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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27970: Fotos à procura... de uma legenda (203): Um "mininu" chamado Adão Doutor


Guiné >  > Zona do Cacheu > Bigene > c. 1966/67  > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o  médico, "tuga",  que a assistiu no porto. A mulher parece ser do grupo étnico diola, djola ou jola / felupe

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A foto é do nosso camarada 
Adão Cruz, médico cardiologista, reformado,  ex-al mil médico,  CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68); nasceu em Vale Cambra, em 1937; poeta, escritor, pintor, com diversos livros publicados e exposições em Portugal e no estrangeiro; membro da nossa Tabanca Grande desde 27 de junho de 2016; tem mais de 240 referências no blogue; é autor das séries "Contos ser e náo ser" e "Memórias de um médico em campanha".

A CCaç 1547 / BCAÇ 1887 desembracou em Bissau, com o resto do pessoal do seu batalhão em 13 de maio de 1966, seguindo de imediato para  Fá Mandinga, a fim de efectuar a IAO (instrução de aperfeiçoamento operacional) sob orientação do BCaç 1888, substituindo a CCav 702 na função de intervenção e reserva daquele sector, e tendo tomado parte em operações na região de Xitole e no baixo Corubal.

 De 27 de maio de 1966  a 7 de junho de 1866, foi entretanto deslocada, temporariamente, para Nova Lamego, em reforço do BCaç 1856, em virtude de um previsível agravamento da pressão inimiga neste sector, tendo efectuado acções na região de Pataque e outras.

Em 13 de setembro de 1966, recolheu a Bissau, a fim de seguir para Bula, para realização de uma operação na região de Jol, sob dependência do BCav 790.

Em 27Set66 foi colocada em Bigene, tendo assumido a responsabilidade do respectivo subsector, com um pelotão destacado em Barro, em substituição da CCaç 762 e ficando então integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão.

Em 29 de 0utubro de 1967, foi rendida no subsector de Bigene pela CArt 1745 e seguiu para Bissau, a fim de substituir a CCaç 1497 a partir de 2 de novembro de 1967 no dispositivo de segurança e protecção das instalações e das populações daquela área, sob ependência do BArt 1904 e depois do BCaç 2834. 

Manteve-se em Bissau até ao embarque de regresso, em 25 de janeiro de 1968,  tendo, entretanto, destacado um pelotão para Nhacra, em reforço da guarnição local.


Comentário do editor LG:

A fotografia e o testemunho do nosso camarada Adão Cruz dizem muito mais do que aparentam à primeira vista. Parece haver ali uma tensão silenciosa entre dois mundos: um médico miliciano, jovem, deslocado pela força de uma guerra que ele próprio rejeita, segurando nas mãos um recém-nascido (terá uns escassas semanas, talvez um mês e pouco de vida), símbolo absoluto de vida, no meio de um cenário que, no fundo, era (ou poderia viver a ser em qualquer momento) um palco de guerra, um cenário de morte organizada. 

Ali está um criança, vitoriosa, que sobrevive ao parto e ao primeiro mês de vida... O gesto de levantar o bebé é quase ritual. Não é só clínico, é um gesto humano, de triunfo da vida sobre a morte. É como se a imagem nos dissesse: “apesar de tudo, a vida continua”. 

E depois há o nome, esta maravilha: "Adão Doutor"!...  Nome, espontáneo, que lhe deu a jovem mãe,  fula, ao seu menino. É uma forma de reconhecimento profundo por parte dela: não é apenas gratidão, é também uma espécie de inscrição simbólica daquele nosso camarada na origem daquela vida. Como se ele tivesse participado não só no parto físico, mas no próprio destino da criança, há 70 anos atrás.

A presença da mulher,  ao lado,  digna, firme, composta, com o seu extenso e lindo colar (e por baixo dos panos que lhe cobrem o corpo, os amuletos protetores), deve merecer especial atenção.

Não está submissa nem apagada,  está ali como sujeito, pro direito próprio, como mulher, como mãe, como pessoa inteira. O olhar dela parece mais difícil de ler do que o do médico (embora ambos estejam viarados para o sol). Carrega  em todo o caso uma experiência que não está escrita, mas onde se adivinha dureza e sofrimento, mas também orgulho e dignidade.

E depois, quando lemos o texto do nosso Adão Cruz, tudo encaixa. Ele recusa a narrativa heroica clássica: não há medalhas, não há pátria exaltada, não há glorificação dos senhores da guerra. Há sofrimento, há dúvida, há humanidade. 

Isso dá ainda mais peso à imagem. Porque percebemos que aquele gesto não era exceção: era coerente com quem ele era, com o que ele pensava e sentia.  A sua guerra era outra: cuidar, salvar, ensinar, reconhecer o outro como igual, uma forma de resistência ética.

E aquela frase final dele (de que aqueles dois anos “valeram vinte”) é muito típica de quem passou por experiências-limite. Não é glorificação da guerra; é reconhecimento de que ali se viveu tudo em estado bruto, sem filtros.

(...) Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou. (...)

 Ficamos na dúvida se a mãe é fula ou felupe (**).   As populações da Guiné, muitas vezes apanhadas entre duas forças anatgónicas, tiveram uma experiência particularmente complexa — ora vistas como colaborantes, ora suspeitas, ora simplesmente vítimas. E aqui temos  uma mulher, guineense,  que entrega o seu corpo e o seu filho aos cuidados de um médico militar português. Isso não era banal e algumas, por interditos culturais, de origem religiosa ou não, recusavam-se a ser vistas pior um médico "tuga". 

É um gesto de confiança num contexto onde a confiança era um bem raríssimo (**).

A fotografia, assim, ganha outra densidade:  n
ão é só mais uma criança que nasceu, é um momento de suspensão da guerra; não é só um médico militar, no exercício das suas funções de prestador de cuidados à população; não é só uma mãe, é uma mulher que atravessa o medo e decide confiar.

