Artes Gráficas, SARL).



Guiné > Bissau > s/d  [c. 1960/70] > Pormenor de monumento a Diogo Gomes (às vezes confundido com Diogo Cão) e Edifício das Alfândegas > Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, 136". (Edição Foto Serra, C.P. 239 Bissau. Impresso em Portugal).

Bilhetes postais: Colecção do nosso camarada, natural do concelho de Leiria, Agostinho Gaspar (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4612/72,  Mansoa, 1972/74),



Guiné-Bissau > Bissau > Bissau Velho, com as ruas rebatizadas pelo PAIGC > 1975 > Planta da cidade > Localização de: (i) fortaleza da Amura; (ii) cais ou porto  do Pidjiguiti (à esquerda); e (iii) porto de Bissau (à direita)... Alguns leitores confundem, por vezes, a ponte-cais de Bissau com o cais do Pidjiguiti (para sempre associado aos acontecimentos de 3 de agosto de 1959).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015)

1.  Os graves e trágicos acontecimentos de 3 de agosto de 1959, no cais do Pidjiguiti, são uma página triste na história da presença portuguesa em África. Nunca deveriam ter ocorrido. Como já o dissemos, as autoridades da época, a Casa Gouveia e o seu gerente António Carreira ficam mal na "fotografia da História"... Mas passados mais de 60 anos continuam a ler-se versões díspares, nomeadamente sobre o que realmente aconteceu, a sua origem, processo e consequências.

Há poucos relatos contemporâneos.  E não há imagens, ao que parece (*). É importante continuar a confrontar, serena mas criticamente, as diferentes versões. Uma delas é a do nosso camarada Mário Dias que esteve lá, integrado numa força militar, uma companhia de recruta que foi desviada no seu regresso ao quartel de Santa Luzia, depois de prestar honras militares, em Bisslanca, a subsecretário de Estado da Aeronáutica, a caminho de Angola: os recrutas levavam mausers sem munições, não tinham quaisquer armas automáticas (**). 

A outra versão é a do Luís Cabral (LC) , na altura guarda-livros da Casa Gouveia, e que irá sair clandestinamente do território alguns meses depois, no início de 1960. 

Como  futuro dirigente do PAI (e depois PAIGC), tem uma leitura "enviesada" do que aconteceu, mas de que foi também testemunha ocular (parcial, como o Mário Dias).  Todavia, há erros factuais na sua versão, escrita vinte e tal anos depois, já no exílio: consta do seu livro "Crónica da Libertação" (Lisboa, O Jornal, 1984). Excertos dessa versão já foram aqui em tempos publicados (***). Mas justifica-se voltar a reproduzir uma parte e compará-la com a versão do Mário  Dias.

Excertos de Crónica da Libertação, 

de Luís Cabral (1984) (pp. 65-73)(**)

(i) Reivindicações laborais do pessoal das docas e do transporte de cabotagem

(...) A situação das equipagens das lanchas e outras embarcações das empresas coloniais era, em 1959, bastante deplorável. Os salários variavam entre 150 e 300 escudos  [o equivalente, a preços de finais de 2022, em Portugal, a 75 e 150 euros, respetivamente]; o capitão da embarcação ganhava ainda menos do que o motorista, pois este em geral sabia ler e gozava do estatuto de "civilizado". Os restantes membros da tripulação, sendo considerados «indígenas», tinham de contentar-se com um salário de miséria, sem quaisquer regalias.

O transporte de cabotagem era, sem dúvida, o que garantia os maiores lucros às empresas, dado que os seus encargos por tonelada transportada eram de longe os mais baratos. Para cada viagem, o tripulante recebia, para a sua alimentação, uma determinada quantidade de arroz e mais 15$00 por mês para mafé  [o equivalente, a preços de finais de 2022, em Portugal, a 7,50 euros] , quer dizer, $50 por dia destinados à compra dos condimentos necessários ao molho para o arroz.

Havia já muitos meses que os marinheiros vinham pedindo uma melhoria da sua situação, sem qualquer resultado. Faziam-lhes promessas, é certo, mas a mesma situação mantinha-se e os trabalhadores não viam, na verdade, nenhumas perspectivas de mudança.

