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domingo, 20 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28363: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (56): batatada de peixe seco num dos almoços das vindimas da Quinta de Candoz

 





Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > Vindimas > 18 de setembro de 2026 > Batatada de peixe seco (raia, safio, cação, sapata...) "by chef Alice"...( Na primeira foto, o peixe já demolhado, como o bacalhau.)


Fotos (e legenda): © Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].


1. Já não é a primeira vez que a gente traz peixe seco da Lourinhã para as vindimas  da Quinta de Candoz... É uma prato festivo (e com muita "sustância", como diria o cavador de enxada de antigamente). Prato que, por isso, fica bem nas "serviçadas".  

Quem já o provou, pela primeira vez, aqui no Norte, há dois ou três anos, gostou e aprovou. São saberes e sabores antigos, provavelmente tão ou mais antigos que o bacalhau escalado, salgado e seco ao sol. Era o governinho da mulher do pescador e do lavrador das aldeias ribeirinhas da Lourinhã, antes da chegada da electricidade e da arca frigorífica. Tal como aqui é o porco que era guardado na salgadeira, e que tinha que dar para o ano todo, até à próxima matança, no início do inverno.

Desta vez a dose era generosa, dava bem para 8 comedores. (Obrigado, Jaime, por teres sido o internmediário na transação.) E diversificada: tinha raia, sapata (cada vez mais rara), safio (aqui diz-se "congro"), cação... O nosso "vagomestre" merece chapa 5. E a "chef" Alice, com tão boa matéria-prima, só teve cozer, à parte, a batata (com pele), a cebola (muita!) e os ovos (ingrediente facultativo, mas que fica bonito, na travessa e na fotografia).

Serve-se com muito azeite e vinagre. E repete-se. Pode ser acompanhado com um vinho verde tinto, "carrascão",,,que a gente agora já não faz, na Quinta de Candoz. Mas ainda se arranja por aqui...

Tudo isto, caros amigos, não é para vos fazer inveja. É só para vos dizer que no céu não há disto. E é bom a gente começar a tratar de um lugarzinho, à direita ou à esquerda de Deus Pai (ideologias à parte)... E, a propósito, ainda hoje, por coincidência, tive dois telefonemas de antigos colegas (e amigos) das lides académcias. Há uma dezenas de anos que não sabiam de mim. E em vão ligavam para um antigo número de telemóvel ou escrevima um endereço de email, descontinuado. Um deles, que sempre foi muito brincalhão, mostrou-se exuberanhte e feliz por, finalmente, saber do meu paradeiro e ouvir a minha voz

- Porra, pá, constava para aí que já tinhas "ido...para a terra"!

Ao que, refeito da surpresa, retorqui:

- Em boa verdade, tenho andado de terra em terra. Agora estou em Candoz, nas vindimas, que já acabaram ontem...E, se queres que te diga, não estou com pressa de me despedir da Terra da Alegria... Nem ainda escrevi o poema que alguém há de ler no meu enterro...

O que vale é que eu não sou supersticioso... E vamos marcar um almoço para fazer a prova de de vida. Obrigado, Carlos, obrigado, Prista, pelo vosso cuidado.  Parafraseando o Marc Twain,  a notícia da minha morte foi manifestamente exagerada... 
___________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 26 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28214: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (55): Mafé e Baguitch (Henk Heggens, médico neerlandês, especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, Fulacunda e Bissau, 1980/84)

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28335: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (18): o Alberto Branquinho, o soldado básico e o trocadilho Milo ® /Milho numa pequena obra-prima de humor de caserna



Milo da Nestlé, Portugal
 (com a devida vénia...)
(E passe a publicidade!)
1. A propósito do poste P28325 (*):

(...) " Eu era o soldado básico que tratava das cóisas dos ufissiais da nossa Cumpanhia. Bossemessê num creia em tudo o qum ufissial da nossa Cumpanhia escrébe prái [leia-se: no blogue, LG]

"Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. (...) 

" Mas olhe cus outros ufissiais tamém não eram milhores. Eram cuase todos das ilhas. Esses nunca os bi aí do seu computador.

"Um  [deles] um dia disse que cando chegasse da operação queria 
um copo de leite cum milho. Sabe lá bossemessê o queu passei prá arranjar o milho no quartel e quêle ficasse molinho pra pôr dentro do leite. Despois chateou-se comigo cu quêle queria era o leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada MILO." (...) (*)

A fala,"nortenha", do "ordenança" dos oficiais de uma companhia no mato (ou seja, a do Alberto Branquinho ou de um seu "alter ego", da CART 1689 / BART 1913, 1967/69; a mesma subunidade do José Ferreira da Silva, mas esse não devia ter "ordenança", proque era furriel de operações especiais , é um "tratado" de humor de caserna. 

Esse trocadilho "Milho / Milo", como recurso literário, é de antologia, para não dizer mesmo... "genial". Nunca me ocorreria, a mim, porque há séculos que não lia ou não via uma referência a esta bebida. Nem eu gosto sequer deste tipo de bebidas.