E o nome "Adão Doutor" torna-se ainda mais forte. Em muitas culturas da África Ocidental, dar o nome exótico (ou uma "alcunha")  ( Adão Doutor, Alfero Cabral, Capitão Fula, Tchombé,  José Manuel Sarrico Cunté,  José Carlos Suleimane Baldé, Nuninho,  Alicinha...)  é um acto profundamente simbólico, não é um capricho, é uma forma de inscrever relações, acontecimentos, memórias. Aquele nome fixa para sempre o encontro entre dois mundos naquele instante concreto.

É um  detalhe cultural (o nome “tuga” dado, em geral,  por agradecimento ou veneração) que bate certo com muitos testemunhos da época na Guiné: o nome funcionava quase como marca de relação, proteção simbólica ou memória do acontecimento.

A foto é de meados da década de 60, em pleno "consulado" de Arnaldo Schulz,o governador que não era propriamente uma figura carismática, popular e empática... Pelo menos, se comparada com António Spínola, o "Caco Baldé".

E há algo que nos fica a martelar: o alferes miliiciano médico, que não recusou a guerra,  não foi desertor, diz que não se considerava combatente... Mas nesta imagem há uma forma de combate, talvez a mais difícil: combater a desumanização.

Esta foto  tem, portanto, “lastro humano”, como dizem os especialistas de fotografia. E, sendo do Adão Cruz, ganha ainda outra espessura.


2. Perguntarão os leitores: que idade terá esta criança, ao certo ? Quantos dias, semanas ou até meses? E esta "cena" deve passar-se em Bigene, takvez no início de 1967...

Esta criança não é um "recém-nascido"... Terá já algumas semanas, até um mês e picos...Já usa adornos e amuletos. É um rapaz. A mãe vem agradecer ao médico, militar, português, Adão Cruz, a ajuda no parto. Não sabemos se é fula, muçulmana, ou de outra etnia: a zona era já de miscigenação (e hoje há balantas, balantas manés, mandinga, fulas, djolas/felupes...).  Em agradecimento pôs o nome do "Adão Doutor" ao filho. Era frequente dar nomes "tugas" às crianças que nasciam em zonas com quartéis. 

Analisando a foto com a ajuda de um ferramenta de IA, pode concluir-se que, de facto,  não se trata propriamente de um "recém-nascido":
  • já tem bom controlo da cabeça (não totalmente firme, mas não é aquele tombar típico de recém-nascido);
  • apresenta membros mais “cheios”, já com alguma gordura subcutânea;
  • a pele não tem aquele aspeto enrugado ou descamativo dos primeiros dias;
  • parece alerta e reativo, não em postura fetal;
  • já usa amuletos/adornos, o que muitas vezes só acontece depois dos primeiros dias (às vezes após o nome ou rituais iniciais).

Tudo isto sugere claramente que não é um recém-nascido (0–2 semanas). Estimativa mais plausível: (i) entre 4 e 8 semanas de vida; ou seja, cerca de 1 a 2 meses. Se tivessemos de afinar mais, diríamos: por volta de 5–7 semanas.

Menos do que isso (2–3 semanas), seria provável ver menos firmeza corporal. Mais do que isso (3 meses), o bebé tenderia a parecer ainda mais robusto e com outra expressão muscular.

Estivemos a reler o primeiro poste que o Adão Cruz publicou no nosso blogue, e não há dúvida, o seu "primeiro parto" no CTIG aconteceu em Bigene, mais provavelemente no 1º semestre de 1966  (**):

(...) Foi  rápida a aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca acerca de infec­ções e higiene, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de ponta a ponta a minha sebenta de obstetrícia e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim.

Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

- Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?... A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de Adão Doutor. (...)



 3. Gostaríamos que os nossos leitores acrescentassem, na caixa de comentários, a sua própria legenda, sucinta, espontânea... Não há legendas certas nem erradas. Deixemo-nos levar pela memória, pela emoção.

Pode ser qualquer coisa como "Bigene, c. 1966/67: 'Adão Doutor entre a guerra e a vida, um instante suspenso". Mas eu espero que o nosso Cherno Baldé nos dê uma ajude... Nesta época ele já era um djubi com cinco ou seis anos feitos, o "Chico de Fajonquito"...

Um jovem médico militar português segura um recém-nascido, nu, que terá   chegado ao mundo há pouco tempo. Já ostenta adornos e seguramente amuletos. Ao lado, a mãe mantém-se de pé, firme, inteira, com a dignidade de quem acaba de atravessar uma fronteira invisível entre a vida e a morte.

O cenário é Bigene no norte da Guiné, junto à fronteira com o Senegal. Zona de tensão, de passagem, de incerteza. Zona de guerra.
 
E, no entanto, nesta imagem não há guerra. Há um gesto: o de levantar a criança, quase como uma apresentação ao mundo, há um olhar: o do médico, onde se cruzam cansaço e cuidado; e há um nome que ficou: “Adão Doutor”.

 O autor da fotografia e protagonista da cena, hoje quase nonagenário, recusou sempre a ideia de ter sido “combatente”. Disse de si próprio que apenas combateu a doença e a injustiça. E talvez esta imagem seja a melhor prova disso.

Num tempo em que a linguagem da guerra tende a apagar os pequenos gestos (mais ternos e mais íntimos), esta fotografia devolve-nos uma evidência simples e desarmante: mesmo nos lugares mais improváveis, a vida existe, insiste, persiste. (***)

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT, Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)

(**) 25 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16235: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (1): O Parto - ou o nascimento do Adão Doutor em Bigene
 
(***) Último poste da série > 29 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27869: Fotos à procura de...uma legenda (202): No Dia Mundial da Poesia e da Árvore (Joaquim Pinto de Carvalho, régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)


O primeiro parto que fiz na Guiné. A mãe registou o bébé com o nome de Adão Doutor

1. Mensagem do nosso camarada e amigo Adão Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68, com data de 27 de Abril de 2026:

Estive ontem em Vale de Cambra, na apresentação do livro “Guerra do ultramar, combatentes de Vale de Cambra", cujo autor é o amigo Professor Martinho Almeida. Tenho uma pequena colaboração no livro, da qual já não me lembro. Infelizmente, por razões pessoais, fui obrigado a abandonar a sessão, tendo ouvido, ainda, o apresentador do livro, cuja palestra achei correcta e historicamente fidedigna. Perdi, com pena, a intervenção do autor, que presumo ter sido importante.

