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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28240: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça): as alucinações do soldado básico de Bambadinca que, em pânico, jurou ter visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado











O "básico de Bambadinca" que  viu elefantes junto ao  arame farpado

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Esta é uma das histórias pícaras que trago da Guiné, e mais exatamente de Bambadinca, onde comecei por estar adido ao BCAÇ 2852...O quartel sofreu um ataque em força na noite de 28  de maio 
de 1969, âs 00h25, que ficou na memória dos seus militares (e em especial da CCS - Companhia de Comando e Serviços). 

 Eu e os meus camaradas da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, ainda não estávamos lá, estávamos a bordo do T/T Niassa, já no estuário do rio Geba,  à espera de desembarcar no dia seguinte, em Bissau. 

Mas dias depois, em 2 de junho, passaríamos por lá, a caminho do CIM de Contuboel... Ainda "cheirava a pólvora". E o pessoal andava com os "nervos à flor da pele"... 

Em meados de junho tinha havido um falso alarme: em resposta a um alegado novo ataque dos "turras", gastaram-se milhares de munições...

Nenhum de nós, antigos combatentes da Guiné, alguma vez pôs a vista em cima de um elefante, solitário ou em manada, durante a guerra... 

Nem sequer a malta que esteve em Gandembel e Ponte Balana, entre abril de 1968 e janeiro de 1969. A malta da CCAÇ 2317 (Gandembel, Ponte Balana, Buba e Nova Lamego, 1968/69), os "Gandembéis", de que fizeram parte o Idálio Reis, o Joaquim Gomes Soares, o João Barge, o Júlio Madaleno ... 

Eles  bem como outros camaradas de outras subunidades (o Hugo Guerra, o Alberto Branquinho,  o José Ferreira da Silva, o José Teixeira,  o Mário Gaspar, etc.) que, direta ou indiretamente,  foram bravos atores e/ou testemunhas desta   "odisseia", a vida e morte de Gandembel e  Ponte Balana (sem esquecer os páras do BCP 12). 

Mas,  nessa altura,  se ainda havia elefantes na Guiné, que iam e vinham banhar-se no rio Balana, devem ter sido "desalojados" e corridos para a Guiné-Conacri pelas tropas do 'Nino' Vieira  e pelas NT,  que travaram combates violentos no decorrer da  Op Bola de Fogo (8 a 14 de abril de 1968) e depois,  ao longo da ocupação, construção, defesa e abandono do aquartelamento de Gandembel e do destacamento de Ponte Balana, que se saldou por 372 ataques e flagelações do IN, em menos de nove meses (**).

 O elefante, tal como nós, não gosta de tiros. E tem, como nós,  um medo que se pela  das minas e armadilhas... Fugiu da Guiné, fugiu de Angola, fugiu de Moçambique...

Na história não-oficial da guerra da Guiné (1961/74), o único tuga que garantidamente  viu elefantes com "os dois olhos que a terra há de comer" foi...o "básico de Bambadinca", em junho de 1969.

É uma história que não é para rir. Não a ponho na série "Humor de caserna". A mim, inspira-me pena e compaixão. E é nesse sentido que orientei, editorialmente, a BD que encomendei ao meu artista gráfico de serviço.

O "básico de Bambadinca" não pode ser alvo de piada, chacota  ou risota na caserna; já não bastava ele ser gozado por toda a gente, até pelos "djubis", faxinas da cozinha  que o ajudavam nas tarefas mais sujas em troca dos restos do rancho. Não, não é o "bobo" da caserna, é apenas a personagem de uma pequena tragédia. 

Eu próprio comecei por sorrir, na altura,  em junho de 1969, perante a ideia absurda de uma manada de elefantes junto ao arame farpado do quartel de Bambadinca... 

Hoje acabo por reconhecer que aquele meu pobre camarada (cujo nome nunca fixei) estava simplesmente aterrorizado, com os nervos feitos num oito. É aí que reside a força da história (que, de resto, já aqui tinha contado).

O seu nome não fica para a história, mas, tanto quanto me lembro, pertencia à da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), e para mais numa altura em que ainda havia o receio do "turra" voltar a atacar o aquartelamento...

Dele  se contava que,  um dia, quando estava de sentinela, acordou às tantas da noite todo o quartel e as tabancas à volta (Bambadincazinho e Bambadinca), aos tiros de G3 em posição de rajada...

Perante o estremunhado oficial de dia (ou  sargento de dia, a quem competia fazer a ronda pelos postos de sentinela do vasto perímetro do quartel),   jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...

Feito o reconhecimento do local, pela manhã, ninguém encontrou (nem podia encontrar) vestígios da manada de elefantes ao serviço dos "turras"...

Como explicar estas "alucinações"  do pobre do soldado "básico de Bambadinca" ?


2. Sabemos que, em contexto de guerra, mum quartel do mato, às tantas da noite, em África, é possível ter "alucinações" destas.. 

Para mais, tratando-se de um "soldado básico" que , por definição, não era operacional, suponho até quer era um simples ajudante de cozinha... Mas que tinha apanhado um cagaço do caraças aquando do ataque de 28 de maio de 1969...

É um  tema fascinante e complexo, que não tem sido abordado no blogue:  em 
contextos extremos, ou situações-limite, em ambientes de alta tensão, como a guerra, o isolamento, o cansaço, a insolação, a desidratação ou  até a subnutrição, prolongadas, enfim, em situações de  exaustão física e mental, ou de privação sensorial (como a escuridão total do mato à noite),   etc.,  o cérebro humano pode gerar alucinações hipnagógicas (na transição para o sono) ou hipnopômpicas (ao acordar), ou até alucinações sensoriais completas.

