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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27915: Casos: a verdade sobre.... (66): Kalashnikovomania - Parte I: Até Moçambique (embora caso único no mundo...) tem na bandeira, símbolo nacional por excelência, a imagem da famigerada AK 47


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CAOP1 > 35ª CCmds (Teixeira Pinto, 1971/73) > Março de 1972 > "Durante a protecção aos trabalhos de desmatagem das margens, ou da pavimentação, da estrada entre Teixeira Pinto e o Cacheu."... Na foto, o alf mil 'cmd' Alfredo Campos, empunhando uma AK-47 .


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CAOP 1> 35ª CCmds (Teixeira Pinto, 1971/73) > Março de 1972 > Estrada Teixeira Pinto - Cacheu > Outro camarada da 35ª CCmds, que se rendeu aos encantos da AK-47, o alf mil 'cmd' António Rui de Mendonça Andrade, açoriano, que, mais tarde, após a evacuação do comandante da 35ª CCmds (cap mil inf 'cmd' António Joaquim Alves Ribeiro da Fonseca, ferido em combate)  foi graduado em capitão para assumir o comando daquela companhia a que pertenceu também o nosso grão-tabanqueiro Ramiro de Jesus, aveirense, tal como o Francisco Gamelas)

Fotos do álbum do Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73).

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Bandeira de Moçambique, adotada em 1983. Imagem do domínio público. Fonte: cortesia de Wikipedia.

Legenda: bandeira nacional da República de Moçambique:

(i) uma bandeira tricolor com fimbriações brancas e um triângulo vermelho;

(ii) o verde-azulado representa as riquezas da terra, as bordas brancas significam a paz, o preto representa o continente africano, o amarelo simboliza os minerais do país e o vermelho representa a luta pela independência:

(iii) inclui a imagem de uma espingarda automática Kalashnikov (AK-47) com uma baioneta fixada ao cano e cruzada a uma enxada, sobrepostos a um livro aberto;

(iv) a AK.47 representa a defesa e a vigilância, o livro aberto simboliza a importância da educação, a enxada  está associada á  agricultura e aos camponeses
 e, por fim,  a estrela  exalta o internacionalismo do país;

(v) é uma das quatro bandeiras nacionais entre os Estados-membros da ONU que apresentam uma arma de fogo, junto com as da Guatemala, Haiti e Bolívia.


1. Pode-se falar em kalashnikovomania, o culto da Kalashnikov pelos "tugas",  definida como uma forte atracção pelo armamento do... IN ? 

No TO da Guiné, incluía sobretudo a AK-47 mas também outras armas (como a "costureirinha"  e o RPG) ... 

Se a resposta é sim, esta tendência não era exclusiva dos nossos "rambos" na Guiné... Chegou inclusive à simbologia nacional de um país lusófono como Moçambique. E ao cinema: veja-se o filme Lord of War / O Senhor da Guerra (2005)...

Kalashikovomania:

Trata-se de um neologismo, inventado pelos editores do blogue da Tabanca Grande, que "paga direitos de autor"; um dia irá figurar nos novos Dicionários da Língua Portuguesa, como muitos outros termos que usávamos na guerra (por exemplo, dila=dilagrama, LGFog=lança-granada foguete, ameixa=granada, lobo mau= helicanhão).

Curiosamente, a bandeira de Moçambique [imagem acima], na actual versão (que vem de 1983), ostenta a AK-47, de origem russa, arma-padrão dos guerrilheiros da FRELIMO, bem como do MPLA e do PAIGC , que passou a ser símbolo nacional (!) da luta armada e da defesa do país de Samora Machel 

Registe-se que  é a única bandeira no mundo a ostentar uma arma de fogo  moderna (ainda por cima, estrangeira)... 

Singularidades da lusofonia ?... Dessa tentação, ao menos, livraram-se os nossos amigos guineenses.

 

Cartaz do "Lord of War", filme norte-americano de 2005, com Nicolas Cage, e que  passou em Portugal com o título O Senhor da Guerra (tradução literal)- 

 Cage interpreta a personagem de Yuri Orlov, um traficante de armas perseguido pela Interpol, que no filme faz o elogio da AK 47 (confesso que não o vi). 

Esse monólogo é de antologia pela forma irónica e crítica como o traficante promove a famigerada AK-47 (o mesmo é dizer, a kalashnikovomania). Eis aqui um excerto, com tradução para português:

(...) De todas as armas do vasto arsenal soviético, nenhuma foi mais lucrativa do que o Avtomat Kalashnikova, modelo de 1947, ais conhecida como AK-47, ou Kalashnikov.

É a espingarda de assalto mais popular do mundo. Uma arma que todos os combatentes adoram.

Uma combinaçáo, simples mas elegante, o de cerca de quatro quilos de aço forjado e madeira prensada.

Não se parte, não encrava, não sobreaquece. Dispara sempre, mesmo coberta de lama ou cheia de areia.

É tão fácil de usar que até uma criança a consegue manejar — e usam-na, as criancinhas por esse nundo fora-

Os soviéticos cunharam uma moeda com a sua efígiue. Moçambique colocou-a na sua bandeira, símbolo nacional.

Desde o fim da Guerra Fria, a Kalashnikov tornou-se o  maior produto de exportação dos russos.  
Depois vêm a vodka, o caviar e os romancistas suicidas.

Uma coisa é certa: ninguém fazia bicha  para comprar os carros soviéticos. (...)

2. Contexto histórico

A AK-47 foi desenvolvida por Mikhail Kalashnikov no final da década de 1940, em plena consolidação da União Soviética após a Segunda Guerra Mundial. 

A sua grande vantagem seria, alegadamente, a simplicidade, a robustez, o preço/qualidade  e o baixo custo de manutenção,  características ideais para a sua produção em massa e distribuição a exércitos e movimentos aliados (incluindo os que lutavam "contra o colonialismo e o imperialismo"). 

Durante a Guerra Fria, e num mundo bipolarizado, 
a União Soviética forneceu a AK-47 a inúmeros países e "movimentos de libertação" em África, Ásia e América Latina.

 Isso fez com que a arma, licenciada ou contrafeita,  se tornasse não apenas um instrumento militar, mas também um poderoso símbolo político. E mais: foi um eficaz instrumento da diplomacia soviética... Como,  de resto, são todos os produtos dos fabricantes de armas.

O caso de Moçambique é um exemplo dessa "idolatria" ou "fetichismo" pela AK-47. É o único país do mundo (e ainda por cima lusófono!)  cuja bandeira nacional inclui uma arma de fogo moderna... 

Quer se goste ou não, o raio da Kalashnikov transcendeu o seu papel técnico (de arma de guerra ou "brinquedo de morte") para se tornar um ícone histórico.

Mas façamos uma pequena análise do tom crítico e irónico do supracitado  discurso de Yuri Orlov (a personagem de Nicolas Cage, no filme O Senhor da Guerra):

É um monólogo brilhante porque funciona em dois níveis:

(i) há uma aparente admiração técnica:  à primeira vista,  ele descreve a AK-47 com entusiasmo quase reverencial (“elegantemente simples”, “não encrava, não sobreaquece”, “até uma criança a consegue usar”); é a linguagem típica dos fabricantes e dos comerciantes, focada na eficiência, durabilidade,  design, preço/qualidade do produto;

(ii) mas, nas "entrelinhas", há uma ironia sombria, um  subtexto moral, profundamente crítico: o facto de qualquer criança-soldado  a poder usar (como podemos ver em imagens que nos chegam de  África, e até nas "áreas libertadas do PAIGC"  no nosso tempo, como nesta foto à direita, de Roel Coutinho), é profundamemte perturbador. 

