sexta-feira, 23 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1624: Bibliografia de uma guerra (17): A geração do fim ou a palavra a 21 oficiais de infantaria, de 1954/57 (Miguel Ritto)

1. De Miguel Ritto, filho de um oficial do exército do QP (e antigo combatente da Guiné, 1963/65 - julgo tratar-se do Capitão António José Brites Leitão Ritto), recebi a seguinte mensagem:

Luís Graça,

Em sequência à apresentação na TVI a 22 de Março, [a reportagem intitulada Última Missão (1), ] talvez tenha interesse para alguns a leitura das páginas 238 a 243 do livro A Geração do Fim, publicado pela Editora Prefácio, já em 2007 (2).

Nessas páginas está o subcapítulo "Guidaje - Rompendo o cerco", escrito pelo Coronel Pára Moura Calheiros. Disseram-me que recentemente o Coronel Moura Calheiros (já reformado) apareceu na televisão a falar no empenho dos paraquedistas em trazerem os corpos dos 3 soldados.

2. Já anteriormente, o Miguel me tinha enviado, em 13 de Fevereiro de 2007, um e-mail a divulgar este livro, com um convite para a respectiva sessão de lançamento a que infelizmente não pude assistir:

Dr. Luís Graça,

Consultei o seu site sobre a Guiné algumas vezes, e recebo regularmente alguns e-mails seus (nunca estive na Guiné, mas o meu pai combateu lá de 1963 a 65, e a minha curiosidade surgiu há cerca de 1 ano, após ter colaborado na revisão de uma crónica que lhe pediram para escrever, para incluir num livro).

No próximo dia 22 [de Fevereiro] vai ser apresentado um livro com crónicas escritas por militares que entraram para a Academia (para infantaria) em 1954. No livro há pelo menos 2 crónicas sobre a Guiné (...).

3. Depois disso, o Miguel enviou-me a 28 de Fevereiro de 2007, um ficheiro em formato.pdf, com a imagem da capa e contra-capa do livro. Infelizmente, este formato não é compatível com o nosso blogue (que só aceita imagens em formato jpg ou gif) (3). Dizia ele:

O meu pai é que esteve na Guiné, e a minha curiosidade pelo seu Blog surgiu quando o meu pai me pediu para rever o texto de 2 capítulos que escreveu para o livro.
Um desses textos é:
- "Guiné: Cabedu e o imposto de palhota" (pág. 77 a 87). Relata a comissão de 1963 a 1965 em Cabedu, na mata do Cantanhês.

Ainda sobre a Guiné, o livro inclui o capitulo "O ano da brasa", com as actividades dos parquedistas em Gadamael e Guidaje e ainda no Cantanhês (incluindo relatos detalhados da introdução dos mísseis na Guiné pelo PAIGC).

Extracto do Prefácio:

Este livro feito de memórias soltas, e escrito a muitas mãos é forçosamente de natureza heteróclita. Assim há escritos sobre: a primeira companhia de paraquedistas, ainda de FBP e Mauser, a actuar em África, no romper da guerrilha em Angola; "O ano da brasa" em Gadamael e Guidaje e ainda no Cantanhês (incluindo relatos detalhados da introdução dos mísseis na Guiné pelo PAIGC); os massacres de Mueda, de um Silvestre Martins presente no caso e contando novidades em primeira mão, e de Wyriamu, este poderosamente mediatizado; o incêndio e o saque da Embaixada de Espanha, em Lisboa, em 1975; os preparativos para liquidar Eduardo Mondlane, num único e rápido parágrafo; o Caso de Beja; o 25 de Abril, com um texto de Vítor Alves (4), e o 25 de Novembro.
O livro foi apresentado no passado dia 22 de Fevereiro, e deverá surgir nas livrarias nas próximas semanas.

Cumprimentos
Miguel Ritto
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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 22 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1622: A Última Missão do paraquedista Victor Tavares (Luís Graça / Torcato Mendonça / J. Casimiro Carvalho)

(2) Estanhamente, esta editora ainda não tem uma página na Internet. Telefone: 213 530 376. Mail: editora.prefacio@mail.telepac.pt

(3) Disponível na página Moçambique - Guerra Colonial, do nosso camarada António Pires.

(4) O Coronel Vítor Alves é provavelmente o mais conhecido dos autores deste livro, um dos vinte e um oficiais do quadro permanente do curso da Arma de Infantaria (1954/57) que relatam estórias da sua actividade como operacionais, nomeadamente em África, durante a guerra colonial.

Do nosso tempo de Guiné, reconheço o nome do tenente-coronel José Aparício, na altura capitão: a sua companhia, a CCAÇ 1790, sofreu pesadas baixas, por acidente na travessia do Rio Corubal, em Cheche, no dia 6 de Fevereiro de 1968, na sequência da Operação Mabecos Bravios (retirada de Madina do Boé). Vd. post de 12 Fevereiro 2006 > Guiné 63/74 - DXXVI: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405).

Guiné 63/74 - P1623: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (39): Cartas de além-mar em África para aquém-mar em Portugal (1)


Guiné > Zona leste > Sector L1 > Bambadinca > Missirá > Pel Caç Nat 52 > 1968 > Aerograma, com data de 9/11/ [1968], enviado a Cristina Allen. O Beja Santos escrevia diaria e compulsivamente aos seus amigos e familiares. Eis um excerto do aerograma:

Meu adorado amor: Tivemos grande susto com os tiros rebeldes na fonte, e houve que elaborar um novo programa de prevenção, a fim de suprir deficiências na vigilância. De manhã, veio uma coluna de Finete que trouxe o correio da semana. Notícias de minha mãe e do Ruy [Cinatti]. Também tu não pudeste escrever. Não estejas zangada comigo, meu amor. Veio correio oficial, perguntas e formulários administrativos, houve de pôr em dia a mala posta militar. Ao raiar da claridade parto, parto para Bambadinca, numa missão deveras amistosa. Quarta feira, saída do pelotão, eu ficarei mais uns dias paar pôr ao facto o nosso cinzelador e régulo (...)."


Capa de A Cidade e as Serras, romance de Eça de Queirós. Porto: Lello & Irmão, Editores. 1945. (Colecção lello, 1). Capa de Alberto Sousa, inspirada na entrada principal da Quinta de Tormes (situada no Concelho de Baião, é hohe sede da Fundação Eça de Queiroz, e vale uma visita), onde se passa a história do príncipe Jacinto e do seu amigo Zé Fernandes. Escreve o Beja Santos à sua mãe: "Imagine que reli sofregamente A Cidade e as Serras, do Eça. Encontrei na messe de oficiais em Bambadinca uma edição de 1945, da Lello" (...).

O Tigre de Missirá tinha fama de predador em Bambadinca... Fechavam-se portas, janelas e gavetas, ao ouvir-se o grito da sentinela: Vem aí o Tigre !.... De qualquer modo, depois do ataque de 19 de Março de 1968, ele partia da estaca zero, começando a reconstituir a sua biblioteca (e a sua morança) com alguns livros que trouxe de Bissau, depois da intervenção cirúrgica a que foi submetido no Hospital Militar. (LG)

Foto: © Beja Santos (2007). Direitos reservados.




39ª Parte da série Operação Macaréu à Vista, da autoria de Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) (1). Texto enviado em 8 de Março de 2007.


Caro Luís, fui ver o filme Cartas de Iwo Jima, do Clint Eastwood, que me comoveu muito e procuro aproveitar aquelas cartas nipónicas dos soldados do Imperador para as suas famílias adaptando-as às cartas que ia escrevendo às pessoas que mais amava.

O período que medeia entre os fins de Março e Maio foram uma silenciosa epopeia de guerra e paz: idas diárias a Mato de Cão, desmatou-se, repararam-se caminhos na antevisão da época das chuvas, fizeram-se tijolos, felizmente os rebeldes estiveram calmos, desconhecendo nas idas e vindas a Mato de Cão lhes rondava o paradeiro.

Este tipo de cartas talvez seja uma boa resposta para eu trazer à cena os meus problemas íntimos e, tal como os soldados do Imperador, falar da cultura densa, dos meus afectos e dos sonhos que deixara a marinar. Seguem dois livros pelo correio, sugiro as imagens que tens da reconstrução de Missirá e os apontamentos do Luís Casanova (...). Um abraço do Mário.


Cartas de um militar de além-mar em África para aquém em Portugal (1)
por Beja Santos



Para o Ruy Cinatti (2)

Ruy, Dear Father,


Regressei a Missirá há dois dias. Grande parte do quartel e da povoação foram devorados pelas chamas, devido a uma flagelação que aqui ocorreu no passado dia 19. Tenho abrigos danificados, chegou a altura de reconstruir mais dois, perderam-se 17 cubatas, a vida tornou-se muito difícil para todos nós. Há gente sem comida e falta arroz em Bambadinca. Antes da operação, estive no Batalhão de Engenharia e recebi muitas promessas. Com este revés, confio que o cimento, o arame farpado e os outros materiais de construção civil venham em quantidade suficiente para começar de novo.

A época das chuvas vai chegar em meados de Abril e é por isso que já estamos a construir os tijolos, numa corrida contra o tempo. A actividade militar continua com as idas e vindas diárias e nocturnas a Mato de Cão. A destruição de um aquartelamento implica muita burocracia com os abates, contagem de material. Como esta guerra é muito especial, quando falei sobre lista de material perdido, que é uma lista de enlouquecer, foi-me respondido que eu devia registar todo o material perdido, fazendo uma relação dos estragos através de uma comparação a olho vivo com o resto da carga não destruída...

Os meus soldados ajudam-me imenso, já que continuam a não regatear esforços, acumulando agora, em permanência, actividades de construção civil. Falta-nos muito arroz para a população civil , como disse, e ofereceram-nos arroz apanhado durante uma operação no Corubal.

Desapareceram no fogo todos os meus livros e discos. Peço-lhe pois que me dê a sua ajuda oferecendo-me alguns livros. Já escrevi ao meu padrinho e seu afilhado pedindo livros da Portugália Editora: romances contemporâneos, clássicos e ensaios. Veja se me pode oferecer poesia francesa contemporânea, romances da Ulisseia como a Viagem ao fim da noite, do Louis-Ferdinand Céline, que nunca tive oportunidade de ler. Aceito tudo, como Job.

Fui punido com dois dias de prisão e não terei férias. A Cristina está desconsolada e fala em vir viver em Bissau, dando aulas no liceu. Não tenho ainda opinião formada e confio no seu conselho. O Comandante Teixeira da Mota continua a escrever e tem-me dado apoio com as suas cartas. Esta experiência é muito dura, a solidão pesa e tenho uma saudade infinita de todos vós.

O Carlos Sampaio, filho do seu amigo Fausto Sampaio, está mobilizado para Moçambique. O estado de saúde da minha mãe deteriora-se e peço-lhe que lhe telefone. As cartas que recebo vêm cheias de censuras e azedume, o corte de relações com a Cristina levou à formação de grupos pró e contra, muito correio que aqui recebo traz as chamas do inferno.

Desculpe o tom desolado com que lhe escrevo, é com muita dificuldade que me habituo à ideia de que além de combater vou reconstruir este quartel animado pela vontade de o ver renascer das cinzas. Despeço-me com muita amizade e gratidão pela companhia que me dá. Perderam-se as suas cartas mas cresceu a estima que lhe tenho.





Capa do romance de Erico Veríssimo, Música ao Longe, 7ª ed. Lisboa: Livros do Brasil, s/d. Capa de Bernardo Marques. (Colecção Livros do Brasil, 9). Com alguns livros comprados em Bissau e com outros, emprestadados por amigos e camaradas, o Alf Beja Santos lá foi reconstituindo a sua preciosa biblioteca, devoradada pelas chamas na noite do ataque a Missirá, em 19 de Março de 1969. No penúltimo post (3), Beja Santos escreveu: "Leio e releio sofregamente Música ao longe que me atrai pela sua simplicidade, pelos enredos plausíveis, pelo exótico de um mundo rural que eu desconheço. Abençoado o bem que Erico Veríssimo me faz. E daqui passo para O mistério do Bellona Club por Dorothy L. Sayers. Esta escritora britânica criou o detective Lord Peter Wimsey, um sofisticado que lê manuscritos de Justiniano, é requintado gastrófilo e tem um criado que é um verdadeiro pesquisador e angariador de informações".



Para o Carlos Sampaio (4)


Carlos, meu querido Amigo,

Recebi a tua carta quando estava a ser operado ao joelho direito em Bissau. Sei que partes para Moçambique em Junho e que já estás a formar batalhão. Rezo para que a tua comissão seja menos dura possível. Quando regressei a Missirá, há dias, todo o recheio da minha morança tinha ardido. Com excepção de três livros que me ofereceste, e que me acompanharam até Bissau, tudo se perdeu: os teus poemas, os teus desenhos, o carinho do teu estímulo.

