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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27900: Historiografia da presença portuguesa em África (524): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1966 (82) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Recordo-me quando cheguei à Guiné em 1968 ainda se falava numa explosão lá para os lados de Farim, uma barbaridade, ato insólito praticado por um grupo do PAIGC, não era prática corrente na guerrilha guineense lançar explosivos no meio de uma festa. Segundo os louvores dados pelo Governador Schulz, os agentes da PIDE que ali se deslocaram contaram com a colaboração da tropa local. Perguntará o leitor porque é que louvores desta natureza vêm no Boletim Oficial e não nos boletins das Forças Armadas. Acontece que a PIDE não estava enquadrada nas Forças Armadas, é a razão pela qual o Boletim Oficial regista a chegada e partida dos agentes da Polícia Política. O Governo central cede dezenas de milhões para financiar os planos de desenvolvimento. Fala-se neste ano de 1966 no contrato de concessão para a pesquisa e exploração de hidrocarbonetos na Província da Guiné, é esperável que tenhamos acesso ao desfecho desta missão. Criam-se novos grupos desportivos, caso da ANCAR e da SACOR, cria-se uma cooperativa de pesca em Bolama. E foi criado o Batalhão de Caçadores-Paraquedistas n.º 12, na dependência do Comando da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1966 (82)

Mário Beja Santos

O que mais me impressiona na leitura do Boletim Oficial destes anos tumultuosos é a tentativa de uma grande discrição, a Guiné vive em apuros, mas teima-se em silenciar os factos, nesta altura a Província vive uma tempestade demográfica, mas quem lê o Boletim Oficial precisa de ler nas entrelinhas os acontecimentos.

Talvez para benefício do leitor, dá-se o rol dos acontecimentos e fazem-se as citações necessárias. Logo no Boletim Oficial n.º 1, de 3 de janeiro, o Governador Schulz dá louvores a dois agentes da PIDE, aqui sim, convém transcrever logo:
“O atentado terrorista, levado a cabo em 1 do passado mês de novembro, na tabanca de Morocunda, em Farim, por elementos então desconhecidos, motivou a deslocação de uma brigada da PIDE àquela vila, a fim de se proceder às averiguações necessárias para a descoberta dos criminosos.
Foram árduas e extremamente difíceis as investigações, não só pela falta de indícios, como também pelas massas autóctones, em estado de choque devido à explosão e seus efeitos, se recusara a prestar declaração, o estar convencida que o atentado fora perpetrado por brancos.
Só houve a suavizar as dificuldades criadas por meio tão hostil, a franca e leal colaboração dada pelas tropas locais, a cujo apoio moral e material se deve, em grande parte, o êxito obtido.

Foram estas que nos cederam os locais para concentrar os detidos por suspeita e as dependências para os interrogatórios, alimentaram os presos e ainda facilitaram a nossa tarefa muito contribuindo para a descoberta dos criminosos.
A atuação do pessoal desta Polícia, também merece especial relevo dado que foi graças ao seu inexcedível zelo, competência, espírito de sacrifício e vontade de bem servir, que se descobriram os autores do crime e uma vasta e bem organizada rede de elementos do PAIGC que tudo prepararam e mais projetavam fazer.”

Em sequência, foram louvados um chefe de Brigada e quatro agentes de 2.ª classe, que vêm perfeitamente identificados no Boletim Oficial.

No Boletim Oficial n.º 2, de 8 de janeiro, publica-se a Portaria n.º 1767, que estipula que durante o ano de 1966 é autorizada a isenção de direitos na importação de arroz. Em termos nacionais, o Governo decidira melhorar os vencimentos dos militares do Exército, Armada e Força Aérea. Dá-se igualmente reforço de verbas inscritas na tabela de despesa do orçamento privativo das forças terrestes ultramarinas em vigor na Província da Guiné. Ficamos a saber que pelo Decreto-Lei n.º 46826 foi instituído o Serviço Postal Militar; também pelo Decreto n.º 46796, do Ministério do Ultramar, é aprovada a renovação do contrato para pesquisa e exploração com a Esso Exploration Guiné Inc., celebra-se um novo contrato que consta no Boletim Oficial n.º 6, de 5 de fevereiro.