Encorajados com o descontentamento crescente dos trabalhadores das docas, cuja situação também era escandalosamente má, os marinheiros fizeram saber às empresas que estavam decididos a parar o trabalho se as suas reivindicações não fossem atendidas. As respostas das direcções das empresas, já concertadas quanto à sua açção, continuaram a ser promessas sem quaisquer garantias.

(ii) Contexto político, interno e externo

(...) A situação política no meio dos trabalhadores africanos já não era, no entanto, a mesma na Guiné. O trabalho clandestino do Partido [PAI] tinha avançado bastante e no meio dos marinheiros e dos homens das docas existiam militantes já seguros da justiça da luta.

A nossa zona geográfica vivia com entusiasmo o fenómeno novo da independência da República da Guiné [Conacri] e seguia os preparativos para a independência do Senegal, tudo isso concorrendo para dar mais força às palavras de ordem do Partido e galvanizar o interesse geral na conquista duma vida melhor e mais digna.

Nesta nova conjuntura, os marinheiros e os trabalhadores do porto juntaram as suas forças, concertaram-se e chegaram à conclusão de que a única solução para os seus males só podia vir da luta corajosa contra as empresas exploradoras.

(iii) A greve

(...) A partir da noite do dia 2 de Agosto de 1959, as embarcações que chegavam ao porto de Bissau eram cuidadosamente arrumadas nas cercanias do velho cais de Pijiguiti. 

Os homens desembarcavam confiantes em si próprios e nas cerimónias certamente feitas aqui e ali, onde as entranhas das galinhas sacrificadas teriam futurado um bom augúrio para a luta que se aproximava. 

Os capitães das lanchas dirigiam-se aos responsáveis das empresas para lhes dizer que os tripulantes tinham abandonado as suas embarcações.

Na manhã do dia 3 de Agosto, centenas de homens estavam estacionados no recinto do cais de Pijiguiti. Nos seus espíritos decididos, a interrogação era grande sobre a reacção das autoridades coloniais, à qual iam opor a sua firme decisão de continuarem a greve enquanto não fossem atendidas as suas reivindicações.

(iv) O ultimato aos grevistas por parte do António Carreira, gerente da Casa Gouveia

(...) Os chefes das empresas, encabeçados pelo subgerente da Casa Gouveia [referência ao cabo-verdiano António Carreira] , mandaram um ultimato aos grevistas: ou regressavam às suas embarcações e aos seus postos de trabalho em terra, ou pediam a intervenção do exército e da polícia. 

Homens como os que se encontravam ali, no Pijiguiti, juntos, unidos e conscientes dos seus direitos, não podiam ceder a um primeiro ultimato, e mantiveram-se por isso firmes na sua decisão de continuar a luta.

(v) Reacção das autoridades

(...) As autoridades estavam atónitas diante da maneira como a greve fora organizada. Nenhuma fuga de informação pudera ser detectada e ali estavam eles impotentes para quebrar o bloco homogéneo que não cedia às ameaças, e que às promessas aliciantes que lhes foram apresentadas, poucas palavras tinham para dizer - mais pão, mais justiça.

No fim da manhã, as autoridades reuniram-se com os dirigentes das empresas para decidir das medidas a tomar. A Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), cujos tentáculos criminosos se tinham já estendido aos nossos países, fora surpreendida como toda a gente e teve de reconhecer que havia qualquer coisa de novo na Guiné.

A decisão fatal foi rapidamente tomada: se até à tarde os trabalhadores não retomassem o trabalho, as forças da repressão deviam agir com a maior prontidão e dureza, para servir de exemplo; só uma acção enérgica e pronta das autoridades poderia convencer os grevistas e o povo em geral de que o Governo não estava disposto a ceder à subversão.

(vi) Resposta dos grevistas

(...) Os homens do porto, esses, não estavam dispostos a vergar. Os tambores que no passado tanto tocaram para chamar o povo à resistência até arrebentarem, voltaram de novo a recompor-se para apelar à luta contra a dominação estrangeira. Tinham voltado de novo a vibrar, desta vez com mais força e vigor ao ritmo da nova esperança nascida com o aparecimento do nosso Partido.