Vezes sem conta relembro os nossos serões na Praça Pasteur nº 8, 2º esquerdo, a tua companhia no almoço no dia em que fui para Mafra e em que me deste a Bíblia de Jerusalém e um lindo livro de pintura grega. Felizmente que deixei ao cuidado da minha mãe aquele óleo que pintaste na Anadia, naquela semana de férias antes de eu partir. A Cristina fala-me muito da ajuda que lhe tens dado e sente-se preocupada com o teu ar fatigado.

Por aqui está tudo muito difícil, não sei se te hei-de incomodar com as obras da arrecadação que estamos agora a reparar, com as obras de um poço para termos água potável dentro de Missirá ou a substituição das três fileiras de arame farpado: a única consolação é que esta linguagem dentro de meses vai entrar no teu dia a dia.

Não nos veremos antes do final das nossas comissões e tu és o meu maior amigo. Sei que tens projectos para, depois dos estudos, trabalharmos juntos na livraria Sampedro. Contas comigo, gosto cada vez mais da aventura do livro, produzi-lo e vê-lo nas mãos dos outros. É esse projecto comum que me impede hoje de te dizer que estes mais de dois anos em que não conversaremos face a face me custam muito. Teremos uma vida inteira para editar e vender livros, que bom!

Estou muito cansado hoje, são duas da manhã e às cinco parto para Mato de Cão, junto do rio Geba. Desejo-te coragem e que tenhas sempre o entusiasmo que contagia a minha vida. Por favor, escreve-me.





Capa do romance policial O mistério do Bellona Club, de Dorothy L. Sayers. Lisboa: Livros do Brasil, s/d. (Colecção Vampiro, 35). Capa de Cândido da Costa Pinto. "Aquela prodigiosa capa do Cândido da Costa Pinto sempre me intrigara, tinha chegado o momento de satisfazer a curiosidade com a trama da intriga policial" - escreveu Beja Santos, no post de 10 de Março último (3).


Para o Padre António de Almeida Fazenda, S.J.

Querido Padre Fazenda,

Recebi a sua carta que muito consolo me deu. Fico triste com o sofrimento que a sua zona lhe provoca e agradeço as suas orações. Procurei saber em Bissau se havia documentação sobre os Jesuítas que passaram por aqui nos séculos XVII e XVIII, nada encontrei mas já escrevi à maior autoridade em historiografia da Guiné, o Comandante Teixeira da Mota, e depois dar-lhe-ei notícias.

O meu quartel está reduzido a menos de metade, o que me aflige é o sofrimento das famílias dos soldados, que foram os mais atingidos, mas a população civil também perdeu algumas casas. Falta muita alimentação e ando permanentemente a fazer colunas de reabastecimento.

Lembro todos os dias com saudade as aulas de Latim e Grego, lembro a sua generosidade e os valores que me procurou transmitir. Confio que possa contar muitos e bons anos com esse seu apoio, aprendendo com a sua serenidade e despojamento. Desculpe ser breve, o cansaço está a tomar conta de mim, fui castigado e não posso ver-vos tão cedo. De resto, sei que vou contar com a misericórdia de Deus mas há momentos em que um homem fica de rastos. Mas amanhã estarei muito melhor, acredite. Contando com a sua benção, receba a muita estima daquele que admira a sua espiritualidade.


Para Angela Carlota Gonçalves Beja

Querida Maezinha:

Voltei a Missirá, a operação (3), como lhe disse ao telefone, correu muito bem, desapareceram as dores, ando sem sofrimento. Fico contente com as notícias que me deu, com o estado de saúde da sua irmã Carlota. Sei que vai passar férias a S. Pedro do Sul e fazer tratamentos, na companhia do Rodolfo. Não se esqueça de me escrever. Sei que lhe é difícil, mas, por favor, evite mais pormenores da sua zanga com a minha namorada.

Recebo constantemente correio que me inquieta e conto com o amparo de todos os meus entes queridos. Amparo, porque aqui há uma guerra, há incêndios como recentemente aconteceu em Missirá, onde perdemos muitas cubatas, tenho edifícios danificados, não sei o que nos aconteceria se sofrêssemos novo ataque. Agradeço-lhe as visitas que faz ao Fodé Dahaba e ao Paulo Semedo. Diga aos dois, por favor, que o Cherno Suane e o Mamadu Camará vão ser condecorados por feitos de bravura.

Os próximos meses vão ser muito duros pois estamos a reconstruir as casas da população civil e a melhorar a segurança do quartel. Perdi os meus livros todos, não tem importância nenhuma mas agradecia que pensasse nalguns livros a pretexto do meu aniversário. Imagine que reli sofregamente A Cidade e as Serras, do Eça. Encontrei na messe de oficiais em Bambadinca uma edição de 1945, da Lello. A Maezinha tinha-me oferecido As Minas de Salomão, O Mandarim e A Correspondência de Fradique Mendes.

No 7º ano A Cidade e as Serras foi leitura obrigatória. Achei muita graça o arranque do romance com aquele D. Galião que ao descer a travessa da Trabuqueta encontrou D. Miguel e ficou fiel ao miguelismo, exilando-se em Paris nos Campos Elísios 202, onde o Jacinto respirou progresso e civilização. A obra ajudou-me imenso até para entender a filosofia do fim do século XIX, sobretudo o positivismo e Schopenhauer.
A releitura desta obra prima é outra coisa. A força que o Eça imprime às descrições da ambientação do Jacinto em Tormes tem um brilho que ainda hoje me deslumbra. O recurso à figura do Zé Fernandes, um alter ego do Eça, é uma solução que anima a leitura, provocando uma excelente relação directa entre o Jacinto, a civilização parisiense e o contraste com o universo do Baixo Douro onde vai ter o desfecho feliz a obra. Deixo-me citar o final do romance:

"Em fila começámos a subir para a serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, com aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidraças distantes de casas amáveis, flamejavam com um fulgor de oiro. A serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira".

Este livrinho tem capa do Alberto de Souza, inimitável aguarelista. Recomendo-lhe que leve este Eça para S. Pedro do Sul. As belezas aqui são muito diferentes. A cor da terra, como lhe disse, assinala o braseiro do calor permanente, a vegetação chega a ser exuberante e dizem-me que no Sul da Guiné, onde agora a guerra é horrível, há belezas incomparáveis na floresta hermética. Do que mais gosto é ver o pôr do Sol ao fim da tarde, ígneo a derramar-se sobre os palmeirais de Finete, quando cambo o Geba e venho pela bolanha. É um pôr do Sol súbito, próprio dos trópicos. Sei que vou guardar esta imagem toda a vida.

Fui castigado e não irei tão cedo a Portugal. Não se preocupe, estou bem, não me esqueço dos valores que me transmitiu e do amor que me tem oferecido. Quando regressar, procurarei dar-lhe companhia, iremos a exposições e espectáculos, folgo imenso sabendo que se mantém convivente e muito curiosa. Receba um beijo deste filho que nunca a esquece.


Para Cristina Allen


Meu adorado amor


Promessas para reconstruir o quartel tenho tido muitas, aos poucos vai chegando material, mas as idas a Mato de Cão têm-se multiplicado. Felizmente que tenho o exemplo monumental dos soldados que nada recusam. O Pimbas conseguiu o milagre e cedeu-me temporariamente mais 10 militares que nos ajudam nas desmatações e nos reforços já que a vida continua entre os patrulhamentos obrigatórios e a reconstrução de Missirá.
Antes que me esqueça queria-te pedir o grande favor de me comprares o Canto dos Bosques do Dimitri Chostakovitch, que ouvimos na Valentim de Carvalho. É uma edição do Chant du Monde, tu gostaste muito das vozes do tenor e baixo, não tenho dinheiro para comprar muito nem tão cedo irei refazer a discoteca, mas preciso de música vibrante que me levante moral.
Iremos continuar a falar da tua possível vinda para Bissau. A Maria Luísa Abranches está a obter informações sobre preços de casas, em Bissau, como te disse falei no liceu, é preciso concorrer em Agosto, entregando o diploma do curso, certidões como a do registo criminal e o formulário anticomunista, com registo do notário local. Há sempre vagas e o teu diploma falará por si, já que há muitos professores só com o 3º ciclo. Citas o exemplo do David Payne e da Isabel, não é a mesma coisa, o David está em Bambadinca, eu em Missirá e não há ainda notícias se algum dia saio do teatro de guerra. Vamos aguardar com tranquilidade, conto com o teu exemplo e a muita estima que me devotas.
Falando de trivialidades, o cabo Raposo anda desaparafusado, não nos deixa dormir há 4 noites com as suspeitas de que os rebeldes rondam junto do arame farpado, diz que vê fogos nas redondezas e ouve vozes. Consegue contagiar outra gente e noutro dia um macaco aproximou-se do arame farpado, dispararam uma rajada que se transformou em minutos em milhares de tiros atirados para o ar.
O auto da Fatu continua. Não sei se já te expliquei o que é uma deprecada, eu escrevo uma série de perguntas alusivas a um acontecimento e num posto da GNR alguém interroga um oficial sargento ou praça. Dou-te um exemplo com as perguntas que mandei hoje: "É do conhecimento do Sr. Capitão Miliciano Luís Vassalo Namorado Rosa que a granada que motivou as ocorrência não é do tipo de fumos mas sim armadilha? Que providências tomou face ao sinistro de 19 de Abril de 1967?".
Podes imaginar o trabalho de memória, o que o sobredito capitão fica a pensar do que eu sei que ele não sabe, mas é a única maneira de eu tirar as possíveis conclusões que permitam um mínimo de reparação para a pobre da Fatu.
A escala de férias, que estava a funcionar desde Janeiro, fica provisoriamente sem efeito. Não posso conceder férias, a não ser a título excepcional, nos próximos dois meses, até Missirá estar reconstruída. Rezo todos os dias para que não sejamos atacados nas próximas semanas. Desta vez, seria mesmo punido com justiça, já que não tenho valas abertas, dei prioridade à reconstrução de casas.
A propósito de punição, recebi a visita do Comandante Militar que veio aqui com outras altas patentes. O brigadeiro foi correctíssimo no tom em que me falou, quis visitar tudo, fez perguntas pertinentes, aceitou como um cavalheiro o nosso humilde acolhimento, deixou algumas mensagens de estímulo. Tudo tão diferente das visitas anteriores!
A todos a quem escrevo peço livros, e não te excepciono. Quando vim para a Guiné, julguei que iria privilegiar leituras à volta das ciências históricas, da antropologia e da sociologia. Puro engano, como tu sabes. Não tenho feito outra coisa que ler com entusiasmo tudo quanto é ficção, salvo os livros que me permitem conhecer melhor a Guiné. Como agora a oferta já não é abundante, deito mão ao que há.
O Carlos Sampaio tinha-me oferecido um ensaio precioso Arte e Mito, do Ernesto Grassi. Não imaginas como no meio deste desconforto todo é entusiasmante andar a discutir a natureza da arte, qual o móbil original da realização artística, o que está na origem da poesia ou da música, se a arte se entrepõe entre nós e a Natureza, o que significa a expressão "obra de arte", o porquê do que seleccionamos do passado e chega ao nosso presente, de que maneira interpretamos a ordem dos acontecimentos de um projecto artístico, ao nível dos dados sensoriais, da abstracção que fazemos da matéria e da forma, o papel do mundo religioso, como do mundo mítico surge a arte.
Este ensaio tem sido uma excelente companhia e quero que saibas que outro livro que o Carlos me ofereceu Espera de Deus me está a impressionar muito.
A noite já vai muito alta, ainda não perguntei pelos teus estudos, sei que estás a estudar com entusiasmo, confio que farás os teus últimos exames em Junho e terás justas férias. Não te preocupes comigo, com o teu amor todas estas penas vão ser suportadas e superadas. Tenho escrito ao Luís Zagalo Matos e vou contar-te tudo no correio de amanhã. Ele é muito estimado em Missirá e fico contente de vocês terem estudado juntos.
Beijo a minha senhora jovem dona, peço-te do coração que não estejas amargurada com os problemas do mau relacionamento com a minha família e tal como Madiu Colubali me escreveu de Dulombi onde foi aos funerais da mãe desejando-me beijes para alfer, toda a ternura entre Missirá e Lisboa e até amanhã.

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 16 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1600: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (38): Missirá, a Fénix renascida
(2) Outras referências do Beja Santos ao poeta e seu amigo Ruy Cinatti (1915-1986): Vd. posts de
16 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1531: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (33): O Sintex: A Marinha Mercante chega até Missirá
10 de Janeiro de 2007 >
Guiné 63/74 - P1418: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (28): Sol e sangue em Gambiel
10 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1032: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (5): Uma carta e um poema de Ruy Cinatti

(3) Vd. post de 10 de Março de 2007> Guiné 63/74 - P1578: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (37): O horror do Hospital Militar 241 e o grande incêndio de Missirá
(4) Carlos José Paulo Sampaio, Alf Mil, da CCAÇ 2515/BCAÇ 2875, morto em Moçambique, em 2 de Fevereiro de 1970. Era natural do concelho de Anadia.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1622: A Última Missão do paraquedista Victor Tavares (Luís Graça / Torcato Mendonça / J. Casimiro Carvalho)

Mensagem do editor do blogue (L.G.):

Amigos e camaradas:

(i) Acabámos de ver a reportagem da TVI – Última Missão -, com o nosso camarada Victor Tavares a entrar pela nossa casa dentro, as emoções contidas, a mesma coragem física de sempre, o mesmo sentido de camaradagem, a mesma dignidade humana...

