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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27985: Em bom português nos entendemos (31): Carica papaya: Papaieira, mamoeiro, papaia, mamão, ababaia...



Guiné-Bissau >Bissau > Impar Lda > 2019 >  Belíssimo postal de boas festas que nos chegou, com data de 16/12/2019,   de Bissau, no correio do Patrício Ribeiro, "patrão" da empresa Impar Lda. (Na imagem acima, uma papaieira, árvore caricácea que produz a papaia: vê-se que ainda estavam verdes...).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >   O alf graduado capelão, padre José Torres Neves, a "apalpar a fruta" (sem qualquer conotação sexual...), neste caso, a papaia, que ainda estava verde... Em segundo plano , parece-nos o  padre franciscano Júlio do Patrocínio, da missão católica de Santa Ana de Mansoa (fundada oficialmente  em 1953).  O Ernestino Caniço não restante nem um nem outro, o José Torres Neves e o Júlio do Patrocínio. Devem sere então dois graduados, à civil, da CCS/BCAÇ 2885.

Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Bissau > Quintal do Patrício Ribeiro > Abril de 2026 >  Uma papaieira (árvore caricácea que produz a papaia, nome científico Carica papaya).  uma linda papaia madura (parece-nos, pela cor).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Isto de frutas tropicais e subtropicais tem muito que se lhe diga... Papaia ou mamão ? É tudo a mesma coisa, só diferem no tamanho ?... O mamão maior e mais arredondado, e a papaia mais pequena e alongada ?...

Mamão, papaia ou ababaia é o fruto do mamoeiro ou papaeira, árvores da espécie  Carica papaya (nome científico).

A espécie é nativa do sul do México, América Central e norte da América do Sul, estando naturalizada nas Caraíbas, Flórida e diversas regiões de África e Ásia. 

A espécie é cultivada como fruteira no  Brasil, Índia, Austrália, Malásia, Indonésia, Filipinas, Angola, Havai e muitas outras regiões dos trópicos e subtrópicos... A Índia é o 1º produtor mundial, seguida do Brasil... E também cresce, e bem, no quintal do Patrício Ribeiro, o "pai dos tugas", em Bissau (*)...

Diz o Alberto Branquinho: 

"Da minha experiência nas andanças pela Guiné, fiquei com as seguintes ideias:

  • o mamão tem a configuração de um melão pequeno;
  • a papaia (cortada de cima - pedúnculo de fixação à planta - até à parte inferior) tem a configuração de uma viola
Ambos os frutos, quando bem maduros, têm cor idêntica (laranja forte).

Tanto em Cabo Verde como no Brasil encontrei pessoas que chamam mamão a ambas. A palavra 'ababaia' não conheço!"

sábado, 2 de maio de 2026 às 22:58:00 WEST 

2. O que apurámos  na Net, permite distinguir o seguinte:

Eventuais diferenças:

(i) Papaia (Hawai): fruto mais pequeno, peso à volta de 300g / 500g, polpa laranja intenso, muito doce e ideal para comer à colher;

(ii) Mamão (Formosa): fruto maior, pode pesar mais de 1 kg, polpa laranja claro/amarelo, sabor mais suave, ótimo para sucos e saladas.

No Brasil e em Angola, diz-se mamão.
 Mas também papaia: "em Angola utilizam-se os termos mamão / mamoeiro para identificar o fruto mais arredondado, identificando papaia / papaeira com o fruto mais alongado. São frutas ovaladas, com casca macia e amarela ou esverdeada. Sua polpa é de uma cor laranja forte, doce e macia. Há uma cavidade central preenchida com sementes negras". Distingue-ser duas variedades: mamão Formosa e mamão Hawai, que se dão muito em Angola, comforme a zona e o clima. 

Em Portugal,  na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, usa-se mais o termo papaia (e papaia gigante nos mercados em Bissau: vd aqui foto de Cabral Fernandes Yasmine, à direita).

No hiper onde  faço compras (o Auchan Alfragide, passe a publicidade), chamam papaia ao fruto mais pequeno e mamão ao maior... Vem do Brasil o mamão...

Na messe, em Contuboel e Bambadinca, comíamos manga,  papaia, banana e abacaxi. Na época destes frutos... Havia ainda algumas  "pontas" (quintas) em atividade, nos arredores, aonde nos abastecíamos de frutos tropicais... A ponta Brandão, por exemplo, entre Bambadinca e Fá Mandinga... 

Tal como nas tabancas em autodefesa: não me lembro de ter comprado, davam-nas...Mas quentes não tinham o sabor que têm hoje...E, estupidamente, nem sumos fazíamos. Também não tínhamos gelo nem máquinas de sumos... E aos vagomestres faltava-lhes imaginação (e formação)... Havia tantas coisas boas na Guiné. Mas dava trabalho arranjá-las... E estávamos em guerra, tínhamos vinte anos e éramos etnocêntricos (o que quer dizer, sem ofensa para ninguém, estúpidos!)

 Mas, se bem me lembro, comia-se mais o abacaxi e a banana. A manga existia em abundância, era "mato". A papaia era mais rara. Não havia grandes extensões de papaieiras. Era cultura de quintal.  Cada árvore (uma herbácea...) dava meia dúzia de papaias. 

