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| Lúcio (Esox lucius). Fonte: cortesia da Wikipedia |
introduzido nos nossos rios e barragens, vindo da América e de Franaça, para grande gáudio dos pescadores desportivos e desespero dos ambientalistas..
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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| Lúcio (Esox lucius). Fonte: cortesia da Wikipedia |

1. Em mensagem de 1 de Novembro de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), descreve-nos a sua odisseia para conseguir provar que o incidente de que foi vítima no dia 4 de Agosto de 1969 lhe provocou lesões oculares irreversíveis com consequências para toda a vida.1. O melhor assistente de IA para sabermos coisas sobre os nossos comes & bebes na Guiné ? São os nossos "intendentes" e os nossos "vagomestres", pois claro.
Infelizmente são poucos, os que integram a Tabanca Grande e estão ainda vivos. Mas felizmente que temos o nosso Aníbal Silva (ou Aníbal José da Silva, como está registado na Tabanca Grande) que tem sido inexcedível na sua vontade em partilhar informação (oral e escrita) sobre estas matérias, que já estão tão esquecidas da maior parte da malta... Além disso, ele é o autor da notável série "Vivências em Nova Sintra", de que se publicaram 16 postes, desde 4/3/2025 até 17/6/2025.
Perguntei a alguns de nós se se lembravam do "per diem", a verba para a nossa alimentação diária... Já ninguém se lembrava da quantia em escudos (24$50), que o gen António Spínola, no relatório do comando relativo à situação em 1971, propunha que passasse para 33$00 (um aumento de mais de 1/3), face ao agravamento do custo de #géneros de 1ª necessidade" bem como dos "transportes da Metrópole para a Província". (Não sabemos se até ao final da guerra houve alteração da verba para a alimentação diária no CTIG.)
Era com esses 24$50 que o vagomestre tinha de nos alimentar diariamente (3 refeições).
Além de informador privilegiado como vagomestre e como gestor da cantina de Nova Sintra, ao tempo em que esteve com a sua companhia, CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), o Aníbal Silva é um excelente e afável contador de histórias e lembra-se de coisas do arco da velha.
O Aníbal (que fez a Escola Comercial e foi técnico de seguros) tem especiais competências em matéria de literacia e numeracia: só podia, pois, ser o homem certo no lugar certo. E ainda hoje guarda (o que é incrível!) documentação daquela época, rekatcionadas com a alimentação e atigos de cantina, e que faz questão de partilhar com o nosso blogue.
Mensagem recente, de 22/10/2025, 09:10De acordo com as ementas nºs 5 e 6. a ração diária de vinho, dos militares, nos anos da guerra do ultramar, era de 0,5 l (0,2 l ao almoço, e 0,3 l ao jantar).
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Aníbal Silva, ex-fur mil SAM, CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70) |
2. O que transcrevo a seguir é um apanhado das conversas que vou tendo com ele ao telemóvel (ele vive em Arcozelo, se não erro, freguesia de Vila Nova de Gaia, já prometemos encontrarmo-nos quando eu for à Madalena).
2.1. São João, frente a Bolama, era abastecido diretamente por Bissau. Tite também. E Fulacunda. E Bambadinca. E, claro, Nova Sintra,
A via fluvial ainda era a mais rápida, económica e relativamente segura (rio Cacheu, na zona Oeste; rio Geba, na zona Leste; canal do Geba e de Bolama, para a região de Quínara; o rio Cumbijã e o rio Cumbijã e o rio Cacine, para a região de Tombali).
O vinho era transportado de Bissau em barris de 100 litros (mais tarde bidões de 200 l, mas já não é do tempo do Aníbal Silva, nem do meu, somos de 69/71,.
2.2. Em Nova Sintra, era através de um afluente do rio Grande de Buba.
Como não tinham outro sítio para os guardar os barris de 100 litros, utilizava um antigo galinheiro, que estava vago; claro que era um sítio de fácil acesso aos "ladrões de vinho" (não havia "guarda á adega").
Uma vez aberto um barril, durava dois a très dias... E a opinião que a malta ainda hoje tem é que vinho que se bebia em Nova Sintra até era de boa qualidade, tinha bom paladar; e de resto toda a gente bebia vinho.
E interessante a informação de que um barril de 100 l dava só para 2 ou dias. Ou seja, não havia risco de oxidar.Utilizava-se um tubo de borracha para encher recipientes mais pequenos como garrafões. Também já não é do seu tempo o uso de garrafões de 10 l, empalhados, para o transporte de vinho (deve ter sido prática dos primeiros anos de guerra).
