Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta guerra colonial. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta guerra colonial. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28266: Notas de leitura (1950): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Nunca pensei que esta dimensão romanesca dos descendentes dos antigos combatentes irem visitar os locais onde os seus pais combateram tivesse tão largo lastro, existem obras comprovativas de tais viagens, como veremos mais adiante. Esta narrativa de Paulo Faria anda quase sempre no fio da lâmina, se o móbil principal da viagem de Carlos a Moçambique é a busca de uma criança nativa que o pai a mimou, acompanhado por outro, o furriel Gamito, acontecerão coisas naquele país ainda cheio de escombros, mas há um ritmo alucinante em que no presente da viagem a memória se povoa de casamentos disfuncionais, de apelos patéticos em que a mulher amada não se vai embora, enquanto se procura Artur em todos os desencontros e encontros, e na torrente dos destroços o protagonista tece uma belíssima epifania ao neto que vai nascer. Romance original, uma singularidade que emocionará quem combateu e procura o melhor destino para esta literatura de regressos, que ainda nos dá agradáveis surpresas como esta.

Um abraço do
Mário



Em Moçambique, à procura de lembranças do pai, alferes miliciano médico:
Viagem de expiação familiar, escrita de sublimação para encontros e desencontros - 2

Mário Beja Santos

Esta "Gente Acenando para Alguém que Foge", de Paulo Faria, Minotauro, 2020, é para efeitos práticos continuação de outro título do mesmo autor, "Estranha Guerra de Uso Comum", publicado pela Ítaca, 2016. De novo assalta à memória uma vida familiar lacerada, o autor diz-nos agora no prólogo que “A infância extingue-se no dia em que percebemos que os nossos pais nos sonegaram a parcela mais preciosa do seu afeto. Sem o sabermos, acumulamos visões que nos irão perseguir para sempre.” Retoma-se a duríssima memória daqueles pais divorciados que se reencontravam lá em casa da mãe pela sexta-feira à tarde, antes dos dois filhos seguirem para casa dele e da madrasta, tudo dissimulado, como se aquelas crianças não acabassem por perceber o que se passava no quarto, uma aprendizagem da hipocrisia e do cinismo. Só que a partir daqui a prosa entra numa cavalgada, o palco enche-se de inúmera gente, ficamos a saber que Carlos Silveira já está em Nampula, encaminha-se para Cuama, Niassa, vai à procura de Artur, uma criança muito mimada pelo pai, alferes miliciano médico e pelo furriel Gamito, história já contada no livro anterior.

Estamos em Cuamba, Carlos Silveira é apresentado a muita gente, e subitamente vê-se envolvido como colaborador num projeto-piloto para países muito pobres e muito grandes, onde não há dinheiro para montar uma rede elétrica decente. “O projeto tinha todo o ar de coisa para inglês ver, de gota de água no deserto, os técnicos da EDP eram arraia-miúda, putos de vinte e tal ou trinta anos, mandados até este fim do mundo para se esfalfarem a trabalhar, para passarem por vendedores de ilusões e por fracassar, para apanharem uma doença com um nome impronunciável, para fazerem currículo. O Chinelinhas era meio careca, tinha uma barbicha que cofiava com ademanes de filósofo, vestia uns calções com muitos bolsos de vários tamanhos e uma t-shirt branca, calçava umas chinelinhas pretas de enfiar no dedo e pisava o chão como se o apagasse carinhosamente.” E, mais adiante: “O Caixa-de-Óculos, o outro engenheiro, era um rapaz castiço, sempre a usar onomatopeias e interjeições para dar vida às histórias que contava.” Há mais gente, como o Mário, economista, Anita, uma engenheira do ambiente, e outros mais.

Como se anotou no texto anterior, um dos aspetos mais talentosos deste romance é a forma como se embrecham memórias no tempo presente, em que está a decorrer a viagem à procura de Artur, o que obriga o leitor a ir fazendo a sinalização subliminar dos tempos e lugares, a filha mais velha, de nome Camila, o seu namorado, de nome Armando, são memória bastante viva que se insere nas peripécias do inquérito, bem tormentoso e acidentado, por sinal, estamos a ler numa linha oscilante entre o cinema São Jorge e aquele aparatoso inquérito que, tanto quanto parece, está destinado a não servir para coisa nenhuma.

A viagem de Carlos parece ganhar luminosidade com tudo o que se passa naquele inquérito, o afã de preencher questionários, as promessas de trazer eletricidade, a surpresa de encontrar numa povoação o escombro de um tanque de guerra, as conversas soltas entre os membros da equipa de projeto, os equívocos na comunicação, as confianças em grau efémero, e a memória daquele viajante que foi a um ponto de Moçambique à procura de um homem que foi a criança que o pai acarinhara, que tem momentos inesperados como este, no meio da girândola dos inquéritos e questionários frente a gente embasbacada:
“Escrevi o meu romance sobre a guerra para desapossar o meu pai do exclusivo da narrativa bélica, para o destronar, para escrever o livro que ele próprio não foi capaz de escrever. Para reescrever as histórias da guerra dele, para as extirpar da mentira posterior. Para o enobrecer. Fi-lo à custa dos outros veteranos, que viram as suas narrativas reformuladas, subordinadas à infelicidade do meu pai, por mim usurpada. Escrevi o meu romance para, com o engodo da Guerra Colonial, contar aos veteranos uma outra guerra, a minha.”

E a narrativa agora muda de registo, é a memória da mulher encalacrada com dívidas, aquela Amália a quem o narrador pede repetidamente que não se vá embora, de novo saltamos para outro lugar e outro tempo, os almoços anuais do batalhão do pai, outras conversas se intercalam, há um telefonema ao furriel Gamito, o outro militar que também desvelava pela criança Artur, para lhe comunicar que nesse almoço anual, realizado em Aveiro, ele encontrara o quarto alferes da companhia, de nome Cristóvão Rosado, novas advertências são transmitidas ao autor, são discordâncias entre o que está posto no romance e o que efetivamente se passou na guerra havida naquele ponto de Moçambique.

Entra em cena o ex-alferes Cristóvão Rosado, tem direito a farto soliloquio, acaba estafado e garantindo prova de vida: “Chegou altura de comunicar, se é que não é tarde demais, se é que ainda vou a tempo. Vou tentar escrever o meu relato. Nunca me envergonhei de ter sido combatente. Foi justa ou injusta, a guerra do Ultramar? Pouco importa. O que conta é se foi justa ou injusta a forma como a fizemos, isso é que conta.”

Caminhamos para o local onde Carlos Silveira espera encontrar aquele que foi o Artur menino, estamos em Chicôco, que é Velho ou Novo, no caso estamos em Chicôco Novo, quando Carlos sai do jipe, foi rodeado por garotos descalços, “uns vinte ou trinta, andrajosos, de olhos enormes, cheios de uma estupefação genuína, só possível nos filhos da miséria, garotos que segredavam uns aos outros frases em macua e se riam.” O guia, Pedro indica onde fora a vivenda do administrador e o respetivo posto, fala-se na palmatória para castigar as mãos do régulo, castigo até o sangue rebentar. Carlos conversa com os velhos da aldeia, reconhecem a fotografia do médico António Silveira, encaminham-se para o que fora o quartel, é nessa altura que Carlos mostra a fotografia de Artur com o furriel Gamito, há muitas evasivas, pergunta-se pela mãe, há novos fogachos da memória, consulta-se outro velho, Baltazar Mihaca, é o final da viagem, foi há muito tempo, a fotografia não fala para o presente, parece que Artur fica condenado num túnel às escuras.

Mas o final do romance é vibrante, Camila está grávida, anuncia o pai que se nascer rapaz será Artur, tudo irá culminar em epifania e hossana:
“És a grande ilusão, és o primeiro passo para me apaziguar. És tão pequeno, não tenho o direito de te sobrecarregar com esta responsabilidade, de te atirar para cima dos ombros um peso assim. És o meu neto. És meu. Respira, ocupa espaço, não deixes nenhuma pedra por virar. Trava os teus combates, os teus, não os dos outros, faz sempre diferente do que vires fazer.”

No posfácio, Djaimilia Pereira de Almeida empunha uma observação que trás luminescência a toda esta trama: “Nascemos para um mundo previamente dinamitado, contrafeito, em luto por mortes a que somos alheios, ressentido, amargurado com mentiras que não nos lembramos de ter contado a ninguém ou de nos terem sido segredadas, tal como os nossos filhos nascem para as nossas guerras e esquinas, sem nem eles nem nós nos apercebermos. Nascemos para as grandes mentiras das gerações passadas e aguentamos a maré com pequenas mentiras, o que não significa que amemos menos aqueles que vivem connosco.”