De facto, a  sinistra “popularidade” da AK-47  
resulta da sua difusão em massa.


Criança-soldado do PAIGC

Em guerras, muitas delas civis e fratricidas.  E a referência  a Moçambique está longe de ser lisongeira...

A frase sobre “romancistas suicidas” e carros que ninguém quer comprar  (mesmo a preços de saldo...) introduz um humor negro que ridiculariza os estereótipos sobre a Rússia, faz contrastar bens culturais (literatura) com bens destrutivos (armas), sugere que o verdadeiro “sucesso” económico  e social do antigo país dos sovietes é algo de ainda profundamente problemático.

Enfim, no monólogo  do cínico  traficante de armas há uma crítica sujacente ao negócio global de armas, ao mesmo tempo que promove a kalashnikovomania... 

No fundo, o monólogo desmonta a lógica do mercado: a AK-47 é apresentada como o produto perfeito porque aumenta a "literacia de guerra", facilita a instrução  militar e paramilitar, ogimiza a violência em massa, banaliza a "violência revolucionária", usa a lógica redutora do  mundo dividido em opressores e oprimidos... 

 Ou seja, o discurso imita uma apresentação 
e vendas ( quase um pitch comercial),acabando 
por  expor o absurdo moral de tratar  "armas de guerra" como um qualquer outro produto de consumo.

Quem viu (e se lembra de) o filme, faz uma leitura mais profunda: o que é mais inquietante é que Yuri não está a mentir. Tudo o que ele diz é factual, mas a seleção e o tom criam uma espécie de “verdade desconfortável”: a eficiência tecnológica + a lógica de mercado + a geopolítica = uma arma, a AK-47, a dos "oprimidos", que moldou e alimentou conflitos em todo o mundo.

É isso que dá força ao texto: não é um discurso ideológico explícito, mas uma descrição fria que acaba por ser também, implicitamente,  uma crítica devastadora da kalashnikovomania (o culto da AK-47 e de todas as outras tecnologias de guerra e morte).

E aqui, temos que o reconhecer, não há "armas em boas mãos"...

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA / ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 31 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27874: Casos: a verdade sobre... (65): o acidente com canhão s/r 82, B-10, russo, que vitimou o 2º srgt António Duarte Parente, do Pel Caç Nat 53, no Saltinho, em 13 de maio de 1970

domingo, 16 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26590: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (57): O "15 de Março de 1961": quem ganhou, quem perdeu ? Quem ficou na pior, previsivelmente, foram mesmo duas ou três gerações de angolanos.


1. Mensagem do nosso camarada António Rosinha (foto à esquerda, em Pombal, 2007, por ocasião do II Encontro Nacional da Tabanca Grande; foi fur mil, ainda do tempo da farada "amarela", em Angola, 1961/62; t
opógrafo em Angola, para onde foi adolescente, africanista de alma e coração, regressou a Portugal em novembro de 1974, emigrou para o Brasil da ditadura militar (que vigorou de 1964 a 1985), e mais tarde para a Guiné-Bissau do partido único, onde trabalhou, de 1978 a 1993,  na empresa TECNIL, ao tempo do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, "camaradas", "heróis da liberdade da pátria",  que ele conheceu bem no poder; entrou para o nosso blogue,  em 29/11/2006, é um histórico da Tabanca Grande; é autor da série "Caderno de Notas de Um Mais Velho"; tem cerca de 150 referências no blogue).

Data - 16 mar 2925, 00:39 

Assunto - 15 de Março de 1961


Faz nesta data, 64 anos, aquele massacre do norte de Angola com que a UPA  (União dos Povos de Angola) tribalmente iniciou o chamado terrorismo, termo absolutamente correto, e que deu início à chamada guerra do Ultramar.

Hoje essa guerra tem muitos nomes.

A partir desta data o mundo ficou todo contra Portugal e contra Salazar, em particular.

Na ONU, essa coisa, hoje mais ou menos desrespeitada, votou contra Nós,  Portugal nas colónias africanas, entre todos os "amigos" de África, EUA e URSS, e abstiveram-se Inglaterra e França.

Estes dois já sentiam alguma vergonha, escondida, dos briosos golpistas que iam impondo nas suas ex-colónias,  e que iam protegendo à base de conselheiros mercenários.

Mas Portugal e Salazar tinham um grande amigo que disfarçadamente, sem a URSS se aperceber, mandou o seu embaixador oferecer os seus préstimos a Salazar e este agradeceu: «Ouvi-o atentamente e agradeço-lhe a sua visita. Muitos cumprimentos ao Presidente Kennedy. Muito boas tardes, senhor embaixador.» (Franco Nogueira)

Passados 13 anos a URSS levou a melhor, viu-se, pelo menos pareceu.

Quem ficou na pior, previsivelmente, foram mesmo duas ou três gerações de angolanos.

E a Europa ficou com inúmeros países vizinhos que criou, a pedir "explicações".

O Salazar não queria este fim para a Europa e para África.

Cumprimentos, Antº Rosinha.

PS - Mas a Europa já nessa altura, já não podia com uma gata pelo rabo!


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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Guiné 61/74 - P24633: Notas de leitura (1614): "Uma História do Mundo em 100 Objetos", por Neil MacGregor; Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2014 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Novembro de 2021:

Queridos amigos,
Esta História do mundo em 100 objetos ocupa-se, de uma maneira totalmente original, de abordar 100 objetos que nos conduzem numa viagem no tempo e no espaço, dando-nos a conhecer como a Humanidade moldou o mundo, desde a Pré-História a este emergente século XXI. Se começamos em África de há dois milhões de anos a ele regressamos no início do presente século para ver uma escultura patente no Museu Britânico feita de armas que nos falam da Guerra Fria, da luta de libertação, de choques interétnicos, da incapacidade dos países recém-independentes terem sabido reconciliarem-se e caminharem juntos, pacificamente, para uma via de progresso, de equidade e bem-estar.
Dos 100 objetos escolhemos o Trono de Armas como marcante de um projeto de reconciliação que fizesse retirar milhões de armas do meio familiar, fazer desaparecer as crianças-soldados, remover as minas, dando como contrapartida a todos aqueles que entravam neste projeto-paz e restituiam as armas, enxadas, máquinas de costura, bicicletas e material de construção civil. Esta escultura feita de pedaços de armas forçosamente que nos perturba, de uma peça de destruição fez-se alegoricamente um trono, a tecnologia tem destes prodígios, de uma hora para a outra a fábrica de eletrodomésticos pode transformar-se numa construtora de armas sofisticadas. É o estupor desta fragilidade de que este trono também fala.

Um abraço do
Mário



Um registo da guerra que dá pelo nome de trono de armas, tragédia e triunfo humanos

Mário Beja Santos

Uma História do Mundo em 100 Objetos, por Neil MacGregor, Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2014, é uma estimulante aventura em que os objetos ajudam a compreender a história mundial. Neil MacGregor usou da faculdade de Diretor do Museu Britânico para fazer palestras na BBC e dar à estampa esta admirável viagem encetada na Pré-História e que vem ao quase presente, permitindo ao leitor olhares sobre a hominização, o que aconteceu depois da Idade do Gelo, como tudo mudou com as primeiras cidades e estados, a alvorada da Ciência e da Literatura, os pensadores orientais, os construtores de impérios, os primeiros protocolos e formas de distinção, a ascensão das religiões mundiais… Um itinerário que nos leva até à sociedade de consumo, a emergência de guerras étnicas depois da descolonização, a importância que tem hoje o cartão de crédito e os mais prementes desafios energéticos.

