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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27713: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (12): a morte em combate do soldado Lucídio Rasinas, natural de Resende, em 19 de julho de 1969


Guiné > Carta Geral da Província (1961) (Escal 1/500 mil) > Posição relativa de Dulombi, Paiai Lémenei, Rio Corubal, Ché-Ché, Béli, Madina do Boé. 

Com a retirada das nossas posições, em Béli, Madina do Boé e Ché-Che, o PAIGC passou a considerar o Boé como "zona libertada", a partir de 6/2/1969, e ameaçar todo o "chão fula", pelo menos os flancos sul a sul e leste.  Paiai Lémenei terá sido a zona onde morreu, em combate, o nosso camarada Lucídio Rasinhas, da CCAÇ 2405 (Dulombi, 1968/70).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)

 

Sold at inf Lucídio Rasinhas, CCAÇ 2405 (Dulombi, 1968/70), natural de Resende, morto em combate em 13/7/1969. Indicar Bafatá co.o "local de operações" é grosseiro.

Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2001), pág. 458.



Rui Felício

1. O Rui Felício, um dos históricos da Tabanca Grande, é autor da série "Estórias de Dulombi", de que se publicarm 10 postes, até ao 1º semestre de 2013.  (*).

A morte súbita do seu filho, de 38 anos, Nuno Felício, jornalista, da rádio Antena 1, foi devastadora para ele, a família e amigos. A sua colaboração com o nosso blogue, naturalmente, ressentiu-se, a partir daí.

Estamos, todavia, a dar continuidade à sua série, com mais algumas "estórias" que vamos recuperando da sua página do Facebook... É o caso de mais esta, que merece honras de blogue.

Recorde-se que o Rui Felício foi alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Dulombi, 1968/70). Perdeu 11 dos seus homens do seu pelotão na Op Mabecos Bravios, mortos por afogamento na "cambança" do Rio Corubal,  em Cheche, em 6/2/1969, efeméride que acabámos de evocar, na série "Foi há...".

O Rui foi um dos sobrevientes, tendo conseguido libertar-se da arma e cartucheiras. Muitas das vítimas não sabiam nadar.

A sua companhia, a CCAÇ 2405, perdeu 17 homens num total de 47 (os restantes pertenciam à CCAÇ 1790).  

Haverá uma morte posterior, em combate, no dia 13 de julho de 1969, a meio da comissão (e não já no fim, como por lapso ele refere a seguir) (**)


A morte do soldado Lucídio Rasinhas, natural de Resende

por Rui Felício

Estávamos já muito perto do final da comissão [lapso do autor: estavam a meio] (**)

Uns dias antes o Dulombi tinha sido atacado com rockets, morteiros 82, canhões sem recuo e armas ligeiras por um bigrupo, pelas 22 horas.

As balas tracejantes que antecederam o ataque, serviram para indicar o alvo naquilo que parecia ser  o desencadear de um fogo de artifício em festas da Rainha Santa 
 [em Coimbra, onde o Rui nasceu, viveu e estudou].

A Companhia respondeu ao fogo com as armas de que dispunha, designadamente morteiros 81 e 60, metralhadoras HK, Borsig e espingardas G3.

Desde que a região do Boé ficou sem efectivos militares por decisão estratégica do Comando Chefe, a retracção do dispositivo originou o que se esperava. Ou seja, a guerrilha avançou as suas forças para norte do rio Corubal e as flagelações a quartéis como o Saltinho, Dulombi, Mondajane, Cansamba, Cancolim e outros começaram a ser mais frequentes.

Uma semana depois foi planeada e executada uma operação de patrulhamento com origem no Dulombi, ficando apenas no quartel o Victor David e o seu Grupo de Combate. (O Victor David
[1944-2024], instalado a poucos kms, em Mondajane, teve que se deslocar com a sua tropa para guarnecer o quartel do Dulombi, enquanto a Companhia arrancava de madrugada para o dito patrulhamento.)

Toda a restante Companhia iniciou o percurso por sueste com o objectivo de contornar Paiai Lemenei, onde se supunha que se acoitassem os guerrilheiros como base para aproximação ao nosso aquartelamento.

Ao 2.º dia à tarde, sem encontrarmos sinais do inimigo, iniciámos o regresso.

Tínhamos tido a preocupação de fazer todo o patrulhamento fora dos trilhos de pé posto, para que a nossa presença não fosse detectada,  o que implicava um maior esforço e atenção redobrada na progressão, orientada quase exclusivamente por bússola, pontos de cota geográficos de referência e linhas de água constantemente referenciadas na carta topográfica.

E é verdade que a nossa presença não foi detectada,v como adiante se verá.

Já no regresso, ao fim do dia, depois de andarmos perdidos no meio da mata, encontrámos finalmente a picada que ligava Dulombi à base de Paiai Lemenei.

Exaustos pela difícil caminhada, mas contentes, foi decidido pararmos para descanso de alguns minutos ficando a cabeça da coluna na picada e o resto da tropa espalhada pelo mato.

Mandei dois soldados afastarem-se para um dos lados da picada e outros dois para o outro lado, vigiando qualquer eventual movimento anómalo.

Reunidos na picada, sentados e conversando, estavamos o Capitão
 [Jerónimo],  [Jorge] Rijo, o  [Paulo] Raposo e eu, isto é, todos os oficiais, para além de alguns furriéis como o Ribas, o Veiga e o Esteves.

E pedi ao furriel Esteves para se posicionar atrás de nós, vigiando a nossa retaguarda.

Nisto, os dois soldados destacados para fazerem a segurança próxima a norte da picada, efectuaram algumas rajadas de G3 e correram ao nosso encontro já debaixo de fogo do inimigo.

Um deles, cujo nome já se me varreu da memória, mas cuja imagem ainda conservo bem nítida, progredia cambaleante agarrado à barriga ensanguentada onde tinha sido atingido.
Felizmente, foi evacuado para Bissau e depois para Lisboa, tendo-se salvo.
 
Percebemos então que uma coluna de guerrilheiros fortemente armada se dirigia em direcção ao Dulombi para executar um ataque ao quartel ao cair da noite.

Tinham sido apanhados de surpresa pela presença inesperada da nossa Companhia naquele local,  ainda afastado do aquartelamento.

