Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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domingo, 20 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28363: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (56): batatada de peixe seco num dos almoços das vindimas da Quinta de Candoz
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28335: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (18): o Alberto Branquinho, o soldado básico e o trocadilho Milo ® /Milho numa pequena obra-prima de humor de caserna
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Milo da Nestlé, Portugal (com a devida vénia...) (E passe a publicidade!) |
"Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. (...)
Esse trocadilho "Milho / Milo", como recurso literário, é de antologia, para não dizer mesmo... "genial". Nunca me ocorreria, a mim, porque há séculos que não lia ou não via uma referência a esta bebida. Nem eu gosto sequer deste tipo de bebidas.
O Milo ® é uma marca registada da Nestlé, o gigante da indústria de alimentos e bebidas, de origem suíça. Lançado em 1934, na Austrália, o Milo ® surgiu em Portugal no final dos anos 50, saiu do mercado no início dos anos 90, e foi de novo relançado, em 2013, segundo leio na página da empresa.
Quando chegou à mesa dos portugueses ainda não era para todos. Estamos a falar dos anos 50/60/70 do século passado: beber "Milo" (ou outros produtos da Nestlé) ainda era um pequeno luxo...
Essa pequena confusão entre o (i) "milho" (o cereal com que se fazia, no Norte, o pão de milho, misturado com o centeio; mas também com que se faziam as "papas de milho", muitas vezes sob a forma de"carolo", produto obtido pela moagem grossa ou incompleta do grão de milho, e que era, com as batatas e as couves, a comida de sustento do meio rural de onde vinha o soldado básico); e (ii) o "Milo" (o produto sofisticado da Nestlé, que ia à mesa urbana do oficial do exército português, miliciano ou do quadro permanente) condensa, numa pequena palavra, as profundas diferenças da época, no plano económico, social e cultural.
(i) Uma "radiografia social" do Portugal dos anos 60 numa lata, de rótulo verde
O "Milo" nos anos 60/70 do século passado não era, de facto, para todos. Era símbolo de uma certa modernidade e de um certo estatuto social, associado à emergente classe média /média-alta, urbana, que já podia dar aos filhos um produto industrializado da Nestlé ao pequeno-almoço. Mesmo assim, com peso, conta e medida.
Quando o oficial (miliciano, um jovem com frequência universitário ou com o liceu concluído ou equivalente, de origem em geral citadina) ordena ao seu "ordenança" que lhe sirva um copo de "Milo", ao chegar do mato, está a projetar no duro cenário da Guiné um hábito de conforto da sua vida civil.
Para o soldado básico (geralmente de origem rural, analfabeto ou com a instrução primária incompleta), a palavra "Milo" pura e simplesmente não existia no seu limitado léxico rural ou suburbano. Não era coisa que chegasse à "venda" na aldeia ou da vilória do interior, que também funcionava como tasca... A única coisa que foneticamente fazia sentido na sua cabeça era o milho, o milho do pão, com mistura de centeio, cozido no forno a lenha ou as papas de farinha de milho, feitas com água e um niquinho de azeite.
Estamos a imaginar a cena do pobre soldado a andar, no quartel, feito doido, à procura de farinha de milho e depois pô-la "molinha" (sic) dentro do copo de leite quente... quando afinal o oficial o que queria era um copo de "leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada Milo" (!)...
(ii) Os pequenos luxos da manutenção militar
Nos quartéis do mato, nas cantinas militares, nas messes de oficiais e sargentos, as latas de Milo ® não eram sequer um artigo corrente... Eu não me lembro dessas latas com rótulo verde. Quando muito havia leite esterilizado, leite condensado, leite achocolatado de marca branca, em lata ou em garrafa de vidro... Não creio que a Manutenção Militar disponibilizasse, no ultramar, latas de Milo ®.
Mas poderiam eventualmente ser mandadas pelas famílias, pelo SPM, a par dos chouriços, salpicões, postas de bacalhau, etc., pequenas "guloseimas" que ajudavam a criar uma ligação afetiva à metrópole, e a matar saudades de casa e que funcionavam como um verdadeiro "miminho", para a alma e para o estômago dos "expedicionários".
O mal-entendido ("Milo / milho") mostra bem como o stresse do quotidiano no mato se podia manifestar no "upstairs" e no "downstairs" de um quartel: (i) o oficial, saudoso do seu conforto de casa para espairecer a cabeça e aconchegar o estômago, depois de uma operação no mato; e (ii) o "ordenança", empenhado em fazer as vontadinhas ou caprichos do "seu" oficial, mas completamente perdido na tradução de dois mundos sociolinguísticos que a tropa e a guerra tinha juntado à força...na "colónia de desterro" da Guiné.