A agricultura da Guiné era de autossubsistência. A guerra deu cabo das "pontas". E pensar  (ironia da História!)  que foi um engenheiro agrónomo (!) do ISA  e um professor de finanças, de Coimbra,  de botas de elástico,   que deram cabo de tudo aquilo... Hoje a Guiné poderia ser um paraíso. 


3.  Valha-nos, ao menos,  a nossa bela e rica língua comum... Vejamos então o que dizem os lexicógrafos (**):  s
egundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa , "papaia" é fruto da "papaieira", e a palavra seria de origem caribe, por via do espanhol. 

(Tenho a edição completa, 6 volumes, do Círculo de Leitores, Lisboa, 2003; uma grande obra, o melhor que conheço, só é pena que o tipo de letra  seja de tamanho pequeno, dificultando a leitura e tornando a consulta penosa para a vista, e portanto menos amigável;  o editor português quis pôr o Rossio na Betesga...)

Sinónimos de papaia: bepaia, mamão, mamoa.

A etimologia vem do espanhol "papaya" (1535), palavra indigena americana , caribe ou aruaque (impossível determinar com rigor a origem, alguns autores inclinam-se mais para o caribe: "papai").

Papaieira é a árvore (Carica papaya, nome científico ). Sinónimos: ababaia, bepaia, mamão, mamoeiro, pinoguaçu...´

Na Guiné-Bissau, e em Cabo Verde, tal como em Portugal, diz-se "papaia" e "papaieira". No Brasil, e em Angola, é "mamão". Veja-se o provérnio crioulo da Guiné-Bissau:

Ami i rasa papaia: N ka ta durmi na bariga di algin (=eu sou como a papaia: não fico parado na barriga de ninguém).

4.  O vocábulo  "ababaye" (ou "ababaya") existe em francês antigo e em alguns dialetos, referindo-se à papaia (Carica papaya). Os franceses, que colonizaram partes das Caraíbas (como a Martinica e a Guadelupe), podem ter adaptado o termo para "ababaye", que depois foi reimportado para o português como "ababaia".A forma "ababaia" em português pode ser um empréstimo ou adaptação desse termo. 

Em Portugal, o termo já não se usa, mas aparece em textos antigos ou em regiões com influência colonial, onde a papaia era cultivada e consumida (regiões tropicais e subtropicais)

Curiosidade linguística: a papaia (Carica papaya) é originária da América Central, mas espalhou-se pelo mundo através dos colonizadores. Os franceses, que também tiveram presença em África e nas Antilhas, podem ter introduzido o o termo "ababaye" em algumas regiões lusófonas, onde depois foi adaptado para "ababaia".

Os caribes são um povo indígena das Caraíbas, conhecidos pela sua resistência à colonização europeias.  É interessante as "voltas" que as palavras dão...

Em Cabo Verde, diz-se "papaia",
é um dos fabulosos frutos tropicais
que as ilhas produzem

5. No mundo lusófono, não há registos conhecidos de "ababaia" como termo corrente para papaia. No entanto, o Dicionário Houaiss regista-o. 

No Brasil, "ababaia" também aparece como gíria ou calão para genitália feminina em português. Mas terá  uma origem mais provável no tupi do que no francês.   (Com esta aceção, o Houaiss não regista o termo, encontrámo-lo noutras fontes).

Segundo a  ferramenta de IA que consultámos  (Le Chat / Mistral AI), "ababaia" aparece em dicionários de tupi antigo (ou tupinambá) como termo relacionado com a vulva ou órgão sexual feminino.

Em tupi, "aba" pode significar "homem" ou "pai", mas também aparece em compostos com sentido erótico ou anatómico. "Baia" (ou "aia") pode estar ligado a "abertura" ou "local", mas, em contexto brejeiro o termo foi adaptado para o calão.

O vocabulo é documentado em obras como o "Vocabulário na Língua Brasílica" (século XVII), de Luís Figueira, onde constam palavras de origem tupi para partes do corpo, incluindo termos tabu.

No português brasileiro, "ababaia" é gíria antiga (e hoje menos comum, omisso na "Bíblia da Língua Portuguesa" que é o Dicionário Houaiss) para designar a genitália feminina, especialmente em contextos de calão ou linguagem pícara, brejeira ou até pornográfica.

Aparece em literatura erótica ou popular, como em modinhas, cordéis ou até em obras de Gregório de Matos (século XVII), que usava termos indígenas em seus poemas satíricos.

"Ababaye" em francês não tem registo como termo para genitália feminina. A hipótese francesa é mais plausível para papaia (fruta), mas não para este sentido anatómico. 

6. A influência tupi no português brasileiro é massiva em gírias, especialmente em termos relacionados com o corpo, sexo ou natureza. Exemplos:

  • "Pindorama" (terra das palmeiras, nome indígena para o Brasil);
  • "Cunhã" (mulher, em tupi);
  • "Perereca" (sapo, mas também gíria para genitália feminina).


Em Portugal, o termo "ababaia", não sendo hoje corrente, pode ter chegado, por influência brasileira, através de marinheiros, comerciantes ou imigrantes que trouxeram a gíria. Ou da literatura e do teatro, em obras que retratavam o Brasil colonial ou a vida nos trópicos.

O uso de termos indígenas para partes íntimas (ou "vergonhosas") reflete: 

(i) tabu e eufemismo: os povos indígenas tinham palavras específicas para o corpo, que foram adotadas  (e ao mesmo tempo "interditas") pelos colonizadores; 

(ii) resistência cultural: mesmo em contextos de opressão, a língua tupi sobreviveu no calão e na gíria, como forma de resistência.