Ele mostrou-nos os desolados restos do quartel de Binta, a picada até à bolanha do Cufeu, de trágicas memórias para alguns de nós, a fantasmagórica Guidaje e, por fim, o cemitério onde ficaram, para trás, o Peixoto, o Lourenço e o Victoriano ....

Nós sabemos que há outros camaradas, guineenses e portugueses, que lá ficaram, e de que não se falou na reportagem... Os actores têm sempre uma visão parcelar dos acontecimentso em que participam... O objectivo não era, aliás, esse, mas sim o de recuperar simbolicamente a memória dos ‘camaradas que nunca se deixam para trás’... A memória, logo a humanidade...

Para o Victor foi recuar a 23 de Maio de 1973, e pela enésima vez reconstituir, dolorosamente, essa terrível emboscada de 45 minutos, na bolanha do Cufeu, e voltar a levar os cadáveres do Lourenço e do Victoriano até Guidaje, cerrar os dentes, remuniciar a MG-42, romper o cerco a Guidaje, assistir aos últimos minutos de vida do Peixoto, metido numa vala, confortá-lo no último minuto e dar-lhe a ele e aos outros dois a sepultura minimamente condigna que as terríveis circunstâncias permitiam... Releiam agora, com tempo e vagar, o relato desses trágicos dias escrito pelo Victor, no nosso blogue (1)...

Ao vermos estas imagens, o que dói é não termos tido tempo para trazer os seus (e os de todos os outros) restos mortais, antes da troca de poderes entre a merópole e a colónia, entre Portugal e a nova Guiné-Bissau... O que dói é o silêncio, o abandono, a demissão, o esquecimento, o desprezo, a ignorância, o branqueamento, o faz-de-conta, o cinismo, o oportunismo... O que dói é sobretudo o facto de eles lá terem ficado (e continuarem) enterrados no perímetro do aquartelamento de Guidaje desde há 34 anos... sem nós podermos fazer o luto... O seu luto e o de tantos outros camaradas, espalhados por centenas de cantos da Guiné... Nós não fizemos o luto dos nossos mortos da Guiné, individual e colectivamente, estamos agora a fazê-lo... Um luto que hoje só pode ser patológico...

Enfim, amigos e camararadas, Binta, Cufeu, Guidaje ... hoje deram-nos a volta ao estômago, mexeram connosco, baralharam-nos as emoções... A nós e aos familiares do Peixoto, do Lourenço e do Victoriano... Seguramente, a muitos milhares de portugueses e de portuguesas que estiveram a ver a reportagem... A irmã de um deles disse, com as lágrimas na cara: “Cemitério ? Aquilo é um campo de milho, e o pobre do meu irmão lá ficou enterrado com um cão”...

Fico feliz, em todo o caso, pelo Victor que aceitou correr mais este risco, até físico... Mas foi sobretudo o risco de se expor, o risco de ver as suas emoções e sentimentos mediatizados, explorados comercialmente, transformados em espectáculo, audiometrados ... Eu, se calhar, não teria a sua coragem, física e moral... De qualquer modo, acho que a reportagem foi feita com profissionalismo, com ética, com dignidade... Parabéns também à equipa do jornalista e escritor Jorge Araújo e à TVI.

O Victor pôde, também, cumprir a sua missão, a sua última missão, ele que foi, é e continuará a ser sempre um grande e forte paraquedista, de corpo, alma e coração... E aquele campo de batalha, hoje um miserável milheiral, seco – estamos na época seca -, ganhou côr, vida, humanidade: foi um momento tocante quando o Victor se encaminhou, com um antigo e velho soldado guineense, da massacrada CCAÇ 19 - exemplo vivo do miserável abandono dos nossos soldados africanos - afixou, no chão, que serviu de última morada aos seus três camaradas paraquedistas, as respectivas fotografias que a câmara do Ricardo Ferreira nos dá em grande plano ... E falou com eles e manifestou o desejo – a sua crença – de um dia os encontrar algures, “não sei bem onde”...

(ii) Quem viu a reportagem da TVI, ficou sensibilizado.... O José Casimiro Carvalho acaba-mo de dizer: “Vi a reportagem e soltaram-se-me lágrimas com 34 anos. Terrível. Eu SEI o que foi ISTO”.

O Torcato Mendonça, outro homem de sensibilidade e solidariedade, também acabou de me mandar uma mensagem tocante:

“Luís: há gotas de água que são tsunamis. Tenho alguma dificuldade em escrever, em dizer o que sinto, em ver a merda das letras no nevoeiro dos óculos. Tive que esperar um pouco, depois de ver a reportagem e não paro agora. Só para te dizer que tem que ser feito algo. Não são só os paraquedistas que não deixam ninguém para trás. É irrelevante agora. Todos nós temos o dever de contribuir para o regresso dos militares que se encontram assim sepultados. TODOS TÊM QUE REGRESSAR.

“Parece, por vezes, estarmos envergonhados com a colonização, a descolonização, a guerra. Parece estarmos a pedir desculpas …Nós, ex-combatentes…nós?...porquê? Depois aparece uma simples carta de condução… ai Jesus!… Compreendo…nesta perca de valores, nesta quebra de auto-estima, neste País que se envolve em discussões sobre o maior ou melhor português… enfim, não vamos mais além.

O Blogue, esta tertúlia, estes camaradas de certeza que ficaram como eu – apertados e revoltados – talvez a recuar no tempo, a sentir a adrenalina a subir… a velhice a desaparecer… a raiva a vir e, a mim pelo menos, o desejo de voltar e…é melhor acalmar! Caneco, eu? Chega de palhaçada. Temos o direito a ser respeitados. Humilhados e ofendidos, já o fomos demais.

“O Victor Tavares merece um abraço, um obrigado, extensível ao Rebocho e ao Oficial Pára cujo nome me esqueci. Também aos Jornalistas, para que continuem. Um voto que isto seja o tiro de partida para que um dia TODOS regressem… É que nós contamos as nossas memórias, a história será feita posteriormente com ou sem esse contributo. Há no entanto feridas não fechadas. Ou as fechamos nós, de preferência de ambos os lados, ou ficará uma mancha na memória deste (s) Povo (s).

“Envio isto ou não? Abri, não vou reler e mando-te. Convicto que me posso ter excedido mas consciente que tem que ser feito algo.

“Dói-me demais a cabeça. Se entrares em contacto com o Victor Tavares dá-lhe um abraço de um ex-combatente… Tens muito em que pensar, mais uma… Têm que voltar… e mais não digo.

“Boa noite, Luís Graça e, através de ti, deste teu espaço na Net, deixa-me abraçar todos, independentemente da cor ou da etnia -para mim raça só a humana – que por lá passaram, tenham ou não regressado… Um abraço”...

(iii) Boa noite, Lourenço, Peixoto, Victoriano... Boa noite, Victor, boa noite Jorge Araújo, boa noite Ricardo Ferreira... Boa noite, Casimiro Carvalho, Torcato... Boa noite, camaradas... Boa noite, amigos... Boa noite, tertúlia... Boa noite, Portugal... Boa noite, Guiné...
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Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de:

25 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1212: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (1): A morte do Lourenço, do Victoriano e do Peixoto

9 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1260: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (2): o dia mais triste da minha vida

Guiné 63/74 - P1621: Questões politicamente (in)correctas (28): Salazar, um dos últimos reis de Portugal (David Guimarães / João Tunes)


1. Mensagem do David Guimarães (Xitole, 1970/72):


João Tunes (1)...

Remetendo-nos aos escritos da época, é natural que àquela zona ainda não tivesse chegado a informação de que Portugal já era República e há bom tempo – nunca se sabe...

Estes dias ouvi na RTP1 alguém que perguntava a um jovem universitário:
- O amigo sabe quem era Salazar ? – Ele olhou, pensou e disse:
- Ele foi um dos últimos reis de Portugal, não foi ? – E não disse a brincar...

Remetendo-me ao que lemos e tu leste com atenção e à noção histórica deste estudante (eu ouvi!), bem, até nós fomos monárquicos no reinado dos generais Schulz (2), Spínola e Bettencourt Rodrigues... Mais ano, menos ano...

Um abraço – e ainda bem que existem destas gralhas e se lêem. É sinal que todos estamos atentos e vivos na caserna ... Ainda bem!

David Guimarães

2. Resposta do João Tunes (Pelundo/Teixeira Pinto e Catió, 1969/71):

Camarada David:

Só te posso agradecer esta tua reacção jovial. E julgo que dela precisamos bem para animar a malta (perdão: a blogo-caserna). Ao fim e ao cabo, se bem nos lembrarmos, era assim, foi assim, transformando o insólito de estarmos na guerra, pela chacota fraternal (uns com os outros, cada qual com a situação), numa forma lúdica de sobrevivência, quantas vezes levada ao absurdo, para nos sentirmos vivos e jovens. E não terá sido essa jovialidade curtida de humor espontâneo, forma de sobrevivência de uma juventude transformada em carne para canhão sem recuo, que nos fez mais fraternos e tão generosos que, por regra, contava menos a nossa pessoalíssima contabilidade dialéctica entre a vida e a morte que o apelo imperativo de acudir, onde necessário, quando necessário, contra o necessário, para safar um camarada que, ali, nunca era menos que um irmão?

E terás toda a razão. O Capitão Canchungo (adoptando a nomenclatura actual), sem jornais, nem TSF, nem telenovelas, nem internet, nem blogues, metido em brios de torre e espada a subordinar balantas (pobres balantas que, além de se subordinarem aos fulas, sem contar com os mandigas, ainda tiveram que se subordinar aos portugueses), devia ter regressado da Guiné sem saber que a Carbonária espetara, há anos, uns balázios no Dom Carlos. E se o distinto militar Canchungo amava a pátria, encharcado nas bolanhas a enfiar balázios em pretos reguilas, como poderia imaginar que, por cá, na sede do reino, se andava aos tiros aos coroados, a mudar de bandeira e a fazer a vida difícil aos curas de sotaina que, lá, lhe abençoavam os feitos?

Já menos desculpa terá, pelo erro, o prof familiar do Canchungo e lhe usa o apelido que entrou tão abespinhado por causa de um mapa em que notou falta do viço da reverência para com os nossos antepassados e, depois, troca as mãos pelos pés ao situar historicamente a época das façanhas colonizadoras do seu antepassado. Mas, se foi erro por revivalismo monárquico, por mim está desculpado. Ou pelo que seja (pressa panegírica, por exemplo).

Grande abraço, camarada David. E, mais os necessários, para os restantes que alimentam esta tertúlia aberta à memória e à alegria de continuarmos vivos.

João Tunes

_________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 22 de Março de 2007 >
Guiné 63/74 - P1619: Questões politicamente (in)correctas (27): Teixeira Pinto, a Coroa e a República (João Tunes)


(2) Shultz ou Schultz ? Eu costumo escrever Schultz... Ora, não é uma coisa nem outra. Na página da Fundação Portugal-África, Universidade de Aveiro > Memória de África, encontrei as seguintes referências bibliográficas relacionadas com o antigo Governador da Guiné (1965-1968):

[58735] SCHULZ, Arnaldo
A cavalaria na Guiné / Arnaldo Schulz
In: Revista da cavalaria. - (1965), p. 7-12
Cota: 1204BIBEx.

[37947] Deputados à assembleia nacional visitaram a província da Guiné
Deputados à assembleia nacional visitaram a província da Guiné / (colab.) Arnaldo Schulz ...[et al.]
In: Boletim geral do Ultramar.- vol. 42, nº 489 (Mar. 1966), p. 31- 49
Cota: 89ISCSP.

[56695] Governador da Guiné
Governador da Guiné. - Visita do general Arnaldo Schulz (governador da Guiné) à Metrópole
In: Boletim geral do ultramar.- Ano 44, nº 514 (Abril 1968), p. 131- 135
Cota: G/A 1008ISEG.

[37988] CORREIA, Peixoto
Novo governador da província da Guiné / Peixoto Correia, Arnaldo Schulz
In: Boletim geral do Ultramar.- vol .40, nos 467- 468 (Maio- Jun. 1964), p. 85- 96 (il.)
Cota: 89ISCSP.

[152631]SCHULZ, Arnaldo
Todos Juntos, vamos continuar Portugal / Arnaldo Schulz. - Bissau : Centro de Informação e Turismo, 1965. - 29 p. ; 22 cm
Cota: 325.3(469:665.7-5)"1965"BPINEP.

Guiné 63/74 - P1619: Questões politicamente (in)correctas (27): Teixeira Pinto, a Coroa e a República (João Tunes)



Qual era a bandeira do Capitão João Teixeira Pinto, o pacificador da Guiné (1912-1915)? A verde-rubra, da República, ou a azul e branco, da Monarquia ?

