sábado, 5 de janeiro de 2008

Guiné 63/74 - P2409: Estórias avulsas (12): Uma atribulada viagem de barco pelo Rio Cacheu até Farim (Fernando Chapouto)

Guiné > CCAÇ 1426 (1965/67) > Secção do Fur Mil Chapouto > "Militares que fizeram parte da escolta a Farim: da esquerda para a direita, em baixo, 1º Cabo Vitorino, 1º Cabo Enfermeiro Coimbra, 1º Cabo Alfredo, Soldados Costa e Guerreiro; em cima, eu, Fur Chapouto [, assinalado por um rectângulo a vermelho], soldados Matos, telegrafista, Cozinheiro Júlio, Paixão e Duarte... Faltam dois, o Leonel e o Valter" (FC).


Foto e legenda: © Fernando Chapouto Direitos reservados.


Texto de Fernando Chapouto, ex-Fur Mil, Op Esp, CCAÇ 1426 (Geba, Camamudo, Banjara e Cantacunda, 1965/67). O Chapouto chegou, no Niassa, à Guiné em Agosto de 1965; em Outubro de 1965 foi para Camamudo; em Dezembro de 1965 foi destacado para Banjara; em meados de 1966 foi destacado para Geba; em Março de 1967 foi colocado em Cantacunda; e, por fim, em Maio de 1967 regressou à metrópole no Uíge. Recebeu uma cruz de guerra (1).


Passados uns dias [ da chegada à Guiné], entra o Fur Chapouto na baila numa missão muito delicada: fazer escolta a um barquito com dois batelões, carregados de géneros para as tropas estacionadas na zona de Farim. Lá fomos, a minha secção com um enfermeiro, cozinheiro, radiotelegrafista, o barco a dez à hora, mesmo na praia mar. Na baixa-mar, o barco parava. Entrámos no rio Cacheu, começaram a surgir os problemas: o rádio não funcionava talvez por falta de experiência, os alimentos todos estragados, com arroz cheio de bicho, feijão idem, azeite e algumas conservas e chouriços que tivemos que começar a racionar, pois ainda faltavam muitos dias e as rações de combate não dariam para todo o tempo.

Chegámos a Cacheu pedimos pão que nos foi fornecido em quantidade, aí conseguimos contactar com Bissau, que estava tudo a correr bem excepto a alimentação. A resposta foi que nos desenrascássemos, pois nada havia a fazer... E lá fomos ao som das marés até São Vicente, acompanhados de perto por uma lancha da marinha que ia e vinha, sempre com o barco à vista. Aí estivemos dia e meio à espera do barco patrulha. Para matar o tempo, pescávamos, e até se apanhou um tubarão ou da família, mas pequeno, deu para uma ou duas refeições.

Aí o comandante do patrulha alertou-me para o perigo que íamos enfrentar. Lá fomos atrás dele, ele ia para cima e para baixo tudo de noite, até que o inesperado aconteceu: eu estava a passar pelas brasas, de repente ouvi umas rajadas, pus a G3 em posição, mas nada mais... Chegou um dos meus cabos:
- Furriel, que está aí a fazer ? Temos um ferido!
- Mas eles já se calaram - ia dizendo eu.
- Não são terroristas, foi o preto que ficou-se a dormir e o barco meteu-se pelo arvoredo dentro, partindo-se.
- Pareciam rajadas, temos um ferido ?... Como se feriu o soldado ?
- A roldana do mastro ao embater nas árvores soltou-se e caiu-lhe em cima da perna e partiu-a.

Este soldado não pertencia à minha secção, ia para Farim para mais uma comissão como voluntário.

Tirei o preto do leme e pus lá o meu cabo, que era de Portimão e tinha carta de barcos. Lá continuámos até Binta onde deixámos o ferido e continuámos até Farim onde chegámos ao meio da manhã.

Depois de cumpridas todas as formalidades, fui ter com o Sargento dia que era um Furriel do meu curso, para nos dar uma refeição, contando-lhe a história. Por ele não havia entraves, mas o Oficial de dia só pôs problemas. Disse-lhe se era preciso pôr o problema ao comandante do batalhão, que eu ia ter com ele. Enfim, lá se ultrapassou o problema, mas andei nisto mais de uma hora.Comemos os restos do tradicional prato da tropa, feijão com chouriço, ninguém disse Feijão, venha ele - como diziam na Metrópole...

Por sorte nossa, Farim tinha sido atacada na manhã anterior com morteiradas e bazucadas, estava a coisa preparada para nós, mas como nos atrasámos um dia por causa da lancha patrulha, safámo-nos.

Lá empreendemos nós o regresso, parámos em Binta para carregar os batelões de madeira, foi rápido, pois a maré não esperava...

O regresso foi mais rápido e sem problemas até à entrada da barra. Ai apanhámos uma grande tempestade, pois estávamos na época das chuvas, uma grande trovoada, ondas com muita altura... O preto desamarrou os batelões que ficaram à deriva e o barquito onde fiquei com mais dois ou três soldados e a tripulação que era preta. Pensei:
- Não morro com um tiro, mas morro afogado...

Apesar de saber nadar, pensei que era o fim, os pretos rezavam, pareceu-me uma eternidade, com o clarão dos relâmpagos via o lamaçal na margem...Como é que nos safamos se o barco se volta ? Lá ficaremos atolados...

O pesadelo só terminou quando a tempestade passou, isto tudo de noite. Começou a romper o dia, agora a tarefa era ir atrelar os batelões que ficaram à deriva, um distante do outro... Os pretos lá os amarraram e lá fomos até ao cais de Bissau. Comuniquei a chegada ao comandante de companhia, as viaturas chegaram rapidamente, lá carregámos os restos nas viaturas, e ala que são horas e que a fome aperta... Toca a tomar banho, mudar de roupa que o perfume era óptimo! Pudera, doze dias com banho de balde e chuva e fome.

Conclusão: comecei a perceber o que se me ia deparar pela frente, pois isto só ainda era o começo de uns longos meses.

Fernando Chapouto

Fur Mil Inf op Esp

CCAÇ 1426
Guiné 65/67
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Notas dos editores:

(1) Vd. outros posts do Fernando Chapouto:

17 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2357: O meu Natal no mato (3): Banjara, 1965 e 1966: um sítio aonde não chegavam as senhoras do MNF (Fernando Chapouto)

20 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1450: Operação Jóia ou o dia mais trágico da minha comissão (Fernando Chapouto)

1 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1233: O meu cantinho na Net (Fernando Chapouto, CCAÇ 1426, Geba, Banjara, Camamudo, Cantacunda, 1965/67)

30 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - LXXXIX: Recordando Geba, Banjara, Camamudo, Cantacunda, Bafatá (CCAÇ 1426) (Fernando Chapouto / A. Marques Lopes)

(2) Pelo que conheço do Fernando (já nos encontrámos três ou quatro vezes), o termo preto aqui utilizado não tem qualquer conotação racista, é apenas linguagem de caserna...

Guiné 63/74 - P2408: Sistema de cores dos bidões de Combustíveis & Lubrificantes, usados pelas NT no CTIG (Victor Condeço)

Guiné > Zona leste > Sector L1 > Regulado do Cuor > Missirá > Pel Caç Nat 54 > Março de 1970 > O HUmberto Reis, Fur Mil Op Esp, 2º Gr Comb, CCAÇ 12, ostentando um jacaré do Rio Geba... Por detrás, vêem-se bidões de várias cores: Vermelho (gasolina), verde claro (petróleo branco), amarelo (gasóleo)... Recorde-se que este destacamento, no Cuor, a norte do Rio Geba, não tinha gerador eléctrico, sendo o seu perímetro de arame farpado iluminado com garrafas de cerveja de 0,6 l (bazucas), com petróleo.


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Ponte do Rio Udunduma > 2º Gr Comb, CCAÇ 12 (1969/71) > O Fur Mil Op Esp Humberto Reis à entrada de um improvisado abrigo, protegido lateralmente por bidões cheios de terra... Pela cor (verde claro), seriam bidões de petróleo branco...

Fotos: © Humberto Reis (2005) . Direitos reservados.

1. Resposta do Victor Condeço, em 31 de Dezembro de 2007, a uma pergunta do Nuno Rubim sobre o sistema de cores dos bidões de Combustíveis e lubrificantes, usado pelas NT no CTIG (1):

Meu Caro Nuno:

Li mais uma vês li o teu apelo sobre a cor dos bidões dos combustíveis. Fui à lista do pessoal do meu batalhão, o BART 1913 (2), agarrei no telemóvel e contactei o Arlindo Dias Costa, que foi o homem da especialidade de Combustíveis e Lubrificantes.

Feita a pergunta, vieram as confirmações:

Vermelho = Gasolina

Azul = Gasóleo

Verde-Claro = Petróleo branco

Amarelo = Óleos

Segundo o meu camarada, no caso dos combustíveis para aeronaves (em Catió também tínhamos) os bidões também eram verde-claro, mas de tampa (topo do bidão) de cor branca.

Havia na categoria dos óleos inscrições nos bidões que os diferençavam quanto à viscosidade. Foi toda informação que consegui obter, ainda alvitrei outras cores, mas ele não se recorda de outras cores.

Com os desejos de um Bom Ano de 2008 com saúde e felicidades.

Um abraço do

Victor Condeço

2. Comentário de L.G.:

Victor: Neste último dia do ano, tu mereces um brinde especial!!!... Estou-te muito grato e imagino que o Nuno esteja também muito feliz com esta informação (preciosa)...já que ele quer acabar o seu diorama de Guileje, que vai ser (já é) uma obra-prima...

São estas pequenas coisas que fazem grande o nosso blogue... Se eu fosse teu comandante diria que tinha muito orgulho em ti... Como sou apenas teu camarada (que é o posto máximo que temos cá na nossa Tabanca Grande), eu direi: Dá cá uma Alfa Bravo, ganda Victor!... Muita saúde para 2008. Luís

3. Resposta do Victor:

Camarada Luís:

Grato pela tua mensagem, mas não tens nada que agradecer, nem tu nem o Nuno, fiz o que já devia ter feito logo no primeiro apelo, telefonar de imediato, porque depois passa a oportunidade e acabamos por nos esquecer (...).

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Notas dos editores:

(1) Vd. post de 31 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2394: Quem se lembra das cores dos bidões de combustíveis e lubrificantes ? (Nuno Rubim)

(2) O Victor Condeço, que vive hoje no Entroncamento, foi fur mil, mecânico de armamento, da CCS do BART 1913 (Catió, 1967/69).

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Guiné 63/74 - P2407: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (14): O falso descanso em Bambadinca

Guiné-Bissau > Região Leste > Bambadinca > Missirá > Pel Caç Nat 52 (1968/69) > O Alf Mil Beja Santos, ladeado por dois milícias, de etnia fula: à esquerda, o Albino Amadu Baldé, natural do regulado do Corubal, comandande do Pelotão de Milícias 101, de Missirá; a direita, Indrissa Baldé, soldado do Pel Mil 101. Finete era guarnecida pelo Pel Mil 102. Estas subunidades está sob o comando do Alf Mil Beja Santos. E lá ficaram, agora que o ´Beja Santos e o Pel Caç Nat 52 são transferidos para Bambadinca, em meados de Novembro de 1969.