A vida em Bissau parecia ter parado para seguir os acontecimentos. Apenas se viam passar nas ruas os carros da polícia até ao momento em que as forças militares e paramilitares avançaram para o porto.

Os trabalhadores em greve fecharam o portão de acesso ao cais de Pijiguiti, apanharam tudo quanto podia servir para se defenderem e aguardaram. Mas como defender-se com remos com paus ou pedaços de ferro, quando o inimigo trazia armas automáticas modernas e estava disposto a matar? E isso, infelizmente, os heroicos trabalhadores do porto ainda não sabiam.

(vii) Tiros, mortos e feridos

(...) Poucos minutos depois ouviam-se os primeiros tiros: os soldados e a polícia tinham acabado de romper a frágil barragem do portão e penetravam no recinto do cais, atirando impiedosamente contra os grevistas que, a princípio, ainda tentaram defender-se. Cedo, porém, depois de verem cair muitos companheiros, compreenderam que, diante da cruel realidade, a única solução era procurar fugir do cais, para escapar à morte.

À medida que uns caíam mortos ou feridos, outros procuravam por todos os meios alcançar a saída mais livre e a única que parecia segura, tentando, enquanto ainda era tempo, atravessar a estreita passagem que conduzia ao rio Geba, portanto às embarcações que ali estavam ancoradas.

À medida que os homens conseguiam alcançar a ponta do cais, iam-se atirando às águas do rio e nadavam desesperadamente para alcançar as embarcações. A horda colonialista com os monstruosos sucessos alcançados, também avançou para a ponta do cais de Pijiguiti. 

Fazendo dali calmamente a pontaria, conseguiram ainda matar ou ferir muitos homens entre os que se tinham atirado desesperadamente ao rio Geba. E não eram só militares, ou só militares e agentes da polícia, os que atiravam. Também se juntaram a eles elementos civis com as suas armas pessoais, que depois se vangloriavam da sua participação na caça selvagem aos homens do 3 de Agosto.

(viii) Saída dos escritórios da Casa Gouveia

(...) Saímos cedo do trabalho. Os escritórios da Casa Gouveia ficavam perto do cais de Pijiguití e não era possível trabalhar com o barulho terrível do tiroteio, tendo às portas tão criminoso espectáculo, sem precedentes nos nossos dias. Ficámos de pé no passeio, mesmo em frente do grande edifício onde trabalhávamos. Além de mim, estavam Carlos Correia, Elysée Turpin (4) e outros colegas. 

Os polícias que ali passavam, mesmo à nossa frente, estavam muito excitados e queriam mais vítimas, empurrando e provocando as pessoas sem qualquer razão ou talvez com o objectivo premeditado de ver as reacções que se seguiam.

Um dos polícias empurrou pelo peito o Carlos Correia, que protestou pela incorrecção que isso representava. Foi o suficiente para o agente o prender e mandar imediatamente para a esquadra mais próxima. Que podíamos nós, seus companheiros, fazer naquele momento? Unicamente sair dali, procurar abrigar-nos nas nossas casas contra a fúria criminosa desencadeada no porto de Bissau.

(ix) No apartamento 
 [do LC, que pertencia à Casa Gouveia] 

(...) Da varanda do meu apartamento, que estava situado frente ao porto, pude presenciar a parte final do monstruoso crime da caça ao homem no rio Geba. O sol desaparecera nessa tarde dos céus de Bissau; a atmosfera pesada e escura parecia gritar com o povo. A tarde sangrenta de 3 de Agosto fizera mais de cinquenta mortos e muitas dezenas de feridos entre os marinheiros pacíficos que mais não queriam que viver um pouco melhor.

Saí. Queria andar, tinha necessidade absoluta de me encontrar com camaradas meus. Consegui alcançar as traseiras do banco 
 [BNU] onde encontrei alguns camaradas que me informaram de que um marinheiro ferido estava escondido no pavilhão dos solteiros. Fui vê-lo. Tinha um ferimento superficial numa perna e teria certamente sido apanhado pelos agentes se não o tivessem escondido. O ferido fora cuidadosamente tratado e, a coberto da noite, pôde voltar para a sua casa.