Vale a pena insistir: um belíssimo romance.


Paulo Faria
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 10 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)

Último posta da série de 14 de agosto de 2026 >
Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Pelas minhas contas, julgava que o cardápio literário da guerra colonial tinha esgotado todas as formas de olhar: romance, conto, novela, poesia erudita e poesia popular, abordagem memorial, historiografia, ensaio e ou narrativas sobre figurantes como as mulheres que acompanharam os oficiais, o pessoal de saúde, incluindo as enfermeiras paraquedistas, e pouco mais. É nisto que irrompem em cena os filhos a recordar a correspondência dos pais e os filhos que vão visitar os locais onde os pais combateram. É nesta última dimensão que podemos apreciar a obra de Paulo Faria, detentor de uma belíssima escrita, leva-nos à guerra acompanhada de lembranças por vezes muitos dolorosas da infância, não se escusa a confissões íntimas, vamos assistir ao descalabro de Moçambique numa prosa talentosamente organizada com toda a engrenagem dos afetos da vida do narrador. Uma agradável surpresa, isto para quem julgava que este subgénero literário ia-se confinar à literatura memorial dos antigos combatentes, os filhos e os netos deles entrariam em cena muito mais tarde.

Um abraço do
Mário



Em Moçambique, à procura de lembranças do pai, alferes miliciano médico:
Viagem de expiação familiar, escrita de sublimação para encontros e desencontros - 1


Mário Beja Santos

Esta "Gente Acenando para Alguém que Foge", de Paulo Faria, Minotauro, 2020, é para efeitos práticos continuação de outro título do mesmo autor, "Estranha Guerra de Uso Comum", publicado pela Ítaca, 2016. De novo assalta à memória uma vida familiar lacerada, o autor diz-nos agora no prólogo que “A infância extingue-se no dia em que percebemos que os nossos pais nos sonegaram a parcela mais preciosa do seu afeto. Sem o sabermos, acumulamos visões que nos irão perseguir para sempre.” Retoma-se a duríssima memória daqueles pais divorciados que se reencontravam lá em casa da mãe pela sexta-feira à tarde, antes dos dois filhos seguirem para casa dele e da madrasta, tudo dissimulado, como se aquelas crianças não acabassem por perceber o que se passava no quarto, uma aprendizagem da hipocrisia e do cinismo. Só que a partir daqui a prosa entra numa cavalgada, o palco enche-se de inúmera gente, ficamos a saber que Carlos Silveira já está em Nampula, encaminha-se para Cuama, Niassa, vai à procura de Artur, uma criança muito mimada pelo pai, alferes miliciano médico e pelo furriel Gamito, história já contada no livro anterior.

A viagem àquele ponto de África, é uma dor de alma, um retrato detalhado do descalabro e miséria em que se encontra o país, não faltam as lembranças da dementada guerra civil que ali se viveu. É uma narrativa de avalanche, aqui e acolá despontam sketches de tragicomédia, feridas abertas, o casamento de Carlos com Fernanda e o divórcio, perguntas sobre o garoto Artur, filho de uma prostituta, que os dois militares tinham adotado no Chicôco, que coisa foi essa de se ter metido ao caminho para percorrer os quartéis onde viveu o pai militar só porque houve um profundo afeto por uma criança de que nem o médico nem o furriel eram pais – interpelam quem com Carlos Silveira vai convivendo.

A memória deste Carlos, que é sempre o narrador, está num completo turbilhão, anda à rédea solta, ele lança odes amorosas a quem ainda não nos foi apresentada, Amélia de nome; a viagem começa em Maputo, cidade arruinada e cheia de lixo, há uma pungente visita ao Museu da História Natural de Maputo e não se quer esconder o sofrimento que avassala o visitante, tudo a coberto de uma sensibilidade ocidental, porventura:
“O museu é bonitinho por fora, em estilo bolo de noiva pseudo-manuelino. Por dentro arrasta-se, malferido e bolorento, porque sim, porque não há dinheiro nem energia para virar a página, porque a força do que existe pesa sobre as coisas e faz estiolar o que o poderia existir, porque a violência não dá tréguas e não deixa revisitar o passado com gestos serenos. Os animais estão cheios de pó, corroídos de gangrena, há um leopardo cinzento, já sem manchas, com a cauda partida, a palha a ver-se. O búfalo e os leões que o meu pai fotografou estão ainda no seu lugar, na sala principal, debaixo de uma enorme claraboia, na mesma posição de há cinquenta anos, mas, vistos de perto, à luz crua do sol que dardeja dos vidros sujos, não tem encanto nenhum, parecem pessoas vestidas com peles de animais que lhes servem mal, nuns casos demasiados justas, noutros a dançarem-lhe no corpo, os olhos de vidros esbugalhados, as pálpebras secas e peladas.”

E o autor dá-nos a justificação para este propósito de ter vindo a Moçambique, tudo problema que vem da infância, aquele pai deixou documentação deveras intrigante da sua passagem pela guerra colonial, assim se deliberou, sabe-se lá por expiação ou por reconciliação por tantíssimos desencontros da vida familiar, viajar por esses locais onde o pai revelou afetos, vacinou gente de todas as idades, cuidou dos estropiados e guardou silêncio pela vida fora.


Entra agora em cena Camila, filha do primeiro casamento, de comportamento extravagante, fica-se igualmente a saber que Carlos vai buscar a filha ao Algarve aos fins de semana, de acordo com os ditames da tutela parental, e aproveita para fazer sexo com a primeira mulher. Camila, entretanto, cresceu, experimentou saídas profissionais, fez fotografia, regressa-se ao casamento com Fernanda e ficamos a saber que no dia seguinte ao casamento o sogro suicidou-se, voltamos a saber dos itinerários de Camila. Carlos Silveira já chegou a Nampula, é daqui que partirá à procura de Artur.

Carlos pergunta ao motorista se havia táxis para Cuamba, sim, era possível fazer o frete por 12 mil meticais. Mais adiante, Carlos acorda noutro frete, e é exatamente neste ponto que Paulo Faria engrena num espantoso puzzle de conversas avulsas onde jogam vários passados, várias histórias familiares, entrecruzamentos com a visita a Nampula, onde não faltam estátuas mutiladas dos colonizadores portugueses, irrompe agora uma nova situação, a insolvência de uma das suas mulheres, que irá definir um período de rigorosa austeridade, Carlos a comandar a operação. Ficamos a saber como o autor escrevera o seu romance "Estranha Guerra de Uso Comum", hospedado num convento e num retiro de silêncio.

E ficamos a saber em detalhe que isto de faltar dinheiro lá em casa começara com o divórcio dos pais, agora ganhara sofisticação, a dívida era um garrote. As recordações são agora canalizadas para a infância e para a vida de Camila com o Antero, e depois temos uma litania dirigida a uma Amélia que parece estar disposta a partir:
“Estás à mercê do pânico, do salve-se quem puder, da debandada geral. Há em ti a firmeza inabalável de quem não teme perder as coisas, porque sabe que em todas elas há uma verdade que só a sua perda nos revela.”


Estamos agora em Cuamba, antiga Nova Freixo, perto do lugar onde o alferes miliciano médico, o pai de Carlos, fez a guerra. Temos novos personagens, caso do Luís Gouveia, que é de Coimbra e vive em Cuamba há dez anos a chefiar a fábrica de algodão. “É o branco certo para trabalhar em Moçambique. Não carrega o peso do passado, finge que o passado não existe. Nunca diz ‘os pretos’, diz ‘esta gente’, diz ‘estes gajos’. As pessoas desta terra produzem algodão, ele dirige uma fábrica de onde tem saído todos os anos fardos de algodão aos milhares. Não me parece que tenha alma de carrasco, mas, se tiver de escolher entre ser vítima e carrasco, será sempre carrasco. E em Moçambique é preciso escolher todos os dias, a todas as horas do dia.”