Durante mais de meia hora o combate foi violento e percebia-se que os rockets choviam ininterruptos, especialmente na direcção do local onde estávamos porque era dali que irradiavam as vozes de comando.
 
Um dos rockets acertou mesmo em cheio no sitio onde estava o Capitão e os Alferes.

Ao meu lado um estilhaço acertou na cabeça do soldado que estava mesmo ao meu lado e que veio a morrer no próprio local.

Ainda auxiliei no seu transporte durante uns dois quilómetros. O cheiro a sangue no meu braço ainda hoje o sinto quando recordo.

Era o soldado [Lucídio]  Rasinhas [, natural de Resende]… Lá ficou…

Rui Felício (***)

PS - Ainda hoje me lembro do meu corpo ter levantado por efeito do sopro de uma granada de rocket que explodiu na ramagem da árvore ao lado de cujo tronco me protegia, acachapado na terra.

Foi um dos estilhaços dessa forte explosão que atingiu mortalmente a cabeça do soldado Rasinhas que estava a poucos metros de mim.

Ainda tivemos tempo,  um mês depois, de lhe prestarmos uma homenagem póstuma, dando o seu nome ao aeródromo de Galomaro, sede do Batalhão, numa singela placa de betão.

(Foto à direita: Lucídio Rasinhas: foi homenageado na sua terra, Paus, Resende, em 29/4/2023)
________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26555: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (11): A fome era má conselheira... e apertava mais no tempo das chuvas, em Sangué Cabomba, subsector de Cancolim

(**) A CCAÇ 2405 pertenceu ao BCAÇ 2852 (Bambadincsa, 1968/70), a que esteve adida a minha companhia, CCAÇ 2590/CCAÇ 12, de julho de 1969 a maio de 1970.

Embarque:  24Ju168; desembarque:  a 30Jul68 | Regresso: 16Jun70 (CCaç 2405 em 28Mai70).

 Em 1/7/1969, a CCAÇ 2405 estava colocada em Galomaro , com 1 Pel em Dulombi,  1 Pel em  Samba Cumbera e 1 Pel (-) em Fá.

Mas vejamos o resto do seu historial: a CCaç 2405 seguiu em 30Jul68 para Mansoa, a fim de efectuar o treino operacional até 21Ago68 sob orientação do BCaç 1912 e seguidamente substituíu a CCaç 1686 na sua função de intervenção e reserva do sector, tendo tomado parte em diversas operações realizadas nas regiões de Changalana, Cubonge e Inquida, entre outras. 

Deslocou ainda pelotões, por períodos variáveis, para Bissá e Bindoro e participou ainda numa operação realizada na região de Cã Quebo, Morés, esta em reforço temporário do BCaç 2851.

Em 12 e 17Dez68, foi substituída, por fracções, pela CCaç 1685, seguindo para Fá Mandinga e depois para Galomaro, onde assumiu, em 24Dez68, a responsabilidade do respectivo subsector, rendendo a CCaç 2436 e ficando integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão, mantendo, sucessivamente e por períodos variáveis, efectivos seus destacados em Pate Gibel, Campata e Cansamba e depois, em meados de Mar69, em Samba Juli, Dulombi e Samba Cumbera.

Em 28Ju169, passou à dependência operacional do COP 7, mantendo-se em Galomaro e agora com pelotões destacados em Imilo, Cantacunda, Dulo Gengele e Mondajane e depois em Dulo Gengele, Samba Cumbera e Cancolim, de onde saiu após criação do subsector em 07Nov69.

Em 07Nov69, após criação do Sector L5 Galomaro), assumiu a responsabilidade do subsector de Dulombi, também então criado, para onde foi transferida em meados de Dez69, permanecendo um pelotão em Galomaro e passando a integrar o dispositivo e manobra do BCaç 2851.

Em 10Mai70, foi rendida pela CCaç 2700 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

O pessoal ficou conhecido como os "baixinhos de Dulombi". E a sua divisa era: "Perigos Vários".

(***) Esta versão resulta da fusão de 2 textos do autor, publicados na página do Facebook do Rui Felício


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

domingo, 24 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27148: Felizmente ainda há verão em 2025 (22): Em Angola, nem todos os sobas eram regedores e nem todos os regedoreseram sobas


Foto de capa da página do Facebook do FAAT-Fórum Angolano das Autoridades Tradicionais (com a devida vénia...). A página foi criada em setembro de 2021 mas parece não estar ativa.  

"Quimbo", ou sanzala, no português de Angola, é o equivalente a tabanca (na Guiné): conjunto de casas que formam uma aglomeração rural (termo que vem do quimbundo, kimbo).



1. Angola, a joia da coroa do "império colonial português" (no tempo do Estado Novo), merece que o blogue da Tabanca Grande fale dela de vez em quando. Tem, de resto, mais de 600 referências... Afinal, fomos parar à Guiné...por causa de Angola!... 

O tema de hoje,  ainda em pleno verão (*), é sobre:


Sobas e Regedores: Autoridades Coloniais Locais, em Angola


António Rosinha, Patrício Ribeiro, Fernando Ribeiro, Jaime Silva, João Rodrigues Lobo e "outros angolanos" da Tabanca Grande não precisam de ser convidados: a vossa experiência vivida de Angola dá-vos autoridade para "meter a vossa colherada"  na discussão deste tema que também interessa aos "amigos e camaradas da Guiné"...

É um tema da área da antropologia e da história da administração colonial... Alguns de nós, como eu, gostariam de saber mais. (**) 

Havia uma diferença semântica e conceptual entre sobas e regedores, na Angola do tempo colonial. Embora muitas vezes fossem usados  indevidamente como se fossem sinónimos. Não são sinónimos. (O termo usado em Angola não era régulo, mas regedor, de acordo com a oportuna chamada de atenção do Fernando Ribeiro; como, de resto, vem consagrado na carta orgânica do Império Colonial Português, Decreto-lei 23228, de 15 de Novembro de 1933).

Na Angola do período colonial, os termos soba e regedor eram frequentemente utilizados para designar as autoridades tradicionais africanas (ou "gentílicas"), mas existia uma diferença fundamental entre eles, assente na origem da figura (e do vocábulo ) e na relação com a administração portuguesa. 