Milo ® era (e ainda é) uma marca de leite achocolatado que, no nosso tempo,  fazia as delícias da pequenada ao pequeno-almoço. Falamos, naturalmente, daqueles que se podiam dar ao luxo de tomar um saudável pequeno-almoço, com direito a leite e derivados do leite. 

O Milo ® é uma marca registada da Nestlé, o gigante da indústria de alimentos e bebidas,  de origem suíça. Lançado em 1934, na Austrália,  o 
Milo ® surgiu em Portugal no final dos anos 50, saiu do mercado  no início dos anos 90, e foi de novo relançado, em 2013, segundo leio na página da empresa.

(...) Após vinte anos de ausência e muitas centenas de pedidos de consumidores, Milo ® está de volta! Em Portugal, Milo ® saiu de comercialização no início dos anos 90, deixando uma geração de consumidores saudosos por voltar a provar o característico sabor de Milo®. Milo ® tem um sabor único e alto valor nutricional, graças à sua composição de malte, cacau e leite. É igualmente fonte de Cálcio e Fósforo e Vitaminas C e do complexo B, sendo assim a bebida ideal para fornecer energia logo ao acordar e preparar os jovens atletas para a prática de uma atividade física mais intensa. (...)

Quando chegou à mesa dos portugueses ainda não era para todos. Estamos a falar dos anos 50/60/70 do século passado: beber "Milo" (ou outros produtos da Nestlé) ainda era um pequeno luxo...

Essa pequena confusão entre o (i) "milho" (o cereal com que se fazia, no Norte,  o pão de milho, misturado com o centeio;  mas também com que se faziam as "papas de milho", muitas vezes sob a forma de"carolo", produto obtido pela moagem grossa ou incompleta do grão de milho, e que era, com as batatas e as couves, a  comida de sustento do meio rural de onde vinha o soldado básico);  e (ii) o "Milo" (o produto sofisticado da Nestlé,  que ia à mesa urbana do oficial do exército português, miliciano ou do quadro permanente) condensa, numa pequena palavra, as profundas diferenças da época, no plano económico, social e cultural.

(i) Uma "radiografia social" do Portugal dos anos 60 numa lata, de rótulo verde

O "Milo" nos anos 60/70 do século passado não era, de facto,  para todos. Era  símbolo de uma certa  modernidade e de um certo estatuto social, associado à emergente classe média /média-alta,  urbana,  que já podia dar aos filhos um produto industrializado da Nestlé ao pequeno-almoço. Mesmo assim, com peso, conta e medida.

Quando o oficial  (miliciano, um jovem com frequência universitário ou com o liceu concluído ou equivalente,   de origem em geral citadina) ordena ao seu "ordenança" que lhe sirva um copo de   "Milo", ao chegar do mato,   está a projetar no duro cenário da Guiné um hábito de conforto da sua vida civil. 

Para o soldado básico (geralmente de origem rural,  analfabeto ou com a instrução primária incompleta), a palavra "Milo" pura e  simplesmente não existia  no seu limitado léxico rural ou suburbano.  Não era coisa que chegasse à "venda" na aldeia ou da vilória do interior, que também funcionava como tasca... A única coisa que foneticamente fazia sentido na sua cabeça era o milho, o milho do pão, com mistura de centeio,   cozido no forno a lenha ou as papas de farinha de milho, feitas com água e um niquinho de azeite.

Estamos a imaginar a cena do pobre soldado  a andar,  no quartel, feito doido, à procura de farinha de milho  e depois pô-la  "molinha" (sic) dentro do copo de leite quente... quando afinal o  oficial  o que queria era um  copo de "leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada Milo" (!)...


(ii) Os pequenos luxos da manutenção militar

Nos quartéis do mato,  nas cantinas militares, nas messes de oficiais e sargentos, as latas de  Milo ® não eram sequer um artigo corrente... Eu não me lembro dessas latas com rótulo verde. Quando muito havia leite esterilizado, leite condensado, leite achocolatado de marca branca, em lata ou em garrafa de vidro... Não creio que a Manutenção Militar disponibilizasse, no ultramar, latas de Milo ®.

Mas poderiam eventualmente ser mandadas pelas famílias, pelo SPM, a par dos chouriços, salpicões, postas de bacalhau, etc., pequenas "guloseimas" que ajudavam a criar uma ligação afetiva à metrópole, e a matar saudades de casa e que funcionavam como  um verdadeiro "miminho", para a alma e para o estômago dos "expedicionários".

O mal-entendido ("Milo / milho") mostra bem como o stresse do quotidiano no mato  se podia manifestar no "upstairs" e no "downstairs" de um quartel: (i) o oficial,  saudoso do seu conforto de casa para espairecer a cabeça e aconchegar o estômago, depois de uma operação no mato;  e (ii) o "ordenança",  empenhado em fazer as vontadinhas ou caprichos  do "seu" oficial, mas completamente perdido na tradução de dois mundos  sociolinguísticos que a tropa e a guerra tinha juntado à força...na "colónia de desterro" da Guiné.