Mensagem do João Tunes:

Caro Luís,


No post P1615 (1) lê-se: “o capitão Teixeira Pinto (na qualidade de chefe do Estado Maior da Guiné entre 1912 e 1915) conquistou o Ôio, contrariando as instruções expressas do governador e também comandante militar da Guiné. Entrou depois no chão dos Balantas e dominou-os, submetendo-os à Coroa Portuguesa.”

Porque o rigor também é uma forma de respeitar as nossas figuras históricas e o depoente sobre a publicada evocação histórica de Teixeira Pinto é seu parente e professor universitário, gostaria que me esclarecessem como foi possível que o capitão Teixeira Pinto, tendo estado na Guiné entre 1912 e 1915, submeteu os Balantas à “Coroa Portuguesa”, se a República foi instaurada em Portugal (sem recaídas monárquicas até ao momento) em 1910?

Abraço do João Tunes (ex-Alf Mil Transmissões, Pelundo/Teixeira Pinto e Catió, 1969/71).

2. Comentário do editor do blogue:

Meu caro João: Em princípio, trata-se de um lapsus liguae. São pequenas imprecisões, que acontecem a quem escreve para o ciberespaço, como tu e eu. É como dizer soba em vez de régulo. Mas, naturalmente, é ao autor do texto, A. Teixeira-Pinto, professor da UTAD (e não da Universidade da Beira Interior, como eu por lapso o apresentei no post, lapso de que peço desculpa ao meu colega mas que já foi corrigido) que cabe fazer a devida errata ou esclarecer melhor o seu pensamento.

Em termos lógicos e cronológicos, o Capitão João Teixeira Pinto, o pacificador da Guiné (como dizem os nossos historiógrafos militares) fez a campanha do Oio (e a primeira de quatro campanhas miliares, entre 1913 e 1915), sob a bandeira verde-rubra (2)... Não sei se ele era monárquico, nem para o caso isso aqui interessa. Há um excelente texto de Carlos Bessa sobre a sua figura e acção na Guiné, de que transcrevo os seguintes trechos (valerá a pena fazer, oportunamente, a transcrição integral do texto, para conhecimento dos nossos amigos e camaradas da Guiné). Uma coisa parece certa: a Guiné-Bissau, em termos territoriais e populacionais, não seria o que é hoje, sem a visão estratégica e a acção destemida, enérgica e sangrenta do Capitão Teixeira-Pinto, ao serviço de Portugal e da República:

Teixeira Pinto, pacificador da Guiné, "enclave" unificado
por Carlos Bessa

Proclamada a República, a administração portuguesa continuou a impor-se cada vez mais segura, ora aos comerciantes, ora a régulos poderosos e interesseiros como Adbul Injaí. Quando necessário usava a força contra as etnias animistas. Os Franceses não se conformavam com o perdurar do "enclave" da Guiné, tropeço para a expansão na Senegâmbia.

Até que, em 23 de Setembro de 1912, chegou um oficial diferenee. Nascera em Moçâmedes, bebera o saber de guerras no sertão de militares coloniais como João de Almeida, de cuja coluna fez parte nos Dembos, aprendendo a estudar primeiro o inimigo e o meio e só atacar depois. Não era um teórico. Cuidava do pormenor. Beneficiou de os governadores lhe darem carta branca, embora tendo de enfrentar os assimiliados da Liga Guineense, criada após a república para fins escolares e educativos, mas buscando com o tempo crescente influência política.

O novo chefe do Estado-Maior concentrou esforços entre Cacheu e o Geba para evitar o choque com os Frnaceses e encurtar linhas de comunicação. Dispondo de poucas tropas, apoiou-se em chefes mercenários nem sempre modelares, como Abdul Injaí e Mamadu Cissé, ou no administrador e oficial de segunda linha Calvet de Magalhães, que soube captar o régulo Monjur e fazer dos fulas do Gabu aliados fiéis. Quadros militares de carreira queria poucos e dispensou-os. Elegeu como objectivo liquidar as bolsas animistas, apoiado nos islamizados, que utilizou também contra os grumetes. Dentro desta ordem de ideias organizou quatro campanhas: a do Oio, por onde começou, por ser a região mais adversa, de Abril a Agosto de 1913, na transição do cacimbo para a época das chuvas; a dos manjacos e papéis de Cacheu, de Janeiro a Abril de 1914; contra os balantas de Mansoa, de Maio a Julho de 1914; e contra os papéis de Bissau, de Maio a Agosto de 1915 (...).

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 20 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1615: O Capitão Diabo, herói do Oio, João Teixeira Pinto (1876-1917) (A. Teixeira Pinto)

(2) Carlos Bessa - Guiné. Das feitorias isoladas ao 'enclave' unificado. In: Manuel Themudo Baraa e Nuno Severiano Teixeira, ed. lit - Nova Históriaa Militar de Portugal. Vol. 3. S/l: Círculo de Leitores. 2004. 257-270.

Leia-se também o próprio Teixeira Pinto, em livro de memórias que eu não conheço > João Teixeira Pinto - A ocupação militar da Guiné. Lisboa: Agência Geral das Colónias. 1936.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1618: Tabanca Grande (6): Benjamim Durães, ex-Fur Mil da CCS do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS do BART 2917 (1970/72) > O Furriel Mil Durães: visto de perfil, na parada do quartel de Bambadinca, tendo nas traseiras a capela local e alguns viaturas civis que eram habitualmente usadas nas colunas logísticas que partiam daqui com destino às unidades de quadrícula do Sector L1, em especial Mansambo e Xitole.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS do BART 2917 (1970/72) > O Furriel Mil Durães, na parada do quartel de Bambadinca.

Foto: © Benjamim Durães (2007). Direitos reservados

Mensagem do novo membro da nossa tertúlia, um camarada do BART 2917, com quem eu e outros camaradas da CCAÇ 12 convivemos durante nos nossos últimos noves meses de comissão, em Bambadinca. Reconheci-o de imediato, através das fotos digitalizadas que acimo reproduzo. Volto a saudá-lo e desejo boa estadia entre na nossa 'caserna virtual'... Se a memória não me atraiço-a do mesmo Batalhão temos aqui mais dois camaradas: o ex-Fur Mil At Art e Minas e Armadilhas David Guimarães (CART 2716, Xitole) e o ex-Alf Mil Sapador Luís Moreira (CCS, Bambadinca).

O Durães está a organizar o primeiro encontro do pessoal do BART 2917, que vai ter lugar em Setúbal, no próximo dia 9 de Junho (2).

Luís: Com um abraço forte. Conforma tua solicitação, em anexo seguem duas fotos minhas tiradas em Bambadinca, além de uma actual, para acompanhar a actualização dos meus dados na página da nossa tertúlia, e que são os seguintes:

Nome - Benjamim Silva Durães
Posto - Furriel miliciano
Especialidade - Reconhecimento e Informação e Operações Especiais
Unidade - CCS do BART 2917
Local - Bambadincxa (Zona Leste / Sector l1)
Tempo de comissão - Maio de 1970 / Março de 1972

Morada actual:
Rua Florbela Espanca, nº 102
900 – 296 Palmela
E-mail - benjamimduraes@hotmail.com
Telemóvel - 93 93 93 315

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 15 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1527: Lista de ex-militares da CCS do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72) e unidades adidas (Benjamim Durães)

(2) Vd. post de 1 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1556: 1º Convívio da CCS do BART 2917: Setúbal, 9 de Junho de 2007 (Benjamim Durães)

terça-feira, 20 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1617: A mística e a nostalgia do espírito de corpo dos comandos (A. Mendes, 38ª CCmds)


1. Recebi, em 17 de Fevereiro último, uma foto (actual) do Amílcar Mendes. Escreveu-me ele: "Amigo Luís, como vês a idade não perdoa. Aqui vai uma foto dos dias de hoje, que as de ontem já tu tens. Um grande abraço. A. Mendes".

O nosso camarada, que pertenceu à 38ª CCmds, já aqui publicou alguns posts notáveis. No entanto, o último que dele publiquei remonta a 18 de Janeiro de 2007 (1).

Notei, de resto, alguma amargura nas suas palavras, quiçá mesmo desilusão, em relação ao nosso blogue:

"De há uns tempos a esta parte tenho sido mais leitor que interveniente, porque algumas coisas que vou lendo no Blogue, sobre o tempo da guerra da Guiné, me obrigam a estar calado. De facto, os comentários que vou lendo confundem-me ao ponto de não saber se falamos da mesma guerra e da mesma Guiné".

"Primeiro que tudo estou no Blogue porque sou um ex-combatente da Guiné e é essa a razão deste Blogue. Trocarmos impressões sobre o que passámos é saudável. A razão por que é que passámos, isso é já história política. Para isso existem os letrados e iluminados que escrevem sobre as causas e consequências" (...).

Na altura fiz-lhe o seguinte comentário:

"A gente ainda não se conhece pessoalmente mas já temos falado várias vezes ao telefone (...) Há muitas feridas de guerra, no corpo e na alma, que não saram e que vão morrer connosco. (...). É uma problemática dolorosa, essa, a do deve-e-haver da nossa guerra em África (...).

"Como qualquer membro da nossa tertúlia, tu tens direito à palavra. Não preciso de te dizer que o teu testemunho, como homem e como operacional, me sensibilizou, e tem enriquecido o nosso esforço colectivo para reconstruir e divulgar a nossa memória da guerra na Guiné (...).

"Nunca escondemos uns dos outros que não pensamos todos pela mesma cabeça, nem sentimos todos pelo mesmo coração... A nossa riqueza está justamente no nosso pluralismo e na capacidade de gerir as nossas diferenças... É certo que nem sempre lemos o que outro escreve... Tu, por exemplo, se calhar não entendeste bem o que o Vitor [Junqueira] quis dizer, ou então foi o Vitor que não comunicou bem... Compete a ele esclarecer-te, se for caso disso. Mas eu insisto: temos que aprender a ouvir os outros"...

Depois disso ele limitou-se a mandar uma foto pessoal (que reproduzo acima) para actualização dos seus dados constantes da página respeitante à nossa tertúlia. Fico-lhe grato, mas continuo à espera que ele retome a sua colaboração no blogue, contando-nos mais estórias da sua actividade operacional no TO da Guiné, enquanto comando da 38ª...

Obrigado, Amílcar. Fico à tua espera. E já agora faço-te uma surpresa (re)publicando um dos teus primeiros textos, inserido na 1ª série do blogue (mas sem o teu nome no título)... É um texto poético (por onde perpassa a mística e a nostalgia do espírito de corpo dos comandos, mas também a exaltação do tempo de juventude) para tu releres, noite dentro, no teu táxi, algures na noite de Lisboa... E aparece quando quiseres e puderes, que o nosso semáforo está sempre verde... para os amigos e camaradas da Guiné (LG).

Foto: © Amilcar Mendes (2007). Direitos reservados.



Guiné > Brá > 1965 > A velha companhia de comandos, formada na Guiné, Em formatura, no final do curso, prontos para para receberem com orgulho os seus crachás. Esta CCmds teve apenas um ano e poucos meses de existência.

Foto: © Virgínio Briote (2005) . Direitos reervados.


2. Post originalmente publicado no Blogue-fora-nada, em 1 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXI: O regresso dos Comandos (A. Mendes)


Texto de A. Mendes (... com um abraço ao Briote, um dos 'velhos comandos' de Brá, que aparece aqui, na foto ao lado) (2):

Escolheram um entre cem. A elite do exército. São 130 com oficiais, sargentos e praças. São uma Companhia de Comandos que aguardam o fim do silêncio ao cair da noite. Todos envergam o dolmen que ostenta o crachá e o lenço preto será o respeito pelos que ficaram. São todos veteranos de África. Soldados que guardam no fundo do peito, após o regresso de África, a nostalgia indefinível de terem deixado lá longe, do outro lado do mar, a liberdade de uma vida há pouco começada. Pois lá longe havia a guerra e nela sentiam-se livres, livres e iguais, livres e pobres. Ricos, somente, dos seus músculos, das suas armas e da sua Audácia.

Lá longe até o vento tinha um certo gosto e a terra selvagem parecia cantar. É certo que havia medo e era preciso ter corajem. Uma bala perdida ou um estilhaço acabavam sempre por vencer.

A Pátria dos Comandos estendia-se de Lamego aos planaltos de Moçambique, onde as granadas erguiam a noite dos tempos para os bravos. Era aí que se batiam os jovens guerreiros que só em si próprios acreditavam, recitando por puro prazer o credo das suas legiões a milhares e milhares desses senhores palavrosos que se permitiam medir-lhes a glória ou a crueldade.