Soba vem do quimbundo "soba"... Essencialmente, soba era a designação endógena e ancestral,  enquanto regedor ou  régulo era a terminologia colonial que implicava uma integração no sistema colonial e na subordinação ao poder português (o termo "régulo"era usado na Guiné e e Moçambique)

O soba era a figura de autoridade tradicional, um chefe que já existia nas estruturas sociais e políticas dos diversos reinos e povos de Angola muito antes da chegada dos portugueses. 

O seu poder emanava de linhagens ancestrais, do controlo da terra e de uma legitimidade cultural e espiritual reconhecida pela sua comunidade. 

Os sobas desempenhavam um papel crucial na:
  • administração da justiça, 
  • distribuição de terras, 
  • condução de rituais;
  • defesa e segurança do seu povo. 

A sua autoridade era intrínseca à organização social local. Existia uma hierarquia entre eles, com a figura do "soba grande", que detinha poder sobre um conjunto de  outros sobas e sobados (territórios governados por um soba).

Por outro lado, sabe-se que em determinadas regiões de Angola há (ou havia no passado) um conselho de sobas que escolhe o soba: noutras a sucessão é (ou era)  realizada por linhagem em que o sobrinho, filho de uma irmã, toma(va) o lugar do seu tio por morte deste. Não sabemos como as coisas se passam hoje, cinquenta anos depois da independência de Angola.

 Por outro lado, o termo régulo, que deriva do latim  regulu(m)  (da palavra regulus, -i, rei jovem, rei de um pequeno estado), ou melhor, regedor,  era a designação que a administração colonial portuguesa atribuía aos chefes locais que eram incorporados na sua estrutura administrativa.

Ao se referir a um soba como regedor (ou "régulo", como , de resto, ainda vem nos dicionários portugueses para agravar a confusao!), o poder colonial não só traduzia a sua função para a sua própria compreensão hierárquica, mas também o diminuía simbolicamente, em termos de estatuto: de líder soberano tradicional, carismático,  passava a "pequeno rei" subalterno...

A transformação de um soba em regedor ocorria, na prática, quando este passava a atuar como um intermediário da administração colonial. As suas principais funções enquanto regedores incluíam;

  • a cobrança de impostos:
  • o recrutamento de mão de obra forçada (o "chibalo") (***):
  •  e a manutenção da ordem, de acordo com os interesses portugueses. 

Em troca, o regedor podia receber certos privilégios ou "honrarias",  como uma pequena remuneração, uniformes ou o reconhecimento e apoio militar da administração colonial contra rivais. 

Na Guiné, uma das formas de captação das simpatias dos régulos, ainda no tempo do governador,  gen Arnaldo Schulz,  era a organização de viagens a Meca, a expensas do Estado português: vd. aqui imagens de Lisboa > Aeroporto > 1968 > Partida de régulos da Guiné para a peregrinação a Meca, depois de visita oficial a Portugal. Vídeo da RTP Arquivos (Noticiário Nacional de 1968 > 3 de março de 1968 > Preto e branco, duração 56 segundos. Sem som.)

É importante notar que nem todos os sobas eram regedores ou se tornaram regedores. Muitos resistiram à dominação portuguesa e foram, por isso, combatidos e, por vezes, substituídos por indivíduos mais dóceis à administração colonial, que eram então empossados como regedores.

Em suma, a principal diferença residia na origem e na legitimação do poder:

(i) Soba:  

  • termo de origem africana, já existente antes da colonização;
  • designava um líder com autoridade tradicional e legitimidade interna na sua comunidade ou grupo étnico, anterior e, em muitos casos, independente do poder colonial;
  • o cargo era hereditário e estava ligado às tradições, linhagens e rituais locais;
  • tinha funções políticas, jurídicas (resolução de conflitos), espirituais e sociais, sendo uma figura central na organização das comunidades.
(ii) Regedor: 
  • termo de origem portuguesa (régulo só se usava na Guiné e em Moçambique);
  • régulo: derivado de regulu(m) e usado em contexto colonial para traduzir ou reinterpretar a figura dos chefes locais africanos;
  • regedor é o que dirige uma regedoria (unidade administrativa, que na metrópole era a freguesia, até 1974);
  • designava um líder local a quem a administração colonial reconhecia e delegava certas funções, inserindo-o na sua estrutura de poder e tornando-o, na prática, um funcionário subalterno do Estado colonial;
  •  não era necessariamente o mesmo que o soba, mas no terreno, muitas vezes, os colonizadores usavam o termo para designar esses chefes;
  • no fundo, era  uma categoria administrativa colonial.

  • o Estado colonial reconhecia oficialmente alguns chefes como regedores e subordinava-os à sua hierarquia, atribuindo-lhes funções de autoridade local no quadro da administração indireta ("indirect rule", dos ingleses).


Portanto, embora na prática um mesmo indivíduo pudesse ser um soba para o seu povo e um regedor para os portugueses, os termos carregam conotações e realidades políticas distintas que refletem a complexa e, muitas vezes, contraditória e tensa relação entre as autoridades tradicionais angolanas e o poder colonial português.

 Em resumo:
  • Soba = conceito autóctone, com legitimidade tradicional;

  • Regedor = conceito colonial, oficializado para fins administrativos, podendo coincidir ou não com a figura do soba.

Muitos sobas foram convertidos em regedores pela administração portuguesa, mas nem todos os régulos eram vistos como verdadeiros sobas pelas comunidades, o que gerava tensões e até conflitos.

Apresenta-se a seguir um quadro comparativo simples  para se perceber melhor a distinção entre soba e regedor na Angola colonial (que passou a ser "província ultramarina" com a reforma de 1951):


AspetoSoba (conceito autóctone)Regedor  (conceito colonial)


Origem do termo
Línguas banto (ex.: umbundo, quimbundo)Português (tal como régulo, derivado de regulu(m) (pequeno rei; o que rege)
Natureza
Cargo tradicional e espiritual, enraizado na cultura local
Categoria administrativa criada pelo poder colonial
Legitimidade
Hereditária, baseada em linhagem, tradição e rituais
Reconhecimento e nomeação pela administração colonial
Funções
Mediação de conflitos, chefia política, autoridade espiritual, guardião dos costumes
Autoridade local no quadro da “administração indireta”, recolha de impostos, apoio ao controlo colonial
Reconhecimento
Pela comunidade, segundo costumes próprios
Pelo Estado colonial, como “autoridade gentílica” oficial
Perceção localFigura respeitada, parte integrante da identidade culturalMuitas vezes visto como uma imposição externa (quando o regedor não coincidia com o verdadeiro soba)


Em suma: 

  • o soba representava a continuidade da tradição, a legitimidade pré-colonial; 
  • o regedor representava a adaptação (e em muitos casos apropriação) dessa autoridade ao sistema colonial.