Sendo um dos ditos “combatentes”, e tendo uma visão provavelmente bem distante das centenas de pessoas que encheram a sala, gostaria de deixar aqui a minha posição. Fui um dos primeiros a serem mobilizados no concelho de Vala de Cambra, para a guerra colonial da Guiné-Bissau, como médico. Princípios de 1966 até ao fim de 1967. Queria dizer que fui empurrado à força para uma guerra que nada me dizia, uma guerra cruel, injusta e criminosa como são todas as guerras coloniais. Não me considero combatente de nada nem de ninguém. Apenas combatente da doença e da injustiça.

Não levei agarradas a mim qualquer honra ou qualquer pátria. A minha missão e o meu dever resumiam-se curar doentes, militares e nativos, a salvar o maior número de vidas possível e a procurar encontrar os melhores resultados de uma verdadeira acção pedagógica e psico-social. Estive sempre no mato, na linha da frente, quer no leste da Guiné quer no norte. Sofri muito. Sofri muito com as perdas dos nossos soldados, sofri com as perdas das milícias e dos seus familiares, sofri com a pobreza e a desgraça dos nativos e também dos próprios guerrilheiros, a quem nunca chamei nem seria capaz de chamar “turras”.

No fim de contas, e de forma resumida, cheguei à conclusão de que a vida é uma sucessão de acasos, o que leva a que seja muito difícil dizer o que se perde ou que se ganha. Neste caso, com a obrigação de cumprir o serviço militar, não sei bem o que perdi, mas sei o muito que ganhei em experiência de vida com esta guerra tão dura e cruel. A Guerra Colonial, onde quer que se tenha dado, onde quer que se dê ou venha a dar é sempre um crime contra a humanidade e a soberania dos povos, decorrente de outro histórico crime, o colonialismo, por sua vez pai do neocolonialismo e do imperialismo.

Não posso dizer que sinto saudades da minha vida na guerra, longe disso, mas é impossível não ter recordações. A guerra ainda hoje arranca dentro de mim uma espécie de nostalgia estranha, um rebuscar no fundo do tempo o sentido do sangue que corria nas veias, uma sensação de perda profunda, semente de uma vida que até hoje aceitámos como vitória. 

Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou.
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Nota do editor

Último post da série de 18 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27833: (In)citações (285): Somos camaradas, mas somos mais do que isso, somos amigos! Somos assim camaradas e amigos, ou seja, somos camarigos! (Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro)

sábado, 25 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27950: Efemérides (386): O 25 de Abril é um poema universal (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547)


25 DE ABRIL, FLOR SEM TEMPO

adão cruz

O Vinte e cinco de Abril é um poema universal. É muito difícil entender a alma quase cósmica dos valores, dos princípios, e dos magníficos versos deste profundo poema. Recordar o 25 de Abril não é relembrar apenas o facto concreto de um golpe militar e de uma revolução popular, com mais cartazes ou menos cartazes, mais canções ou menos canções, ainda que de iniciativa extremamente louvável. Recordar e comemorar Abril é ensinar em tudo quanto é lugar, na escola, na rua, no trabalho, que o 25 de Abril foi um portentoso fenómeno universal de iluminação das consciências, de abertura das catacumbas fascistas, um glorioso hino à liberdade com repercussão e geração de profundas mudanças sociais e mentais não só em Portugal mas em todo o mundo.

O vinte e cinco de Abril foi um dos fenómenos político-sociais de maior importância pedagógica dentro de uma sociedade encarcerada em mitos, preconceitos, obscurantismos e grilhetas mentais que formataram e aviltaram a vida até meados do século passado. Os seus valores intrínsecos, mal-entendidos e mal interpretados por muita gente, mesmo gente de cultura, foram repensados e desenvolvidos ao longo dos anos e percorreram o mundo de lés-a-lés, reproduzindo-se como elevados conceitos de deveres, direitos, dignidade e justiça do cidadão do mundo. Mas este entendimento, infelizmente, apenas fazia parte daquela humanidade sonhadora, senhora da mentalidade saudável do homem sério, honesto e bem-intencionado. Pondo de lado a enorme ignorância, a incultura, o obscurantismo de qualquer espécie de que muita gente não era culpada, uma parte do mundo é feita de gente sem ponta de humanidade, sem consciência, sem honra nem dignidade, cultivando o ódio e a vingança, vivendo a corrupção e o deus dinheiro acima de tudo, o poder a qualquer preço, a guerra como instituição e a morte como indústria.

O 25 de Abril foi o mais importante fenómeno político-social da nossa história moderna. O mais fascinante renascer da vida de todos aqueles que tinham dentro de si a terra preparada para nascerem cravos. Foi uma rajada de vento estilhaçando as janelas do tempo e deixando entrar o futuro e os sonhos pela mão dos pequenos gestos de cada um de nós. Uma generosa pincelada de cor e de vida nas paredes gastas da existência, nas palavras desencantadas e nos rostos mortos da esperança. O abrir da madrugada que há tanto tempo se recusava a ser dia. A praça do entusiasmo era demasiado grande e a alegria brotava em cada esquina, entoando canções que ardiam no ventre da arte e da poesia. Eram muitas as certezas, ainda mais as incertezas e uma cândida ingenuidade brilhava em todos os olhos. Acreditava-se que neste pérfido mundo eram todos almas grandes, as únicas capazes de ultrapassar a fronteira para além da qual o homem adquire a dimensão da cidadania, da honra e da dignidade.

Ao calor do 25 de Abril se deve o germinar da revolucionária ideia de que é na relação com os outros que nós percebemos quem somos e que o sentido da nossa existência é o sentido da nossa coexistência. A maior conquista do 25 de Abril foi, de facto, o nascimento de uma necessidade crescente de sentir a beleza, o autêntico, a verdade, o gosto da vida para cada um e para todos, a solidariedade, a sede de saber e a consciência da soberania da liberdade e da justiça.