(x) Aproveitamento político por parte do PAI

(...) Na noite de 3 de Agosto, reuni-me com o Aristides [Pereira] e o [Fernando] Fortes. Este, na sua qualidade de chefe da Estação Postal, tinha podido meter no correio que devia partir na manhã seguinte, cópias de um comunicado elaborado rapidamente sobre os acontecimentos, endereçadas às principais emissoras escutadas em Bissau. 

Lembro-me bem que Rádio Brazzaville, BBC, Rádio Conakry e Rádio Dakar, estavam entre aquelas que receberam e difundiram a notícia que os colonialistas não queriam que saísse da Guiné. 

Simultaneamente, foi também enviado um primeiro relatório ao Amílcar [Cabral] que se encontrava nesse momento em Angola. 

(xi) O poder de influência do António Carreira que manda soltar o Carlos Correia

(...) No dia seguinte de manhã, logo depois da minha chegada aos escritórios da Casa Gouveia, fui ver o subgerente António Carreira e expliquei-lhe como se tinha dado a prisão do camarada Carlos Correia. Telefonou imediatamente à polícia e o Carlos foi posto em liberdade.

Entretanto, o Aristides 
[Pereira, chefe da Estação Telegráfica] tinha sido requisitado pela polícia política para estar em permanência ao seu serviço. As conversações telefónicas do governador ou do director da PIDE, com Lisboa, revestiam-se de um carácter altamente secreto e só podiam, por isso, ser controladas pessoalmente por ele, chefe da Estação, como pessoa de toda a confiança.

(xii) Na iminência de ser preso pela PIDE, o Carlos Correia foge para Dacar

(...) Naquela mesma tarde, o director da PIDE em Bissau, falou com o seu director-geral em Lisboa. Este queria as últimas notícias; não acreditavam que a greve tivesse sido organizada pelos próprios marinheiros, quase todos analfabetos. Havia certamente alguém com mais conhecimentos e experiência por trás, a dirigir e a orientar a acção; era absolutamente indispensável encontrar essa pessoa. Não se teria distinguido, por acaso, no meio da confusão, nenhum filho da Guiné com habilitações a que se pudesse atribuir tal responsabilidade?

O director-geral da PIDE insistiu para que o seu representante pensasse bem e se informasse junto da Polícia de Segurança Pública; que também pusesse os seus agentes em campo para recolherem todas as. informações que conduzissem à identificação dos promotores da greve de 3 de Agosto.

 O director de Bissau lembrou-se então da prisão de Carlos Correia, no próprio momento da confrontação das autoridades com os grevistas: era africano, filho da Guiné, tinha o Curso Geral dos Liceus e ainda por cima trabalhava na Casa Gouveia, onde havia o maior número de marinheiros. «Prenda-o de novo — disse o director-geral — e mande-o para cá, para ser interrogado por nós.» (...)

(...) O Aristides mandou imediatamente avisar o Carlos, que me devia contactar e fazer tudo para sair do país, antes de ser de novo apanhado pela polícia.

(...) Enquanto o Elysée devia garantir o transporte para a fronteira, eu fui por outro lado à procura dos meios para a viagem. Terminados os preparativos para a sua saída imediata, precisava encontrar-me com o Carlos e comunicar-lhe os planos estabelecidos.

(...) À nossa chegada ao trabalho, no dia seguinte, às 7,30 h, o Elysée informou-me que conduzira o Carlos até à jangada de Barro, continuando ele, a partir dali, na sua motorizada a caminho da fronteira senegalesa. Via-se bem que não tinha dormido a noite toda. (...)


Comentário do A. Marques Lopes (***):

Naturalmente, as consequências trágicas desta greve foram aproveitadas pelo PAI / PAIGC. Como refere o Luís Cabral (****), a páginas 75 e 76 do seu livro:

(...)   Na reunião com o Amílcar (19/9/1959), depois do nosso relatório sobre os trágicos acontecimentos de 3 de Agosto, ele referiu-se longamente às lições que o Partido devia tirar desses acontecimentos, de maneira que não ficassem vãos os sacrifícios dos mártires de Pijiguiti.

Não podíamos brincar com um inimigo que provara mais uma vez ser de uma crueldade sem limites. Quando tivéssemos de agir contra ele, tínhamos de estar preparados para todas as eventualidades e ser capazes de não nos deixarmos matar impunemente.