Foram felizes e todo-poderosos. Regressaram para cumprir os ritos da sua guerra. Para se recolherem. Para compartilhar, também, da sua Pátria faternal, beber em honra dos sacrificados, cantar com os camaradas de armas. Como já tinham feito outrora os seus irmãos, seguindo a tradição dos veteranos. Soldados das matas, marcados pela África onde se bateram para respeitar o juramento à Bandeira e ao Código Comando.
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Notas de L.G.:

(1) Vd. 16 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1435: Questões politicamente (in)correctas (17): Matei para não ser morto (A. Mendes, 38ª CCmds)


(2) O 1º Cabo Mendes, da 38ª CCmds (Os Leopardos) foi comando na Guiné, de 1972 a 1974. Bateu o território "de norte a sul, de este a oeste". Esteve em todos os sítios quentes: Morés, Cubiana-Churo, Oio, Cantanhez... E ainda "em Guidaje, no cerco de Binta a Guidaje, enterrando os nossos mortos na bolanha do Cufeu" (3)...

Vd. posts de

9 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1262: Guidaje: a verdade sobre o Cemitério de Cufeu (A. Mendes, 38ª CCmds)

1 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1232: O soldado comando Raimundo, morto em combate, não foi abandonado em Guidaje (A. Mendes, 38ª CCmds)

27 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1123: Um espectáculo macabro na bolanha de Cufeu, em 1973 (A. Mendes, 38ª Companhia de Comandos)

Vd. ainda os posts de:

22 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1199: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (1): Sete anos de serviço

22 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1200: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (2): Um dia de Natal na mata de Cubiana-Churo

22 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1201: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (3): De Farim a Guidaje: a picada do inferno (I parte)

23 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1203: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (4): De Farim a Guidaje: a picada do inferno (II Parte)

23 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1205: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (5): uma noite, nas valas de Guidaje

24 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1210: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (6): Guidaje ? Nunca mais!...

24 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1207: Guidaje, Maio/Junho de 1973: a 38ª CCmds, na História da Unidade (A. Mendes)

Guiné 63/74 - P1616: O meu regresso a Guidaje (Victor Tavares, CCP 121)


Guiné > Região do Cacheu > Guidaje > Maio de 1973 > BCP 12/ CCP 121 > O ex-1º Cabo Paraquedista Victor Tavares, com a sua a MG sempre pronta a entrar em acção (1).

Foto: © Victor Tavares (2006). Direitos reservados.

Mensagem do Victor Tavares (2):

Estimado Amigo Luís.

Peço imensa desculpa por ainda não ter dado sinais de vida, depois do meu regresso de Guidaje (3).

Tenho-te a dizer que correu tudo bem. Alcancei o que pretendíamos, localizei sem problemas o cemitério (4) e fizemos o percurso Farim-Binta e Binta-Genicó-Cufeu-Ujeque-Guidaje umas vezes pela picada, outras fora dela para fazer as filmagens nos locais dos incidentes.

Corremos alguns riscos mas tive que os correr para que essa reportagem tenha justificação de existir e que penso vai ser interessante. O jornalista Jorge Araújo e o camaraman Ricardo Ferreira são dois profissionais espectaculares. Irás ver o trabalho desenvolvido brevemente (na TVI) (2).

Luís, a coisas que se passaram, depois mais tarde te contarei. Esta viagem foi de grandes emoções que, para mim, são difíceis de descrever. O objectivo penso ter sido conseguido, daqui prá frente veremos o efeito . Um grande abraço.

Victor Tavares

N.B. - A picada agora existente não era a da altura dos incidentes de 23 de Maio de 73 (3). Essa ainda é referenciável em alguns locais, como comfirmei.

_________

Notas de L.G.:

(1) Sbre o armamento usado pelos nossos paraquedistas, e em especial a MG-42, vd. sítio Boinas Verdes de Portugal

(2) Ex-1º cabo paraquedista Victor Tavares, do BCP 12 / CCP 121 (1972/74). Vd. último post, de 19 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1613: Com as CCP 121, 122 e 123 em Gadamael, em Junho/Julho de 1973: o outro inferno a sul (Victor Tavares, ex-1º cabo paraquedista)

(3) Vd. post de 8 de Março de 2007 >Guiné 63/74 - P1573: O Victor Tavares, da CCP 121, a caminho de Guidaje, com uma equipa da TVI (Luís Graça)

(4) Vd. post de 21 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1099: O cemitério militar de Guidaje (Manuel Rebocho, paraquedista)



25 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1212: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (1): A morte do Lourenço, do Victoriano e do Peixoto

9 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1260: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (2): o dia mais triste da minha vida

Guiné 63/74 - P1615: Historiografia da presença portuguesa em África (5): O Capitão Diabo, herói do Oio, João Teixeira Pinto (1876-1917) (A. Teixeira-Pinto)







Fotos de João Teixeira Pinto (1876-1917) : (i) na primeira, a contar de cima (com barbas compridas e os galões de alfres), ainda é legível a dedicatória manuscrita do oficial português "à sua querida mulher com um beijo do seu marido muito amigo. 27 de Maio de 19__(?). Oferece João Teixeira Pinto"; (ii) na segunda, lê-se: "João Teixeira Pinto: Cavaleiro da antiga e mui nobre Ordem da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérioto (1908)"; finalmente (iii) a terceira, deve ser de época posterior, já do tempo da I República.

Fotos: © A. Teixeira-Pinto (2007). Direitos reservados.


Na sequência de uma correspondência trocada entre mim e o Prof. A. Teixeira-Pinto, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), a propósito da Carta da Região de Teixeira Pinto (hoje, Cachungo) (1), eu pedi-lhe que nos falasse um pouco sobre o seu antepassado ilustre, o capitão João Teixeira Pinto, um dos nossos heróis das campanhas de África, dos finais do Séc. XIX e princípios do Séc. XX.

Este homem, que foi Torre e Espada, em 1908, é mal conhecido da nossa geração que fez a guerra colonial, entre 1963/74, para não falar da geração dos nossos filhos... Alguns de nós (Afonso M.F. Sousa, Jorge Cabral, Beja Santos) já aqui evocaram episodicamente o seu nome (2)... Como a ignorância é a mãe do preconceito, aqui ficam mais umas achegas para a compreensão da história contemporânea de Portugal e da Guiné-Bissau (3).

1. Mensagem de 27 de Fevereiro de 2007, enviado por A. Teixeira-Pinto:

Exmo. Colega Professor Luis Graça:

Recebi o seu mail que agradeço e prometo dar o meu contributo leal e amigo ao seu Projecto sobre a Guiné. E, já que mo pede, para divulgar alguns aspectos menos conhecidos sobre o Capitão Diabo (João Teixeira Pinto).

Estou de partida para Santiago de Compostela onde vou fazer uma conferência na Universidade, mas mal tenha tempo, responder-lhe-ei com todo o gosto.

O seu mail surpreendeu-me pela elegância, pois a minha abordagem tinha sido de facto um bocado cáustica (sinceramente abomino as teses do mea culpa, quando a nossa postura no Mundo, cheia de erros certamente, tem muito mais virtudes que qualquer outro povo e o saldo é francamente positivo - o que explica o nosso não enriquecimento à custa dos territórios do Ultramar). Tal elegância só pode vir de uma pessoa de Bem e por isso felicito-me pela oportunidade de o ter conhecido (ainda que de forma pouco ortodoxa, reconheço).

Um abraço sincero

Teixeira-Pinto

2. Mensagem de 3 de Março de 2007:

Caríssimo Colega Prof. Luis Graça

Como prometido aqui venho falar-lhe um pouco do meu antepassado João Teixeira Pinto, nascido em Moçâmedes, Angola, em 1876 e morto em combate contra os alemães, em Negomano, no Norte de Moçambique em 1917, durante a 1ª Guerra Mundial.

Filho de um transmontano, também oficial com serviços relevantes prestados em Angola, onde era conhecido pelo Kurika (leão, em língua cuanhama), João Teixeira Pinto era primo direito do meu Avô paterno.

Sem necessitar de uma única praça (leia-se, soldado) da Metrópole e apenas com a colaboração de tropas gentílicas, comandadas pelo chefe de milícias Abdul Indjai (2), o capitão Teixeira Pinto (na qualidade de chefe do Estado Maior da Guiné entre 1912 e 1915) conquistou o Ôio, contrariando as instruções expressas do governador e também comandante militar da Guiné. Entrou depois no chão dos Balantas e dominou-os, submetendo-os à Coroa Portuguesa.

Eram outros tempos, outras formas de pensar e de olhar para o Mundo. Que direito temos nós de julgar o passado por então se agir de uma forma diferente da nossa? O que consideramos hoje em dia menos correcto, era perfeitamente legítimo naquele tempo. E por essas ideias e princípios muita gente se bateu, sofreu e morreu.

Hei-de enviar-lhe, com mais tempo, a carta que, já em Lisboa, o capitão Teixeira Pinto escreveu ao governador da Guiné protestando contra a forma imerecida como foi tratado o Abdul Indjai, elevado a soba [régulo] do Ôio por sua intercessão. O chefe de milícias que tanto nos ajudou (com homens e com haveres seus) foi esquecido, marginalizado e castigado, depois de João Teixeira Pinto ter saído da Guiné. Justificou-se depois tais medidas com uma pretensa tirania exercida pelo soba sobre os seus subordinados.

Hoje, com muita hiprocrisia eivada de um racismo sórdido e inconfessado, proclama-se a dignidade dos negros, do seu direito à liberdade. Para, sem que o tenham pedido, os entregar à mais baixa e reles das tiranias, em que um grupo de títeres exploram e utilizam em proveito próprio os recursos de todos. Recordo um cuanhama que me pedia que o trouxesse para Portugal:
- Eu trabalho na tua fazenda, só pela comida. Não me deixes ficar, que assim vou morrer. O preto não sabe governar o preto. Se protestas ou te queixas, morres.

Em fase alguma do nosso passado, mesmo no tempo da escravatura, exercemos esse magistério selvático e desregrado que hoje campeia numa grande parte da África. Calamos, de forma cúmplice, qualquer manifestação de indignação, mais do que justificada face a tão descarados atropelos ou perante evidências claras da corrupção mais desenfreada, do esbulho puro e simples de qualquer oportunidade de futuro que essa clique dominadora negou ao seu povo.

Temos nós a culpa de ter negado a essa mole imensa de gente a possibilidade de terem esperança (os Darfour sucedem-se aqui e ali, com mais ou menos intensidade). Em Angola deixam-se morrer com cólera, dengue ou com a febre hemorrágica as populações do Norte (os bakongos, inimigos figadais dos caluandas e dos catetenses).

É ridícula a verba de 300.000 dólares que o (des)governo de Angola alocou para o combate da doença no distrito do Uíge. Os dinheiros do petróleo entram directamente na conta do presidente e dos seus familiares (as filhas são riquíssimas), enquanto que em Portugal os estudantes de Angola têm atrazos de anos nas suas bolsas e vivem com recurso à prostituição. A vida nada vale por aquelas paragens, mata-se com a maior das facilidades.

Há mais de 20 anos estive a dirigir a construção de duas vias rápidas na Costa do Marfim (ainda o presidente Houphouet Boigny estava no seu apogeu). Vinham guinéus de Bissau, a pé, ter comigo ao escritório em Abidjan para me tocarem (num ritual de veneração que me deixou emocionado) como parente próximo do Capitão Diabo e para me pedirem emprego. Era gente que me seguia cegamente para qualquer lado e que estou certo daria a vida para me defender de qualquer ameaça. O mito ficou e a atitude de veneração reverencial, tão própria dos negros, apenas ilustra a que ponto estava a consideração que lhes merecia o grande capitão. Fosse o sentimento outro e jamais me teriam procurado. E nunca por nunca me teriam pedido para me tocarem (apenas com a ponta dos dedos).

Enfim, caro colega, coisas e histórias de África que se recordam com alguma nostalgia.

Prometo um segundo capítulo.

Um abraço amigo

A. Teixeira-Pinto

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 25 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1548: As cartas do nosso (des)contentamento (A. Teixeira-Pinto / Luís Graça)

(2) Vd. posts de:

7 Setembro 2005 > Guiné 63/74 - CLXXX: Teixeira Pinto ou Canchungo ? (Afonso M.F. Sousa)

15 Fevereiro 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVI: Carta (aberta) ao Luís (Jorge Cabral)

(...) " Assim, na Guiné, quer em Fá, quer em Missirá, procurei entender, e através de longas conversas com Homens e Mulheres Grandes aprendi alguma coisa. Dessa forma me inteirei da excisão (a qual depois presenciei) e do infanticídio ritual, dois temas que há mais de vinte anos, falo nas minhas aulas.

"Percebi que uma Guiné idílica e pacífica, de negros portuguesismos, nunca existira… Todo o território ao longo dos séculos foi palco de imensas guerras, sangrentas repressões e alguns desastres das nossas tropas. Perante o meu espanto, indicaram-me em Fá, o local onde no tempo, dos avós, dos avós deles, havia sido aprisionado o Governador, que teve de pagar resgate aos beafadas.

"E em Missirá levaram-me a conhecer o campo onde as forças portuguesas e seus ajudantes estiveram longo tempo entrincheirados, preparando a conquista de Madina/Belel, na luta contra o grande guerreiro Unfali Soncó, no princípio do século XX.

"Foram também os velhos que me falaram de Abdul Injai, régulo do Cuor e do Oio, companheiro de Teixeira Pinto, herói tão amado quanto odiado, caído em desgraça no fim da vida, e degredado para Cabo Verde.

