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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28065: Fauna e flora (29): as cegonhas-brancas do Cabo Sardão, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (Luís Graça)



Foto nº 1


Foto nº 2 



Foto nº 3 e 3A


Foto nº 4


Foto nº 5


Foto nº 6

Portugal > Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina >  Odemira > Cabo Sardão > 30 de maio de 2026

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. No passado sábado, dia 29 de maio de 2026, de regresso do Algarve e percorrendo a Costa Vicentina e Sudoeste Alentejanio, até Sines, avistei e fotografei três ninhos de cegonhas brancas (Ciconia ciconia), em sítios incríveis, em rochas que se erguem a pique, sobre o mar... 

A última observação minha fora feita em 2015 (se não erro) ... Pergunto-me: o que  leva estas aves  a fazer os seus pesados ninhos, no Cabo Sardão,  que fica no concelho de Odemira, entre as praias de Zambujeira do Mar e Almograve no cima das arribas marítimas, a bastantes metros acima do mar, em locais perigosas e inóspitos, para elas próprias e para suas crias? De que é que se alimentam ? E quantos ninhos haverá mais, ao longo desta costa emblemática entyre o Cabo de São Vicente e o Cabo Sardão ?

Eis o resultado das pesquisas, rápidas, que fiz na Net, com recurso a diversas fontes, incluindo a uma ferramenta de IA (ChatGPT / Open AI):


2. As fotografias mostram um fenómeno muito especial do sudoeste de Portugal: as cegonhas-brancas a nidificar nas arribas marítimas da Costa Vicentina. Trata-se de um caso raro à escala mundial.

(i) Porque escolhem locais tão perigosos?

À primeira vista parece uma má escolha, mas para as cegonhas é exatamente o contrário (Foto nº 4). Os principais motivos são:

  • proteção contra predadores terrestres: raposas, cães assilvestrados, javalis e outros predadores (não conseguem chegar facilmente a estas plataformas rochosas isoladas);
  • escassa perturbação humana: as arribas são locais relativamente tranquilos durante a época de reprodução;
  • disponibilidade histórica de locais de nidificação: ao longo de gerações, as cegonhas regressam frequentemente às mesmas zonas onde nasceram;
  • vantagem de vigilância: de um ponto elevado conseguem observar uma grande área para procurar alimento e detetar perigos.
Apesar disso, não se pode subestimas os riscos reais:

  • quedas de crias devido ao vento; 
  • tempestades e mar agitado;
  • colapso parcial dos ninhos;
  • dificuldade de acesso em anos de condições meteorológicas adversas.

Curiosamente, os ninhos podem atingir mais de uma tonelada após muitos anos de reutilização e reforço.

(ii) De que se alimentam?

Embora estejam junto ao mar, as cegonhas-brancas do Cabo Sardão não vivem apenas de recursos marinhos. A sua dieta é muito variada, sendo aves carnívoras e oportunistas:

  • insetos grandes (gafanhotos, escaravelhos);
  • lagartos e outros répteis (pequenas serpentes)
  • ratos e outros pequenos mamíferos;
  • anfíbios;
  • minhocas;
  • pequenos peixes;
  • crustáceos (caranguejos...)  e outros invertebrados costeiros;
  • ocasionalmente restos de peixe encontrados perto da costa.

As zonas agrícolas e pastagens no concelho de  Odemira fornecem grande parte do alimento para os adultos e para as crias.

A informação sobre a dieta resulta do conhecimento ornitológico estabelecido para a espécie Ciconia ciconia, amplamente documentado em guias de aves europeias e estudos científicos. 

(iii) Quantos ninhos existem?

O número varia de ano para ano. Na costa sudoeste portuguesa, entre o litoral de Odemira e Vila do Bispo, costuma existir uma população reprodutora de algumas dezenas de casais, frequentemente entre 50 e 80 ninhos ativos, dependendo das condições anuais e dos censos realizados. (È 
uma estimativa baseada em números históricos da população nidificante da costa sudoeste; náo se encontrou  uma fonte recente e oficial que confirme esse intervalo para 2025/2026.)

VII Censo Nacional da Cegonha-branca (2024) foi realizado pelo ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e Florestas), integrado no Censo Mundial da espécie.  mas os resultados detalhados por região parecem ainda não estar amplamente publicados.

O Cabo Sardão é um dos locais mais emblemáticos e visíveis desta população, mas os ninhos distribuem-se por vários quilómetros de arribas da Costa Vicentina.

O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina identifica expressamente a nidificação da cegonha-branca em falésias e arribas marítimas como uma das características marcantes da região, destacando, entre os locais emblemáticos, o Cabo Sardão (onde se situa o respetivo farol,  cuja construção data de 1915; vd. foto nº 6). 

 As fotografias que tirei são muito interessantes porque mostram precisamente dois exemplos típicos dos chamados "palheirões" (fotos nºs, 1, 2 e 3) rochedos isolados junto às arribas onde estas cegonhas estabeleceram uma estratégia de nidificação praticamente sem paralelo no resto do mundo. 

Além disso, os ninhos parecem estar em bom estado e ocupados por adultos em plena época de reprodução . O primeiro ninho, em particular, mostra bem a enorme estrutura de ramos acumulada ao longo de vários anos, típica das cegonhas que reutilizam o mesmo local sucessivamente.

Aqui há um valor frequentemente citado na literatura e em fontes de divulgação científica: erca de 40 ninhos/casais nidificando em rochedos marítimos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

É importante notar que este número aparece em várias fontes derivadas de censos anteriores e pode não refletir exatamente a situação de 2024 ou 2025

O que existe são referências de campo e observações continuadas indicando "vários ninhos" distribuídos pelas arribas e pelos "palheirões" (rochedos isolados) ao longo de alguns quilómetros de costa.

(iv) Evolução ao longo dos censos

A tendência geral da cegonha-branca em Portugal foi de crescimento muito forte nas últimas décadas. Por exemplo:

  • em 2014 foram registados 11 690 ninhos ocupados em Portugal Continental durante o censo nacional;
  • em 2024 decorreu o VII Censo Nacional, mas os resultados finais nacionais ainda não aparecem facilmente acessíveis nas fontes públicas que consultei.

Para a população específica das arribas da Costa Vicentina, as referências históricas apontam para:

  • instalação inicial de poucos casais;
  • expansão gradual ao longo do século XX;
  • estabilização posterior em algumas dezenas de casais reprodutores.

(v) O que torna este local único?