Carlos anda por Cuamba a tirar fotografias, procura que o leitor entenda o seu comportamento, a sua mentalidade:
“Transferi para os outros, para os seres e para as coisas com quem me cruzava, a responsabilidade de me atraírem para junto de si, disponível para me deixar cativar. Ensaiei ousadias, pus de parte alguns pruridos. Semeei sorrisos a lanço, plantei olhares simpáticos sem cuidar de saber se iriam medrar naquele solo. Tratei esta terra com um tu-cá-tu-lá excessivo de velhos conhecidos, como se a reencontrasse depois de muitos anos sem nos vermos (…) Percorri a quadricula colonial destas ruas largas, sentei-me num alpendre que parecia ter sido posto ali para meu deleite. Era uma casa branca com muitas portas, uma fiada de lojas, e as portas davam todas para esse alpendre corrido que se apoiava em colunas de alvenaria e que dobravam a esquina numa curva suave. E o piso do alpendre era de cimento pintado de ocre, um socalco elevado em relação à poeira da rua, e eu sentei-me ali, encostado a uma coluna, e senti através do tecido das calças a frescura do cimento muito macio nas nádegas e nas coxas, e a altura daquele degrau pareceu-me feita à medida das minhas pernas. E um velho saiu de uma loja e meteu conversa comigo e disse-me que se chamava Faustino, e disse-me que eu estava diante da casa de alvenaria mais antiga da povoação, construída por um branco chamado Francisco Maria Soeiro em 1958, quando aquela terra ainda se chamava Nova Freixo, para servir de loja de comércio geral, e que nesse tempo se vendia ali tudo.”


Posto isto, Carlos confessa para si próprio que não dissera ao seu interlocutor que Cuamba era uma terra bonita. Mas ainda estamos bastante longe de fazer a peregrinação à procura de Artur, a pretensa figura central nesta viagem, mas também onde há um móbil da expiação e em que todas as memórias da infância se canalizam para a autodescoberta que dá a provar a felicidade que há nos outros.

Paulo Faria

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 7 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28247: Notas de leitura (1948): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026 (4) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28180: Notas de leitura (1938): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Catarina Gomes escreveu um livro de referência. Já nos chamara a atenção com outra obra Pai, Tiveste Medo? - sobre a forma como a experiência da Guerra Colonial chegou à geração de portugueses filhos de ex-combatentes. A primeira edição desta obra está associada a uma série documental Filhos de Tuga (RTP 1). Tudo começou em 2013 quando, em termos jornalísticos, ela partiu para a Guiné-Bissau para contar esta história no jornal Público, os filhos deixados para trás. Foi procurada por muitíssima gente. O testemunho de Fernando Hedgar da Silva, a associação que ele criou destes filhos de tuga estimularam a continuar a sua investigação, percorreu os três países onde houvera guerra, e aqui temos a história do movimento da Guiné, obra deste Fernando, a espantosa história de Óscar de Albuquerque e a sua tia Filomena, a mana Emília, a incansável Rosa Monteiro que tinha imensas saudades do pai sem nunca o ter conhecido. Sim, obra de referência, vale a pena confiar em futuras investigações sobre estas crianças que ficaram em África, filhas de pais desconhecidos.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 4

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Não sei se o leitor se recorda que suspendemos esta viagem contando a história de Celestina e o seu irmão gémeo Celestino, filhos de um major reformado que andou por Bambadinca, que até contou à mulher que aqui teve um “deslize”, os gémeos entraram em contacto com a mana branca, de nome Emília, esta vai dando conta das suas diligências em auxiliar os manos guineenses à mãe, Sara Martins Prado. Este nosso major fez várias comissões acompanhado pela mulher e as filhas, mas na comissão na Guiné-Bissau esteve sozinho, e a autora aproveita a circunstância para falar destes militares que tinham encontros com as lavadeiras ou combinavam com outras mulheres idas à tabanca.

Dentro do quartel era tudo difícil para as praças, dormiam em casernas lotadas de homens, os furriéis acomodavam-se em quartos de quatro homens, só de capitão para cima é que tinham quarto privativo. O pai de Emília fora um desses privilegiados. O nosso major reformado, confrontado por Emília, encolheu os ombros. “O pai aceitou falar com o dito Celestino ao telefone, mas percebeu pouco ou nada do que lhe dizia o homem guineense que afirmava ser seu filho. O pai está muito surdo, mesmo com aparelho, passou o telefone à Emília. Mas o filho distante agarrou-se àquele número de telemóvel que agora o aproximava do pai, e passou a ligar com uma insistência que, em vez de os aproximar, os afastou.”

Será Emília quem se encarregará de ir ajudando os irmãos, enviando dinheiro ou roupas. A conclusão é de que aquele pai via a relação da filha com os gémeos de lá, mas não queria falar de afetos ou reconciliação, no fundo uma história com um final como muitas outras.

Catarina Gomes dedica um capítulo aos chamados pais procuráveis, isto é, tomando como verdadeiras as histórias dos filhos, ela procurava os pais putativos para dizer que aqueles filhos existiam, e tentaria apurar se estes pais desejavam saber deles. A primeira dificuldade a superar era localizar os pais com as informações dos filhos, as pesquisas nem sempre são frutíferas, para a investigadora os resultados são mais amargos que agridoces. É neste contexto que ela pega num caso que obteve um grande tantã mediático, a viagem de António Bento que viveu uma relação amorosa com Esperança em Luvuei, leste de Angola, quarenta anos depois viajou para se encontrar com o filho, é um relato emocionante até chegar ao encontro com o seu filho Jorge Paulo Bento, conhecido entre familiares e amigos como o Pula ou o Branco; em Luena, o filho é membro da polícia de intervenção rápida, António Bento fala com os superiores dos filhos, conhece a nora e os netos e depois chega o filho, ele fora mandado de avioneta militar de Luanda para vir conhecer aquele pai, ressuma uma ternura neste encontro, nos abraços e nas lágrimas.

“António veio dizer-lhe a sua data de nascimento, 15 de janeiro de 1975, veio dizer-lhe que nasceu na enfermaria do quartel português e não em casa. Jorge gostou muito de ouvir do pai que o pai gostou da mãe, no livro que António escreveu propositadamente para o filho vem escrito que a mãe esperança é a mulher que eu amei. António diz-lhe que queria muito dar um abraço a Esperança, ‘agradecer-lhe por te ter criado sozinha’. O pai veio dizer-lhe o nome dos seus avós, Maria José Carita Reisinho e Júlio da Graça Bento, que estão na certidão de nascimento que vai usar para registar o nome do seu pai. Veio mostrar-lhe fotos de uma mãe jovem que ele não conhecia, numa delas apontou-lhe para a barriga, dizendo: ‘tu estavas aqui’.”

Se o leitor estiver interessado em conhecer mais pormenores da história, consulte o site https://acervo.publico.pt/sociedade/noticia/quem-e-o-filho-que-antonio-deixou-na-guerra-1699039.

Catarina Gomes fala-nos de Rosa que tinha saudades do pai que não conhecera, o que dele sabia resumia-se ao seu apelido, Monteiro, que ela usa; o pai fora militar em Metangula, no norte de Moçambique, de 1967 a 1968 (Rosa nasceu a 22 de maio de 1968). Metangula era porto militar colonial, dali partiam as lanchas da marinha portuguesa. Há fotografias da mãe tiradas pelo pai, Fátima Ndala com t-shirt de algodão justa ao corpo, mini saia de pregas em tecido de padrão escocês, sapatos claros estilo sabrinas. Rosa vai mostrando tudo a Catarina, queria mesmo apresentar-lhe dezenas de filhos de marinheiros portugueses da base naval de Metangula, é uma das histórias mais emocionantes pela persistência em conhecer o pai, socorrendo-se das redes sociais, até se chegar ao momento culminante de vir a saber que o pai falecera com 67 anos, ela não desfalece, insiste em contactar o irmão branco, este não quer comunicação, a irmã, a mesma coisa, Rosa guarda um álbum completíssimo com a sua família portuguesa, espero que o leitor não perca este capítulo intitulado Saudades do Pai Monteiro.

A investigadora vai colecionando histórias, ouvindo resignações, tomando nota de palavras associadas àquele tipo de relacionamento espúrio e que ganham valor complexo, tais como namoro, conversa, casamento, marido, esposa, e algo mais, matéria que merece a maior reflexão:
“Mal termino de escrever sobre estas mães, vêm-me à mente estes pais acidentais, homens que se deslocavam em bando à procura de mulher, uma qualquer, saídos de um Portugal das décadas de 1960 e 1970, em que as mulheres se queriam virgens até ao casamento, em que as famílias protegiam a castidade das filhas, em que para muitas famílias as filhas terem relações sexuais antes da noite de núpcias significava ‘desgraçarem-se’. Elas deviam vestir-se decentemente, prescreviam-se saias a ¾, das pernas apenas podiam revelar-se os tornozelos.
Longe deste Portugal, tais jovens, a maioria vindos de aldeias, encontravam-se, pela primeira vez, fora do país, num estrangeiro em que havia mulheres que não usavam sutiãs, nem saiotes e combinações, apresentando-se ao mundo estranhamente despidas. Eles podiam até assistir ao mais íntimo dos rituais: o banho.
Aportaram num mundo com uma moral às avessas.”


