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domingo, 12 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)


Angélica Lima,  Fonte: Linkedin

1. Texto da doutora Angélica Lima, lido por ela na sessão de apresentação do livro do nosso camarada António Carvalho, ontem em Medas, Gondomar (*) (cortesia da escritora,  brasileira, cuja foto, do Linkedin, reproduzimos aqui à direita):


Boa tarde a todas e a todos.


Quero começar agradecendo ao autor, António, pelo generoso convite para estar aqui com vocês neste momento tão especial, que é o nascimento público de um livro.

Agradeço também a confiança ao me permitir ler esta obra antes de sua publicação e ao me convidar para compartilhar algumas impressões de leitura.

Agradeço igualmente a presença de todos os que escolheram participar desta celebração literária, num tempo em que tantas vozes artificializadas disputam diariamente a nossa atenção.

Vivemos cercados por telas, notificações e estímulos constantes. Já existem estudos mostrando que esse excesso tem reduzido a nossa capacidade de concentração, de reflexão e até da criatividade.

Um livro impresso continua a nos oferecer algo cada vez mais raro: silêncio, tempo, autoescuta e reflexão. Mas, sobretudo, continua a nos lembrar da importância de exercitar aquilo que faz de nós essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar, de imaginar, de viajar. E, diferente das máquinas, fazemos isso enquanto lemos.

Esse convite específico me fez perceber que ler um romance e falar sobre ele num lançamento são experiências muito diferentes.

Ler é um encontro íntimo e silencioso entre o livro e o leitor.

Hoje, esse silêncio ganha voz.

Antes de entrar propriamente no romance, gostaria de compartilhar com vocês o lugar de onde falo hoje.

Ao receber o convite para ler este romance antes da publicação e depois, apresentar minhas impressões no dia do lançamento, minha primeira reação foi de surpresa.

Nunca havia participado de uma apresentação de livro como oradora convidada. Isso me deixou, ao mesmo tempo, feliz e consciente da responsabilidade que estava assumindo. Por isso, diante do público, para eu não ter aquele momento de mudez ou daquela tosse, que na verdade é um misto de vergonha e ansiedade, preferi trazer minhas anotações.

Gosto de acreditar que cada romance encontra novos sentidos quando é lido por pessoas diferentes. Um livro deixa de pertencer apenas ao autor quando chega às mãos dos leitores, e cada leitura lhe acrescenta uma nova camada de significado, muitas vezes até diferente daquela que o próprio autor pensou. E o texto vai ganhando outras dimensões.

 O olhar que compartilho hoje é apenas um dos muitos possíveis.

Falo como leitora, mas também a partir de uma circunstância muito particular.

Sou brasileira, paulistana, isto é, nascida em São Paulo – capital, não no interior, como, por exemplo, Santa Rita do Passa Quatro, onde, se nascesse, seria paulista. Se esse livro fosse lançado no Brasil, essa informação seria um motivo de bairrismo. Mas, é apenas uma informação para situar o espaço. Vivo atualmente em Portugal.

De certa forma, essa condição acabou me aproximando do protagonista, Abel, que também realiza uma travessia, embora em sentido inverso ao meu.

Ao acompanhar a sua viagem para o Brasil, procurei não buscar semelhanças nem diferenças entre os dois países. Preferi deixar-me conduzir pelas idiossincrasias que o romance vai revelando: esses pequenos gestos, modos de falar, de sentir, de relembrar e de viver que constroem a identidade de um povo e, ao mesmo tempo, tornam cada personagem única.

Ao longo da leitura, também fui observando como uma mesma língua pode aproximar dois países e, ao mesmo tempo, nos surpreender pelos diferentes sentidos que uma palavra pode assumir de um lado e do outro do Atlântico.

Foi essa travessia, feita por meio da linguagem, da memória e das personagens, que procurei acompanhar o protagonista e suas peripécias ao longo da leitura. Fui tentando perceber como Abel transporta com ele a sua memória, a sua língua, os seus afetos e a sua identidade quando atravessa um oceano e vai viver em outro continente. E fiz essa leitura refletir sobre a minha própria experiência enquanto imigrante.

Então, é desse lugar, ao mesmo tempo próximo e distante, que convido vocês a percorrer comigo algumas páginas deste romance.

Não como crítica literária, porque não sou, nem como especialista, mas simplesmente como uma leitora que teve o privilégio de caminhar por estas páginas antes que elas encontrassem vocês, seus futuros leitores.

Imaginei encontrar um romance que me conduziria pela história. Descobri, porém, que antes da história havia uma língua inteira à minha espera a ser atravessada. Foi logo de cara que percebi: preciso de um companheiro para fazer comigo essa viagem – o dicionário.

Há romances que não se deixam atravessar à pressa; devemos percorrê-los num barco a vapor ou num rabão à vela.