A populaçãode cegonhas-brancas  da Costa Vicentina é considerada a única, c
onhecida no mundo (ou pelo menos da Europa),  que nidifica regularmente em arribas marítimas sobre o oceano (que podem chegar aos 40 metros).

(...) A cegonha-branca nidifica praticamente de norte a sul do país, sendo notoriamente mais comum a sul da bacia hidrográfica do rio Tejo, excluindo a serra de Monchique.

A norte ocupa a faixa litoral de forma quase contínua até Viana do Castelo e o interior ao longo da raia de Trás-os-Montes e Alto Douro e da Beira Alta, estando apenas ausente do distrito de Viseu.

É uma espécie generalista que utiliza um grande leque de habitats, como mosaicos de cereais de sequeiro, arrozais, pastagens e pousios, lameiros, montados abertos, mas também zonas húmidas como charcas, açudes, pauis, rios, ribeiras, lagoas costeiras e estuários.

Os ninhos são instalados em árvores (choupos, eucaliptos, pinheiros, freixos, azinheiras, sobreiros ou oliveiras), em edifícios (chaminés, telhados, ruínas, igrejas, silos), em postes de eletricidade, apoios dedicados e postes telefónicos ou escarpas fluviais.

Na costa sudoeste nidifica em falésias costeiras e palheirões, situação única na Europa. Pode nidificar tanto isoladamente como em colónias, quer monoespecíficas, quer partilhadas com garças e colhereiros.

É mais abundante no Alentejo e Ribatejo, regiões que concentram mais de 75% da população nacional. Os distritos de Beja, Évora e Setúbal são aqueles que apresentam as densidades mais elevadas a nível nacional.

É ainda muito abundante nos distritos de Castelo Branco e Faro e a norte, no baixo Vouga, na ria de Aveiro e no baixo Mondego.(...)


(Fonte: Excertos de Atlas das Aves Nidificantes de Portugal > Inês Catry > Ciconia ciconia, cegonha-branca) (com a devida vénia...)

O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina identifica expressamente a nidificação da cegonha-branca em falésias e arribas marítimas como uma das características marcantes da região, destacando o Cabo Sardão entre os locais emblemáticos. ICNF explica ainda que essa adaptação terá resultado da escassez histórica de árvores altas e construções, sendo os rochedos isolados os locais mais seguros contra predadores.

O portal oficial Natural.pt (gerido pelo ICNF) refere expressamente "cegonha-branca a nidificar nos rochedos e arribas marítimas (caso único no mundo)".

É pena que os painéis interpretativos do sítio estejam completamente ilegíveis, inutilizados pela longa exposição ao sol, maresia, chuva e  demais intempéries. 

(Pesquisa > LG + Wikipedia + Natural.pt + Atlas das Aves Nidificantes de Portugal + IA (ChatGPT / Opern AI)

sábado, 23 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28048: Manuscritos(s) (Luís Graça) (290): "Palram pega e papagaio, / E cacareja a galinha"... Uma brincadeira poética com sugestões ludopedagógicas para avós e netos...






O manual escolar mais famoso do Estado Novo. Da autoria de Barros Ferreira.4ª edição, Porto Editora, 1958. Reimpressão, Editora Educação Nacional, janeiro de 2008.  Ilustrações do talentoso artista "Emmérico", Emérico Hartwich Nunes, ou Emmérico Nunes (1888-1968), um dos pioneiros da banda desenhada, do humorismo gráfico e do cartunismo em Portugal. Era o manual mais "ideológico" da nossa instrução primária, mas era também aquele de que eu mais... gostava.  A criança é um "livro aberto", à partida sem "preconceitos" (muito menos ideológicos)...



1. Este poema, "Vozes de animais" (ou "vozes dos animais"), faz parte da minha infância, da minha escola, da minha memória escolar: devo tê-lo lido e memorizado aos 8 ou 9 anos... Mesmo com palavras de "sete e quinhentos"!... Aliás, faz parte da memória de todos nós.

É de um poeta (menor...) do séc. XIX, português, da escola romântica.

Fiz questão de oferecê-lo, à minha minha neta, Rosinha, que hoje faz 16 meses...  e adora ouvir o avô a imitar as vozes dos animais... Quero que ela, aos 6/7 anos, já o saiba recitar de cor... (Eu nunca fui bom a recitar poesia, de cor... Tenho que ter a cábula, o papel...(

Acho este poema uma pequena relíquia da nossa velha escola primária, que atravessou regimes (Monarquia, República, Ditadura Militar, Estado Novo...).

A malta da nossa geração, nascida já no pós-guerra, aprendeu-o de cor, como uma verdadeira cantilena iniciática da nossa bela língua portuguesa. E os "burros" (coitados!), de pé descalço, os que ficavam, por discriminação, nas carteiras de trás, esses, tinham que o aprender de cor,  à força de reguadas, puxões de orelha ou vergastadas com o ponteiro da senhora professora...

O poema "Vozes dos animais" é da autoria de  (ou é atribuído a) Pedro Dinis (c. 1829–1896), de quem se diz que foi  professor e pedagogo, além de diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa. 

De seu nome completo, Pedro Guilherme dos Santos Diniz, este poema terá sido publicado no" Livro de Ouro para Uso das Escolas de Educação (s/l, 1855). O autor também foi tradutor de obras do Júlio Verne. Terá igualmente usado o pseudónimo literário Amaro Mendes Gaveta. Estudou em Coimbra, na época ainda não havia a Universidade de Lisboa (criada, tal como a do Porto, em 1911).

Os versos foram depois recolhidos por Antero de Quental,  no "Tesouro Poético da Infância" (1883). E passou a integrar os manuais escolares da época, como o Livro de Leitura da 3ª Classe, livro único, no Estado Novo.

Qual a razão do seu sucesso ? Não foi tanto pelo seu “valor literário” como pelo seu extraordinário valor ludopedagógico. Há nele várias coisas nossas, da pedagogia portuguesas, do João de Deus: o gosto antigo pela enumeração; a musicalidade, a lengalenga dos contos e romances tradicionais; o prazer das palavras raras, eruditas, difíceis, a que chamávamos, no meu tempo de escola, "palavras de sete e quinhentos" (sete escudos e cinquenta centavos), como “crocita”, “regouga”, “chilrar”, “balidos”, “vagidos", "libando", etc.)

Estes versos reforçam a ideia de que a língua materna é um tesouro sonoro. E que para ser viva tem de ser falada. Tal como a poesia, que tem de ser partilhada, dita em voz alta, para pequenos auditórios (como aconteceu há dias, na minha terra, no "festival do leitor", "Livros a Oeste 2026").