Estes fenómenos não teriam sido incomuns no nosso tempo, no CTIG. Estão documentados (e estudados) noutros teatros de operações, sendo comuns, por exemplo, em  soldados envolvidos em missões prolongadas:
 combatentes em guerras (como a do Vietname ou os conflitos modernos no Médio Oriente) relatam casos de alucinações visuais e auditivas, especialmente em ambientes de isolamento, combates prolongados, falta de sono, grande sofrimento físico e psíquico, promiscuidade, desconforto e vulnerabilidade  dos  "bunkers", etc.;

Outra situação comum é a privação sensorial: no mato, à noite, a ausência de estímulos visuais claros pode levar o cérebro a "preencher lacunas" com imagens ou sons imaginários: o som do vento, a trovoada, os relâmpagos, a chuva, o piar de "aves agoirentas", os ruídos provocados por animais noturnos, ou a simples fadiga... podem distorcer a perceção da realidade.

O stress agudo e  o pânico fizeram o resto: o "básico de Bambadinca" (possivelmente castigado com umas noites nos postes de sentinela) estava em estado de hipervigilância. Nessa situação,   qualquer estímulo ambíguo (um ruído, uma sombra) pode ser amplificado pelo cérebro como uma ameaça real; a G3 em rajada sugere uma reação de pânico instintivo, onde a mente, já em alerta máximo, "vê" o que teme (neste caso, elefantes, que na Guiné-Bissau eram nativos e simbolizavam um perigo real, ainda que totalmente improvável naquele contexto, na zona leste, em Bambadinca).

No ambiente estranho e hostil da Guiné, eram frequentes relatos de soldados (nomeadamente metropolitanos) que confundiam sons de animais com movimentos inimigos, ou que viam figuras humanas em sombras. 

Sabe-se que o cérebro "em modo de sobrevivência" dá prioridade, atenção máxima, à deteção de ameaças, mesmo que isso implique... "falsos positivos", falsos alarmes ..

Eu próprio experimentei (eu e todos os demais camaradas que me acompanharam),  durante a Op Tigre Vadio (3 dias, 30/3-1/4/1970, na península de Madina /Belel, regulado do Cuor, no regresso ao Enxalé), uma situação de desidratação extrema, e com ela o conhecido fenómeno (ótico) da "miragem do deserto"  que rapidamente se transformou em alucinação psicológica real...

E porquê o pobre do "básico", pergunta o leitor  ?

O facto de ser um ajudante de cozinha (e não um operacional, e que, para mais, a cumprir um "castigo"
) é revelador: tinha menor preparação (física e psicológica) para lidar com a tensão de uma sentinela, na noite de África; estava menos familiarizado com a G3; não saía para o mato, não estava integrado em nenhum grupo de combate, etc. 

 Recorde- que o soldado básico era o que só tinha feito a recruta , não tirara qualquer especialidade   por falta de aptidões, físicas ou intelectuais ( ou por qualquer outra razão : saúde,  disciplina, etc. ). 

Não servindo para "atirador", era colocado nos "serviços de apoio" de uma subunidade (alimentação, material, etc.)
 
Nestas circunstâncias, o seu cérebro poderia estar mais suscetível a distorções, por falta de interação ou validação da realidade com outros.
 
Recorde-se que, mesmo numa CCS (Companhia de Comandos e Serviços), em quartéis do mato, como Bambadinca, sede de batalhão, os não-operacionais (escriturários, mecânicos, etc.)  estavam escaladas para, regularmente, fazer o serviço de guarda (e os graduados, as respetivas rondas). E havia sempre escassez de efetivos, daí também o recurso aos "básicos".

Elefantes em Bambadinca ? A Guiné-Bissau tinha (e ainda tem) elefantes, embora em números muito  reduzidos , e apenas num corredor transfronteiriço,  na região de Tombali, que hoje faz parte do Complexo Dulombi-Boé-Tchetche. (**)

 Durante a guerra, avistamentos esporádicos destes paquidermes não eram, teoricamente, de todo impossíveis, mas uma manada junto ao arame farpado de um quartel como Bambadinca, na zona leste, seria de todo improvável. 

Esta evidência vem  reforçar a hipótese de alucinação.

A experiência extrassensorial do nosso "básico" também terá a ver com a "expectativa cultural":  tal como muitos outros militares metropolitanos, ele ouviu, desde a escola, contar histórias sobre elefantes, lesões e  outros animais emblemáticos de África. Todavia, e a menos que já tivesse visitado o Jardim Zoológico de Lisboa, nunca tinha vista ao vivo e a cores um elefante, um leão, um leopardo, um jagudi. Nem sequer um macaco!

A G3 em rajada é outro detalhe crucial. É uma resposta automática,  resultante do  treino militar. E a reação a uma ameaça percebida é imediata. Se o "básico" acreditou que via elefantes (ou "turras"), o instinto de disparar para alertar o quartel seria natural.

Por outro lado, sabemos que o pânico é contagioso em grupo ou multidão: o som dos tiros, às tantas da noite, acordava o pessoal todo.

  Já não me recordo dos pormenores da história, mas tudo indica que,  nessa noite, houve quem puxasse da G3 e desatasse aos tiros para o arame farpado...  

Esta história terá acontecido em junho de 1969, em que  ainda se vivia sob o medo  de um novo ataque ao quartel.  Bambadinca nunca seria atacada ou flagelada no meu tempo (julho de 1969 / março de 1971). Mas os ataques e flagelações aos aquartelamentos e destacamentos no sector L1,  num raio de 30 ou mais quilómetros,  eram audíveis (e até visíveis ) à noite.

Também não é preciso recordar que estávamos num conflito armado, onde a tensão se fazia sentir.   
O cansaço, a monotonia e a sensação de isolamento (a Guiné ficava a 4 mil  km de Lisboa) criavam um terreno fértil para a síndrome do combatente, e inclusive para o que hoje chamaríamos de PTSD - Perturbação de Stress Pós-Traumático ( em português ), podendo-se manifestar sob a forma de ansiedade, insónias e alucinações. "Estar apanhado do clima" era a expressão de caserna equivalente...

Na Guiné, havia pouca mobilidade: o nosso soldado "básico" permaneceu quase dois anos no mesmo sítio. Enfim , este é um caso clássico de alucinação induzida pelo stress.