Vejamos como a distinção entre sobas e regedores afetou as relações entre colonizadores e populações em Angola durante o período colonial:

(i) Administração indireta
  • o Estado colonial português não tinha capacidade para controlar diretamente todas as regiões  (por exemplo Angola, com 1,2 milhões de km2 era cerca de 14 vezes maior que a "metrópole", o "Puto", como lhe chamavam os colonos);

  • por isso, utilizava os sobas já existentes, reconhecendo-os (ou substituindo-os) como regedores;

  • isso permitia que a autoridade colonial chegasse ao nível local através de figuras tradicionais, mas com funções adaptadas aos interesses coloniais (o mesmo se passou com o império colonial britânico).

(ii) Tensões de legitimidade

  • quando o verdadeiro soba era reconhecido como regedor, a comunidade aceitava-o com relativa naturalidade;

  • mas, quando o governo colonial nomeava como regedor alguém que não tinha legitimidade tradicional, isso gerava conflitos internos:

    • uns seguiam o “soba legítimo” (mesmo sem reconhecimento colonial);

    • outros eram obrigados a obedecer ao “regedor oficial”, imposto pela administração.

  • Esse “duplo poder” minava tanto a coesão das comunidades como a própria confiança nas autoridades locais; as suas contradições foram exploradas pelos movimentos nacionalistas que lutavam pela independência.

(iii) Instrumentalização política
  • Muitos regedores passaram a ser usados como instrumentos do poder colonial:

    • recolha de impostos;

    • organização do trabalho forçado (contratos e recrutamento) (trabalho forçado que existiu até 1961);

    • fiscalização e denúncia de resistências (implicando, por vezes, a colaboração com as autoridades militares e policiais durante a guerra colonial).

  • Isto fez com que alguns regedores  fossem vistos como colaboracionistas, perdendo 
    prestígio junto da sua própria comunidade.


(iv) Resistência e negociação
  • houve sobas que se recusaram a aceitar o estatuto de regedor, mantendo apenas a sua autoridade tradicional, mesmo sob risco de represálias;

  • outros souberam negociar: aceitavam o papel de regedor para garantir alguma margem de manobra e proteger a comunidade, mas continuavam a agir como guardiões dos costumes;

  • assim, muitos sobas/regedores desempenhavam uma função ambígua, entre mediadores e representantes do poder colonial;

  • depois da independência, houve ajustes de contas (mais violentos na Guiné e em Moçambique do que em Angola, mas isso é outra história; no caso da Guiné, por exemplo, terá havido uma "militarização" da figura do régulo, que também podia ser um cabo de guerra, comandante de uma companhia de milícias).


Em suma:  a distinção entre soba e regedor, em Angola,  criou uma fratura entre legitimidade tradicional e legitimidade colonial. Isso foi explorado pelos colonizadores para controlar as populações, mas também abriu espaço para resistências subtis ou abertas, conforme cada comunidade e cada líder.

Leitura complementar > Trabalho de um grupo de alunos da Universidade Católica de Benguela , Departamento de Ciências da Educação, 2012 >  O Sobado. Blogue Pedagogia e Vida. 27 de junho de 2013. 

Índice da monografia (com cerca de 3 dezenas de páginas):

 Introdução |  Sanzala e Sobado | Sobado | Autoridade tradicional (Soba)  | Eleição dos sobados | Poderes | Privilégios  fundamentais dos sobas | Sobas em relação ao matrimónio | Lugares sagrados | Estrutura do poder mágico-religioso | Sobetas | Conselheiros | Conclusão | Sugestões | Referências bibliográficas.



Selo da Companhia do Niassa, 1901, no valor de dois réis e meio. Cortesia de Wikipedia.


(***) Chibalo é o conceito de servidão por dívida ou ou uma forma trabalho forçado, que esteve em vigor  nomeadamente em Moçambique (...)
 
Em 1869, a monarquia constitucional portuguesa aboliu oficialmente a escravidão, mas mantiveram-se resquícios (como o trabalho forçado para efeitos de obras públicas: pro exemplo, a construção do caminho de ferro de Benguela).

Em Moçambique, o trabalho forçado era conhecido como "chibalo". Este sistema estava intrinsecamente ligado à cobrança do "imposto de palhota", um imposto de capitação que obrigava os africanos a procurar trabalho assalariado e a entrar no circuito da economia monetarizada para poderem pagar. Quem não pagava,  era compelido a trabalhar para o Estado, muitas vezes em condições piores do que as oferecidas pelo setor privado,

Chibalo foi usado para construir infraestruturas (pontes, estradas, portos, aeródromos, etc.).  Apenas os colonos portugueses e assimilados recebiam educação e estavam isentos deste trabalho forçado. (...)

Sob o regime do Estado Novo, os o chibalo foi usado em Moçambique, por exemplo,  para cultivar algodão . A Companhia do Niassa  (uma "companhia majestática") é um exemplo do tipo de empresas que poderiam florescer desde que tivessem acesso a uma força de trabalho não remunerada. (...)
 
 Todos os homens de idade adequada tiveram que trabalhar nos campos de algodão, que se tornaram inúteis para a produção de alimentos, levando à fome e desnutrição. (Fonte: Adapt de Wikipedia)

chibalo
(chi·ba·lo)

nome masculino

1. [Moçambique] [História] Regime de trabalho forçado através do qual a administração colonial fornecia mão-de-obra barata aos colonos de grandes propriedades (ex.: a duração do chibalo era estipulada pelas autoridades locais). (...)

2. [Moçambique] [História] Trabalhador submetido a esse regime de trabalho.

Sinónimo geral: Xibalo

Origem: do tsonga.