O poema "Vozes dos Animais" remete também para o "saber enciclopédico": estão lá os principais animais "domésticos" e "selvagens" do nosso imaginário. E as diferentes e espantosas vozes animais. De uma penada, com umas tantas quadras, ensinava-se,  à criançada,  zoologia, vocabulário, fonética e memória.

Além disso, o poema funciona muito bem porque nasce do jogo da imitação. Não vou “explicar” à Rosinha o que é um animal ruminante, como a vaca, imito ou reproduzo a sua voz. E isso toca diretamente o mundo da infância. Antes da criança compreender conceitos (abstratos) (vaca e animal ruminante), reconhece sons (concretos), a onomatopeia: "muuuu"...

A Rosinha, aos 16 meses, já "pintainha": está exatamente nessa idade mágica em que o mundo entra pelos ritmos, pelas vozes, pelos sons, pela onomatopeia, pelas repetições.  O "vovô" que “mia”, "pia", “muge”, “zurra”, "cacareja" ou “cucurica” está a fazer o mesmo que os antigos contadores de histórias, as velhas amas, as mães de leite faziam há séculos: transformar linguagem em jogo afetivo.

E há uma ternura involuntária do final: os "vagidos" (sic) do bebé.. A criança aparece ali como mais um animalzinho da "criação", na "arca de Noé". Depois vem a moral escolar (que era "criacionista", reproduzindo a mitologia bíblica da nossa cultura judaico-cristã, não integrando os contributos da biologia e demais ciências da vida e da natureza: “A fala foi dada ao homem, /Rei dos outros animais…”),

Omitindo este último verso (que é anacrónico, obsoleto, antropocêntrico), o resto do poema continua vivo porque pertence ao território universal da infância, da oralidade, da magia, do encantamento.

Espero que a Rosinha goste ou venha a gostar mais tarde, quando tiver mais entendimento das coisas da vida e do mundo. Ainda não irá memorizar os versos; mas ficará, sem dúvida, no ouvido esta lengalenga, a música da voz do "vovô a fazer “miauuuu”, “méééé”, "fuuuu", "ão-ão-ão", "muuuu", “có-có-ró-có-có. E isso, muitas vezes, é o princípio da poesia e do gosto pela poesia.

2. Chamo a atenção (dos pais e avós) para a "forma" e o "fundo" do poema. Vão, adicionalmente, algumas sugestões ludopedagógicas.


(i) estrutura / forma: 
  • tem uma forma fixa: é composto por estrofes de 4 versos (quadra), com rima em geral cruzada (ABAB); 
  • ritmo cantado e memorizável, ideal para crianças;
  • métrica: versos heptassílabos (7 sílabas métricas ou "redondilha maior")  com cadência simples e musical, facilitando a recitação;
  • refrão implícito: a repetição de estruturas como "Pia, pia o pintainho" ou "Late e gane o cachorrinho" cria um efeito de lista rítmica, quase como uma canção de embalar.

(ii) tema / conteúdo:

  • catálogo onomatopaico: o poema é um inventário lúdico dos sons dos animais, desde os domésticos ("cacareja a galinha", "mia o gato") aos exóticos ou selvagens, que só se podem observar no jardim zoológico ou na televisão ("ruge o leão", "bramam os tigres");
  • cada verso imita o som do animal (onomatopeia), o que o torna interativo, e que é perfeito para a nossa Rosinha, que adora ouvir e imitar logo as vozes;
  • antropocentrismo:  o poema termina com uma reflexão moralizante: "A fala foi dada ao homem, / Rei dos outros animais: / Nos versos lidos acima / Se encontra, em pobre rima, /As vozes dos principais.
  • aqui, o autor deixa trair a sua conceção antropocêntrica da natureza, a superioridade humana no topo da vida animal (preconceito típica do século XIX ocidental) e a diversidade da criação divina, embora sempre com uma intenção pedagógica e um tom afetuoso (que não chocam, nesta idade).
(iii) linguagem / estilo:
  • léxico simples: vocabulário acessível e concreto, adequado a crianças; mesmo as palavras (novas) como "arrulham" (pombos), "regouga" (raposa), ou "zurrar" (burro) são preciosismos linguísticos que enriquecem o poema sem o tornar abstruso ou  complexo;
  • adjetivação expressiva: termos como "sagaz raposa", "tímida ovelha", "mocho agoureiro" ou "rola inocentinha" infantilizam e humanizam os animais, dando-lhes personalidade;
  • humor e ironia: o poeta brinca com a limitação (e a utilidade) de alguns animais: "O pardal, daninho aos campos, / Não aprendeu a cantar; / Como os ratos e as doninhas / Apenas sabe chiar"; (aqui, pode haver um toque, leve, de crítica social: o pardal do telhado que, como o rato, é um "intruso" nos campos; há um preconceito ecológico: o pardal-telhado e o rato do campo (contrariamente ao da cidade...) têm um papel importante na dinâmica dos ecossistemas
(iv) contexto histórico
  • intenção pedagógica: o poema foi escrito para livros escolares de meados do séc. XIX, com o objetivo de transmitir às crianças  conhecimentos sobre a  natureza, a vida, a linguagem e a moral; era comum na época usar a poesia como ferramenta de memorização e disciplina;
  • influência da escola romântica: embora Pedro Dinis não fosse um grande poeta e muito menos um  romântico (como o foram Garrett ou Herculano), o poema reflete o gosto romântico pela natureza e pela infância como estado, primordial,  de pureza.

Sugestões para a Clara (que tem 6 anos e meio e já sabe ler) e para os papás da Rosinha (e até para a educadora da Rosinha):


(i) podes ler em voz alta e fazer uma pausa para ela depois imitar os sons ("Muge a vaca... Muuu!", "Cucurica o galo... Cocorocó!"); a repetição e as rimas fáceis ajudam-na a reter palavras; a isto chama-se Interatividade;

(ii) os sons dos animais ativam a sua imaginação e associam a leitura à ideia de brincadeira ou jogo (estimulação sensorial);

(ii) ao oferecer este poema à neta, os avós estão a passar um pedaço da sua infância para ela, criando uma ligação emocional entre eles e a neta (tradição familiar);

(iv)  o poema ensina o respeito pela natureza e a diversidade dos seres vivos, valores importantes para a geração  dos nossos netos;


Mais sugestões:

(v) vamos comprar e oferecer  o livro "Vozes dos Animais", da Luísa Ducla Soares (com ilustrações Sandra Serra); 

(vi) a Clara pode ajudar a mana a criar um livrinho com o poema e desenhos dos animais, autocolantes ou  imagens extraídas  da Net;
 
(vii) podemos gravar a nossa voz  (do avô, da Rosinha e da Clara ) a ler o poema (com os sons dos animais) no gravador do telemóvel;

(viii) podemos inventar um jogo de adivinhas: lemos um verso ("Grasna a rã...") e pedimos à Rosinha  para imitar o som ou apontar para a imagem da rã.