(iii) Mitologia & publicidade

O nome da leite achocolatado da Nestlé, da marca  Milo ®,  deriva,  ao que parece, do lendário Milo de Crotona (séc. VI a. C.), o mais célebre atleta da antiguidade clássica, famoso pela sua força sobre-humana (e que teve um fim trágico). 

A ironia histórica da origem do nome do produto  contrapõe-se deliciosamente à soçlidão e à fragilidade, psicológica,  dos oficiais do exército português na guerra de África / guerra colonial, que não podiam dispensar o seu bom uísque, a sua água de Perrier, o seu gin tónico, à tarde e à noite,  ou o seu energético Milo ® pela manhã.

O "pó" tónico e vitamínico  que devia dar a "força de Milo" ao oficial acabava apenas por gerar uma birra de caserna por causa de uma tigela de papas de milho (ou de "carolo") com leite!

É por coisas como esta que o texto do Alberto Branquinho é tão divertido (e tão rico, literariamente falando): sob o aparente  humor fácil da paródia ao sotaque nortenho do soldado básico que trocava os "vês" pelos "bês", há também uma subtil atenção à história social, ao consumo da época e à linguajar dos homens que combateram no TO da Guiné. E nisso o Branquinho é mestre, sem ser panfletário. (**)

________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 6 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28325: Humor de caserna (268): Afinal, tão básicos que nós éramos... (Alberto Branquinho)

(**) Último poste da série > 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28289: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (17): O Portugal sacroprofano: 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, em que o diabo anda à solta, e é por isso um bom dia para o "banho santo" que há de livrar as crianças do medo... (do Adamastor, da guerra, da morte!)

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28256: Facebook...ando (98): O jagudi de Galomaro ... e a gaivota da Foz do Douro (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)

 



O jagudi (Necrosyrtes monachus) e a gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis) 
(a mais comum em Portugal e a que se adaptou melhor à presença humana: há um programa em curso,  nos municípios costeiros da área metropolitana do Porto para controlar o crescimento populacional desta espécie de gaivotas)

Fonte: Wikipedia (com a devida vénia)


1. Há pequenas histórias do nosso quotidiano que não precisam de grandes feitos de guerra para merecer ser recordadas. Basta-lhes uma situação algo insólita, uma boa dose de humor q.b. e, sobretudo, alguém que a tenha vivido e não a tenha esquecido, ao fim de mais de meio século.

É o caso desta memória do António Tavares (ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912, Galomaro, 1970/72), que começa com um jagudi empoleirado numa árvore, à espera dos restos da matança de um vitelo, e acaba... com uma gaivota da Foz do Douro, Porto.

Duas aves, dois cenários muito diferentes (a savana arbustiva da Guiné e a paisagem marítima da Foz do Douro, no Porto, a 4 mil quilómetros de distância), mas com alguns comportamentos surpreendentemente semelhantes. Uma e outra sabem muito bem onde encontrar comida e, quando calha, também "gostam de pregar partidas" aos humanos...

O texto foi publicado na página do Facebook da Tabanca Grande (5 de agosto de 2026, 12:23 pelo António Tavares (que tem também página pessoal no Facebook).

É justamente para isso que serve esta série “Facebook...ando”: trazer para o blogue pequenos apontamentos, memórias, histórias e reflexões dos nossos camaradas, para que não se percam no imenso arquivo, do Facebook, que é como o mercado de Bandim ou a feira da Ladra de Lisboa: podem lá encontras-se no meio das velharias e de "muito lixo", coisas úteis e até preciosidades.

Aqui fica, portanto, o jagudi de Galomaro e a gaivota da Foz do Douro. Duas aves , de espécies diferentes, uma terrestre e necrófaga (Necrosyrtes monachus), outra marinha, omnívara
 (Larus michahellis)  que de algum modo fazem o seu papel de "almeidas", e que se acomodam bem ao "lixo" dos humanos...

São, sobretudo, dois bons pretextos para a gente recordar e sorrir... Já que, como diz o autor, recordar é viver!

O jagudi (título do texto original) não é apenas uma ave. Era um elemento muito concreto da paisagem guineense do nosso tempo e da experiência dos vagomestres e dos cozinheiros dos nossos quartéis, ligada à matança do gado e à gestão dos resíduos (numa época em que ainda não havia consciência ecológica nem separação, recolha e tratamento dos lixos; quando muito, faziam-se fogueiras em bidões). 

Isso torna a memória mais interessante, para os nossos leitores, amigos e camaradas da Guiné, d o que uma simples anedota sobre um pássaro que "cagou" em cima da farda do vagomestre. É um pequeno apontamento etnográfico do nosso quotidiano, involuntariamente muito saboroso.

O jagudi de Galomaro e a gaivota da Foz do Douro

por António Tavares


Como é sabido o jagudi é um abutre africano,  de bico grande e recurvado, pescoço nu,  de coloração rosada ou esbranquiçada, e plumagem escura.
 
Eu tenho uma recordação negativa dos jagudis.
 