(iii) Mitologia & publicidade
O nome da leite achocolatado da Nestlé, da marca Milo ®, deriva, ao que parece, do lendário Milo de Crotona (séc. VI a. C.), o mais célebre atleta da antiguidade clássica, famoso pela sua força sobre-humana (e que teve um fim trágico).
A ironia histórica da origem do nome do produto contrapõe-se deliciosamente à soçlidão e à fragilidade, psicológica, dos oficiais do exército português na guerra de África / guerra colonial, que não podiam dispensar o seu bom uísque, a sua água de Perrier, o seu gin tónico, à tarde e à noite, ou o seu energético Milo ® pela manhã.
O "pó" tónico e vitamínico que devia dar a "força de Milo" ao oficial acabava apenas por gerar uma birra de caserna por causa de uma tigela de papas de milho (ou de "carolo") com leite!
É por coisas como esta que o texto do Alberto Branquinho é tão divertido (e tão rico, literariamente falando): sob o aparente humor fácil da paródia ao sotaque nortenho do soldado básico que trocava os "vês" pelos "bês", há também uma subtil atenção à história social, ao consumo da época e à linguajar dos homens que combateram no TO da Guiné. E nisso o Branquinho é mestre, sem ser panfletário. (**)
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Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 6 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28325: Humor de caserna (268): Afinal, tão básicos que nós éramos... (Alberto Branquinho)(**) Último poste da série > 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28289: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (17): O Portugal sacroprofano: 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, em que o diabo anda à solta, e é por isso um bom dia para o "banho santo" que há de livrar as crianças do medo... (do Adamastor, da guerra, da morte!)
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Guiné 61/74 - P28256: Facebook...ando (98): O jagudi de Galomaro ... e a gaivota da Foz do Douro (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)
1. Há pequenas histórias do nosso quotidiano que não precisam de grandes feitos de guerra para merecer ser recordadas. Basta-lhes uma situação algo insólita, uma boa dose de humor q.b. e, sobretudo, alguém que a tenha vivido e não a tenha esquecido, ao fim de mais de meio século.
É o caso desta memória do António Tavares (ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912, Galomaro, 1970/72), que começa com um jagudi empoleirado numa árvore, à espera dos restos da matança de um vitelo, e acaba... com uma gaivota da Foz do Douro, Porto.

Duas aves, dois cenários muito diferentes (a savana arbustiva da Guiné e a paisagem marítima da Foz do Douro, no Porto, a 4 mil quilómetros de distância), mas com alguns comportamentos surpreendentemente semelhantes. Uma e outra sabem muito bem onde encontrar comida e, quando calha, também "gostam de pregar partidas" aos humanos...
O texto foi publicado na página do Facebook da Tabanca Grande (5 de agosto de 2026, 12:23 pelo António Tavares (que tem também página pessoal no Facebook).
É justamente para isso que serve esta série “Facebook...ando”: trazer para o blogue pequenos apontamentos, memórias, histórias e reflexões dos nossos camaradas, para que não se percam no imenso arquivo, do Facebook, que é como o mercado de Bandim ou a feira da Ladra de Lisboa: podem lá encontras-se no meio das velharias e de "muito lixo", coisas úteis e até preciosidades.
Aqui fica, portanto, o jagudi de Galomaro e a gaivota da Foz do Douro. Duas aves , de espécies diferentes, uma terrestre e necrófaga (Necrosyrtes monachus), outra marinha, omnívara (Larus michahellis) que de algum modo fazem o seu papel de "almeidas", e que se acomodam bem ao "lixo" dos humanos...
São, sobretudo, dois bons pretextos para a gente recordar e sorrir... Já que, como diz o autor, recordar é viver!
O jagudi (título do texto original) não é apenas uma ave. Era um elemento muito concreto da paisagem guineense do nosso tempo e da experiência dos vagomestres e dos cozinheiros dos nossos quartéis, ligada à matança do gado e à gestão dos resíduos (numa época em que ainda não havia consciência ecológica nem separação, recolha e tratamento dos lixos; quando muito, faziam-se fogueiras em bidões).
Isso torna a memória mais interessante, para os nossos leitores, amigos e camaradas da Guiné, d o que uma simples anedota sobre um pássaro que "cagou" em cima da farda do vagomestre. É um pequeno apontamento etnográfico do nosso quotidiano, involuntariamente muito saboroso.