Este romance não se deixou ler rapidamente. Comparo essa leitura, com a chegada numa cidade do Brasil por onde nunca houvesse passado antes. Porque no Brasil é assim: até mesmo para nós que lá nascemos, muitas vezes desconhecemos o modo de falar de uma cidade que fica ao lado ou a cinco mil quilômetros. 

Chegando lá, compreendemos o geral, mas não os pormenores. E essa leitura trouxe a sensação de estar diante de uma grande diversidade de paisagens, cores e linguagens, onde o pormenor ficaria encoberto, se eu não decifrasse os regionalismos, os termos tão interessantes escolhidos por António.

Um dos aspectos que mais me surpreendeu no texto é o fato de o António usar períodos longos, sem cansar, às vezes, numa cadência quase oral e, em alguns momentos, pensei que ele usava os regionalismos semelhantes ao modo que Guimarães Rosa faz em "Grande Sertão Veredas".

A minha travessia foi assim: enquanto Abel conhecia os sabores do Brasil, eu viajava pela cozinha portuguesa.

Enquanto Abel se espantava com a paisagem exótica do Brasil, eu me encantava com a simplicidade e dureza da vida rural em Portugal.

Enquanto Abel aprendia o sotaque de se abrasileirar, como disse o autor, eu mergulhava no dicionário e viajava pela língua portuguesa.

Não porque a leitura fosse inacessível, mas porque o autor recupera um património linguístico extraordinário, fazendo-nos descobrir palavras que, muitas vezes, já desapareceram do nosso uso quotidiano. E palavras que eu realmente nunca tinha ouvido, mesmo morando aqui há quase 10 anos, mesmo sendo filha desse nosso idiomaterno.

Ao longo da leitura, fui percebendo que, com esse vocabulário, em vez de contornar as palavras desconhecidas, eu precisava entrar nelas.

Isto surpreendeu-me: a quantidade de verbetes escolhidos pelo autor que, sozinhos, dão origem a outro livro. No meu manuscrito, marquei mais de 250 termos, palavras, passagens em que eu precisei parar, desembarcar, e só depois, continuar a viagem.

Destaco apenas algumas palavras ou frases:

  • Sair pelas portas fronhas   – essa frase eu fiquei encafifada, fronha para mim é outra coisa;
  • Caminhos de pé posto – que achei muito interessante;
  • Dealbar – fiquei encantada com essa palavra.
Esses são exemplos de palavras lindas e, para mim, completamente desconhecidas.

Sobre as personagens? Vou me ater ao Abel e à Eva.

Abel acaba por abraçar o sonho de ficar rico ou melhorar de vida, por meio do seu trabalho, mas abraça, especificamente, o sonho do seu pai e é levado por ele, ainda muito menino, ao Brasil para assumir funções de homem.

Abel e Eva escondem a sua verdadeira paixão, a ambição. Mas essencialmente, a luta contra a miséria.

Sobre a personalidade de cada um, conforme vocês vão lendo a história, poderão refletir se Abel representa o homem do século passado, mas que tem nele, uma espécie de mofo que ainda está impregnado nas sociedades até hoje. 

Conforme a narrativa cresce, as personagens mostram a sua verdadeira cara. Eu gostei muito do Abel, mas, no fundo, eu tenho grande compaixão pela Eva e pelo que ela representa, por isso escolhi essas duas passagens sobre as mulheres desse romance, me perdoem os ouvintes, mas vou ser breve:

(...) "A repenicada moça do Porto não era propriamente uma daquelas carquejeiras de mãos encortiçadas, que durante anos e anos subiam 
ajoujadas sob feixes de carqueja e queiró de três a quatro arrobas, a Calçada da Corticeira, para alimento dos fornos das padarias da parte alta da cidade. Eva tinha um estatuto social mais elevado do que o dessas mulheres calçadas de socos e pele tisnada a subir a ziguezaguear o calvário de duzentos metros que pareciam nunca mais acabar. Mais do que um calvário (que me perdoem os cristãos mais sensíveis) os itinerários que estas mulheres (algumas com pouco mais de dez anos) faziam até à lonjura de Paranhos e Carvalhido, eram autênticas vias sacra."! (...)


Ou essa:

(...) "Enquanto passava ligeira e empertigada, com estes sinais distintivos, envaidecida pela concupiscência dos olhares masculinos, as outras, atarracadas sob o peso dos desmedidos feixes, mostravam-se alquebradas, na postura como na mente, como se aquela tarefa ciclópica durante seis dias da semana, encosta acima, debaixo de carregos maiores que o corpo, em passada lenta, retornando encosta abaixo, de vazio, a pé ligeiro, as tivesse marcado, na pele e na alma, de modo irreversível." (...)

O romance transporta-nos para o espaço descrito, a paisagem é magnífica, tanto de Portugal como do Brasil. Com muitos detalhes que tornam o texto belíssimo. O autor vai contando causos, resgatando fatos históricos e momentos culturais fantásticos. A paisagem, com isso, participa da história.