"Chegado a Lisboa, e desde então tenho tentado estudar, convicto que é impossível compreender a guerra colonial e o que se seguiu, sem reflectir na história do país e nas múltiplas acções de resistência armada contra os Portugueses" (...).

18 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P882: Infali Soncó e a lenda do Alferes Hermínio (Beja Santos)

(3) Sobre a conquista do Oio por Teixeira Pinto, em 1913, vd a página do nosso camarada Carlos Fortunato, de que transcrevemos com a devida vénia as seguintes passagens:

Transcrevemos a seguir uma passagem do livro História da Guiné, Portugueses e Africanos na Senegâmbia (1841-1936), René Pélissier, Editorial Estampa, 2001, que dá uma explicação sobre o que foram as grandes batalhas pela conquista do Óio de 14 de Maio a 6 de Junho de 1913, como a batalha do Morés a 30 de Maio, ou a conquista de Mansodé a 5/6/1913, embora tenhamos a lamentar a má qualidade da tradução (Os links e notas da minha responsabilidade - L.G.):

"Os Mandingas islamizados são cada vez menos favoráveis à resistência, mas os Soninquês mais do que nunca. A sua ameaça contra o Posto de Mansoa pode pois ressurgir do norte. É no que quer acreditar Teixeira Pinto, que vai servir-se deste pretexto especioso para justificar a sua invasão do Oio. Perguntamo-nos mesmo se ele não ultrapassa as ordens do seu governador, de quem não gosta e que pensou impedir-lhe as manobras, proibindo-lhe as razias de auxiliares. Ora Teixeira Pinto só pode manter-se com eles e prefere-os amplamente aos soldados regulares.

"Não hesitaremos em invocar aqui o factor psicológico: o capitão quer entrar na história e, sozinho quebrar a lenda da invencibilidade dos Soninquês. Tendo experimentado o valor de Abdul Injai e dos seus homens, mas também o dos Fulas Forros do Sancorlá [, no Cuor, a nordeste de Missirá], comandados pelo seu régulo (Boram Jame?) que estão à sua volta, decide portanto, sacrificar a quantidade à qualidade, ao deixar para trás todos os seus oficiais e, evidentemente, as embarcações.

"Joga ao póquer ao internar-se no Oio, sem trem, sem metralhadora, simplesmente com um canhão de 70, um sargento, quatro artilheiros brancos e dois soldados indígenas, mais outro sargento branco e duas praças africanas.

"E, evidentemente, Abdul Injai e os seus lugar-tenente, que parecem ter reagrupado filhos de chefes fulas decididos a criar uma reputação de guerreiros. Mas, no total, isso não representa mais que 400 auxiliares enquadrando carregadores balantas. Mesmo o impulsivo Graça Falcão não entrara pelo Oio, em 1897, sem dez a vinte vezes mais homens. E com os resultados que sabemos!

"Em caso de desastre, o Exército não poderá imputar-lhe grandes perdas, pois que não toma auxiliares em conta, mas o Oio é, de qualquer modo, um grande bocado de pão para pouca gente; uma aposta muito imprudente que este chefe de estado-maior se comprometera com dez soldados, lá onde ele pretende - sem razão - que Biker conheceu meia derrota em 1902.

"Não sabemos claramente se o Oio enfraqueceu em onze anos, mas de modo nenhum temos essa impressão. No entanto, a 14 de Maio de 1913, a pequena tropa sobe para norte, sem provisões, acabando por carregar as munições Balantas requisitados à força. Sabendo cada um com o que contar, as coisas não se arrastam. A 15 de Maio, em fila indiana, os invasores são atacados numa daquelas armadilhas de verdura, da qual se salvam com fogo vivo, para cairem sobre a tabanca fronteiriça de Cambajo, tomada de assalto e incendiada.

"O combate é um dos mais difíceis alguma vez conhecidos na Guiné, se Teixeira Pinto tivesse menor talento para se valorizar ou, na sua falta, um revolver a seu lado, este caso teria passado à posteridade.

"A peça disparou 44 vezes, mas 40.000 cartuchos foram consumidos em Cambajo, o que num só combate é enorme nos anais luso-africanos.

"Teixeira Pinto não deplora senão três mortos e treze feridos entre os auxiliares, o que se explica talvez pelo alcance das Kropatchek, que lhes estão confiadas. Como quase sempre com os Portugueses, as baixas dos Soninquês serão desconhecidas durante toda a campanha.

"Constituída em quadrado, a coluna é atacada novamente a 16 de Maio, durante hora e meia, mas inflige pesadas perdas aos Soninquês.

"Obrigado a comer milho miúdo, acomodado à carne dos porcos (!) que vêm devorar os cadáveres, a expedição está, apesar de tudo em bastante mau estado e tem de enviar um destacamento a Porto Mansoa, em busca de reabastecimento.

"Por seu lado, os Soninquês estão realmente decididos a resistir e multiplicam os fossos nas pistas. De uma maneira geral batem-se não nas tabancas, que depressa abandonam, mas na floresta onde armam emboscadas e metralham o quadrado. Se bem que um certo desânimo seja perceptível nas suas fileiras, os duros levam ainda a melhor e envenenam sistematicamente os poços. Ainda que se esteja na estação das chuvas, a sede vai ser um dos obstáculos a esta penetração.

"Durante este bloqueio, no norte do Oio, Calvet de Magalhães decide enganar os Soninquês, que o esperam em Gindu. Parte para Farim, atravessa ali o rio por volta de 17 de Maio e destrói imediatamente a tabanca de Bafatá do Oio, tomada de surpresa.

"A partir desta testa de ponte, varrerá mais seis tabancas de 23 a 30 de Maio, na região já batida em 1897 e em 1902.

"As coisas importantes desenrolam-se, evidentemente, ao sul onde, a 24 de Maio, a coluna é reabastecida em Cambajo pelo destacamento que, via Bissorã, atravessar o bloqueio defeituoso dos Soninquês. Destes últimos, não compreendemos bem a táctica mas, segundo parece, só se concentram excepcionalmente, senão como explicar que, em florestas tão cerradas e picadas tão estreitas, pequenos grupos pesadamente carregados e constantemente flagelados pudessem livrar-se sem feridos?

"É inútil seguir as reptações da coluna, de tabanca em tabanca, não sendo algumas aliás referenciáveis. Basta dizer que Teixeira Pinto parte de Cangajo, a 26 de Maio, para ocupar Unfarim.

"O posto de Bissorã não fornece reforços, simplesmente água e homens de Malam Bá, o que confirma que Teixeira Pinto não quer partilhar a vitória com nenhum outro oficial. Apostou tudo em Abdul Injai, do qual tem as capacidades operacionais em estima, como não se encontra em nenhum outro oficial português, quando se trata de fazer um juízo profissional sobre um chefe de auxiliares africanos.

"É um caso único de entendimento e mesmo de quente cumplicidade entre um quadro do activo e um senhor da guerra indígena. A 27 de Maio, a serpente armada volta a partir, derriba outras tabancas, enrola-se (29 de Maio, em Maqué), muitas vezes atacada, mas nunca verdadeiramente ameaçada. Em Sansabato destrói uma 'grande mesquita onde se sagram os fidalgos do Oio'.

"Continuam sem eco os apelos à rendição, o avanço prossegue para Morés, já visitada por Graça Falcão em 1897. Aborda-se aí o coração da resistência do Oio (cf. a guerra de libertação) e os Soninquês concentram no seu caminho uma potência de fogo que faz vacilar os artilheiros europeus e os Fulas de Sancorlá. No entanto, Morés cai, por sua vez, a 30 de Maio.

"O problema da sede é cada vez mais preocupante, mas Teixeira Pinto, inflexível, não quer repetir o erro de Biker (4). São todas as tabancas do Oio que quer tomar e, principalmente, Mansodé que desempenha o papel de capital da resistência.

"Entre Mansodé e Morés, tendo os Soninquês cortado a pista com trincheiras e árvores abatidas, Teixeira Pinto usa a astúcia e decide progredir para o alvo, por uma pista mais a leste (via Mamboncó), sempre reabastecido sem dificuldade por Porto Mansoa (a simplesmente quatro horas de marcha).

"Paliçadas, emboscadas, nada os detém. A 3 de Junho, a coluna transpõe todos os obstáculos entre Morés e a pista destinada a conduzi-la a Mansodé. Água e munições chegam bastante regularmente de Porto Mansoa e , a 5 de Junho a marcha final continua para Mansodé. A coluna já só tem 320 irregulares, mas conservou os seus seis soldados europeus e quatro africanos intactos. Mamboncó é tomada. Chegado a este ponto, o mal-estar aumenta na coluna.

"Mansodé tem fama, na Guiné, de ser invencível, a tal ponto que os seus defensores se gabam de não a terem fortificado, bastam os seus peitos para a defenderem.

"Pela primeira vez tomados pelo terror dos poderes ocultos ou da valentia atribuída à gente de Mansodé, os lugar-tenentes de Abdul Injai recusam-se a marchar. Tão perto do objectivo é o atoleiro.

"Para dali sair, Teixeira Pinto, que conhece a sua gente, tê-la-ia galvanizado teatralmente, fazendo avançar a peça para o norte, acompanhando-a sozinhos Abdul Injai e ele próprio dizendo aos guerreiros indóceis: 'que os cobardes podiam voltar para trás, porque eu e Abdul iamos morrer em Mansodé'.

"Reviravolta e entusiasmo veemente bastam: Mansodé cai e desfaz-se em fumo no mesmo dia (5 de Junho de 1913, depois de uma resistência enérgica, mas breve.

"Desde então, dissipados os encantamentos, a campanha está militarmente terminada ao sul."

(4) Joaquim Pedro Vieira Judice Biker, Governador interno da Guiné, entre 1901 e 1903. Era oficial da Marinha. No tempo da conquista do Oio, o governador, já nomeado pela República, era Carlos de Almeida Pereira (23 de Outubro de 1910 a Agosto de 1913).

Guiné 63/74 - P1614: Estórias do Zé Teixeira (15): Voluntário na tropa... nem para comer!

Texto do José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70). Mais uma das suas estórias (1):

Voluntário na tropa... nem para comer!
por Zé Teixeira

Numa tarde da minha recruta, depois de nos ser explicado o que são as estrias da arma e para que servem, o alferes instrutor pede um voluntário para ir junto cabo quarteleiro levantar as estrias de uma G3, para melhor explicar e . . . houve um pato que caiu.

Quando regressou com um valente pontapé no traseiro, ainda apanhou uma gargalhada geral dos companheiros do seu grupo. Com isto aprendemos a lição de que "voluntário na tropa, nem para comer”...

Estava a meio da comissão, a aguardar que aparecesse um meio de transporte que me levasse até Bissau, para um mês de férias bem merecido junto dos meus. Dos três enfermeiros da Companhia, um estava em Bissau, regressado da Metrópole à espera de transporte para voltar a Buba. Os outros dois repartiam-se nas saídas para a protecção do grupo de trabalho na construção da nova estrada, nas emboscadas montadas para o mesmo fim, no patrulhamento e na protecção às colunas de reabastecimento de Quebo. A tudo isto juntava-se o trabalho na enfermaria do quartel de assistência aos militares e à população.

No dia anterior tinha regressado já noite, do apoio e segurança na estrada. Nesta manhã seguia a coluna para Quebo e à minha Companhia competia-lhe fazer a batida dos flancos e a picada da via, à procura de eventuais minas, até perto de Nhala. À tarde, viria em princípio a Dornier do correio e talvez houvesse uma vaga para me deixar em Bissau. Feitas as contas, ainda daria tempo para eu ir na coluna e regressar.

Dado que por uns dias ficaria apenas um desgraçado enfermeiro em serviço, prontifiquei-me e oferecei-me voluntariamente para substituir o colega em serviço. Contra a vontade do companheiro que perante a minha insistência anuiu, apresentei-me ao comandante da força, e, pronto para sair, junto à pista, pelas cinco horas da matina, lembrei-me de que “voluntário na tropa, nem para comer “!

Não hesitei mais, fui ter com o meu amigo Catarino, pedi desculpa, entreguei-lhe a bolsa de primeiros socorros e disse-lhe apenas:
- Vai tu, é a tua vez!

Cerca de meia hora depois a frente da coluna cai numa emboscada., quando detectava um campo de minas. Mal acalmada a situação depois de prolongado tiroteio, inicia-se a desminagem. Um camarada, mais esperto, vê um tronco de palmeira ao longo da picada e decide ir ver o que se passava lá mais à frente. No topo da palmeira estava uma AP à espera dele.

Complicada situação para o enfermeiro que tinha a missão de o socorrer. As minas estavam por perto e o IN também. O ferido esvaía-se em sangue, pois que uma perna tinha desaparecido com o impacte. Felizmente não fora uma bailarina muito usada por estas bandas de Buba.

Nestes momentos é que se vê e se sente quem são os heróis. Um camarada junta-se ao enfermeiro e diz-lhe:
- Vamos lá os dois buscar o Miguel.