 De qualquer modo, justiça se lhe faça: o "básico de Bambadinca" não mentiu nem inventou,  o seu cérebro, em condições extremas, criou uma perceção falsa, mas para ele, naquele momento, era 100% real.  

Em conclusão, em estado de fadiga e de hipervigilância, o cérebro pode "projetar" os nossos  medos.  O barulho de galhos partidos ou o vento a mover a vegetação, os cães vadios ou até uma simples hiena à cata de comida podiam ser interpretados como o deslocar de animais de grande porte como uma manada de elefantes. (***)
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Notas do editor LG:

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28239: Fauna e flora (33): Um raio de esperança: afinal, há elefantes no Parque Nacional do Cantanhez, no corredor ecológico transfronteiriço de Balana!



Foto nº 1 



Foto nº 2 >

Guiné- Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional de Cantanhez > Dois elefantes fotografados por uma câmara trap (fotoarmadilhagem), no corredor de Balana, por volta das 15h00 do dia 23 de fevereiro de 2026, portanto em plena época seca. Sãos indivíduos da espécie Loxodonta cyclotis. O elefante-da-floresta é uma espécie distinta do elefante-da-savana (Loxodonta africana): (i) é mais pequeno ( geralmente até 2,5 metros de altura no dorso); (ii) as presas (defesas ou dentes) são retas, viradas para baixo e mais estreitas, amareladas ou escuras (facilitando a deslocação na vegetação sem encaracolar ou prender em ramos); (iii) o seu habitat são as florestas tropicais densas); (iv) há também outras diferenças anatómicas (orelhas, dedos/unhas, mandíbula / crânio).


1.  Postagem do Facebook do  IBAP - Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas

9 de maio de 2026 >

Hoje só boas notícias,  desta vez no Parque Nacional de Cantanhez!.

A natureza celebra connosco: mais registos positivos da fauna e sinais claros de que a biodiversidade continua viva e forte.

Dois elefantes registados no Parque Nacional de Cantanhez! 

Uma câmera trap, instalada no corredor ecológico de Balana, captou recentemente dois elefantes no Parque Nacional de Cantanhez (PNC). 

As imagens mostram um dos indivíduos com um dente partido.

O registo, feito durante ações de monitorização da fauna, confirma a presença contínua desta espécie emblemática na região e representa um sinal positivo para a conservação da biodiversidade na Guiné-Bissau.
 
O corredor de Balana mantém-se essencial para a circulação da fauna selvagem, mesmo sob pressão da desflorestação e das atividades humanas. As câmeras trap continuam a ser uma ferramenta importante para o estudo e proteção dos animais no seu habitat natural. 

A direção do Parque reforça o compromisso de proteger a vida selvagem e promover a convivência entre comunidades e natureza.

Por: Américo Sanha, Adjunto conservador do PNC
.


2. Nota do editor LG:

É, de facto, um grande notícia para os guineenses que amam a sua terra e para as extraordinárias equipas (jovens, competentes, motivadas) do IBAP e do PNC. E, claro, para os amigos da Guiné-Bissau.

Mais:  é uma notícia extraordinária e de enorme valor histórico e ecológico para a Guiné-Bissau e para a conservação da biodiversidade na África Ocidental!

O registo de elefantes-da-floresta no corredor ecológico transfronteiriço de Balana, no Parque Nacional do Cantanhez (PNC) (Região de Tombali), não se deve a um  mero acaso, é a prova viva e o fruto direto do trabalho persistente do IBAP (Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas), das populações locais e de organizações parceiras. 

Nada disto se consegue sem a participação comunitária!

Para mais, trata-se de um sítio que nos é familiar, para os camaradas que estiveram em Gandembel e Ponte Balana, entre abril de 1968 e janeiro de 1969. Mas também para aqueles, de nós, que em março de 2008, visitaram estes míticos lugares no âmbito do Simpósio Internacional de Guileje (Bissau, 1-7 de março de 2008).

O uso de câmeras  trap (câmaras de foto-armadilhagem) instaladas e mantidas pelas equipas no terreno permitiu documentar o que antes eram apenas vestígios,  indícios ou relatos.

Por sua vez, o IBAP tem-se destacado precisamente pela formação de guardas e técnicos jovens, motivados e profundamente integrados nas comunidades locais.

 A proteção da floresta sagrada de Cantanhez e das vias de migração da fauna exige vigilância constante, sensibilização comunitária e combate à caça ilegal. 

Pormenor interessante: saber que um dos indivíduos tem uma presa/defesa partida é um detalhe morfológico precioso para a identificação individual e acompanhamento da espécie! 

Outro pormenor não menos  digno de registo  e de aplauso, revelador do profissionalismo do pessoal do IBAP: as fotos são de 23/2/2026 e a divulgação pública (redes sociais, rádio, televisão...)  aconteceu quase 3 meses depois (em 9/5/2026). 

A cautela na divulgação da notícia faz todo o sentido: revelar a localização exata de espécimes de Loxodonta cyclotis em tempo real poderia atrair redes de caça ilegal e colocar os animais e as equipas no terreno em risco imediato.  

Guiné 61/74 - P28238: Fauna e flora (31): da enorme biodiversidade à riqueza lexical e linguística da nossa... "Guinesinha" (que é, de facto, uma "África em miniatura"): dari, muntu, tucurtacar, bufre, jagudi ou cacur, sancu, macaco-cão, alma de biafada, peixe-mulher...

Elefante: o nome científico é Loxodonta cyclotis (Matsch). Os fulas chamam-lhe Nhiuá; para o futa.fula é Maubá; em madinga diz-se Samom; em manjaco, Olom; em papel, Oinga; e em saracolé, Turé. 