Comemoramos hoje os cinquenta e dois anos do nascimento de uma vida por que tanto lutámos. Mas é com alguma tristeza que penduramos o cravo na lapela e uma lágrima nos olhos. Não sabemos ao certo se é dor ou alegria o que sentimos, quando abrimos ao sol as portas de Abril e vemos os seus inimigos espumando de raiva ou comemorando com toda a desfaçatez a honrosa revolução que sempre odiaram. Não nos deixemos iludir com o que se passa na Assembleia da República, onde a hipocrisia é maior do que o monte de cravos ali aprisionados nesse dia.

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Nota do editor

Último post da série de 13 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27917: Efemérides (385): "Para o Adriano", poema do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27939: Humor de caserna (259): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXI: fui o fiel depositário do "caco" (o monóculo) quando o general foi ao dentista (Mário Bravo, cirurgião, ex-alf mil médico, CCAÇ 6, Bedanda, CCS/BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, HM 241, 1971/73)


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971/72> O alf mil médico Mário Bravo, à direita, de perfil, entre os furriéis da companhia... Boa disposição, boa música, bom uísque (a garrafa mais pequena era de Old Parr, uísque velho)... Os nomes dos furriéis já se varreram da memória do nosso médico...

O Mário Bravo não esteve mais do que 4 meses em Bedanda (entre dezembro de 1971 e março de 1972, com algumas saídas, pelo meio, até Guileje, Gadamael e Cacine)...mas guarda boas recordações dos bedandenses. A CCAÇ 6 era então comandada pelo jovem cap cav Carlos Ayala Botto, futuro ajudante de campo do gen Spínola, e membro da Tabanca Grande.

Depois de Bedanda, o Mário Bravo passou por Teixeira Pinto, ficando o resto da comissão no HM 241, em Bissau.

Foto (e legenda): © Mário Bravo (2013). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 (1972/73) >  Ao centro, o Mário Bravo, ladeado pelo alf mil Figueiral (à sua direita) e o alf mil Pinto Carvalho (à sua esquerda) (hoje nosso colaborador permanente para a área jurídica)...

Foto (e legenda): © Pinto Carvalho  (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto (ou Canchungo) > CCS/BCAÇ 3863 (1971/73) > >13 de janeiro de 1973 > Visita do gen  Costa Gomes, Chefe do Estado Maior das Forças Armadas.  O alf mil médico Mário Bravo é o primeior a contar da direita, de óculos,  no meio de um grupo de oficiais (pormenor); por sua vez, o António Graça de Abreu, alf mil do CAOP1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74) é o primeiro da esquerda.

Foto (e legenda): © Mário Bravo (2013). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Hoje cirurgião, ortopedista, reformado,  o Mário Bravo vive no Porto e já nos apareceu uma vez em Monte Real num dos Encontros Nacionais da Tabanca Grande.  

Já agora,  acrescente-se que, depois de sair de Bedanda, em março de 1972, passou por Teixeira Pinto,  até ser colocado  no Serviço de Estomatologia do HM 241, em Bissau, onde aprendeu a tratar da dentuça do Zé Tuga. Imaginem quem foi, num belo dia, sentar-se na cadeira do serviço de estomatologista ? Nem mais nem menos, o com-chefe e governador,  o gen Spínola (*)...

 
Fiel depositário do "caco" quando o senhor general foi ao dentista 

por Mário Bravo 


Gen Spínola, "Caco" ou "Caco Baldé"


Reatando a descrição da minha estadia na Guiné [, aonde cheguei em 20 novembro de 1971, tendo ficado cerca de 15 dias em Bissau], lá vão mais umas notícias e informações que poderão servir para encontrar algum camarigo esquecido ou perdido neste País.

Após saída de Bedanda [,na CCAÇ 6,  onde estive entre dezembro de 1971 e março de 1972, com visitas a Guileje, Gadamael e Cacine ], fui colocado em Bissau, [ no HM 241,] no serviço de Estomatologia (Medicina Dentária), para aprender a tirar dentes, pois era essa a nossa função. 

Nesse estágio, que foi orientado por um colega, médico, de Coimbra,  Negrão,  com o posto de capitão miliciano
 [, Luís Negrão, hoje neurologista] . O outro colega nesse estágio, também de Coimbra, chama-se João Barata Isaac  [, em 2000, era chefe de serviço de anestesiologia do Centro Hospitalar de Coimbra ]

Aproveito para contar um episódio ocorrido com o marechal Spínola [, na altura general]. Como todos sabemos, o marechal usava de modo constante um monóculo que era a sua imagem de marca. Um dia teve necessidade de consulta de estomatologia e lá foi ao Hospital Militar. Era sempre um momento de alguma confusão e eu lá estava a tentar aprender a tirar dentes.

É evidente que quem o tratou foi o Chefe, mas havia necessidade que alguém tomasse conta do monóculo [, o "caco",]   e logo me tocou a mim. É engraçado que senti aquele receio de ser o fiel depositário de tão solene objecto. Mas consegui não o deixar cair !!!

O Hospital Militar de Bissau era na época um exemplo fantástico de modernidade e eficácia.

Vou enumerar alguns médicos, colegas com quem convivi nesse período de tempo e até pode acontecer que algum venha a terreiro.

Começo por recordar com saudade um já falecido, o [prof Henrique] Bicha Castelo [ 1943-2025] , cirurgião de Lisbo
a [, precursor da cirurgia laparoscópica no Hospital de Santa Maria ] , e que operou o escritor António Lobo Antunes [, irmão do prof João Lobo Antunes,  escritor que lhe dedicou o seu livro "O Meu Nome É Legião", 2007].

Na Cirurgia estavam o Dr. Rodrigues Gomes (hoje fazendo parte da Fundação Gulbenkian), bem como o Dr. Calheiros Lobo, do Porto, e também falecido.

Na Ortopedia estava o Dr. Asdrúbal Mendes, do Porto e com quem trabalhei mais tarde nessa área. 

Muitos outros conheci, mas já não me recordo dos seus nomes.

Para ilustrar minha passagem por Bissau, junto umas poucas fotos, referidas a essa terra, de luxo, pois aí havia a possibilidade de viver um pouco mais sossegado e com algum conforto, inexistente no mato.