Não pensaram no perigo e trouxeram-no para berma, prestaram-lhe os socorros possíveis e recambiaram-no para mim em Buba, de onde seguiu para Bissau e terminou a sua comissão.
Outras minas estavam no terreno e foram levantadas.

Mais à frente estavam buracos abertos no meio da estrada, tipo campas para enterrar cadáveres com umas mensagens muito convidativas

E eu . . . mais uma vez fui bafejado pela sorte.



J. Teixeira
Esquilo Sorridente

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Notas de L.G.:

(1) Vd. estórias anteriores:

10 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1059: Estórias do Zé Teixeira (13): A Maria-tira-cabaço-di-branco

7 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1055: Estórias do Zé Teixeira (12): O Balanta que fugia do enfermeiro

4 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1044: Estórias do Zé Teixeira (11): As vitaminas abortivas

4 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1043: Estórias do Zé Teixeira (10): O embalsamador amador

4 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1042: Estórias do Zé Teixeira (9): camaleões, putos e cobras

26 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXCVI: Estórias do Zé Teixeira (8): Do tan-tan ao pum-pum, um casamento em Mampatá

20 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXIX: Estórias do Zé Teixeira (7): Síndrome de guerra

19 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXVIII: Estórias do Zé Teixeira (6): um atribulado regresso

21 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXLVIII: Estórias do Zé Teixeira (5): as abelhas, nossas amigas

21 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXLVII: Estórias do Zé Teixeira (4): o lugar do morto

15 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVIII: Estórias do Zé Teixeira (3): a festa da vida

11 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXIII: Estórias do Zé Teixeira (1): Dôtor, Bô ka lembra di mim ?

segunda-feira, 19 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1613: Com as CCP 121, 122 e 123 em Gadamael, em Junho/Julho de 1973: o outro inferno a sul (Victor Tavares, ex-1º cabo paraquedista)

Guiné > Bissau > Av do Império > CCP 121 > Desfile no 10 de 1972


Guiné > Bissau > Bissalanca > 1972 > O ex-1º cabo paraquedista Victor Tavares, do BCP 12 / CCP 121 (1972/74).


Fotos e texto: © Victor Tavares (2007). Direitos reservados.


Gadamel Porto: outro infrno a sul


Depois de regressada do inferno de Guidaje (1), a CCP 121 encontrava-se estacionada em Bissalanca, gozando um curto período de descanso, após a desgastante acção que tivera no norte da província.

Daí o Comando Chefe entender que os 4 a 5 dias de descanso concedidos já eram demais e ser necessário o reforço das nossas tropas aquarteladas em Gadamael por se encontrarem em grandes dificuldades. Acaba, por isso, por dar ordens para rumarmos a Gadamael, para onde partimos a 12 de Junho de 1973.

Partindo de Bissau em LDG [Lancha de Desembarque Grande] com destino a Cacine, lá chegámos a meio da tarde deste mesmo dia. Como a lancha que nos transportava, não conseguia atracar ao cais por falta de fundo, fomos fazendo o transbordo por várias vezes em LDM [Lanchas de Desembarque Médias] para aquela localidade.

Foi então, logo na primeira abordagem da lancha, que me apercebi que na mesma estava um indivíduo que pela cara me pareceu familiar. No entanto, como o mesmo se encontrava vestido à civil - calções, camisa aos quadradinhos toda colorida e sandálias de plástico transparente - pensei ser porventura algum civil que andaria por ali no meio da tropa, o que seria natural e podia eu estar errado.

Depois de toda a tropa estar desembarcada, indicaram-nos o local onde iríamos ficar, num terreno frente ao quartel de Cacine. Instalámo-nos e de seguida fomos dar uma volta pelas redondezas, até que no regresso deparo com a mesma criatura sentada no cais com ar triste e pensativo, típico da pessoa a quem a vida não corre bem. Eu vinha acompanhado do paraquedista Vela, meu conterrâneo – e hoje meu compadre. Perguntei-lhe:
- Ouve lá, aquele tipo ali não é nosso conterrâneo? - Responde ele:
- Sei lá, pá, isto é só homens.

Gadamael ? Vocês vão lá morrer todos!


Por ali estivemos na conversa mais algum tempo, até que tomei a iniciativa de me dirigir ao fulano uma vez que ele continuava no mesmo sítio. Acercando-me dele perguntei-lhe:
-Diz-me lá, camarada, por acaso tu não és de Águeda ?
Responde-me ele:
- Sou. - e pergunta-me de seguida:
- E você não é de Recardães?

Digo-lhe que sim, cumprimentamo-nos e vai daí perguntei-lhe o que é que ele estava ali a fazer, porque de militar não tinha nada. Respondeu-me que não sabia o que estava ali a fazer, de uma forma triste e ao mesmo tempo em tom desesperado e desanimado.

Entretanto com o desenrolar da conversa, ele perguntou o que estávamos ali a fazer, eu respondi que na madrugada seguinte íamos para Gadamael Porto…. Qual não é o meu espanto quando ele põe as mãos à cabeça, desesperado e desorientado, e me diz:
- Não vão, porque vocês morrem lá todos!

Tentei acalmá-lo, dizendo-lhe para estar descansado que nada de grave ia acontecer, pedi-lhe para me contar o que se passava, vai daí, começa ele a relatar o que tinha passado de Guileje e Gadamael até chegar a Cacine. Na verdade depois de o ouvir, não me restaram dúvidas que ele tinha mais do que sobejas razões para estar no estado psicológico aterrador em que se encontrava .


Os militares que abandonarm Guileje, foram tratado como desertores e traidores à Pátria

Entretanto, informa-me da sua situação militar daquele momento tal como a de outros camaradas que abandonaram Guileje. Neste grupo estava também outro meu conterrâneo, que o primeiro foi chamar, vindo este a confirmar tudo.

O que mais me chocou foi a forma desumana como estes militares foram tratados depois da sua chegada a Cacine, sendo considerados como desertores e cobardes, quando em meu entender, se alguém tinha que assumir a responsabilidade dessa situação, seriam os seus superiores e nunca por nunca os soldados.

Estes homens foram humilhados por muitos dos nossos superiores - que eram uns grandes heróis de secretária! -, foram proibidos de entrar no aquartelamento, não lhes davam alimentação, o que comiam era nas Tabancas junto com a população. As primeiras refeições quentes que já há longos dias não tomavam, foram feitas por estes dois homens juntamente com os paraquedistas, porque o solicitei junto do meu Comandante de Companhia, Capitão Paraquedista Almeida Martins – hoje tenente general na reserva - ao qual apresentei os dois camaradas do exército que lhe contaram tudo por que passaram.

Os dois desgraçados de Guileje eram meu conterrâneos: o Carlos e o Victor Correia

Solicitei ao meu comandante para eles fazerem as refeições junto com o nosso pessoal, prontificando-me eu a pagar as suas diárias se fosse necessário. Ele autorizou os mesmos a fazerem as refeições connosco enquanto não tivessem a sua situação resolvida e a nossa cozinha que dava apoio ao Bigrupo que estava de reserva, ali se mantivesse.

O meu comandante expôs o problema destes homens ao comandante do aquartelamento do exército, solicitando que o mesmo fosse resolvido com o máximo de brevidade uma vez que a situação não era nada dignificante para a instituição militar.

É de salientar que estes dois homens já não escreviam aos seus familiares há mais de um mês, porque não tinham nada com que o fazer. Fui eu que lhes dei aerogramas para o fazerem e os obriguei a escrever, porque o seu moral estava de rastos e a vida daqueles militares já não fazia sentido. Dormiam debaixo dos avançados das Tabancas enrolados em mantas de cor verde, não tendo mais nada para vestir a não ser o camuflado.

Estes meus dois conterrâneos que atrás refiro eram o Carlos (que infelizmente já faleceu, natural do lugar de Perrães, Oliveira do Bairro) e o Victor Correia (de Aguada de Baixo, Águeda, e que hoje sofre imenso de stress pós-traumático de guerra) )(2).

Depois Guileje sitiada e abandonada, O PAIGC virou-se para Gadamael

No dia seguinte mais uma missão estava destinada à Companhia de Caçadores Paraquedistas 121 [CCP 121]. Já se encontravam há vários dias as CCP 122 e 123, para fazer face à gravidade da situação criada pelas forças do PAIGC que, neste período do ano , entre Maio e Julho, tinha intensificado os ataques, tanto a aquartelamentos como a colunas.

Em Gadamael Porto a situação era cada vez mais complicada , uma vez que os militares do PAIGC já tinham tomado o destacamento de Guileje, após ataques contínuos de artilharia e flagelações de armas ligeiras, chegando mesmo a cercar o destacamento e mantendo a sua guarnição sitiada até à tomada de decisão de abandonar o destacamento por parte do seu Comandante, Coutinho de Lima (3), uma vez que não lhe restava outra alternativa. Não o fazendo correria o risco de as NT serem dizimados pelas forças atacantes que estavam decididas a tomar fde assalto o aquartelamento.

Os ataques geralmente partiam da Guiné Conacri. Após o abandono de Guileje por parte das nossas forças, os homens do PAIGC começaram a bombardear Gadamael Porto, concentrando toda a sua artilharia apontada a este destacamento com a intenção de o tomar de seguida.

No entanto este já se encontrava guarnecido pelas Companhias de Paraquedistas 122 e 123 e, a partir da data acima indicada. pela 121, as quais impediram tal intenção. Mesmo assim foram dias de grande azafama em termos operacionais aonde a segurança era nula. Várias vezes ao dia o destacamento era atacado e não falhavam um único tiro, tornou-se numa situação insuportável. As nossas tropas tinham mais segurança quando andavam fora do destacamento, em patrulhmentos. A nossa missão foi manter a segurança do destacamento, patrulhando e fazendo incursões até junto da fronteira onde o PAIGC tinha instaladas armas antiaéreas e canhões sem recuo. Era dali que atingiam Gadamael Porto e antes Guileje . Durante estes patrulhamentos tivemos um primeiro contacto com as forças do PAIGC sem qualquer problemas para as nossas tropas.

13 de Junho de 1973: aliviando a pressão sobre Gadamael

No dia 13 de Junho, de manhã cedo, preparámo-nos para rumar a Gadamael, sendo transportados em Zebros do Destacamento de Fuzileiros Especiais Africanos nº 21, dois grupos de combate sendo colocados nas margens do rio nas proximidades de Gadamael para onde seguimos em patrulhamento depois de serem desembarcados os outros dois grupos de combate da 121 que foram deslocados em LDM. No regresso, as embarcações seguiram para Cacine com os paraquedistas da CCP122, aonde iriam recuperar durante um curto período.

Chegados ao destacamento [ de Gadamael], verificámos que o estado do mesmo era na verdade aterrador, fruto dos constantes ataques, sendo bem visíveis os buracos dos rebentamentos das granadas do IN. Era evidente que quem lá tinha estado anteriormente, tinha passado por uns maus bocados.

As nossas duas companhias de paraquedistas que se encontravam aqui estacionadas estavam em permanentes patrulhamentos no exterior do aquartelamento, indo a este simplesmente para remuniciamento e reabastecimento. Desta forma fomos alargando o raio de acção indo até junto à fronteira, para conseguir referenciar os locais de onde o PAIGC fazia os ataques, para dar indicações à nossa Artilharia e Força Aérea. A impossibilidade de referenciar, por ar, estes alvos, levou-nos a ocupar as zonas em que o IN poderia instalar as suas bases do fogo e deste modo a fazê-lo afastar-se. Foi o que, realmente, veio a acontecer.

A partir desta altura fomos ao encontro dos locais de onde se ouviam os disparos das bocas de fogo e ocupámos essas áreas mesmo junto à fronteira, algumas vezes chegámos mesmo a ultrapassar a linha de fronteira com alguma profundidade - nunca por períodos longos, mas apenas porque havia aí bases de fogo IN. Nunca conseguimos apanhá-los desprevenidos, pois havia sempre forças de infantaria do PAIGC que os alertava com tiros acabando por retardar a nossa progressão.

No entanto os ataque a Gadamael deixaram de ser tão frequentes, passando as flagelações a a realizarem-se com menos intensidade e sem a precisão até aí evidenciada, além de feitas a partir daí sempre de locais diferentes. Quando as nossas forças aí chegavam, já eles tinham partido para outro local.

Mesmo já quando as forças do PAIGC não flagelavam o destacamento com tanta frequência, fomos mantendo a actividade de patrulha ao mesmo ritmo, por forma a manter as áreas próximas do braço do rio que dava acesso a Gadamael e que era a nossa única via de ligação para o exterior.

Consequentemente a eficácia de tiro até aí verificada por parte do IN deixou de existir e a intenção e pressão inicial caiu por terra, as forças do nosso exército voltaram ao destacamento e com os pára-quedistas fizeram vários patrulhamentos transmitindo-lhes os nossos conhecimentos e mais confiança nos deslocamentos em plena mata até aí de arrepiar.