Em português,  a vulva é conhecida por termos da gíra e calão como pipi, pipica (informal, entre crianças e adolescentes); pito, pepeca, ostra, crica, berbigão,  entrefolhos,  nêspera, greta, papaia (informal, entre os adultos). (E "catota", nio crioulo da Guiné.)

(Pesquisa: LG +  IA (Le Chat / Mistral AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG).
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 1 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27978: Bom dia. desde Bissau (Patrício Tibeiro) (64): Hoje, Dia do Trabalhador, foi tudo para a praia.. Só cá ficaram os que saíram na 3ª caravela do Vasco da Gama, na passagem para a Índia, como eu...

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27884: Manuscrito(s) (Luís Graça) (286): o melro-preto de bico amarelo, no seu posto de sentinela na quinta de Candoz

 



Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > Sexta Feira Santa > 3 de abril de 2026, 09:50 > O melro-preto, de bico amarelo (Turdus merula), no seu posto de vigia, marcando o seu território...

Ainda anteontem o vi afugentar uma poupa (*), quando andavam à cata de insectos e sementes, num dos nossos socalcos da nossa vinha, e se encontraram quase cara a cara, ou bico a bico...É cioso do seu território, o melro... E está atento aos predadores... Há minutos paravam por aqui perto dois peneireiros... Não sei se atacam o melro... 

Também há milhafres por aqui. E raposas. O meu sobrinho, Américo Vieira, que mora aqui ao lado, cem metros mais acima,   tém uma câmara de infravermelhos e apanha muita bicharad.. Há muitas aves por aqui, felizmente. Agora está â espera que cheguem os migrantes de Abril, como o abelharuco, o papa-figos, o verdilhão, a milheirinha, o chapim-real. 

Eu sei que o melro é uma ave que se observa, hoje em dia, facilmente, nas nossas vilas e cidades, jardins, parques... Tenho-os na minha rua, em Alfragide, e aqui habituaram-se mais facilmente à presença do bicho-homem.

Em Candoz, onde há pelo menos um casal residente, são mais ariscos...Aqui fazem ninhos. Não se deixam fotografar facilmente. E eu não ainda não tive o privilégio de ouvir o seu canto madrugador, como o poeta Miguel Torga (que foi um extraordinário observador da natureza). Está visto, tenho que me levantra mais cedo...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Oiço todos os dias,
De manhãzinha,
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador.
Um poema de amor
Singelo e desprendido,
Que me deixa no ouvido
Envergonhado
A lição virginal
Do natural,
Que é sempre o mesmo, e sempre variado.


Miguel Torga

S. Martinho de Anta, 3 de Maio de 1964


Fonte: Associação Cultural Música XXI > Poesia de Miguel Torga

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27824: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): a crise da habitação não é apenas dos humanos, é também das... cegonhas que se renderam ao "fast food" e já não migram para África!


Portugal > Alentejo > Casa de campo na Herdade do Serrado de Baixo > Caminho Municipal 1081-2, Sr. dos Aflitos, 7005-874 Évora, Portugal > 1 de março de 2026 


Portugal > A2 > Sentido Lisboa > 1 de março de 2026 > A crise da habitação (1)


Portugal > A2 > Sentido Lisboa > 1 de março de 2026 > A crise da habitação (2)

Portugal > A2 > Sentido Lisboa > 1 de março de 2026 > A crise da habitação (3)


Portugal > A2 > Sentido Lisboa > 1 de março de 2026 > A crise da habitação (4)

Portugal > A2 > Sentido Lisboa > 1 de março de 2026 > A crise da habitação (5)... Fotos tiradas de dentro carro em andamento, com o vidro sujo... (tirando a primeira).

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. A série "Manuscrito(s) (Luís Graça)" é onde eu, em geral, escrevia (e continuo a escrever) as minhas "blogarias"... Também tenho direito a elas, bolas. Pus o meu blogueforanada, criado em 8 de outubro de 2003, ao serviço da comunidade virtual dos amigos e camaradas da Guiné. Progressivamente, sobretudo a partir de finais de 2004/princípios de 2005, deixei de falar de mime do meu umbigo (como diria o nosso Alberto Branquinho, escritor da guerra colonial).

De facto, daí em diante abstive-me de falar da atualidade, da minha vida, da minha profissão, dos meus lazeres, dos meus amores e ódios de estimação, das minhas angústias existenciais, da minha vida sentimental, das minhas crises financeiras, das minhas crises de fé e de patriotismo, e de outras merdas que não interessam a mais ninguém a não ser ao meu confessor e ao meu psicoterapeuta. Esporadicamente, falo das minhas geografias emocionais, da Lourinhã, da Quinta de Candoz, de uma outra "escapadela" (viajo cada vez menos)...

Há dias, depois do vendaval que tudo levou, fui/fomos dar uma volta pelo Alentejo (do Alto) a ver se estava tudo no mesmo sítio. Gosto do Alentejo (e até mais do Baixo), tem a vantagem de ocupar um terço deste país (31,5 mil km2) e ter c. de 4,4 % (470 mil) da população total.

O Alentejo tem singularidades, uma das quais vale a pena destacar:

  • 1 cegonha por cada 30–50 pessoas;
  • 1 abetarda por cada 400/500 pessoas;
  • e cada vez menos mouros (e cada vez menos sobreiros e azinheiras, ou seja, montado).