Igualmente merece destaque o contrato de empréstimo à Província Ultramarina da Guiné para a execução de empreendimentos previstos no Plano Intercalar de Fomento. Vale a pena dar conta de como se previa a aplicação destes recursos financeiros oriundos de uma receita extraordinária, provenientes do empréstimo a conceder pela metrópole: conhecimento científico do território; investigação científica; estudos de base; agricultura, silvicultura e pecuária; pesca; energia; indústria; transportes e comunicações; turismo; habitação e melhoramentos locais; promoção social. Tudo somado: 40.000.000$00.

Voltando ao contrato de concessão com a Esso, talvez valha a pena dizer que a concessão tinha por objeto o direito de pesquisar e explorar, à custa do concessionário, em regime de exclusivo, todos e quaisquer jazigos de hidrocarbonetos sólidos, líquidos e gasosos, incluindo petróleo, nafta, ozoquerite, gases naturais e asfalto, e ainda enxofre, hélio, anidrido carbónico e substâncias salinas; obviamente que se define a área de concessão que teria um período inicial de cinco anos.

No mês de abril, conforme consta no Boletim Oficial n.º 17, de 23 de abril, constitui-se a Cooperativa de Pesca de Bolama, diz-se mesmo no preâmbulo do despacho do Governador:
“É de todos conhecida a enorme riqueza ictiológica das águas interiores e fluviais da Província da Guiné. Dos cursos fluviais de maior riqueza ictiológica destaca-se o rio Grande de Buba em cujo troço designado por Ria de Buba, entre a foz do rio Lenguete e a ponta Nalu, abundam várias espécies ictiológicas comestíveis, tais como a bicuda, o barbo, a taínha, a corvina, etc.
Dos portos nas proximidades da Ria de Buba o porto de Bolama é aquele que oferece, sem sombra de dúvida, melhores condições para enxurrar as embarcações com mais recursos do que se refere à possibilidade de uma regular manutenção tanto das embarcações propriamente ditas como dos respetivos equipamentos propulsores.”

Estabelece-se a natureza, os fins e sede da sociedade.

No Boletim Oficial n.º 19, de 7 de maio, pela Portaria n.º 1803, aprovam-se os estatutos do Grupo Desportivo, Recreativo e Cultural ANCAR. Ficamos a saber que foi fundado pelos empregados, assalariados e simpatizantes da Firma António Augusto de Carvalho, a coletividade tem a sua sede em Bissau e as suas finalidades são, para além das modalidades desportivas, a organização de cursos de ginástica, excursões, criação de uma biblioteca técnica, realização de palestras, conferências e exposições, o resto dos estatutos mostra a afinidade com a estrutura de todos os outros.

Disse-se inicialmente que se procura o máximo de discrição quanto às dificuldades económico-financeiras, elas vão sendo desveladas pingo a pingo.

No Boletim Oficial n.º 30, de 23 de julho, a Portaria n.º 22107 determina que o Governo da Província Ultramarina da Guiné abra créditos destinados a suportar determinados encargos provenientes de objetivos previstos no programa de financiamento do Plano Intercalar de Fomento, e destacam-se as rúbricas envolvidas: regularização do abastecimento interno do pescado; portos e navegação; educação; meteorologia; fomento dos recurso agro-silvo-pastoris; aproveitamento dos meios de obtenção de água doce; transportes rodoviários, aéreos e aeropostais, etc. O Boletim Oficial n.º 33, de 13 de agosto, pelo Decreto n.º 47132 autoriza o Governo da Província a contrair no Banco Nacional Ultramarino, um empréstimo, em moeda local, até ao montante de 12 milhões, destinado a ser aplicado em obras inscritas em planos de fomento.

Já estamos em setembro, no Boletim Oficial n.º 36, de 13 de setembro, são aprovados os estatutos do Grupo Desportivo e Recreativo do Pessoal da SACOR.

No Boletim Oficial n.º 45, de 5 de novembro, temos a Portaria n.º 22260, da Presidência do Conselho e Ministério do Ultramar é constituído o Batalhão de Caçadores-Paraquedistas n.º 12. No Boletim Oficial n.º 48, de 26 de novembro, pela Portaria n.º 1849 voltamos à candente questão do reforço de verbas, será assim até ao fim do ano.

