
- Rui Felício (*);
- Maria Alice Carneiro (esposa do nosso editor Luís Graça);
- António Pimentel (que veio propositadamente do norte, com o Hernâni Figueiredo. ambos antigos alf mil da CCS/ BCAÇ 2851);
- Victor David /1944-2024) e a esposa;
- e, por detrás, o Paulo Lage Raposo, o nosso amável anfitrião (e também dos "baixinhos de Dulombi; faltou aqui o outro alferes mil da CCAÇ 2405, Jorge Rijo, também nosso grão-tabanqueiro, bem como o cap mil José Jerónimo).
"Rui Felicio, até um dia!
Cumprimentos,
Julgo tratar-se do ex-alf mil Leitão, 3ª C/BCAÇ 4612 (Mansoa e Gadamael, 1972/74), de seu nome completo Bernardo Godinho Abranches Leitão, que vive em Lisboa, e que foi camarada de guerra do Jorge Canhão, no CTIG.
Como contraponto, desenhava-nos o Céu em cores suaves, onde cresciam flores de inimagináveis perfumes, com regatos de cristalinas águas a correrem, numa melodia inebriante, de paz infinita... Esse era o Éden, o lugar perfeito, para onde iam as almas boas.
A que só teríamos acesso se fôssemos bons meninos, se fizessemos só o Bem, se não fossemos pecadores...
Lamentava-me por não conseguir apreender a noção de Bem e de Mal. Achava que o que era Mal para mim podia ser Bem para outro. E vice-versa. Parecia-me que tudo era uma questão de consciência...
E, sendo assim, que certeza poderia eu ter de, no Juízo Final, poder ser condenado a ir para o inferno, mesmo que, em minha consciência, eu achasse que só tinha praticado o Bem?
E não valia a pena pedir ao Padre Anibal que me definisse com exactidão o que era o Bem e o que era o Mal, porque ele, do alto do seu pedestal, não o faria...
Nem, se calhar, o saberia!
Até que uma noite, tive um sonho esclarecedor...
Um génio, de longas barbas brancas, apareceu-me nesse sonho e perguntou-me se eu queria ver, com os meus olhos, quem estava no inferno e quem estava no céu, para depois ser eu mesmo a daí retirar as minhas conclusões.
Caminhámos juntos calmamente até ao Pinhal de Marrocos [o antigo Pinhal de Marrocos circundava o território consolidado de Coimbra; hoje ocupado pelo Pólo II da Universidade de Coimbra].
No meio de grande berreiro, iam mergulhando as colheres nos caldeirões de comida que fumegavam nos centros das mesas. Mas como não conseguiam levá-las à boca, por serem demasiadamente compridas, iam tentando roubar, de forma violenta, a comida uns dos outros.
Admirei-me por não ver chamas, nem terrenos calcinados, ao contrário da imagem que o Padre Anibal nos transmitia na catequese...
Ao fim de um bocado, o génio pegou-me ternamente no braço e caminhámos uns cinco minutos para outra zona do pinhal. Por trás de uma enorme pedra, deixou-me ver aquilo que me disse ser o Céu.
Espantado, deparei com um sítio em tudo semelhante ao do Inferno. As mesmas mesas, os mesmo caldeirões de comida, as mesmas colheres de dois metros que cada um manipulava!
A diferença é que aqui o ambiente era calmo, silencioso, cordato, ordeiro...
Via-se que aqueles corpos estavam bem alimentados, não zaragateavam. Estendiam as suas grandes colheres de dois metros, cheias de comida e davam-nas na boca uns aos outros.
Fiquei, a partir de então a saber, que o critério de selecção entre o Céu e o Inferno, não é o da bondade ou da maldade. É apenas o da inteligência das almas.
Rui Felício, 25 nov 2025
(Revisão / fixação de texto. parênteses retos: LG)
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Mas nem por isso devia deixar de o referir, para lembrar que o encontro da Ameira só foi possível, porque existe o blog que tu criaste e que, com tanto trabalho e mérito, vais gerindo, coordenando e engrandecendo.
Registei, das intervenções que alguns fizeram a seguir ao almoço, alguns aspectos que confirmaram aquilo que eu já pensava através da assídua leitura do que vais editando no blog, designadamente, o facto de a tertúlia se compor de variadas perspectivas e olhares, na análise e recordação da nossa passagem por terras da Guiné, em circunstâncias adversas de clima e da própria guerra.
Embora nem sempre coincidentes, são perspectivas cuja diversidade proporciona uma visão mais completa, segura e enriquecedora das memórias de todos nós. Bastaria ter ouvido, além de tantos outros, o Virgínio Briote, o Casimiro Carvalho, o Lema Santos [, o Pedro Lauret, o Tino Neves, o Paulo Santiago, o Carlos Santos] e, especialmente, o Vitor Junqueira, para comprovar o que acabei de dizer, isto é, a nossa geração fez a guerra de África segundo as suas próprias convicções, declaradamente contra ela, a favor dela ou conformada com ela, mas sem dúvida dando o melhor de si na defesa de princípios e sentimentos que pairam acima dos interesses ou conveniências individuais.
Sou dos que naquela época era contra a guerra, mas nunca confundi isso com o dever de a fazer o melhor e mais profissionalmente que me fosse possível, quanto mais não fosse para garantir aos soldados à minha responsabilidade o regresso a casa, sãos e salvos. (...)