Quem é que não recorda aquelas deliciosas ostras do Café Bento - a chamada 5ª. REP - , bem regadas com umas bazucas !

As fotos vão em separado. (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)


Guiné > Bissau > 1972 > A "Casa dos Médicos"

Foto (e legenda): © Mário Bravo (2011).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Notas do  editor LG.:

(*) Último poste da série > 21 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)

(**) Vd. poste de 30 de janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7697: O Spínola que eu conheci (23): No serviço de estomatologia, no HM 241, e eu a segurar-lhe o monóculo (Mário Bravo)

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27917: Efemérides (385): "Para o Adriano", poema do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

A propósito da passagem dos 84 anos do nascimento de Adriano Correia de Oliveira, ocorrida no passado dia 9 de Abril, publicamos um poema do nosso camarada Adão Cruz, que lhe é dedicado, no meio de cujos versos aparecem títulos de algumas das canções do Adriano.

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA
(PORTO, 9 DE ABRIL DE 1942 - †16 DE OUTUBRO DE 1982)



PARA O ADRIANO

adão cruz

Nota: Este poema foi construido com versos meus e alguns títulos de canções do Adriano (a negrito).


E de súbito um sino
um cravo vermelho
Raiz de vida no céu de chumbo
aberto em dia limpo e perfumado.
E a carne se fez verbo
Por aquele caminho da esperança
às portas da cidade
E o bosque se fez barco
por aquele mar de sonho
na Trova do vento que passa.

Todo o mel escorria por entre As mãos
e todos os frutos do Regresso
eram versos de Uma canção sem Lágrimas
na Canção da nossa tristeza.
Graças a ti cravo vermelho
que venceste a solidão
veio o tempo ao nosso encontro
e a manhã abriu o coração
na Fala do homem nascido.

O sol perguntou à lua
quando A noite dos poetas se fez de estrelas
que desceram aos cantos do jardim
se eram cravos vermelhos
ou a Canção tão simples
da tua voz sempre divina
numa Cantiga de amigo.

O mundo tinha o sabor a maçã
não havia cárceres nem torturas
apenas o calor de uma fogueira
na praça do entusiasmo.
Os olhos de todos nós
eram cravos vermelhos
dormindo um sono de criança
entre As mãos da revolução.

Como hei-de amar serenamente
esta voz de Roseira brava
e os cabelos trigueiros desta seara
dourada pelo sol e pela lua
a Cantar para um pastor
a canção de Abril que encheu a rua.

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Nota do editor

Último post da série de 24 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27852: Efemérides (384): Foi há 10 anos que morreu (de verdade) o nosso querido "morto-vivo", o António da Silva Batista (1950-2016), ex-sold at inf da CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972), natural da Maia

domingo, 12 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27914: Humor de caserna (256): O anedotário da Spinolândia - Parte XXVIII: Do "Caco Baldé" ao "Aponta, Bruno" (José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70)


Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada do IN, o general Spínola,  com o seu ajudante de campo, o cap cav cmd João Almeida Bruno, 1935-2022, mais tarde general (e que deu origem a uma das diversas alcunhas do governador e comandante-chefe, "Aponta, Bruno"). 

Na foto, o Almeida Bruno (que faleceu em 10/8/2022, aos 87 anos), está de luvas e óculos Ray-Ban, empunhando uma G3.  O com-chefe, por sua vez,  está  também de luvas, e com o seu aristocrático monóculo. Estavam ambos em pleno local, onde se deu a emboscada, de que resultaram 2 mortos entre as NT (CCAV 2487 / BCAV 2868). 

A foto acima reproduzida (e editada pelo nosso blogue) é do Paris-Match nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...).


José Teixeira: (i) colaborador permanente (com o pelouro de Tabancas, Cooperação & Desenvolvimento ); (ii) ex-1.º cabo aux enf, CCAÇ 2381 (Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70); (iii) gerente bancário reformado, escritor,  vive em Leça do Balio, Matosinhos;  (iv) é um  histórico da Tabanca Grande (desde 14/12/2005); (v)  tem 460 referências no nosso blogue; (vi) cofundador e régulo da Tabanca de Matosinhos; (vii) é autor da série "Estórias do Zé Teixeira", de que já se  publicaram 65 postes, desde 31/12/2005  a 30/10/2024; (viii) é também autor da série "O meu Diário"...


1. O Zé Teixeira, além de ser um "histórico" da Tabanca Grande (foi dos primeiros camaradas a sentar-se, simbolicamente,  à sombra do nosso poilão...), foi também (e continua a ser) um profícuo, talentoso, ativo, proativo e bem-humorado autor de textos de memórias: por exemplo, nos primeiros mil postes que publicámos, 60 são dele  (entre dezembro de 2005 e  julho de 2006). 

O Zé Teixeira foi dos que acreditou na força, importância e viabilidade do nosso projeto bloguístico coletivo, como repositório (partilhado) de memórias de antigos combatentes da Guiné.  E o tempo deu-lhe razão. Tem sido também  dos mais "leais" grão-tabanqueiros. 

Estive com ele, na passada quinta feira, dia 9: fui a um velório de uma senhora amiga da família de Candoz, na igreja de Padrão da Légua, Matosinhos, perto da sua casa, e que ele de resto conhecia; dei-lhe um toque, apareceu logo a seguir, conversámos um pouco; anda compreensivelmente preocupado com uns problemas de saúde; espero que o prognóstico lhe seja favorável; quero voltar a ver-te,  Zé, em boa forma!)

Do poste P613, de 16 de março de 2006 (há 20 anos!), sob o título "Aponta, Bruno! (ou outra alcunha do Spínola) (Zé Teixeira)", voltamos a publicar uns excertos, que ficam muito melhor  nesta série "Humor de caserna >  O anedotário da Spinolândia" (*).

Esta "cena" deve ter-se passado  em Buba, em meados de 1969, quando os "Maiorais" (a CCAÇ 2381) estiveram particularmente empenhados na seguranç e proteção dos trabalhos de construção da estrada Buba - Aldeia - Formosa. Spínola tinha então 59 anos (!). Se fosse vivo faria hoje, 11 de abril, 106 anos. Nasceu em Estremoz em 11 de abril de 1910. Morreu, aos 86 anos, em 13 de agosto de 1996, no Hospital Militar de Belém, em Lisboa.
 