O jagudi de Galomaro e a gaivota da Foz do Douro
Eu tenho uma recordação negativa dos jagudis.
Certo dia de 1970 (ou de 1972 ?) fui "presenteado" pelos intestinos de um. A ave estava no galho de uma árvore situada numa ladeira perto da residência do chefe de posto de Galomaro.
Aguardava os restos da matança do vitelo que estava a decorrer e defecou em cima do meu ombro e fardamento.
Os dois ajudantes do fula João Baker matavam os bovinos. O Baker comerciava a carne com o vagomestre.
Na Foz do Douro, não temos jagudis mas temos... gaivotas a grasnar, infestando praias, ruas, telhados, jardins e contentores do lixo.
No Inverno por vezes em bando atacam as pessoas que passeiam nas praias. Os turistas adoram-nas, mas nas esplanadas roubam a comida dos mais incautos.
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Guiné 61/74 - P28231: Humor de caserna (286): Os frangos do vagomestre: uma BD inspirada num microconto do Alberto Branquinho (2013)
... Vida dura, a do mato !...
Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto : Adapt. de Alberto Branquinho (2013)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
1. Eu achei o conto "magistral" (*)... Mas, confesso, esperava mais comentários ao poste... O desmérito é do editor, não do autor... De facto, em vez de "Arroz especial... com mafé" (e não má-fé!) , eu devia ter optado por um título mais provocatório... "Hoje há arroz de jagudi no forno" ou outro título de fazer crescer a água da boca dos camaradas de Baião e do Marco de Canaveses onde se faz o melhor "arroz de anho no forno" ... Em Portugal & arredores.
Recorde-se, para quem leu, que a história começa com um princípio (ou um ameaço) de "levantamento de rancho"...
Não tenho que lisonjear o autor, como faz a menina da IA que é para a gente ficar "agarrados a ela"... De facto, a IA é uma nova adição (=comportamento aditivo, vício, dependência), a par do sexo, da pornografia, da droga, da comida, dos ansiolíticos, do trabalho, do ginásio, do jogo ("gaming"), do telemóvel, das redes sociais (como o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné), das viagens da Abreu Lopes, etc..
Porque é que o texto não suscitou comentários imediatos ? Esta é a questão que me intriga... Se o conto é "magistral", porque é que não houve... comentários, e muito menos "magistrais" ?
É aí que o conto explode. O leitor percorre duas ou três páginas sem imaginar o desfecho. É uma boa surpresa literária. Mas o título, de facto, não convida ninguém a entrar.
O autor merece uma boa BD. Esta "estória cabraliana" (neste caso,"branquiana" ?!...) merece uma boa BD. Os nossos leitores também o merecem.
terça-feira, 28 de julho de 2026
Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)
E aquela guerra foi a nossa, estamos todos lá, do atirador ao condutor, do cripto ao enfermeiro. (...)
'Ia recomeçar a andar e olhou para o chão. Viu, junto ao tronco de uma árvore, três ou quatro formigas grandes, pretas que, com as pinças da cabeça cravadas, tentavam arrastar um pedaço de carne, ainda com um farrapo de farda camuflada agarrado.' (...)
Mata virgem e lama, água e o céu estrelado, chuvas diluvianas, frases em crioulo e a propósito, a linguagem de caserna na justa conta, o caminhar noturno, a solidão mesmo quando temos muita gente à volta. E uma enorme capacidade de trazer a pilhéria e o tom zombeteiro que obriga a uma boa gargalhada. (...).
Não é para todos esta capacidade de relevar o pícaro quando se marcha a arrastar o corpo, no auge do sofrimento. É um dom saber descrever um acontecimento corrente para um soldado branco que assusta o africano, tomando-o por feitiçaria, anda por ali o abismo cultural.
O conto 'Arroz Especial' é a profundidade do insólito, com nojo toda aquela gente vai descobrir que andou a comer (...) o impensável .
(*) Vd. poste de 4 de novembro de 20130 > Guiné 63/74 - P12248: Notas de leitura (531): "Cambança Final", contos de Alberto Branquinho (Mário Beja Santos)
(***) Último poste da série > 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)
terça-feira, 9 de junho de 2026
Guiné 61/74 - P28086: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (52): Favas com peixe frito à moda de Monchique (comidas numa tasca de Portimão, em 26/5/2026)
Ficam aqui estas sugestões para os vagomestres da Tabanca Grande. Mas, quanto a favas, temos que esperar por elas, no próximo ano. Que as congeladas, não devem ter graça. Nem mesmo no céu, onde a graça é plena.