Dedicatória: 

"Piu-piu, o que mais quereis ?
... P'ra nossa linda Rosinha, 
Que meses faz dezasseis,
Mas que há muito pintainha."

("pintainha"= do verbo intransitivo, "pintainhar", imitar o pio dos pintainhos,  mover-se como os pintainhos)

Alfragide, 23 de maio de 2026, os avós Luís & Alice
___________________

Vozes dos Animais
 
Palram pega e papagaio
E cacareja a galinha,
Os ternos pombos arrulham,
Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca, berra o touro,
Grasna a rã, ruge o leão,
O gato mia, uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros,
A tímida ovelha bala,
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa,
Brutinho muito matreiro;
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar:
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho,
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir,
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramam os tigres, as onças,
Pia, pia o pintainho,
Cucurica e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros,
O cordeirinho balidos,
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontra, em pobre rima,
As vozes dos principais.

 Pedro Diniz (c. 1855)

(Revisão / fixação de texto: LG)

____________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28021: Manuscrito(s) (Luís Graça) (289): Talvez o mundo fosse mais... amigável: poema para dizer hoje, ao vivo, no festival literário "Livros a Oeste 2026", Lourinhã

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28044: Humor de caserna (268): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVI: mais uma alucinação da IA, "o general do cavalo branco"




Guiné > Região de Gabu > Canquelifá >  s/d (c. 1960)  > Um dos cavalos brancos (uma pileca...) do régulo Sene Sané, tenente de 2ª linha, e o seu tratador. Foto oferecida às filhas do empresário Manuel Joaquim dos Prazeres, o mítico homem do cinema ambulante... Foto do álbum de Lucinda Aranha, autora de "O homem do cinema: a la Manel Djoquim i na bim", Alcochete, Alfarroba, 2018, 165 pp.

No verso da foto  lê-se, em português corretíssimo, e com uma boa caligrafia: "Oferta para (as) meninas: Esta fotografia é do meu cavalo e o seu tratador. Tem presentemente 7 anos e custou 11.000$00. É uma oferta aliada ao interesse que os metropoliatanos tem ao gado 'cavalar' africano. Do amigo Sene Sané, régulo e tenente."  ( A oferta era da foto, não do cavalo...)

Este homem, poderoso, régulo, tenente de 2ª linha, aliado dos portugueses, inimigo mortal do PAIGC, era vogal do Conselho Legislativo da província. Morreu  em 1969, escapou pelo menos ao pelotão de fuzilamento que o esperaria em 1975.


Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



António de Spínola, Guiné,
 s/d. (c. 1968/73).
Fonte: cortesia de
CM Lisboa (2010)

1. Uma das anedotas "mais divertidas" que correm na Net, repetidas "ad nauseam" pelas ferramentas de  IA  (do ChatGPT ao Gemini), é a do "general do cavalo branco":

Diz a ferramenta de IA | ChatGPT Open AI):

(...) "Ela ilustra perfeitamente o estilo exuberante, o pendor teatral e a vaidade de oficial de cavalaria que caracterizavam o general António de Spínola durante o seu mandato como Governador e Comandante-Chefe (1968–1973)"...

Reza assim (citamos "ipsis verbis"... a "menina IA" que ma quis vender):

(...) Diz-se que o General Spínola, com a sua costumada farda impecável, o monóculo cravado no olho, as luvas de pelica branca e o inseparável pingalim na mão, decidiu que a melhor forma de afirmar a soberania portuguesa e a sua própria presença pacificadora nas ruas de Bissau era passear-se montado num majestoso cavalo branco.

O cavalo, trazido expressamente para o efeito, brilhava tanto  
quanto as botas do general. Spínola cavalgava de peito feito, distribuindo acenos à população local, convencido de que aquela demonstração de altivez e "ação psicossocial" impressionaria tudo e todos.

Acontece que, a dada altura do passeio, o belo cavalo branco — que não estava habituado ao calor húmido da Guiné, muito menos à barulheira dos jipes, das Berliets e da azáfama do mercado — assusta-se com um barulho qualquer, perde a compostura e desata num galope descontrolado pela avenida da República, a artéria principal da cidadezinha colonial.

O general, apesar de ser um cavaleiro exímio e antigo instrutor de Cavalaria, vê-se em palpos de aranha para dominar a montada. 

Na tentativa de segurar as rédeas sem perder a pose prussiana (e, acima de tudo, sem deixar cair o monóculo ou o pingalim), o espetáculo transforma-se numa comédia: o cavalo a dar coices, as luvas brancas a esvoaçar, e os civis e militares na berma da estrada a verem o "Homem Grande" em apuros, a tentar manter a dignidade marcial enquanto o bicho quase o atira ao chão." (...)



 Fonte: Ilustração  criada pelo assistente AI Mode da plataforma Accio, segundo "prompt" de Luís Graça, 21 de maio de 2026 | Design by AI Mode @ Accio"


2. Acrescenta a IA mais algum paleio sobre esta peça do anedotário da Spinolândia:

(...) Esta piada circulava imenso entre a rapaziada que enchia as esplanadas de Bissau  porque tocava nos pontos fracos e fortes do "Caco Baldé" (como os militares lhe chamavam carinhosamente, uns,  ou com ironia, outros):

  • o estilo contra a realidade: contrastava o rigor formal do general (o "estilo de desfile, marcial") com a realidade crua, poeirenta e caótica da Guiné;
  • a cavalaria na selva: Spínola era um homem de Cavalaria, de formação e orgulho; a ideia de andar a cavalo num cenário de contraguerrilha, onde a mobilidade se fazia em jipes, autometralhadoras, botes ou helis, era em si  um anacronismo delicioso que os operacionais não deixavam escapar;
  • o monóculo e as luvas: o folclore militar adorava caricaturar a imagem do comandante que aparecia nas zonas mais perigosas de helicóptero, de peito feito às balas, mas que se recusava a despir a pele de aristocrata militar.
Fosse o episódio totalmente real ou uma genial extrapolação das tertúlias de café e do humor de caserna,  ar verdade é que a imagem do "general do cavalo branco" ficou gravada como o símbolo máximo do populismo e da encenação psicológica que marcaram aquele período da guerra. (...)