Alcunhas do Spínola: do "Caco Baldé" ao "Aponta, Buno"

por José Teixeira

 
  O Aponta, Bruno!... Aí vem o Aponta, Bruno !    dizia logo o pessoal quando se avistava o héli que o transportava.

Porquê ? Toda a zona de Buba, Nhala, Mampatá, Chamarra e Aldeia Formosa esteve uns tempos a comer, ao almoço e ao jantar, arroz com arroz e de vez em quando uma amostra de chispe. A barcaça que levava os mantimentos foi afundada pelos nossos amigos, e ficámos a ver . . . barcaças 

Isto gerou um mal estar que mais se agravou com o ataque às 5 da matina, como já contei no meu diário. 

Devo dizer que a minha companhia estava reduzida a 36 homens operacionais, dado esforço que se estava a fazer com a protecção à nova estrada de Buba para Aldeia Formosa, em que saíamos com o que seriam três pelotões às seis da matina. Regressávamos à tarde, e no dia seguinte estávamos de serviço à segurança do quartel e logo de seguida abalávamos de novo para a estrada.

Então o homem chega e começa o discurso:

 
  Pátria está a exigir de vós um grande esforço e vós sois .....blá, blá, blá. Sei que a comida não tem sido a melhor, mas a Pátia exige sacrificios... blá, blá,blá. Quando estiverdes a comer feijão ou arroz, sem mais nada, fechai os olhos e imaginai-vos a comer um belo perú recheado ou um grãozinho com bacalhau, lá em Lisboa... blá, blá, blá.

Acompanhava-o um capitão, seu ajudante de campo, que toda a gente conhece,  e perante as reclamações do major e do médico, o  Spínola só dizia:

 
  Aponta, Bruno!

Felizmente tinhamos um excelente médico, a quem presto a minha homenagem no Blogue, o Dr. João Carlos de Azevedo Franco, que,  à mais pequena mazela, muitas vezes resultante do estado psicológico em que vivívamos, dava uma baixa. 

Recordo que nesse célebre dia do Aponta, Bruno,  o Spínola disse ao médico:

—  Estes rapazes o que precisam é de umas picas, vou lhe mandar uma boa dose de medicamentos... Aponta, Bruno!

Ao que o médico lhe respondeu:

  O que eles precisam é de uns bons bifes e descanso.

Claro está que o capitão Bruno não apontou o que o médico disse. Mas, não é que oito dias depois chega a barcaça com mantimentos e duas enormes caixas de medicamentos não solicitados ?! 

Escusado será dizer que foram devolvidas ao remetente, com a informação "medicação não solicitada"... E a vida continuou.

 (Revisão / fixação de texto, título, negritos, itálicos:  LG)

 
2. Ficha de unidade > 
Companhia de Caçadores nº  2381

Identificação  CCaç 2381
Unidade Mob: RI2 - Abrantes
Cmdt: Cap Mil Inf Jacinto Joaquim Aidos | Cap Mil grad Inf Eduardo Moutinho Ferreira Santos
Divisa: "Os Maiorais" - "Pela Lei. Pela Grei"
Partida: Embarque em 01Mai68; desembarque em 06Mai68 | Regresso: Embarque em 03Abr70

Síntese da Actividade Operacional

(i) Em 06Mai68, seguiu para Ingoré, a fim de efectuar a instrução de aperfeiçoamento
operacional com a CCaç 1801, sob orientação do BCaç 1933 e seguidamente, assegurar a segurança e proteção dos trabalhos de reordenamento de Antotinha e efectuar ações de patrulhamento e emboscadas nas áreas dos corredores de Sano e Canja, em reforço da guarnição local e daquele batalhão.

(ii) Em 18Ju168, na sua função de subunidade de reserva do Comando-Chefe, foi deslocada para Buba, a fim de reforçar o BCaç 2834, em substituição da CArt 1613, que anteriormente recolhera a Bissau, por fim de comissão.

(iii) Em 08Ago68, por troca com a CCaç 2382, assumiu a responsabilidade do subsector de Aldeia Formosa, com pelotões destacados em Chamarra, de 10Ago68 a 08Fev69, ficando integrada no dispositivo e manobra do COSAF/ COP 1 e depois do BCaç 2834.

(iv) Em 04Jan69, substituída pela CCaç 1792, seguiu para Buba, no mesmo sector, a fim de colaborar na segurança e protecção dos trabalhos da estrada Buba-Aldeia Formosa e na ação de contrapenetração, passando a ficar integrada no dispositivo e manobra do COP 4, então criado, a partir de 19Jan69.

(v) Em 01Mai69, por troca com a CCaç 1792, assumiu a responsabilidade do subsector de Empada, continuando na dependência do COP 4 e depois do BCaç 2892 e mantendo dois pelotões em Buba até 03Dez69, um dos quais foi deslocado para Mampatá, de 04 a 31Mai69, orientando a Companhia a sua atividade para a realização de emboscadas, patrulhamentos e defesa e controlo das populações.

(vi) Em 26Fev70, foi rendida no subsector de Empada pela CArt 2673 e recolheu a Bissau, em 28Fev70, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº 94 - 2ª  Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002,  pág. 366.
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Nota do editor LG:

Últimpo poste da série > 10 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27908: Humor de caserna (255): O anedotário da Spinolândia (XXVII): Os comparsas da FAP - Parte II

domingo, 5 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27890: Esposas de militares no mato (6): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte II

Foto nº 1


Foto nº 1A 

Guiné > Região do Cacheu > Rio Mansoa > João Landim > Junho de 1973 > O rio Mansoa em João Landim e a jangada que fazia a sua travessia. Primeiro entravam as viaturas, depois as pessoas. Bissau ficava a cerca de quinze quilómetros e para a "peluda", o fim da comissão, faltavam, ainda quatro longos meses. A Helena regressaria mais cedo a casa, o Francisco só chegará a Lisboa a 11/10/1973, no T/T Niassa, com os seus rapazes do Pel Rec Daimler 3089.