Certo dia de 1970 (ou de 1972 ?) fui "presenteado" pelos intestinos de um. A ave estava no galho de uma árvore situada numa ladeira perto da residência do chefe de posto de Galomaro.

Aguardava os restos da matança do vitelo que estava a decorrer e defecou em cima do meu ombro e fardamento.

A farda depois de lavada ainda cheirou a fezes durante uns dias.

Os dois ajudantes do fula João Baker matavam os bovinos. O Baker comerciava a carne com o vagomestre.

Na Foz do Douro, não temos jagudis mas temos... gaivotas a grasnar, infestando praias, ruas, telhados, jardins e contentores do lixo.

No Inverno por vezes em bando atacam as pessoas que passeiam nas praias. Os turistas adoram-nas, mas nas esplanadas roubam a comida dos mais incautos.

É uma ave bonita, mas causa prejuízos aos habitantes ribeirinhos. Volta e meia também brindam os passantes (e os carros) com os seus cáusticos dejetos.

Presentemente o adágio “Gaivotas em terra, tempestade no mar” está ultrapassado. Vê-se mais gaivotas em terra do que no mar.

Enfim, recordar é viver!

(Seleção, adaptaçáo, revisão / fixação de texto, título: LG)

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Nota do editor LG:

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28231: Humor de caserna (286): Os frangos do vagomestre: uma BD inspirada num microconto do Alberto Branquinho (2013)


Os Frangos do Vagomestre

Uma BD inspirada num microconto
 do Alberto Branquinho (2013)



... Que o essencial dos reabastectmentos vinha de barco ou em coluna logística, uma ou duas vezes por mês, conforme a estação do ano ou as necessidades!









... Oh!, homem, come e cala, que amanhã podes perder o  apetite!







... E quem disse que não havia já "chefs" de cozinha,  arrojados, criativos, precursores da comida gourmet, capazes de apresentar pratos  exóticos, fazendo das tripas coração e valendo-se dos recursos locais (como o lagarto, o jagudi, o macaco-cão, a píton africana / irã-cego,  ou  o leitão do balanta passado a ferro pelo Unimog, etc.) para fazer um arroz especial... com mafé ?!


... Vida dura, a do mato !...

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto : Adapt. de Alberto Branquinho  (2013)

Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Eu achei o conto "magistral" (*)... Mas, confesso, esperava mais comentários ao poste... O desmérito é do editor, não do autor... De facto, em vez de "Arroz especial... com mafé" (e não má-fé!) , eu devia ter optado por um título mais provocatório... "Hoje há arroz de jagudi  no forno" ou outro título de fazer crescer a água da boca dos camaradas de Baião e do Marco de Canaveses onde se faz o melhor "arroz de anho no forno" ... Em Portugal & arredores.

Recorde-se, para quem leu, que a história começa com um princípio (ou um ameaço) de "levantamento de rancho"... 

Isto passa-se na Guiné, durante a guerra colonial, por volta de 1968, ao tempo em que o valente  Alberto Branquinho andava lá  com os seus bravos da companhia de caçadores  (de "turras", presume-se, não era de leões nem de elefantes). 

Uma solução à "chico esperto", expedita, do vagomestre e do cozinheiro, para contornar a falta de víveres (e nomeadamente de carne...) e assim enganar toda a gente, a começar pelo capitão, foi recorrer aos pobres dos "abutres-de-capuz" (vulgo, "jagudis") que rondavam o quartel e se alimentavam nas nossas lixeiras... 

Ora, toda a gente sabia que o repugnante e feio jagudi era um "animal sagrado".. E desde 1955, que era proibida a sua caça... Eram os "almeidas" da Guiné, comiam os bichos mortos, limpavam as carcaças e, quando havia festa nas tabancas (nomeadamente, o "tchoro", por morte de alguém importante), abatiam-se vacas, não faltavam vísceras para os "almeidas" se banquetearem...

Não tenho que lisonjear o autor, como faz a menina da IA que é para a gente ficar "agarrados a ela"... De facto, a IA é uma nova adição (=comportamento aditivo, vício, dependência), a par do sexo, da pornografia, da droga, da comida, dos ansiolíticos,  do trabalho, do ginásio, do jogo ("gaming"), do telemóvel, das redes sociais (como o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné), das viagens da Abreu Lopes,  etc..  

O Alberto Branquinho já tem os seus créditos firmados. É uma grande microcontista, a par do "alfero Cabral", de saudosa memória, e de mais uns  talentos literários que se sentam à sombra do nosso poilão (e que não vamos listar para não criar suscetibilidades). 

A ideia do autor  é excelente e a execução resulta. Tem um daqueles ingredientes que fazem com que as histórias de caserna não morram, como as anedotas, que logo se esquem, na hora seguinte: é plausível, é absurda e, no fim, toda a gente diz "isto podia perfeitamente ter acontecido na Guiné do meu tempo".

Porque é que o texto  não  suscitou  comentários imediatos ? Esta é a questão que me intriga... Se o conto é "magistral", porque é que não houve... comentários, e muito menos "magistrais" ?