Fonte: Guia de Identificação dos Animais da Guiné-Bissau. República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Departamento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d (Disponível em formato pdf, aqui, no sítio do IBAP ,https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf


Nenhum de nós, antigos combatentes da Guiné, alguma vez pôs  a vista em cima de um  elefante, solitário ou em manada,  durante a guerra... A não ser o "básico de Bambadinca" que, contava-se, um dia, quando estava de sentinela, acordou todo o quartel e as tabancas à volta, aos tiros de G3 em posição de rajada...

Interpelado pelo graduado que fazia a ronda, jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...  

Há uma réstea de esperança de que o elefante não tenha desaparecido de todo no sudeste da Guiné: nos últimos anos tem sido muito esporadicamente avistado e até fotografado no corredor transfronteiriço constituído pelo  Complexo Dulombi-Boé-Tchetche (Vd. infografia acima reproduzida).  

Em 1955 estava protegido por lei.   Mas a caça furtiva, o tráfico de marfim (que não foi proibido), a(s) guerra(s), e o abate das árvores de grande porte, a par da explosão demográfica humana (a Guiné passou de meio milhão para mais de 2 milhões de habitantes em menos de meio século) são alguns dos factores apontados pelo IBAP (Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas, da Guiné-Bissau) para o desaparecimento progressivo (e se calhar irreversível) desta espécie animal absolutamente emblemática de toda a África. 

O mesmo aconteceu, desgraçadamente,  em Angola e em Moçambique, palcos de violentos conflitos armados, países nascidos de partos com muito sangue, suor e lagrimas...  

A boa notícia é que o número de elefantes duplicou desde 2018 em Moçambique, passando agora para 22,7 mil indivíduos,

Angola terá passado de mais de 70 mil elefantes em meados dos anos 50 para 3,4 mil no princípio do sec. XXI. Uma hecatombe.





1.   Ainda sobre o Decreto n.º 40040, de 20 de janeiro de 1955, emitido pelo Ministério do Ultramar e assinado pelo ministro Manuel Maria Sarmento Rodrigues (*): é de facto um marco fundador na história do direito ambiental e da conservação da natureza na administração colonial portuguesa. É um extenso e detalhado diploma com preâmbulo e 134 artigos, divididos por 6 capítulos e com 2 anexos.

Preâmbulo 
I (Disposições gerais) (art 1º - art 2º) 
II (Dos órgãos superiores de proteção da natureza) (art 3º - art 9º)
III (Da proteção do solo) (art 10º - art 29º)
IV (Da proteçáo da flora) (art 30º - art 41º)
V  (Da proteção da fauna) (art 42º - art 132º) 
VI (Disposições finais) (art 133º - art 134º)
Anexos I e II


(i) Contexto histórico e internacional
 
Já falámos, no poste anterior (*), da necessidade que o Estado Portuguès sentiu, na década de 1950, de fazer o "upgrade"  da sua legislação  em matéria de "conservação da natureza" nos  territórios ultramarinos, incluindo a regulamentação da caça e da pesca. 

O diploma, que merece uma análise  mais detalhada, resulta de uma visão integrada da "proteçáo da natureza" (solo, flora e fauna). Tem, naturalmente, pontos fortes e fracos, que serão analisados em próximo poste.

Era então ministro do ultramar (1950/55) um dos  mais conceituados políticos do Estado Novo, o oficial superor Sarmento Rodrigues (promovido a capitão-de-mar-e.guerra em 1953), depois de ter sido Governador da Guiné (1945-49).

Sarmento Rodrigues trouxe uma visão pragmática baseada na sua experiência de terreno. O seu mandato será marcado por um discurso de "desenvolvimento"  e "modernização" das colónias (rebatizadas em 1951 como "províncias ultramarinas"), onde a conservação da natureza era vista como parte de um projeto civilizacional (e não apenas ecológico).

O diploma integra orientações e recomendações da Convenção de Londres de 1933, ratificada por Portugal em 1948, bem como da Conferência de Bukavu (outubro de 1953 (pontos 6 e 7 do preâmbulo do Decreto nº 40 040).

O primeiro regulamento de caça da Guiné é só de 1948, mas já tem tinha em linha de conta o espírito e a letra da Convenção de Londres. As últimas atualizações da regulamentação da caça em  Moçambique e Angola remontavam a 1941 e 1942, respetivamente. A de Cabo Verde era de 1928 e a de Timor  1935.

Para a contextualização do diploma, é importante saber que a Convenção de Londres (1933) veio estabelece classes de proteção para espécies (A, B, C), que o decreto adotou no Anexo I. Por exemplo:
  • Classe A (+): Espécies com proteção total (ex.: gorila, elefante de floresta, rinoceronte branco).
  • Classe B (×): Espécies com restrições (ex.: chimpanzé, elefante de savana com presas < 5 kg).
  • Classe C ("): Espécies com proteção parcial (ex.: pangolim, urso-formigueiro).
Por sua vez, a Conferência de Bukavu (1953) (Conferência Interafricana sobre Fauna e Flora, em que participaram a Bélgica, país anfitrião, a França,  Portugal e o Reino Unido) introduziu recomendações adicionais para a conservação, que o decreto incorpora, como a criação de zonas de proteção (parques nacionais, reservas integrais) e a regulamentação da caça utilitária. (Bukavu é una localidade da  na atual República Democrática do Congo, na altura, colónia do Congo Belga).

(ii)  Análise da Lista de Espécies Protegidas na Guiné (Anexo I)

O Anexo I estabelece a lista de animais cuja caça passava a ser estritamente proibida (frequentemente correspondendo às classes de proteção da Convenção de Londres, de 1933).

Na lista que reproduzimos no poste anterior, e no que diz respeito apenas à Guiné,  havia  valiosos pormenores taxonómicos, vernáculos e ecológicos, que merecem ser recordados ou conhecidos Para os mais interessados, e eventual pesquisa de informação adicional, aqui ficam os nomes vernáculos e científicos das espécies dos mamíferos e aves protegidas em 1955. (Poderão observá-los, numa próxima ida ao Jardim Zoológico, com os netos.)
 