2.3. Claro que também aqui havia pequenos furtos: havia sempre ums "jeitosinhos" que, com uma broca manual, fazia um furinho na tampa, e com uma borrachinha ia lá encher o cantil.. "Pró petisco".
Tal como havia malta que, no dia de descascar batatas para o rancho levava as calças de camuflado para encher os bolsos..."pró petisco". Os iam de calções, que era o traje habitual...
Tal como havia malta que era capaz de, numa coluna logística ao porto fluvial, no reabastecimento mensal, e antes da chegada ao quartel,. , "desviar uma ou duas caixas de cerveja", gurdá-las no mato em sítio seguro e ir lá depois buscá-las, passadas 24 ou 48 horas.
2.4. Mas também havia a ração de aguardente. A meio da comissão, a Intendência mandou perguntar se a companhia tinha barris de aguardente. O Aníbal disse que não. Passados uns tempos, foi abrir um barril (que julgava ser de vinho) e viu que era aguardente. Havia 300 litros (3 barris) de aguardente, em "stock", intactos!... Bom, deu para o resto da comissão, enquanto a malta esteve em Nova Sintra antes de ir para Tite. Uma ração de aguardente passou a ser distribuída pelos abrigos.
2.5. O Aníbal, vagomestre, tirou a especialidade em Póvoa do Varzim, na antiga Escola Prática de Administração Militar (hoje Escola de Serviços do Exército) ficou também, em Nova Sintra, com a cantina, ao tempo do segundo capitão da companhia que detectou irregularidades na gestão anterior.
Havia um "buraco" nas contas que era preciso sanear... E que ele saneou... (Como "prémio", ficou, no fim, na "comissão liquidatária" da companhia e do batalhão, um "pincel" que ninguém queria, podendo atrasar o regresso a casa.)
Não havia máquinas de calcular, naquele tempo, as contas eram feitas à mão, uma, duas, três, quatro vezes, até baterem certas. E havia um lençol, o famigerado mapa modelo 1, que era um a quebra-cabeças para qualquer vagomestre.
Já não se lembrava do "per diem" nem da ração de vinho diária...Vai perguntar ao vagomestre que é hoje um quadro superior do BCP, reformado. Gaba-se de ter tido excelentes colaboradores em todos os setores de apoio, da saúde (onde teve um 1º cabo aux enf excecional, e de quem toda gente perdeu o rasto) às transmissões, da intendência ao material.
Tem ideia, sim, que a malta se queixava que a Intendência punha uns "pozinhos no vinho".
O Humberto Reis, ex.fur mil op esp /ranger, da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) e colaborador permanente do nosso blogue também confirma que os nossos soldados, pro serem resarranchados, recebiam mais 750$00 por mês.
Quando o Gr Comb dele, o 2ª, ia para o destacamento do rio Undunduma, o pessoal metropolitano recebia o seu rancho, confeccionado em Bambadinca, mas a viatura também trazia os "tachos de arroz" que as mulheres dos nossos soldados cozinhavam para eles na tabanca... Cada um tinha um lenço da sua cor.... Em operações no mato, também levavam a sua "marmita" (arroz cozido embrulhado num lenço)...
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Nota do editor LG:
Último poste da série > 2 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27340: A nossa guerra em números (42): com um "per diem" (verba de alimentação diária) de 24$50 (hoje 4,10 euros) dava para fazer uma... ometela simples mas saborosa!
CTIGuiné > c. 1971 > O BINT (Batalhão de Intendência) tinha sede em Bissau e destacamentos (Pelotões de Intendência, PINT) , além de Bissau, Farim, Bambadinca e Buba e, depois em Cufar, a partir de 1/8/1973 (o Pel Int 9288/72).
Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015), pp. 73 e 542/543
APOIO DE SERVIÇO DE INTENDÊNCIA (CECA, 2015, pp 72/74)
I. Abastecimento
(i) Víveres e artigos de cantina
As Unidades fazem os seus pedidos directamente ao Órgão de Intendência (01), que as apoiam.
Para certos artigos de cantina os pedidos são feitos à Sucursal das OGFE (Oficinas Gerais de Fardamento do Exército), em Bissau.
Os 01 requisitam à Chefia os víveres e artigos de cantina necessários à manutenção dos níveis determinados.