Foto nº 2A


Foto nº 2

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. outubro  de 1973 > Na hora da despedida... Da esquerda para a direita:

(i) cap Lema (CAOP1 ?) (o CAOP 1 foi transferido para Mansoa em 1/2/1973) (e, com ele, o nosso camarada António Graça de Abreu); 

(ii) alf mil médico Mário Bravo ), cirurgião, reformado, nosso grão-tabanqueiro (vive no Porto);

 (iii) comandante do BCAÇ 4615/73,  que rendeu o BCAÇ 3863, ten cor inf Nuno Cordeiro Simões;

 (v) ten cor inf António Joaquim Correia, comandante do BCAÇ 3863 (que terminava a sua comissão);

(vi) alf mil médico Viana Pinheiro (deve ter vindo substituir o dr. Pio de Abreu);

(vii) alf mil Francisco Gamelas (comandante do Pel Rec Daimler 3089, 1971/73);

 (viii) major inf João José Pires (2º comandante do BCAÇ 3863); 

(ix) alf mil Correia Pinto ( de que batalhão?);

 e (x) Maria de Jesus, mulher do alf mil médico Albino Silva (que não aparece nesta fotografia).



Foto nº 3

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de Teixeira Pinto (hoje, Canchungo). Em primeiro plano, as instalações militares.


Foto nº 4

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de um reordenamento, não identificado, obtida em viagem até Bissau


Foto nº 5

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  (1971/73) >  Junho de  de 1973 >  Imagens da visita do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Portuguesas (CEMGFA) , gen Costa Gomes, a Teixeira Pinto... Em segundo plano, o cinema local, do lado direito a "avenida principal" da vila.


Foto nº 6

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  / 35ª CCmds / Pel Rec Daimler 3089  (1971/73) > Março de 1972 >  "Durante a protecção aos trabalhos de desmatagem das margens, ou da pavimentação, da estrada entre Teixeira Pinto e o Cacheu. Eu, nas costas de uma Daimler, tendo do meu lado esquerdo o então Furriel Comando Paquete e à minha direita o então Alferes Comando Alfredo Campos, comandante do Pelotão da 35ª a que ambos pertenciam.

"O  fur mil 'cmd' Paquete, da 35ª CCCmds, infelizmente já não está entre nós. Segundo informação do Ramiro de Jesus, também ele ex-fur mil comando da 35ª CCmds, natural de Aveiro (e, portanto, meu conterrâneo), o Paquete, depois do regresso à metrópole, morreu atropelado por um comboio em Vila Franca de Xira."

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso camarada Francisco Gamelas foi dos que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico, ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador)...

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas.  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica, em 1969, esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado da PT (onde foi quadro superior), tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.

 

Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.  O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.

O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às as "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".

Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que já reproduzimos no poste anterior (*):

 As poucas mulheres que seguiram o seus maridos na Guiné foi por amor e companheirismo. "Éramos jovens. Sentíamo-nos imortais", escreveu o Francisco. A guerra criava, para a nossa geração, uma "urgência emocional", o tempo era curto, a vida podia ser breve (bastava uma mina A/C ou uma emboscada do IN ou uma morteirada de 120 em ataque ao aquartelamento)... Estar juntos, mesmo em condições adversas, valia o risco. Para algumas mulheres, pode ter sido também uma forma de escapar â tristeza do quotiano em Portugal. Para uma ou outra como a Maria Helena, professora, foi também uma forma de se sentir útil.

A escola local em Teixeira Pinto precisava de docentes, e o exército, se não incentivava, pelo menos tolerava a presença de civis, mulheres (e até filhos), para "humanizar" a vida no "mato". De resto,no àmbito da política spinolista "Por uma Guiné Melhor", as "senhoras professoras" eram bem-vindas. E a mulher portuguesa, mesmo inferiorizada no Estado Novo, podia aliar algum idealismo e aventura. Em todo o caso, foram mulheres, portuguesas, de coragem.

A Guiné, apesar dos seus riscos (guerra, paludismo, doenças infetocaontagiosas, stress, desconforto, recursos de saúde limitados, isolamento, dificuldades de tramsportes...) representava uma aventura exótica, um mundo desconhecido. O Francisco Gamelas escreve sobre isso: "aproveitando os intervalos de alguma normalidade para nos inventarmos como casal". Havia uma espécie de romantismo trágico em viver ali, como se a guerra tornasse o amor mais emociante e  intenso.

A Lena e o Francisco, apesar de tudo, tinham algum espaço de privacidade: viviam ao lado da escola, no edifício  destinado ao diretor. Provavelmente frequentavam a messe de oficiais.  De qualquer modo, o  círculo de convívio era muito restrito. O ambiente era fortemente masculinizado. As saídas da vila tinham os seus  riscos, e o contacto com a população local era limitado.  A "normalidade" a que o Francisco se refere era frágil: um jantar no messe, uma ida ao mercado local, ou uma sessão de cinema (com dois ou três anos de atraso em relação à programaçãpo de Lisboa).

Sendo comandante do Pel Rec  Daimler 3089, o Francisco tinha a sua vida operacional. E a Lenba ficou grávida da sua primeira filha,  a Sara, que não nascerá todavia em Teixeira Pinto ,mas já em Aveiro. Náo devia haver sequer obstetras na Guiné!...

Havia isoalamento. O corrreio podia demorar quinze dias (apesar do SPM ser um bom serviço). As notícias da metrópole (e do mundo)  chegavam com atraso. A solidão era quebrada pelo convívio entre as poucas mulheres europeias que havia nestas paragens mas também com as mulheres locais  (que também viviam sob alguma tensão). 

Todas pagaram algum preço. Mas cremos que o balanço final foi positivo, nesta fase das suas vidas, sendo jovens  e recém,casadas...  O poema do Francisco Gamelas responde, em parte, a esta pergunta:

"Foi aqui, no Canchungo, / e nestas condições que aceitámos, / que o nosso amor floriu". 

Para ele e para a Maria Helena, valeu a pena pelo amor, pela família que criaram, pela intensidade da vida que viveram. 