  • Pangolim / Papa-formigas de escama (Smutsia, Phataginus, Uromanis)
  • Urso formigueiro / Porco formigueiro (Orycteropus afer)
  • Chimpanzé (Pan troglodytes)
  • Macaco bijagó / Macaco de nariz branco (Cercopithecus nictitans)
  • Macaco fidalgo (Colobus polycomos polycomos)
  • Gato almiscarado / Civeta (Civettictis civetta)
  • Leopardo ou onça (Felis pardus)
  • Elefante de floresta (Loxodonta cyclotis)
  • Manatim ou peixe-mulher / peixe-boi (Trichechus senegalensis)
  • Cabra grande / Muntual (Cephalophus silvicultor)
  • Elande gigante (Taurotragus derbianus)
  • Oribi / Gazela da pedra (Ourebia ourebi quadriscopa)
  • Palanca vermelha / Boca branca / Matagaiça (Hippotragus equinus)
  • Sitatonga / Inhala das lagoas (Limnotragus spekii selousi)
  • Tancon (Alcelaphus buselaphus major) ou alcefe da África Ocidental)
  • Abutres / Jagudis (Gyps, Pseudogyps, Trigonoceps, Neophron, Necrosyrtes)
  • Andorinhas (Hirundo, Petrochelidon, etc.)
  • Calaus / Alma de biafada / Peru do mato (Bucorvus abyssinicus)
  • Cegonhas (Ciconia)
  • Estorninhos (Cinnyricinclus, Lamprocolius, Lamprotornis, etc.)
  • Galinha azul / Galinha de poupa (Guttera edouardi pallasi)
  • Garças brancas / Carraceiras (Bubulcus ibis, Casmerodius, etc.)
  • Marabu (Leptoptilos crumeniferus)
  • Papagaio cinzento (Psittacus erithacus timneh), endémico/característico do arquipélago dos Bijagós
  • Pavão gigante (Corythaeola cristata),  o Turaco-gigante)
  • Pratíncolas / Aves das locustas (Glareola, Galachrysia)




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Desenhados nas paredes das instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento em Iemberém

Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 >  Alguns dos animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento

Fotos de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no âmbito do Simpósio Internacional de Guile modje (Bissau, 1-7 de março de 2008).

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

(iii) Observações Histórico-Ecológicas

Nomenclatura vernácula local:  a Guiné-Bissau, apesar de muitos erros do passado e do presente, ainda é uma "Africa em miniatura": a sua riqueza, nomeadamente faunística, vai a par da riqueza lexical e linguística, resultante da existência do português, do crioulo e de dezenas de línguas locais... Tome-se como exemplo o búfalo, que eu nunca vi na natureza (e também nunca fui caçador):
  • nome científico: Syncerus manus planiceros (Bly); 
  • em crioulo, Bufre;  
  • em balanta, Impungde; 
  • em fula, Edá; 
  • e Siô, em mandinga.
O documento acima citada (Decreto nº 40040, de 20 de janeiro de 1955)  é muito rico ao registar nomes tradicionais e crioulos da Guiné. Termos que refletem a assimilação e catalogação da fauna pela administração com recurso aos conhecimentos locais. Alguns destes termos, em crioulo, já nos eram familiares na Guiné, com o coloquial "sancu" (macaco):
  • "Jagudi" para abutre (em crioulo, cacur);
  • "Alma de biafada" para calau;
  • "Boca branca" ou "Matagaiça" para a palanca vermelha;
  • "Muntual" ou "Muntu" para a cabra grande;
  • "Fatango" e "Macaco fidalgo" para os colobos;
  • "Onça" para o leopardo;
  • "Peixe.mulher" para o manatim;
  • "Tucurtacar" para o pangolim;
  • "Lobo" para a hiena (nos contos tradicionais guineenses);
  • "Dari" para chimpanzé; 
  • "Sancu" (macaco, em geral; babuino ou "macaco-cão", em especialidade), etc.
Biogeografia  do território: a  inclusão de mamíferos como o manatim (comum nos ecossistemas estuarinos e no arquipélago dos Bijagós), do chimpanzé (florestas do sul) e do elande gigante e tancon (savanas do interior/Leste) demonstra uma visão abrangente da diversidade de biomas guineenses (desde os mangais e florestas costeiras às savanas do interior).

Impacto do regime de caça utilitária e aborígene: o diploma distingue expressamente os direitos de caça dos indígenas (usando "armas gentílicas" para subsistência em terrenos abertos) da caça recreativa ou utilitária praticada por colonos ou turistas mediante licenças pagas.

Legado na conservação: o Decreto n.º 40040 preparou o terreno técnico para a criação da rede de parques nacionais e naturais da Guiné-Bissau, no pós-.independência. 

Pesquisa: LG + Blogue + IA (Gemini / Google)
(Condenação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28235: Fauna e flora (30): O decreto nº 40040, de 20 de janeiro de 1955, do Ministério do Ultramar, não é apenas um regulamento "colonialista" da caça, mas sim um diploma pioneiro (e premonitório) sem o qual os guineenses não teriam hoje Parques Nacionais como os do Cantanhez, João Vieira e Poilão (marinho), Ilhas de Orango, ou os parques naturais como os dos Tarrafes do Rio Cacheu ou das Lagoas de Cufada , ou o Complexo Dulombi-Boé-Tchetche (corredor transfronteiriço)

 

Angola > c. anos 30 > "A Exma. Esposa  do Coronel Félix montada num búfalo-pacaça, que, minutos antes, ela própria abatera a tiro de rifle"  (Joaquim António da Silva Félix era ofcial do exército, coronel, industrial, agricultor e publicista, dono da fazenda Glória, colaborador do Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, que congregava parte da "intelligentsia" do colonialismo republicano, radicada no Brasil)

Fonte: Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, nº 8, janeiro e março de 1934, pág. 35.

 


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Primatas do Cantanhez: o "fatango" (macaco-fidalgo)... Desenhado nas paredes das instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento, em Iemberém. (Para saber mais, ver  Guia_Mamiferos_Cantanhez_web-res_2017.pdf .)