3. Comentário do editor LG:

Oh!, ChatGPT, mas que grande argolada!...Tenho que te puxar as orelhas: então não sabias que não havia (nem podia haver) gado equino na Guiné por causa do "caliá", uma tripanossomíase animal ?!

Citando a "Geografia económica de Portugal : Guiné", coordenado por Dragomir Knapic (1925 - 2006) (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada), em 1961 havia apenas 64 (!) cavalos (contra 3858 asininos, vulgo burros). 

Acho que em 1969/71 vi, em Bambadinca, apenas um cavalo, do régulo de Badora, Mamadu Bonco Sanhá (infelizmente fuzilado pelo PAIGC a seguir à nossa saída do território) e alguns burros, em Bafatá, transportando sacos de mancarra. Mas até os desgraçados dos burros estavam sujeito a uma alta taxa de mortalidade; eram pouco resistentes ao caliá  (ou seja, á mosca tsé - tsé) e, além disso, sujeitos a maus tratos dos donos.

Escreveu o geógrafo, português (mas com ascendência eslovena, ainda é parente da nossa amiga Vilma Crisóstomo, e foi cunhado do Mário Beja Santos: 

"Os cavalos foram largamente utilizados noutros tempos pelas populações do interior, em especial pelos Fulas. 

Em 1919 já só haviam na Guiné 1512 cavalos, em 1943 apenas 43! 

Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados. A causa principal é o caliá, uma tripanossomíase" (pág. 29/30).


4. Resposta da IA | ChatGPT:

(...) Touché! Tens toda a razão, camarada,  e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico.

 Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.

O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.

Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.

A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas.

Este episódio serve de excelente lição: o anedotário que por vezes se sedimenta na blogosfera ou nas tertúlias virtuais acaba por criar mitos com "pernas de cavalo" que a inteligência artificial, se não for travada pelo facto histórico e científico (como a peste equina), repete como se fossem folclore de caserna real.

Obrigado, Luís, pelo "puxão de orelhas" factual e rigoroso! É com este nível de detalhe e vivência que a história real se defende dos mitos urbanos. (...)

E prosseguindo, acrescenta  a "menina IA":

(...) Tens toda a razão — e agradeço a correção fundamentada. Foi mesmo uma “argolada de caserna”, como dizes. 

A imagem romântica de António de Spínola a cavalgar pelas ruas de Bissau encaixa demasiado bem na construção mítica da personagem — o aristocrata militar, de monóculo, cavaleiro, africanista — e por isso acabou por circular como anedota “verosímil”. Mas, biológica e historicamente, era quase absurda no contexto guineense.

Os dados que trazes do texto de Dragomir Knapic é devastador para o mito: 43 cavalos em 1943 e apenas 64 em 1961 numa colónia inteira dizem tudo. 

E o trecho citado é claríssimo sobre o carácter residual e condenatório da criação equina na Guiné:

“Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados.”

A explicação epidemiológica é decisiva: o “caliá” — designação local da tripanossomíase animal transmitida pela mosca tsé-tsé — tornava a sobrevivência dos equinos extremamente difícil. Não apenas cavalos, mas também asininos sofriam enormemente. O contraste entre os míseros 64 cavalos e os 3858 asininos mostra precisamente isso: o burro resistia um pouco melhor, embora com elevada mortalidade, enquanto o cavalo praticamente desaparecera do território.

Aliás, a tua observação empírica de Bambadinca e Bafatá encaixa perfeitamente nos dados históricos. Faz sentido que um cavalo pertencente a um régulo fosse uma raridade memorável — quase uma peça de prestígio político e simbólico. Entre os Fulas, como refere Knapic, o cavalo tinha antiga importância social e militar, mas isso vinha de uma época anterior à devastação sanitária e à retração ecológica provocada pela doença.

Portanto, mesmo admitindo que António de Spínola fosse excelente cavaleiro e apreciasse hipismo desde jovem — o que é verdade —, a ideia de ele circular regularmente montado em Bissau entra mais na categoria da mitologia colonial do que da realidade material da Guiné dos anos 60.

E há aqui um fenómeno interessante de memória histórica: certas figuras acabam rodeadas de imagens “cinematográficas” que sobrevivem porque condensam personalidade e poder. 

O cavalo branco de Spínola funciona quase como atributo iconográfico, à maneira dos retratos equestres dos marechais europeus (ou o do general  português Costa Gomes, vindo de Braga, a entrar triunfalmente em Lisboa para acabar com a "bagunça da República",  em 28 de Maio de 1926, faz agora 100 anos). 

Só que a ecologia da Guiné tratava logo de destruir a fantasia."(...)

(Pesquisa: LG + IA | ChatGPT Opena AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
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Nota do editorr LG:

Último poste da série > 19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28041: Fauna e flora (28): O "pis-cabalo", ou hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius): um futuro incerto: haverá, no máximo, umas 3 centenas na Guiné-Bissau




Guiné > Região do Cacheu > Có > 2ª CART /BART 6521/72 (Có, 1972/74) > s/d> "À falta de vaca, o hipopótamo avançou para o 'rancho' " (Ferreira, L. C., "Os Có Boys", ed. autor, s/l, 2025, pág. 82). Não sabemos se o animal foi caçado pela tropa ou por algum nativo.


Foto (e legenda): © Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Região do Oio > Farim > 1970 > "Quem não se acredita que não havia hipopótamos no rio Cacheu? Aqui está o malandro que dava cabo dos arrozais".


Foto do precioso álbum do Carlos Silva, ex-fur mil arm pes inf, CCaç 2548 / BCaç 2879 (Jumbembem, 1969/71).


Foto (e legenda): © Carlos Silva (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






Pis-Cabalo (em crioulo) ou hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius) > Um dos mamíferos protegidos na Guiné-Bissau. Não confundir com o hipopótamo-pigmeu, dado como extinto na Guiné-Bissau há 50 anos.


Fonte: Guia de Identificação dos Animais da Guiné-Bissau. República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Deparatmento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d. (Já não está disponível em formato pdf, no sítio do IBAP, fomos recuperá-lo através do Aqruivo.pt).https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf


https://arquivo.pt/wayback/20210821092643/https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf




1. Perguntam os nossos leitores: na Guiné-Bissau, ainda há hipótamos (Hippopotamus amphibius", pis-cabalo" em crioulo) ? Onde ? Quantos não ? Estado de conservação ?