Reconheço que o título não provoca "pica", não  tem "sex...apelo" (do inglês, "sexappeal"). "Arroz especial... com mafé" é um daqueles títulos prosaicos, sensaborões, chatos... E depois o leitor, desprevenido, confunde "mafé" com "má-fé"... Ora, quem vai "comer" um "arroz especial... má-fé", desconfiando, de pé-atrás ?!

De facto, com um tal título (da responsabilidade do editor...) o conto do Alberto Branquinho só pode despertar curiosidade  em quem sabe o que é o "mafé" e se interessa pela culinária da Guiné-Bissau. 

Para muitos leitores, o poste terá sido visto apenas como mais uma história gastronómica da Guiné-Bissau,  mais um poste da série do "Comes & bebes: no céu não disto: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande", com que tapamos às vezes alguns buracos, sobretudo nas férias de verão em que o pessoal vai a águas e tem menos tempo para coloborar no blogue...

O verdadeiro motor narrativo está lá, entretanto,  escondido já na última parte do conto: "...afinal os frangos do vagomestre eram... jagudis."

É aí que o conto explode. O leitor percorre duas ou três páginas sem imaginar o desfecho. É uma boa surpresa literária. Mas o título, de facto,  não convida ninguém a entrar. 

Vamos experimentar agora com outro: "Os frangos do vagomestre"... mas em em banda desenhada.(**)

O autor merece uma boa BD. Esta "estória cabraliana" (neste caso,"branquiana" ?!...) merece uma boa BD. Os nossos leitores também o merecem. 

Digam-nos depois da vossa justiça. Leiam e comentam. À vontade. E também podem rir, se for caso disso. E se vos apetecer rir. Claro, também podem dizer que não tem graça nenhuma (a BD, não o conto)...

No final, não deixamos de fazer uma ressalva: não temos nenhum "parti-pris", sentimento ou ressentimento contra os nossos vagomestres e cozinheiros que nos mataram a fome durante os dois anos de Guiné. Este conto é também uma homenagem a eles. (Ao pessoal da Intendência, fica reservada a vez para outra altura.) (**)
_______________

Notas do editor LG:

(*) 28 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)

terça-feira, 28 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)


    Hoje há "Arroz especial... com mafé", anunciou o vagomestre


1. Não há ninguém como o Beja Santos para, de uma penada só , abrir um livro na página "x" e apresentá-lo ao leitor numa bandeja apetecível, como se tratasse do melhor manjar do mundo.  

Leitor voraz, compulsivo, desde criança, já deve ter lido centenas e centenas de milhares de páginas na sua vida. Não conheço ninguém como ele: bibliófilo e bibliófago... Metaforicamente falando, ele adora e devora livros... Confesso, nunca o vi beber (nem comer),  o que era raro entre a milicianagem de Bambadinca...

Tome-se como exemplo este excerto da sua nota de leitura  do livro de contos do Alberto Branquinho, ("Cambança Final", 2013), poste P12248 (*). 

Num livro de 222 páginas (na prática 160, com as folhas em branco) com cerca de  6 dezenas de contos ou microcontos (2 páginas e meia, em média, cada um), ele é um autêntico "garimpeiro", capaz de descobrir, com o seu olho clínico de lince, uma preciosidade, uma pérola, uma gema, uma obra-prima:

(...) "O confrade Alberto Branquinho reservou-me uma das mais agradáveis surpresas da primeira metade de 2013: 'Cambança Final', Edição Vírgula, deste ano, é mais do que um livro da maturidade da escrita, revela uma grande mestria na linha do conto e no saber dedilhar as teclas dos sentimentos humanos no contexto de uma guerra.

E aquela guerra foi a nossa, estamos todos lá, do atirador ao condutor, do cripto ao enfermeiro. (...)

Nada de pieguices quando há explosões onde os corpos se desfazem, até porque a natureza se encarrega de limpar a destruição, como escreve magistralmente no conto 'Despojos':

'Ia recomeçar a andar e olhou para o chão. Viu, junto ao tronco de uma árvore, três ou quatro formigas grandes, pretas que, com as pinças da cabeça cravadas, tentavam arrastar um pedaço de carne, ainda com um farrapo de farda camuflada agarrado.' (...)

Mata virgem e lama, água e o céu estrelado, chuvas diluvianas, frases em crioulo e a propósito, a linguagem de caserna na justa conta, o caminhar noturno, a solidão mesmo quando temos muita gente à volta. E uma enorme capacidade de trazer a pilhéria e o tom zombeteiro que obriga a uma boa gargalhada. (...).

Não é para todos esta capacidade de relevar o pícaro quando se marcha a arrastar o corpo, no auge do sofrimento. É um dom saber descrever um acontecimento corrente para um soldado branco que assusta o africano, tomando-o por feitiçaria, anda por ali o abismo cultural. 

Porque Alberto Branquinho, como na montanha russa, traça uma atmosfera de pânico, põe ali todos os traços da brutalidade e finaliza com um toque de facécia. 