De uma dignidade sem mágoa do início ao fim, esta investigação aborda um dos maiores tabus entre os militares portugueses, as crianças que ficaram para trás quando terminou o conflito e que andam há anos à procura de uma identidade perdida, e onde não deixa de ser chocante a indiferença do Estado português para reconhecer a dimensão desta realidade.
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 12 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Se já estava afeiçoado ao que Catarina Gomes nos oferecera na 1.ª edição deste livro, em 2018, consolidei que esta edição de 2026 comprova como esta investigadora intensifica o vigor e a luminosidade que põe nas suas reportagens, a ponto de a dor sentida por estes filhos de tuga mexerem connosco. É uma nova dimensão dos estudos da história da guerra colonial que Catarina Gomes abriu as portas. Estamos perante factos consumados, não se podem fazer contas a quantos filhos de tuga, uns se resignaram ao abandono, outros buscam a identidade, e a única coisa certa que conhecemos é que tanto o Estado português como Angola, Guiné e Moçambique não se prepararam para reconhecer a dimensão desta realidade que a autora tão meritoriamente veio desvelar, escancarando os tabus, não deixando de nos alertar para as suscetibilidades que envolvem antigos combatentes que não têm coragem de dizer às suas famílias que há "restos de branco", carne da sua carne, a pedir identidade no clamor lá longe.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 3

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Depois da história de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, uma narrativa sublime, onde se cruzam a dedicação, onde subjaz sempre uma forma de ternura e há um pai biológico que se põe a milhas da vida desse filho, tudo entremeado por uma burocracia infernal, temos agora os manos Celestina e Celestino, irmãos gémeos, há também um jovem branco que é o pai destes dois adultos mestiços, por acaso oficial do quadro permanente, saberemos pela narrativa que há um major reformado que tem uma filha chamada Emília, que não ficará indiferente a estes dois filhos de tuga, seus irmãos, residentes em Bambadinca.

A história começa com uma fotografia do pai dos gémeos, que está emoldurada por decisão de Celestino, este escreveu muitas vezes ao pai, não obteve resposta. Os irmãos guineenses entraram em contacto com a irmã branca através de uma carta endereçada à Excelentíssima Mana Emília Martins Prado, pediram-lhe algum dinheiro para os ajudar a viver um pouco melhor e também a fotografia do pai dos três. Emília apresentou-se, professora de Geografia, com três filhas adolescentes, vivendo numa cidade no norte de Portugal. Em nova carta Emília foi muito clara: “Sou só eu que desejo contactar convosco. Como compreendes, não posso enviar uma fotografia de uma pessoa que se recusa a estabelecer contacto convosco.” Um início de história pouco promissor.

Contudo Emília não está propriamente sozinha nesta história, tem a mais improvável das aliadas, a sua mãe, Sara Martins Prado, 82 anos, também professora – a suposta mulher traída pelo militar que já era casado quando fez os filhos gémeos na guerra. Sara sempre desconfiou de qualquer coisa. Aliás, muito interpelado por Sara, o oficial contou a verdade, deixara crianças na Guiné. Em comissões anteriores, Sara e Emília, e depois uma outra irmã, acompanharam o militar em Moçambique e Angola. Ele esteve sozinho depois na Guiné, numa geografia inventada por um qualquer estratega chamada Setor L1, o pai de Emília esteve em Bambadinca, as crianças nasceram de uma relação com a lavadeira.

A história agora ganha intensidade, Celestino corresponde-se com a tia Emília, cada um dos gémeos tem um descendente. A situação de Celestino preocupa Emília. “Celestino é carpinteiro sem carpintaria. O que consegue construir fá-lo usar ferramentas emprestadas por um vizinho, a bancada improvisada debaixo de uma árvore carregada de mangas. Portas e janelas são o que mais sai, mas ele tem competências também para montar tetos falsos. E não só. Um baú de madeira em casa de uma tia está protegido por um pano que Celestino afasta, como uma cortina que protege um quadro numa exposição, para que se veja como o alindou com trevos de quatro folhas gravados na tábua; noutra das arcas da sua lavra cunhou palmeiras, numa terceira um pelicano.”

Vamos conhecendo a família, a discreta Celestina, o seu filho Nadu, o filho de Celestino chama-se Geovane, os gémeos mudam de nome, fazem desaparecer os apelidos da mãe, Gomes Correia, para os substituir por Machado Prado, o nome do pai. Emília vai sabendo de tudo, como funcionam as creches e as escolas, uma parente afastada dos gémeos que vive em Portugal, de nome Carla, aconselha Emília quanto aos critérios da distribuição de dinheiro.

Emília fica atónita quando sabe que Celestina e Nadu estão em Portugal, o rapaz tem um problema nos olhos, toca de ensinar português a Nadu, o português de Celestina também vai melhorando. Nadu vai para uma instituição chamada Casa do Gaiato, em Miranda do Corvo, estuda com aproveitamento, a tia estimula-o. A relação entre irmãos é permanente, Celestino envia um SMS à mana, a mulher dera à luz uma menina, o seu nome é Emília Carla. Emília manda sistematicamente roupa infantil para a afilhada e não só.

E o pai dos gémeos, continua indiferente? A história termina, sabendo nós que tudo irá continuar com as preocupações da mana Emília e os sucessivos percalços na vida dos gémeos, assim:
“Emília e o pai vivem perto e são próximos, ainda há pouco ele saiu de sua casa. Há, dobradas pelos cantos, roupinhas de menina pequena. Não tem qualquer preocupação em escondê-las, pelo contrário, inconscientemente talvez as queira expor, como quando a mãe quis deixar o artigo do jornal no caminho do olhar do pai.
É impossível que o pai não repare nas saiinhas espalhadas pela casa, como uma com galo e galinha bordados em tecido de xadrez colorido. É impossível que não se tenha apercebido da acumulação de meiazinhas, sapatinhos, e que isso não lhe cause estranheza. Não há crianças pequenas na família. ‘Ele vê.’ Emília soa a criança travessa quando diz, algo sonsamente, que cumpre o que o pai lhe pediu. ‘Não falo disso’.”


A saga de Catarina Gomes vai prosseguir, temos seguidamente pais procuráveis, provavelmente não resistiremos às saudades do pai Monteiro, que a televisão se encarregou também de difundir, e a autora irá despedir-se com uma listagem de filhos que procuram pais portugueses, do género:
“António Urbino Gonçalves Brito. O pai seria 2.º grumete, originário de Câmara de Lobos, na Madeira, nascido a 11 de junho de 1951. Consta que até tentou raptar o filho pequeno para o levar para Portugal, mas que os familiares da mãe o impediram. Vive em Bissau.”
E também:
“Erasmo Fonseca. Engenheiro mecânico agrícola, nasceu em 1969. Os seus estudos levaram-no até Cuba. A sua mãe, Maria Geralda Soares Cassamá, era professora primária em Quinhamel, perto de Bissau. O furriel, de quem usa o apelido, esteve colocado no quartel de Binar, onde conheceu a mãe, numa festa em casa de familiares.”


(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28152: Notas de leitura (1933): "Retratos de Guerra", desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa, uma exposição a não perder na Livraria Municipal Verney, Oeiras, patente ao público até 14 de Novembro (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É, indiscutivelmente, uma reportagem em dó maior, a Guiné tornou-se um palco de eleição, foi aqui que começou a investigação de Catarina Gomes para o jornal Público, houve depois livro que deu origem ao documentário Filhos de Tuga, emitido pela RTP. Tudo começou com a história de Fernando, vergastado pelo padrasto por ter nascido com a pele mais clara, Fernando não se rendeu e criou um movimento associativo, sendo motorista foi descobrindo filhos de tuga por todo o país, o nome Fernando Hedgar da Silva é o nome que muitos soletram na Guiné-Bissau, uma luz acesa para filhos de guerra, crianças que ficaram para trás em Angola, Moçambique e na Guiné-Bissau, muita gente a buscar uma identidade perdida. São relatos por vezes pungentes, em que a busca da identidade negada se acompanha de uma tocante busca de dignidade. O mais estranho de tudo, como a autora observa, é que nem o Estado nem nenhum de nós se interessa pela dimensão desta realidade.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 2

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Quero recordar ao leitor que estamos perante um livro de procuras, tanto há encontros como desencontros, luminosidade e negrume, não falta a mediação de Catarina Gomes, a sua tentativa que pôs filhos e pais em comunicação, os falhanços são mais que muitos, estes velhos antigos combatentes devem entrar em pânico só com a ideia de informar a família constituída que chegou a hora de receber outros descendentes até então completamente desconhecidos. O que a autora nos vai contar sobre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena deixa o leitor estarrecido, a ânsia de Óscar ser recebido pelo pai e a tia Filomena que acaba por fazer as vezes desse pai que não quer sair das suas tamanquinhas.