Foto : © Beja Santos (2007). Direitos reservados.


Depois de um interregno de duas semanas, por causa da quadra natalícia e da festa de Ano Novo, retomamos a publicação da série Operação Macaréu à Vista - Parte II, do Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70). O episódio nº 14 foi-me enviado em 12 de Novembro de 2007 (LG):

Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (14):

O DEDO MINDINHO DO FURRIEL PINA

(i) Operação Truta Vivaz com o Pel Caç Nat 54 e a CCAÇ 12


De 14 a 19 de Novembro estou ao serviço de Missirá através do Pel Caç Nat 54 e do Pel Mil 101 que está novamente todo reunido. Com efeito, as duas secções que andavam destacadas regressam a Missirá e, vendo-as chegar a 15, ao alvorecer, interrogo-me se não valeu bem o esforço de me carpir permanentemente em Bambadinca pedindo um contingente compatível com as idas diárias a Mato de Cão, emboscadas, patrulhamentos e um sem número de digressões logísticas e actividades de faxina.

O Alves Correia, [comandante do Pel Caç Nat 54,] veio a 14, quando escurecia e gentes de Madina/Belel fogueavam para dentro do aquartelamento, com um grau de destruição mínima. Trazia instruções do major de Operações para desencadear, no amanhecer de 16, a Operação Truta Vivaz, de colaboração com um grupo de combate da CCAÇ 12. E mostrou-me a ordem de batalha, que me deixou estupefacto: 60 homens iam fazer um patrulhamento ofensivo entre Finete, Sinchã Corubal, São Belchior e Saliquinhé.

De imediato chamei o guia e picador Quebá Soncó, e dei as seguintes sugestões: o Pel Caç Nat 54 encontrar-se-ia com a força da CCAÇ 12 ao amanhecer de 16, em Finete. Seguiriam por Malandim até Gambana, sempre a corta-mato atravessariam o palmeiral de Chicri sobre Mato de Cão e, no caso de não haver quaisquer indícios da presença de gentes de Madina/Belel nas imediações, subiriam até muito perto da antiga tabanca de Sinchã Corubal. A manter-se a falta de indícios, a força em patrulhamento aproveitaria a luz do dia para atravessar o palmeiral junto ao rio de Ganturandim, fazendo o reconhecimento de Iaricunda.

Esclareci o Alves Correia que subir este rio até ficar de frente a Madina fazia correr riscos desaconselháveis para dois pelotões que desconheciam inteiramente o terreno. A única vantagem dessa operação temerária seria a de detectar eventuais novos trilhos, preço que me parecia muito elevado. Sugeria que se reduzissem os riscos emboscando abaixo de Sinchã Corubal, se possível junto de um trilho inimigo, e partindo de manhã cedo para S. Belchior espiolhando as bolanhas até Saliquinhé, em toda a orla do Geba, no intuito de procurar canoas que fizessem a cambança para os Nhabijões.

O Alves Correia aceitou este plano, falei olhos nos olhos com Quebá Soncó, pedindo-lhe para não se desviar um milímetro do que aqui se acordara. A 16, o Pel Caç Nat 54 parte para Finete pelas três da manhã e eu fico a cuidar do quartel com as milícias.

Enquanto decorrem operações de arrumos dos milícias que chegaram, o burrinho vai à fonte de Cancumba e as crianças estão na escola, tenho a minha última conversa com Lânsana. Ele beberrica chá verde enquanto falamos de questões vegetais. Com a sua voz lenta e o seu olhar doce, fala-me dos mangais e as suas palmeiras de azeite, dando como exemplos Mato de Cão e São Belchior.

Respondendo às perguntas que lhe vou fazendo sobre as árvores das florestas, veio comigo até à porta de armas para me falar dos poilões de diferente porte, o tempo que é necessário para um bissilão ficar gigante, mostrou-me o pau-conta e falou do pau-incenso e do pau-veludo, bem como da farroba e do pau-bicho e da calabaceira que existiam para lá de Cancumba, sim, era possível encontrá-las, por exemplo entre Sancorlã e Salá. Lembrou-me também que a paisagem da savana pode ter bambu, cibe, tambacumba e poilão-forro. Quando regressámos ao interior de Missirá, Lânsana falou com Bubacar Baldé, o comandante das milícias em exercício, pedindo-lhe que me mostrasse as árvores da savana quando me trouxesse até Finete.

Arrumo todos estes dados no meu caderninho viajante, anoto os temas que quero ainda desenvolver: paludismo, doença do sono, elefantíase; choros e fanados; culturas do arroz e do amendoim, fundo e mandioca; pesca na bolanha. Fecho o caderno e vou falar com Malã, começando por discretamente lhe devolver o anel de Infali Soncó:
- Régulo, o seu filho Quebá é um valoroso guerreiro, um dia vai suceder-lhe é ele quem tem dignidade para usar este anel. Nunca esquecerei a confiança que depositou em mim e os laços de família que me unirão para todo o sempre aos Soncó.

É então que o régulo começou a exaltar Alá como o Deus misericordioso e me perguntou o que é que eu pensava da sua infinita clemência e do que disse o Profeta. Terei respondido algo como isto:
- Régulo, o Deus que orienta as nossas vidas é o amor. O Corão diz claramente que os fiéis, os judeus e os cristãos e todos aqueles que praticam o bem serão recompensados no Juízo Final. O Corão fala de um Deus revelado a Abrãao e às tribos de Israel, e que não há distinção entre este Deus e o Deus dos muçulmanos. Para quê, então, não aceitar as nossas diferenças cantando glórias a Deus, sem nenhuma intolerância?

Malã continuou a falar no Livro de doutrina e de adoração a Deus, abracei-o e pedi-lhe para irmos pela última vez rezar juntos à mesquita. O dia continuou placidamente, tive tempo para fazer termos de juntada em vários autos, de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa que me foi oferecido em Bafatá, de 1952, li o conto “Éguê Baldé”, de Fausto Duarte, que me impressionou muito pelo drama de uma jovem fula que é vendida a um velho e está louca de dor. Fausto Duarte fala de casos de lepra na tabanca, na vergonha e repugnância de Éguê, no espancamento a que a sujeita o pai e de um régulo corrupto de quem não se pode esperar justiça.

Aproveitei também para ler um pequeno ensaio de autoria do Ruy Cinatti intitulado “Tipos de casas timorenses e um rito de consagração”. A dedicatória é muito bela: “Para o Mário olhar para as casas antes de as habitar... Com um pé no pedal e a mão no coração, Ruy”.

Ele descreve a habitação no sudeste da Ásia, revela as distinções, as fases fundamentais da construção e o que se diz na consagração da casa, que tem uma força poética assombrosa. Dizendo que está a transcrever da língua tetun de timorenses construtores de casas rectangulares, sinto perfeitamente o sopro do poeta Ruy Cinatti:

Em terra umbigo, em terra centro,
Em pedra angular, pátio sagrado,
Terra plana, terra nivelada.
A terra alarga-se, a terra rasga-se ...
Passada a primeira fase, cortados os primeiros prumos,
Depois que tudo correu bem,
Fazer como, fazer de que modo?
Ir pedir de novo, suplicar novamente,
Pai Deus, Mãe Deus,

Avós Deus, Impérios Deus,
Agora mesmo fazer como, agir de que maneira?


Isto pode ser um rito de consagração timorense, mas está aqui o halo místico e religioso de um dos maiores poetas do nosso tempo. Fiz a escala de reforços, conversei com os sentinelas, escrevi aerogramas, dormi como um justo.

A Op Truta Vivaz acabou bem, sem encontros nem desencontros, não se deu pela presença do inimigo, as tropas do Alves Correia vêm ensonadas, aproveito para levar as milícias até à ponte do rio Gambiel, despeço-me dos mais lindos palmeirais que já vi em toda a minha vida.

No dia seguinte, vistorio com o Alves Correia tudo quanto está no depósito de víveres, examinamos as metralhadoras e os morteiros. Cá fora, à volta do quartel, depois em Cancumba, em Morocunda e junto a Mato de Madeira conferimos as zonas minadas e armadilhadas pelo Reis sapador. E ainda fomos à Aldeia de Cuor, visitámos as ruínas, mostrei-lhe os carris e as vagonetas ferrugentas.

(ii) Uma despedida emocionada de Missirá e de Finete

Chegou a hora de partir e aproveito a coluna que vai buscar arroz a Bambadinca. Junto todas as minhas forças para esconder a emoção da despedida. O meu espólio foi levado a 14, por Ussumane Baldé, guarda-costas em exercício. Uma multidão silenciosa aguarda-me na porta de armas. Prometo voltar em breve, um Soncó volta sempre. Peço para ir a pé, quero despedir-me do Cuor captando-o em todo o seu esplendor: paro em Cansonco junto da destilaria do açoriano, olho os ferros dos alambiques e os despojos da maquinaria apodrecida, o que resta das paredes do que terá sido uma bela construção de carácter colonial; na estrada para Canturé, observo o caminho que dá para Gã Joaquim, depois Gã Gémeos, vejo os laranjais, os imensos morros de baga-baga, os limoeiros e os cajueiros em flor, em Canturé ajoelho-me e rezo ao pé dos destroços do 404, desfeito pela mina anti-carro de 16 de Outubro, mais adiante desço a ladeira íngreme de Finete, cumprimento o chefe de tabanca, os homens e as mulheres grandes, visito Bacari Soncó e recordo-lhe que ele é um irmão muito amado, abraço e beijo o meu querido Abudu Cassamá.

À saída do aquartelamento, procuro reter tudo, como se a vista pudesse empapar-se como um mata-borrão e reter a panorâmica entre Santa Helena, Ponta Nova, até Malandim, só falta a bola de fogo do fim de dia tropical. Junto ao Geba, antes de embarcar na canoa e me despedir de Mufali Iafai, olho pela última vez o meu Cuor, sinto que algumas lágrimas me bailam nos olhos. Volto as costas, subo a rampa de Bambadinca, começa neste instante uma nova etapa na minha vida.


(iii) Uma nova (!) vida... Bambadinca, sede do BCAÇ 2852 (1968/70)


A minha habituação não vai ser fácil. Fiquei num quarto de quatro camas, os outroslocatários em permanência são o Abel [foto à esquerda] e o Moreira [foto à direita, a seguir, ladeado pelo Reis e pelo Levezinho], ambos da CCAÇ 12. Desenvolverei com eles, nos próximos dez meses, uma excelente relação. Mas tudo aquilo me confunde, a gritaria dos corredores, as portas que se abrem e fecham subitamente, o estar longe dos soldados, o ter confirmado à chegada as diferentes condenações sem apelo nem agravo que nos esperam:
- ir ás tabancas fazer psico;
- montar segurança nos Nhabijões, onde está uma equipa coordenada pelo alferes Carlão;
- passar noites em desespero numa alfurja que dá pelo nome dos abrigos do rio Udunduma;
- fazer emboscadas na missão do sono, no Bambadincazinho;
- ir levar e buscar correio a Bafatá;
- patrulhar a estrada entre o rio Udunduma e Amedalai, patrulhando também junto ao Geba para dissuadir as cambanças dos que vêm de Madina;
- fazer colunas ao Xitole;
- colaborar em todas as operações dentro do sector, com forte incidência nas regiões do Xime e Mansambo...