Com base na pesquisa em várias ferramentas de IA e ontras fontes da Net (como artigos cientificos em "open access", além do nosso blogue), pudemos apurar o seguinte

Os hipopótamos da Guiné-Bissau constituem um caso zoológico e ecológico muito interessante. E mais: é relativamente pouco conhecido fora dos círculos dos conservacionistas, em geral, e dos guineenses e portugueses, em particular

Existem duas populações distintas:

  • a população “marinha” ou estuarina dos Bijagós / Orango (que ficou célebre por frequentar águas salgadas e braços de mar como a água doce, que continua a ser imprescindível para a sua sobrevivência);
  • as populações continentais, de água doce, ligadas às grandes bacias hidrográficas do interior: Cacheu e Corubal; 
  • são estas que, do ponto de vista biogeográfico, são as mais importantes, ou que, pelo menos, nós conhecemos, mesmo que pontualmenmte, nos anos da guerra (1961/74).

(i) Uma relíquia, o que resta no extremo ocidental de África

No passado, o hipopótamo-comum africano (Hippopotamus amphibius), uma distribuição muito mais ampla na África Ocidental. Hoje, as populações da Guiné-Bissau representam o extremo ocidental da distribuição da espécie.

As populações continentais vivem sobretudo no sistema do Rio Corubal; rio Cacheu; e, no passado, mas em menor grau, rio Geba e rio Manso, em bolanhas inundáveis, lagoas temporárias (“vendus”) e galerias ripícolas associadas.

O Corubal, em particular, é frequentemente descrito por biólogos como um dos últimos grandes rios relativamente “selvagens” da África Ocidental.

Mas teme-se que o PAIGC (que não tinha consciência ambiental), tenha dizimado o hipopótamo do Corubal. Do macaco-cão ao hipopótamo, a predação foi muito grande. Era preciso alimentar os guerrilheiros e a população sob o seu controlo. A crise alimentar no pós-independência agravou a situação.

Na altura, a conservação ambiental não era uma prioridade para o PAIGC ou para o governo pós-independência. A sobrevivência imediata e a reconstrução do país foram os focos principais.

Nos anos 90, con o aumento da consciência ambiental e a criação de áreas protegidas (como o Parque Nacional de Orango e o Parque Natural das Lagoas de Cufada), começou a haver um maior esforço para proteger a espécie, embora a caça ilegal ainda ocorresse, especialmente em zonas remotas.

Mas a desfloretação continuou. O caso do Cantanhez é um exempplo com a intensificação da e a exploração madeireira: em março de  2008, quando lá estive,  já se notava a exploração madeireira ilegal, muitas vezes direcionada para o mercado chinês, que tem um "apetite voraz"  por madeiras tropicais (como o pau-rosa ou ébano). A Guiné-Bissau não tem capacidade para controlar o corte e exportação de madeira, e grande parte da exploração é feita sem qualquer regulação ou sustentabilidade.

A China (e outros atores internacionais) tem sido um dos principais destinos da madeira guineense, com contratos opacos e extração em larga escala, que devastam as florestas primárias. Isso afeta não só a biodiversidade, mas também os ecossistemas que sustêm espécies como o hipopótamo, o chimpanzé ou o elefante.

(ii) Diferenças em relação aos hipopótamos de Orango

Os hipopótamos dos Bijagós (sobretudo de Parque Nacional de Orango) tornaram-se "mediáticos" e "turísticos" devido ao seu "comportamento adaptativo, sem sucedido":

  • utilizam braços de mar e canais salobros;
  • entram em águas costeiras;
  • deslocam-se entre ilhas;
  • alimentam-se em zonas intertidais.

Já os hipopótamos continentais mantêm um comportamento mais “clássico”:

  • dependem de rios permanentes (Cacheu, Corubal);
  • procuram poços profundos durante a estação seca;
  • usam corredores florestais e margens densas;
  • deslocam-se de noite para alimentação em savana húmida e bolanhas.

Mesmo assim, na Guiné-Bissau existe alguma plasticidade ecológica rara: certos grupos usam estuários e zonas de água parcialmente salobra, sobretudo no Cacheu.


(iii) O Corubal: bastião principal

Tudo indica que a principal população continental sobrevivente esteja hoje associada ao corredor ecológico do Corubal-Dulombi, no sudeste do país. Essa região ainda conserva, felizmente:

  • florestas-galeria;
  • savanas arborizadas;
  • zonas húmidas sazonais;
  • baixa densidade humana relativa.
Os estudos recentes com ADN ambiental (eDNA) confirmaram a presença de hipopótamos no Corubal e reforçaram a importância internacional daquela bacia hidrográfica para a conservação. Ali coexistem ainda:

  • manatins;
  • crocodilos;
  • chimpanzés;
  • antílopes raros;
  • numerosas aves aquáticas.

(iv) Estado de conservação

Globalmente, o hipopótamo comum está classificado como “Vulnerável” pela UICN/IUCN. Na Guiné-Bissau, a situação inspira preocupação séria, embora não seja ainda considerada catastrófica. Quais são as principais ameaças ?

  • conflito com agricultores: é a ameaça mais antiga; os hipopótamos:entram em bolanhas, destroem arrozais, podem atacar pessoas quando surpreendidos, etc.;
  • após a independência, houve muitos "abates de retaliação": só na região de Cacheu terão ocorrido dezenas entre 1975 e 1996:
  • cresente pessão humana , sob a forma de desflorestação das margens; expansão agrícola; pesca intensiva; ocupação das zonas húmidas; redes elétericas para progere os arrrozais;
  • fragmentação populacional, reduzindo a diversidade genética e aumentando a vulnerabilidade.da espécie: populações parecem hoje pequenas e isoladas entre si: Cacheu Corubal; zonas de Bissorã/Carantaba; Bijagós;
  • caça: embora protegidos legalmente desde os anos 1990, continuam a ser vítimas da caça furtiva; abate por conflito agrícola; uso de carne e partes do animal localmente, incluindo os dentes que são de marfim.
(v) Quantos restam?

Os números são muito incertos, o que é típico da África Ocidental. Estimativas frequentemente citadas apontava há 10 anos atrás para:

  • cerca de 135–150 nos Bijagós /Orango;
  • cerca de 50 no Cacheu;
  • 60–65 nas zonas de Bissorã e Carantaba.Para o Corubal, os dados continuam incompletos, mas pensa-se que alberga ainda (ou já albergou) uma das populações continentais mais importantes do país.