Procurando refletir conjuntamente com o leitor, subjaz a grande questão dos meios económico-financeiros que foram postos por Lisboa à gestão do Governador Schulz, é bem percetível de toda esta avalanche de reforço de verbas de que a economia guineense ainda não está exangue, mas deu-se uma reviravolta nas receitas fiscais, nas taxas aduaneiras, lê-se permanentemente no Boletim Oficial que há nomeações, e da leitura que estou a fazer do Boletim Oficial de 1967 já faltam candidatos para os postos administrativos, a dissuasão é dado pelo alastramento da guerra de guerrilhas. Não deixo de insistir que a dilucidação de todo este período da governação de Schulz aguarda uma tese de doutoramento.

General Arnaldo Schulz
O Subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino, Rui Patrício, visita a Guiné em abril
Felupe em traje festivo
Tecelão Manjaco
Dança Manjaca
Rapariga Manjaca tatuada
Tocadores Fulas

Estas cinco imagens são retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1966

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27879: Historiografia da presença portuguesa em África (523): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1965 (81) (Mário Beja Santos)

domingo, 6 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P26988: Facebook...ando (85): João de Melo, ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351 (1972/74): um "Tigre de Cumbijã", de corpo e alma - Parte IV: Buba e o rio Grande de Buba no seu esplendor




Foto nº 1, 1A, 1B





Foto nº 2, 2A, 2B, 2C




Foto nº 3, 3A, 3B



Foto nº 4, 4A


Foto nº 5

Guiné-Bissau > Re3gião de Quínara > Buba e rio Grande de Biuba > Maio de 2025 > Fotos do álbum do João Melo (com a devida autorização do autor e vénia do editor LG...)

Fotos (e legendas): © João de Melo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74): 

(i)  é profissional de seguros, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha; 

(ii) viaja regularmente, desde 2017,  para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade" (em que distribui material pelas escolas de Cumbijã, e apoia também, mais recentemente,  o clube de futebol local); 

(iii) regressou há pouco tempo da sua viagem deste ano de 2025; 

(iv) fez uma visita demorada à Amura e ao atual Museu Militar;

 (v) tem página no Facebook (João Reis Melo);

 (vi) tem 22 referências no nosso blogue para o qual entrou em 1 de março de 2009.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26905: Facebook...ando (84): os acontecimentos de Bissássema, em 3 de fevereiro de 1968, visto pelo oficial de dia em Tite, alf mil Augusto Antunes, cmdt do Pel Rec Daimler 1131 (Tite, 1966/68) (Joaquim Caldeira, grão-tabanqueiro nº 905) 

Vd. postes recentes do João Melo:

7 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26895: Facebook...ando (83): João de Melo, ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351 (1972/74): um "Tigre de Cumbijã", de corpo e alma - Parte III: A Bissau Velho a renascer das ruinas dos últimos 50 anos...

5 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26886: Facebook...ando (82): João de Melo, ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351 (1972/74): um "Tigre de Cumbijã", de corpo e alma - Parte II: Bissau Velho, a ponte-cais

4 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26879: Facebook...ando (81): João de Melo, ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351 (1972/74): um "Tigre de Cumbijã", de corpo e alma - Parte I: De volta a Bissau Velho, agora de cara lavada

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26158: Notas de leitura (1744): O Arquivo Histórico Ultramarino em contraponto ao Boletim Official, até ao virar do século (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Outubro de 2024:

Queridos amigos,
Confrontado com esta nova linguagem do Boletim Oficial da Província da Guiné que passou a ser omisso quanto à história política, económica e social, reduzindo-se à rotina burocrática, vi toda a vantagem em revisitar o acervo monumental organizado por Armando Tavares da Silva na sua gigantesca obra A Presença Portuguesa na Guiné, 1878-1926. No texto de hoje, são referidos os dois primeiros governadores, Agostinho Coelho e Pedro Ignacio de Gouveia, tiveram que apagar incêndios, sobretudo à volta de Geba e na região do Forreá, são notórios os lugares onde ainda não há presença portuguesa, as hostilidades sucedem-se, exigindo expedições, punições, perdões e tratados de paz, muitas destas iniciativas são pura fantasia, os insubmissos voltarão à carga. A França tudo vai fazendo tudo o que pode para pôr os Fulas revoltosos, aquela região sul ainda é para ela um grande atrativo, para juntar ao Futa-Djalon. Aqui fica o registo de duas governações dificílimas, há pouquíssimo dinheiro, os meios navais são frágeis e até há revoltas no Batalhão de Caçadores nº1, com os oficiais punidos.