Várias vezes o Queta Baldé termina as reuniões que temos para recordar ao múltiplos episódios que vivemos juntos desabafando:
-Vínhamos à espera de encontrar descanso em Bambadinca, estávamos estafados, logo ficámos rebentados, nunca mais houve um dia de descanso, a montar segurança, a ir a Madina Bonco, aquele rio Udunduma era o Inferno. Quero que o nosso alfero saiba que ficámos bem arrependidos por ter pedido para ir para Bambadinca!”.

(iv) Na estrada para o Xime, o furriel Pina mete o dedo na G3


A 20, estreei-me como oficial de dia e à noite fui montar uma emboscada para a estrada do Xime. No dia seguinte escrevi à Cristina:
- Tu não vais acreditar neste episódio burlesco: saímos depois do jantar para uma emboscada decidida pelo major de Operações, a caminho do Udunduma, em ataque anterior a Bambadinca foi aqui que os rebeldes puseram os canhões sem recuo e morteiros. Estava uma noite serena, saí com duas secções, acompanhou-me o Pina, o Pires tem agora trabalho numa terra aqui perto chamada Sinchã Mamajai. Teríamos feito um quilómetro por um caminho saibroso, e subitamente um grito medonho atravessou a noite, logo me apercebi que não era nem emboscada nem mina. Fui ao local da gritaria e dei com o Pina estatelado no chão a gritar com um dedo mínimo dentro do cano da espingarda. Tentei tirar-lhe o dedo, impossível. Ele escorregara no saibro e acontecera aquela coisa impensável. Imagina o que é regressar a Bambadinca com o Pina lívido, um soldado a segurar-lhe a arma, ele a gemer com o seu dedo esfanicado lá dentro. À cautela, retirei-lhe o carregador para evitar acidentes. Fomos para a enfermaria, ele sentado com a arma em cima da marquesa, com braço estendido. O David ficou embasbacado, o dedo ia inchando, todos os esforços para lhe retirar o dedo resultavam infrutíferos. Em dado momento, o David, com a testa perlada de suor, chegou a admitir a hipótese de lhe cortar o dedo e aí o Pina gritou que não, preferia ter todas as dores necessárias até se encontrar uma solução para ficar com o dedo inteiro. O Reis sapador foi buscar varetas, começou a esgravatar à volta do tapa-chamas, o Pina deu um urro, tal era o sofrimento, o Reis enfureceu-se e enfiou-lhe um tabefe, não sei que é que ele se julgava, se feiticeiro ou a desmontar uma mina, pedi ao David para lhe dar uma injecção ao Pina que o deixasse a dormir... Lembrei-me então que tínhamos desempanadores e pedi para falar com o Alexandre. O primeiro cabo desempanador Alexandre conhecia perfeitamente Missirá, dizendo que sempre que a visitara fora recebido à morteirada. Foi ele quem conseguiu desatarraxar o tapa-chamas, o dedo tinha a falangeta quebrada, com fractura exposta, lá se deu um calmante ao Pina (que foi na manhã seguinte evacuado para Bissau) e eu regressei para os mosquitos na emboscada (2).

(v) O novo médico do batalhão, Joaquim Vidal Saraiva

Os tempos que vêm são de duros para me aclimatar a esta atmosfera de sede de batalhão, viver aqui em permanência. Na manhã seguinte, volto a Bafatá, por causa do correio, compro na Casa Teixeira uma História da Filosofia, de Nicola Abbagnano, dos pré-socráticos a Aristóteles.


Cap do romance policial A Mulher Fantasma, de W William Irish. Lisboa: Livros do Brasil, s/d. (Colecção Vamprio, 38). Capa de Cândido Costa Pinto.


Voltamos por Galomaro para entregar caixas de armas. De Bambadinca vou a Afiá buscar doentes que vão ser vistos na enfermaria pelo David. Começou a minha vida nova, à tarde vou para os Nhabijões, à noite novamente para uma emboscada. O correio que recebo é cada vez mais doloroso. Amanhã volto a Bafatá e vou buscar a procuração para o casamento civil.

Ao almoço, na messe de oficiais, Jovelino Corte Real [, comdante do BCAÇ 2852,] apresenta-nos o novo médico, Joaquim Vidal Saraiva, que veio de Guileje. O David Payne parte para Bissau, manteremos sempre o contacto, ele irá ajudar-me imenso quando em Janeiro eu passar uma semana a dormir graças ao Vesperax e outras drogas.

O Vidal Saraiva (3) vai ser um grande amigo, estou a vê-lo desesperado a tentar salvar Uam Sambu, ao amanhecer de 1 de Janeiro de 1970.

(vi) O Arco do Triunfo, de Erich Maria Remarque


Estou empanzinado de bons policiais. Primeiro, li A mulher fantasma, de William Irish. É hoje um clássico: um casal à beira da rotura, o marido sai de casa depois de uma discussão conjugal, janta e vai a um espectáculo de variedades com uma estranha que encontrara num bar. Quando regressa a casa, a mulher fora assassinada, ele é preso, apresenta um álibi que ninguém confirma, sim, ninguém se recorda se ele estava acompanhado, no bar, no jantar, no espectáculo de variedades. Condenado à morte, recorre à ajuda de um amigo para procurar desesperadamente aquela mulher e vão suceder-se mais mortes. Um polícia desconfiado reabre o processo e irá prender o verdadeiro criminoso. Scott Henderson, o falso assassino, é inesquecível pela vontade indómita em que se esclareça a verdade. Os capítulos começam sempre assim: O centésimo quinquagésimo dia antes da execução, o vigésimo primeiro dia antes da execução, um dia após o dia da execução... Um suspense bem equilibrado, perfis psicológicos bem desenhados, uma atmosfera de angústia devidamente condimentada.

O Caso Benson, de S.S. Van Dine, traz a apresentação de Philo Vance, esse superculto e aristocrático detective. Van Dine excede-se no barroquismo do seu retrato, depois de exaltar o método analítico e interpretativo que ele aplicou nas investigações criminais: coleccionador sofisticado de arte, rodeado de primitivos italianos, de Cézanne e Matisse, desenhos de Miguel Ângelo e Picasso, gravuras chinesas, ânforas romanas, vasos coríntios, estatuetas Ming, marfins e tesouros egípcios. Vance pratica desporto, desde esgrima ao golfe. É rico, bem parecido, viajado, é inteligente e quer descobrir criminosos.

O Caso Benson foi uma estreia feliz, com Philo Vance a decifrar a estatura do assassino de Alvin Benson, a não dar importância a sinais que apontavam para uma mulher que visitara Alvin na noite do homicídio, induzindo o criminoso a estar tranquilo até à revelação final. Sempre gostei muito deste Philo Vance, às vezes canastrão, e tenho já aqui outros livros dele para me deliciar.

Capa do romance de Ercih Maria remarque, Arco de Triunfo. Lisboa: Livros do Brasil, s/d. (Colecção Dois Mundos, 6). Capa de Bernardo Marques.


Mas o prato de substância da semana foi o Arco do Triunfo, de Erich Maria Remarque. Estamos nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, vamos conhecer o drama dos refugiados que vivem em Paris. Ravic é um médico alemão que conseguiu fugir às garras da Gestapo e sobretudo ao seu algoz, Haake. O romance começa com o encontro entre Ravic e Joan Madou, haverá uma história de amor e uma separação triste. Ravic descobre Haake em Paris e mata-o. Joan é morta numa cena de ciúmes, por um apaixonado de ocasião. Vem a guerra, os refugiados, políticos e judeus, vão todos para um campo de concentração francês. São páginas memoráveis, registo uma frase que ainda hoje me persegue: “O destino nunca é mais forte do que a serena coragem com que o enfrentamos”.

Antes de entrar no camião que o leva para o campo de concentração, Ravic despede-se do seu amigo Boris Morozow e dizem: “ - Encontrá-lo-ei, depois da guerra, no Fouquet. - De que lado? Campos Elíseos ou George V? - George V”. E separam-se. E assim termina o romance: “ O veiculo seguiu ao longo da Avenida Wagram, ingressando na Praça da Étoile. Não havia luz em parte alguma. A praça estava imersa em trevas. Tão escuro que nem se via o Arco do Triunfo”.

Deitado na minha cama, na minha nova morada, fecho o livro e recordo o filme com Charles Boyer a interpretar Ravic, Ingrid Bergman esplendorosa em Joan Madou e Charles Laughton quase sublime no tenebroso carrasco Haake. Mal sabia eu que dentro de dias vou ver cinema em Bambadinca, uma Ford T a cheirar a gasóleo, a resfolegar ruidosamente a correia de transmissão. Há uma bobine que se projecta sobre uma tela, ouvem-se muitos tiros e há muita acção para divertir militares na guerra. O primeiro filme chamar-se-á Hércules contra Ciclope, com Steve Reeves no protagonista.

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 14 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2349: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (13): Na despedida de Missirá, em que me tornei um Soncó

(2) O Fur Mil Pina também integrou, posteriormente, o Pel Caç Nat 63, na altura comandado pelo Alf Mil Jorge Cabral.

(3) Contacto actual:

JOAQUIM VIDAL SARAIVA, Dr. (ex-Alf Mil Médico, CCS do BCAÇ 2852)
Esplanada Fernando Ermida,
284405-335 S. FÉLIX DA MARINHA
Telf 227810206 / 227624167

Vd. post de 21 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1773: Lista do pessoal de Bambadinca (1968/71) (Letras C / Z) (Humberto Reis)

No nosso blogue temos, pelo menos, duas referências ao Alf Mil Médico Saraiva (de quem me lembro bastante bem, mas que não sabia que tinha vindo de Guileje; fizemos juntos a Op Tigre Vadio):

1 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P930: O Relim não é um Poema (a propósito da Op Tigre Vadio) (Luís Graça)

29 de Junho de 2006

Guiné 63/74 - P924: SPM 3778 ou estórias de Missirá (4): cão vadio disfarçado de tigre (Beja Santos)

(...) Nota de L.G.:

(...) O médico da CCS do BCAÇ 2852 (que teve vários, entre eles o David Payne Rodrigues Pereira, psiquiatra), na altura, o Alf Mil médico Saraiva (que reside em Vila Nova de Gaia, segundo preciosa informação do nosso camarada Humberto Reis), veio no helicóptero de reabastecimento com o Beja Santos, para prestar assistência médica aos casos mais graves de intoxicação (devido ao ataque de abelhas) e de desidratação... Acabou por ficar em terra uma vez o que o helicóptero, danificado, já não voltou... Deixou o Beja Santos no Xime e zarpou para Bissau...

O Dr. Saraiva acabou por aguentar, de pé firme, o resto do dia e toda a noite e toda a manhã, acompanhando-nos na nossa extremamente penosa vaigem de regresso, até ao aquartelamento do Enxalé. Onde quer que ele esteja, daqui vai um abraço para ele. Era muito raro um médico ir para o mato. O mesmo acontecendo com os furriéis enfermeiros...