O tempo que o autor usa, do meu ponto de vista, apesar de parecer linear, é não linear, é simbólico. É uma história contada em camadas, símbolos e memórias. E os detalhes dessas memórias são de uma delicadeza poucas vezes encontrada.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser um romance histórico, para além da própria história contida, que se estende por mais de 30 anos. Nela, o tempo cronológico se mistura ao tempo social, psicológico e simbólico, como nessa passagem:

(...) "Por uma alta torre dotada de sinos que se ouvissem no vale mais profundo da freguesia e relógio de grandes algarismos e ponteiros que se divisassem ao longe. Todos os presentes convergiam quanto à prioridade da torre da igreja, que marcaria as horas dos trabalhos nos campos, dos momentos fulcrais dos actos litúrgicos, dos baptismos, comunhões e casamentos, e as desoras dos que morriam." (...)

Entre os símbolos, quero destacar a água que é um símbolo de travessia. A água faz parte da vida de Abel, no Rio Douro, nas travessias pelo mar, e em outras situações que o envolvem, a água aparece como um sinal de vida, de esperança e de tragédia.

Há muitos símbolos e metáforas religiosas, mas só nessa parte, eu gastaria mais de uma hora a falar e o objetivo é o silêncio da leitura.

Entre os temas que aparecem — e são muitos —, vou destacar apenas dois que estão muito na moda. A imigração e as classes sociais, muito bem retratadas no texto, ao pormenor, e um que é o mais importante do meu ponto de vista, a linguagem, como nestas passagens:

(...) "Eram os melhores ideólogos por esses dias o padre, o presidente da junta, o regedor, o professor e os que calçavam sapatos à semana. " (...) 

(...) "Os sapatos que o seu pai encomendara, para esta viagem, a um sapateiro de Emendadas, sobravam-lhe igualmente nos pés, mas assim deveria ser para lhe dar para mais anos." (...)

Essas são passagens sobre sapatos; me remetem à infância e aos causos contados em casa pela minha mãe. “Nas fazendas, havia uma criança que ia à escola com um pé do calçado até gastar; depois, usava o outro”.

Há uma passagem que o autor relata sobre a língua portuguesa abrasileirada e isso é um dos destaques que eu também quis trazer:

(...) "Assim, sempre que confrontado com gente graúda, evidenciava, no modo como temperava as palavras e insistia no uso do gerúndio, o contributo que recebera de catorze anos passados numa fazenda de café, a abraseileirar-se." (...)

O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e,  pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América. Como não sou linguista de formação, como boa brasileira, achei curioso recordar que o gerúndio, tantas vezes apontado como uma marca do português do Brasil, não nasceu no Brasil.

 Trata-se de uma construção antiga da própria língua portuguesa, preservada entre nós brasileiros, enquanto Portugal foi seguindo outro caminho. Foi uma mudança gradual na fala portuguesa, mas foi o Brasil que manteve a originalidade da língua levada para lá.

E, entrando nos finalmentes, o que ficou em mim talvez seja o mais importante.

Para mim, este romance não fala apenas das travessias entre Portugal e o Brasil, entre o Atlântico e o Douro. Fala também das travessias humanas: entre a pobreza e a esperança, entre o preconceito e a dignidade, entre as escolhas que transformam uma vida e aquelas que acabam por cristalizar destinos.

Quando fechei o livro, algumas personagens permaneceram comigo. Eva, sem dúvida. Mas a personagem que mais me acompanha é Chiquinha. Talvez porque ela traga uma leveza inesperada para uma realidade tão dura. Sua presença parece lembrar que, mesmo nos períodos mais difíceis da nossa história, a humanidade nunca deixou de encontrar espaços de afeto, generosidade e esperança.

Ao acompanhar essa personagem, fui pensando que olhar para a história não significa apenas procurar culpados ou inocentes. Significa, antes de tudo, reconhecer que ela foi feita por seres humanos, com as suas grandezas e as suas misérias. 

Só quando temos coragem de reconhecer também as partes menos nobres da nossa história é que podemos construir uma sociedade mais justa, mais consciente e mais humana. É isso que o livro traz.

Há uma imagem que continua a regressar à minha memória: a chegada de Abel pela Serra do Mar. Enquanto lia essa passagem, revi-me adolescente, fazendo aquele mesmo percurso de trem em direção a Santos, num fim de semana. O trem pendurado pelos cabos, passando sobre o abismo, onde só se ouvia o barulho do trem. Foi um daqueles momentos em que a literatura nos devolve aos tempos da nossa própria vida.

E talvez tenha sido essa a maior transformação que esta leitura provocou em mim. Descobri que, neste romance, cada palavra carregava algo para além do seu significado imediato. Cada escolha do autor guardava uma memória, um símbolo, uma intenção. Muitas vezes eu me perguntava: Por que esta palavra e não outra? E, quando ia procurar o seu significado, descobria que havia muito mais por trás dela do que imaginava e ficava encantada.