O plausível diverte e comove. O furriel Melo vai tomar banho, avista uma cobra, foge espavorido a tapar as pudendas, não para de gritar e alguém comenta: 'Acho que a gaja deu uma dentada na picha do furriel cripto'.

O conto 'Arroz Especial'  é a profundidade do insólito, com nojo toda aquela gente vai descobrir que andou a comer (...) o impensável .

 O vagomestre e o cozinheiro têm uma enorme densidade que atravessa estes contos, são mal vistos, são detestados e, no entanto, são convocados para o prodígio de alimentar na mais extrema das monotonias, mesmo quando a cozinha é periodicamente escavacada e o brio profissional sobrepõe-se à virtude militar (...)".

Este conto, por ser de  antologia, merece ser partilhado e chegar a um público mais vasto, até por que a edição é já de 2013, e depois disso o autor já publicou mais outros oito livros, sendo o último uma espécie de autoantologia, "Inventarium Vitae" (**),  onde recupera alguns dos melhores contos do "Cambança Final", mas não este, o "Arroz Especial"...  

Alterámos ligeiramente o título, para efeitos de publicação nesta série ("Humor de Caserna") (***) e neste poste:

Arroz especial... com mafé

por Alberto Branquinho


Fonte: Excertos de Alberto Branquinho, "Cambança Final (Lisboa: Vírgula, 2013, pp.  85-89) (Com a devida vénia)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 4 de novembro de 20130 > Guiné 63/74 - P12248: Notas de leitura (531): "Cambança Final", contos de Alberto Branquinho (Mário Beja Santos)

(**) Vd. poste de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

(***) Último poste da série > 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

terça-feira, 9 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28086: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (52): Favas com peixe frito à moda de Monchique (comidas numa tasca de Portimão, em 26/5/2026)


Favas  com peixe frito à moda de Monchique


Favas suadas à moda da "Chef" Alice


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Ele há sabores que estão a desaparecer, irremediavlemente, da nossa mesa, do nosso palato, da nossa gastronomia...

Conquilhas de xarém, carapaus alimados, arroz de lingueirão, ameijoas à Bulhão Pato, lapas grelhadas,  berbigáo, bruxas (Scyllarus arctus), cavacos, lagosta, ouriços do mar, etc. (Costumo dizer que ainda sou do tempo em que a lagosta se  vendia na praia a sete e quinhentos e o tamboril se deitava fora.)

A "ameijoa boa da Ria Formosa" estava há dias a 38 euros o quilo no mercado municipal de Portimão (e a 100 euros o quilo no restaurante). A comida é cada vez mais "internacional" e está pela hora da morte, para os "tugas". 

Confesso que tenho saudades do xarém, do arroz de lingueirão, dos carapaus alimados, do charro frito. " Comida dos pobres, das tascas", dizem agora os "chefs"... 

Em contrapartida, fui descobrir, no passado dia 26 de maio, em Portimão, numa tasca anexa ao mercado,  uma coisa que não comia há 70 anos!... Imaginem, favas cozidas (e estas eram à moda de Monchique). 

Nós éramos 4, e a senhora disse-nos que só tinha 2 doses. Lá no sentámos, enquanto frazíamos horas para ir visitar o museu de Portimão, que só abre às 14h30. E esperámos pelo almocinho, convencidos que ali também se fazia o milagre dos pães. 

Não havia carapaus que chegassem, mas a senhora foi fritar umas postas de pescada e multiplicou as favas... E vinho, fresquinho, branco... só tem frisante  ? Que raio de moda!...Mas, não há drama, vai-se ao vizinho do lado pedir um jarrinho... E lá foi a empregada, brasileira. (O que será do Algarve sem imigrantes ?!... Uma desventura!).

Bom, as tradicionais favas à moda da serra algarvia são primeiro cozidas e depois apuradas num molho à base da gordura dos enchidos fritos... Não são bem as da minha terra, Lourinhã, terra de boas favas... 

Na minha terra, há 70 anos, havia dois tipos de pratos de favas, no tempo delas, na primavera: as cozidas e as suadas...

Lá em casa, em que a cozinheira era mesmo "chef" (desde ", menina e moça, daquelas que iam servir para casa dos "senhores de Lisboa" e formar-se na universidade da vida), comiam-se as favas cozidas com charro frito, temperadas com bom azeite (!)  (charros daqueles grandes, de Peniche, dois pares  a vinte e cinco "ch'tões", no verão de todas as farturas,  quando eu andava na escola). 

O meu pai, que era mais peixeiro do que carneiro, preferias-as cozidas, com azeite e vinagre, com peixe frito (charro, cortao às postinhas) e um bom copo de tinto. Eu sempre fui mais  fã das favas suadas...com entrecosta e chouriço.

Ficam aqui estas sugestões para os vagomestres da Tabanca Grande. Mas, quanto a favas, temos  que esperar por elas, no próximo ano. Que as congeladas, não  devem  ter graça. Nem mesmo no céu, onde a graça é plena. 

Todos os anos pela primavera como 3 ou 4 pratadas de favas. E, se forem pequenas e tenrinhas, é com casca e tudo, Eu, pecador, me confesso...E nunca me ouvirão dizer o provérbio: "Favas me fartam, favas me matam"... 