O Zé Luís Vacas de Carvalho, que foi comandante, em Bambadinca, do Pelotão Daimler 2046, lembra-se bem dele: "Estivémos com ele`há 2 anos em Ferreira do Zêzere. Penso que é médico (ainda) em Gaia. Lembro-me uma vez que o Piça, entornou um jipe cheio de gaiatos e, como eu queria ir para medicina, estive a ajudá-lo a fazer curativos"... Se alguém souber do seu paradeiro, que entre em contacto connosco... Gostaríamos de conhecer a sua versão dos acontecimentos: por certo que nunca mais terá esquecido a Op Tigre Vadio... (LG)

Guin é 63/74 - P2406: Op Tridente, Ilha do Como, 1964: Guerrilha e contraguerrilha (Santos Oliveira / Mário Dias)

Guiné > Ilha do Como > 1964 > Op Tridente (de 14 de Janeiro a 24 de Março de 1964) > LDM desembarcando as NT. Foi a maior ou uma das maiores operações realizadas no TO da Guiné, durante toda a guerra (1963/74). Segundo o Mário Dias, as baixas de um lado e doutro foram as seguinte: Das NT, 8 Mortos15 Feridos; Do PAIGC:76 Mortos (confirmados), 29 Feridos, 9 Prisioneiros... Na batalha do Como, morreu um dos primeiros heróis do PAIGC, o comandante Pansau Na Isna, cuja história poucos jovens guineenses de hoje devem conhecer, apesar de ter dado o nome a uma das principais avenidas de Bissau.

Foto: © Mário Dias (2005). Direitos reservados.

Guiné > PAIGC > A Libertação do Komo. In: O Nosso Primeiro Livro de Leitura, p. 31. Departamento Secretariado, Informação, Cultura e Formação de Quadros do Comité Central do PAIGC, 1966 (1).

Fotos: © A. Marques Lopes / Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.

1. Mensagem de Santos Oliveira, datada de 24 de Dezembro de 2007:

Assunto - Op Tridente e o tempo seguinte

Caro Mário:

Desculpa-me esta intervenção pessoal, mas está-me atravessada… Acho que já fiz esta anotação em qualquer lado; mas gostava de partilhar a minha análise a partir da Op Tridente (2).

Tudo o que tens escrito e afirmado é verdade e uma realidade (os pormenores são apenas isso). Entretanto, como elemento principal de análise começa-se pelo tipo de Operação, como foi planeada e como foi desenvolvida. Todos nós sabíamos que estávamos a fazer uma Operação de Guerra CLÁSSICA que até estava de acordo com a Instrução Militar que era ministrada (na época e mesmo muitos anos depois).

Daí vocês terem sofrido bem mais, quase até ao limite da resistência humana. Tu, como eu e outros (Rangers ou Comandos) provavelmente possuíamos conhecimentos de Guerrilha que eram quase desconhecidos para a maioria dos Militares, mesmo do QP; eu, pelo menos, recebi conhecimentos práticos, que me eram extremamente úteis, tão somente porque o (oficialmente) Conselheiro Militar Americano que me deu essas bases, era Cap dos Rangers Americanos, e havia feito 2 Comissões no Vietname. Era extremamente cuidadoso e precavido e sempre nos transmitiu essa norma.

Sabes bem que em guerrilha há umas quantas regras, mas que não são regras nenhumas; aproveita-se e improvisa-se tudo, de acordo com a situação de cada momento.

Agora, pensa:

Depois de 70 dias, com as ilhas isoladas pela Marinha, Força Aérea e parte das NT, como poderia ser feito reabastecimento de munições, ao IN? A população não estava lá e eles tinham que sobreviver para não morrer; por isso limitavam-se, como dizes e muito bem, a dar um tiro de aviso aquando da vossa aproximação.

Acredita que vocês passavam ou cruzavam a mata (conhece-la suficientemente bem), mas não a dominavam; eles não podiam nem queriam o contacto, pelas razões óbvias (munições), não do desgaste, mas da falta de meios.

E quando foi retirado o efectivo (ou dispositivo) da Op Tridente, achas que uma Companhia, por muito activa e aguerrida que fosse, conseguia impedir o remuniciamento do IN? Tu como eu, sabemos que não. Seria impossível.

Olha, não quero nem sou Juiz de causa alheia; não defendo nem acuso a actuação da(s) Companhia(s) residente(s) por não fazer(em) nada, mas apelo ao teu sentido de Tropa de Elite e Comando que, necessariamente te fará reflectir acerca do assunto. Como afirmei, desconheço as Ordens que eles receberam e por isso pedi um delator.

Eu, recebi, em Bissau, uns papéis que eram para ler na LDM que me levou para o Como, e destruí-los antes de lá pousar o pé. Historiavam pormenorizadamente a Op Tridente e as condições do que iria encontrar; infelizmente, na altura, era muito obediente e até tinha pavor do RDM, pelo que os destruí mesmo. Lamento-o, agora.

Espero tenhas um momento e ainda queiras ter a pachorra e coragem de pensar no que passaste, e desenvolver, na tua mente, o meu raciocínio. Ficar-te-ei grato se aceitares este desafio.

O maior abraço do Mundo e os votos de continuação de Boas Festas, do

Santos Oliveira


2. Resposta do Mário Dias:

Caro Santos Oliveira:

Antes que termine o ano, não quero deixar de responder ao teu desafio e tecer algumas considerações sobre o que dizes na tua mensagem (3).

Primeiro, e para que não haja mal entendidos, também eu não pretendo ser Juiz de ninguém. Não posso nem quero julgar o comportamente seja de quem for. Porém, isso não me impede de ter a minha opinião sobre o ocorrido durante a guerra em que estivemos envolvidos. Quanto a mim, o cerne da questão reside principalmente na atitude das duas forças em presença e que se resume no seguinte:

Enquanto o PAIGC fazia a guerra para ganhar, nós faziamos a guerra para não a perder.

O período de 1963 a 1966 em que fui combatente na Guiné, foi suficiente para verificar que as unidades militares que se enfiavam no arame farpado e de lá, não saíam eram precisamente as que sofriam maior número de ataques. Aquelas que andavam na mata, que procuravam o inimigo e não lhe davam descanso, raramente viam os seus quarteis atacados. Tenho experiência pessoal de alguns casos que um dia poderei relatar. Aliás, como todos sabemos, é um dos princípios básicos da guerrilha fugir ou desaparecer quando o inimigo ataca e atacar quando este recua.

No caso em análise - Op Tridente - há um outro princípio da guerra, qualquer que ela seja, que se chama exploração do sucesso que nos diz devermos aproveitar a fraqueza, ainda que momentânea, do inimigo e prosseguir o ataque. É mais ou menos o sentido da expressão popular malhar o ferro enquanto está quente. Isso não foi feito, isto é: não houve exploração do sucesso. Também eu não sei quais as ordens que a Companhia do Cachil tinha nem o que a motivou a confinar-se ao seu reduto. O que sei é que o resultado foi começar a ser atacada pois deixaram os guerrilheiros à vontade para o fazer. Depois, acaba por se criar uma "pescadinha da rabo na boca": "Não podemos ir à mata pois eles podem vir atacar-nos e o quartel estaria desfalcado" e como não fomos lá, vieram eles cá.

Não quero deixar de mostrar a minha solideriedade por todos quantos por lá passaram e rendo-lhes a minha homenagem pelo muito que sofreram. Poderiam as coisas ter sido de outra maneira? Não sei.

Agora não adianta especular, nem no plano militar e menos ainda no ideológico (isso não caberia em poucas linhas), mas apenas relembar os acontecimentos para que as gerações vindouras saibam como tudo se passou.

Caro amigo, rendo-te a minha admiração pela clareza das tuas opiniões.

Um grande abraço com votos de um feliz 2008 e seguintes. E que sejam muitos aos quais também quero assitir.

Mário Dias

3. Comentário do Santos Oliveira:

Caríssimo Mário Dias:

Acredita que me tens tirado um grande peso da minha mente.

Fiz-te o desafio porque também eu não entendo (entendia) a posição assumida pelas Heróicas Unidades que por lá passaram. Consumia o espírito e sentia revolta do que presenciava. Por isso, culpava-me porque fazia um julgamento duro e injusto (e assim foi ao longo destes anos todos) e buscava justificações para as CC; sentia-me tomado de uma atitude de ressabiado, por ter que fazer uma espécie de trabalho sujo sem ter qualquer reconhecimento e sem ver ninguém levantar um dedo para atenuar aquelas duras consequências (sofri muito e sofro ainda).

O meu juízo do diabo teve esse sentido; doutro modo não teria revelado a história do Pelotão de Morteiros, o 912, que nunca existiu… (o título não foi meu) sobretudo da HISTÓRICA noite de 16 de Novembro de 1964 de que, recordo, ter sido compensador a necessidade táctica de ter de mentir, (reservando munições para 3horas de fogo rápido) afim de termos obtido a salvação da nossa pele, como prémio.

Tens plena autoridade (era o que sentia e sinto) quando afirmas que a verdadeira guerra estava nas atitudes do PAIGC e NT; para os primeiros, ganhar; para os segundos, não me atrevo a dizer ter sido para não perder, mas, seguramente, seria para empatar…e quanto mais tempo melhor.

Quanto sofrimento, amigo… e quanto se sofre ainda!... Eternamente grato por ouvires a minha voz e me ajudares a esquecer (esquecer?) o que considerava uma cumplicidade passiva, no que, afinal, nem eram as minhas atribuições e competências, nem sequer o podiam ser para as Armas Pesadas.

Felicito-te pelos Relatos claríssimos que hás feito no Blogue, que lia (devorava), sem sequer sonhar que um dia (este ano) contactaria contigo para obter como que uma ajuda psicológica de grande valor; é que é de grande utilidade falar, mas de maior valia é encontrar eco de quem possa entender e dar respostas. Creio tê-las obtido. Mas para responder é necessária a AUTORIDADE de ter-se VIVIDO o mesmo.

Obrigado, AMIGO. Admiro-te também.
O melhor do Ano de 2008, para ti e todos os que se são caros.

Um abraço, do

Santos Oliveira

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Nota dos editores:

(1) Vd. post de 1 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1907: PAIGC: O Nosso Primeiro Livro de Leitura (2): A libertação da Ilha do Como (A. Marques Lopes / António Pimentel)

(2) Vd. o dossiê sobre a Operação Tridente, da autoria do Mário Dias, que participou nessa famosa operação:

15 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXII: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): Parte I (Mário Dias)

16 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXV: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): II Parte (Mário Dias)

17 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXX: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): III Parte (Mário Dias)

(3) Vd. post de 23 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2375: RTP: A Guerra, série documental de Joaquim Furtado (8): A Batalha do Como (Mário Dias / Santos Oliveira)

Guiné 63/74 - P2405: Tabanca Grande (49): José Pereira, ex-1º Cabo da 3ª CCAÇ e da CCAÇ 5 (Nova Lamego, Cabuca, Cheche e Canjadude, 1966/68)

José Pereira
Ex-1º Cabo Inf, 3ª CCAÇ e CCAÇ 5
Nova Lamego, Cabuca Cheche e Canjadude
1966/68 (1)

1. Mensagem de 2 de Janeiro de 2008, o nosso camarada José Pereira

Aqui lhe envio o meu currículo e as fotos para poder fazer parte da Tertúlia de combatentes da Guiné

Nome: José Pereira
Posto: 1º Cabo Inf
Unidade: CCAÇ 5
Nova Lamego, Cabuca, Cheche e Canjadude
1966/68
Meu e-mail: jonhperrier2@hotmail.com


2. Mensagem, resposta, do co-editor CV, em 3 de Janeiro de 2008:

Caro José Pereira:

Em nome do Luís Graça e de todos os Tertulianos do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, estou a dar-te as boas vindas à Tabanca Grande.