Um abraço do
Mário



O Arquivo Histórico Ultramarino em contraponto ao Boletim Official, até ao virar do século (2)

Mário Beja Santos

Estamos agora no Governo de Agostinho Coelho, ele é o 1.º Governador da Guiné como província independente de Cabo Verde, desembarca em Bolama a 20 de abril de 1879. Começa por mexer no dispositivo militar, constituiu o Conselho do Governo, a província da Guiné é dividida em quatro concelhos: Bolama, Bissau, Cacheu e Bolola, Bissau compreende a vila de S. José e o presídio de Geba, Cacheu inclui, além da praça deste nome, os presídios de Farim e Ziguinchor e as povoações de Mata, Bolor enquanto Bolola inclui Sta. Cruz de Buba e todos os mais pontos que venham a ocupar-se no Rio Grande, era esta a divisão administrativa da Guiné autónoma. É claro que havia porções do território ainda não ocupadas, outros com presença duvidosa, e esta situação irá perdurar por algumas dezenas de anos. A divisão administrativa levantou críticas e o Governador seguinte, Pedro Ignacio de Gouveia, fará alterações.

Melhorou o equipamento naval, havia a canhoneira Rio Lima, vai chegar o vapor Guiné, o Rio Lima regressará a Cabo Verde. O coronel Agostinho Coelho tinha à sua espera problemas que requeriam inadiável solução, era indispensável garantir um quadro de normalidade em Buba, os Futa-Fulas impunham tributos aos negociantes. O Governador procurou fazer tratados com régulos, havia pretensões territoriais francesas no sul, o Governador deixou um documento esclarecedor sobre a situação existente no Rio Grande:
“É uma das zonas mais produtivas da província; as suas margens são povoadas até muito para o interior por tribos laboriosas e agrícolas e convém a todo o custo dar-lhe segurança e proteção. Há nas margens deste rio 53 feitorias portuguesas e francesas, onde vão muitos navios à carga; porém, estes agricultores, têm vivido até hoje expostos aos vexames dos Futas, os quais, em diversas épocas do ano, percorriam os vários estabelecimentos e exigiam, mesmo à mão armada, o tributo a que eles chamam dacha. Cobravam a título de senhores do território um imposto de proximamente 12 mil pesos, e os cofres da província nada lucravam. Como medida de transição, determinei que a importância da dacha fosse paga pelos negociantes por uma comissão composta da autoridade militar de Buba e de três negociantes, competindo a esta comissão reunir, em determinado dia do ano, os principais chefes Fulas e Futas, a quem distribuiria com o simples caráter de presentes, alguns donativos em panos, armas, e bijutarias, uma parte do produto do imposto, entrando na Fazenda o resto, quando o houvesse.” E mais adiante dirá que houve resistência dos negociantes franceses que tentaram atrair os chefes indígenas para ações de descontentamento.

O Governador empregou esforços para a ocupação do Rio Grande, assinou em Buba o tratado de paz com os régulos de Biafadas e com o chefe principal do Forreá. O Governador informa Lisboa que com este tratado terminava uma guerra encarniçada entre etnias. Mas havia continuidade de problemas em Geba, encontravam-se em guerra Fulas-Pretos e Mandigas. Atenda-se a um parágrafo de um documento que Agostinho Coelho mandara ao Governo: “Geba era antigamente o principal centro de resgate do ouro e do marfim na Guiné; hoje do primeiro aparece muito escassa quantidade e do segundo nem a mínima partícula. Dirigi-me a Geba, e foi aí tal o espanto produzido pela aparição de um navio a vapor que muito do interior vieram inúmeras pessoas verificar tão assombroso facto. Esta romaria de visita ao Guiné durou nos 3 dias em que nos conservámos em Geba. Os Fulas-Pretos e Mandigas andavam em guerra, Agostinho Coelho reforçou a defesa de Geba. Dá-se a sublevação do Batalhão de Caçadores n.º 1. O capitão e o ajudante suscitavam comentários injuriosos acerca dos actos de Governo da província. Agostinho Coelho aplicou-lhes dois meses de prisão, houve tentativas de levantamento, o Governador respondeu mandando levantar autos do corpo de delito".