Para uma região europeia, isto é extraordinário, porque estas aves (pesadonas, e nomeadamente a abetarda...) dependem de paisagem agrícola extensiva, que praticamente desapareceu em grande parte da Europa.

Muitos dos nossos leitores (que nunca viram uma abetarda) não sabem, mas há mais abetardas em poucos concelhos do Baixo Alentejo (Castro Verde e pouco mais) do que em muitos países europeus inteiros.

Mas eu não fui a Castro Verde (que é a capital das abetardas portuguesas), fui a Évora e a Montemor-o-Novo. E pelo caminho fui-me dando conta que a "crise da habitação" também já chegou a terras do sul... Aqui fica um registo fotográfico dos "ocupas"...


2. Já agora acrescente-se, sobre a grande ave das estepes cerealíferas, a Abetarda (Otis tarda), que:


  • em Portugal existem cerca de 900–1.200 indivíduos;
  • cerca de 80% vivem na região de Castro Verde, no chamado “Campo Branco”;
  • é praticamente exclusiva do Alentejo, em Portugal;
  • a Espanha tem a maior população mundial (c. 25.000–30.000 aves), seguida da Hungria (c. 1500) e... do Alentejo;
  • em todo o mundo não haverá mais do que 36.000 abetardas, a espécie nos últimos 15 anos perdeu 35% da sua população.

3. Sobre a cegonha: a espécie dominante é a Cegonha‑branca (Ciconia ciconia):
  • em Portugal, segundo os dados do último censo anual da espécie, realizado em 2014, haveria c. de 12.000 ninhos ocupados (um aumento substancial face aos 1.533 ninhos que estavam ocupados 30 anos antes, no censo de 1984);
  • estes "emigras" (e "ocupas") dão-se tão bem em Portugal (e não descontam para a Segurança Social!...), que nem migram para África, imaginem (ainda não li, nas redes sociais, os gajos racistas e populistas a pedirem a expulsão das cegonhas, mas lá chegarem0s, pelo andar da carruagem);
  • esse aumento tem sido acompanhado por uma população residente cada vez maior (passou de 1.187 aves registadas no censo de inverno realizado em 1995, em que se contaram cegonhas que não tinham migrado, para um total de 19.295 que o não fizeram em 2020, segundo os dados do censo de inverno feito em outubro passado);
  • mais de 80% dos ninhos estão no Sul, sobretudo nos distritos de Beja, Évora, Setúbal, Santarém e Portalegre — ou seja, essencialmente Alentejo e envolvente;
  • põe-se então a questão de saber quando é que se atinge o "limite máximo de carga" (aliás, é o mesmo problema que se põe patra nós. humanos); para quem vai por essa autoestrada do sul, a A2, a caminho do bem-bom (férias, praia, sol, golfe, boa vida, comes & bebes,...), já se nota nos postes de alta tensão da REN sinais da "crise de habitação... das cegonhas".
Pesquisa: LG + Wilder + IA (ChatGPT / OPen AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

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quinta-feira, 5 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27795: Fauna e flora (27): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - II (e última) Parte


Guiné > Região de Tombali > Catió > Ganjola > c. 1967/69 > Um crocodilo apanhado por militares no rio de Ganjola. O zebro devia ser dos fuzileiros. Poucos camaradas viram, ao  vivo os furtivos crocodilos do Nilo, mas havia-os por todo o lado, do rio Cacheu ao rio Cumbijá... Alguns eram pequenos e  eram confundidos com jacarés (repteis que não existiam na Guiné nem no resto da África).


Foto (e legenda): © Alcides Silva (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Em 6 de fevereiro de 1969, aquando do "desastre" do Cheche, no rio Corubal, na região do Boé, no sudeste da hoje Guiné-Bissau, havia crocodilos naquele troço ? É uma dúvida que subsiste.

 Os corpos dos 47 náufragos não foram encontrados, a não ser apenas 11, duas semanas depois, em estado de decomposição e totalmente irreconhecíveis.

Da consulta que fizemos a várias ferramentas de IA, pudemos apurar o seguinte:

Sim, historicamente houve (e ainda há) crocodilos no sistema do rio Corubal, na Guiné-Bissau. A sua presença atual pode variar conforme a espécie e a zona do rio. Eis o que, no essencial, se sabe com base em estudos e observações científicas e naturais:

(i)   Contexto histórico e ambiental

Na década de 60, a fauna na região do Boé era extremamente rica e selvagem. A região era pouco povoada. A menor densidade populacional humana em comparação com o litoral favorecia a permanência de grandes mamíferos (do leão ao elefante, do hipopótamo ao chimpanzé).

A Guiné-Bissau ainda possui populações de crocodilos de água doce ou de pequenas espécies de crocodilianos em muitos dos seus grandes cursos de água, lagoas e zonas húmidas, incluindo cursos como o rio Geba, Cacheu e zonas do parque de Lagoas de Cufada, que está ligado ao Corubal.

 O rio Corubal é um dos principais rios da Guiné-Bissau e, como muitos rios da região, faz parte de um ecossistema que tradicionalmente abrigou crocodilos, especialmente o crocodilo-africano (Crocodylus niloticus).
 