Este Trono de Armas é inquietante e avassalador, é uma cadeira feita com partes de armas produzidas em todo o mundo e exportadas para África. Temos procurado muitas definições abrangentes para todo o século XX, é verdade que prepondera a ideia de que foi o século da mulher, mas não escapa a algumas interpretações a matança em massa que se praticou em duas guerras mundiais, nas purgas estalinistas, no Holocausto, nos arrasamentos nucleares, nos campos de morte do Camboja, nos massacres do Ruanda, é uma lista praticamente infindável. Este trono é um monumento a todas as vítimas da guerra civil moçambicana. Desapareceram os impérios, pareciam prosperar ideologias globais e afinal tudo caiu em disputas sangrentas. Faltou previsão aos dirigentes dos movimentos nacionalistas e mesmo aos líderes coloniais para com tempo criarem competência para as novas experiências governativas, EUA e URSS, os Aliados eram manifestamente indiferentes a este desafio de organização do Estado que gerasse soberania e fizesse calar as etnicidades exacerbadas. A guerra civil em Moçambique foi uma das mais sangrentas e parece que ainda não estancou.

As armas que dão forma a esta cadeira traçam a história do século XX moçambicano. As mais antigas, no espaldar, são duas velhas G3 portuguesas. A FRELIMO era apoiada pela URSS, e isso explica que todos os outros elementos da cadeira sejam armas desmembradas produzidas pelos comunistas: os braços são da AK-47 soviética, o assento de espingardas polacas e checas, e uma das pernas da frente é um cano de uma AKM norte-coreana. Como enfatiza Neil MacGregor: “Trata-se da Guerra Fria em forma de peça de mobiliário, o Bloco de Leste em ação, lutando pelo comunismo em África e em todo o mundo”. Em 1975, o novo Moçambique apresentava-se como um Estado marxista-leninista, em resposta, os rodesianos e os sul-africanos criaram e apoiaram um grupo oposicionista, a Renamo, com o intuito de destabilizar completamente o país, as primeiras décadas da independência moçambicana foram tempos de derrocada económica e sangrenta guerra civil. Isto para sublinhar que as armas do trono participaram na guerra civil: um milhão de mortos, milhões de refugiados e 300 mil órfãos de guerra. A paz só veio em 1992, mas embora a guerra tivesse acabado, havia armas por todo o lado. O maior desafio que se pôs a Moçambique foi a destruição de milhões de armas e refazer a vida dos antigos soldados e das suas famílias.

O Trono de Armas tornou-se um elemento inspirador neste processo de recuperação. Fez parte de um projeto de paz chamado “transformar armas em ferramentas”, e no qual as armas usadas pelos dois lados eram entregues em troca de amnistia e ferramentas úteis, como enxadas, máquinas de costura, bicicletas e material para telhados. Entregar as armas era um ato de verdadeira bravura por parte destes antigos combatentes e teve projeção em todo o país, pois ajudou a romper o apego pelas armas e pela cultura de violência que atingira Moçambique durante tantos anos. Desde o início do projeto, mais de 600 mil armas foram entregues e transformadas em algumas esculturas. Graça Machel patrocinou o projeto que tinha o objetivo de “retirar os instrumentos de morte das mãos dos jovens e dar-lhes uma oportunidade de desenvolverem uma vida produtiva”.

Este trono, patente no Museu Britânico, foi criado por um artista moçambicano de nome Kester. Escolheu fazer uma cadeira e chamou-lhe trono, são raras nas sociedades tradicionais africanas, estão reservadas aos chefes tribais, príncipes e reis. O peso alegórico é inequívoco: é um trono em que ninguém se vai sentar, não está destinado a uma realeza ou a um senhor do mando, é a expressão de um espírito do novo Moçambique, é um marco da reconciliação. Como escreve MacGregor, há algo de particularmente perturbador numa cadeira feita com armas concebidas especificamente para matar, mutilar, anular. Kester deu uma explicação: “Não fui afetado diretamente pela guerra civil, mas tenho dois parentes que perderam as pernas. Um pisou uma mina e perdeu a perna, e o outro, um primo, perdeu uma perna a lutar pela FRELIMO”.

Kester fez deste trono uma mensagem de esperança. “Dois canos de espingarda formam as costas da cadeira. Se olharmos com atenção parecem ter caras, dois orifícios de parafusos para os olhos e uma ranhura para a boca. Até parecem estar a sorrir". Foi um acidente visual que Kester aproveitou e decidiu incorporar na peça, negando às armas o seu propósito primário e dando à obra de arte um forte sentido: “Não esculpi o sorriso, faz parte da coronha da espingarda. Aproveitei os orifícios de parafuso e a ranhura onde se fixava a bandoleira. Escolhi as armas mais expressivas. No cimo podemos ver uma cara sorridente. E há outra cara sorridente: a outra coronha. Parecem estar a sorrir uma para a outra felizes para paz e liberdade que chegou”.

No seu todo, este original livro que nos conduz da África de há dois milhões de anos para a aurora do século XXI, dotado de uma escrita admirável e estimulante, é verdadeiramente uma História do mundo. Uma leitura imperdível, onde um Trono de Armas põe um antigo combatente, como eu, a pensar como devemos contribuir para recordar os horrores da guerra ao serviço da reconciliação dos homens, naquelas parcelas africanas onde combatemos.


Neil MacGregor
Imagens de cadeira feita com peças de armas, Maputo, Moçambique, peça no Museu Britânico
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Nota do editor

Último poste da série de 4 DE SETEMBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24618: Notas de leitura (1612): Guiné, Operação Irã (maio de 1965) e Operação Hermínia (março de 1966), no fascículo 2 de "As Grandes Operações da Guerra Colonial", textos de Manuel Catarino; edição Presselivre, Imprensa Livre S.A. (Mário Beja Santos)

domingo, 30 de julho de 2023

Guiné 61/74 - P24518: Antologia (94): "A Suécia e as lutas de libertação nacional em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau", por Tor Sellström (2008). Excertos: o caso da ajuda ao PAIGC – Parte V


1. A Suécia (então parceiro comercial de Portugal desde o ano de 1960, no âmbito da EFTA - Associação Europeia do Comércio Livre) e a Guiné-Bissau nunca tiveram, até ao final da década de 1960, praticamente quaisquer ligações (históricas, comerciais, ou outras).


Tor Sellström, do Instituto Nórdico de Estudos Africanos, é autor de um livro,  de 290 páginas, sobre "A Suécia e as lutas de libertação nacional em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau" (publicado em 2008, em versão portuguesa). (Vd. ficha técnica a seguir.)

Nessa publicação conta-nos como é que de repente certas organizações suecas de solidariedade com a luta dos povos da África Austral e o governo sueco começaram a interessar-se pelo que se estava a passar naquele pequeno país de África Ocidental, que era/é a Guiné-Bissau, um território então sob administração portuguesa, com um escasso meio milhão de habitantes, e com um pequeno partido nacionalista, o PAIGC; a lutar pela sua independência.

E não apenas a interessar-se: a partir de 1969, a Suécia a dar uma "ajuda humanitária", substancial, que se prolongou muito para além da independência, até meados dos anos 90. 