Obrigado por teres enviado as tuas fotos para a fotogaleria que dentro em breve vai ser actualizada.

Já agora queríamos saber mais um pouco de ti e das tuas experiências enquanto combatente da Guiné.

Ficamos a aguardar as tuas estórias e se puderes manda também algumas fotos para as ilustrar.

Recebe um fraternal abraço
Carlos Vinhal
_____________

Nota dos editores:

(1) Não confundir 3ª CCAÇ com a CCAÇ 3 (Barro)... A primeira deu origem à CCAÇ 5. A 1ª CCAÇ deu origem à CCAÇ 3.

Guiné 63/74 - P2404: Tabanca Grande (48): França Soares, ex-Fur Mil da CCAÇ 3305/BCAÇ 3832 (Mansoa, 1971/73)

1. Mensagem do nosso novo camarada França Soares, ex-Fur Mil da CCAÇ 3305/BCAÇ 3832, Mansoa, 1971/73, com data de 29 de Dezembro de 2007:

Camaradas:
Sou o ex-Fur Mil França Soares do 4.º Gr Comb, da CCAÇ 3305, BCAÇ 3832, aquartelado em Mansoa e destacamentos próximos.

Cheguei à zona de Mansoa em inícios de 1971 e aí permaneci até ao 1.º trimestre de 1973, mais precisamente e sobretudo nos destacamentos de Infandre e Braia, para além da defesa da periferia da vila e ainda na intervenção operacional da zona.

Cheguei a Infandre quatro meses após a tristemente famosa emboscada à coluna de Infandre, no fatídico dia 12 de Outubro de 1970 (1), onde foram assassinados, entre muitos outros, o meu conterrâneo Fur Mil Dinis César de Castro e gravemente ferido, entre muitos outros, o meu ainda querido amigo 2.º Sargento Augusto Ali Jaló.

Durante os cerca de vinte e sete meses que permaneci sequestrado na Guiné, por sorte, pela graça de Deus e não sei porque mais, jamais sofri qualquer morto ou ferido no meu Grupo de Combate, facto de que muito me orgulho e me regozijo. Para isso, muito contribuiu o meu próprio empenho, a colaboração da generalidade dos soldados e cabos às minhas ordens, não esquecendo a colaboração dos diversos furrieis que comigo colaboraram, de que destaco o Furriel Brito do Rio e o Alferes Pacheco, pessoa que recordo com grande estima e muita amizade.

Não termino sem lembrar a traição e a cobardia da corja de patifes, militares e políticos de esquerda e de direita, que permitiram que após a independência, milhares de militares tão portugueses como nós, fossem fuzilados sumariamente, num macabro e inexplicável ajuste de contas, só porque foram na cantiga que Portugal era uma nação honrada (2).

Por último, quem me quiser contactar, deverá fazê-lo pelo email: heldersoares@simplesnet.pt, fax: 22 832 55 89 ou móvel: 919 799 729, assim como para me enviarem tudo quanto tenham em vosso poder que diga respeito à história da Companhia do famoso Pazinho, que também recordo com elevada estima e consideração.

2. Comentário do co-editor CV

Caro França Soares :

Quero dar-te as boas vindas à nossa Tabanca Grande, onde poderás contar as tuas estórias e as tuas experiências enquanto combatente.

O teu Batalhão foi substituir o BCAÇ 2885 a Mansoa, ao qual a minha Companhia, como independente que era, estava adstrita.

Aquando do emboscada do Infandre, eu estava em Mansabá.

Não pude deixar de adivinhar o teu azedume pelos fuzilamentos dramáticos dos nossos companheiros africanos, após a independência da Guiné-Bissau. Na verdade muito já foi dito no nosso Blogue sobre isso, mas apesar de tudo podemos ver guineenses que combateram pelo nosso lado, perfeitamente integrados na actual Guiné-Bissau.

Acredito que a maior parte daqueles fuzilamentos foram ajustes de contas, por condutas menos tolerantes entre as diversas etnias durante o tempo de guerra.

Pena que os nossos governantes, do pós 25 de Abril, não fizesssem nenhum esforço para salvar aquela gente da morte. Porventura nada puderam fazer.

Nós portugueses somos recebidos hoje pelos nossos antigos camaradas guineenses como irmãos e o mesmo se pode dizer dos nossos inimigos de então.
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Notas dos Editores:

(1) - Vd Post de 7 de Outubro de 2007> Guiné 63/74 - P2162: O fatídico dia 12 de Outubro de 1970 - Emboscada no itinerário Braia/Infandre (Afonso M. F. Sousa)

(2) Vd post anteriores de:

19 de Junho de 2006> Guiné 63/74 - P886: Terceiro e último grupo de ex-combatentes fuzilados (João Parreira)

31 de Maio de 2006> Guiné 63/74 - DCCCXXII: Mais ex-combatentes fuzilados a seguir à independência (João Parreira)

27 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCCVI: O colaboracionismo sempre teve uma paga (6) (João Parreira)

23 de Maio de 2006> Guiné 63/74 - DCCLXXXIV: Lista dos comandos africanos (1ª, 2ª e 3ª CCmds) executados pelo PAIGC (João Parreira)

6 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCIX: Salazar Saliú Queta, degolado pelos homens do PAIGC em Canjadude (José Martins)

3 de Dezembro de 2005> Guiné 63/74- CCCXXX: Velhos comandos de Brá: Parreira, o últimos dos três mosqueteiros

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Guiné 63/74 - P2403: Antologia (67): As Duas Faces da Guerra: Como si la guerra fuera un simple juego de ajedrez (Álex Tarradelas)

1. Mensagem do catalão Alex Tarradelas, a residir em Lisboa, com data de 22 de Outubro de 2007:


Caro Luís Graça,

Sou um catalão residente em Lisboa que o outro dia tive a sorte de ver As duas faces da guerra no DocLisboa (1).

Colaboro com os meios Rebelión e Tlaxcala, não sei se conhece, e com motivo do documentário achei que seria interessante escrever um artigo sobre o documentário para que o público espanhol tenha mais consciência do que foi a guerra colonial para Portugal. O artigo é Copyleft, logo, se quiser dispor dele não vai ter nenhum problema.

Espero que não seja um incómodo que tenha utilizado duas imagens do seu blog sem pedir-lhe autorização. Saudações e parabéns pelo seu blog. (...) .


2. Reprodução do artigo, com a devida vénia:

«Las dos caras de la guerra»,
Álex Tarradellas
Tlaxcala


La periodista portuguesa Diana Andringa y uno de los cineastas más reputados de Guinea Bissau, Flora Gomes, decidieron hacer un documental a cuatro manos y a dos voces que abordara las dos caras de la guerra colonial que enfrentó entre 1963 y 1974 al PAIGC (Partido Africano para la Independencia de Guinea Bissau y Cabo Verde) con las tropas portuguesas.

Con motivo del Festival Internacional de Cine Documental de Lisboa, Diana Andringa presentó el documental lamentando la ausencia de Flora Gomes e incidiendo en la necesidad de revisar y recordar el escenario de la guerra, por mucho que les pese a los portugueses.

As 2 Faces da Guerra (Las dos caras de la guerra) se rodó a lo largo de seis semanas, en las que los realizadores recorrieron las regiones guineanas de Bissau, Mansoa, Geba, Bafatá y Guilege. También viajaron a Cabo Verde y a Lisboa. Todo ello para recoger diversos testimonios de quienes vivieron la guerra colonial, tanto militares portugueses como militantes del PAIGC o simples moradores de las poblaciones visitadas.

El hecho de que cada director tense la cuerda por un lado resulta de lo más interesante para tratar uno de los conflictos armados más sangrientos sufridos durante el colonialismo portugués. Prueba de ello es que el documental esté dedicado a Amílcar Cabral y a unos soldados portugueses fallecidos en suelo africano cuyos nombres Diana Andringa encontró grabados en una losa destruida cuando en 1995 se desplazó a la ciudad de Geba como reportera de Público. De hecho, este hallazgo fue el punto de partida de este trabajo.

El homenaje a la figura de Amílcar Cabral es palpable a lo largo del documental. Lejos de querer idolatrarlo, los testimonios definen la gran dimensión humana del revolucionario del PAIGC. Un guerrillero que, a pesar de encontrarse en medio de un cruento conflicto armado con todo lo que conlleva, decía sentir como algo suyo al pueblo portugués. Y es que, más allá de la guerra, existía cierta complicidad entre los dos bandos. Amílcar Cabral declaró al inicio del conflicto: «No hacemos la guerra contra el pueblo portugués, sino contra el colonialismo». Esta idea es clave para entender cómo muchos de los portugueses reclutados en las colonias estaban del lado de los movimientos revolucionarios por la independencia [el PAIGC en el caso de Guinea Bissau y Cabo Verde, el MPLA (Movimiento de la Liberación de Angola) y el FRELIMO (Frente de Liberación de Mozambique)].

Tampoco es casualidad que los militares que se levantaran contra el régimen salazarista durante la revolución del 25 de abril, conocida como la Revolución de los Claveles, fueran soldados combatientes en Guinea Bissau cansados de recibir de la metrópolis órdenes ajenas a la realidad en la que se encontraban inmersos. Por eso, no deberían sorprendernos las imágenes que aparecen en el documental de un militante del PAIGC que con la euforia del 25 de abril grita a una masa exaltada: «¡Viva el PAIGC!, ¡Viva el 25 de abril!, ¡Viva Portugal!».

A media película, la esposa de Amílcar Cabral hace una declaración que resulta clave para entender los propósitos del guerrillero. Declara que, si hubiera sido posible, Amílcar habría cambiado las armas por los libros para hacer la revolución. Era un hombre extraordinariamente culto con un gran poder de convicción a través de sus palabras. Uno de los principales objetivos del revolucionario era formar desde la raíz la cultura de los guineanos y caboverdianos con una educación basada en la historia, la geografía y las tradiciones de estos países y no en las impuestas por Portugal. Y es que resulta irónico y te eriza los pelos oír las palabras de un militante del PAIGC acerca del fin de la guerra. El hombre nos cuenta con toda naturalidad como, una vez terminada la guerra, todos vuelven a ser amigos olvidándose de las antiguas rencillas. Como si la guerra fuera un simple juego de ajedrez en el que las fichas no pueden moverse sin la mano de los jugadores, pero en la que los jugadores pueden disponer de sus fichas siempre que quieran y puedan.