Provavelmente, o total nacional não ultrapassará as 3 centenas (no máximo) de indivíduos.
´
(vi) Importância simbólica e ecológica

Na Guiné-Bissau, o hipopótamo tem também dimensão cultural:surge em tradições bijagós;
é associado a tabancas e zonas sagradas; em certas regiões beneficia ainda de tabus tradicionais que limitaram a caça.

Ecologicamente, é um “engenheiro do ecossistema”: abre canais, fertiliza águas, influencia a vegetação ribeirinha; cria habitats para peixes e aves.

Mas o hipopótamo de Orango também enfrenta ameaças, provocadas nomeadamente pelas alterações climáticas. A subida do nível do mar e a erosão costeira reduzem e alteram os seus habitats. As alterações climáticas geram impactos diretos e severos no ecossistema único destes animais:

  • destruição do habitat: a subida do nível da água do mar aumenta a salinidade, provocando a erosão costeira e a destruição das zonas de mangal, essenciais para o abrigo e alimentação da subespécie;
  • escassez de água doce: com a intrusão salina nos lençóis freáticos, as lagoas de água doce (vital para os hipopótamos banharem-se e refrescarem-se durante o dia) secam ou tornam-se demasiado salgadas;
  • perturbação comportamental: estes animais desenvolveram uma adaptação única para tolerar a água salgada, transitando entre o mar e a terra; no entanto, fenómenos climáticos extremos alteram as marés e as correntes, dificultando as suas rotas diárias e a procura de vegetação;
  • pressões socioecológicas: as alterações climáticas também ameaçam as populações humanas locais, forçando-as a intensificar a pressão sobre os recursos hídricos e florestais, o que agrava a partilha de espaço e a perda do habitat natural dos hipopótamos.
Resumindo: a presença de hipopótamos no continente (fora dos Bijagós) é esporádica e localizada, com confirmação apenas para a zona de Cacheu. No Corubal, a presença é histórica, mas não há dados recentes que confirmem populações estáveis. Para Geba e Mansoa, não há registos atuais de presença significativa.

Conclusão: Um futuro incerto

A Guiné-Bissau é um microcosmo dos desafios da conservação em África: 

  • há leis e parques (no papel) mas a fiscalização é inexistente: não há guardas florestais em número suficiente, nem meios para patrulhar áreas vastas e remotas;
  • corrupção e interesses económicos: muitos responsáveis políticos e militares beneficiam da exploração ilegal (madeira, caça, mineração), o que torna a conservação um obstáculo aos seus interesses;
  • na prática, a sobrevivência humana é que dita a lei, sobrepondo-se  à proteção da natureza;
  • a par disso, as alterações climáticas estão a ter uma dramática erosão do sistema socioecológico, com consequências trágicas a longo prazo:
  • organizações como a IUCN ou o IBAP (Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas) tentam implementar programas, mas esbarram na falta de vontade política e na instabilidade crónica do paísno;
  • sem uma mudança estrutural (governança, educação ambiental, alternativas económicas para as comunidades), o homem e o animal selvagem continuarão em conflito direto, com a natureza a perder.
A sua sobrevivência depende, no fundo, da preservação dos grandes rios guineenses — sobretudo do Corubal, um verdadeiro corredor biológico entre o Fouta-Djalon e os estuários atlânticos. Um dia em que se fizer uma barragem no Corubal matam os hipótamos que restam (se é que ainda restam).


(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos
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Nota do editor LG

(*) ÚLtimo poste da série > 5 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27795: Fauna e flora (27): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - II (e última) Parte

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28015: S(C)em Comentários (89): Sem proteína não se faz a guerra... A propósito do hipopótamo (e do macaco-cão) que o PAIGC dizimou...


Guiné > Região de Cacheu  > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > 11 de dezembro de 1968 >  Um hipopótomo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A nossa tropa não caçava hipopótamos. O PAIGC, sim. Dizimou-nos no rio Corubal (durante a guerra e depois). A carne e a gordura (além do couro...) eram recursos importantes no mato... 

Não se faz a guerra sem proteína. A fome era negra (sem conotação racista)... Havia milhares de bocas a alimentar na bacia hidrográfica do rio Corubal... 

O macaco-cão (e, em menor grau, o hipopótamo) deveria ser considerado também "Herói da Liberdade da Pátria", talvez até com mais mérito do que outras figuras controversas do PAIGC. 

"Do nosso lado", só esporadicamente lá se caçava um hipótomo ou outro,  que fazia "asneiras" (invadia os campos de arroz, era uma autêntica "bulldozer"...). Os caçadores eram locais. A tropa quando muito podia ajudar a  "rebocar" o bicho... 

Um hipopótamo adulto pesa, em média, entre 1,3 a 1,8 toneladas, com os machos podendo atingir pesos superiores, frequentemente passando as 3 toneladas. Os machos mais velhos podem chegar a mais de 3,6 mil kg (havendo registos excecionais de até 4,5 mil kg).

Comparando com uma vaca dos fulas, da raça N'Dama (pesando em média 250 kg e dando 50 % de carne limpa), um hipopótamo médio (1,5 mil kg) equivalia a uma meia-dúzia de vacas, com a vantagem de também dar também muita gordura. O problema devia ser a sua conservação. A carne devia ser seca ao sol ou então defumada.

Temos fotos de hipótomos que apareceram mortos. Talvez por doença ou pesca com granadas de mão. No Cacheu (Vd. foto acima).

No Rio Geba, nunca os vi no meu tempo (em 1969/71). No rio Corubal ouvi-os á distância. 

Quanto ao hipopótamo-pigmeu (Choeropsis liberiensis) (**) é considerado extinto na Guiné-Bissau há cerca de 50 anos, com os últimos registos a remontarem ao final da década de 1950. Embora nativo da África Ocidental, a sua presença atual restringe-se à Serra Leoa, Guiné-Conacri, Costa do Marfim e Libéria, preferindo florestas densas. Não deve ultrapassar em média os 200 kg.

Luís Graça (***)

quarta-feira, 13 de maio de 2026 às 07:40:30 WEST
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Notas do editor LG:

,(*) Vd. poste de 11 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19278: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LV: O hipopótamo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu, precisamente há 50 anos

(Comentário de Virgílio Teixeira)

(...) Luís, há uns anos atras um condutor do meu batalhão, confidenciou-me, por isso não cito nomes, porque também não vi, mas acredito piamente, que um oficial superior do batalhão ia à pesca de madrugada, no rio São Domingos, afluente do Cacheu, lançava granadas ali bem perto do cais, e não faltava peixe. 