O relato começa no Instituto de Medicina Legal, é ali que se vão fazer os testes de paternidade, a tia não tem dúvidas, para ela o irmão e o sobrinho são iguais no andar, têm as pernas arqueadas. Pai e filho fazem o teste sem trocar uma palavra. “A verdade vai ser extraída do interior de dois líquidos. Em menos de 1mm de sangue e saliva, retirado aos dois homens, está contida uma resposta.” Antes de ser Óscar, chamava-se Abdulai Seidi, assim que a família descobriu que a mãe estava grávida de um militar português casou-a de urgência. Os pais separaram-se, a mãe seguiu para outro marido, Abdulai ficou a cargo do padrasto, foi educado com mais quatro irmãos por um padrasto que o maltratava. Um dia uma vizinha não resistiu contar que ele era filho de um tropa português.

Ele começou a olhar para o antigo quartel português de Ingoré como o quartel do pai. Um guineense ex-camarada de armas do pai que agora era jornalista da Rádio Nacional, confirmou a versão da vizinha, e veio a revelação do nome do pai, Manuel Albuquerque, começaram as pesquisas sobre o pai tuga. Mudou de nome. Na escola tinha ouvido falar em Afonso Albuquerque, um vice-rei da Índia destemido, Abdulai converteu-se em Óscar, processo moroso. No novo registo de nascimento preencheu o campo do pai com Manuel Albuquerque. Inevitavelmente, surgiram as trapalhadas nas datas de nascimento, no novo documento pôs-se a data de nascimento em 1978, não fazia sentido, o pai tinha andado pelo Ingoré em 1972.

Óscar começou a bater às portas: a embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, depois o Arquivo Geral do Exército, por portas e travessas, conseguiu a morada da casa do pai, seguiu carta, e depois outra, nada de resposta. Telefonou ao pai: “Lembra de Maimuna Djau? Eu sou filho de Maimuna, o filho que você deixou na barriga. Está a falar com o seu filho, Óscar.” E veio a resposta: “Não leve a mal, não sei de nada, amigo.” Seguiram-se outros telefonemas, inúteis, e assim se passaram dez anos sem Óscar voltar a escrever ou a telefonar. A foto de Maimuna chegou ao conhecimento de Filomena Viegas, a história da existência de uma criança vinha do passado, quando o militar chegou deu notícia à mãe que terá respondido: “manda vir o menino que eu crio-te”.

Filomena herdou os álbuns de família quando a mãe morreu. O irmão de Filomena casou e assim se esqueceu o feto na barriga da adolescente negra. Foi no jornal Público que ela viu a reportagem sobre os restos de Tuga e havia lá a fotografia em meio-corpo de alguém que se chamava Óscar Albuquerque. A partir daí Filomena não parou, conversa com Catarina Gomes, depois escreveu ao rapaz da reportagem, informa o alegado sobrinho de que a data do nascimento não pode ser 1972 pois a comissão do irmão fora em 1967-1968. Impunha-se fazer um teste de paternidade, Filomena traçou os seus planos, pagaria o bilhete de avião e os testes genéticos, o rapaz ficaria em sua casa, pessoas da família acham que ela se está a exceder. No Facebook, Filomena e Óscar conversam intensamente, Óscar tem 44 anos, os problemas de família não preocupam Filomena, a sua mãe era filha de um carpinteiro de Salvaterra de Magos e uma são-tomense; também o seu pai era filho de um beirão de Vouzela e de uma são-tomense.

Filomena anda empolgada: “Sou avó, sou mãe, sou educadora de infância reformada. Se eu ajudo pessoas de fora porque é que não hei de ajudar o meu sobrinho, o meu rapaz". Filomena envia fotos da família a Óscar. Filomena gosta muito do irmão, teme que a relação dos dois possa sofrer com a vinda de Óscar. Problemas não faltam: há sempre dificuldades em obter visto na Guiné para Portugal, foram precisos muitos meses de insistência para que Óscar aterrasse no aeroporto de Lisboa numa noite chuvosa de janeiro, Filomena espera-o com um saco cheio de roupa quente, os seus diálogos são um rico manancial de ternura, e assim se chega à convocatória do Instituto Nacional de Medicina Legal para a colheita de material biológico. O encontro de pai e filho é marcado por distâncias, é uma conversa de circunstância, o pai bem lhe perguntou o que fazia, não se furtou a responder que fazia biscates em pintura.

Há uma espera de semanas, Óscar vai conhecer Lisboa, recebe ternura da tia Filomena, esta não esconde a sua euforia nas redes sociais, o sobrinho nunca tinha provado grão nem frutos secos, engordou dois quilos, depois quatro, a tia ofereceu-lhe um dicionário de português, vestiu-o com aprumo, chega o resultado, o grau de probabilidade de Óscar Albuquerque ser filho do homem que no ofício ainda é identificado como pretenso pai é de 99,999997%. No primeiro aniversário de Óscar com a família portuguesa, Filomena cozinhou bacalhau no forno, comprou champanhe do bom e um bolo de chocolate rodeado de framboesas. O pai de Óscar mantém-se distante, mas acedeu ao pedido da irmã para irem à Conservatória do Registo Civil, mais um imbróglio, o pai esteve na Guiné em 1968, mas a documentação guineense diz que Óscar nasceu em 1978, os papéis têm de voltar para a Guiné. Tudo parecia estar resolvido quando o pai disse à funcionária que era o pai do Óscar. Mas surgiu novo obstáculo, o mais inesperado: Óscar não podia ser perfilhado pelo seu pai biológico porque já estava nos seus documentos. Enfim o que servia na Guiné não servia em Portugal.

Na continuação da saga, enquanto se aguarda a chegada dos documentos corrigidos da Guiné, a tia ensinou-o a cozinhar, o sobrinho arranjou um quarto, foi-lhe recomendado que não andasse na rua a partir das dez da noite para não ser apanhado por uma rusga do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Óscar continua a ser assíduo nas reuniões de família que Filomena organiza, o pai nunca comparece. “Filomena diz que aprendeu a gostar de Óscar desde que ele nasceu. O irmão diz que não sente nada por ele, que o rapaz foi um acidente, Filomena suspira que os pais tenham partido, eles poriam aquele filho na ordem.” Óscar pôs-se a trabalhar, ora ajuda a fazer as instalações elétricas ora a rebocar ou a pintar paredes. “Já passou tempo suficiente para se perceber que Óscar e o pai não vão estar unidos sem ser em papel, são dois nomes escritos na mesma folha de papel guineense, onde o grau de parentesco que os deviam unir não os uniu ainda, e talvez nunca os venha a unir.”

Uma história dura de ler pela intensidade a que levou o encontro, os ziguezagues da burocracia, aquela tia que às vezes é tomada de desalento, Óscar está na família portuguesa e não está, quando fala com a tia já não diz “o meu pai”. Os dias e os meses passam, o papel que ainda acalenta a esperança de Óscar é o teste do ADN. “Se for apanhado numa rusga por estar ilegal, só tem aquela folha para mostrar e, se lhe derem tempo, pode contar a sua vida. Óscar bem sabe que o valor legal do papel e da sua história são nulos. Pode ser expulso, apesar deles. Mas foi o que conseguiu, o papel e a tia.”

Que o leitor se prepare, há outras histórias empolgantes ainda para citar.

(continua)

_____________

Notas do editor:

Vd. post de 22 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 26 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28134: Notas de leitura (1931): "Morrer no Cacheu", um trabalho do jornalista Rui Araújo, publicado na Revista do Semanário Expresso do dia 31 de Março de 2001 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
"Furriel não é Nome de Pai", de Catarina Gomes, é de leitura obrigatória, é uma longa viagem sobre tema sobre o qual se manteve discrição ao longo de décadas, os filhos dos militares portugueses deixados na Guiné, Angola e Moçambique, crianças sovadas, discriminadas, continuam a buscar uma identidade perdida, as autoridades dos países independentes e as de Portugal nem tentam reconhecer a dimensão do problema, parecem ser coisas do destino, ainda por cima os ex-combatentes é uma categoria em vias de extinção, e as crianças deixadas nas antigas colónias, hoje homens e mulheres com mais de 50 anos nem são tema para conversas nos almoços anuais que eles fazem. É uma bela edição revista e aumentada, a narrativa é primorosa, e momentos há, caso do encontro entre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena que temos a convicção do poder radial e luminescente desta moderna literatura portuguesa.

Abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 1

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Na introdução, a autora dá-nos conta de outras histórias de filhos de militares, não deixa de impressionar a lista de filhos de guerra, noutras paragens. A momentosa questão dos “filhos de tuga” parece não sensibilizar a sociedade portuguesa, quando os meios de comunicação social afloram esta dolorosa realidade, é o discreto silêncio que prevalece, parece ser praga ou vicissitude dos tempos de guerra sem remédio.

Esta investigação foi iniciada em 2013, na Guiné-Bissau, a própria autora ficou surpreendida pelo dilúvio da procura, partira com quatro contactos de supostos filhos de ex-militares portugueses, a receção foi turbilhonante: “Um passa-palavra descontrolado colocou ao nosso dispor uma torrente de vidas que era impossível recolher no tempo que tínhamos. Alguns filhos tinham de esperar horas para os ouvirmos, as suas histórias eram as mensagens que nunca tinham conseguido enviar aos pais. Os primeiros dias emocionaram-me, mas houve momentos em que me senti como se estivesse num guichê de repartição pública, a preencher folhas e folhas de relatos que, a certa altura, se repetiam no essencial – eu fazia ali as vezes de Portugal.”
Haverá um testemunho, o de Fernando Hedgar da Silva, que a empurrará a escrever este livro, a história da associação que ele criou é qualquer coisa de sublime nos seus percursos de dramatismo que a autora traz ao leitor. Mais adiante, ouviremos falar de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, creio que são espantosas páginas antológicas que ultrapassam a linha da investigação, é um dos mais luminescentes encontros que a literatura portuguesa nos proporciona.

Ninguém conhece ao certo a dimensão do universo dos “filhos de tuga”, se são centenas ou milhares, na Guiné, Angola ou Moçambique e, francamente, é difícil fazer comparações com estimativas do Vietname ou outros locais de outras presenças coloniais, onde houve belicismos. Atenda-se ao que Catarina Gomes escreve na introdução: “Todos os dias morrem metades desta história. Os pais portugueses estão nas fases finais das suas vidas, e estes filhos, na casa dos 40-50 anos, também podem estrar perto do fim das suas. A esperança de vida dos três países africanos ronda os 30 anos. Se continua a haver todos os anos almoços-convívios de ex-combatentes é porque a guerra ainda vive nestes homens.”

Fernando Hedgar da Silva, como se disse, é um dos fios condutores desta trama. Lembra na sua meninice os fuzilamentos havidos em Canchungo de quem tinha colaborado com as tropas portuguesas, o PAIGC apodava-os de serem “traidores da Guiné”, a população fora obrigada a assistir aos fuzilamentos e do mesmo modo teve de comparecer a um baile noturno, era obrigatório celebrar – mesmo quem acabava de perder familiares. A vida de Fernando mudou no dia em que o vizinho o admoestou dizendo que ele não tinha direito à opinião, era um resto de tuga. Pôs-se nu diante do espelho, ali estava no seu tom de pele a razão pela qual a mãe o chamava em casa “branco” e “tuga”. Assim se iniciou a sua saga à procura de identidade, Fernando pensava que o pai se chamava Furriel, bateu a portas, mesmo à da Embaixada de Portugal, não encontrou saída, um dia tomou a decisão de criar uma associação “os filhos de tuga”.

Como era camionista, ia percorrendo o país à procura de “filhos de tuga”, passados os inúmeros encontros, ganhou corpo a Associação de Solidariedade dos Filhos e Amigos dos Ex-Combatentes Portugueses na Guiné-Bissau – Fidju di Tuga. As primeiras reuniões acabavam em longos convívios. E Catarina Gomes faz entrar em cena outros personagens, retornamos à vida nos quartéis, aos restos de comida dados a mulheres, e de repelão surge-nos a história de Nenedjo Djaló, ela não procurou, foi encontrada. “Foi por acaso: dois ex-combatentes portugueses, em romagem nostálgica à Guiné, cruzaram-se com um primo de Nenedjo, que aproveitou para chamar a atenção para a filha que o capitão Lopes tinha deixado. Conheciam-no e aceitaram levar-lhe a novidade. A primeira vez que Nenedjo e o pai falaram ao telefone choraram, e ele deu-lhe a escolher: ‘Queres vir cá ou vou eu aí?’. Ela não teve dúvidas, era a oportunidade de se vingar: ‘Preciso que você venha cá, as pessoas que me discriminaram, quero que elas o vejam’.” O pai veio, Nenedjo foi até Portugal, mas a relação não teve sequência, o pai gosta, mas não a reconhece.

Acompanharemos outras viagens de Fernando, iremos mesmo ao cemitério de Bissau. “Alguns filhos da Associação já choraram ao ler os nomes que se deixam ler. Os que não sabem bem como se chama o pai, como Fernando, também já se perguntaram se nalgumas daquelas sepulturas estará o pai. E se ele for um dos homens apagados? Nesse sentir há uma tristeza, mas, simultaneamente, uma esperança porque assim o abandono dos filhos não o seria. Os pais não vieram ter com eles porque nunca saíram dali, morreram na Guiné, coitados, tão jovens, pouco depois de os terem feito.”

Discutem-se nomes hipotéticos para os pais desconhecidos, fazem-se aditamentos nas certidões de nascimento, e assim se criou a ilusão de se ganhar uma vida própria. Fernando não para de investigar. Consultou os registos paroquiais na igreja de Canchungo. Encontrou-se a ser batizado na folha 59, certidão n.º 106. Existia há mais tempo do que pensava. Em vez de ter nascido a 24 de dezembro de 1971, como vinha no seu bilhete de identidade, ele era, afinal, de 5 de janeiro de 1968. Na certidão nada da identidade do pai nem dos avós paternos. Mas vinha lá o nome dos padrinhos de batismo, um português que então vivia em Teixeira Pinto, um comerciante que já tinha morrido. A madrinha era parteira, viera para Portugal há muitos anos. O seu nome era Ermelinda Félix Tavares. A autora, depois de longos meses de pesquisa, encontrou-a. Mostrou-lhe a fotografia de Fernando adulto, não se lembrava dele nem da mãe, Sabadozinha Mendes. Houve conversa de mulheres: “São coisas que aconteceram durante a guerra. Se elas precisavam de alguma coisa davam-se aos militares. Não era amor, não, coitadas.”

Vamos ver seguidamente um dos episódios espantosos (senão o mais espantoso, pelo nível de ternura e meandros de encontros e desencontros) desta pesquisa, Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena, prestem atenção.

(continua)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 19 de Junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28115: Notas de leitura (1929): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (4): VII - A Viagem do Tangomau e VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)


O primeiro parto que fiz na Guiné. A mãe registou o bébé com o nome de Adão Doutor

1. Mensagem do nosso camarada e amigo Adão Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68, com data de 27 de Abril de 2026:

Estive ontem em Vale de Cambra, na apresentação do livro “Guerra do ultramar, combatentes de Vale de Cambra", cujo autor é o amigo Professor Martinho Almeida. Tenho uma pequena colaboração no livro, da qual já não me lembro. Infelizmente, por razões pessoais, fui obrigado a abandonar a sessão, tendo ouvido, ainda, o apresentador do livro, cuja palestra achei correcta e historicamente fidedigna. Perdi, com pena, a intervenção do autor, que presumo ter sido importante.

Sendo um dos ditos “combatentes”, e tendo uma visão provavelmente bem distante das centenas de pessoas que encheram a sala, gostaria de deixar aqui a minha posição. Fui um dos primeiros a serem mobilizados no concelho de Vala de Cambra, para a guerra colonial da Guiné-Bissau, como médico. Princípios de 1966 até ao fim de 1967. Queria dizer que fui empurrado à força para uma guerra que nada me dizia, uma guerra cruel, injusta e criminosa como são todas as guerras coloniais. Não me considero combatente de nada nem de ninguém. Apenas combatente da doença e da injustiça.

Não levei agarradas a mim qualquer honra ou qualquer pátria. A minha missão e o meu dever resumiam-se curar doentes, militares e nativos, a salvar o maior número de vidas possível e a procurar encontrar os melhores resultados de uma verdadeira acção pedagógica e psico-social. Estive sempre no mato, na linha da frente, quer no leste da Guiné quer no norte. Sofri muito. Sofri muito com as perdas dos nossos soldados, sofri com as perdas das milícias e dos seus familiares, sofri com a pobreza e a desgraça dos nativos e também dos próprios guerrilheiros, a quem nunca chamei nem seria capaz de chamar “turras”.