El 20 de enero de 1973 Amílcar Cabral fue asesinado en Conakry. Unos meses después, el 24 de septiembre de 1973, fue declarada la independencia de Guinea Bissau, aunque ésta no fue reconocida internacionalmente hasta la Revolución de los Claveles. Si Amílcar no hubiera sido asesinado y hoy se encontrara en el mundo de los vivos, quizá no estaría tan orgulloso del panorama en el que se encuentra sumido su país. Según datos del UCW (Understanding Children Work) en el año 2000 un 54% de los niños menores de 14 años trabajaban un mínimo 28 horas en Guinea Bissau. La tasa de alfabetización en 2005 rondaba el 44,8%. Esto se debe a los continuos golpes de estado (y las consiguientes guerras civiles) provocados sobre los frágiles gobiernos que muchas veces se asemejan a aquellas fichas de ajedrez que, sin la presencia de los jugadores, no pueden moverse.

En fin, este documental contribuirá a que los portugueses y guineanos revisen una parte desfragmentada de su historia. Y, por mucho que les duela, quizá los debates ayudarán a banalizar la guerra hasta el punto de quitarle el sentido a ésta. Quizá servirá para que, en un futuro, las únicas minas que siembren en los campos, en los bosques y en los caminos sean los libros, la mejor arma para ganar una guerra.

«La destrucción del fascismo en Portugal deberá ser obra del propio pueblo portugués; la destrucción del colonialismo portugués será obra de nuestros propios pueblos.»

«Las masas populares son portadoras de cultura, ellas son la fuente de la cultura y, al mismo tiempo, la única entidad verdaderamente capaz de preservar y de crear la cultura, de hacer historia.»

(Amílcar Cabral)

Para más información, echar un vistazo a este interesantísimo blog realizado por portugueses excombatientes en Guinea Bissau (en portugués): http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/

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Fuente: Rebelion http://www.rebelion.org/noticia.php?id=57955

Artículo original publicado el 22 de octubre de 2007

Sobre el autor:

Álex Tarradellas es miembro de Rebelión, Cubadebate y Tlaxcala, la red de traductores por la diversidad lingüística. Este artículo se puede reproducir libremente a condición de respetar su integridad y mencionar al autor y la fuente.

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Nota de L.G.:


(1) Vd. post de 20 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2197: A nossa Tabanca Grande e As Duas Faces da Guerra (4): Encontro tertuliano no hall da Culturgest na estreia do filme (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P2402: Matosinhos, Leça do Balio, Vilas, 27 de Dezembro de 2007: Silêncio, canta-se o Hino de Gandembel (Hugo Costa / Albano Costa)



Matosinhos > Leça do Balio > Tertúlia de Matosinhos > Restaurante Bar Vilas > Jantar-convívio de Natal > 27 de Dezembro de 2007 > Um vídeo feito e montado por um profissional, o Hugo Costa, filho do nosso querido amigo e camarada de Guifões, o Albano Costa.

Vídeo: 8 m 27 ss. Alojado em You Tube > hc3002

Vídeo: © Hugo Costa / Albano Costa (2007). Direitos reservados (2007).

Matosinhos, Leça do Balio > Restaurante Vilas > O nosso jantar de convívio > 27 de Dezembro de 2007 > O António Barroso (que é meu vizinho de Valadares, quando eu estou na Madalena), o Álvaro Basto e o Almeida e Silva: três homens do Xitole (CART 3492, 1972/74)... O Álvaro foi um dos organizadores desta inicitaiva que junte gente da nossa tertúlia da área do Grande Porto...

O A. Marques Lopes e o editor do blogue, Luís Graça, dois sulistas com meia costela nortenha...

O David Guimarães e o António Barroso, falando seguramente dos bons tempos do Xitole...

O David Guimarães (que deu um arzinho da sua graça, acompanhando o António Almeida à viola) e o Vasco Ferreira...

O pai do Álvaro Basto, ao centro, acompanhado de um casal (familiares de um dos nossos camaradas)...

Três rangers: o Magalhães Ribeiro, o António Pimentel e o João Rocha...Falta aqui, na foto, o J. Casimiro Carvalho...

Carlos Vinhal e o Luís Graça, falando inevitavelmente do blogue... O fimd e ano não correu para o nosso co-editor CV, que teve de reformatar o seu PC... Problemas de minas & armadilhas informáticas...

A esposa e a filha do José Teixeira (à direita) - Maria Armanda e Joana, respectivamente - ladeadas pela Dina, mulher do Carlos Vinhal, ao centro... À esquerda, de costas, está a Eduarda, a esposa do Albano Costa e mãe do Hugo Costa...

Fotos: © Albano Costa (2007) (Legendas: L.G.). Direitos reservados.

1. A um comentário recente do editor do blogue ("O último post de 2007 é também a revelação de uma estrela do nosso blogue: o Zé Teixeira"), o Zé respondeu-nos, com o seu habitual fair-play e sentido de humor, nestes termos:

Camarada (o melhor termo para classificar um amigo, pois reflecte uma amizade selada na luta, nas dificuldades), grande amigo, gostava que partilhasses com a Tertúlia o seguinte:

O Zé Teixeira não é uma estrela, é apenas ele próprio que tem como uso comum uma máxima: O que merece ser feito, merece ser bem feito. Foi isso que com a mini-tertúlia de Matosinhos tentei fazer e pelos vistos resultou (1).

O mérito vai para o Xico Allen com a sua capacidade e força de vontade que nos une todas as semanas, diria que ele é o princípio. O mérito é do grupo, que se auto motivou. O mérito é do Alvaro Basto que tem uma capacidade de mobilização fantástica. Eu apenas e só indiquei o restaurante e pensei numa uma brincadeira para animar e unir ainda mais este grupo. Foi ao correr da pena, mas parece que resultou. Ainda bem.

Neste Novo Ano de 2008,

Se houver guerra… que seja de almofadas;
Se for para enganar… que seja o estômago;
Se for para chorar… que seja de tanto rir;
Se for para roubar… que seja um beijo;
Se for para perder… que seja o medo;
Se for para cair… que seja num abraço;
Se for para morrer… que seja de amor;
Se for para bater… que seja à porta de alguém!

Feliz Ano Novo!!!!
Para toda a Tertúlia


J.Teixeira

_____________

Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 31 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2395: Tertúlia de Matosinhos: Jantar de Natal, 27 de Dezembro de 2007 (Luís Graça / Zé Teixeira)

Guiné 63/74 - P2401: Pensamento do dia (14): Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós (Luís Graça)

1. Citação: "No sé yo cuanto le puede importar a usted ésto que le estoy diciendo, no sé si ésto le puede importar a alguien, porque éstas cosas no las cuentan los libros, esto no sale nunca en la historia, pero sabe lo que le digo, ésta es mi verdad.”

(Velho combatente, anónimo, da guerra civil espanhola, citado em Cristina Santamarina y José Miguel Marinas, «Historias de Vida e Historia Oral», in Juan Manuel Delgado e Juan Gutiérrez (coord.) (1999), Métodos y Técnicas Cualitativas de Investigación en Ciencias Sociales, Madrid: Sintesis, 1999, pag. 257)

Fonte: Socio(b)logue 2.0 > Julho 01, 2003 > Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola. (com o devido apreço...)



2. Comentário de L.G.: Que o o ano de 2008 nos traga mais histórias de vida dos combatentes da guerra colonial, luta de libertação ou guerra do ultramar (conforme o ponto de vista, a bandeira ou o lado da trincheira). Todas as histórias (ou estórias) contadas pelos amigos e camaradas da Guiné são belas, por que são únicas, verdadeiras, vividas ou fantasiadas... E merecem ficar aqui registadas. Para memória do presente e do futuro. E sobretudo por que as nossas histórias/estórias interessam-nos, em primeiro lugar a nós.

Além disso, ao contá-las prestamos um pequeno serviço à geração dos nossos filhos e dos nossos netos... Para que eles, ao menos, não possam dizer, ignorando, escamoteando ou desprezando o nosso sacrifício: "Guiné ?... Guerra do Ultramar ? Guerra Colonial ? Luta de de libertação ?... Não, nunca ouvi falar!".

Créditos fotográficos: Victor Tavares, Paulo Raposo

Guiné 63/74 - P2400: O nosso blogue visto por um guineense da diáspora (Hélder Sousa / Antero B .B.)

Guiné-Bissau > Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da semana > 30 de Dezembro de 2007 >

O macaco Fatango de pelo castanho-avermelhado, muito presente nas matas de Cantanhez, prepara-se para saltar para o novo ano de 2008.

Ele e os colegas de outras espécies têm a certeza que, neste ano novo, as comunidades locais, as organizações de promoção do desenvolvimento e as estruturas oficiais tudo farão para que eles continuem a desfrutar de um ambiente natural onde possam viver e multiplicar-se em plena liberdade e sem serem ameaçados.

Aproveitam a ocasião para a todos convidar a visitar esta magnífica floresta e apreciarem o que de mais bonito a natureza tem para oferecer na Guiné-Bissau.


Foto e legenda: © AD - Acção para o Desenvolvimento (2007) (Com a devida vénia...)

Comentário de L.G.:

Esta é também uma boa ocasião para endereçar a esta ONG guineense, com quem mantemos um contacto privilegiado, os nossos votos de que o ano de 2008 traga novos e bons projectos ao serviço do desenvolvimento integrado e sustentado da Guiné-Bissau e sobretudo meios efectivos (humanos, técnicos e financeiros) para os concretizar, incluindo os requisitos básicos que são a paz, a segurança, a liberdade.

O Simpósio Internacional sobre Guiledje, em Março de 2007, será também seguramente um reconhecimento do trabalho, meritório e exemplar, desta ONG guineense. Ao nosso querido amigo Pepito e aos seus colaboradores o nosso apreço e amizade. O Blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné.



1. Mensagem do Hélder Sousa (ex-Fur Mil de Transmissões TSF, Piche e Bissau, 1970/72) (1):

Caro Luís e co-editores:

Já estamos no Novo Ano e espero que se cumpram todos os nossos desejos. Este ano espero ser mais proactivo nisto de enviar contributos para a nossa obra colectiva que em tão boa hora tiveram a iniciativa de criar mas que necessita sempre de mais e mais contributos para se ir alimentando e permanecer apetecível.

Assim, aqui vai a primeira acção.

Já perto do final do mês de Novembro passado, através de um amigo, travei conhecimento com um guineense que vive em Portugal e trabalha em Lisboa, homem de 54 anos, de Etnia Balanta (Brassa, na língua de origem, conforme me esclareceu), natural de um local pertencente à então designada Freguesia de Nhacra. É Licenciado em Direito, interessa-se pelo que se passa na Guiné e participa em iniciativas tendo em vista a melhoria da sua situação, nomeadamente a democratização da vida institucional do País, sendo que, por razões de discrição, apenas o refiro como sendo o meu amigo Antero B. B.

Falei-lhe do nosso Blogue e aqui está a sua reacção após a consulta ao mesmo.

Achei interessante enviar-vos para que possam sentir como a nossa obra pode ser importante e captar a atenção e o interesse de pessoas de várias origens e posicionamentos.

Um abraço!

Hélder Sousa
Ex-Fur Mil TSF


2. Texto do guineense Antero B.B.:

Amigo (...) Helder Sousa,

Acabei de fazer uma viagem de retorno (mental) à Guiné, através da leitura do Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné, que me assinalou.