O meu diálogo com este romance nunca foi uma análise nem uma crítica. Foi uma conversa, uma experiência.

Este livro levou-me de volta ao Brasil, à minha infância, ao colchão de palha, às quaresmeiras, ao Manacá-da-serra, à Serra do Mar, às viagens de trem para Santos, não ao Porto, à Praia Grande. A galinha com farofa. O sanduíche de pão Pullman com queijo e presunto. O ‘Guaraná’ sem gelo. Os farofeiros. Nome dado aos pobres que frequentavam as praias, mas não tinham dinheiro para almoçar ou lanchar nos restaurantes. 

É para isso que servem as histórias: para nos fazer encontrar, nas vidas dos outros, pedaços da nossa própria vida.

Por isso, termino dizendo que há romances que não se deixam atravessar com pressa. É preciso caminhar ronceiramente dentro deles. E foi exatamente essa a experiência que este romance me proporcionou.


António Carvalho: integra a Tabanca Grande
 desde 13/9/2008, e tem cerca de uma centena
 de referências no nosso blogue




Não posso revelar mais do que o próprio livro vai oferecer ao longo das suas páginas. Posso apenas dizer que esta leitura foi, para mim, uma verdadeira travessia pela memória e pela condição humana e principalmente, pela riqueza da nossa língua portuguesa, nosso tão amado idiomaterno.

Tenho certeza de que cada leitor encontrará também o seu próprio caminho dentro desta narrativa. Descobrirá as suas personagens preferidas, as palavras que mais o tocarão e fará, à sua maneira, 
 a sua própria travessia.

Parabéns ao António por esta obra e muito obrigada a todos pela atenção.

Obrigada, Angélica Lima.

Apoio estratégico para projetos acadêmicos e literários
Escritora|Ghostwriter|Ilustrações
Especialista em artigos, teses, dissertações e livros.
Ilustrações |  Palavras  | Sonhos (...)
https://lattes.cnpq.br/1870298303464362

(Revisão / fixação de texto: LG)

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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28168: Agenda cultural (896): Apresentação do romance, da autoria do António Carvalho, "3x44: Abel e Caim em Contrapé", Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, Medas, Gondomar, sábado, dia 11, às 15h30. Entrada livre




1. É já no sábado, dia 11 do corrente, às 15h30, que o nosso camarada António Carvalho (ou "Carvalho de Mampatá", como é mais conhecido), ex-fur mil enf, CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74) apresenta o seu segundo livro, o romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (2026) (Editora: Vida Económica).


Local: Fundação Hermínia Vilar Ribeiro | Quinta do Carreiro, Lugar da Estivada, Rua da Bicha, nº 2, Medas, 4515-386 Gondomar |

Para mais informações consultar:

www.fundacao-hvr.pt | Email: geral@fundacao-hvr.pt | tlm: 9657 567 240. A entrada é livre.

A apresentação estará a cargo de:
  • Luís Graça, sociólogo, doutor em Saúde Pública pela Universidade NOVA de Lisboa e editor do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (representado por Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade Nova de Lisboa, dramaturgo, tradutor, copywritter, e que integra o Conselho de Administração da Fundação HVR, com funções de director-coordenador no Órgão Executivo);
  • Angélica Lima (doutora em Ciências da Educação pela Universidade Federal de São Paulo, escritora, educadora e consultora cultural, natural de São Paulo, Brasil, a viver em Portugal há 10 anos).


António Carvalho
Sinopse:

3x44 – Abel e Caim em contrapé, de António Carvalho, é uma narrativa de memória, identidade e destino, profundamente ligada à terra de Medas/ Emendadas, em Gondomar, às margens do Douro. A obra recupera o passado recente de uma comunidade marcada pelo trabalho duro, pela emigração, pelas relações familiares, pela religiosidade popular, pelas desigualdades sociais e pelos dramas silenciosos de gente comum. O prefácio sublinha precisamente esse valor de preservação da memória local, ao apresentar o livro como um contributo para dar voz a uma terra “tão esquecida” e às suas gentes, costumes e dificuldades.

No centro da narrativa está Abel, personagem principal, cuja vida se cruza com a emigração para o Brasil, o regresso a Portugal, os negócios no Douro, a viuvez, a relação com a comunidade e o conflito latente com Caim. O próprio autor assume que a morte trágica de Abel foi a “mola impulsionadora” da escrita deste livro, construído entre personagens reais e verosímeis, memória e imaginação.

TEMAS CENTRAIS
A obra aborda, entre outros temas, a memória coletiva e familiar; a vida rural no Portugal profundo; a emigração portuguesa para o Brasil; o regresso, a saudade e o desenraizamento; o trabalho no rio Douro, nas minas, na carqueja, na lenha e no carvão; a condição social das comunidades pobres; a religiosidade e os códigos morais da época; os conflitos humanos, a inveja, o ressentimento, a culpa e a violência.