Tavares da Silva destaca a dimensão daquela Guiné com o propósito de degredados, estes, por sua vez, eram sujeitos a um tratamento vexatório, o Governador tomou providências para aquilo que hoje se designa reinserção social. Foram efetuados tratados, houve esforço para a pacificação do Forreá, que culminou com o tratado de paz com os régulos do Forreá e do Futa-Djalon. Mas a questão nevrálgica dava pela delimitação da Guiné, havia a presença estrangeira, particularmente a francesa, fazia-se uma enorme pressão para a ocupação de pontos onde a administração portuguesa não se encontrava estabelecida. O Governador pede a Lisboa recursos financeiros; se havia problemas no sul, surgiram novos problemas fronteiriços envolvendo o Senegal. O que se passava no sul era preocupante, o próprio governante comunica que naquele sul era débil o movimento comercial, muita gente a viver em condições miseráveis, o que inaceitável.

Assim se passaram dois anos é nomeado novo Governador, o 1.º Tenente da Armada Pedro Ignacio de Gouveia, toma posse do cargo em dezembro de 1881, após três semanas de permanência no território, manda uma exposição ao Governo, constata que os povos da região estão longe da civilização, fala sobre o cultivo da mancarra, o principal produto agrícola de exportação, manifesta dúvidas que em pouco tempo se faça a substituição desta cultura de um produto pobre como é a mancarra pela cana sacarina, algodão ou café e cacau. Manifestando a sua preocupação sobre as produções agrícolas da província, escreve:
“A árvore que dá borracha e que aqui é abundante também sofre umas incisões primitivas: se na América ainda não compreendem bem a maneira de obter-lhe o líquido sem prejuízo temporário da árvore, aqui o definhamento é quase completo e o produto que sai é perfeito.” Falando do elemento militar ao Governo, é profundamente crítico: “As autoridades subalternas não são sempre aquelas que coadjuvam melhor o magistrado superior da província: o elemento militar tem o seu lado bom e o seu lado mau. Quando o militar não é ilustrado, e que saiu unicamente da fileira, sem noções razoáveis de administração civil, colocado à frente do concelho, vê nos indivíduos que o rodeiam soldados ou, quanto muito, sargentos. Se este indivíduo, entregue aos próprios recursos naturais, e uns hábitos de vida que destoam completamente da sua educação militar, não é vigário a mando, principia a destemperar e, por fim, desproposita, estabelecendo completamente a desarmonia social.” Pede meios de transportes, recorda a dificuldade em obter o combustível apropriados para os navios a favor.

Ignacio de Gouveia lança uma nova expedição contra os Biafadas de Jabadá, a exposição acontece em janeiro de 1882, está ciente de que deu uma lição aos rebeldes, é feita a paz com o régulo de Jabadá, fará outros tratados de paz, é confrontado com novos atritos com os Fula-Forros de Bakar Quidali. Muitos anos mais tarde, no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Fausto Duarte louva o documento enviado por Pedro Ignacio de Gouveia a Lisboa, dizendo a seu favor: “Espírito lúcido, observador arguto e com uma cultura digna de apreço […] Não faz literatura, nem procura servir-se de artifícios de linguagem para esconder ou mesmo diminuir certas deficiências da administração local. Num período incerto para a vida da província que adquirira a tão almejada autonomia política, mas se via a braços com toda a sorte de dificuldades, era preciso expor ao Governo de Sua Majestade em toda a sua crueza variadíssimas contrariedades que mantinham dentro de certos limites a ação do Governador.”

Mas ainda iremos falar adiante deste Governador, haverá acusações de alegada escravatura, novas desavenças em Geba e Buba, o alferes Marques Geraldes entra em cena, haverá perda do vapor Guiné, operações em Nhacra, a criação de escolas em Bissau e Bolama, dar-se-ão passos na organização administrativa e na ocupação do território.
1902, o Boletim Oficial passa por uma fase burocrática, não há conflitos, não há tensões políticas, é só rotina administrativa
Notícia da chegada de novo governador, em novembro de 1902, o 1º tenente da Armada Judice Biker
Pedro Ignacio de Gouveia
Imagem do que foi o último Palácio do Governador em Bolama

(continua)
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Notas do editor

Vd. post anterior de 8 de novembro de 2024 > 8 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26128: Notas de leitura (1742): O Arquivo Histórico Ultramarino em contraponto ao Boletim Official, até ao virar do século (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 11 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26141: Notas de leitura (1743): À descoberta do passado de África, por Basil Davidson (2) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Guiné 61/74 - P25955: Historiografia da Presença Portuguesa em África (443): a história (atribulada) de Bolama, segundo o Padre J.A.V (1938)


 Guiné-Bissau > Bolama > Junho de 2021 > A estátua de Ulysses Grant, "ao luar"...