No Cantanhez, há  o macaco fidalgo vermelho (Piliocolobus badius).  e o  macaco fidalgo preto (Colobus polykomos). Em crioulo, ambos são fatango.

Nomes locais, para o macaco fidalgo vermelho: Mane (nalu) | Nhandjo (fula) |  Tugdu-hanz (balanta).

Nomes locais para o macaco fidalgo preto: Madisom/Dossé (nalu) | Bando (fula) | Tugdu-mon (balanta).



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 > A "onça" [leopardo-africano], um animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento

Era abundante em tempos, foi sobrecaçada, por causa da beleza da sua pele (e não só:  metia-se onde não devia, por exemplo no perímetro armadilhado dos nossos aquartelamentos)... E hoje o seu habitat vai-se degradando... 

Fotografia de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no âmbito do Simpósio Internacional de Guiledje (Bissau, 1-7 de março de 2008).


Foto (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Decreto nº 40 040, de 20 de janeiro de 1955, do Ministério do Ultramar. Anexo I:  Animais cuja caça é proibida.


1. Julgamos que é a primeira lista, aprovada por diploma legal, proibindo a caça de certas espécies animais protegidas nos territórios ultramarinos, de Cabo Verde a Timor... Na Guiné,  contemplam -se, pelo menos, 16 espécies de mamíferos e 11 de aves (incluindo os abutres ou jagudis):

Este diploma merece ser visto como um marco histórico . O Decreto n.º 40 040, de 20 de janeiro de 1955, da autoria do Ministério do Ultramar, sob tutela de Manuel Sarmento Rodrigues (1899-1979), é provavelmente o primeiro grande diploma português que estabelece uma política sistemática de proteção da natureza e regulamentação da caça em todas as províncias ultramarinas.

O contexto é importante. Estamos em 1955, numa época em que a palavra "ecologia" praticamente não fazia parte do discurso político. A preocupação dominante era a gestão cinegética, mas o diploma vai muito além disso: cria reservas, coutadas, fiscalização, serviços veterinários especializados e comissões de caça, prevendo inclusivamente investigação científica e medidas de conservação da fauna. 

Para a época, é um documento bastante avançado. Pioneiro. E premonitório.

No preâmbulo e no articulado, a fauna é apresentada como um património que importa conservar, fomentar e aproveitar racionalmente, evitando a sua destruição indiscriminada. A proteção das espécies aparece ligada tanto ao interesse científico como ao interesse económico e ao equilíbrio dos ecossistemas.

Importa, todavia, sublinhar que, na década de 1950, o regime do Estado Novo enfrentava já crescentes pressões internacionais em relação aos seus territórios ultramarinos. 

Ao mesmo tempo, no plano da conservação, consolidava-se a diplomacia ambiental europeia em África.

 O preâmbulo do diploma refere explicitamente a Convenção de Londres de 1933 (focada na preservação da fauna e flora no continente africano) e a Conferência de Bukavu de 1953.

Com este decreto, o Estado português procurava modernizar a sua legislação ambiental nas colónias (que passaram a "províncias ultramarinas" em 1951) para se alinhar com as recomendações das potências coloniais vizinhas  (Grã-Bretanha, França e Bélgica) e demonstrar uma gestão "científica" e "civilizada" do território.


No caso da Guiné, a lista das espécies totalmente protegidas revela bem o conhecimento zoológico existente na época.
 
Mamíferos protegidos na Guiné

Entre as 16 espécies de mamíferos figuram espécies emblemáticas:
  • pangolim;
  • urso-formigueiro (aardvark);
  • chimpanzé;
  • lémure;
  • macaco-de-nariz-branco (macaco bijagó);
  • macaco-fidalgo;
  • gato-almiscarado;
  • leopardo ("onça");
  • elefante-da-floresta;
  • manatim (ou peixe-bice);
  • cabra-grande (bongo);
  • elande-gigante;
  • oribi;
  • palanca-vermelha;
  • sitatonga;
  • ancon (alcélafo-maior).
O anexo identifica estas espécies pelo respetivo nome científico e pelo nome local ( crioulo), e indica também a sua distribuição por províncias ultramarinas: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, Índia, Macau  e Timor.

É interessante notar que muitas destas espécies continuam hoje classificadas como vulneráveis ou ameaçadas (ou até extintas, no território).

Também a lista das 11 aves é reveladora:
  • abutres (jagudis);
  • andorinhas;
  • calaus;
  • cegonhas;
  • estorninhos;
  • galinha-azul;
  • garças-brancas;
  • marabus;
  • papagaio-cinzento;
  • pavão-gigante;
  • pratíncolas.

Há aqui algumas escolhas curiosas:

(i) os abutres, por exemplo, eram protegidos numa época em que, para muitas populações rurais, eram vistos apenas como aves necrófagas, desprezíveis, sem valor;  já sabíamos, nós, os militares,  que desempenhavam um papel sanitário fundamental na eliminação de carcaças e no controlo da disseminação de doenças;

(ii) o papagaio-cinzento africano é hoje uma das aves mais ameaçadas pelo comércio ilegal;

(iii) o pavão-gigante africano continua a ser uma espécie rara das florestas húmidas da Alta Guiné;

(iv) quanto à galinha-azul (Guttera edouardi pallasi), trata-se de uma ave florestal de grande interesse biogeográfico.

2. Um diploma pioneiro... 

Visto à distância de setenta anos, impressiona encontrar disposições que hoje associaríamos à biologia da conservação, denotando uma visão "integrada e sistémica" do problema.

De facto, uma das grandes inovações deste diploma para a época foi integrar, num único corpo legal, a proteção do solo, da flora e da fauna. 

O preâmbulo justifica abertamente essa opção: «pretendeu-se traduzir na lei a unidade que no campo da natureza existe entre o solo, o seu revestimento vegetal e os animais selvagens».