Durante dois anos não as comi na Guiné, nem frescas nem congeladas... Lá, por certo, o nosso vagomestre, se as tivesse, nos consolaria: é que "a fome torna doces as favas"...

domingo, 15 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27823: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (50): Não há sável ? Come-se lúcio...




 Lúcio (Esox lucius), peixe do rio, frito,  com arroz de ervilhas e cenoura... Para matar saudades do sável que este ano "cá tem", diz a "chef" Alice. 

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Há meses, pelo menos desde as vindimas (*),  que os vagomestres da Tabanca Grande não dão notícías, o mesmo é dizer, sinais de vida. Com todos os inconvenientes que isso traz para o moral da tropa.

Agora que é a época do sável e da lampreia,  ainda pior. Nem sável nem lampreia nem comes & bebes...
A lampreia há anos que  não a aprovamos, está mais cara que a lagosta... E o sável, este ano, teima em não aparecer na banca da nossa peixeira. O melhor período para a pesca e consumo seria agora, mas sável nem vê-lo.

Talvez na sexta santa, dia 3 de abril deste ano, a gente ainda apanhe algum sável retardatário no Douro Bar Petiscaria, na Barragem do Carrapatelo, São Cristóvão da Nogueira, Cinfães. Sem sável, não há Quaresma nem Páscoa, diz a "chef" Alice, que é do tempo em que o sável e a lampreia iam à mesa dos pobres.

Até lá, e para matar saudades, frita-se o lúcio, 
Lúcio (Esox lucius).
Fonte: cortesia da Wikipedia
que é um predador voraz que foi desgraçadamente
introduzido nos nossos rios e barragens, vindo da América e de Franaça, para grande gáudio dos pescadores desportivos e desespero dos ambientalistas.. 

Pode chegar a 1 e tal metro e aos 20/30 quilos (e, pior, viver até aos 30 anos!)... A "carne" é saborosíssima 
e, frito,  tem poucas espinhas. Temo-lo encontrado na peixeiria do Auchan Alfragide, em geral exemplares com 2 quilos e tal / 3 quilos, e a 6 euros o quilo. 

Não sei qual a sua proveniência mas o mais provável é ser do Rio Guadiana ou afluentes.

O segredo é saber cortá-lo, tal como o sável, em postas finas. E depois saber fritá-lo. Ainda não está nos hábitos gastronómicos dos portugueses. 

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Nota do editor LG:

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69);

1. O poeta, de origem açoriana, Nuno Dempster, nome literário de Manuel Gusmão Rodrigues, morreu na sexta-feira passada, dia 2 de janeiro de 2026,  na sua casa em Viseu. A notícia dada foi comunicação social. (*)

O Nuno Dempster era membro da nossa Tabanca Grande desde 9/2/2011 (**). Tinha página no Facebook. Era também amigo do Facebook da Tabanca Grande.

Nasceu em 1944, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel Açores (donde era originária a família paterna, sendo a  família materna de Amarante). 

Foi fur mil SAM, ou seja, vagomestre, da CCAÇ 1792, a companhia dos lenços azuis, que andou por Farim, Saliquinhedim/K3, a norte, mas também, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, a sul... 

Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Obras mais recentes do autor, publicadas pela Companhia das Ilhas, sediada nas Lajes do Pico,  
  • “Seis histórias paralelas” (contos, 2023), 
  • “Limbo, inferno e paraíso” (poesia, 2022), 
  • “Variações da perda” (poesia, 2020), 
  • “Há rios que não desaguam a jusante” (romance, 2018) 
  • e “Na luz inclinada” (poesia, 2014).

Em 2021, Nuno Dempster organizou, com Anabela Almeida, a antologia de poemas do seu avô, Armando Côrtes-Rodrigues (1881-1971), “Um poeta rodeado de mar” (Companhia das Ihas,  2021).

Além de poesia, Nuno Dempster cultivou o conto e o romance. Outras obras do escritor:
  • “Uma paisagem na Web” (poesia, editado pela & etc, 2013), 
  • “Elogia de Cronos” (poesia, Artefacto Edições, 2012), 
  • “O papel de prata, o reflexo e outros contos pelo meio” (Companhia das Ilhas, 2012), 
  • “Pedro e Inês. Dolce Stil Nuovo” (poesia, Edições Sempre-em-Pé, 2011),
  •  “K3” (poesia em que faz uma incursão no tema da guerra colonial, & etc, 2011);
  • “Uma flor de chuva (poesia, Escola Portuguesa de Moçambique, Maputo, 2011),
  •  “Londres” (poesia, & etc, 2010) 
  • e “Dispersão – Poesia reunida” (Edições sempre-em-pé, 2008) 
Tinha também um blogue, que mantevce de 2007 a 2021, A Esquerda da Vírgula, dedicada aos livros, aos seus e aos dos outros.

Vivia em Viseu (cidade, onde vivo exilado por força dos meus erros e suas consequências", escreveu ele algures, no seu blogue).