Fiquei fascinado pela quantidade de informação, não apenas sobre as memórias do tempo da Guerra, mas também sobre a própria actualidade.

Fiquei com a penosa sensação de perda, por só hoje ter podido aceder ao Blogue. Mas, ele está lá, disponível, por isso, sinto-me redimido.

Sinceramente, quando me falou no assunto, não fazia a mínima ideia do que ia encontrar. Não tenho o hábito de consultar Blogues. Oiço falar de alguns, mas nunca tinha feito consulta (lembro-me de referências do Pacheco ao seu Blogue). Este é o primeiro e gostei da experiência, sobretudo pelo estilo, a linguagem desempoeirada e solta (honra seja aos Editores e aos autores dos textos). Um bom nível, no plano intelectual e cultural, atendendo ao objectivo e ao fim em vista.

Fiquei fascinado! E alguns assuntos comoveram-me, até pela sensação do realismo vivido, até por mim próprio.

Como estava a trabalhar num assunto, acedi ao Blogue, na intenção de fazer uma breve visita de reconhecimento.

Depois, comecei a ver imagens, mapas, temas de actualidade: por ex., tentativa de imigração de Jovens Africanos, em pirogas precárias, em direcção às Canárias), troca de informações entre Camaradas, nomeadamente, o depoimento do Fur Mil (se não erro na citação) João Godinho, a pedido de um membro da Tertúlia, sobre o caso dos
Majores no chão Manjaco, com relato e descrição de pormenor. Acho que o texto é do dia 19 de Janeiro de 2007.

E tudo é feito com tal espontaneidade que o autor da recolha do depoimento termina dizendo que o entrevistado (Fur Mil João Godinho) ficou de ir procurar lá em casa a cópia do Relatório que elaborou sobre o caso, que é, sem duvida, um dos grandes episódios históricos da Guerra Colonial. Assim, também, o esclarecimento de que o General Ramalho Eanes não esteve no local do fatídico evento, confirmando-se a presença do General Comandante-Chefe António de Spínola e a sua reacção de extrema comoção perante o sucedido.

Achei altamente louvável (e, do propósito anunciado, se pode avaliar o alto nível dos intervenientes, Membros da Tertúlia, nomeadamente dos editores) o objectivo definido: contar em primeira pessoa a História, em que foram participantes, e não deixar que fosse qualquer historiador da esquina (acrescento meu) a vir contá-la, em segunda ou 3ª mão, como bem lhe aprouvesse.

Em vez de uma visita de reconhecimento (queria eu dizer), embrenhei-me na leitura de vários temas durante mais de duas horas. Uma tentação irresistível! Pelo realismo e a coragem (caso dos Majores) de trazer a verdade ao público, com toda a responsabilidade que isso implica.

Para a verdadeira História da Guerra Colonial, seja na perspectiva do nosso País, seja da Guiné-Bissau, o Blogue constitui, por aquilo que já consegui ler (o conteúdo é vastíssimo), uma fonte de informação extremamente importante, um contributo valioso para os estudos que especialistas e o público em geral terá interesse em empreender.

O meu Muito Obrigado! pela informação sobre a vossa iniciativa. Vou continuar, doravante, a ser um visitante interessado ao Blogue.

Parabéns, pelo cuidado posto na edição, pela clareza e objectividade, no tratamento dos temas. Vi inclusive um mapa militar com traçados do que julgo ser pontos de referência de interesse militar, na época, com referências a estradas antigas e a nova estrada em construção (naquele tempo, claro), na região de Bambadinca, etc.

Gostei. Uma experiência interessante!

Lisboa, 2007.12.02

Antero B. B.

____________

Nota de L.G.:

(1) Vd post de 11 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1652: Tertúlia: Três novos candidatos: José Pereira, Hélder Sousa e Jorge Teixeira

(...) Chamo-me Hélder Valério de Sousa, vivo actualmente em Setúbal, fui Furriel Miliciano de Transmissões, do STM, cumprindo a comissão de serviço na Guiné entre 9 de Novembro de 1970 e 10 de Novembro de 1972, tendo estado cerca 7 meses em Piche (contemporâneo do BCAV 2922) e o resto da comissão ao serviço do Centro de Escuta e de Radiolocalização do Agrupamento de Transmissões da Guiné (...).

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Guiné 63/74 - P2399: Tabanca Grande (47): Manuel Traquina, ex-Fur Mil, CCAÇ 2382 (Buba, 1970/72)

Manuel Traquina ex-Fur Mil, CCAÇ 2382,
Buba, 1968/70

1. Mensagem do nosso camarada Manuel Traquina em 23 de Novembro de 2007

Memórias da Guera da Guiné

Exmo. Sr. Luís Graça:

O meu nome é Manuel Batista Traquina e resido em Abrantes.

Com o posto de Furriel Miliciano fui combatente na Guiné, no período 68/70, na região de Aldeia Formosa e Buba.

A minha Companhia era a CCAÇ 2382 que saiu do RI2 em Abrantes em Maio de 1968, juntamente com as CCAÇ 2381 e CCAÇ 2383 (Companhias Independentes).

Quando da minha permanência na Guiné fui escrevendo alguns episódios que achei relevantes, outros a memória guardou.

Porque esta guerra me marcou, sob o título Memórias da Guerra da Guiné, em 2005 iniciei uma publicação no Jornal de Abrantes; foram cerca de cinquenta pequenos artigos publicados acerca desta guerra, alguns acompanhados de fotografias.
Fruto destas publicações muitos ex-combatentes me contactaram e me manifestaram o seu apoio, alguns também eles tinham trilhado os mesmos caminhos. Encaro a hipótese de um dia publicar um pequeno livro.

Anualmente no primeiro Sábado do mês de Maio, reunimo-nos no habitual almoço de convívio; muitos dos elementos da Companhia não têm comparecido, aguardamos que os faltosos se juntem a nós, é sempre agradável quando aparece um de novo.

Gostaríamos um dia de nos reunirmos com os militares da CCAÇ 2381, bem como da CCS do BCAÇ 2834, que na Guiné bastante tempo estiveram connosco em Buba.

De igual modo gostaria que o meu nome passasse a fazer parte da Tertúlia.

Com os meus melhores cumprimentos, e um abraço para todos os ex-combatentes da Guiné

Manuel Batista Traquina

2. Em 25 de Novembro era enviada esta mensagem ao Manuel Traquina

Caro camarada Manuel Traquina:

É para nós uma alegria quando um ex-combatente da Guiné se quer juntar à nossa Tabanca Grande. Claro que és bem-vindo. Considera-te já parte da família.

Queremos que envies para já as fotos destinadas à nossa fotogaleria mais ou menos em tipo passe, uma dos teus tempos de Guiné e outra de agora. Esperamos que nos envies, para publicação no nosso blogue, algumas das tuas estórias, para que possamos partilhar das tuas experiências. Poderás enviar juntamente algumas fotos para as ilustrar.

Consulta a nossa página da Tertúlia onde terás uma panóplia de informações e fotos diversas.

Uma das normas da casa é que nos tratamos todos por tu. Se bem te lembras, entre camaradas não há tratamento de excepção.

Ficamos a aguardar notícias tuas e contamos contigo no próximo encontro dos tertulianos do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.

Recebe um fraternal abraço da malta,

O camarada Carlos Vinhal

3. Em 23 de Dezembro recebíamos esta mensagem do nosso camarada

Junto envio as fotos destinadas à fotogaleria, esta dos tempos de guerra foi tirada no Quartel General em Bissau.

Achei uma certa piada ao nome de Tabanca Grande.

Como já referi estive na zona de Aldeia Formosa, Buba e cerca de três meses em Bissau.

Neste momento sou aposentado, ex-funcionário do Instituto de Emprego e Formação Profissional, a residir nesta cidade de Abrantes, e estou a trabalhar no livro Memórias da Guerra da Guiné que pretendo publicar no próximo ano.

Recebe um abraço e votos de Boas Festas, extensivos a todos os camaradas da Guiné

Manuel Batista Traquina
Telf. 241107046
Ex-Furriel Mil.
C.Caç 2382
Buba 1968/70

4. Comantário do co-editor CV

Caro Manuel Traquina, estás oficialmente apresentado à nossa Tabanca Grande.
Desejamos-te os maiores êxitos na tarefa que tomaste em ombros de elaborares e editares as tuas Memórias da Guerra da Guiné.


Pessoas como tu, que irão deixar memória deste pedaço da História do Portugal do Século XX em que fomos protagonistas involuntários, são importantes para o conhecimento das futuras gerações.

Bem-vindo, camarada

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Guiné 63/74 - P2398: Evocando os furriéis da 1ª CCA, João Uloma e Carlos França : Acreditas que ainda sonho com aquela cabeça ? (Jorge Cabral)

1. No dia 1 de Dezembro último, escrevi ao Jorge Cabral, que era o régulo de Fá Mandinga, quando a 1ª Companhia de Comandos Africanos se instalou, naquela localidade da Zona Leste (Sector L1, Bambadinca), aquando da sua formação. Recorde-se que o Jorge Cabral, ex-Alferes Miliciano de Artilharia, foi o comandante do Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71, e é autor da série Estórias Cabralianas.


Jorge: Como vais tu, querido amigo ?

Precisava que me identificasses o médico, periquito, que chegou à tua tabanca, Fá, com destino à 1ª Companhia de Comandos Africanos (CCA), em finais de 1969 ou princípios de 1970 (mais provavelmente, 1º trimestre de 1970) (1)... Eu estava lá, nessa noite, com o Capitão instrutor, o teu amigo Latérguy (que morreu há tempos) (2), quando ele chegou... Fizeram-lhe uma recepção à maneira, à comando, com fogo real, para o acagaçar... Estavas lá nessa noite ? Já não me lembro....

Julgo que era o Carlos França, médico, hoje especilialista em cuidados intensivos (pelo menos, vejo o seu nome associado a: Hospital de Santa Maria, Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos, Revista Portuguesa de Medicina Intensiva )...

Em 10/4/1981, saiu no semanário O Jornal um artigo - no dossiê "Memória da Guerra Colonial" (em que eu colaborei muito, com o saudoso Afonso Praça, da redação do jornal, inclusive deixei com ele muita documentação, que hoje gostaria de recuperar...) – sob o título "Arame farpado em tempo de massacre". Era assinado por Carlos França, que residia então em Oeiras...

Será o mesmo, o médico ?... Faz referências detalhadas ao Furriel felupe, Uloma, e à suas colecção de 32 cabeças.... Deves ter lido o artigo... Recordo-me de termos falado sobre isto na altura... Tu tentaste-me explicar o inexplicável, que era o comportamento do comando felupe Uloma, teu amigo... Sei que discutimos isso à luz do relativismo cultural e das cumplicidades tácitas da hierarquia de um exército de um país da NATO, civilizado... Foi então que retomámos os nossos contactos. Não nos víamos desde a Guiné.

Eis um excerto do citado artigo do Carlos França:

(...) Havíamos de sonhar, em longas noites de hospital, com tudo aquilo. Era barulho em náusea, com cheiro a 'Petidina' e pensos gangrenados, entre duas anestesias de ocasião.