 Criou-se também em cada província um Conselho de Protecção da Natureza (gerido sob a alçada dos governadores) e dividiram-se as zonas protegidas em parques nacionais, reservas naturais integrais, reservas parciais e reservas especiais, a par de:
  • fiscalização especializada;
  • estudos científicos sobre a fauna;
  • controlo das migrações;
  • combate às doenças da fauna selvagem;
  • repovoamento cinegético;
  • estações experimentais de domesticação;
  • limitação do abate de espécies protegidas.

Naturalmente, havia também uma lógica utilitária e colonial: conservar para permitir um aproveitamento futuro dos recursos naturais. Não era ainda uma conservação baseada na biodiversidade enquanto valor intrínseco. Também não sabemos como, na prática, no terreno, o diploma foi implementado...

Todavia, para quem, como nós, viveu na Guiné ( e alguns, em Cabo Verde, Angola ou Moçambique)  dois anos (ou mais),   esta lista desperta inevitavelmente memórias.

É curioso verificar que os jagudis, tantas vezes lembrados nas histórias de humor de caserna (quase sempre associados às lixeiras das tabancas e dos nossos aquartelamentos) figuravam afinal entre as aves legalmente protegidas desde 1955. 

A imagem popular do jagudi como simples "almeida" (=varredor do lixo) escondia a sua enorme importância ecológica como necrófago.

Também impressiona pensar que espécies como o elefante-da-floresta, o chimpanzé, o manatim ou o pangolim, relativamente bem conhecidas na Guiné dos anos 1950, sofreram depois uma forte regressão devido à caça, à destruição do habitat e ao crescimento demográfico. 

Em suma, o Decreto n.º 40 040 representa um documento pioneiro na história da conservação da natureza nos territórios portugueses de África. Embora concebido numa perspetiva colonial e cinegética, antecipou em vários aspetos princípios que só décadas mais tarde se tornariam correntes na política internacional de conservação da biodiversidade. 

A lista de espécies protegidas da Guiné constitui, além disso, um valioso retrato da riqueza faunística do território em meados do século XX.

3. Um diploma também premonitório...

Com a guerra (1961/74), o elefante-da-floresta deixou de aparecer. Mas pode não ter desaparecido completamente da Guiné-Bissau, como aconteceu com o leão.

Durante muitos anos pensou-se que sim, que o elefante-da-.floresta tinha desaparecido mas trabalhos de campo realizados entre 2020 e 2022 confirmaram a sobrevivência de um núcleo minúsculo, provavelmente de apenas alguns indivíduos, na região fronteiriça do sul, entre o Cantanhez, o Corubal e a Guiné-Conacri. É uma das populações mais pequenas e isoladas de toda a África Ocidental, sendo vital a criação e/ou a manutenção de um corredor transfronteiriço ( como é o caso do Complexo Dulombi-Boé - Cheche).

De qualquer modo, há muito que o elefante deixou de fazer parte da paisagem guineense. Um caçador profissional dos anos 1950 ainda podia sonhar encontrar um elefante; hoje seria um acontecimento absolutamente excecional. Os miúdos das escolas do poderão conhecê-lo, mas só para nos livros.

Quanto às outras espécies, a evolução destes 70 anos é dramática.

(i) Praticamente desaparecidas ou funcionalmente extintas
  • Elande-gigante (Taurotragus derbianus): muito provavelmente desapareceu da Guiné-Bissau ainda no século XX; os últimos registos credíveis são antigos e admite-se que apenas aparecessem animais errantes vindos do Senegal ou da Guiné-Conacri;
  • Bongo ("cabra grande"): era uma espécie típica das florestas húmidas; hoje é considerado extinto na Guiné-Bissau;
  • Leopardo ("onça"): sobrevive apenas através de relatos ocasionais; não existe confirmação recente de uma população viável;
  • Palanca-vermelha e sitatonga: sofreram um colapso muito acentuado; sobrevivem, se sobreviverem, apenas em bolsas muito localizadas.

(ii) Espécies muito reduzidas:

  • Chimpanzé: o contrário do que se receava nos anos 1980, não desapareceu; os estudos mais recentes apontam para várias centenas de indivíduos, concentrados sobretudo no Cantanhez e no Boé; o Boé poderá albergar cerca de 700 chimpanzés, e o total nacional ronda aproximadamente 600–1.000 indivíduos, embora as estimativas variem; 
  • Manatim: continua presente nos estuários do Cacheu, Geba, Corubal e Cacine, mas é hoje muito raro devido às capturas acidentais em redes, caça e degradação dos mangais;
  • Pangolim: continua a existir, mas tornou-se muito mais raro por causa da caça para consumo e do comércio ilegal.

(iii) Espécies relativamente resistentes:

  • Macacos (fidalgo, bijagó, patas, babuínos): ainda persistem em várias regiões, embora com densidades muito inferiores às de há meio século;
  • Calaus, garças, marabus e muitos abutres ainda existem, mas algumas populações diminuíram significativamente.

(iv) Porquê esta diminuição drástica da fauna da Guiné-Bissau, em 70 anos ?

Haverá pelo menos umas cinco causas principais, de resto já sobejamente conhecidas: 
  • Caça, primeiro para subsistência e depois para abastecer os mercados urbanos (onde espécies com o macaco-cão, por exenplo, são produto gourmet);.
  • Armas de fogo cada vez mais acessíveis (durante da guerra de independência);
  • Explosão demográfica: a população da Guiné-Bissau passou de cerca de meio milhão de habitantes nos anos 1950 para mais de dois milhões atualmente;
  • Destruição do habitat, especialmente pela expansão dos cajueiros, agricultura itinerante, produção de carvão, abertura de estradas e mineração;
  • Fragmentação das florestas, isolando pequenas populações incapazes de manter diversidade genética.