"chibalo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/chibalo.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27120: Felizmente ainda há verão em 2025 (17): relembrando alguns encontros imediatos... de 3º grau com "jibóias", na região dos Dembos, em Angola (Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil, CCAÇ 3535 / BCAÇ 3880, Zemba e Ponte do Zádi, 1972/74)



Foto nº 2 > Pitão-africano-da-rocha (Python sebae), fotografado vivo  no quartel de Mucondo 



Foto nº 2 > Pitão-africano-da-rocha (Python sebae), fotografado morto no quartel de Mucondo: tinha acabo de comer um cão


Angola > Província do Uíge > Mucondo > CCAÇ 3537 / BCAÇ 3880, 1972/74. Imagens disponibilizadas por Fernando de Sousa Ribeiro, e que fazem parte do álbum da página do Facebook do BCAÇ 3880 (grupo privado).



1. Comentário ao poste P27116 (*),  assinado pelo nosso grão-tabanqueiro Fernando de Sousa Ribeiro:




Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535 /
BCAÇ 3880 ( Zemba e Ponte do Zádi, Angola, 1972/74);
membro da Tabanca Grande desde 11 de novembro de 2018,
com o nº 780, tem 34 referências no nosso blogue.
Engenheiro, natural do Porto, é o administror
que mantém ativo desde janeiro de 2006 até hoje.
Um caso notável de longevidade.

 

O BCCAÇ 3880 e Companhias tem um grupo privado no Facebook.

Há também um blogue, ativo entre 2010 e 2016, administrado pelo Jorge Madureira



Eu peço desculpa por meter o nariz onde não sou chamado, mas esta discussão a propósito de cobras fez-me recordar as que vi em Angola, e foram algumas. 

Numa ocasião tive mesmo uma cobra venenosa a poucos centímetros de mim. Devia ter meio metro de comprimento e era lindíssima, em que as cores das escamas variavam conforme a incidência da luz do sol. Acabou decapitada por uma catana.


Foto nº 1 > Angola, Zemba,
 c. 1972/74
Em Angola existiam cobras para todos os "gostos", desde as inofensivas cobras de água até às temidas cobras cuspideiras, que esguichavam o veneno pelo ar em direção aos olhos da vítima. 

Vi uma vez uma minúscula cobra verde, do tamanho de uma minhoca, que era tão pequena e tão leve que estava em cima de uma folha de cafezeiro sem que a folha vergasse com o seu peso. Apesar do tamanho e do peso, o veneno desta cobra (seria uma mamba verde?) era mortal.

Não admira por isso que, em todas as bolsas levadas pelos auxiliares de enfermeiro para as operações militares, havia obrigatoriamente um frasco de soro antiofídico. Era um item que não podia faltar, a par do soro fisiológico, do garrote ou dos comprimidos e/ou injeções contra a malária. Felizmente, o soro antiofídico nunca foi necessário no meu batalhão. 

Apesar da relativa abundância de cobras, nenhum militar do BCaç 3880 foi alguma vez mordido por um destes répteis.

Na região dos Dembos, no norte de Angola, onde eu estive em 1972-73, as cobras mais vulgares eram as jibóias. Vi várias, umas vivas e outras mortas. Onde quer que o terreno fosse pedregoso, podíamos ter a certeza que por ali havia pelo menos um ninho de jibóias.

Houve casos de jibóias que foram apanhadas e foram mortas dentro dos quartéis ou das sanzalas. Na página do meu batalhão no Facebook, camaradas meus publicaram fotografias de jibóias apanhadas dentro do arame farpado. Permito-me o atrevimento de partilhar três dessas fotografias.

A primeira fotografia mostra uma jibóia encontrada dentro do quartel de Zemba e que estava tão magrinha, tão magrinha, que devia estar cheia de fome e se preparava para atacar o galinheiro. (Fotografia que se reproduz, acima à direita, com a devida vénia) (Foto nº 1).

A segunda fotografia foi tirada dentro do quartel do Mucondo (onde estava a CCaç 3537, do meu batalhão) e mostra uma jibóia que tinha acabado de comer um cão! (Foto nº 2, publicada no topo)

A terceira e última fotografia mostra uma jibóia ainda viva, também encontrada dentro do quartel do Mucondo, toda enrolada sobre si mesma e com o aspeto de quem se sente senhora incontestada de todos aqueles domínios... É um magnífico exemplar de jibóia, mas também acabou por ser morta (Foto nº 3, reproduzida no topo)


Fernando Ribeiro

(Texto e fotos do Fernando de Sousa Ribeiro)

(Revisão / fixação de texto, reedição de imagem: LG)


2. Comentário do editor LG:

2.1. Já há tempos comentei no poste P4477 (**):

Há uma diferença (até no comprimento) entre a jibóia (nome científico, Boa constrictor) e o pitão (o nome é masculino...), jibóia africana ou irã cego (na Guiné-Bissau) (nome científico, Python sebae)... 

Esta última, sim, é a maior cobra da África subsahariana. Quando adulta, pode atingir os 6 metros e ultrapassar os 100 quilos de peso... 

Habita a floresta-galeria, as matas e só ocasionalmente a savana. A sua dieta é constituída por aves, pequenos roedores e ainda mamíferos de média dimensão. Pode viver trinta anos e não está em risco de desaparecer.

Já a jibóia p.d. (que está no nosso imaginário, pela pomada jibóia e não só...) é centro e sul-americana. Boa constrictor deve o seu nome à forma como mata as suas vítimas, por constrição, sufocando a presa, técnica usada pelas cobras não venenosas. 

Contrariamente a muitos mitos populares, é pacífica e fugidia, evita sempre o contacto com animais de grande porte, incluindo o homem... Em média anda nos três metros...É sobretudo caçadora nocturna, alimentando-se de roedores e aves...

Em resumo, a jibóia “verdadeira” (nome científico, Boa constrictor) é do Novo Mundo (centro e sul das Américas e algumas ilha do Caribe). Há "boas" africanas, mas não são jibóias... E as anacondas também não exietem em África...

Anacondas e pitões não são jibóias, mas também são constritoras. E não sáo venenosas!... Em África há várias espécies de pitões. (As anacondas pertencem à família Boidae , a mesma família das jibóias, e vivem apenas nas Américas, sobretudo na América do Sul).

2. 2. O "Sabe-Tudo", o assistente de IA (neste caso.  o Gemini e ChatGPT) confirma que esta "jibóia", da região dos Dembos, no norte de Angola, é o pitão-africano-da-rocha (nome científico, Python sebae). 