Os crocodilos são nativos da África Ocidental e eram comuns em rios, lagos e zonas húmidas da Guiné-Bissau, incluindo o rio Corubal. No entanto, a sua população tem vindo a diminuir devido à caça, perda de habitat, alterações climáticas e conflitos com humanos.

A presença de crocodilos no rio Corubal, particularmente na zona do Cheche (região do Boé), era um facto bem conhecido e documentado nos anos 60/70.

Muitos relatos de militares portugueses que operaram no setor de Madina do Boé e no atravessamento do Cheche mencionam o perigo  dos crocodilos, tanto durante patrulhas e "cambanças". Falta, no entanto, documentação fotográfica.
 
O Cheche ficou tragicamente marcado na historiografia da Guerra do Ultramar. Durante a operação de retirada de Madina do Boé, no dia 6 de fevereiro de 1969, a jangada que transportava as tropas adornou no rio Corubal,  em Cheche.

Embora a maioria das mortes (47 homens, 46 militares e 1 civil ) tenha ocorrido por afogamento devido ao peso do equipamento e à forte corrente do rio, o medo dos crocodilos
terá sido também um fator psicológico adicional para os sobreviventes que tentavam alcançar as margens ou voltar  à jangada.

A presença destes animais continua a ser uma característica da região até aos dias de hoje, sendo o Boé uma das zonas de maior importância para a conservação da vida selvagem na Guiné-Bissau.


(ii) Observações em zonas próximas ao Corubal:

O Corubal, depois do Geba, é o maior rio de água doce da Guiné-Bissau.Nasce nas redondezas da cidade de Lélouma, no maciço de Futa Djalon, na Guiné-Conacri, e desagua no rio Geba, na margm esquerda, a cerca de 50 quilómetros a montante de Bissau. Tem um comprimento de 560 km, É considerado o rio mais selvagem da Ãfrica Ocidental.

O turismo e os guias locais mencionam a presença de crocodilos no Parque Natural das Lagoas de Cufada, que inclui partes das margens e afluentes do rio Corubal e dos seus sistemas.

O Corubal, devido às suas características geográficas (margens íngremes em certas zonas, correntes fortes e áreas de águas mais paradas e profundas), constituía um habitat ideal para estes répteis.

A região do Boé, perto da fronteira com a Guiné-Conacri, é conhecida pela sua biodiversidade e pela presença de zonas húmidas que, historicamente, seriam habitats adequados para crocodilos, hipopótamos e outros animais, répteis, mamíferos, aves.

Há relatos de avistamentos de crocodilos no rio Corubal, embora a sua presença atual possa ser menos frequente do que no passado, devido aos fatores mencionados acima.


(iii) Estudos científicos modernos

Um estudo recente de distribuição de crocodilos em Guiné-Bissau registrou presenças de crocodilos em vários rios importantes e lagoas, incluindo evidências (observações, pistas ou informações locais) em áreas como o rio Corubal e seus afluentes.

Um estudo que usou eDNA (técnica de detecção de DNA no ambiente) ao longo do rio Corubal não detectou crocodilos diretamente nos locais da amostragem, apesar de se saber que eles existem na região. Isso pode dever-se à limitação dessa técnica ou ao facto de os crocodilos estarem presentes principalmente em zonas marginais, lagoas ou áreas sazonais menos amostradas.

(iv) Espécies

As espécies mais comuns eram (e são) o Crocodilo-do-Nilo (Crocodylus niloticus), que pode atingir grandes dimensões (no rio Cacheu), e o crocodilo-anão africano (Osteolaemus tetraspis) (sobretudo em zonas húmidas e lagoas ligadas ao rio Corubal).

Também é referido o Crocodilo-de-focinho-delgado (Mecistops cataphractus)

(v) Outros rios: Cacheu

É uma das zonas com mais crocodilos do país O rio Cacheu atravessa uma vasta área de mangais e estuários, hoje protegida como Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu, que contém um dos maiores blocos contínuos de mangal da África Ocidental. 

Esse habitat é muito favorável aos crocodilos. Os mangais, águas calmas e abundância de peixe. criam condições ideais para populações relativamente densas desses répteis.

É também onde há mais relatos de ataques. Vrios estudos e registos indicam que os ataques documentados na Guiné-Bissau aparecem frequentemente na região do Cacheu. Um estudo recente menciona inclusive um ataque a um pescador no rio Cacheu em janeiro de 2025.

A mesma investigação sugere que os ataques atribuídos historicamente a crocodilos na região podem envolver o crocodilo-do-Nilo, espécie maior e potencialmente mais perigosa. Há vários fatores: (i) grande população de crocodilos nos mangais: (ii) muita interação humana com o rio (pesca, transporte em canoas, lavagem, banho); (iii) águas turvas e margens baixas, ideais para emboscadas; (iv) tabancas ribeirinhas dentro da área protegida.

Ou seja, o problema não é só o número de crocodilos, mas o contacto diário com eles. Mas o rio Cacheu não é o único rio perigoso;  há também o Geba, o Cacine, o Grande de Buba... Só que o Cacheu é frequentemente citado porque combina densidade de crocodilos com população humana ribeirinha (o que não acontece no Corubal, que atravessa, ou atrevassa, no passado, zonas maia despovoadas, nbomeadamente no Boé).


Conclusão

Sim, há evidências de que crocodilos vivem ou já foram observados nas margens e zonas alagadas do rio Corubal e áreas adjacentes na Guiné-Bissau.

Em 1969, existiam, pois, crocodilos no rio Corubal, incluindo na zona de Cheche, e eram reconhecidos como um perigo potencial para quem frequentava o rio, especialmente em zonas de travessia e margens. 

Durante a guerra colonial, vários ex-combatentes portugueses mencionaram a presença de crocodilos nos rios da Guiné-Bissau, incluindo o Corubal, embora não haja registros científicos detalhados sobre a zona do Boé.

Não há relatos específicos de ataques a humanos em Cheche nesse ano de 1969, mas a sua presença e reputação como "comedores de homens" eram bem conhecidas entre os militares, guias e populações locais.

A sua presença pode não ser uniforme por todo o rio e pode ser mais frequente em zonas lentas, lagoas laterais e ambientes húmidos associados ao sistema fluvial. A detecção direta moderna em alguns trechos pode ser difícil devido a fatores ambientais e métodos de amostragem.

(Pesquisa: LG + IA  (Gemini | Le Chat Mistral | ChatGPT)

 (Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27767: Fauna e flora (26): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - Parte I

domingo, 1 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27783: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): O meu gato Gatafunho (José António Paradela, 1937-2023)


Teria feito 88 anos no passado
dia 30 de outubro. Nasceu em
Ílhavo em 1937. Morreu no hospital,
em Aveiro, em 21 de fevereiro
 de 2023. Membro da nossa
Tabanca Grande. Fez a tropa
na marinha de guerra 
e antes, 
aos 17 anos, 
na pesca do
 bacalhau, 
seguindo os passos
dos seus avoengos. Arquiteto, 
urbanista, escritor (pseudónimo
literário: Ábio de Lápara)

À memória de José António Paradela (1937-2023):

Meu querido, os teus escritos 
continuam a surpreender-nos.

Que ternura este poema
sobre o teu gato da infância.

E, com ele, ressuscitas
o pátio onde cresceste, 
e a tua mágica “rua suspensa dos olhos”.

As saudades destes 3 anos pesam, 
mas a (re)descoberta
 das tuas singularidades 
continua a emocionar-nos.

Matilde & família.

Costa Nova, 21 de fevereiro de 2026


EM PEQUENO 

EU TINHA UM GATO (*)


Em pequeno eu tinha um gato,
Fofo gatinho amarelo
A quem fazia carícias,
Passando a mão p’lo pelo.

Fofo gato, Gatafunho
O nome com que viveu,
Adotado à nascença,
Nos anos em que foi meu.

Com ele aprendi o R,
No ronronar satisfeito,
Quando à noitinha dormia,
Deitado sobre o meu peito.

Felis Catus, meu filósofo
Da vida como ela é,
Em se sentindo carente,
Vinha roçar no meu pé.

E quando a fome apertava,
Lá no pátio da ti Cila (**),
Esperava por ela às quatro,
No seu regresso da vila.

Senhora certa da Praça,
Mãe de filhos e de gatos,
No esmalte da sua taça
Carrega peixes baratos.

E o meu gato amarelo,
Pelas quatro horas da tarde
Boceja e lambe o pelo,
Sabe que a Cila não tarda.

Correndo então beco fora,
Entoando o seu miau,
Na taça só via agora
Prenúncios de carapau.

Três carapaus e cabozes
Que sobraram do leilão,
E que eram, tantas vezes,
A primeira refeição.

Assim cresceu o meu gato
No fim dos anos quarenta,
Tinha eu então nove anos
E tinha ele noventa.

Sábio bicho de bigode,
Rei de gatas e de muros,
Que encheu enquanto pôde
Os meus sonhos mais maduros.

Sete vidas e um império,
Sete fôlegos de aventura,
Fugaz sombra de mistério
Que inda hoje perdura.

Na clara mansão da Lua,
Em um janeiro gelado,
Uma gata lá da rua
Mudou de vez o seu fado.

E o meu gatinho amarelo,
Gato que alguém me ofereceu,
Um dia partiu de casa
E nunca mais apareceu.

José Paradela | Costa Nova | Agosto de 2005

Publicado no Ilhavense, jornal centenário, 15 de fevereiro de 2026, pág. 22
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)


Foto nº 1 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > Vista aérea parcial da vila de Farim, sede de circunscrição e de batalhão


Foto nº 2 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > Piscina local (construída em 1958)


Foto nº 3 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > K3/Saliquinhedim

~
Foto nº 4 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70) > NRP Sagitário, LFG P1131. Da classe Argos, este e outros navios estiveram ao serviço da Marinha Portuguesa, entre 1963 e 1975. 

Esta LFG  é a última, de  1965, tendo sido abatida em 7 de Setembro de 1974 e afundada a 21, a 104 milhas a Oeste de Bissau. Foram construídas do Arsenal do Alfeite e nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Tinham todas nomes de constelações (além destas,  havia ainda as seguintes: Dragão, Cassiopeia, Hidra. Escorpião, Pégaso, Lira, Orion, Centauro).


Foto nº 5 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70) > Peixe-serra, capturado no rio Cacheu.

Fotos (e legendas): © Manuel Jordão Revelos (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Manuel Jordão Revelos (n. 1946,  Lavos, Figueira da Foz; mora em Cacia, Aveiro)


1. Manuel Jordão Revelos, natural de Lavos, Figueira da Foz; nasceu em 15/12/1946; mora em Cacia, Aveiro; foi sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70), mobilizada pelo RI 10,GACA 2. Partiu no T/T Niassa em 1/5/1968, regressou no mesmo navio em 3/1/1970.

Sobre a CART 2384 só tínhamos até agora 1 referência. E não temos nenhum representante. O Manuel Jordão Revelos, se nos ler, fica desde já convidado a sentar-se à sombra do poilão da Tabanca Grande. Estamos-lhes gratos pela partilha pública destas fotos de Farim e arredores.

Originalmente estas imagens estavam alojadas no portal Prof2000, que foi descontinuado: tinha uma excelente galeria de fotos, enviadas por antigos combatentes (e não só) da região de Aveiro ; era "um projecto com serviços de suporte à formação de professores a distância e de apoio às TIC nas escolas", tendo como público-alvo "Escolas, Centros de Formação, Centros Novas Oportunidades, professores, projectos de escola e comunidade educativa em geral". 

A página (que foi também recuperada pelo Arquivo.pt)  está agora alojada no Agrupamento de Escolas José Estêvão (AEJE) > Aveiro e Cultura > Arquivo Digital.

Ficámos a saber que uma decisão tomada em Lisboa, capital deste país macrocéfalo,  teve um efeito sísmico neste portal (Prof2000), como nos conta o coordenador do projeto (email: henriquejcoliveira@gmail.com ), que presumimos ser professor do AEJE, em Aveiro:

"Os responsáveis pela manutenção dos servidores do Ministério da Educação e Cultura, ao fim de 18 anos de compilação de documentos, eliminaram todo o espólio cultural do projecto comunitário Aveiro e Cultura. 

"Todas as hiperligações tiveram de ser refeitas para o novo alojamento, pelo que, eventualmente, algumas poderão não funcionar. Por isso, agradecemos a informação, para podermos corrigir o erro. Obrigado."

O  Arquivo Digital sobre Aveiro e Cultura (alojado no AEJE - Agrupamento de Escolas José Estêvão) tem como objectivo:
  •  a constituição de uma base colectiva de imagens, 
  • de livre utilização,
  • abrangendo todas as áreas temáticas,
  • obtidas de diferentes suportes (fotografias antigas, postais, diapositivos, etc.).
"Todas as imagens poderão ser livremente utilizadas, desde que não seja para fins comerciais, devendo-se ter o cuidado de indicar os respectivos autores e o endereço do local onde se encontram".

Obrigado, Henrique Oliveira. Parabéns pelo acervo fotográfico reunido e salvaguardado com tanto rigor e carinho. Muitas destas imagens estavam condenadas a ir parar á "cesta secção", ou seja, a "pubela", ao caixote do lixo.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 24 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27766: As nossas geografias emocionais (62): Visita sanitária à região do Boé, em 1981 (Henk Eggens, médico especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, 1980-1984)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27767: Fauna e flora (26): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - Parte I

Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região do Oio > Farim > 7 de junho de 2022 > Crocodilo-do-Nilo (Lagarto, em crioulo) (Crocodylus nilotcus)... Está protegido por lei... Pode atingir os 7 metros de comprimento... e atacar o homem.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2022). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 2 > Guiné- Bissau > Região de Biombo >  s/l  > s/d  (c-. 2009) > O crocodilo da Praia do Biombo 

Foto (e legenda):  © Patrício Ribeiro (2009). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Região do Cacheu > São Domingos > Novembro de 2015 > Captura de dois crocodilos "assassinos" no rio Cacheu... Um deles foi exposto numa árvore, juntando uma multidão de curiosos...

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2015). Todos os direitos reservados. .[Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Foto nº 4 > Guiné > Zona leste >  Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > O ten cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917 (1970/72), o alf mil médico Vilar (popularmente conhecido como o "Drácula", mais tarde psiquiatra) e o alf mil Paulo Santiago, cmdt do Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1970/72) e depois instrutor de milícias (no CIM de Bambadinca) com um crocodilo juvenil do rio Geba Estreito...
 
Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

O Polidoro Monteiro, já falecido, gostava de caçar. Incluindo à noite, utilizando os faróis do jipe, na orla da pista de Bambadinca. Lembro-me dele como tendo sido o único oficial superior que andou connosco (CCAÇ 12), a penantes no mato (pelo menos, uma vez, quando se foi inteirar dos seus domínios, o sector L1; veio de Bissorã e era considerado um spinolista, mesmo sendo de infantaria).

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Na Guiné, no meu tempo (1969/71), a malta não tomava banho à vontade nos rios, por muitas razões, a começar pelas de saúde e segurança... E, claro, o medo de répteis em geral e crocodilos, em particular... Herpetofobia, é o palavrão...

Sabemos que não havia "jacarés" em África (só no Novo Mundo), mas os crocodilos estavam no nosso imaginário quando lá chegávamos... Para o "tuga", crocodilo ou jacaré era tudo o mesmo... 

Parece que o Crocodylus niloticus sofreu uma redução drástica, na África Ocidental, desde há dois séculos, com o colonialismo e a pressão humana (caça, procura da pele, redução do habitat, poluição, etc.). E terá desaparecido de muitos rios da África Subsaariana.

Mas será que ainda havia crocodilos em todos os rios da Guiné, no nosso tempo? Os restos mortais dos nossos infortunados camaradas que caíram ao rio Corubal, em Cheche, terão sido também devorados por crocodilos? Há relatos, no blogue, de cadáveres que foram recuperados (no Geba e no Corubal), parcialmente mutilados...