Último poste da série > 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27839: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (51): Recordando o famoso Cozido à Portuguesa, by chef Preciosa, da Tabanca do Centro, que se reuniu pela 1ª vez em 27/01/2010
domingo, 15 de março de 2026
Guiné 61/74 - P27823: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (50): Não há sável ? Come-se lúcio...
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| Lúcio (Esox lucius). Fonte: cortesia da Wikipedia |
introduzido nos nossos rios e barragens, vindo da América e de Franaça, para grande gáudio dos pescadores desportivos e desespero dos ambientalistas..
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69);
- “Seis histórias paralelas” (contos, 2023),
- “Limbo, inferno e paraíso” (poesia, 2022),
- “Variações da perda” (poesia, 2020),
- “Há rios que não desaguam a jusante” (romance, 2018)
- e “Na luz inclinada” (poesia, 2014).
Em 2021, Nuno Dempster organizou, com Anabela Almeida, a antologia de poemas do seu avô, Armando Côrtes-Rodrigues (1881-1971), “Um poeta rodeado de mar” (Companhia das Ihas, 2021).
Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Outras obras do escritor:
- “Uma paisagem na Web” (poesia, editado pela & etc, 2013),
- “Elogia de Cronos” (poesia, Artefacto Edições, 2012),
- “O papel de prata, o reflexo e outros contos pelo meio” (Companhia das Ilhas, 2012),
- “Pedro e Inês. Dolce Stil Nuovo” (poesia, Edições Sempre-em-Pé, 2011),
- “K3” (poesia em que faz uma incursão no tema da guerra colonial, & etc, 2011);
- “Uma flor de chuva (poesia, Escola Portuguesa de Moçambique, Maputo, 2011),
- “Londres” (poesia, & etc, 2010)
- e “Dispersão – Poesia reunida” (Edições sempre-em-pé, 2008)
- Cap Mil Art Antóno Manuel Conceição Henriques (que ficaria sem as pernas numa mina A/C);
- Cap Art Ricardo António Tavares Antunes Rei,
- Cap Inf Rui Manuel Gomes Mendonça.
(...) Recordei, no link que enviaste, o capitão Rei, de carreira, que teve a ideia dos lenços [azuis] e que substituiu o capitão miliciano, cujo nome já não recordo, um homem lúcido, vítima de um fornilho, na estrada de Farim, uma das passagens mais intensas do poema [Cap Mil Art António Manuel Conceição Henriques]. (***)
(...) "A vontade de suplantar o outro, o dominador, e de ocupar o seu lugar mas no sentido de que tudo continue na mesma, apenas mudando a sua posição de baixo para cima, afastando para isso o outro, o estranho que o impedia de usufruir de privilégios e de ser o epicentro das atenções das imaculadas bajudas."
A propósito do escrito acima, para Cherno Baldé, de quem estou a ler aqui, interessadíssimo, as suas crónicas, um trecho de um muito longo poema que acabei há dois dias e que se publicará como livro, julgo, em 2011. O poema intitula-se K3, onde em 1968 estive enterrado.
(...) Não fazemos história,
a História não regista
a sina dos anti-heróis
que pululam em toda a parte,
o mundo sublevado em armas,
o mundo velho que noutro se transforma,
mas a essência do mundo
não é tornar-se novo,
é afinar o modo de fazer
que o novo permaneça antigo,
anti-heróis
que não chegam a ser anti-heróis,
são uma chapa com número
no fio ao peito, à prova de fogo,
o corpo esturricado,
a medalha de Fátima, fundida,
mas não o número,
útil aos funerais anónimos
dos que «morreram pela pátria»,
dizia-se em Lisboa.(...)
Nuno Dempster
quinta-feira, 1 de julho de 2010 às 21:51:35 WEST
Notas do editor LG:
(*) Último poste da série > 2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27595: In Memoriam (565): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913 (Catió, 1967/69) (Beja Santos)
(**) Vd. poste de 9 de fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7747: Tabanca Grande (266): Nuno Dempster, autor do poema K3, agora publicado em livro, ex-Fur Mil SAM, CCAÇ 1792 (Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, 1967/69)
(****) Vd. poste de 5 de agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4782: Memórias do Chico,menino e moço (Cherno Baldé) (9): Futebol, rivalidades, bajudas... e nacionalismos(s)








