Mas não sabemos como foi, noutros casos...As mulheres que passaram pela Guiné não escreveram (ou pelo menos não publicaram). A única exceção, que nos vem à cabeça, é a da Maria Dulcineia (Ni) (***) que esteve em Bissorã até junho de 1974 e apanhou, pelo menos, dois ataques do PAIGC com "foguetões 122mm".

Estas históris são fragmentos de humanidade no meio  do caos que é sempre a guerra, em qualquer época e lugar. Elas mostram que, mesmo em tempos de violência, a vida, com os seus amores, medos e esperanças, continua.

Sobre a outra senhora, Maria de Jesus, que aparece na foto no. 2, não sabemos mais nada: 
seria esposa do alf mil médico Albino Silva...  (Não haverá aqui troca de nomes ?)

E nós continuamos em próximo poste.

(Continua)  

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27877: Blogpoesia (810): "Dia de enganos", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


DIA DE ENGANOS

adão cruz

Uma gaivota beijando
a espuma branca das águas fundas
em bailado Grandi Mestri
culminando as chaminés do Cabo do Mundo.
O barco ao longe

estático no horizonte
como eu aqui de olhos fitos nas rochas.
Gaivotas bailando
Rossini
Oh!
Péchés de vieilhesse
Mascagni
Massenet
sem ponte nem horizonte
Verdi
Wagner
Bizet
sobre a espuma da tarde sem dia
do dia sem ponte
e sem horizonte
para lá das rochas negras e nuas.
Marcia Trionfale em dia de glória
dunas de espuma branca
abraçando as rochas do meu deserto
tão perto do mar imenso tocando as nuvens.
Alguém me leva nas asas da gaivota
por dentro de ti
para dentro de mim
em doce Intermezo
de rios de sol e mares sem fim.
Alguém me passeia por dentro de ti
Cavalcate Delle Valchirie
avançando a vertigem em turbilhão
até planar
bailando sobre o coração
cravado no sol poente
vermelho e quente
do sangue que verti.
Bruscamente…
o Prelúdio
voando dentro de mim
a alma que resta em Meditazioni
pelo espaço imenso
tocando aqui e ali
as penas das asas que perdi.
Vesti La Giubba meu palhaço trágico
viajante da Barcarola en nuit d’amour
com ar triunfante
Va Pensiero
sobre as asas douradas
seguro de quem se apoia
nas pedras nuas da orla do mar
esquecendo o mar que navega…
infinito…
mistério…

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Nota do editor

Último post da série de 17 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27743: Blogpoesia (809): "A Fundação da Tabanca Grande", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro

domingo, 22 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27845: (De)Caras (245): cap inf Carlos Alberto Cardoso, cmdt, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69): levou a esposa, tal como pelo menos três outros oficiais



Foto nº 1A >  Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > Finais de 1968  > O jovem casal, cap inf Carlos Alberto Cardoso, novo cmdt da CCS, e a esposa, "just married".



Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > Finais de 1968  > Jantar presidido pelo 2º comandante, maj inf Américo Correia... Do lado direito, o jovem casal, cap inf Cardoso, novo cmdt da CCS, e a esposa.

 

Foto nº 2  > 
Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) >  Jantar e Ceia de Natal de 1968, na messe de oficiais em São Domingos > De costas, a esposa do cap inf Cardoso, do outro lado da mesa a esposa do ten mil médico Cortez.

 Havia pelo menos mais duas senhoras, a esposas dos comandantes do Pel Rec Daimler 1130 e do Pel Morteiros.
 


Foto nº 3 > Nova Lamego > Dezembro de 1967 > Na sala de cinema local,  onde passavam alguns filmes para divertir a malta. Na primeira fila a esposa do nosso médico, tenente miliciano Cortez.



Foto nº 4 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) >  1969  > Espectáculo programado para o dia de Novo Ano de 1969, com todos os militares a participar na festa. Brancos, negros e população civil, todos foram convidados. Na primeira fila, o 2º Comandante e a esposa do ten mil médico Cortez.

Fotos (e legendas): © Virgílio (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Foto n- 5 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > 10 de agosto de 1968 > CCS/BCAÇ 1933 e CART 1774 > Levantamento de uma mina A/C reforçada, com duas granadas checas (de Pancerovka P-27) > Foi detetada por picadores da CART 1744> Na foto o cap inf Cardoso, cmdt da CCS, e o alf mil inf MA Machado, também da CCS. Foto do álbum do Eduardo Figueiredo, também alf mil,  da CCS, cmdt Pel Rec indo.


Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 

‪‪‪‪1. Mensagem do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69).


Data - terça, 17/03/2026, 00:26


O Capitão Cardoso era um jovem militar oriundo da academia militar, arma de Infantaria.

Chegou ao nosso batalhão em meados de 1968. Veio substituir o nosso antigo comandante da CCS, Cap Figueiral que foi colocado no QG.

O cap Cardoso chegou com a sua jovem e bonita esposa, acabados de casar, numa Lua de Mel inolvidável. O casal viveu sempre no seio da passarada e acho que nunca existiu qualquer problema.

Tinham aposentos próprios, mas as refeições eram tomadas na Messe.

Teve grande parte do tempo a companhia de outras senhoras, sejam a esposa do médico, e as esposas dos comandantes dos pelotões Daimler e  Canhões s/r.

Nunca tive grandes relações com o capitão e a   esposa, pois eu não tinha na prática um comandante da companhia.

O segundo comandante era o meu chefe e nem ele se metia comigo por razões de um pacto que fizemos em Santa Margarida.

Nunca soube mais do cap Cardoso até agora ver esta foto (nº 5) 
 e o seu relatório do sucedido com a mina levantada pelo meu amigo Machado (o primeiro a morrer depois da peluda e do nosso batalhão).

Pode ver se na foto nº 1 (e 1A), de frente o cap  Cardoso ao lado da esposa. 
A foto deve ser após 20nov 68, depois de ter sido evacuado o nosso comandante (ten-cor Campos Saraiva), pois ele não está a presidir ao jantar mas sim o comandante interino.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)