A viagem de Abel entre Emendadas e o Porto, feita pelo rio, permite retratar um mundo económico e social muito concreto: o transporte de carqueja, carvão, lenha, vinho e outros bens, bem como a ligação comercial entre a aldeia e a cidade. A narrativa integra ainda o contexto histórico da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, mostrando como a guerra, o racionamento, a censura e a intervenção do regime afetavam a vida quotidiana e os pequenos negócios.

PORQUE DEVE LER ESTE LIVRO
Deve ler este livro porque ele é, simultaneamente, uma história de vida e um retrato de época. Através do percurso de Abel, o leitor entra num universo onde o destino individual se cruza com a história coletiva: a emigração, a pobreza, o trabalho, a família, a honra, a perda e a esperança. A obra permite compreender melhor a vida de uma comunidade ribeirinha do Douro, os seus modos de falar, trabalhar, acreditar e resistir.

É também um livro sobre a natureza humana. Como se refere na apresentação, por detrás da aparente simplicidade da narrativa surgem “alegrias e tristezas”, “partidas e regressos”, dilemas morais, paixões e conflitos humanos.

O que distingue esta obra é a forma como cruza memória local, ficção narrativa e reconstrução histórica. António Carvalho não se limita a contar uma história individual: procura preservar uma comunidade, os seus usos, os seus medos, as suas palavras, as suas tragédias e a sua dignidade.

A obra destaca-se também pela atenção ao detalhe etnográfico e social: a casa rural, o rio, os barcos, as vendas, os negócios, a igreja, o cemitério, os pobres, os emigrantes, os trabalhadores e as mulheres que sustentavam discretamente a vida familiar. Ao mesmo tempo, a oposição simbólica entre Abel e Caim dá à narrativa uma dimensão moral e universal, aproximando-a de uma reflexão sobre o bem, o mal, a inveja, a fatalidade e a fragilidade das relações humanas.

PÚBLICO-ALVO
Este livro destina-se a leitores interessados em romance histórico e memorialístico, literatura de matriz regional, história local de Gondomar e do Douro, emigração portuguesa para o Brasil, vida rural portuguesa no século XX e narrativas centradas nas comunidades do chamado “país profundo”.

É também uma obra indicada para leitores que apreciam histórias familiares, dramas humanos, retratos sociais de época e livros que preservam a memória de lugares, pessoas e modos de vida em risco de desaparecimento. (Fonte: Vida Económica) (com a devida vénia...)
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oduto "gourmet"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27604: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (11): o guerrilheiro do MPLA, morto a norte do rio Cassai, no leste de Angola, que era também alfabetizador





Cópia da capa e índice do documento "Guia do Alfabetizador", editado pelo MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, s/l, 1968, 68 pp. Fonte: Cortesia de Jaime Silva (2026)




Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã:
4 de agosto de 2012 > Jaime Silva


Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; é professor de educação física, reformado, foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; tem página pessoal do Facebook).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (11): o guerrilheiro do MPLA, morto a norte do rio Cassai, no leste de Angola, que era também alfabetizador

por Jaime Silva

Não esqueci que, no decorrer de mais uma operação no Leste, a Norte do Rio Cassai, o meu pelotão foi surpreendido com progressão de um grupo de guerrilheiros do MPLA. Em consequência do confronto entre os dois grupos ficaram tombados alguns corpos (o trivial, durante a guerra!...).

Encontrámos um deles com uma mochila contendo, para além de mantimentos e munições, um manual de economia em língua francesa e dois manuais escolares: a Cartilha do Alfabetizador e o Livro do aluno.

Fiquei surpreendido! Desconhecia este trabalho educativo dos guerrilheiros! Eles ensinavam por uma cartilha que era muito parecida, na metodologia de ensino, com a Cartilha de João de Deus – o meu livro de 1.ª classe! Aí aprendi as primeiras letras, na escola da minha aldeia!

Surpreendido também com os conteúdos, que eram deste género: a 1.ª lição do livro do aluno iniciava com a frase  “Angola é a nossa terra”; a 2.ª lição tinha três frases com objetivo de consciencialização política do povo e das razões por que lutavam:

“O colonialismo é inimigo do povo. O colonialismo português domina a nossa terra. O povo unido luta contra o colonialismo”.

Também, essa Cartilha do Alfabetizador, nas páginas 5/6, tinha uma carta dirigida ao “Camarada Alfabetizador. No seu início dizia:

“Camarada Alfabetizador,

Tu sabes ler e escrever

Nós, no nosso país, em cada cem pessoas, noventa e nove não o sabem.

(…) Ajudando os outros companheiros a ler e a escrever tu estás a cumprir uma tarefa de patriota e de revolucionário.”

Lembro, não posso esquecer que, naquele dia, reforcei ainda mais, a minha convicção de que travávamos uma guerra injusta e sem sentido.