(ii) Combustíveis e lubrificantes
As Unidades requisitam directamente às empresas gasolineiras ou através dos Orgãos de Intendência (01).
Os 01 mantêm os níveis determinados através de requisições feitas à Chefia de Serviço, em Bissau.
A Chefia de Serviço acciona as empresas gasolineiras no sentido de fornecerem aos 01 ou às Unidades os combustíveis e lubrificantes requisitados.
(iii) Fardamento
As Unidades requisitam aos Pel Int (Pelotões de Intendência) ou Depósito Base de Intendência (DBI), conforme forem apoiados por uns ou outros, os artigos necessários.
Os Pel Int requisitam por sua vez à Chefia os artigos indispensáveis à manutenção do nível determinado.
A Chefia acciona o DBI de acordo com o solicitado pelos Pel Int.
(iv) Impressos
As Unidades requisitam os impressos directamente ao DBI. Através dos Pel Int o DBI encaminha-os para as Unidades.
A Chefia do Serviço mantém o controlo deste material junto do DBI por forma a não haver faltas.
(v) Material diverso
Os pedidos são feitos directamente à Chefia que acciona o DBI para o efeito. Este envia o material à Unidade que fez o pedido.
Os artigos críticos são pedidos à 4a Repartição/QG que os acciona em ligação com a Chefia do Serviço.
II. Evacuação
(i) Fardamento
A evacuação dos artigos de fardamento é feita das Unidades para o Pel Int que as apoiam.
(ii) Material diverso
As evacuações são feitas directamente das Unidades para o DBI.
pag 72/73
III. Síntese da actividade operacional do Batalhão de Intendência da Guiné (CECA, 2015, pp. 488/489
(...) "O BInt foi criado com base em QO aprovado por despacho ministerial de 21Nov63 e englobou uma Companhia de Intendência, umaCompanhia de Depósito, então constituidas, e os Destacamentos d Intendência (4), então existentes em Bissau, Tite, Bula e Bafatá, este depois instalado em Bambadinca, a partir de 02Jun66, e, mais tarde, outro Pelotão instalado em Farim, a partir de OlJan67, sendo considerado uma unidade da guarnição normal.
Em OlAbr68, as funções da Companhia de Depósito passaram a ser executadas por um novo órgão, então criado, o Depósito Base de Intendência e a partir de O1Set68, o Batalhão passou a ser constituídoelas subunidades designadas por Companhia de Intendência de AlD,Companhia de Intendência de AlG, e Pelotões de Intendência, tendoainda sido instalado outro Pelotão em Cufar, a partir de OlAg073.
Nesta situação, forneceu o apoio logístico às unidades e subunidadesem serviço na Guiné, efectuou a reparação dos meios de frio, máquinas de escritório e de bobinagem, entre outros, para o que dispunhatambém de equipas itinerantes.
Ministrou também instrução de formação de especialistas de Intendência de padeiros, magarefes, caixeiros e outras. Manteve ainda as reservas de combustíveis e lubrificantes e acionou o funcionamento dos centros de fabrico de pão e de abate.
Em l40ut74, após entrega das instalações e equipamentos ao PAIGC, Batalhão foi desactivado e extinto." (...)
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Nota do editor LG:
(*) Vd. poste de 12 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5258: A tragédia de Cufar, sábado, dia do Diabo, 2 de Março de 1974 (António Graça de Abreu)
(...) "Os homens ardiam como tochas, gritavam, vinham direitos a mim. O inferno deve se um lugar bem mais agradável do que aquelas dezenas de metros de picada com pessoas a serem consumidas pelas chamas, o ar, o escuro da noite empestado por um horrível, um nauseabundo cheiro a carne humana queimada. Despi a minha camisa e com ela tentei apagar restos do fogo que cobria aqueles homens. Meti quatro negros no carro, dei a volta com o jipe e subi, acelerando em direcção a Cufar. Uma viatura blindada Fox (do Pel Rec Fox 8870/72) descia a picada com os faróis e as metralhadoras apontadas para nós.
Vd. também postes de:
21 de outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8933: Memória dos lugares (158): Cufar e o porto do rio Manterunga, extensão do inferno na terra : 2 de Março de 1974 (António Graça de Abreu)
17 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4366: Tabanca Grande (144): João Lourenço, ex-Alf Mil, PINT 9288, Cufar (1973/74)![]() |
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