Resposta do assistente de IA:

(i) O pitão-africano-das rochas: a "jibóia" presente na Região dos Dembos, Angola

A principal serpente de grande porte, frequentemente designada como "jibóia",  em Angola, e que habita a região dos Dembos, na província do Bengo, é o Pitão-africano-da-rocha (Python sebae)

Embora pertençam a famílias distintas (os pítões são da família Pythonidae e as verdadeiras jibóias são da família Boidae), popularmente, o termo "jibóia" é muitas vezes usado para descrever qualquer serpente constritora de grande porte.

Evidências científicas confirmam a presença da Python sebae na província do Bengo. Um estudo de 2019 sobre o comércio de carne de caça documentou a venda desta espécie ao longo das estradas na província, o que atesta a sua existência na região que abrange o município dos Dembos.

O Pitão-africano-da-rocha é a maior serpente de África, podendo atingir e, em casos excepcionais, superar os 6 metros de comprimento. O seu padrão de cores, com manchas irregulares em tons de castanho, azeitona e amarelo, proporciona uma excelente camuflagem nas savanas, florestas abertas e áreas rochosas que habita. É um predador poderoso,  uma não-venenosa, que mata as suas presas por constrição.

(ii) Outras "jibóias" em Angola: uma questão de geografia

É importante notar que Angola é lar de outras espécies de pitões e de uma verdadeira jibóia, mas a sua distribuição torna improvável ou impossível a sua presença na região dos Dembos:

  • Pitão-angolano (Python anchietae):  esta é uma espécie endémica de Angola e da Namíbia, mas a sua distribuição está confinada às regiões mais áridas e rochosas do sul e sudoeste do país; é consideravelmente menor que o pitão-africano-da-rocha.
  • Pitão-real ou Pitão-bola (Python regius): embora a sua vasta área de distribuição na África Ocidental e Central se aproxime do norte de Angola, a sua presença no país não é consistentemente documentada e é menos provável na zona específica dos Dembos quando comparada com a Python sebae.
  • Jibóia-da-areia-da-calabária (Calabaria reinhardtii): esta é a única representante da família das jibóias (Boidae) formalmente registada em território angolano; no entanto, a sua presença está limitada ao enclave de Cabinda, uma floresta tropical húmida, um habitat distinto e geograficamente separado da região dos Dembos.

Portanto, para a região dos Dembos, a resposta conclusiva é que a grande serpente constritora que pode ser encontrada e identificada como "jibóia" é o imponente Pitão-africano-da-rocha.


(**) Vd. poste de 7 de junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4477: FAP (29): Encontros imprevistos (Miguel Pessoa, ex-Ten Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74)

Vd. também poste de 9 de junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4484: Fauna & flora (20): Histórias de grandes serpentes: da jibóia de 7 metros (Paulo Raposo) ao irã-cego (Clara Amante)

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27060: Humor de caserna (206): Dois conselhos que aprendi na tropa mas que depois esqueci na guerra: 'Nunca dar nas vistas, nem nunca armar em herói, já que os cemitérios estão cheios deles'..... Felizmente fui para Nhacra e acabou-se a guerra (Eduardo Campos, ex-1º cabo trms, CCAÇ 4540, Bigene, Cadique e Nhacra, 1972/74)



Crachá da CCAÇ 4540, "Somos um Caso Sério" (Bigene, Cadique e Nhacra, 1972/74).  Nhacra tinha piscina, o que explica a "sereia" do emblema... (Por mostrar os mamilos, não passa no Facebook, com pena nossa... mas vamos tentar) 



1. O Eduardo Campos, ex-1º cabo trms, CCAÇ 4540/72  (Bigene, Cadique e Nhacra, 1972/74) tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue, tem um excelente sentido de humor e é um bom contador de histórias, como se comprova por aquela que apresentamos a seguir. 

É também um dos melhores conhecedores de Nhacra, onde cumpriu a segunda parte da sua "comissão de serviço"...Não foi herói e tem pena. É um bom amigo e camarada que muito prezo, estando connosco, aqui na Tabanca Grande, desde 21 de maio de 2008. 

É autor da série "Histórias do Eduardo Campos". Vamos lembrar algumas dessas histórias, e que giram à volta de Nhacra.


Na tropa e na guerra, passa despercebido e nunca te armes em herói...

por Eduardo Campos 


(...) Em 17/08/73, a CCaç 4540 ("Somos um Caso Sério") disse adeus a Cadique, a bordo,  mais uma vez, da LDG Bombarda, tendo chegado a Bissau no dia seguinte e sendo conduzida para o Depósito de Adidos, em Brá, onde ficou instalada.

Nessa altura eu já não me encontrava em Cadique, pois tinha sido chamado para uma “missão” programada há algum tempo (35 dias de férias na Metrópole). Apanhei um helicóptero (coisa rara nessa altura) e voei para Bissau.

Neste preciso momento, tentei imaginar o que teria sentido na despedida de Cadique, conjuntamente com a minha Companhia, e, a única coisa que me ocorria, nessa data, era pensar: “A merda do barco nunca mais sai daqui.”

Se fosse hoje, creio bem sério, pensaria: “Foi com certa nostalgia e saudade que deixei para trás aquelas paragens, que, com sacrifício sem conta, ajudei a desenvolver e prosperar ficando ligado para sempre a Cadique.”

Depois de ter gozado as merecidas férias, regressei a Bissau em 31/08/73 e, quando entrei nos Adidos, deparei com muitas viaturas na parada prontas para saírem. Foi nessa altura que tomei conhecimento que a minha Companhia se encontrava ali, ao ver camaradas meus em cima das mencionadas viaturas.

Na recruta, o aspirante do meu pelotão dizia com alguma frequência que existiam duas formas de ultrapassar os obstáculos que a vida militar nos opunha:

  • primeira: tentar passar o mais despercebido possível daquilo que nos rodeava, não dando nas vistas;
  • segunda: nunca se armar em herói, já que os cemitérios estavam cheios deles.

Eu, ao entrar nos Adidos, quando tomei conhecimento que o pessoal e as viaturas, que eu vira momentos antes, iriam escoltar uma coluna que se deslocaria de Bissau para Farim, cometi precisamente o primeiro erro, ao violar a regra “passar despercebido”. De facto, reconheço que terei cometido uma imprevidência, “mandando umas bocas foleiras”.