Fonte: excerto de Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 92/93

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 1 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27591: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (10): o Flecha que nos conduziu à sua antiga base (do MPLA) e rejubilou de alegria perante o espetáculo dos seus antigos camaradas mortos, no mesmo dia e hora em que o meu soldado Santos se casava por procuração numa igreja de Torres Vedras, perto da minha terra

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27115: Felizmente ainda há verão em 2025 (15): Camaradas, perguntar não ofende: "Pode a CPLP vir a transformar-se em CPLB" ?... E a gente a pensar que em bom português "nois sintendi"... (António Rosinha, ex-colon, ex-retornado de Angola, ex-cooperante na Guiné-Bissau)


1. Mensagem de António Rosinha, ex-colon, ex-retornado de Angola, ex-emigrante no "Brasiu", ex-cooperante na Guiné-Bissau do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, beirão,  portuguès dos sete costados, grão-tabanqueiro de pedra e cal (comn 154 referências no blogue)... Mesmo tendo sido expulso do paraíso em 1974, não perde o bom humor...


Data - segunda, 11/08/2025, 18:22 

Assunto - CPLP a transformar-se em CPLB?


E se, quando ao telefone, ouvimos uma voz feminina de um call center a comunicar-nos em paulista, ou carioca ou baiano, nos fizessemos desentendidos aqui em Portugal, que não entendemos aquele sotaque, como no Brasil dizem que não entendem os portugueses?

Será que pelo menos elas se esforçariam para dobrar um pouquinho mais a língua?

Gosto de ouvir o Lula ou o tal Bolsonaro,quando em Nova York na ONU, se exprimem num português perfeitamente paulista ou carioca.

Ao contrário de todos os nossos políticos, que falam em qualquer língua , conforme seja o ouvinte para quem falam nem que seja da Cochinchinha. Mas em português nunca... 

Quem me inspirou esta ideia de não abdicarmos do português de Portugal, foi um treinador de futebol. Já tinha ouvido um treinador com sotaque do norte em São Paulo a mandar vir com jornalistas brasileiros. Mas com sotaque da Camacha bem fechadinho, foi um madeirense , aos microfones num jogo do brasileirão e os jornalistas entenderam tudinho, pelo menos não pediram para repetir.

Se, com doutores, são acordos atrás de acordos ortográficos, transformando um idioma ao sabor não se sabe de quem, quando há falantes de português em angolano, em cabo-verdeano, em África são 5, e ainda lá longe, Timor, e no próprio Brasil tem gauchos, nordestinos, baianos...e muitos mais, cada um com seu jeito, porque não manter a ortografia toda como está?

E entreguem o problema ao pontapé na bola, que como todo o Brasil, terra do Rei Pélé, já verificou, com este processo, "nois sintendi".

E a uniformização e globalização serão menos complicadas não mexendo na matriz, que já se mexeu demais. E os doutores,e os políticos que metam a viola no saco de uma vez por todas.

A matriz devia ser sempre respeitada.

Mas é muito difícil para todas as origens de brasileiros, entender "como é que se chegou aqui".


Há sempre o argumento que a razão está do lado da maioria, o que não faltará quem imagine um dia transformar a CPLP em CPLB.

Não estariamos com estes problemas de acordos ortográficos, se os ventos não tivessem desviado aquela "regata" de Cabral 
que ia a caminho da Índia, e foi parar às terras de Vera Cruz.

Mas com ou sem acordo, os brasileiros lá vão escrevendo a sua história, mas em português, por enquanto.

Cumprimentos,  Antº Rosinha


2. A expressão "nois sintendi" é uma forma coloquial de dizer "nós entendemos" no português falado do Brasil.

Ela combina dois desvios da norma culta: 

(i) "nois" → forma popular de "nós" (comum em fala informal de algumas regiões); 

(ii) "sintendi" → variação fonética de "entendemos" ou "entendi", provavelmente influenciada pelo som nasal e pela troca de vogais.

O uso dessa expressão costuma ser intencional para criar um efeito humorístico, caricato ou para imitar a fala de determinadas regiões ou grupos, especialmente em memes e redes sociais.

A expressão "nois sintendi" ficou popular principalmente por causa de memes brasileiros que exageram erros gramaticais e fonéticos para criar humor.

(a) Origem e contexto:
  • surgiu de uma mistura de estereótipos linguísticos de fala rural, sertaneja ou dio interior com erro intemcional de conjugação verbal.
  • começou a aparecer em fóruns, páginas de humor no Facebook e depois no Twitter e TikTok por volta de 2018–2019;
  • é usada para ironizar uma compreensão óbvia ou reforçar que algo foi entendido de forma exagerada.