Capa do livro com o longo poema K3 (& Etc., 2011, 64 pp.) (Autoria da capa: Maria João Lopes Fernandes)

Sinopse: Nuno Dempster (autor de "Londres, ed. & etc) revisita o Horror. Felizmente para elas, as jovens gerações (também de poetas) desconhecem esse Horror que foi, para quem o sofreu nos ossos e no que houvesse de alma, a Guerra Colonial. Algures na Guiné e algures num quartel subterrâneo: o K 3. Nossa palavra: não conhecemos, na literatura sobre o tema, tão fundo, tão magistral testemunho desse Horror. Elegia, catarse, contrição, K3 combate o esquecimento. (Fonte: Wook)



Dedicatória do autor à nossa Tabanca Grande:

 "Para o Luís Graça & Camaradas da Guiné, todos meus companheiros nesta guerra que em muitos ainda está por digerir, com o afecto e a camaradagem do Nuno Dempster. 3/2/2011. Na Guiné, de [1967-1969,], no K3, Mampatá, Colibuía e Quebo (Aldeia Formosa), por esta ordem".


2.  Comentário do editor LG:

Morreu mais um poeta da nossa terra. Morreu mais um canarada nosso. Morreu mais um grão-tabanqueiro. É uma tripla perda. Os meus votos de pesar para a família e os amigos mais íntimos, sem esquecer a companhia dos lenços azuis, a CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (1967/69).

Não conheci pessoalmente o Nuno Dempster. Trocámos apenas alguns emails. Li com grande emoção, e de um só fôlego, o seu extenso poema K3. Ele teve a gentileza de mandar uma cópia, autografada, do livro, com dedicatória a todos os camaradas da Guiné.

A CCAÇ 1792 tem 14 referências no no blogue. E o Nuno apenas meia dúzia. A companhia dos lenços azuis andou por Farim, Saliquinhedim/K3, a norte, mas também, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, a sul... 

Pertencia ao BCAÇ 1933 (Nova Lamego, Bissau, S. Domingos). Teve  3 comandantes:  
  • Cap Mil Art Antóno Manuel Conceição Henriques (que ficaria sem as pernas numa mina A/C); 
  • Cap Art Ricardo António Tavares Antunes Rei, 
  • Cap Inf Rui Manuel Gomes Mendonça. 
A companhia foi mobilizada pelo RI 15, tendo partido para a Guiné em 28 de Outubro de 1967 e regressado à Metrópole em 20/8/1969.

Sobre estes comandantes, o Nuno Demspster escreveu o seguinte, em mails que trocámos em 2011:

(...) Recordei, no link que enviaste, o capitão Rei, de carreira, que teve a ideia dos lenços [azuis] e que substituiu o capitão miliciano, cujo nome já não recordo, um homem lúcido, vítima de um fornilho, na estrada de Farim, uma das passagens mais intensas do poema [Cap Mil Art António Manuel Conceição Henriques]. (***)

Isso sucedeu dentro dos seis primeiros meses do início, quando estávamos no K3. Até sairmos de lá, o aquartelamento ficou entregue ao alferes miliciano, segundo comandante, bem como em Mampatá e Colibuia, penso. O Cap [Art Ricardo António Tavares Antunes] Rei chegou já no tempo de Quebo. (...)

O Nuno Dempters, ou melhor, o Manuel Gusmão Rodrigues era engenheiro técnico agrícola (trabalhou em cooperativas) e empresário. 
 
3. Comentário de Nuno Dempster, quinta, 1/07/2010, 21:51, ao poste P4782, do Cherno Baldé (****);

(...) "A vontade de suplantar o outro, o dominador, e de ocupar o seu lugar mas no sentido de que tudo continue na mesma, apenas mudando a sua posição de baixo para cima, afastando para isso o outro, o estranho que o impedia de usufruir de privilégios e de ser o epicentro das atenções das imaculadas bajudas."

A propósito do escrito acima, para Cherno Baldé, de quem estou a ler aqui, interessadíssimo, as suas crónicas, um trecho de um muito longo poema que acabei há dois dias e que se publicará como livro, julgo, em 2011. O poema intitula-se K3, onde em 1968 estive enterrado.

(...) Não fazemos história,
a História não regista
a sina dos anti-heróis
que pululam em toda a parte,

o mundo sublevado em armas,
o mundo velho que noutro se transforma,

mas a essência do mundo
não é tornar-se novo,
é afinar o modo de fazer
que o novo permaneça antigo,

anti-heróis
que não chegam a ser anti-heróis,

são uma chapa com número
no fio ao peito, à prova de fogo,
o corpo esturricado,
a medalha de Fátima, fundida,

mas não o número,
útil aos funerais anónimos
dos que «morreram pela pátria»,
dizia-se em Lisboa.(...)


Nuno Dempster
quinta-feira, 1 de julho de 2010 às 21:51:35 WEST

(***) Vd. poste de 12 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9028: Blogpoesia (167): K3, de Nuno Dempster: excerto: "Capitão, meu capitão, não nos deixes sós!"