"As exportações financiadas com doações da Suécia representavam, durante este período, entre 5 por cento e 10 por cento do total das importações da Guiné-Bissau". Estamos a falar de valores que chegaram aos 2,5 mil milhões (!) de coroas suecas [c. 269,5 milhões de euros] durante o período de 1974/75-1994/95 (sendo de 53,5 milhöes de coroas suecas, ao valor actual, ou sejam, cerca de 5, 8 milhões de euros, de 1969/70 até 1976/77).

Passados estes anos todos, julgamos que ainda tem algum interesse, para os nossos leitores, saber um pouco mais desta história e dos seus meandros

Vamos continuar a seguir esta narrativa, reproduzindo, com a devida vénia, mais um excerto do livro de Tor Sellström. Já chamámos, logo no início, a atenção para alguns factos e dados que merecem a nossa contestação ou reparo crítico, nomeaadamente quando o autor fala do trajeto do PAIGC e do seu líder histórico, não citando fontes independentes e socorrendo-se no essencial da propaganda do PAIGC (ou de fontes que lhe estavam próximas)...

Já apontámos, nos postes anteriores, para alguns exemplos desse enviesamento político-ideológico: (1) a greve dos trabalhadores portuários do Pijiguiti e o papel do PAIGC; (ii) a batalha do Como: (iii) o controlo de 2/3 do território e de 400 mil. habitantes por parte do PAIGC; (iv) as escolas, as clínicas e as lojas do povo nas "áreas libertadas"; (v) o assassassinato de Amílcar Cabral. etc. .

O texto (na parte que nos interessa, a ajuda sueca ao PAIGC, pp. 138-172) tem demasiadas notas de pé de página, que podem ser úteis do ponto de vista documental mas sáo extremamente fastidiosas para a generalidade dos nossos leitores. (Vamos mantê-las, para não truncar a narrativa; podem ser lidas na diagonal)

Os negritos são nossos: ajudam a destacar alguns dos pontos importantes do texto. O "bold" a vermelho são passagens controversas, são uma chamada de atenção para o leitor, devendo merecer um comentário crítico (ou o recurso a leituras suplementares).

Corrigimos os excertos seguindo o Acordo Ortográfico em vigor.

Para já aqui ficam os nossos agradecimentos ao autor e ao editor, Nordiska Afrikainstitutekl (em inglês, The Nordic Africa Institute).

Ficha técnica:

Tor Sellström - A Suécia e as lutas de libertação nacional em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Nordiska Afrikainstitutekl, Uppsala, 2008, 290 pp. Tradução: Júlio Monteiros. Revisão: António Lourenço e Dulce Åberg. Impresso na Suécia por Bulls Graphic, Halmstad 2008ISBN 978–91–7106–612–1.

Disponível em https://www.diva-portal.org/smash/get/diva2:275247/FULLTEXT01.pdf

(Também disponível na biblioteca Nordiska Afrikainstitutekl (ou Instituto Nórdico de Estudos Africanos) aqui, em "open acess" .)


Resumo dos excertos anteriores (*):

Com base numa decisão parlamentar aprovada por uma larga maioria, a Suécia tornou-se em 1969 o primeiro país ocidental a dar ajuda oficial aos movimentos nacionalistas das colónias portugueses (MPLA, PAIGC, FRELIMO). O PAIGC vai-se tornar o principal beneficiário dessa ajuda (humanitária, não-militar). Muito também por mérito de Amílcar Cabral e da sua habilidade diplomática. Até então, e sobretudo na primeira metade da década de sessenta, o debate na Suécia sobre a África Austral tinha quase exclusivamente sido centrado na situação na África do Sul, onde vigorava o apartheid.

O êxito da campanha contra a participação da empresa sueca ASEA no projecto de Cahora Bassa em Moçambique, por volta de 1968–69, na altura em que decorria a guerra do Vietname, levou a que os principais grupos de pressão (“Grupos de África”, oriundos de cidade como Arvika, Gotemburgo, Lund, Estocolmo e Uppsala) se ocupassem quase em exclusivo da luta armada nas colónias portuguesas, com destaque para a Guiné-Bissau(Parte I).

Em 3 páginas (pp. 141-143), o autor faz um resumo da "luta de libertação na Guiné-Bissau", usando unilatereal e acriticameente informaçáo propagandística do PAIGC, alguma particularmente grosseira como a pretensão deste de controlar 400 mil habitantes... (Parte II).

Nas páguinas 144-147, fala-se dos primeiros contactos com o PAIGC e das primeiras visitas ao território (Parte III).

Nas páginas 148-152, é referido a primeira visita (de muitas) de Amílcar Cabral à Suécia em novembro de 1968 (Parte IV).

 Excerto do índice (pág. 4)

O PAIGC da Guiné-Bissau: Desbravar terreno

Pág.

As colónias portuguesas no centro das atenções

138

A luta de libertação na Guiné-Bissau

141

Primeiros contactos

144

Caminho para o apoio oficial ao PAIGC

147

Uma rutura decisiva

152

Necessidades civis e respostas suecas

154

Definição de ajuda humanitária

157

Amílcar Cabral e a ajuda sueca

161

A independência e para além dela

168



O PAIGC da Guiné-Bissau: Desbravar terreno
(pp. 138-172)

Uma ruptura decisiva (pp. 152-154)


A missão de apuramento de factos de Curt Ström em maio de 1969 moldou de uma forma geral a futura ajuda sueca ao PAIGC. A caminho da Guiné-Conacri, Ström começou por visitar o Senegal, onde viviam na altura mais de 50.000 refugiados da Guiné-Bissau (70).

Constatou que os refugiados eram bem recebidos pelas autoridades senegalesas. Além disso o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados financiara a construção de trinta escolas para crianças refugiadas (71). Foi este o pano de fundo que serviu a Ström para concluir que ”não há razão para a ASDI apoiar as atividades de ajuda em prol dos refugiados no Senegal” (72).

A Suécia não dispunha de representação oficial na Guiné-Conacri (73) e a ajuda que dava ao desenvolvimento não cobria esta antiga colónia francesa. As primeiras conversações de Ström com as autoridades em Conacri realizaram-se num contexto ”não isento de fricções” (74). 

Ao mesmo tempo que confirmavam que a ajuda ao PAIGC seria bem-vinda, ndeixavam bem claro que a Guiné-Conacri  esperava, como compensação, algum apoio. 

No seu relatório, o representante da ASDI concluiu que ”as contribuições a favor do PAIGC que não satisfaçam algumas das muitas necessidades enumeradas pelo governo da Guiné não parecem muito aconselháveis” (75). 

O governo sueco acabou por concordar com este ponto de vista, dando um apoio limitado ao sector da educação da República da Guiné.

De acordo com Stig Lövgren, que viria a ser responsável pelo programa de concursos públicos da ASDI para aprovisionamento de bens para o PAIGC, ”tivemos de criar um compromisso especial com a Guiné-Conacri, que permitisse pôr as coisas a funcionar.

[...] O preço que a Suécia teve de pagar foi o fornecimento de uma tipografia totalmente equipada, a ser usada no sector da educação” (76).

As conversações de Ström com o PAIGC foram bastante simples. No seu relatório, descreveu Amílcar Cabral, secretário geral do PAIGC, como ”um jovem agrónomo bastante jovial, elegante, intelectual e um conversador desenvolto e muito animado. Nada de apelos patéticos nem declarações solenes. As suas intervenções eram objectivas, claras e concisas” (77). 