Quanta insónia e, meu Deus, que tempo perdido, e que arrepio ao ver ainda o felupe 'Uloma', uma montanha de carne, automatizado no 'ronco' de matar, contar as cabeças inimigas do PAIGC.

Fazia colecção e era o seu 'curriculum' de guerrilheiro. Trinta e duas, conteu eu, expostas como troféus de guerra, circuito obrigatório, quase turístico de todos os militares que por lá passavam (...).



Um cabo da CCAÇ 12, o Encarnação, o nosso fotógrafo de serviço, tirou fotografias do Uloma com uma das suas cabeças, acabadas de cortar, numa operação a norte do Rio Geba, se não me engano... Terá sido numa das primeiras saídas da 1ª Companhia de Comandos Africanos, ainda no tempo do BCAÇ 2852...

Isto passou-se na parada de Bambadinca, fomos todos testemunhas (incrédulos mas passivos) da chegada do herói... Dizia-se, na altura, que a cabeça era de um pobre camponês que, em zona controlada pelo PAIGC, cultivava pacificamente a sua bolanha... As fotos (e os negativos) desapareceram, rapidamente, por ordem do comando de Bambadinca, que ficou extremamente nervoso com o insólito da situação...

Em resumo: Lembras-te do Carlos França ? Deve ser o mesmo da medicina intensiva, não ?... Vou tentar contactá-lo, a partir do Hospital de Santa Maria e da SPCI... Já agora, vou perguntar também aos nossos médicos do blogue, o Amaral Bernado e o Mário Bravo (... que são do Porto) se o conhecem ou conheceram... O Beja Santos não sei se já o apanhou... em Bambadinca... Talvez.

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Susana > 8 de Julho de 2007 > Antigo aquartelamento das NT > A espada felupe estilizada, onde se encontrava o mastro da bandeira (portuguesa).

Foto: © Pepito/ AD - Acção para o Desenvolvimento (Bissau) (2007)

2. Resposta do Jorge Cabral, em 3 de Dezembro último:

Querido Amigo,

Estive efectivamente na guerreira recepção do Médico Periquito, que ocorreu em Março de 70, tendo sido eu aliás, um dos mais entusiasmados. Era segundo creio, o Dr. Vasconcelos, homem de esquerda, que me tratou várias vezes e me salvou quando jejuei trinta dias, a conselho do meu assessor feiticeiro, o Nanque (3). Tenho quase a certeza, que ele também foi a Conacri [, no âmbito da Op Mar Verde, sob o comando de Alpoím Galvão]. A fotografia do Uloma (4), com a cabeça, foi tirada no Cais de Bambadinca, tendo tido um exemplar, que ofereci ao Padre Puim.

É das imagens que ainda não consegui esquecer. Naquela tarde, eu estivera com o Major Leal de Almeida [, supervisor da 1ª CCA,], em Bambadinca, a beber uns copos, antes de ir esperar os Comandos, à bolanha do Finete. E foi aí, que deparei com a cena. Primeiro olhei, e não acreditei.
- Quanto mortos fizeram ? - perguntou o Leal de Almeida.
- Dois confirmados - respondeu o Saiegh (6).
- E um confirmadíssimo! - retorquiu o Major.

O Uloma levou a cabeça para Fá, o que causou quase uma sublevação dos meus soldados que, nessa noite, se recusaram a dormir no quartel. Claro que conheci muito bem o cortador de cabeças, o qual de vez em quando era acometido por crises nervosas. Para o acalmar, matava-se uma galinha, derramando o sangue, sobre a sua cabeça.

Quanto ao mencionado França que escreveu no O Jornal, sempre o identifiquei com o furriel do mesmo nome, com quem convivi em Fá. Pertencia à Companhia de Comandos Africanos.

Penso que ficcionou um pouco, ao falar das 32 cabeças. Só se o Uloma as tivesse na sua Tabanca. Segundo o próprio me contou, cortada a cabeça do inimigo, a mesma era colocada na bolanha, de molho, e só depois uma parte dos miolos era comida... Obviamente que esta cerimónia acontecia em chão Felupe (4).

Parece, Querido Amigo, que tenho material para muitas estórias cabralianas.

Grande Abraço
Jorge

P.S.: Acreditas que ainda sonho com aquela cabeça?...

________

Notas de L. G.:

(1) Vd. post de 11 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri (Luís Graça)

(2) Barbosa Henriques, que foi instrutor da 1ª CCA:

Vd. posts de:

19 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1536: Morreu (1)... Barbosa Henriques, o ex-instrutor da 1ª Companhia de Comandos Africanos (Luís Graça / Jorge Cabral)

19 de Março de 2007> Guiné 63/74 - P1611: Evocando Barbosa Henriques em Guileje (Armindo Batata) bem como nos comandos e na PSP (Mário Relvas)

(3) Vd. post de 3 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P836: Estórias cabralianas (10): O soldado Nanque, meu assessor feiticeiro

(4) Vd. post de 1 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2397: Cusa di nos terra (12): Susana, chão felupe - Parte VII: O guerreiro João Uloma (Luís Fonseca)

Vd. posts desta série, da autoria do Luís Fonseca, ex-Fur Mil Trms (CCAV 3366/BCAV 3846, Susana e Varela, 1971/73):

15 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2052: Cusa di nos terra (5): Susana, Chão Felupe - Parte I (Luís Fonseca)

31 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2074: Cusa di nos terra (6): Susana, Chão Felupe - Parte II: Religião (Luís Fonseca)

5 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2081: Cusa di nos terra (7): Susana, Chão Felupe - Parte III: Trabalho, lazer, alimentação, guerra, poder (Luís Fonseca)

16 de Setembro de 2007 >Guiné 63/74 - P2110: Cusa di nos terra (9): Susana, Chão Felupe - Parte IV: Mulher e Comunitarismo (Luís Fonseca)

6 de Outubro de 2007 >Guiné 63/74 - P2156: Cusa di nos terra (10): Susana, Chão Felupe - Parte V: Casamento (Luís Fonseca)

25 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2215: Cusa di nos terra (11): Suzana, Chão Felupe - Parte VI: Princípio e fim de vida (Luís Fonseca)

Sobre os felupes, vd. ainda a excelente página do nosso amigo e camarada Carlos Fortunato, que lidou com balantas e felupes, considerando semore estes superiores àqueles, como guerreiros: Guiné - Os Leões Negros > CCAÇ 13 > Bolama > Felupes(...)

(...) Adversários temíveis, os felupes possuem elevada estatura e grande robustez física. São referidos como praticantes do canibalismo no passado, são coleccionadores de cabeças dos seus inimigos que guardam ou entregam ao feiticeiro, e usam com extraordinária perícia arcos com setas envenenadas.

Embora se assegure que o canibalismo pertence ao passado, não era essa a opinião das restantes etnias, as quais referem igualmente que estes fazem os seus funerais à meia noite, pendurando caveiras nas copas das arvores, e dançando debaixo delas. O felupe é conhecido como pouco hospitaleiro para com as restantes etnias, pelo que existe da parte destas um misto de animosidade e desconhecimento.

Os felupes são igualmente grandes lutadores, fazendo da luta a sua paixão. Este desporto tão vulgarizado nesta etnia, prende-o, empolga-o, constituindo o mais desejado espectáculo (...).


(5) Ex-Alf Mil Capelão Puim, da CCS do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), vd. posts de:

5 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1925: O meu reencontro com o Arsénio Puim, ex-capelão do BART 2917 (David Guimarães)

17 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1763: Quando a PIDE/DGS levou o Padre Puim, por causa da homília da paz (Bambadinca, 1 de Janeiro de 1971) (Abílio Machado)

(6) Zacarias Saiegh, ex-Fur Mil do Pel Caç Nat 52, ainda no tempo do Beja Santos, e depois Alferes, Tenente e Capitão da 1ª CCA. DE oriegm sírio-libanesa, já foi aqui evocado várias vezes, nomeadamente pelo Mário Beja Santos que com ele privou, em Missirá. Vd. posts de:

15 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLIII: O Malan Mané estava vivo em Novembro de 1969 e eu abracei-o (Torcato Mendonça)

(...) O Zacarias Saiegh [da 1ª Companhia de Comandos Africanos] foi meu amigo. Era um homem extraordinário, ele e outros que foram meus camaradas e foram fuzilados. Nunca os esqueço e não sei perdoar (...).

23 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXXIV: Lista dos comandos africanos (1ª, 2ª e 3ª CCmds) executados pelo PAIGC (João Parreira)

19 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1038: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (6): Entre o Geba e o Oio, falando do Saiegh e dos meus livros

(...) Saiegh na véspera, depois do jantar, dera-me um sinal de cortesia levando-se ao seu abrigo para bebermos um uísque. Olhando à volta do seu ambiente privado, vi frascos que me lembraram aqueles que se encontram nos laboratórios de biologia. Vendo-me intrigado, sopesando as palavras mas atirando-as a frio, esclareceu-me:
- São restos dos meus despojos. Aproveito sobretudo orelhas.

Aclarei a voz e fui cortante:
- Saiegh, ainda nada sei desta guerra, mas asseguro-lhe que a partir de hoje não haverá despojos humanos, nem relíquias nem troféus. Não trago ódios nem os vou despertar. Recordo-lhe que esta disposição é irrevogável.

Os olhos de Saiegh cuspiram fogo, mas ele conteve a dimensão da chama. Com o tempo, virei a saber que este descendente de sírio-libaneses também se movia por razões raciais, independentemente dos seus interesses económicos têm sido profundamente afectados pela luta de guerrilhas. O nosso conflito estava armado, mas passados estes anos todos reconheço que ele me deu uma colaboração exemplar, apagando-se progressivamente do mando e da decisão militar. Irei chorar amargamente no dia em que soube do seu fuzilamento (...).


16 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1081: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (11): Matar ou morrer, Saiegh ?

(...) Em meados do mês de Agosto, regressávamos do abastecimento em Bambadinca quando o Saiegh me mostrou triunfante, enquanto esperávamos a piroga, as insígnias em plástico que ele concebera para o Pel Caç Nat 52: era uma coisa assim apiratada com caveira e tíbias, um verde fluorescente e a frase "Matar ou Morrer". O meu olhar gelou e o Saiegh não resistiu a dizer-me: - Já vi que não gosta. Será por a iniciativa ser minha? (...).

30 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2317: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (11): O fantasma de Infali Soncó

(...) Na Casa Gouveia[, em Bissau,] compro chá e vou ao mercado com a lista na mão para satisfazer os pedidos dos meus soldados. A partir de agora e até jantar com Saiegh ando a cheirar a especiarias. Durante a tarde, procuro encontrar o Botelho de Melo, o meu milagroso oftalmologista, para lhe dizer que espero partir amanhã logo após a consulta do dentista, mas escreverei logo que saiba quando vier a Bissau.

O encontro com o Saiegh é muito agradável, tão agradável que vamos a pé pela estrada de Santa Luzia, onde nos despedimos prometendo eu uma visita a Fá, dentro de semanas. Tal nunca veio a acontecer, estou a despedir-me do Saiegh pela última vez, guardo o seu sorriso e a sinceridade da sua estima, tudo me vem à lembrança no dia em que soube do seu fuzilamento, oito anos depois (...).
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