Em 1955, o legislador protegeu espécies como o elefante, o chimpanzé, o bongo, o manatim ou o pangolim porque já reconhecia que eram raras ou vulneráveis. Setenta anos depois, percebe-se que essa lista tinha um valor quase premonitório: muitas das espécies então protegidas são precisamente aquelas que mais sofreram ou desapareceram da fauna guineense, como se pode ver na comparação a seguir:

Espécie protegida em 1955 | Situação aproximada em 2026
  • Elefante-da-floresta > Restam apenas alguns indivíduos, se a população sobreviver
  • Chimpanzé  > Algumas centenas, sobretudo Boé e Cantanhez
  • Bongo (cabra-grande) > Extinto no país
  • Elande-gigante  > Extinto no país
  • Leopardo  > Eventualmente residual, sem população confirmada
  • Manatim > Muito raro
  • Pangolim > Em forte declínio
  • Papagaio-cinzento  > Em declínio devido à captura e perda de habitat

Essa comparação tem ajuda-nos a valorizar, a nós, portugueses e guineenses, a importância histórica, legal e ecológica deste diploma do "colonialista" Sarmento Rodrigues e a a sua equipa: c
omo é que  como um documento colonial de 1955, pensado para regular a caça, acabou por se transformar involuntariamente num testemunho da extraordinária riqueza faunística que a Guiné-Bissau possuía antes da grande transformação ecológica da segunda metade do século XX.

E mais: o Decreto n.º 40040 preparou o terreno técnico para a delimitação posterior de coutadas e áreas de proteção na Guiné,  cujos ecossistemas viriam mais tarde a sofrer forte impacto com o eclosão da guerra colonial / guerra de libertação (1961/74), mas cujas bases de inventariação serviram de referência para a rede de Parques Nacionais e Naturais da Guiné-Bissau pós-independência, geridos pelo IBAP - Instituto de Biodiversidade e Áreas Protegidas.

(Continua)

Pesquisa: LG + Blogue + IBAP + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini Google)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, links: LG.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 1 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28065: Fauna e flora (29): as cegonhas-brancas do Cabo Sardão, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (Luís Graça)

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28228: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (72): A jaca, espécie invasora tropical, que já chegou a Bijante, Bubaque, Bijagós



Foto nº 1 e 1A




Foto nº 2, 2A, 2B

Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Bijana > Quionta feira, 23 de julho de 2026 >  Jaca, uma árvore de fruto tropical invasora

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


1. Fotos enviadas pelo Patrício Ribeiro, nosso "embaixador em Bissau", empresário (
Impar Lda), que chegou a Bubaque, no dia 10, por volta das 13:55. Apanhou muita chuva. Devido à lentidão da Net, manda-nos sempre uma foto de cada vez. Estas foram tiradas a 23 do corrente, por volta das 14h45. Têm legendas lacónicas

Foto nº 1 - Jaca. Fruto
Foto nº 2 - Árvore da jaca. Imponente
Foto nº 3 - Abastecimento à horta de Bijante, que tem um hectare, para produzir legumes. São os nossos passeios por toda a Guiné, que nos traz a estes lugares.

Publicamos hoje as fotos relativas à árvore da jaca e o seu fruto (invulgar).


2. Comentário do editor LG:

Jaca, substantivo feminino, segundo o Priberam, quer dizer duas coisas, em botânica:

 (i) fruto carnudo, grande e pesado, de cor verde, gomos amarelados, sabor adocicado e cheiro característico; 

(ii) árvore (Artocarpus heterophyllus) da família das moráceas, de grandes dimensões, nativa da Ásia, cultivada pela boa madeira e pelos frutos carnudos comestíveis, grandes e pesados, de cor verde. = Jaqueira

Fonte: "jaca", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-br/jaca.

A Artocarpus heterophyllus, mais conhecida como jaqueira, é uma espécie nativa do sudoeste da Índia, onde cresce em florestas pluviais até cerca de 1000 metros de altitude. 

Esta árvore pode atingir até 20 metros de altura e é amplamente cultivada em várias regiões tropicais do mundo, não só pela sua utilidade alimentar (o fruto, a jaca, é um dos maiores do mundo e muito nutritivo), mas também por usos medicinais e como alimento animal. 

No entanto, a sua introdução em ecossistemas não nativos, como a Mata Atlântica brasileira,  tem levantado preocupações sérias. 

A jaqueira é considerada uma espécie invasora em vários países, incluindo o Brasil, onde estudos demonstram que a sua presença altera significativamente a riqueza de espécies, a diversidade da vegetação e até a composição química dos solos dos locais invadidos. Ou seja, tende a modificar o ambiente de forma a favorecer a sua própria expansão, o que justifica a necessidade do controlo e até da sua remoção em áreas sensíveis.

Na Guiné-Bissau, a sua eventual introdução nas ilhas Bijagós (um arquipélago com uma biodiversidade única e frágil ) pode vir a representar uma ameaça ecológica, uma vez que a jaqueira compete agressivamente com as espécies nativas, alterando o equilíbrio ecológico e reduzindo a diversidade de plantas e animais endémicos. A sua capacidade de se adaptar a diferentes tipos de solo e clima tropical facilita a sua disseminação, tornando-a uma espécie difícil de erradicar uma vez estabelecida. 

Não sabemos se esta jaqueira do Patrício Ribeiro é um caso isolado ou se já  há plantações na ilha, o que seria muito mau.. Achamos que não: aqui, devido às dificuldades de conservação, transporte e armazenamento, a jaca aqui não deve ter valor comercial, embora na Europa possa atingir valores...proibitivos.

Principais produtores mundiais: Índia, Bangladesh, Tailândia, Vietname... mas também Brasil.

Em Portugal, a jaca é considerada uma fruta exótica e rara, encontrada principalmente em pedaços embalados ou enlatada em lojas especializadas e grandes superfícies.

 O seu preço é considerado muito alto devido à importação  e à logística: é um fruto é altamente perecível (apodrece facilmente) e pode custar  frequentemente dezenas largas de euros por porção ou por unidade inteira.

 (Pesquisa: LG + Wikipedia +  IA | Mistral) (Condensação, revisão / fixação de texto: LG)