Ström ficou também impressionado com o ambiente no quartel-general do PAIGC em Conacri:

”O trabalho era, tanto quanto nos era possível avaliar, marcado pela determinação e pela eficiência” (78). 

O representante da ASDI não entrou nas zonas libertadas da Guiné-Bissau, e uma visita planeada ao hospital do PAIGC em Boké no norte da República da Guiné teve de ser cancelada, seguindo instruções do governo do país nfitrião. Teve, contudo, oportunidade de avaliar a situação de duas escolas do PAIGC em Conacri, onde constatou a falta de condições materiais, mas um espírito e ambiente geral ”digno de louvor” (79).

As conversações sobre uma possível ajuda futura da Suécia ao PAIGC foram conduzidas diretamente por Cabral que, de acordo com o relatório escrito por Ström, sublinhava que precisava de quase tudo e que ”era mais fácil dizer à Suécia aquilo de que não precisava” (80). 

Dessa lista faziam parte, de forma assinalável, armas, material militar bem como bolsas de estudo (81), que o PAIGC podia obter de outras fontes (82). Fazendo referência ao pedido discutido com a ASDI aquando da visita de Cabral à Suécia em Novembro de 1968, as partes acabaram por chegar a acordo quanto a uma proposta nas áreas da saúde. educação e bens de primeira necessidade ”dentro e fora das zonas de combate” (83). 

O apoio pretendido era constituído por remessas de bens e equipamento, a serem enviadas para o PAIGC em Conacri (84). O PAIGC tinha, de acordo com informações fornecidas por Cabral, a capacidade de armazenamento necessária na capital da Guiné, sendo depois a ajuda material transportada para a Guiné-Bissau pelo departamento de logística do PAIGC, que integrava cerca de 150 pessoas e que dispunha de alguns camiões, doados pela OUA e pela União Soviética (85).

Antes de Ström regressar à Suécia, recebeu do PAIGC listas pormenorizadas dos artigos a fornecer. Quanto a bens de primeira necessidade, figuravam da lista alimentos como leite em pó e conservas de carne e de peixe, além de bens de consumo, como têxteis, cobertores, utensílios domésticos e ferramentas agrícolas. 

A mercadoria destinava-se aaos ”armazéns do povo”, criados pelo PAIGC nas zonas libertadas. Ficou desde o início patente que a maior parte dos artigos a fornecer pela proposta ajuda humanitária sueca se destinava às atividades civis do movimento de libertação no território da Guiné-Bissau.

Apesar dos problemas encontrados junto das autoridades de Conacri, no relatório de Ström ao director geral da ASDI recomendava-se, em junho de 1969 que, no seguimento de uma declaração de esclarecimento feita pelo parlamento sueco, fosse atribuído ao PAIGC um milhão de coroas suecas para aquisição de vários artigos nas áreas indicadas, durante o ano fiscal de 1969–70 (86).

Com o apoio do Comité Consultivo para a Ajuda Humanitária (87), Michanek enviou em julho de 1969, uma recomendação ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, Nilsson, que lhe pôs o seu selo de aprovação. 

A primeira remessa no âmbito do programa global oficial sueco de ajuda a um movimento de libertação africano saiu de Roterdão, na Holanda, com destino ao PAIGC, a 29 de setembro de 1969 (88). Amílcar Cabral estava nessa altura a realizar mais uma visita à Suécia, desta feita com o objetivo de marcar presença no congresso do Partido Social-Democrata (89).

Dez meses após a sua primeira visita à Suécia, pôde constatar no terreno os frutos dos seus esforços diplomáticos (90).

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Notas do autor:

70. Curt Ström: ”Reserapport” (”Relato de viagem”), ASDI, Estocolmo, 13 de junho de 1969 (SDA).

71. Ibid. Quinze das escolas foram construídas com contribuições da Noruega.

72. Ibid. Durante a sua visita ao Senegal, Ström encontrou-se com Benjamin Pinto-Bull, o líder da organização de libertação rival da Guiné, a FLING. Pinto-Bull afirmava que a sua organização tinha ”um apoio mais forte junto do povo da Guiné-Bissau do que o PAIGC”, mas Ström nunca ficou disso convencido nem muito impressionado com o líder da FLING.

73. Durante as suas reuniões em Conacri, Ström descobriu que o governo da República da Guiné e o PAIGC tinham ”fortes suspeitas” sobre o cônsul sueco no local. Amílcar Cabral afirmou que não queria que o cônsul tivesse qualquer participação numa eventual futura ajuda sueca (ibid)

74. Ibid.

75. Ibid.

76. Entrevista com Stig Lövgren, p. 314. O governo sueco não recebeu pedidos semelhantes na África Austral, onde havia representações diplomáticas e onde os países anfitriões recebiam importantes ajudas suecas para o desenvolvimento.  

77. Curt Ström: ”Reserapport” (”Relatório de viagem”), ASDI, Estocolmo, 13 de Junho de 1969 (SDA).

78. Ibid.

79. Ibid.

80. Ibid.

81. O PAIGC havia, mais tarde, de abrir exceções a esta posição geral quanto às bolsas. Utilizando fundos da ASDI, o irmão mais novo de Amílcar Cabral, Fernando Cabral, iniciou estudos de medicina, na área da cirurgia torácica, em Estocolmo, em finais de 1972 (Carta de Onésimo Silveira a Marianne Rappe, Uppsala, 21 de Outubro de 1972) (SDA).

82. No seu relato, Ström declara que os doadores mais importantes do PAIGC eram a Organização de Unidade Africana, a União Soviética, a República Democrática Alemã e a Checoslováquia. 

A ajuda da República Popular da China terminara cerca de cinco anos antes, facto que mereceu o seguinte comentário de Cabral: ”É verdade que precisamos de ajuda, mas não precisamos de Senhores” (Curt Ström: ”Reserapport”/”Relato de viagem”, ASDI, Estocolmo, 13 de junho de 1969) (SDA).

83. Ibid.

84. Havia muito poucas ligações entre a Suécia e a República da Guiné. No início, a ASDI teve dificuldade em encontrar uma companhia de navegação que fizesse viagens regulares para esse país mas acabou por utilizar os serviços de uma empresa dinamarquesa, que fazia ligações regulares com alguns portos da África Ocidental, entre os quais Conacri (Entrevista com Stig Lövgren, p. 314).

85. Curt Ström: ”Reserapport” (”Relatório de viagem”), ASDI, Estocolmo, 13 de Junho de 1969 (SDA).

 86. Curt Ström: ”Reserapport” (”Relatório de viagem”), ASDI, Estocolmo, 13 de Junho de 1969 (SDA).

87. CCAH: ”Protokoll” (”Actas”), Estocolmo, 5 de junho de 1969 (SDA). Nesta ocasião, Curt Ström fez uma exposição oral das conclusões a que chegou durante as visitas ao Senegal e à República da Guiné.

88. ASDI: ”Fortsatt svenskt stöd till Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde” (”Continuação do apoio sueco ao PAIGC”), Estocolmo, 19 de novembro de 1970 (SDA). Como se verá nas tabelas em anexo, as contas da ASDI não reflectem quaisquer pagamentos ao PAIGC durante o ano fiscal de 1969–70. As entregas feitas em 1969–70 foram debitadas pela primeira vez em 1970–71. 

Num relatório exaustivo, datado de maio de 1970, Cabral acusava, contudo, receção e registava a distribuição de ajuda sueca durante o ano fiscal de 1969–70 (PAIGC: ”Sur l’aide humanitaire de la Suède à notre parti: Rapport bref et proposition d’aide” (”Informações sobre a ajuda humanitária da Suécia ao nosso partido: Breve relatório e proposta de ajuda”), Conacri, 19 de maio de 1970) (SDA).

