Perante o estremunhado oficial de dia (ou sargento de dia, a quem competia fazer a ronda pelos postos de sentinela do vasto perímetro do quartel), jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...
Feito o reconhecimento do local, pela manhã, ninguém encontrou (nem podia encontrar) vestígios da manada de elefantes ao serviço dos "turras"...
2. Sabemos que, em contexto de guerra, mum quartel do mato, às tantas da noite, em África, é possível ter "alucinações" destas..
É um tema fascinante e complexo, que não tem sido abordado no blogue: em contextos extremos, ou situações-limite, em ambientes de alta tensão, como a guerra, o isolamento, o cansaço, a insolação, a desidratação ou até a subnutrição, prolongadas, enfim, em situações de exaustão física e mental, ou de privação sensorial (como a escuridão total do mato à noite), etc., o cérebro humano pode gerar alucinações hipnagógicas (na transição para o sono) ou hipnopômpicas (ao acordar), ou até alucinações sensoriais completas.
Estes fenómenos não teriam sido incomuns no nosso tempo, no CTIG. Estão documentados (e estudados) noutros teatros de operações, sendo comuns, por exemplo, em soldados envolvidos em missões prolongadas: combatentes em guerras (como a do Vietname ou os conflitos modernos no Médio Oriente) relatam casos de alucinações visuais e auditivas, especialmente em ambientes de isolamento, combates prolongados, falta de sono, grande sofrimento físico e psíquico, promiscuidade, desconforto e vulnerabilidade dos "bunkers", etc.;
Outra situação comum é a privação sensorial: no mato, à noite, a ausência de estímulos visuais claros pode levar o cérebro a "preencher lacunas" com imagens ou sons imaginários: o som do vento, a trovoada, os relâmpagos, a chuva, o piar de "aves agoirentas", os ruídos provocados por animais noturnos, ou a simples fadiga... podem distorcer a perceção da realidade.
O stress agudo e o pânico fizeram o resto: o "básico de Bambadinca" (possivelmente castigado com umas noites nos postes de sentinela) estava em estado de hipervigilância. Nessa situação, qualquer estímulo ambíguo (um ruído, uma sombra) pode ser amplificado pelo cérebro como uma ameaça real; a G3 em rajada sugere uma reação de pânico instintivo, onde a mente, já em alerta máximo, "vê" o que teme (neste caso, elefantes, que na Guiné-Bissau eram nativos e simbolizavam um perigo real, ainda que totalmente improvável naquele contexto, na zona leste, em Bambadinca).
O facto de ser um ajudante de cozinha (e não um operacional, e que, para mais, a cumprir um "castigo") é revelador: tinha menor preparação (física e psicológica) para lidar com a tensão de uma sentinela, na noite de África; estava menos familiarizado com a G3; não saía para o mato, não estava integrado em nenhum grupo de combate, etc.
Recorde-se que, mesmo numa CCS (Companhia de Comandos e Serviços), em quartéis do mato, como Bambadinca, sede de batalhão, os não-operacionais (escriturários, mecânicos, etc.) estavam escaladas para, regularmente, fazer o serviço de guarda (e os graduados, as respetivas rondas). E havia sempre escassez de efetivos, daí também o recurso aos "básicos".
Elefantes em Bambadinca ? A Guiné-Bissau tinha (e ainda tem) elefantes, embora em números muito reduzidos , e apenas num corredor transfronteiriço, na região de Tombali, que hoje faz parte do Complexo Dulombi-Boé-Tchetche. (**)
A experiência extrassensorial do nosso "básico" também terá a ver com a "expectativa cultural": tal como muitos outros militares metropolitanos, ele ouviu, desde a escola, contar histórias sobre elefantes, lesões e outros animais emblemáticos de África. Todavia, e a menos que já tivesse visitado o Jardim Zoológico de Lisboa, nunca tinha vista ao vivo e a cores um elefante, um leão, um leopardo, um jagudi. Nem sequer um macaco!
Por outro lado, sabemos que o pânico é contagioso em grupo ou multidão: o som dos tiros, às tantas da noite, acordava o pessoal todo.
Também não é preciso recordar que estávamos num conflito armado, onde a tensão se fazia sentir. O cansaço, a monotonia e a sensação de isolamento (a Guiné ficava a 4 mil km de Lisboa) criavam um terreno fértil para a síndrome do combatente, e inclusive para o que hoje chamaríamos de PTSD - Perturbação de Stress Pós-Traumático ( em português ), podendo-se manifestar sob a forma de ansiedade, insónias e alucinações. "Estar apanhado do clima" era a expressão de caserna equivalente...
Na Guiné, havia pouca mobilidade: o nosso soldado "básico" permaneceu quase dois anos no mesmo sítio. Enfim , este é um caso clássico de alucinação induzida pelo stress.
De qualquer modo, justiça se lhe faça: o "básico de Bambadinca" não mentiu nem inventou, o seu cérebro, em condições extremas, criou uma perceção falsa, mas para ele, naquele momento, era 100% real.
(**) Vd. poste de 4 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28239: Fauna e flora (33): Um raio de eperança: afinal, há elefantes no Parque Nacional do Cantanhez, no corredor ecológico transfronteiriço de Balana!
