(b) Função caricatural / humorística:

  • não é só um erro de português, é uma marca de personagem, o tal “brasileiro simples e direto” (sic) que não liga p'rá gramática e fala do jeito que acha mais fácil;
  • assim como "pobrema" (problema) ou "menas" (menos), vira um meme linguístico que circula mesmo entre quem fala corretamente 
  • outras expressões de português deturpado,  muito comuns no Brasil, em linquagem coloquial: "Prástico" → plástico. | "As criança" → as crianças. | "A gente vamos" → a gente vai. | "Pruquê" → por que. | "Dibre" → drible (famoso por causa do jogador Denílson). | "Almoçei" → almocei, mas dito com “l” bem marcado. | "É memo?" → é mesmo? | "Nois vai" → nós vamos)

Essas expressões aparecem muito em memes, bordões de humoristas e piadas de internet, e geralmente a graça está em “fingir” que se fala errado. Para o falante do portuguès de Portugal, é uma... "algarviada" do camandro... E a  gente a pensar que em bom português "nois sintendi"...


(Pesquisa: IA / ChatGPT + LG | Revisão / fixação de texto, negritos, título, links: LG)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26487: Notas de leitura (1771A): "Um preto muito português", da luso-angolana e antiga "rapper" Telma Tvon (Lisboa, Quetzal, 2024)... Parte I - Afinal, quem somos nós, "pretugueses" ? (Luís Graça)



Telma Tvon (aliás, Telma Marlise Escórcio da Silva
(cortesia da Quetzal Editores)


(i)  nasceu em Luanda em 1980 (portanto, em plena guerra civil angolana, que vai de 1975 a 2002);

(ii) imigrou para Lisboa, em 1993 (com a irmã, sendo acolhida pela avó); 

(iii) frequentou o ensino secundário ao mesmo que tempo se integrava, desde os 16 anos,  na cultura rap, do soul e do hip hop;

(iii) pertenceu aos grupos Backwordz, Hardcore Click e Lweji, sendo os três grupos compostos por MC  femininas;

(iv) mais recentemente colaborou com o brasileiro  Luca Argel no projeto Samba de Guerrilha;

(v) licenciou-se em Estudos Africanos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa;

(v)  fez  mestrado em Serviço Social pelo ISCTE-IUL.


Capa do livro de Telma  Tvon, "Um Preto Muito Português". 
Lisboa: Quetzal, 2024, 184 pp. (Série "Lígua Comum") (c. 15 €)



Sinopse > Um Preto Muito Português

João, aliás, Bidjura, como é conhecido, é filho de cabo-verdianos que vivem há muito em Portugal e neto de cabo-verdianos que nunca conheceram Portugal. Também é bisneto de holandeses que mal conheceram Portugal e de africanos que muito ouviram falar de Portugal. Vive em Lisboa, mas não é considerado alfacinha. Terminou a licenciatura na faculdade e vai trabalhar num call center, com outros negros e brancos, pobres e ricos. 

Budjurra faz parte de uma minoria que, lentamente, vai sendo cada vez menos minoria. É um preto português, muito português, que, ao longo do livro e das aventuras que relata, levanta questões relativamente a temas como racismo, discriminação, estereótipos, igualdade e humanidade, mas também música, rap, identidade - numa Lisboa morena e colorida que é necessário conhecer: 

«Posso dizer, sem qualquer orgulho, que sou um homem estranho. Tão estranho como a minha alma. […] E assim como os anos e meses  que4 passam em redor, continuo apenas mais um preto muito português.» 

Com a sua rara humanidade, Budjurra mostra-nos como se vive por dentro da invisibilidade da comunidade africana, como se lida com as narrativas falsas que a envolvem, como se sobrevive aos preconceitos e ao esquecimento. (Fonte: contracapa)


1.  Não sei se vamos ter um nova grande escritora da língua portuguesa. Esta é a sua primeira incursão no romance.  Nem sei se é um romance. É uma espécie de "diário de bordo" de um "pretuguês" que na sua viagem pelo seu quotidiano  da Grande Lisboa se interroga sobre a sua identidade, a sua relação com os outros, a começar pela sua família, os amigos, os colegas de trabalho, as mulheres e os homens com quem se cruza na vida, e que tem de lidar com o rascismo, o preconceito, a ignorância, a estupidez, o estereótipo, a discriminação, na escola, na rua, na esquadra de polícia, na agência de emprego,  no local de trabalho, na cama, na comunicação social, na política...

Longe de ser panfletário, é um livro que dá voz a muitos portugueses que tem raízes em África. Uma minoria até agora silenciosa, para além de alguns cantores e "rappers" de sucesso como o Gutto (nascido em Luanda em 1972,  "retornado" em Portugal, com  2 anos)... 

O mérito do livro, para já,  é o de dar voz a uma juventude que nem sempre está bem na sua pele, com a sua pele, e no país  onde nasceu, de pais em geral "imigrantes".