89. O Congresso elegeu Olof Palme como líder do partido e primeiro ministro. Menos de um mês antes, a ASEA retirara-se do controverso projecto de Cahora Bassa em Moçambique. 

O Partido Social-Democrata no poder tinha agora a possibilidade de assumir verdadeiros compromissos com a causa da libertação de África, tanto junto do líder convidado da FRELIMO. Marcelino dos Santos, quanto do secretário geral do PAIGC, Amílcar Cabral. 

Para Palme, tratava-se de algo de enorme significado. Deu início ao seu mandato como primeiro ministro sueco, sem grandescomplicações económicas relativas à África Austral, pois dispunha de uma declaração do parlamento a favor da ajuda oficial directa aos movimentos de libertação em África, e dispondo já dos primeiros exemplos concretos dessa ajuda.

Com este pano de fundo não surpreende que, enquanto indivíduo, se tenha identificado muito com a ajuda dada pela Suécia aos movimentos de libertação em África.

90. Cabral voltou a Estocolmo em junho de 1970 para discutir o pedido do PAIGC no sentido de a ajuda sueca se prolongar para 1970–71 (SIDA: ”Fortsatt svenskt stöd till Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde”/ASDI: ”Continuação do apoio sueca para o PAIGC”, Estocolmo, 19 de Novembro de 1970) (SDA).

 [ Seleção / adaptação / revisão / fixação de texto / itálicos / bold, para efeitos de publicação deste poste no blogue: L.G ]

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Nota do editor:

(*) Último poste da série >  28 de julho de 2023 > Guiné 61/74 - P24510 Antologia (93): "A Suécia e as lutas de libertação nacional em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau", por Tor Sellström (2008). Excertos: o caso da ajuda ao PAIGC – Parte IV

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Guiné 61/74 - P23848: Notas de leitura (1528): Guevara versus Amílcar Cabral: Divergências estratégicas na guerrilha (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Abril de 2020:

Queridos amigos,
O assunto não é de sua menos importância, as estratégias de guerrilha, ao tempo em que foram desencadeadas pelos nacionalistas das colónias portuguesas, tinham como referência o Vietname, a Argélia, Cuba; havia o contexto ideológico, podemos falar nos fatores históricos destas lutas pela independência, o papel dos camponeses e agricultores sem terra, a organização da vanguarda ideológica mobilizadora e o imperativo da sua coesão, a ligação do guerrilheiro às populações. Quem conduzia essas lutas armadas tinha consciência de que o fim da II Guerra Mundial trouxera a rutura de equilíbrios, que houvera guerrilha na própria Europa, caso da Jugoslávia e da Albânia, e os impérios coloniais europeus estavam em desagregação. Havia que saber conduzir a guerra revolucionária, Guevara tornou-se uma referência, tal como Frantz Fanon. Acontece que Amílcar Cabral tinha uma tipologia sobre a condução da luta, a organização da guerrilha e as finalidades da luta de libertação um tanto distintas do que Guevara e Fanon propuseram. É a contextualização dessas concordâncias e divergências que aqui se ponderam para se avaliar como o pensamento revolucionário de Cabral se ajustou à realidade da luta que conduziu.

Um abraço do
Mário



Guevara versus Amílcar Cabral: Divergências estratégicas na guerrilha (1)

Mário Beja Santos

Para se situar o conceito de guerrilha preconizado por Guevara, e mais adiante pô-lo em confronto com a estratégia de Amílcar Cabral aplicada à Guiné, e tentar medir a distância que separou os modos de aplicação preconizados pelos dois revolucionários, é indispensável procurar enquadrar as condições de lugar em que ocorreu a revolução cubana e um pouco mais adiante se forjou a luta armada na Guiné colonial. O território cubano parecia adverso à guerrilha, o tempo era-lhe favorável, mudara a relação de forças à escala mundial no então designado “campo socialista”. Quando os EUA bloquearam Cuba, subtraindo-lhe energia, matérias-primas, peças de substituição para os tratores, trigo e sabão, a URSS estava em condições, mesmo que estivesse posto numa linha vermelha da chamada coexistência pacífica, de apoiar Cuba. Como escreveu Régis Debray, um acérrimo defensor da doutrina guevarista, e que a impulsionou com o conceito de foco, vivia-se um período fasto para o socialismo. A doutrina estalinista fora posta no sótão, não era imperioso a defesa do “socialismo num só país”, análise que bloqueara a generalidade dos partidos comunistas das Américas do Sul e Central. Nikita Kruschev abraçou as causas do Terceiro Mundo, estamos num período de afundamento dos sistemas coloniais, é o tempo de vitórias na Indochina e na Argélia, há ainda repercussões das conferências de Bandung e de Belgrado, o Sputnik e Gagarin eram vedetas – foi assim o período entre 1956 e 1962, a cisão entre a China e a URSS ainda não provocou mossas monumentais, o socialismo parece estar na ofensiva no mundo ocidental; Kennedy e o desastre da Baía dos Porcos não estavam esquecidos, este quadro idílico só se alterará com a crise dos mísseis, que custará a prazo o afastamento de Kruschev, mas a linha dita de apoio ao movimento revolucionário, a partir de Moscovo, a que se juntava o apoio do apoio incondicional de Pequim ao fim do colonialismo na Ásia e na África manter-se-á.

Guevara deixou um apreciável número de escritos, logo as recordações da guerra revolucionária, tinha a sua própria interpretação do que tinha sido a guerrilha em Cuba, desde o falhanço de Moncada, analisa toda a progressão da guerrilha de 1957 até à entrada em Havana em janeiro de 1959. E tece comentários que podem ser úteis para as concordâncias e divergências com a atuação de Amílcar Cabral. Ele cola a palavra guerrilheiro à luta cubana, a palavra guerrilheiro era símbolo de um desejo de liberdade, e apreciava a revolução cubana pela sua ação libertadora, propulsora da reforma agrária. O exército de guerrilha, exército popular por excelência, era constituído por indivíduos virtuosos, disciplinados, ágeis, física e mentalmente. O guerrilheiro deve procurar esgotar o inimigo, desmotivá-lo, fazê-lo perder a tranquilidade. Para que a tática resulte, o conhecimento do terreno deve ser perfeito, ter um conhecimento rigoroso da aproximação e da retirada, do esquema ofensivo e defensivo do inimigo. O guerrilheiro é um reformador social, pega nas armas contra a opressão, reclama uma pátria e a mudança de regime social e económico, é um intérprete das aspirações da grande massa camponesa.

Guevara pronuncia-se igualmente sobre o método guerrilheiro, lembra a diversidade de aplicações na Ásia, na África e nas Américas, discreteia se o método da guerrilha é a única fórmula para a tomada do poder em toda a América e põe uma questão muito dura se a revolução cubana poderá sobreviver se o movimento revolucionário não se expandir pelas Américas. Na esteira de outras correntes revolucionárias, refere a necessidade da classe operária, observa que a América vivia num estado de equilíbrio instável entre a ditadura das oligarquias e a pressão popular. Tanto ele como Régis Debray não esconderão a sua profunda desilusão com o comportamento seguidor do estalinismo da generalidade dos partidos comunistas das Américas. Vaticina uma luta longa e sangrenta no continente americano, haverá numerosas frentes, custará muitas vidas. Está plenamente convicto da vitória, as burguesias nacionais estavam mancomunadas com o imperialismo. Em dado passo, Guevara dá o parecer que o crescimento do mercado comum europeu iria acarretar o desenvolvimento de contradições fundamentais, acentuar mesmo a eclosão da luta americana, e refere que há já indícios seguros na Venezuela, Guatemala, Colômbia, Peru e Equador. Curiosamente, não fala na Bolívia, em cuja guerrilha se inseriu, em 1965, e onde foi assassinado, dois anos depois.