No fim de contas, e de forma resumida, cheguei à conclusão de que a vida é uma sucessão de acasos, o que leva a que seja muito difícil dizer o que se perde ou que se ganha. Neste caso, com a obrigação de cumprir o serviço militar, não sei bem o que perdi, mas sei o muito que ganhei em experiência de vida com esta guerra tão dura e cruel. A Guerra Colonial, onde quer que se tenha dado, onde quer que se dê ou venha a dar é sempre um crime contra a humanidade e a soberania dos povos, decorrente de outro histórico crime, o colonialismo, por sua vez pai do neocolonialismo e do imperialismo.

Não posso dizer que sinto saudades da minha vida na guerra, longe disso, mas é impossível não ter recordações. A guerra ainda hoje arranca dentro de mim uma espécie de nostalgia estranha, um rebuscar no fundo do tempo o sentido do sangue que corria nas veias, uma sensação de perda profunda, semente de uma vida que até hoje aceitámos como vitória. 

Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou.
_____________

Nota do editor

Último post da série de 18 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27833: (In)citações (285): Somos camaradas, mas somos mais do que isso, somos amigos! Somos assim camaradas e amigos, ou seja, somos camarigos! (Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27629: Notas de leitura (1884): "As Lágrimas de Aquiles", de José Manuel Saraiva, com prefácio de Manuel Alegre; Oficina do Livro, 2001 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
O romance do José Manuel Saraiva tem a marcada distinção de entrosar do princípio ao fim a história de uma comissão na Guiné e uma paixão que irá desaguar em amor perdido. Há na narrativa um daqueles elementos barrocos que já tenho visto apreciados noutros autores, extensas tiradas envolvendo memórias, numa linguagem incompatível com a preparação de quem ouve, no caso vertente o alferes regressa ao seu aquartelamento, de que naturalmente só restam vestígios, aparece-lhe alguém de outra geração, o antigo combatente aproveita o encontro para falar de si, antes, durante e depois daquela guerra que, afinal, não lhe disse muito, mas ficaram vincadas aquelas memórias dos mortos e feridos, e então ele faz sobressair o clangor do sofrimento do que fora uma paixão avassaladora, como a vida a férias revelara o afastamento da sua apaixonada, e como, a partir daí, aquela Guiné não passara da sensaboria de uma sobrevivência sem lustre. E ele viera agora, àquele mesmo local, verter as lágrimas que então contera, a sua vida transformara-se em amargura, uma criança daquele seu tempo da guerra, é agora o adulto que ouve todo o responso. Registo a singularidade deste romance.

Um abraço do
Mário



Um regresso à Guiné mesmo sabendo que não há reencontro com amor perdido

Mário Beja Santos

O romance As Lágrimas de Aquiles, de José Manuel Saraiva, com prefácio de Manuel Alegre, conheceu a sua primeira edição em 2001; o autor tem o seu nome ligado ao jornalismo, a documentários para a televisão sobre a Guerra Colonial, caso de Madina do Boé – a Retirada e De Guilege a Gadamael – O Corredor da Morte, foi igualmente guionista de telefilme. Este seu primeiro romance tem a originalidade de integrar na comissão militar uma dolorosa história de amor, numa elaboração de discurso narrativo de alguém que volta décadas depois da guerra ao aquartelamento onde viveu e confirma que há memórias da guerra que nunca se apagam e que naquele local lhe foi confirmado que não há ponto de regresso com o amor perdido, ali a vida se cindiu, e para sempre.

Este personagem da literatura de regressos dá pelo nome de Nuno Sarmento, é um tanto alter ego do escritor que ali combateu, foi agora encontrado em estado crítico e deixou uma documentação ao amigo. E de supetão partimos para a viagem de regresso à Guiné: “Aqui fiz a guerra. Aqui aprendi a encarar a imprevisível brutalidade da morte. Aqui pela primeira vez vi morrer e aos poucos fui morrendo. Mas já nada existe de concreto senão marcas dispersas da unidade a que pertenci, das que a antecederam e lhe sucederam no infernal processo de rendições.” Recorda os seus mortos, a correspondência recebida dos pais, a vida enamorada e a paixão que trouxe de Coimbra. E vão assomando ternas lembranças da mulher amada, de nome Catarina, os primeiros desastres da guerra, o primeiro morto, as primeiras cartas enviadas para essa doce companheira.

Numa sucessão de flashbacks, vamos ver Nuno Sarmento a formar a sua companhia em Santa Margarida, a boa impressão que lhe provocou o comandante da companhia; e depois a partida para a guerra, a viagem de comboio até Alcântara, voltamos à Coimbra dos estudantes, o dia da inspeção militar na sua terra natal, o reencontro com gente da sua infância. Agora Nuno está sentado nesse local onde houve o seu quartel na Guiné, chegou o momento de mudarmos o discurso, vai aparecer um guineense a quem ele contará muitos mais do que a sua guerra. “Neste momento em que recordo o meu passado de guerreiro transitório reparo que do outro extremo do quartel, próximo do local onde se situava o abrigo dos soldados do pelotão de artilharia, agora coberto de vegetação rasteira e muito densa, surge um homem em passo lento.” Era Aliú Cassamá, então criança quando por ali passou Nuno, perguntado se viera saudoso, o antigo alferes responde: “Não foram saudades nenhumas. Ninguém tem saudades da guerra. Mas não gostaria de morrer sem voltar aqui, onde deixei perdidos dois anos da minha juventude. Acho que devemos voltar sempre aos lugares que um dia foram nossos, mesmo nas piores circunstâncias.” Aliú diz que tem uma coisa para mostrar a Nuno e vai buscá-la, regressa com um objeto retangular embrulhado num saco de plástico enegrecido, Aliú diz que é uma coisa do alferes Duarte, falecido durante a guerra.

Vem à tona mais memórias da guerra, não falta o sentimento da dor: “A guerra emudece-nos. Rouba-nos as palavras e as ideias. Deixa-nos despidos de nós. Perdemos o nome e a genealogia, a noção do tempo e dos valores. E porque não há espaço para os sentimentos tornamo-nos cruéis e assassinos, nem que seja pela brevidade de um instante. A guerra é um território absurdo e desumano, sem portas de entrada e de saída, um lugar de ódios levado ao extremo de cada homem.” Vem-lhe à mente a decisão que tomou de mandar matar um guerrilheiro em estado agonizante; lembrou-se da estima que guardara do tal alferes Duarte, sem saber bem porquê ocorreu-lhe o modo como conhecera Catarina e com ela aquela paixão que ele considerava tão sublime; vai-nos dando excertos das suas cartas de amor e o anúncio que lhe faz de que vai partir para férias, antevê tempos de felicidade na sua companhia.

Mas este romance é feito de flashbacks, Nuno acompanhado de Aliú percorrem agora outros vestígios do aquartelamento, até lhe aflora a recordação da prisão onde estivera um guerrilheiro que até merecia as simpatias dos soldados, e que um dia se invadiu, o comandante mandou fazer uma batida, sem resultado.

As férias de Nuno transformam-se num desastre, há qualquer coisa de artificioso nos laços de ternura, Catarina está tensa, ambos dizem que o outro está diferente, acabam por se ofender, Nuno sente-se magoado e decide viajar até Lisboa, na véspera do seu regresso à Guiné, Catarina procura-o em Lisboa, voltam a desconversar, a despedida, sem qualquer equívoco, é de uma tremenda frieza. A correspondência que irão trocar deixa bem claro que a relação não tem futuro, Nuno vive num estado de espírito de grande sofrimento.

E voltamos à guerra, um amigo escreve a Nuno dizendo que Catarina vivia agora um outro amor. E retoma-se a conversa entre Nuno e Aliú, vai desfiando os últimos meses da sua comissão militar, chega um novo alferes que vem substituir um oficial morto, quem chega também traz uma história de amor acidentada. Acidentes militares não faltarão não para contar, inclusive uma emboscada em que um furriel e os soldados, num estado de pânico durante uma emboscada, põem-se a milhas e deixam o alferes sozinho, o que dará um processo disciplinar.

E assim chegamos ao que Aliú traz para mostrar a Nuno:
“Quer mostrar-me um poema que o alferes Duarte deixara escrito num pedaço de cartão colado a uma placa de madeira que mantivera preso à cabeceira da cama durante toda a comissão (…). Retiro com todo o cuidado o objeto do saco de plástico e leio:


Com uma lágrima escrevi Maria
teu nome sobre as águas debruado
foi-se o nome na corrente que fazia
aos poucos partindo-se deitado.