Guiné-Bissau > Bolama > Junho de 2021 > A estátua de Ulysses Grant, vista de dia... (A estátua original, em bronze,  desapareceu, há uns largos anos; esta da foto é uma réplica... em cimento)



Guiné-Bissau > Bolama > Junho de 2021 > A estátua de Ulysses Grant > Base: inscrição (parcial):    
[...] Grant,   [...]  dente dos 
Estados Unidos da 
América do Norte justo
árbritro na causa de
Bolama    21 - IV-18970

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






1. O que sabíamos nós sobre a história da Guiné quando nos mandaram para lá "defender a Pátria" ? Nada, e muito menos desta ou daquela cidade ou vila, como Bolama, Bissau, Bafatá, Bambadinca, Nova Lamego, Tite, Buba, Cacheu, Catió, Teixeira Pinto, etc.

Cinquenta anos depois ainda temos direito a saber algo mais... sobre aquela terra a quem pagámos o  devido "imposto de sangue, suor e lãgrimas"... Por exemplo, sobre a história (atribulada) de Bolama: muitos camaradas passaram por lá, fizeram a  IAO e até foram "saudados" pela "rapaziada do PAIGC com uns foguetões 122 mm, felizmente com fraca pontaria...

O nosso colaborador permanente Mário Beja Santos (uma das pessoas que em Portugal mais sabe sobre a historiografia da presença portuguesa na Guiné) tem escrito imenso sobre estes temas, e nomeadamemnte sobre Bolama. 

Isso não nos impede de publicar aqui um apontamento com "uma resenha histórica" de Bolama, escrita por um padre, de que só conhecemos as iniciais (Pe. A. J. D.). O artigo faz parte do nº único do jornal "Sport Lisboa e Bolama", novembro de 1938 (pp. 1, 6 e 7 de 12). É um artigo de divulgação, já com quase 90 anos, escrito por um missionário (que seguramente tinha uma grande amor àquela terra).

Recorde-se que Bolama foi elevada à categoria de cidade, com a República, em 1913. O seu plano urbano também tem a marca da época. E foi a capital da antiga Guiné Portuguesa até 1941 (portanto, ao longo de escassas sete décadas). 

O século XIX (e sobretudo o período entre 1830 e 1870) é marcado pela  disputa, npor vezes violenta.  em relação à soberania da ilha, entre portugueses.  ingleses e ilhéus. 

Correu-se até o  risco até de cair num conflito militar entre as duas potências coloniais, se bem que "velhos aliados",  o que terá sido  evitado  graças à iniciativa de  António José de Ávila (Horta, Ilha do Faial, Açores,  1807 — Lisboa, 1881) (futuro Duque de Ávila e Bolama), que pediu a intervenção de Ulysses S. Grant, presidente dos Estados Unidos, a favor de Portugal,  

 Os bolamenses erigiram-lhe uma estátua, em homenagem à sua justa arbitragem  a favor de Portugal. Infelizmemnte, há uns anos atrás a estátua (ou parte da estátua), em bronze, desapareceu...Em total decadència, a Bolama de hoje parece não saber ou poder conseguir tomar contar dos vivos, quanto mais dos mortos...

Hoje é também uma ilha de fantasmas. onde por certo por lá pára ainda a alma errante do Caetano José Nozolini (ilha do Fogo, Cabo Verde, 1800 — Bissau, 1850), grande esclavagista cabo-verdiano de origem italiana... Mas também o Bento José Nogueira, o Bevaer, o Nozolini, o Honórito Barreto,  o  Grant e tantos outros, sem esquecer os régulos bijagós e biafadas.




Jornal-programa (sic) editado pelo "Sport Lisboa e Bolama", novembro de 1938. Composto e impresso pela Imprensa Nacional da Guiné, Bolama. Nº de páginas: 12 (doze).Visado pela Comissão de Censura,


Fonte: Câmara Municipal de Lisboa > Hemeroteca Digital >  Sport Lisboa e Bolama, novembro de 1938 (com a devida vénia).
































(Seleção, introdução, recortes, revisão / fixação de texto: LG)


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Nota do editor: