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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre


Lisboa > Carnide > Seminário Franciscano da Luz > "O Seminário de Nossa Senhora da Conceição da Luz, vulgarmente conhecido como Seminário da Luz, ou Seminário Franciscano, ocupa um antigo palácio neoclássico, mandado construir em 1878 por Jacinto José de Oliveira. Os frades da Ordem Franciscana adquiriram o palácio em 1939 e, no ano seguinte, iniciaram obras de ampliação e adaptação às novas funções. A fachada principal, virada a ocidente, aberta sobre o Largo da Luz, é densamente decorada"




Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).

Horácio Fernandes,  falecido no passado mês de novembro, foi capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor do livro de cariz autobiográfico "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 


No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz,  seu "alter ego".  Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas,  cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer  37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  cinco  postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv)   os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia  (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela)  e depois de  Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution".

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4a. classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 
.
Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

O nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.

 
Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós,  paternas, nascidas na década de 1860, eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

Recorde.se que, além do Horácio Neto Fernandes (nº 42,  de uma lista de 113 capelães militares) houve mais seis da Ordem dos Frades Menores (OFM), que estiveram no CTIG (de 1961 a 1974). Eis os nomes, por ordem alfabética:

  • José António Correia Pereira (nº 84): de 26/3/1972 a 21/3/1974;
  • José de Sousa Brandão (nº 79): de 25/9/1871 a 22/12/1973;
  • José Marques Henriques (nº 97): de 28/4/1974 a 9/10/1974):
  • Manuel Gonçalves (nº 58): de 19/7/1969 a 30/6/1971;
  • Manuel Maria F. da Silva Estrela (nº 11): de 27/9/1963 a 14/8/1965;
  • Manuel Pereira Gonçalves (nº 91): de 28/5/1968 a 29/6/1974)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI:  Corista de filosofia e teologia e depois  padre 

por Horácio Fernandes


4.3. - Corista de Filosofia

A minha transição do Noviciado para o Coristado foi aos 17 anos [em Leiria, no Convento da Portela ou de Sáo Francisco ].

Na minha qualidade de professo de votos simples, tinha uma cela mais moderna, com uma varanda colectiva, era assíduo ao coro, três vezes por dia, participava nas festas litúrgicas e tinha a obrigação do estudo. 

Embora continuasse a acompanhar os padres em algumas funções religiosas, já era permitido ir a Fátima, a pé, nos dias treze, onde por vezes me encontrava com a família e conterrâneos.

O tempo de lazer também se alterou: às quintas feiras deslocava-me ao campo de futebol, ou a uma quinta próxima e jogava futebol, ou tomava banho no rio. 

- 120 - 

Quanto a férias grandes, no primeiro ano fui 15 dias para o santuário dos Remédios, em Peniche. Era proibido tomar banho individualmente no mar e não podíamos tirar o hábito na povoação, nem falar com pessoas estranhas.

Como alguns não resistissem à tentação de falar com pessoas estranhas e tomar banho às escondidas, fomos daí a pouco proibidos de continuar.

Destes três anos, recordo, sobretudo, o segundo e o terceiro. No segundo fomos todos castigados a passar as férias grandes no Colégio Angélico, bem guardados por um ex-Prefeito, porque no primeiro ano em que fomos passar férias aos Remédios, Peniche,  não cumprimos as determinações superiores, no que respeita ao contacto com estranhos. Alguns falaram, sobretudo com um grupo de enfermeiras católicas que ali perto passava férias. 

Também era proibido tirar o hábito e alguns andavam sem hábito e com calças. Igualmente faltavam ao Coro' que, embora simplificado, não era dispensado.

Foi baseados nestes argumentos que os superiores, no ano seguinte, nos obrigaram a passar as férias grandes no Colégio Angélico [em Montariol, Braga ], o que foi interpretado como um castigo.

Com o Colégio deserto, dávamos longos passeios a pé, e cumpridas as obrigações do Coro jogávamos a bola e líamos. 

Podíamos utilizar a biblioteca dos padres, mas tínhamos que registar o livro. Aconteceu que alguns deram com o armário dos livros proibidos, aberto,  e leram freneticamente os livros que nunca tinham lido, mas só ouvido falar. 

Durante uns dias, até darem por isso, foi um corropio para a biblioteca, buscar os romances de Camilo, Eça, Alexandre Dumas e outros .

Os Coristas começaram a faltar ao Coro e a deitarem-se muito tarde. De manhã, ou não apareciam, ou apareciam cheios de sono. 

Eu também fui dos que aproveitei. Agarrei-me ao «Crime do Padre Amaro» e devorei-o numa noite. Seguiram-se outros do mesmo autor. 

Cheio de remorsos, fui-me confessar a um padre velhinho, que me aconselhou a ir embora, face aos maus pensamentos que não me largavam. Porque estava agarrado aquilo, fui então a outro que me aconselhou a esperar até ver se os maus pensamentos abalavam.

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Entretanto; alguém deu o alarme e  os que registaram os livros, conforme as ordens que tinham recebido, foram severamente castigados e proibidos de gozar férias no ano seguinte.

Eu não cheguei a cumprir o castigo, porque entretanto   adoeci. Estive oito meses de cama, sempre na minha cela, com uma pneumonia e depois com uma osteamilite  , sem poder deslocar-me à portaria, nem poder receber  visita da família.

 Apenas o Director Espiritual me visitava  a miúdo, para me tentar convencer que era uma provação   passageira de Deus, para me purificar. Além dele, só podiam   entrar na minha cela o irmão enfermeiro e esporadicamente   um médico, amigo do Seminário.

Os colegas apenas espreitavam à porta, pois era expressamente proibido entrar nas celas alheias. O meu colega de lado, a quem por vezes incomodava para ir chamar o irmão enfermeiro,  se demorasse mais algum tempo, ouvia o ralhete do Mestre:

- Vossa Caridade não sabe que é proibido entrar nas celas uns dos outros?

Com temperaturas altas e sem poder dessedentar-me por imposição médica, dava largas à imaginação, sonhando com missões e missionários. Vivia angustiado, sobretudo pelo perigo de não poder continuar ou perder o ano. Contudo, acreditava que,  se fora escolhido por Deus, ele me havia de curar, sem deixar sequelas.

Agarrado como estava ao sonho de ser missionário, para mim esse era o maior drama. Afinal consegui passar o ano, embora de muletas, sendo operado à perna esquerda, já no ano  de Teologia, em 1956.

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4.3. Os três anos de Filosofia foram passados já num convento de linhas arquitectónicas mais modernas e panopticamente menos rigoroso.

 Tratava-se de inculcação dos saberes da Filosofia tradicional católica, como fundamento dos estudos de Teologia, a ciência por excelência: Philosophia ancila Theologiae [a Filosofia serva da Teologia, LG ].

Embora as chamadas Ordenações Peculiares continuassem em vigor e se cumprisse as normas de disciplinação e as disciplinas, notou-se uma maior flexibilização. 

O corpo docente, do qual alguns dos quais tiraram a Filosofia nas universidades católicas estrangeiras, estava mais aberto ao exterior. Embora conservando a matriz doutrinária ortodoxa, estavam mais preocupados em esgrimir argumentos contra as posições tomistas e inculcar as especificidades escotistas. Os mais novos faziam gala das suas intervenções no meio intelectual e os mais velhos remoíam sebentas repetitivas.

O sistema panóptico, reforçado no Noviciado, começou a dar mostras de algum abrandamento na Filosofia. Já éramos clérigos professos e de votos simples, feitos por 3 anos. Este facto dava-nos algum status, diante dos irmãos leigos e donatos.

A situação geográfica do convento também favorecia mais os contactos com o exterior. Os pregadores e missionários faziam da casa ponto de passagem obrigatória para o santuário de Fátima.

Esta relativa abertura não nos impedia de viver alheados da situação sócio-política nacional ou internacional. 

Sem acesso aos meios de comunicação, uma das grandes lutas a nível interno era contra a proibição de usar calças, por debaixo do hábito. Os mais «modernos» achavam um costume medieval, desadequado. Argumentavam que a tradução em espanhol da Regra falava em 'panetones' e não tinha tradução directa em português. Por isso, alguns interpretavam como calças e os mais observantes como cuecas ou ceroulas. O mesmo acontecia com a túnica que os mais modernos substituíam por camisa.

Esta luta transbordava nas conversas e nas aulas. Acendia-se, quando algum corista mais atrevido era apanhado pelo Mestre com um par de calças arregaçadas  debaixo do hábito, ou quando passavam pelo   Coristado missionários em férias ou pregadores, que, geralmente, eram menos observantes e mais liberais no trajar. 

Embora  os Mestres evitassem o contacto dos Coristas  com eles, era inevitável, o que me fazia   questionar porque para uns havia uma Regra  e para outros outra. Resposta não a encontrava, mas estas e outras interrogações   não abalavam a confiança na instituição. O  'habitus' estava bem arreigado.

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4.4. Corista de Teologia e Padre

Acometido pela doença, aos 20 anos, novamente o  estatuto de devedor de benefícios me acompanhou.

 Primeiro  aos superiores, por me terem tratado durante a longa doença,  aos professores por me deixarem fazer exame em Setembro  e novamente aos superiores, quando sofri a intervenção cirúrgica   ao fémur, já em Lisboa. 

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Apenas no  2º no de Teologia a minha vida de corista seguiu o seu ritmo de estudo normal, quando recebi a Prima Tonsura (8).

No primeiro ano de Teologia, quase não  saí do Seminário, porque andava amparado em muletas. Por isso,  ocupava todo o tempo no estudo e nas aulas. 

Olhando à distância, recordo algumas impressões deixadas por  professores e Mestres de Coristas. 

Havia o professor de História da Igreja que, sob uma máscara de dignidade, debitava sempre as mesmas anedotas sobre os jesuítas, para Corista rir. Era o professor de Direito Canónico,  que, no seu palmo e meio, não conseguia encarar os alunos de frente. Era o professor de Moral que mandava fechar as janelas e persianas e às escuras, apressadamente, explicava os pecados contra o Matrimónio e as respectivas sanções canónicas.

A partir do 2º ano de Teologia e já quase totalmente recuperado, substituía o passeio semanal pela catequese nas escolas primárias dos bairros sociais próximos. 

Para mais facilmente  captar a atenção das crianças, utilizava projector e diapositivos alusivos aos temas do catecismo a que eles chamavam cinema. Era um trabalho novo e, cheio  entusiasmo como estava, entregava-me a ele com alma e coração.  

O contacto com as crianças das escolas primárias era  uma novidade. Às quintas e sábados, lá ia carregado de pagelas, distribuindo «santinhos» pelos bairros pobres.

A preparação para as ordens menores (9), ordens maiores (10) e votos solenes (11) era concomitante com o estudo  aturado das Disciplinas Teológicas.  

Empenhado nestas tarefas,  vivia as notícias da terra que falavam do entusiasmo de todos os conterrâneos, na minha próxima Missa Nova.

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4.4.  A última etapa da Teologia foi um gradativo caminhar para o sacerdócio (13).

 Não obstante o Curso Teológico ser ministrado em Lisboa, estava completamente arredado da problemática política ou social.  

O rádio só podia funcionar na sala dos padres, a que não tínhamos acesso e,  mesmo  ali, só depois do jantar e da ceia. Terminado o recreio,  era fechada sem contemplações e só se podia abrir com licença expressa do superior 'toties quoties' (Ordenações Peculiares, 1943: 12).(**)

Circunscritos ao microcosmo do Seminário, a mundividência dos Coristas não ultrapassava os altos muros da quinta. 

Acesso aos meios de comunicação social não tinha, e as notícias chegavam-me filtradas pela tripla censura: política, eclesiástica e do próprio 'habitus'.  

Em contrapartida, este Seminário de Teologia tinha padres muito importantes que tinham um estatuto à parte e quase só apareciam na comunidade, nas festas. 

Os mais «respeitáveis» eram geralmente os mais próximos de famílias importantes da finança, política ou da cultura, e, que, por intermédio deles, eram«benfeitores» do Seminário. 

Estes «benfeitores» tinham direito a missa particular nas suas quintas, não fossem os serviçais cometer o  pecado de faltarem ao preceito dominical, ouvindo as homilias de domesticação.

Geograficamente bem situado, o Seminário era um interposto espiritual entre o poder terrestre e o celestial, para muitas famílias   ricas do regime que ali iam procurar o passaporte para o anti-quotidiano.

- 123 -


 Talvez por  isso estive, quase completamente, alheado do momento quente   das eleições de 1959 (***).

 Lembro-me,  apenas, que me mandaram  e fui votar duas vezes: uma de manhã e outra de tarde na Junta de Freguesia, porque estava em causa o derrube de Salazar pelos «comunistas».

Igualmente me lembro de ter ido de hábito, como era do Regulamento, à Baixa Lisboeta, ver o cortejo, durante a visita da Rainha da Inglaterra a Portugal. Foi das poucas vezes em que não fomos acompanhados pelo Mestre.

Outra recordação que conservo viva,  foi o castigo aplicado pelo Mestre de Coristas, algum tempo antes do retiro para a ordenação sacerdotal, no convento onde tinha feito o Noviciado. 

Admoestado, por estar com um colega a falar nas escadas, em tempo de silêncio, retorqui-lhe que ele estava a espiar-nos debaixo das escadas. Ele não gostou e só fomos fazer o retiro obrigatório para a Ordenação, dois dias depois,  o  que nos nos obrigou  a acabá-lo depois dos outros três colegas.

Felizmente, este percalço não atrasou à Ordenação, pois estava tudo a ser ultimado na minha terra para a Missa Nova (12).

- 124 - 

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Notas do autor:

(7) Reza colectiva do Breviário, seis vezes por dia e que tinha a seguinte designação: Matinas, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas.

(8) Ordem menor que consistia em cortar uma madeixa de cabelo no alto da cabeça, vulgarmente chamada coroa: «Feito o exame do 1º ano de Teologia, devem os alunos requerer a Prima- Tonsura, as ordens menores durante o 2°  ano e o Subdiaconado ao sair do 3º ano, se lho permitir a idade, por forma que possam receber o Presbiterado no fim do 4º ano, tanto quanto deles dependa. (Regulamento do Processo de Ordenação e programa do exame do Cânone 996).

(9) Assim chamadas por não implicarem a incardinação à Ordem, Congregação Religiosa ou Diocese.

(10) Assim chamadas pela excelência das funções, a que dão acesso. São o Subdiaconado, Diaconado e Presbiterado ou Sacerdócio. 

Nenhum ordenando podia receber o Subdiaconado sem ter o chamado título canónico, que era um património suficiente para a sua sustentação. Esta suficiência era aferida pelo correspondente «ao ordenado dum professor de instrução primária, quando provido definitivamente» (Parágrafo 2o do Cânone 479 do cap. Ill das Constituições Sinodais da Diocese de Lamego, 1954).

(11) Os votos solenes era o juramento que os candidatos ao sacerdócio das Ordens e Congregações Religiosas faziam e através dos quais eram recebidos a título definitivo na instituição.

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação. Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado.

(13) Vd. nota (10).


(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 120-124 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, negritos,  itálicos, título: LG)
_________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes anteriores: 



17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

(**) A exressão latina "toties quoties" quer dizer em português  "tantas vezes quantas" ou "tantas indulgências plenárias quantos os terços (ou orações) que rezar".

É uma locução usada principalmente no contexto litúrgico católico para indicar uma indulgência plenária /ou um benefício) que pode ser ganha repetidamente ("tantas vezes quantas" se cumprir a condição).

(***) Lapso do autor,  que trocou o ano; queria referir-se às eleições presidenciais de 1958, a 8 de junho, em que o regime de Salazar foi posto à prova:  num escasso milhão de votos (cerca de 70% dos recenseados), Américo Tomás foi eleito  com 75%, contra Humberto Delgado (23%), graças também à fraude (como o próprio Horácio Fernandes, de resto,  aqui candidamente exemplifica : votou duas vezes, uma de manhã e outra tarde).

Os franciscanos, vítimas do anticlericalismo primário da ( e expulsos pela) República em 1910, eram naturalmente gratos e afetos ao Estado Novo.

sábado, 12 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27006: Convívios (1039): Rescaldo do XLIV Convívio do pessoal da CCAV 2639, levado a efeito no passado dia 21 de Junho de 2025, em Azoia - Leiria (António Ramalho, ex-Fur Mil Cav)


1. Mensagem do nosso camarada António Ramalho (ex-Fur Mil At Cav da CCAV 2639, Binar, Bula e Capunga, 1969/71), com data de 11 de Julho de 2025:

Caro Luís, bom dia!
Espero que estejas bem assim como a tua família e os restantes Tabanqueiros.
Quando for oportuno agradeço-te que insiram no nosso blogue as imagens do nosso último encontro em Azóia, Maceira, Leiria, no passado dia 21/6/2025.
Desta vez o número de presenças foi muito reduzido, uns por questões pessoais, familiares ou de saúde.
Infelizmente alguns já partiram, contudo há uma nota que gosto sempre de realçar, regressamos todos os que embarcaram no UÍGE, com destino à Guiné, em 1969.
Para uns as suas melhoras, que regressem com brevidade, para os que já partiram que repousem em Paz!
O camarada José Pernão, 1.º Cabo Cripto, um elvense de gema, substitui com o seu Corno Africano, o Clarim João Linguiça, que não compareceu, no toque de reunir para o "rancho", bons momentos!
O camarada Rui Veríssimo propôs-se organizar o próximo encontro, vamos aguardar!

Um forte abraço para todos
António Ramalho (757)

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Nota do editor

Último post da série de 3 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26877: Convívios (1038): Fotorreportagem do 61º almoço-convívio da Magnífica Tabanca da Linha, Algés, 29 de maio de 2025 (Manuel Resende / Luís Graça ) - Parte IV

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26755: Convívios (1025): XLIV Convívio do pessoal da CCAV 2639, dia 21 de Junho de 2025, em Azoia - Leiria (António Ramalho, ex-Fur Mil Cav)

1. Mensagem do nosso camarada António Ramalho (ex-Fur Mil At Cav da CCAV 2639, Binar, Bula e Capunga, 1969/71), com data de 23 de Junho de 2025:

Caro Luís Graça, bom dia.
Espero que estejas bem assim como a tua família.
Agradeço-te que na primeira oportunidade seja publicado no nosso Blogue a informação sobre o nosso 44.º Convívio.

Um grande abraço para todos.
António Ramalho



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Nota do editor

Último post da série de 26 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26731: Convívios (1024): XXVI Encontro/Convívio da CCAÇ 4150 - "Os Apaches do Norte", (Bigene e Guidaje, 1973/74), dia 11 de Maio de 2025 em Maureles-Vila Boa de Quires-Marco de Canaveses (Albano Costa, ex-1.º Cabo At Inf)

terça-feira, 5 de março de 2024

Guiné 61/74 - P25240: S(C)em Comentários (29): como foi possível a tragédia de Gamol, Fulacunda, na sequência da Op Lenda, em 7 de outubro de 1965 ?!... (Joaquim Luís Fernandes, ex-alf mil, CCAÇ 3461 / BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, 1973/74)

1. Comentário ao poste P25234 (*), com assinatura de Joaquim Luís Fernandes, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3461/BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, 1973/74:


Não conhecia esta história e confesso que fiquei sensibilizado com a sua narrativa. A minha primeira reação foi de incredibilidade. Como teria sido possível? Duas companhias sofrerem uma emboscada de armas ligeiras, a que pelos vistos não reagem, e sem baixas, nem mortos nem feridos, fogem para o quartel em debandada.

Não consigo descortinar uma razão para este procedimento. Qual terá sido a causa? A zona era assim tão perigosa, com o IN a dominar toda aquela região, com uma área de 15 por 15 Km, confinada pela foz de 2 rios navegáveis?

Depois fico angustiado: Como me sentiria eu, se tivesse sido um dos que regressaram a Fulacunda, sabendo que não regressaram ao quartel seis  camaradas? Quais os sentimentos dos Comandos dessas unidades que,  não os procurando de imediato, organizam uma busca no dia seguinte,  e que,  não os conseguindo encontrar nessa operação, desistem de os procurar? Que sentido faz, organizarem uma busca 10 dias depois?

E tudo isto se passou relativamente próximo de Bissau, do QG.

Se as tropas sitiadas em Fulacunda, não estavam capacitadas (?) para conhecerem e controlarem a região onde se inseriam, não havia outras forças à disposição do Com-Chefe, para atuarem de imediato, por terra, pelos rios e pelo ar, para detetarem os seis militares perdidos e acossados pelos guerrilheiros ?

Eu nada conheço do que se passava naquela região a esse tempo! Era uma região sob o domínio da guerrilha? Mas seria assim tão difícil libertar essa região do seu domínio?

O que mais me choca, é reconhecer como os soldados e os milicianos que alinhavam no mato, eram tratados, como carne para canhão,(salvo raras exceções) pelos seus superiores, oficiais, militares profissionais, oriundos da Academia Militar, que raramente saiam da sua área de conforto, o reduto do quartel, bem protegido com abrigos e cercas de arame farpado e torre de vigia com sentinelas.

Este episódio narrado, destes seis camaradas abandonados nas matas, perseguidos pela guerrilha e à mercê da sorte, para mim é chocante. Evidencia a desumanidade de alguns Comandantes, indignos da farda que envergavam e dos galões que ostentavam, para quem a vida dos seus subordinados pouco ou nenhum valor tinha. Era esta a perceção que tinha de alguns militares profissionais que conheci, que ainda me tornavam mais anti-militarista.

Resta-me acrescentar que esta minha sensibilidade exacerbada, perante este caso narrado, se deve a sentir que algumas das "operações" que me foram ordenadas, eu e aqueles que me acompanhavam, fomos usados como carne para canhão, na cruel perspetiva de nos provocar baixas, com que o sinistro oficial de operações, em final de comissão, agregaria ao seu miserável palmarés.  (**)

Atentamente
JLFernandes


2. Breve CV do nosso camarada, que integra a Tabanca Grande, membro nº 621,  desde 29/12/2013:

(i) Joaquim Luís Fernandes, natural e residente em Maceira, concelho de Leiria;

(ii) Assentou praça (recruta) em janeiro de 1972 no RI 5 nas Caldas da Rainha com o número 06067572;

(iii) No 2º trimestre esteve em Mafra na EPI e fez o COM como cadete de infantaria;

(iv) No 3º trimestre voltou ao RI 5 como aspirante a oficial miliciano e foi instrutor, dando aí uma recruta;

(v) Foi mobilizado em setembro ou outubro de 1972, mas só em 20 janeiro de 1973 teve voo para a Guiné, depois de longo adiamento que o deixou solto e sem quartel durante 3 meses;

(vi) Apresentou-se no QG em Bissau como alf mil inf em 20 janeiro de 1973 (data da morte de Amílcar Cabral) ficando (no famoso Biafra) a aguardar coluna de transporte para Teixeira Pinto onde iria ser integrado na CCaç 3461/ BCaç 3863 comandada pelo cap Mil Gouveia;

(vii) Em Teixeira Pinto substituiu, em rendição individual, o alf mil Marques, que tinha sido evacuado para a Metrópole; comandou um pelotão (grupo de combate "Os Americanos");

(viii) Teve como principais missões, a escolta de colunas e o patrulhamento de segurança e de reconhecimento ofensivo;

(ix) No fatídico dia 1 de fevereiro de 1973, domingo, fez o seu primeiro serviço de oficial dia e o seu grupo estava de piquete: um trágico "batismo" para um "pira". (***);

(x) Está reformado, tendo trabalhado na indústria de moldes;


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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 4 de março de 2024 > Guiné 61/74 - P25234: 20.º aniversário do nosso blogue: Alguns dos nossos melhores postes de sempre (1): Um dos episódios mais trágicos da nossa guerra, no decurso da Op Lenda, em 7/10/1965, Gamol, Fulacunda

(***) Vd. Excerto do "Diário da Guiné, Lama, Sangue e Água Pura", do nosso camarada António Graça de Abreu, pág. 73/74: (...) Canchungo, 1 de Fevereiro de 1973 (...)
 

sábado, 21 de outubro de 2023

Guiné 61/74 - P24778: Os nossos seres, saberes e lazeres (596): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (125): Em Leiria, pedindo muita desculpa por lhe ignorar os tesouros (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Julho de 2023:

Queridos amigos,
Não era uma visita de médico, mas havia as limitações de um curto fim de semana, ia-se um tanto às cegas, houve uma adorável viagem de comboio, saciou-se a fome numa viagem de comboio pela linha Oeste, o que permite seguir o itinerário dos arrabaldes lisboetas, os sucessivos tecidos do chão saloio, pôr os olhos na fecundidade do solo desse Oeste que dá boas frutas e legumes, e depois a paisagem de pinhal, incêndios recentes trouxeram a praga do eucalipto, estranha-se a inércia das autoridades em consentirem em tal atentado. Este segundo dia foi preenchido com algumas visitas de estalo, como aqui se mostra, desde uma exposição de Sofia Areal, o Centro de Diálogo Intercultural e Religioso, a grandessíssima surpresa que é o Museu de Leiria e, não menos deslumbrante, o moinho de papel, marcado pelo trabalho do arquiteto Siza Vieira. E a seu tempo aqui se voltará, em romagem ao castelo medieval e arredores.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (125):
Em Leiria, pedindo muita desculpa por lhe ignorar os tesouros (2)

Mário Beja Santos

Neste segundo e último dia de estadia em Leiria, tendo verificado à noitinha do primeiro que há um verdadeiro estendal de património entre o castelo medieval e o rio Lis, impõem-se opções drásticas, ser comedido no deambular pelo casco histórico, e selecionar com rigor os lugares a visitar. Começa-se pela antiga delegação do Banco de Portugal, obra do arquiteto luso-suíço Ernesto Korrodi, uma mistura de classicismo romântico e do despertar da Arte Nova, temos agora no seu interior, muitíssimo bem intervencionado, um espaço expositivo digno de visitas, verificara logo no primeiro dia a ver ali uma exposição de Sofia Areal, santa do meu culto, não quis perder a oportunidade de a visitar, gosto muito da dialética que ela sabe impor entre formas e luz, cores fosforescentes onde não falta o negro, onde é permanente a relação entre o desenho e a pintura, é no uso do papel que ela é mestre a fazer despontar energias primordiais e a combinação do gestual com o orgânico. A exposição incluía, aliás, um elucidativo vídeo do seu trabalho em estúdio, onde se releva a natureza deste relacionamento e até uma certa escrita automática que evoca o surrealismo. Há artistas de quem podemos dizer que fazemos o reconhecimento ao primeiro olhar, tal como há outros de quem adivinhamos a parentela das escolas, dos ensinamentos obtidos, das analogias com o mestre. Sofia Areal é completamente singular, iridescente, tumultuosa, problemática. Aqui a saúdo nestas três imagens.

Está decidido: um pouco de passeio, à laia de despedida, o castelo de Leiria, o Museu da Imagem em Movimento ficarão para segundas núpcias, agora vou caminhar para o Centro de Diálogo Intercultural de Leiria, procuro estar atento aos pormenores, acho esta ligação na rua do Arco um verdadeiro achado.
Pormenor da rua do Arco

Este Centro de Diálogo Intercultural pretende interpretar a presença ao longo dos séculos de três importantes religiões em Leiria, o catolicismo, o judaísmo e o islamismo, está sediado na Igreja da Misericórdia, edifício muito bem restaurado, painéis elucidativos do que timbra qualquer uma destas três religiões do Livro, belas imagens, etc. Visto o interior do edifício sentei-me para contemplar melhor o trabalho do altar-mor e do teto. Aqui fica o registo em duas imagens.
Nova etapa, a Igreja de Santo Agostinho e o seu Convento onde se encontra o Museu de Leiria que tem claustro de planta quadrangular. Oferecem-me uma pequena brochura onde se esclarece que este museu ficou a deve a sua concretização aos esforços persistentes de Tito Lacher (1865-1932), que levou á criação do Museu Regional de Obras de Arte, Arqueologia e Numismática de Leiria. Em 2006, iniciou-se o processo de restauro do Convento de Santo Agostinho, monumento construído a partir de 1577 (a igreja) e 1570 (o complexo conventual), é aqui que habita o Museu de Leiria. O programa museológico abrange, para além do acervo do antigo museu, as coleções artísticas municipais e a reserva arqueológica. É um museu que se organiza em dois espaços expositivos: no primeiro, uma exposição de longa duração, que faz uma leitura geral da História do território, e o segundo é reservado a exposições temporárias que permitem aprofundar temáticas e coleções específicas.
Entrada do Museu de Leiria, uma instituição cultural recheada de prémios
Claustro quadrangular do Convento de Santo Agostinho/Museu de Leiria

Passo pela arqueologia como cão por vinha vindimada, embora, confesso, rendido ao excecional trabalho museológico e museográfico, mas isto de ossadas, pedras e moedas romanas tenho tido a dita de conhecer com uma certa quilometragem. Detive-me diante de duas obras soberbas de pintura, uma festa de aldeia, tipicamente flamenga, obra que saiu da oficina de Dirk Bouts, o que me maravilha é a organização do espaço, uma festa morada, há para ali regozijos e dança, gente enfastiada ou com muito álcool na cabeça e fora deste compartimento, onde há mesmo marcas da natureza, estende-se até ao infinito a paisagem, indiferente à folia que decorre no espaço compartimentado, e as cores são soberbas. A outra prende-se com um motivo tipicamente religioso, é atribuída ao pai de Josefa de Óbidos, está marcada por uma candura esplendorosa, o Menino Jesus afinal também se magoava e não havia qualquer motivo para esconder aquela reação tão própria dos homens, a manifestação da dor.
Menino Jesus do Espinho, atribuído a Baltazar Gomes Figueira, c. 1640-1650

Dentro do museu decorria uma exposição intitulada CORPVS, Arte e Património Eucarísticos na diocese de Leiria-Fátima, exibindo uma série de testemunhos materiais que traduzem a forma de pensar a Eucaristia em cada tempo, o que permite ao visitante observar cálices, patenas, casulas, dalmáticas, castiçais, lampadários e até uma espetacular custódia do século XVIII.
Custódia do século XVIII

No final da visita, ainda deu para apreciar, dentro da temática religiosa, arte plástica como esta Última Ceia, um modernismo um tanto ingénuo, com originalidade de uma pose para a fotografia, ou uma cena teatral, porventura um relevo destinado para templo religioso. Tocou-me profundamente.
A Última Ceia

Vamos agora ao último itinerário do dia, um fabuloso moinho do papel, um dos ícones patrimoniais de Leiria. Equipamento reabilitado pelo arquiteto Siza Vieira, é um dos ex-libris da história da indústria leiriense. 1411 consagra o início da história do moinho do papel de Leiria, numa época em que a indústria da moagem era determinante para o desenvolvimento económico, este moinho é um dos primeiros na Península Ibérica. Nas margens do rio Lis, o moinho destaca-se pelas estruturas dos antigos rodízios que submergem no edifício, e pelas grandes azenhas que sublimam a imagem de uma indústria artesanal de outrora. No interior, vivencia-se o processo tradicional de produção de papel, em que os visitantes podem participar, e de moagem de cereais. No final, o visitante pode comprar as farinhas produzidas com a energia do rio.
É admirável este complexo museológico e a museografia é irrepreensível pelo caráter pedagógico que revela a todo o momento, ora vejam.

Está na hora de regressar, na vinda tomou-se o comboio de Entrecampos até Leiria, uns abordáveis cinco euros e satisfez-se um antigo desejo de voltar a andar de comboio pela linha do Oeste. Regressa-se de autocarro, com uma certa tristeza, não houvesse afazeres inadiáveis, era certo e seguro que se subia ao castelo. Mas há mais marés que marinheiros e a vontade de regressar é irreprimível.
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Nota do editor

Último poste da série de 14 DE OUTUBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24756: Os nossos seres, saberes e lazeres (595): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (124): Em Leiria, pedindo muita desculpa por lhe ignorar os tesouros (1) (Mário Beja Santos)

sábado, 14 de outubro de 2023

Guiné 61/74 - P24756: Os nossos seres, saberes e lazeres (595): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (124): Em Leiria, pedindo muita desculpa por lhe ignorar os tesouros (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Julho de 2023:

Queridos amigos,
A viagem, por definição, é interminável, nós é que, como baratas tontas, nem sempre acertamos no destino. Tenho promessas de visitar o parque do Montesinho, voltar a Miranda do Douro e percorrer o planalto mirandês, calcorrear todo o Alto Minho, e muito mais, tudo na lista de espera, mas a mandriice é mais pesada, a que chamamos falta de tempo. Acabo de fazer uma reparação, e de falta grave, conhecer Leiria, o que me surpreendeu profundamente, isto quando as cassandras andam para aí a dizer que o desenvolvimento é espúrio e que estamos num plano inclinado, Leiria tem qualidade de vida à vista, os arredores são impressionantes e os tesouros da cidade aparecem valorizados, como aqui se procurará mostrar. Não quero esconder que gostei ver bem tratado Eça de Queirós, que aqui teceu uma das suas obras-primas, enquanto foi administrador de concelho, e não posso esconder a minha admiração pelo pulsar cultural da cidade, profusamente ajardinada, isto a despeito de lhe chamarem cidade industrial.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (124):
Em Leiria, pedindo muita desculpa por lhe ignorar os tesouros (1)

Mário Beja Santos

Fiz a linha do Oeste, teria 8 ou 9 anos, a minha mãe pôs-me numa colónia de férias num sítio chamado Gala, bem perto da Figueira da Foz, uma ranchada de miúdos numa viagem de comboio que me pareceu bem bizarra, havia uma mudança de comboio logo no Cacém, era um nunca mais acabar de campos agrícolas, nunca tinha visto o castelo de Óbidos nem o pinhal de Leiria. E de repente descubro que passei a vida a ver Leiria de raspão, houve para ali umas conferências a que chegava ao entardecer e regressava a Lisboa pela meia-noite. Mão amiga fez-me chegar um pequeno roteiro do que a cidade oferece, não só aquele castelo com vista obrigatória de autoestrada, mas as igrejas com novos aproveitamentos, logo o Museu de Leiria, ainda por cima com o invejável prémio auferido em 2017, museu europeu do ano; e a renovação do velho casco histórico, fiquei a saber que Eça de Queirós, que foi administrador do concelho de Leiria e a li encontrou substância para uma das suas obras magistrais, “O Crime do Padre Amaro” era agora motivo de um roteiro em busca dos indícios da sua presença.
E assim se decidiu a viagem, qual a minha surpresa quando descubro na CP que viajando ao fim-de-semana, os velhotes pagam cerca de 5€ viajando até Leiria, havia que encontrar poiso, foi fácil e económico, os dados estavam lançados. E nem se sentiu qualquer obstáculo em sair do comboio e não haver transporte público, lá se foi calcorreando a caminho do centro, com alguma desconfiança, muita casa arruinada pelo caminho, em contraste com o que vai ser dado ver à entrada da cidade, marcada com o gigante estádio construído para o campeonato da Europa de futebol de 2004. Arrumada a mochila no quarto, avança-se para a Sé Catedral, monumento nacional. Gostos não se discutem, é obra do período maneirista, de uma frieza arrepiante, nem o tamanhão causa impressão, anda-se por ali à volta, contempla-se o altar-mor, é entrada por saída.

Interior da Sé Catedral de Leiria

No átrio avista-se café e um conjunto a tocar umas toadas brasileiras, pareceu-me coisa insípida. Nisto, avisto uma fachada azulejada em prédio ao abandono. É a farmácia de Leonardo da Guarda e Paiva, não sei que destino lhe estará reservado. Que haja um proprietário condoído, mesmo que aqui se queira pôr construção moderníssima que ofereçam este espetáculo azulejar ao Museu da Farmácia ou mesmo ao Museu de Leiria, Esculápio agradece.
Sou tanto queirosiano como camilista, gosto de os justapor, em Eça interessa-me profundamente como intelectual de uma monarquia constitucional em declínio, que ele escalpeliza com ironia e crueza; mas Camilo é uma outra riqueza da língua, com morgados, quadrilhas, noivados do sepulcro, amores de perdição, as primorosas Novelas do Minho. Adiante, estou em Leiria e vou fazer uma parte do itinerário deste Eça, bem precisávamos de um para o nosso tempo. Tenho uma coleção de inícios de grandes obras literárias, e do Eça não conheço mais luminoso arranque que o do “Crime do Padre Amaro”, perdoem-me a extensão da citação, mas em Leiria é-se leiriense:
“Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria, que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica — que o detestava — costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
— Lá vai a jiboia esmoer. Um dia estoura!
Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe — à hora em que defronte, na casa do doutor Godinho que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado.
Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.
Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionário, e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!
E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando:
— Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola!
As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no:
— Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, criatura!
Era miguelista - e os partidos liberais, as suas opiniões, os seus jornais enchiam-no duma cólera irracionável:
— Cacete! cacete! exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho.
Nos últimos anos tomara hábitos sedentários, e vivia isolado — com uma criada velha e um cão, o Joli. O seu único amigo era o chantre Valadares, que governava então o bispado, porque o senhor bispo D. Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto Minho. O pároco tinha um grande respeito pelo chantre, homem seco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovídio — que falava fazendo sempre boquinhas, e com alusões mitológicas.
O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei Hércules.
— Hércules pela força — explicava sorrindo, Frei pela gula.
No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos outros cónegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o ritual, o primeiro torrão de terra:
— É a última pitada que lhe dou!
Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador do bispado; o cónego Campos contou-o à noite ao chá em casa do deputado Novais; foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre, e afirmou-se com respeito — que sua excelência tinha muita pilhéria!
Dias depois do enterro apareceu, errando pela Praça, o cão do pároco, o Joli. A criada entrara com sezões no hospital; a casa fora fechada; o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portais. Era um gozo pequeno, extremamente gordo, — que tinha vagas semelhanças com o pároco. Com o hábito das batinas, ávido dum dono, apenas via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz Joli; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tomou a ver o cão, na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.
Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco.”


Sem compromissos de agenda, enterro-me no casco histórico, descubro a homenagem a Afonso Lopes Vieira e logo a seguir Francisco Rodrigues Lobo, que estudávamos no sexto ano, sobretudo por causa de a “Corte na Aldeia”, o padre António Dias de Magalhães bem o exaltava por desvelar o Portugal sombrio, supliciado pela presença de rei estrangeiro, e enfatizando que este leiriense no estava a abrir as portas ao barroco literário.

Escultura de Afonso Lopes Vieira. Nasceu em Leiria, em 26 de janeiro de 1878, tinha casa perto, em Cortes, e vivia em Lisboa, onde faleceu
No centro histórico de Leiria, com o castelo ao fundo
Estátua de Francisco Rodrigues Lobo

A cidade possui belos jardins, impossível não vir contemplar esta obra de Lagoa Henriques a simbolizar a junção dos dois rios influentes em Leiria.
Escultura “O Lis e o Leno” de Lagoa Henriques

O fim de tarde acode à lembrança que se comeu pelo caminho uns pãezinhos e peças de fruta, não se paga 5€ num comboio regional à espera de encontrar um vagão-restaurante do tipo do Expresso do Oriente. Eis senão quando numa rua pedonal um letreiro chama a atenção, fora hostel, virara agora restaurante multiétnico, pergunta-se a um passante o que por ali se pode comer, a resposta é entusiástica, a comida é boa e não há em Leiria ambiente como aquele. E sobem-se as escadas para entrar no Atlas. Comeu-se de pelo menos dois continentes, mas aquele ambiente faiscante prende a valer, houve por ali mão hábil a decorar todos aqueles espaços e recantos que vão até ao terraço. Aqui se deixa a lembrança que se gostou e haja oportunidade aqui se vai voltar.

Chegou a hora de fazer o passeio de regresso, ir para a deita, o dia de amanhã promete, mete museus, igrejas e algo mais, já se fez as contas e há mesmo que voltar, não haverá condições de visitar o castelo e outros monumentos. É nisto que se capta a imagem de Leiria à noite com o castelo ao fundo, temos depois o contraste com a Leiria de manhã e vamos agora a caminho da antiga delegação do Banco de Portugal transformado em centro de artes, temos o aliciante, entre outros, de visitar uma exposição de Sofia Areal. Que Leiria me perdoe tê-la ignorado tanto tempo.
Fachada da antiga delegação do Banco de Portugal, obra do arquiteto suíço Ernesto Korrodi

(continua)

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Nota do editor

Último poste da série de 7 DE OUTUBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24734: Os nossos seres, saberes e lazeres (594): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (123): Oh Bruxelles, tu ne me quittes pas! (14) (Mário Beja Santos)