Com uma lágrima escrevi saudade
de ti Maria amor, Maria em Paz
com outra escrevi dor, esta verdade,
nas ruas da cidade onde não estás”


Nuno compra o poema a Aliú, vai agora regressar a Bissau. Tudo isto é matéria da carta de Nuno Sarmento deixada a este seu amigo, Valentim Marques de Sousa. Nuno viera da guerra, parecia pronto a reorganizar a vida: foi explicador de português e de inglês, empregado de mesa, intérprete numa agência de viagens, contabilista, revisor no jornal, pastor no Alentejo, motorista do ministro de quem fora colega nos tempos da faculdade. Acabara na miséria, morrera da falta de amor, agora há que apressar o seu funeral. Está tudo bem claro, há guerras que nunca acabam.
_____________

Nota do editor

Último post da série de 9 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27620: Notas de leitura (1883): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (8) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27161: Seis jovens lourinhanenses mortos no CTIG (Jaime Silva / Luís Graça) (5): Carlos Alberto Ferreira Martins (1948-1971), sold pqdt, CCP 123 / BCP 12 (jun 70 / abr 71) - Parte II





Lourinhã > Largo António Granjo > Monumento aos Combatentes do Ultramar > 6 de setembro de 2014 > I Encontro dos Paraquedistas do Oeste > Estandarte da Associação de Pára-quedistas Tejo Norte, com sede em Oeiras, e cujo lema é "Icarus Ultra Mortem" (Ícaro além da morte, traduzindo à letra). Nesse encontro foi também homenageado o sold pqdt Carlos Alberto Martins Ferreira, CCP 123 / BCP 12 (Guiné, 1970/71)

 Infografia:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)

Guiné > Carta de Cabuca (1959) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Canjadude, estrada Nova Lamego -Cheche, e Ganguirô, a sudoeste de Cabuca, e próximo do rio Corubal, numa zona já de pequenas colinas.

Infografia; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2014)


1. Graças ao génio da cartografia portuguesa (um domínio onde historicamente temos ou tivemos pergaminhos, fomos pioneiros e fomos grandes!) é possível mostrar, aos nossos leitores, onde morreram os nossos bravos, pelo menos no TO da Guiné...

Ganguirô, uma antiga tabanca, ligada a Canjadude por uma velha picada... Lá no cu de Judas, na região mais desértica e desolada da Guiné!!!... Mais um topónimo, anódino, anónimo, que não ficará na história da guerra, mas que também fez parte  do nosso calvário, e que pelo menos figura  como "marcador" no nosso blogue... Para que a gente (e a gente que há vir a seguir a nós!) não se esqueça: que hoje soldados portugueses (e guineenses)   que morreram em Ganguirô, já próximo da região do Boé, que os portugueses consideraram, erradamenmte, um região sem valor estratégico...

Foi aqui, em Ganguirô, que os camaradas da CCP 123 / BCP 12, no final de um patrulhamento ofensivo (sem contacto), e os da CCAÇ 5, os "Gatos Pretos" (que vieram a picar o itinerário e vieram buscar os páras, com viaturas,) foram surpreendidos pelo IN (que terá vindo, sorrateiramente, no seu encalce)...

Da emboscada, em Ganguirô,  resultaram 2 mortos para a CCP 123 / BCP 12, e vários feridos... Um das vítimas mortais foi o lourinhanse Carlos Alberto Martins Ferreira (*).

No livro do Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), e na "ficha" correspondenye ao Carlos Alberto Martins Ferreira, não há excertos do Auto de Averiguações ao Acidente pela simples razão de que não consta do processo individual do infortunado militar, morto em Ganguirô, em 15 de abril de1971. (O processo individual foi consultado no Arquivo Geral do Exército.)

 Em parte para colmatar esta lacuna, e para se saber um pouco mais sobre as circunstâncias da morte do nosso camarada paraquedisat, recorremos  a postes já publicados no nosso blogue, em 2014 (*)


2. Comentário do nosso colaborador permanente José Marcelino Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5(Canjadude, 1968/70):

Extrato da História da Companhia de Caçadores nº 5, estacionada em Canjadude. Acção de apoio ao Páras.

15 de Abril de 1971. Acção tipo patrulha de combate com emboscada, à região de Liporo, constituída por 1 grupo de combate, sob o comando do Alferes Miliciano Alexandre Rodrigues Martins. Resultados: As NT foram emboscadas durante o encontro com as tropas paraquedistas tendo resultado um ferido, que veio a falecer no HM 241.

Carlos Alberto Martins Ferreira
(Toledo, Lourinhã, 1948 - Ganguirô,
 Guiné-Bissau, 1971)
3. Comentário do nosso editor LG:

Zé Martins, grande "gato preto" da CCAÇ 5 (Canjadude, 1968/70):

Essa história parece estar mal contada, como muitas outras passadas na nossa "querida Guiné"... Ou pelo menos, parece haver versões diferentes dos acontecimemtos que provocaram o ferido grave da CCAÇ 5. a que te referes (e que posteriormente veio a morrer, no HM 241, em Bissau)... bem como da emboscada que se seguiu, e que provocou 2 mortos e vários feridos entre os páras, quando se preparavam para subir para as viaturas, no regresso a Nova Lamego... 

Entre os mortos está o meu conterrâneo Carlos Martins que era do 3º pelotão da CCP 123 (e que habitualmente fazia serviço na messe de graduados da CCP 123, em Nova Lamego).

A versão que me contou o ex-1º cabo Santos, apontador da MG 42, do 4º pelotão da CCP 123, um camarada aqui do Sobral da Lourinhã, não coincide totalmente com a versão "oficial"...

O homem da CCAÇ 5 (aquartelada em Canjadude) que foi gravemente ferido (e que viria a morrer mais tarde) seria um guia e picador, africano, que terá sido confundido com um "turra"...

A emboscada à CCP 123 / BCP 12  (e às forças da CCAÇ 5 que trouxeram as viaturas, e que vinham a picar a estrada para Canjadude) ocorreu depois deste "incidente", já terminada a operação em que estiveram envolvidos os páras...

O Santos disse-me que os turras levaram as duas armas dos mortos da sua companhia... e que o resultado poderia ter sido bem pior se o grupo inimigo emboscado tivesse esperado que as forças da CCP 123 tivessem tomado os seus lugares nas viaturas...

Esta foi versão que ouvi  da boca do ex-1º cabo Santos, no estádio municipal da Lourinhã, enquanto esperávamos os saltos de paraquedas, por ocasião do I Encontro de Paraquedistas do Oeste (Lourinhã, 6 de setembro de 2014) (**)...

Mas temos sempre que sujeitarmo-nos ao "contraditório" quando ouvimos versões de acontecimentos de guerra que ocorreram há mais de 40 anos...

Vou tentar procurar o Santos para reconfirmar a sua versão que reproduzo aqui por alto...

De qualquer modo, aqui vai a minha solidariedade para com os camaradas da CCP 123/BCP 12 que sogfreram este revés na região de Canjude, bem como para os "Gatos Pretos" (CCAÇ 5). Desconhecia completamente as circunstâncias em que morreu o meu conterrâneo Carlos Martins.

domingo, 7 de setembro de 2014 às 23:44:00 WEST 


4. No vídeo com alocução do antigo comandante da CCP 123 / BCP 12, o hoje major general ref Avelar de Sousa, faz-se o elogio das qualidades humans e  militares do sold pqdt Carlos Martins, mas não há informação detalhada sobre as circunstàncias em que morreu, juntamente com outro camarada (**).

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

________________

Notas do editor LG:

7 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13581: Convívios (622): I Encontro de paraquedistas do Oeste... Lourinhã, 6 de setembro de 2014... Parte I: As primeiras imagens

9 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13589: Convívios (624): I Encontro de paraquedistas do Oeste... Lourinhã, 6 de setembro de 2014... Parte III: Homenagem ao sod paraquedista Carlos Alberto Ferreira Martins (1950-1971), da CCP 123/BCP12... Vídeo com a alocução do seu antigo comandante, hoje maj gen ref Avelar de Sousa

18 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13622: Convívios (630): I Encontro de paraquedistas do Oeste... Lourinhã, 6 de setembro de 2014... Parte VI: Discurso do Jaime Bonifácio Marques da Silva > 2ª Parte: homenagem ao sold paraquedista lourinhanense, natural de Toledo, Vimeiro, Carlos Alberto Ferreira Martins (1950-1971), morto em combate em Ganguirô, Canjadude, região de Gabu, Guiné, em 15/4/1971