Em anos mais recentes, o rio Cacheu tem sido notícia por más razões, as do eterno conflito entre a vida selvagem e as comnunidades humanas ribeirinhas... 

No rio Cacheu um habitat de crocodilos de grande porte, tem sido reportados e documentados ataques esporádicos daqueles réptéis, quer pelos habitantes da região quer pela imprensa de Bissau. E pelo nosso Patrício Ribeiro, o "tuga" que melhor conhece a Guiné (vd. fotos nºs 1, 2, e 3).

Por outro lado, os rios da Guiné, de águas barrentas e margens indefinidas (no tempo das chuvas), metiam respeitinho, sobretudo quando a malta fazia uma "cambança" de canoa... Cair-se ao rio era quase morte certa...

Enfim, vamos ver o que as diferentes ferramenta de IA nos dizem a respeito destes bichos feios e predadores, mas raramente visíveis por nós (ambos, "criaturas de Deus", diria o São Francisco, que nunca deve ter visto a mandíbula de um crocodilo-do-Nilo). 

Tal como os hipopótamos, que os havia no rio Corubal, no meu tempo (1969/71)... Mas esses faziam-se notar à distância, pelos seus urros... 

Comecemos por este "juvenil" de crocodilo da foto nº 4, freguês do Mato Cão, onde fomos muitas vezes (e onde, depois em finais de 1971/princípios de 1972, será montado um destacamento, por onde passaram alguns dos nossos grão-tabanqueiros). 

Confesso que nunca lá vi nenhum crocodilo, no Mato Cão. Nem tinha nem vagar para os observar. Mas o crocodilo era como o "Zé Turra", hábil no engenho e na arte de se camuflar e furtar ao contacto do "Zé Tuga", mesmo que estes dois pertencessem à mesma Ordem, a dos Primatas, e à mesma Espécie, a do Homo Sapiens Sapiens. A espécie que está no topo dos grandes predadores.


Pergunta à IA:  Crocodylus niloticus ou Osteolaemus tetraspis ? Juvenil, apanhado em 1971 no rio Geba Estreito, no Mato Cão (sujeito às marés, logo, água salgada) (foto nº 4)


Responde  a "menina IA"  ( europeia,  Le Chat / Mistral):

A espécie de crocodilo na imagem, apanhada em 1971 no rio Geba Estreito (Mato Cão, Guiné-Bissau), e que o nosso Paulo  Santiago segura, pela mandíbula superior, é quase certamente um Crocodylus niloticus, o crocodilo-do-Nilo.

Razões:
  • Distribuição geográfica: o Crocodylus niloticus é comum em toda a África subsaariana, incluindo a Guiné-Bissau, enquanto o Osteolaemus tetraspis (crocodilo-anão) tem uma distribuição mais restrita, principalmente em florestas tropicais da África Ocidental e Central, mas é raro ou ausente em habitats como o rio Geba, que é influenciado por marés.
  • Tamanho e morfologia: mesmo sendo um juvenil, o corpo alongado e a forma da cabeça são mais consistentes com o Crocodylus niloticus; o Osteolaemus tetraspis tem um focinho mais curto e largo, e é geralmente menor, mesmo em idade adulta.
  • Habitat: o Crocodylus niloticus é adaptado a rios, lagos e estuários, enquanto o Osteolaemus tetraspis prefere águas mais calmas e florestais.
  • Contexto histórico: durante a Guerra Colonial Portuguesa (1961-74), era comum os soldados entrarem em contacto com a fauna local, incluindo crocodilos, especialmente em zonas ribeirinhas como o Geba ou o Cacheu.

2. Distinção entre "lagarto" e "lagarto preto"

Ficha técncia: Crocodilo-do-Nilo ("Lagarto", em crioulo) (Crocodylus nilotcus) (pág. 28)

"Lagarto preto", em crioulo  (Osteolaemus tetraspis) (pág. 28), Também conhecido na África Equatorial como crocodilo-anão.

Fonte: República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Departamento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d (Disponível em formato pdf, aqui, no sítio do IBAP , https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf)


3. Comentou o Paulo Santiago, em complement0o da legenda da foto nº 4:

"Quem avistou o réptil, a caminho do Mato Cão, foi o soldado que conduzia o Sintex. Parou e o Vilar deu-lhe um tiro com a .22 que tinha aquela "enorme" baioneta acoplada. 

"Notou-se o animal acusar o tiro. O "barqueiro" aproxima o bote, o crocodilo tem ferimento num dos membros, abre a boca e o Vilar enfia-lhe a baioneta na goela. O bicho fecha a boca, abana a cabeça, e o futuro psiquiatra quase mergulha...

"Valeu-lhe o ten-cor Polidoro Monteiro que enfiou uma bala 7,62 na cabeça. Chegados ao destacamento, o Vilar pediu a um balanta para esfolar o bicho. Fizeram uns 'bifes' da cauda, dos quais não comi nenhum.

"Eu e o Vilar regressámos a Bambadinca com a subida da maré. O comandante Polidoro ficou no destacamento e, como acontecia várias vezes, houve flagelação ao anoitecer".

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026 às 19:36:27 WET

(Continua)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27709: Fauna e flora (25): Uma píton-africana ou irã-cego (Python sebae), "papada com esparguete" pelos "abutres de Cabuca (2ª CART / BART 6523 /73, 1973/74)