Não restavam dúvidas que a repressão à greve de 3 de Agosto, e a maneira pronta como ela pôde ser organizada, provaram-nos que, na capital, o inimigo era e seria sempre mais forte do que nós. Tinha o seu exército, a sua polícia, os seus carros, o seu dinheiro para comprar a consciência de muitos dos nossos compatriotas. Quase toda a população urbana dependia das autoridades e das empresas coloniais para viverem; tudo isto colocava o grupo de patriotas nacionalistas numa situação de inferioridade manifesta.

Ao contrário, nas imensas zonas rurais onde vivia a maioria esmagadora do nosso povo, o homem não dependia dos colonialistas para viver: era, ao contrário, o homem do campo que alimentava a gente da cidade e fazia prosperar o colonialista. Era do campo que vinham o arroz, a mancarra, o coconote, as hortaliças, e grande parte do dinheiro dos impostos. A população ali, não só não dependia dos colonialistas, como ainda não se identificava com eles, o homem do campo conseguiu, através dos séculos, do tempo de escravatura ao dos trabalhos forçados e dos impostos arbitrários, encouraçar-se na sua própria personalidade cultural e era lá que encontrava as forças para resistir à poderosa influência do inimigo.

A lição mais importante tirada do massacre de Pijiguiti, dizia-nos, portanto, que seria junto da população camponesa do nosso país que teríamos de procurar as forças necessárias para combater e vencer o colonialismo.  (...)

[Transcrição: AML  / Seleção, revisão e fixação de texto, subtítulos, negritos e notas em parênteses retos: LG]
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 21 de março de 2023 > Guiné 61/74 - P24160: Fotos à procura de... uma legenda (171): Uma falsa imagem que anda por aí a "ilustrar" o massacre do Pijiguiti, de 3 de agosto de 1959


(...) "Muito se tem escrito e comentado sobre os acontecimentos que tiveram lugar no cais do Pidjiguiti em 3 de Agosto de 1959. Eu estive lá. À época dos factos, cumpria o serviço militar obrigatório, ainda como recruta (o Juramento de Bandeira teve lugar uma semana depois, precisamente a 10 de Agosto) (...).


(***) Vd. poste de 18 de fevereeiro de 2006 > 18 de fevereiro de 2006 >Guiné 63/74 - P540: Antologia (36): o massacre do Pidjiguiti (A. Marques Lopes, cor inf , DAF, na reserva)

(****) Luís Cabral (Bissau, 1931 - Lisboa, 2009), meio-irmão de Amílcar Cabral (Bafatá, 1924-Conacri, 1973), nasceu a 10 de Abril de 1931, filho do mesmo pai, o professor do ensino primário  Juvenal Cabral. Viria a ser sido o primeiro presidente da República da Guíné-Bissau (1973-1980). Na sequência do 25 de Abril de 1974, Portugal reconhece, em 10 de Setembro de 1974, de jure e de facto, a independência da sua antiga província ultramarina (colónia, até 1951).

Luís Cabral assumiu a liderança do PAIGC após o assassinato de Amílcar, em Conacri, em 20 de Janeiro de 1973. Foi derrubado em 1980 por um golpe militar, liderado por João Bernardo Vieira ('Nino' Vieira), que jogou a facção guineense contra a facção dita cabo-verdiana do PAIGC. Após 13 meses de detenção, foi para o exílio, primeiro em Cuba e depois em Portugal. Voltou à sua terra em 1999, depois de 'Nino' Vieira ter sido, ele próprio, derrubado por um outro golpe de Estado...

Publicou em 1984 as suas memórias (que vão da infância até à morte de Amílcar Cabral): "Crónica da Libertação"(Lisboa, O Jornal, 1984)

Luís Cabral era empregado, guarda-livros, da Casa Gouveia, do Grupo CUF,   em 3 de Agosto de 1959. E dirigente do PAI, na clandestinidade. Nessa data, o Amílcar Cabral estava em Angola, em trabalho, como engenheiro agrónomo, não tendo ainda passado à clandestinidade. Passou por Bissau em 19/9/1959 para se reunir  com o pequeno grupo dirigente do seu partido, que então se chamava PAI.