Guiné > Mapa Geral da Província (pormenor) > 1961 > Posição relativa de Guileje e de Gadamel, no sul da Guiné, na actual Região de Tombali, na fronteira com a Guiné-Conacri.

Foto: © Humberto Reis (2005). Direitos reservados



23 de Junho de 1973: atolados num campo minado!

A 23 de Junho de 1973, recebemos ordens para novo patrulhamento. Manhã cedo arrancámos desta vez saindo pela que era considerada porta de armas virada para o rio, o qual atravessámos. Avançámos para o local indicado pelos nossos superiores, em progressão lenta e com cuidados redobrados.

Esta zona não era para brincadeiras. Nesse dia éramos acompanhados por 2 militares do exército que eram sapadores e montavam minas no terreno tentando proteger o destacamento da acção do inimigo. Passado algum tempo, recebemos ordens para parar na frente, estávamos num local minado pelos nossos novos companheiros e a sua missão era indicar-nos a localização das minas para podermos contornar o local sem qualquer incidente.

Qual não foi o nosso espanto quando nos foi dito que já tinhamos avançado demais e que nos encontrávamos sobre o campo minado. A nossa sorte foi que tinha chovido torrencialmente nos dias anteriores e, como o terreno era um pouco inclinado, arrastou terras para o local minado, o que fez com que não tivéssemos accionado qualquer aparelho. Esta situação aconteceu porque os sapadores já não conseguiam identificar o local minado com exactidão. Passados esses momentos de grande ansiedade e saídos desta zona perigosa, continuámos a progressão.

O nosso objectivo era fazer um reconhecimento a determinado local referenciado pelo Comandante das operações naquela zona e que o mesmo suspeitava de ali existir algo de estranho, assim o primeiro bigrupo da CCP121 continua a sua deslocação.

Caía aquela chuva miudinha tipo cacimbo, que se foi acumulando nas folhas das árvores e por consequência caíam no chão fazendo o ruído característico que se conhece. Depois de algum tempo andado, começámos a ouvir pessoas a falar, avançámos com ainda mais cuidado , a mata era bastante aberta , com pouca vegetação rasteira e com árvores de grande porte.

As condições do terreno proporcionava a formação de uma frente em linha de um grupo com 5 a 7 paraquedistas para esse efeito foram chamados mais 2 homens apontadores de armas pesadas , MG e HK21, que seguiam mais atrás. Formada a equipa de assalto, fomos avançando lentamente e cada vez mais se ouviam os homens do PAIGC, para surpresa nossa, quando detectámos em cima de uma grande árvore um militar inimigo como sentinela avançada, e que também ele foi surpreendido porque tínhamos homens da nossa coluna que já tinham passado por ele. Também o barulho da chuva agora mais intensa o atraiçoou .

20 minutos de fogo numa grande base do IN

Já a uns 100 metros das posições de onde vinham as vozes, encontravam-se os paraquedistas da frente e mais atrás a nossa preocupação era não sermos detectados pelo tal sentinela avançado que apenas se preocupava em vigiar o lado contrário ao qual nós nos encontrávamos. Talvez eles pensassem que se aparecesse alguém seria por aquele lado , visto que passava por lá uma picada , mas nós vinhamos em sentido contrário e a corta-mato, o que para nós era habitual.

O guarda tinha sido atraiçoado, para nosso bem, no entanto na frente, quando tudo fazia prever que íamos colher o inimigo de surpresa , houve um elemento deles que detectou as nossas tropas abrindo fogo primeiro, ao qual os araquedistas responderam com intenso poder de fogo causando bastantes baixas ao inimigo como se verificou pelos vários e abundantes rastos de sangue, visto que eles se encontravam em valas e abrigos colectivos de onde se puseram em fuga. Houve um grupo que, entrincheirado, resistiu até à retirada dos seus feridos e mortos ser feita, o que levou a que este combate se prolongasse durante mais de 20 minutos.

Um grande ronco: capturado algum material de Guileje

Mesmo assim os guerrilheiros acabaram por deixar uma quantidade apreciável de armas , munições e granadas, algumas delas era material das nossas tropas que o inimigo tinha vindo a capturar às forças do nosso Exército caídos em emboscadas e do destacamento de Guilejee o qual já tinha sido tomado pelas forças do PAIGC. Neste contacto, logo nos primeiros tiros mais atrás, com uma rajada abatemos também o vigia acima referido . Foi a única baixa do PAIGC que pudemos confirmar na retaguarda.

Entretanto abandonámos o local depois de fazer a recolha de todo o material, porque era usual o inimigo fazer batidas de zona com morteiros ou canhão sem recuo, o que era sempre perigoso. Este grupo que foi apanhado de surpresa, era constituído por cerca de 30 combatentes.

Afinal o nosso comandante de operações Major Paraquedista Calheiros tinha razão em solicitar a nossa intervenção neste local porque era realmente um enorme quartel posso até dizer o maior, talvez mesmo o maior de todos os que detectamos durante toda a minha comissão.

Próximo desta base e paralelo à linha de fronteira, referenciámos uma picada que era bastante utilizada por viaturas vindas da Guiné Coancri, com passagem recente. Aí emboscámos durante algum tempo sem que o IN se revelasse. Levantámos a emboscada e regressámos ao destacamento sem mais qualquer incidente e bastante carregados com o ronco conseguido.

2 Julho de 1973: ataque em força a Gadamael

O PAIGC ataca o destacamento de Gadamael Porto utilizando Canhões s/r , Morteiros 82 , RPG 2, RPG 7 e Foguetões. Foi talvez o ataque mais forte desde o início das flagelações que eram constantes ao destacamento, mas que apenas conseguiu destruir mais algumas das poucas infra-estruturas existentes que ainda se mantinham mais ou menos direitas e causar algum efeito psicológico negativo nas nossas tropas. Do ladoNT ali aquarteladas, houve apenas 2 feridos, sem gravidade.

De salientar que os ataques inimigos eram de tal forma precisos que era raro cair uma granada fora do perímetro do destacamento. Até chegámos a pensar que havia alguém, no interior ou bem perto, a dar orientação e correcção dos fogos o que se viria mesmo a confirmar que assim era.

A CCP 121 emboscada a 500 metros do destacamento

Nos dias seguintes a CCP 121 fazia patrulhamentos, como era habitual todos os dias em Bigrupo (muito raro) ou a nível de Companhia (quase sempre) - isto devido aos poucos efectivos que a CCP 121 tinha em virtude das baixas havidas anteriormente e as rendições serem escassas ou mesmo nulas para a situação operacional existente.

Num desses patrulhamentos, logo a pouco mais de 500 metros do destacamento, a CCP 121 foi emboscada por um forte grupo de combate do PAIGC ao qual deu a resposta adequada durante mais de 25 minutos. De salientar que o inimigo tinha no local uma boa quantidade de atiradores equipados com RPG 2 e RPG 7, o que nos levou a pensar que estavam a preparar um assalto ou forte ataque ao destacamento logo que a nossa Companhia estivesse fora da zona, uma vez que o destacamento ficaria muito mais desprotegido em termos de efectivos e com poder de fogo mais reduzido.

Neste contacto apenas houve a registar 1 morto - o nosso guia africano - e 1 ferido ligeiro nas nossas tropas. Capturámos 2 armas ao inimigo e confirmámos 1 morto no local . Tivemos que regressar ao destacamento, pois já estávamos com poucas munições. Aabámos por sair para o patrulhamento planeado, pouco depois, ao longo do rio e que decorreu com toda a normalidade .

7 de Julho de 1973: emboscada nas matas de Lamol com 4 mortos (confirmados) do PAIGC

A CCP 121, patrulhando mais uma vez a zona nas matas de Lamol, foi emboscada por um forte grupo de combate do PAIGC que pensámos ser de cerca de 30 elementos fortemente armados e municiados com todo o tipo de armas que os guerrilheiros normalmente utilizavam: RPG 2 , RPG 7, Morteiros , Canhão s/r, PPSH - ou costureinha, asssim chamada devido ao seu cantar inconfundível - , Kalashnikov , Degtyarev e outras armas ligeiras de repetição tais como a Simonov.

Alguns destes guerrilheiros eram de tez branca. O contacto durou vários minutos. Em consequência deste contacto, o inimigo sofreu 4 mortos confirmados e bastantes feridos , deixando vário material de guerra no local.

Muitos outros episódios poderia contar desta passagem por Gadamael Porto. Poderia falar sobre bre a alimentação, já que só passadas algumas semanas é que se começou a cozinhar... E o quê? Arroz com dobrada ao meio dia e o mesmo à noite, sendo o mesmo nos dias seguintes... E alguma dela já fora de validade!... As carências eram grandes e as dificuldades enormes em todos os aspectos, mas fomos sobrevivendo conforme se podia.

Não posso deixar de referir que, terminado mais este duro período em Gadamael. os paraquedistas do BCP 12 deram um contributo valioso e valoroso e de forma decisiva que conseguiu desta forma travar o ímpeto das grandes ofensivas que o PAIGC lançou tanto a norte (Guidaje) como a sul (Guileje e Gadamael.

E assim honrámos assim a nossa arma e também as nossas forças armadas.

Regressamos em LDG a Bissau no dia 17 de Julho de 1973

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Notas de L.G.:

(1) Vd. posts relacionados com a CCP 1231 e com o nosso camarada e amigo Victor Tavares:

18 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1610: Ao meu pai, Victor Tavares, ex-1º cabo paraquedista, CCP 121 (Osvaldo Tavares)

17 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1605: A reportagem da TSF e o regresso do Vitor Tavares a Guidaje (Albano Costa)

8 de Março de 2007 >Guiné 63/74 - P1573: O Victor Tavares, da CCP 121, a caminho de Guidaje, com uma equipa da TVI (Luís Graça)

21 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1540: Os paraquedistas também choram: Operação Pato Azul ou a tragédia de Gamparà (Victor Tavares, CCP 121)

8 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1350: Ataque ao navio patrulha no Rio Cacheu (Victor Tavares)

26 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1316: A participação dos paraquedistas na Operação Ametista Real: assalto à base de Kumbamory, Senegal (Victor Tavares, CCP 121)


9 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1260: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (2): o dia mais triste da minha vida

25 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1212: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (1): A morte do Lourenço, do Victoriano e do Peixoto

21 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1099: O cemitério militar de Guidaje (Manuel Rebocho, paraquedista)

(2) Estes camaradas devem ter pertencido à CCAV 8350, a última unidade a deixar Guileje, e a que pertenceu o membro da nossa tertúlia, o ex-furriel mil op espec José Casimiro Carvalho:

Vd. post de 2 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXVIII: No corredor da morte (CCAV 8350, Guileje e Gadamael, 1972/73) (Magalhães Ribeiro)

Recorde-se que, de 18 a 22 de Maio de 1973, o aquartelamento de Guileje foi cercado pelas forças do PAIGC (Op Amilcar Cabral), obrigando as NT (CCAV 8350, 1972/73), a abandoná-lo, juntamente com cerca de 600 civis.

A Companhia Independente de Cavalaria 8350/72 foi a unidade de quadrícula de Guileje entre Outubro de 1972 e Maio de 1973. Viu morrer em combate nove dos seus homens, entre algumas dezenas de feridos.

Foi seu Comandante o Capitão Abel dos Santos Quelhas Quintas, que escreveu numa carta dirigida ao Senhor Chefe do Estado Maior do Exército, sobre o Furriel Miliciano de Operações Especiais José Casimiro Pereira Carvalho, com o seguinte teor (desconheço a data):

Exmo Senhor Chefe do Estado Maior do Exército:

"Por, quando Comandante da Companhia Independente da Cavalaria 8350, em serviço na Guiné entre 1972 e 1973, sedeada em Guileje, ter sido ferido em Gadamael, nunca me foi possível propor uma homenagem pública ao Furriel de Operações Especiais Casimiro Carvalho.

(...)"Quando fui ferido, foi este homem que me ajudou a deslocar para junto do Rio Cacine, pois eu mal me podia movimentar, deslocando-se em seguida debaixo de intenso fogo de morteiros e outra armas que, neste momento, não sei especificar, para conseguir um depósito de gasolina de forma a poder fazer movimentar a embarcação em que me evacuou para Cacine, como também outros militares que nesse momento já se encontravam junto ao pequeno cais.

""Nas reuniões anuais da nossa Companhia muitos falam dos actos de bravura deste furriel, desde, debaixo de fogo, conduzindo uma Berliet se deslocar aos paióis para municiar não só as bocas de fogo de artilharia, como para os morteiros, fazer ainda parte duma patrulha onde morreram vários militares ficando ele e outro a aguentar a situação, até serem socorridos, e ter sido ferido, evacuado para Cacine, o que não invalidou que passados poucos dias se tenha oferecido para voltar para junto dos camaradas no verdadeiro inferno em Gadamael" (...)

(3) O major de artilharia Alexandre da Costa Coutinho e Lima era o comandante do COP 5, na altura da batalha de Guileje e Gadamael:

Vd. posts de 2 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - XCI: Antologia (6): A batalha de Guileje e Gadamael (Afonso M.F. Sousa / Serafim Lobato)