Guevara sentia-se na obrigação de procurar sistematizar a experiência cubana e o processo revolucionário cubano, definindo o cânon do guerrilheiro e a estratégia de guerrilha. Em tudo quanto escrevia deixava claro que a revolução cubana era o simples prelúdio da onda revolucionária que iria varrer todo o continente latino-americano. Dava como certo e seguro que as forças seculares podiam ganhar uma guerra de guerrilhas contra um exército institucional; que nem sempre se podem esperar todas as condições para a revolução, poderá ser imperativo criar um foco insurrecional e o terreno da luta armada deve ser fundamentalmente o campo. Nunca perde de vista a crítica à inoperância dos partidos comunistas e depois detalha o princípio, o desenvolvimento e o fim da guerra de guerrilhas: “No início há um grupo mais ou menos armado, mais ou menos homogéneo, que se dedica quase exclusivamente a esconder-se nos lugares mais agrestes, mantendo raros contatos com os camponeses, esse núcleo de guerrilheiros pode viver isolado, embrenhado na mata, mas a luta não pode avançar sem o apoio dos camponeses, daí o papel determinante do trabalho político”. E enfatiza de novo o guerrilheiro como um reformador social. Nos seus escritos, Guevara não ignora a existência de contradições na massa dos agricultores e camponeses, a propriedade da terra, a existência de oligarcas possuidores de grandes propriedades, o que gera aproximações interclassistas e interdependências que podem fazer hesitar a massa de agricultores e camponeses em aderir à guerrilha.

Também os seus escritos fazem uma clara apologia ao internacionalismo, e observa que o imperialismo é um sistema mundial, a última etapa do capitalismo, por isso é preciso derrotá-lo numa grande confrontação mundial. Todos os estudiosos do guevarismo não iludem que Che tinha plena consciência que a revolução cubana não poderia permanecer isolada. O seu confronto com os partidos comunistas latino-americanos foi extremamente duro. Ainda preponderava a sombra de Estaline que dava como seguro que os países latino-americanos pelo seu atraso precisavam de modelos de governação de unidade nacional, Guevara achava-os cristalizados, totalmente incapazes de detonar focos insurrecionais, por estrita obediência a um princípio estalinista que já estava no caixote do lixo da História. Guevara também não iludia o princípio marxista do proletariado, respondendo que o camponês era o verdadeiro agente revolucionário, o que contrariava o que Marx dissera, que o camponês constituía uma “massa de produtores não envolvidos diretamente na luta entre capital e trabalho”. Guevara reconhecia as diferenças existentes sobretudo naqueles países com grandes centros urbanos, como era o caso do Brasil, da Argentina, Chile e Uruguai. Mas Guevara não aceitava a necessidade de haver guerras de guerrilha diferenciadas, postulava que a influência ideológica dos centros urbanos inibe a luta guerrilheira e incentiva as lutas de massas organizadas pacificamente, isto para regressar à ideia de que se devia contar com uma guerrilha de camponeses.

Como é evidente, Guevara cometeu inúmeros erros de apreciação da realidade socioeconómica e cultural dos países latino-americanos, esteve no Congo a procurar estimular focos insurrecionais, foi um fracasso total, encontrou-se em Conacri com Amílcar Cabral, não há documentação de Cabral sobre tudo o que se passou nesse encontro, mas que teve resultados promissores. Primeiro, Guevara considerou Cabral o único dirigente revolucionário com consistência e linha organizativa bem delineada. Cabral pediu apoio a Cuba e recebeu. Em 1966, em janeiro, na cidade de Havana, Amílcar Cabral exporá as linhas norteadoras do movimento revolucionário que dirige, incomodará muita gente quanto ao conceito de luta de classes e ao significado do proletariado. Fidel Castro admirou a ousadia da exposição de Cabral. Passeiam-se por Cuba, garante-lhe mais apoio. Será em Cuba que se irão formar os cabo-verdianos que era suposto promoverem a luta armada no arquipélago. Tal não aconteceu, mas esse grupo cabo-verdiano irá ser determinante em território guineense.

(continua)

Che Guevara no Congo
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Nota do editor

Último poste da série de 3 DE DEZEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23840: Notas de leitura (1527): "Uma longa viagem com Vasco Pulido Valente", de João Céu e Silva (Lisboa, Contraponto, 2021, 296 pp) - O Estado Novo, a guerra colonial, o Exército e o 25 de Abril (Luís Graça) - Parte VI: 25 de Abril ? 25 de Novembro ? E descolonização ? Acho que consigo compreender tudo no caso português. Isto parece uma gabarolice, mas não é. A mim, não há nenhum acontecimento que me cause perplexidade" (VPV)

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Guiné 61/74 - P23410: Notas de leitura (1461): "Crónicas Soviéticas", por Osvaldo Lopes da Silva; Rosa de Porcelana Editora, 2021 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Julho de 2022:

Queridos amigos,
O nome Osvaldo Lopes da Silva está diretamente associado à presença de quadros cabo-verdianos que tiveram um papel da maior importância nos derradeiros anos da luta. Leopoldo Amado já entrevistara longamente este quadro do PAIGC e do PAICV tudo a propósito da sua participação no cerco de Guileje. É um documento memorial de quem acompanhou ininterruptamente durante 28 anos a história da URSS e procurou estudar as sucessivas evoluções até à desintegração da URSS. Julião Soares Sousa saudará no prefácio a importância destes testemunhos, que são raríssimos. Atenda-se ao que ele vai escrever sobre o papel da URSS não só no apoio ao PAIGC como no relacionamento havido com outros movimentos de libertação. Não é surpresa o que ele escreve do mau relacionamento entre o aparelho dirigente soviético e o MPLA.

Um abraço do
Mário



Memórias de um quadro do PAIGC e PAICV na União Soviética

por Mário Beja Santos


"Crónicas Soviéticas", por Osvaldo Lopes da Silva, Rosa de Porcelana Editora, 2021, é uma narrativa de índole memorial centrada fundamentalmente na década de 1960 e que acompanha a vida deste quadro do PAIGC e PAICV no seu relacionamento com a URSS, até ao seu desmembramento. 

Osvaldo Lopes da Silva cursava Engenharia Civil em Portugal quando, em 1961, aderiu ao PAIGC e partiu para o exílio. Completou o curso de Economia em Moscovo, foi comandante de artilharia na luta armada na Guiné, teve papel relevante no cerco a Guileje. Com a independência de Cabo Verde assumiu as pastas ministeriais da Economia e Finanças e posteriormente dos transportes, comércio e turismo. 

É, indiscutivelmente, um ensaio histórico a ter em conta não propriamente por relato que o autor nos dá da evolução da URSS, mas do seu papel com as lutas de libertação nacional, havendo referências bem claras do apoio dado pela URSS ao PAIGC.