O nosso capitão, ao ver quem era o “artista das bocas” (que mais parecia desfilar numa passerelle, para trás e para a frente), deve ter pensado lá para ele: “Tens a mania que és fino, então toma lá”, pois virou-se para mim e disse:

 
– Ó Campos, larga o saco e sobe para cima de uma viatura!

– Eu,  meu Capitão? – perguntei.

– Não,  a tua prima !

–  Mas eu nem sequer tenho uma arma... – exclamei.

– Nem precisas, os turras sabendo que vais na coluna não nos atacam. Logo não precisas de arma nenhuma!

E lá fomos até Farim. A partir de Mansoa vi imensos vestígios arrepiantes e desagradáveis de emboscadas, ainda por cima sob uma chuva copiosa, durante toda a viagem de ida e de volta, que jamais esquecerei.

Nesse tempo, quase todas as colunas que faziam esse percurso, eram surpreendidas com emboscadas, das quais, infelizmente, resultaram muitas mortes de camaradas nossos. Alguns dos corpos ainda se encontravam nos Adidos a aguardar embarque de regresso ao Continente.

O capitão teve razão, ia na coluna um militar que “impunha muito respeito” ao IN e de facto não aconteceu nada em toda o percurso e devo acrescentar que, em quase vinte e quatro meses de Guiné, nunca tive distribuída uma arma e nem um tiro disparei.( É verdade, nem aos pombos!)

No entanto, fui ferido várias vezes e também tive o meu momento de glória.

Os ferimentos (várias escoriações) foram fruto das “aterragens” mal feitas nas valas. Umas vezes mal calculadas e outras porque entrava de bruços, cabeça, etc. (Por favor,  não se riam porque muitos de vós também as fizeram.)

Quanto ao ato de grande de heroísmo, tudo se passou durante um ataque do PAIGC, com armas ligeiras ao nosso aquartelamento. O meu camarada de serviço foi para o abrigo, não tendo levado o rádio como lhe competia e nada nem ninguém o demoveu, para o ir buscar.

Eu, com uma calma que não me era habitual, saí do abrigo e fui buscar o rádio, regressando ao abrigo com toda a descontração deste mundo. A justificação para tal feito só a encontro num bom copo de whisky que emborcara momentos antes.

Para surpresa minha, não surgiu nenhuma proposta para o prémio Governador ou mesmo um simples louvor. Senti-me deveras injustiçado pela atitude das minhas chefias militares.

Em 08/09/73, saímos do Depósito de Adidos, com destino a Nhacra, onde iríamos substituir a CCaç 3477, “Os Gringos de Guileje”.

A partir de 19/09/73, a Companhia passou a ter á sua responsabilidade o sector de Nhacra, sob as ordens do COP 8, instalado no local.

Meus amigos, para mim e para a minha Companhia,  a guerra tinha terminado, iria ter cerca de um ano de férias e ainda por cima almoçado remuneradas. (...)

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 24 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27051: Humor de caserna (205): uma boleia para Bissau à pala de uma falsa evacuação Ypsilon (Paulo Santiago, ex-alf mil, Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)

terça-feira, 1 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P26973: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (5): em 30 de junho de 1975, vindo de Bissau, eu fazia a reportagem das primeiras eleições de deputados, para a Assembleia Nacional Popular (Carlos Filipe Gonçalves)







Cabo Verde > Ilha do Sal > Aeroporto > 28 de junho de 1975 > Há 50 anos eu fazia a reportagem das eleições em Cabo Verde,  em 30 de junho de 1975. Na foto a chegada da equipa da comunicação social da Guiné-Bissau à Ilha do Sal, no sábado 28 de junho de 1975. Da esquerda para direita: 

  • Flora Gomes e Sana Nahada (operadores-câmara filmar); 
  • António Óscar Barbosa (Cancan) (#)  e Carlos F. Gonçalves (jornalistas);
  • Agostinho (fotógrafo).

Foto (e legenda) : © Carlos Filipe Gonçalves 2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
.




O Carlos Filipe Gonçalves, nosso antigo camarada na Guiné (foi fur mil amanuense,  CefInt/QG/CTIG, Bissau, 1973/74), é uma figura pública no seu país, Cabo Verde (ver aqui entrada na Wikipedia). Natural do Mindelo, vive na Praia. É autor, no nosso blogue, da série "Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo)".

 


1. Postagem publicada na página do Facebook de  Carlos Filipe Gonçalves | segunda, 30 de junho de 2025, 12: 32, bem como na página da Tabanca Grande:



Eis um extrato do meu livro sobre a Rádio Barlavento, no qual descrevo esse dia e a reportagem no dia da eleições (*):

(...) Em junho de 1975 fui indicado para integrar a equipa de reportagem da Rádio Difusão Nacional da Guiné (RDN) que se deslocou a Cabo Verde para cobertura das festividades da Proclamação da Independência. (##)

Viajei integrado na equipa de reportagem que acompanhou a delegação da Guiné que era chefiada pelo comandante Nino. À chegada ao Sal, a malta da rádio,  jornal e cinema foram para a Praia. Fui indicado para ir primeiro a S. Vicente, para cobrir as eleições para a Assembleia Nacional Popular que decorreram na segunda-feira,  30 de junho. Pouco depois de chegar a Mindelo, fui às instalações da rádio, agora Rádio Voz de S. Vicente, nas instalações do Grémio e da antiga Rádio Barlavento.

(….) Na segunda-feira 30 de junho de 1975 faço a reportagem das eleições de deputados, para a Assembleia Nacional Popular. Depois de uma volta pelos bairros, onde vi filas enormes de votantes, acabo por entrar na assembleia de voto da Escola Nova. Fui recenseado na hora, inscrito na lista eleitoral, recebi um boletim de voto e votei! 

Escrevo à pressa uma crónica dos acontecimentos que presenciei. Tento depois um contacto com Bissau, para enviar as notícias, mas isso torna-se uma tarefa impossível. Não há facilidades nos CTT, aliás todo o mundo aqui fica espantado com o meu pedido! Enviar reportagem? Isso é uma novidade, perguntam logo, como se faz? Lá expliquei, mas, a nega continuou. 