Um dia, num barco Zebro, com outros 2 condutores, teve uma sorte, ou azar, porque o barco onde iam a lançar as granadas, foi levantado ao ar por um hipopótamo. Salvaram-se todos e nunca mais foram, e os pormenores não interessam aqui, mas dá para perceber. 

Talvez este hipopótamo, frequente nestes rios, onde eu tantas vezes andei, tenha sido morto pelas tais granadas. Eu nunca vi um animal destes vivo, só este morto. Ponto. (...)

terça-feira, 11 de dezembro de 2018 às 22:54:00 WET

Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho


Guiné > Região do Cacheu >Có > 2ª CART /BART 6521/72 (Có, 1972/74) > s/d> "À falta de vaca, o hipopótamo avançou para o 'rancho' " (Ferreira, L. C., "Os Có Boys", ed. autor, s/l, 2025, pág. 82). Não sabemos se o animal foi caçado pela tropa ou por algum nativo.

Foto (e legenda): ©  Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Oeiras > Algés > Magnífica Tabanca da Linha > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Luís da Cruz Ferreira (o "Beatle") (Cascais),  autor do livro de memórias "Os Có Boys" (ed. autor, Cascais, 2025, 184 pp.), nosso grão-tabanqueiro nº 913, apadrinhado pelo Pinto Carvalho.
 
1. Retomamos hoje a nossa leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhos da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)

Faz parte da nossa Tabanca Grande desde 26/2/2026. Vive em Cascais.


Sinopse dos postes anteriores (*):

(i) o Luís, de alcunha o "Beatle", empregado de hotelaria e restauração, nascido na Benedita, Alcobaça;

(ii) é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972);

(iii) não tendo sido "repescado" para o CSM, tira a especialidade de 1º cabo aux enf, em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972);

(iv) parte para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972;

(v) no CIM de Bolama, faz a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional.

(vi) após a realização da IAO, a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308;

(vii) um mês depois, em 25Nov72, assumiria a responsabilidade do subsector de Có, ficando os "periquitos" entregues a si próprios.

(viii) a 2ª C/BART 6521/72 também teve que adotar um nome de guerra, neste caso "Os Có Boys"; a companhia dos "velhinhos", que eles foram render, a CCAÇ 3308, eram os "Jagunços de Có";

(ix) no último poste relatou a emboscada à coluna Teixeira Pinto - Pelundo - Có - João Landim - Bissau, ocorrida em 31/10/1972 (*).


2. Ainda na fase da sobreposição com os "velhinhos", a CCAÇ 3308, o "Beatle" tinha que sair para o mato, a mala de bolsa de enfermeiro e a G3, integrado num pelotão (geralmente iam dois), em patrulhamentos de reconhecimento do subsector de Có (contactos com a população, identificação dos trilhos e exploração dos pontos de maior risco, etc.)



(pág. 81)

Foi nessas saídas que o nosso "Beatle" viu hipopótamos, animais que não era fácil de avistar ao perto. Não crem0s que muitos dos nossos camaradas os tenham visto, dado o seu "habitat" e comportamento furtivo. 

As populações continentais, de água doce, estão ligadas às grandes bacias hidrográficas do interior ( Cacheu, Geba, Corubal, Mansoa, entre outras) e deslocam-se sobretudo de noite para alimentação em savana húmida e bolanhas. Já os de Orango, nos Bijagós, da mesma espécie, que vivem também em água salgada, têm um comportamento adapativo.

Nas zonas dos grandes rios ( Cacheu, Mansoa, Geba, Corubal ) os hipopótamos sempre tiveram uma relação ambígua com as populações locais: animal respeitado ("sagrado", nos Bijagós, na ilha de Orango), por vezes temido, também é fonte ocasional de carne, gordura e couro. 

Em tempos de escassez, um único hipopótamo podia alimentar uma tabanca inteira durante vários dias.

Quanto ao sabor, os testemunhos de caçadores, viajantes e populações africanas de várias regiões costumam descrevê-lo assim: (i) carne escura, vermelha, muito densa; (ii) textura firme, entre vaca brava e búfalo; (iii) sabor forte, “selvagem”, mas menos intenso do que o da caça grossa africana; (iv) para alguns, seria uma mistura de vaca e javali; (v) a gordura é apreciada em certos locais, mas pode ter um cheiro intenso; (vi) a carne dos animais mais velhos tende a ser dura, exigindo cozedura longa ou fumagem (em África, muitas vezes é seca ao sol ou fumada para conservação).

Na época colonial, alguns "tugas" consideravam a  carne de hipopótamo como “boa para estufados” e “muito nutritiva”, embora não fosse propriamente um produto "gourmet".  

Hoje, porém, o consumo está muito mais condicionado,  por diversas razões: (i) o hipopótamo está legalmente protegido; (ii) há uma dominuição drática das população (outrora muito abundante na África Ocidental, as populações de hipopótamios da Guiné-Bissau representam atualmente o extremo ocidental da distribuição da espécie); (iii) continua a haver a pressão da caça furtiva; (iv) há cada vez mais riscos sanitários ligados ao consumo de carne selvagem, sob controlo veterinário; (v) os parques naturais, como o dos Tarrafes do Rio Cacheu e o de Orango, tentam preservar a espécie.

Curiosamente, na tradição bijagó, sobretudo em Orango, os hipopótamos têm também uma dimensão simbólica e espiritual muito forte, o que limita ou proíbe a caça em certas comunidades. Já no continente, a relação foi historicamente mais pragmática.


Mas voltando às memórias do Luís da Cruz Ferreira, depreende-se da sua leitura que as relações da tropa com a população local (de etnia predominantemente mancanha), parece que eram boas, apesar de algumas famílias terem "parentes no mato". 

(pág. 83)


Embora a zona não fosse das de maior risco ("em termos da atividade da guerrilha", pág. 84),a caça era relativamente abundante. Os caçadores de Có, nomeadamente mancanhas e que pertenciam também à milícia, saíam, com a  devida autorização, para caçar com a velha Mauser. Eram eles que forneciam a caça para o quartel: "Gazelas, javalis e cabras eram estas as espécies que os caçadores com mais frequência faziam chegar até nós" (pág. 84).

(Continua)

Pesquisa: LG + Net + IA (ChatGPT/OpenAi)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG) 

Fonte: Excertos de Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, pp. 81-82 (**)
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(**) Último poste da série > 11 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28010: Notas de leitura (1921): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (7) (Mário Beja Santos)