O autor chega a Moscovo em finais de 1961, manterá uma relação ininterrupta de 28 anos com o país. Irá recordar as vivências do estalinismo, a ascensão de Khrushchov, a crise dos mísseis, a queda de Khrushchov, a invasão da Checoslováquia, uma narrativa que se prolongará até 1989, data em que ele visita pela última vez a URSS. Considera-se testemunha privilegiada da vida da União Soviética. Fala-nos dos seus estudos em Kiev, a tentativa dos anfitriões em dar explicações para as crises da Polónia e da Hungria, a doutrina da coexistência pacífica, mas o autor vai detetando situações anómalas, um exemplo. 

“O que ainda restava da paranoia securitária da era de Estaline atingia por vezes os limites do ridículo. Os cidadãos soviéticos não dispunham de lista telefónica. Nem mesmo os da maior cidade, Moscovo, com os seus 6 milhões de habitantes. Para ultrapassar a situação, a cidade de Moscovo, que já era imensa nos anos 60, era servida por uma rede de uns 10 quiosques, não mais, cada um depositário de uma lista telefónica.”

E descreve os interrogatórios de quem estava do lado de lá do balcão, tão minuciosos que afastavam os mais afoitos. Relata a vida universitária dos estudantes de África, Ásia e América Latina, as conversas havidas com antigos presos políticos, as prisões mais arbitrárias que imaginar se possa. 

E acompanhamos as estimas e amizades que ele vai fazendo com gente que lhe fala da História da Rússia, ainda do tempo do Romanov e da ascensão do bolchevismo, dir-se-á que não há aqui elementos históricos novos, mas é uma narrativa muito bem-apresentada, 

Osvaldo Lopes da Silva disseca o estalinismo em todo o esplendor dos seus crimes, vamos perceber o ódio enraizado dos polacos contra os russos, e mesmo antes da Segunda Guerra Mundial. Temos o corolário das purgas, antes de mais dos leninistas da primeira hora até ao complô que estava a ser montado sobre médicos judeus, estava igualmente prevista uma purga de físicos mas Estaline e Béria retraíram-se quando o físico-chefe deu a saber que o fabrico da bomba atómica se baseava na teoria da relatividade e da mecânica quântica, isto quando o aparelho comunista se preparava para exorcizar a “teoria idealista” da relatividade.

A narrativa prossegue dando conta da política de Estaline durante a Segunda Guerra Mundial, dos problemas emergentes com a China, as infâmias do acordo germano-soviético de não agressão de 1939, temos depois a era de Khrushchov, inicialmente cheia de esperanças, o abalo provocado pela crise dos mísseis de Cuba, a nova liderança soviética com Brejnev à frente, um período hoje inequivocamente classificado como de estagnação e da burocracia toda poderosa.

Em finais de janeiro de 1967, Amílcar Cabral chegou a Moscovo vindo de Cuba, dá instruções a Osvaldo para partir para Conacri. Está nessa altura em preparação uma formação militar em que participaram cabo-verdianos com novo armamento destinado à guerrilha. Salta o seu relato para a separação de Guiné-Bissau de Cabo Verde e escreve o seguinte:

“Na impossibilidade em que Cabo Verde se encontrava nenhuma intervenção no sentido de alterar uma evolução política que se anunciava destrutiva, fazíamos apelo aos amigos que nos acompanharam na Luta que se aproximassem mais dos guineenses, com ajuda e aconselhamento. Foi-me assegurado que a nossa interpretação dos acontecimentos ocorridos na Guiné-Bissau tinha pleno cabimento nas análises das autoridades soviéticas e aconselhavam-nos a deles tirar uma inequívoca conclusão: o projeto de Unidade Guiné-Cabo Verde estava morto e enterrado; tentar ressuscitá-lo só podia levar à desnecessária confrontação.”

O autor dedica um capítulo ao papel da URSS nas lutas de libertação, desvela que Khrushchov era apoiante da descolonização, daí a criação da Universidade Patrice Lumumba para milhares de jovens do terceiro mundo, e concedeu uma ajuda multiforme aos movimentos de libertação nacional. 

Os soviéticos eram pragmáticos, preferiam concentrar a ajuda na formação de quadros militares qualificados e graduar o fornecimento de material bélico à medida que o movimento de libertação nacional desse provas de controlar o terreno. Não esquece o grave diferendo sino-soviético e dá-nos uma imagem dos primeiros anos da luta dos movimentos de colónias portuguesas.

“O material fornecido pela União Soviética ao PAIGC começou por ser constituído por pistolas Makarov, carabinas SKS, pistolas metralhadoras PPCha, a pachanga dos guerrilheiros, morteiros, canhões sem recuo, tudo material que abarrotava os paióis dos tempos da II Guerra Mundial e que já não tinha qualquer utilidade para as renovadas e modernizadas forças armadas soviéticas.” 

Refere o salto qualitativo de 1969 com os cursos abarcando artilharia, minas e armadilhas, o PAIGC passou a receber os mísseis terra-terra GRAD e cada vez mais AK, em detrimento de PPCha.

E recorda que o ponto mais alto da ajuda militar da URSS ao PAIGC foram os mísseis antiaéreos Strela. Essa ajuda militar dava especial atenção à formação militar, em centros de formação ou em bases navais. 

Também foi dispensado apoio à formação de pessoal de saúde, formaram-se algumas centenas de ajudantes de enfermagem. É igualmente referido que o principal interlocutor de Cabral era Boris Ponomariov, o responsável pela programação anual da ajuda soviética na luta do PAIGC. É aquando de uma dessas visitas que o autor nos relata o que pensava sobre a unidade de Guiné-Cabo Verde e as discussões havidas com Cabral. Osvaldo tinha sérias reservas, como escreve. 

“A simples constatação da existência de fortes resistências ao projeto de unidade no seio de guineenses e de cabo-verdianos, as quais tenderiam a agudizar-se depois de vencido o inimigo comum, o colonialismo português, só poderia reforçar as minhas reservas. A plataforma que eu proporia seria no sentido de salvar o que fosse possível do relacionamento entre guineenses e cabo-verdianos, apresentado abertamente a unidade como um contrato para a luta, entre partes reconhecidamente diferentes, com claro respeito pela personalidade nacional de cada uma delas.” 

E discute com Cabral, que lhe pergunta mesmo se ele pensava que queria impor a unidade pela via autoritária, se não tinha confiança nele. Ao que Osvaldo respondeu: 

“Tenho toda a confiança no camarada Cabral. Não tenho é confiança num projeto que depende, em tudo, da boa fé de um só homem.” 

O autor conclui a sua narrativa com a descrição da cooperação Cabo Verde-União Soviética.

Como observa em prefácio Julião Soares Sousa, há um mérito maior neste trabalho. 

“É que são praticamente inexistentes memórias de quadros de movimentos de libertação que, tendo feito formação na URSS ou algures.  se predispuseram a relatar as suas vivências. Não podia deixar de enfatizar a importância deste contributo de Osvaldo Lopes da Silva para a História Contemporânea.”
Osvaldo Lopes da Silva, fotografia da Infopress de Cabo Verde, com a devida vénia
Fotografia tirada na base de formação militar de Perevalnei (Crimeia), em abril de 1969. Vê-se, da esquerda para a direita: Osvaldo Lopes da Silva, Samora Machel, oficial soviético, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e não identificado.
Foto retirada do livro, com a devida vénia

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Nota do editor

Último poste da série de 1 DE JULHO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23401: Notas de leitura (1460): “O percurso geográfico e missionário de Baltasar Barreira em Cabo Verde, Guiné, Serra Leoa”, por Graça Maria Correia de Castro; Sociedade Histórica da Independência de Portugal, 2001 (Mário Beja Santos)