Quem paga, podia ser o problema, mas não me dizem... Alguém, querendo ajudar, sugeriu e levou-me a um radioamador! Todo solícito e sentindo-se importante, ele disponibiliza-se logo, leva-me ao seu «estúdio» e vai-me dizendo, que ele tem um amigo radioamador em Bissau. Fiquei surpreso! Através da aparelhagem, chama, chama, enunciando o indicativo e siglas próprias… Mas não obtém resposta! Passei lá mais de uma hora… Nada! Desisti.

Na terça-feira, à tarde apanhei o voo para a Praia, onde vou encontrar os colegas da rádio de Bissau, Cancan e Zeca Martins e a malta do cinema que está encarregue de filmar todos os acontecimentos. A missão agora é a reportagem do dia 5 de Julho, no próximo sábado. (…) (**)

_____________

Notas do autor (CFG):

(#) António Óscar Barbosa, conhecido jornalista, passou pelo Emissor Regional da Emissora Nacional em Bissau, Rádio Libertação e Radiodifusão Nacional da Guiné-Bissau. Foi assessor para a comunicação de Luís Cabral e Nino Vieira. Na política, a partir dos anos 1990, desempenhou cargos ministeriais.


(##) O
PAIGC sempre teve,  desde Conacri, uma equipa de operadores de câmara, fotógrafos e operadores de som, que registava todos os acontecimentos. Faziam agora parte dos órgãos de comunicação social.

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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 28 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26964: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (4): Cemitério Central do Mindelo: Talhão dos combatentes portugueses (Nelson Herbert / Luís Graça) - II (e útima) Parte

(**) A 19 de Dezembro de 1974 foi assinado um acordo entre o PAIGC e Portugal, instaurando-se um governo de transição em Cabo Verde. Este mesmo Governo preparou as eleições para uma Assembleia Nacional Popular, realizadas em 30 de junho, e  que em 5 de julho de 1975 proclamou a independência.

Cite-se uma peça recente da agência Inforpress (excertos, com a devida vénia):


(...) Cidade da Praia, 21 Mai (Inforpress) - Os primeiros deputados cabo-verdianos reuniram-se em sessão plenária em 04 de Julho de 1975, véspera da Independência Nacional, no salão da Câmara Municipal da Praia, para constituírem a primeira Assembleia Nacional Popular (ANP), com Isaura Gomes única deputada.

A acta da primeira sessão legislativa da primeira legislatura, consultada pela Inforpress, revela que os 56 deputados eleitos por todos os círculos eleitorais do país reuniram-se pelas 16:30 nos Paços do Concelho da Praia.

Nas listas únicas constavam nomes de dois sacerdotes (...).

A Comissão Eleitoral de então, presidida pelo jurista Raul Querido Varela, funcionou no edifício do Palácio da Justiça.(...)

Foi esta Comissão que, a 03 de Julho de 1975, procedeu ao apuramento geral do resultado das eleições dos deputados à Assembleia Nacional de Cabo Verde.

Este apuramento aconteceu nos termos do disposto nos artigos 102 a 105 da lei eleitoral de Cabo Verde, aprovada pelo decreto-lei 203/A 75, de 15 de Abril de 1975, do Governo provisório da República Portuguesa. (...)

O falecido Abílio Duarte, que a 05 de Julho proclamou a independência de Cabo Verde, no Estádio da Várzea, foi o primeiro presidente do parlamento cabo-verdiano. (...)

Após a instalação da mesa definitiva, Abílio Duarte declarara aberta a primeira sessão da Assembleia Nacional Popular.

De seguida, convidou os deputados a porem-se de pé, procedendo-se à leitura do texto de juramento colectivo, por uma questão de economia e tempo.

“Juro por minha honra dedicar a minha inteligência e energias ao serviço do Povo de Cabo Verde, cumprindo com fidelidade total os deveres da alta função de Deputado à Assembleia Nacional Popular”, foi assim que os eleitos de então juraram para servirem o país.

Feito o juramento, segundo consta da acta, a sessão foi suspensa por uns instantes e, de seguida, o presidente convidou os jornalistas a abandonarem a sala de sessão. (...)

Nessa mesma sessão, além do texto da proclamação da República de Cabo Verde, foi aprovada, por unanimidade, a Lei da Organização Política do Estado (LOPE), e foi, ainda, adoptada a lei que atribui a Amílcar Cabral o título de Fundador da Nacionalidade.

De acordo com o documento de 42 páginas dactilografadas, na época, a eleição do Presidente da República e do primeiro-ministro foi por aclamação.

“Povo de Cabo Verde, hoje, 05 de Julho de 1975, em teu nome, a Assembleia Nacional de Cabo Verde proclama solenemente a República de Cabo Verde como Nação Independente e Soberana (...)”, lê-se no texto apresentado pelo presidente da ANP.

Abílio Duarte concluiu a leitura do texto de proclamação da independência dizendo que “a República de Cabo Verde lança um apelo a todos os Estados independentes, organizações e organismos internacionais, para que reconheçam de jure como Estado soberano, de harmonia com o Direito e a prática internacionais”.

Foi ainda nesta sessão legislativa que Aristides Pereira fora eleito primeiro Presidente da República de Cabo Verde e Pedro Pires como primeiro-ministro.

Em 1975, houve quem considerasse que Cabo Verde era um país “inviável” e com a independência ia desaparecer do mapa.

No livro do jornalista José Vicente Lopes “Aristides Pereira: Minha vida, nossa história”, o primeiro Presidente de Cabo Verde relata episódios sobre a situação financeira herdada da então potência colonial.

“Portugal deixou-nos praticamente com uma mão à frente e outra atrás (…), porque também estava com sérios problemas de sobrevivência devido ao caos financeiro e económico que nele se instalou com o 25 de Abril”, disse Aristides Pereira, para quem o que mais os governantes de então temiam era a seca.

Mas, segundo ele, graças à campanha de sensibilização feita junto de alguns países africanos e de Portugal, conseguiram colmatar as carências que havia para arrancar.

Para assinalar o 50º aniversário da independência nacional, a Assembleia Nacional vai reunir-se no dia 05 de julho, em sessão solene, sob a presidência de Austelino Correia, com um parlamento constituído por três partidos políticos: o Movimento para a Democracia (MpD, poder), o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) e a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID), ambos da oposição. LC/AA.


(Revisão / fixação de texto: LG)