(...) " Telma Tvon trouxe a voz da juventude negra portuguesa para o romance. Amante de literatura, não encontrava obra que reflectisse a sua realidade. E assim nasceu Um Preto Muito Português, retratos da juventude negra dos subúrbios de Lisboa e de quem passa a vida a ser questionado: “De onde és?” (...) (Joana Gorjão Henriques, Público. 5 de Junho de 2018, 9:50

O protoganista não é sequer  a autora, bem podia ser uma espécie de "alter ego".  Mas teve "pudor" em escrever a sua própria história. Não, ela escreveu um livro na primeira pessoa, em discurso direto, dando voz a um homem, ao João, aliás, Badjurra, português nascido em Lisboa, filho de pais cabo-verdianos que emigraram em tempos "à procura de uma vida melhor": ele, de Santiago, ela de Santo Antão... 

E que até nem vivem na... Cova da Moura, ou naqueles "bairros problemáticos", ou nos chamados "bairros sociais"...Ele, João Moreira Tavares, o irmão Carlos e a irmã Sandra, nasceram ainda no "gueto", mas já não vivem no "gueto", desde cedo foram "viver nos prédios" (sic) com uma tia da mãe, já melhor integrada socialmente... 

Na cabeça de quem "imigra", também há a imagem do famoso "ascensor social" que leva os pobres das "subcaves" até pelo menos ao "1º andar", onde já se pode respirar fundo e ver a luz do sol...

No livro não dá perceber onde e quando, exatamente onde e quando, mas é na periferia de Lisboa, na "linha de Sintra", na primeira década do século XXI... 

Apesar de até nem ser muito "escuro", o  João, aliás Budjurra,  é preto mas "muito português"... E até licenciado, com estudos superiores:  licencidado em gestão ambiental, a trabalhar num "call-centre", e num segundo emprego, como muitos outros jovens...

2. Conhecia-a, à Telma Tvon,  na Lourinhã, nos "Livros a Oeste", em 15/5/2024. E fiquei encantado com a sua simplicidade, graça, espontaneidade, frontalidade,  inteligência emocional, capacidade de comunicação... 

Afinal, ela nasceu e viveu em Angola, até aos 13 anos  e tem a desenvoltura e a desinição dos/das MC ou "rappers", e sobretudo da malta nada e criada em Luanda.  De resto, a dedicatória que consta do seu livro, diz muito: "Para os meus de sangue e coração. Para os meus de rua e coração". 

Mas vamos  continuar a falar deste seu primeiro livro, onde ela resto usa (e abusa...) do "calão" de uum "!underground" sociocultural,  falado por estes jovens "pretogueses" (e não só). misturano o linguajar do crioulo, de Luanda, etc.: contei até agora umas boas 6 dezenas de vocábulos e expressões idiomáticas, tais como:
  • achismos
  • bad boy,
  • baggy,
  • banda
  • bater mal, 
  • bazar,
  • bazeza,
  • beber uma jola,
  • beca
  • birra,
  • brownskin,
  • boelo, 
  • bué, 
  • canucas, 
  • caretices,
  • castanhas,
  • cool,
  • curtir
  • desconseguir, 
  • desligar a ficha,  
  • estigar,
  • fake,
  • fashion,
  • funny.
  • ganda filme, 
  • katembe,
  • atons,
  • madie, 
  • mangueirinha,
  • mega fã,
  • metal, 
  • metaleiro, 
  • mo dread,
  • nha kamba, 
  • nudeza preta,
  • perar
  • playa,  
  • pretugueses,
  • profes,
  • pula,
  • ista,
  • wannabe, 
  • xaxar, etc.

Mekié, mana ?... Romance, diz o editor. Diário, dário de bordo de um "pretuguês", acrescento eu.  Para já citemos algumas das 49 entradas ou pequenos capítulos do livro que lá li e reli (entre parènteses, o níumero da página):

  • (...) Quem sou eu (9) | 
  • O Budjurra até é bacano (16) | 
  • Nem és muito escuro (18) | 
  • Tu agora chamas-te Arrastão, Budjurra (29) | 
  • No call-center, licenciado (42) | 
  • Querias tu ser cabo-verdiano, Budjurra (50) | 
  • Desmistificar o Black Power (56) | 
  • O teu amigo morreu, Budjurra (81) | 
  • Achas que sabes dançar, Budjurra ? (89) |  
  • Senhor sénior Budjurra (103) | 
  • O teu Escuro tem tanta Luz, Budjurra (127) | 
  • As tuas pequenas coisas, Mwafrika (135) | 
  • Tu não tens humor negro, Budjurra (142) | 
  • Os suspeitos do costume (145) | 
  • Voltar para onde nunca estiveste, Budjurra (160) | 
  • "Ser negro" - Gutto (172) | 
  • De Cabral a Budjurra (175). (...)

(Continua)

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Nota do editor:

Último poste da série > 10 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26481: Notas de leitura (1771): A colonização portuguesa, um balanço de historiadores em livro editado em finais de 1975 (5) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26460: Humor de caserna (100): A piçada do general: "Ó nosso alferes, qual bicha, qual carapuça!... Saiba que no exército português não há bichas e muito menos de pirilau!"... (disse ele para o ten mil José Belo, sendo o 1º cabo mil Carlos Silvério testemunha)


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCAÇ 617 (1964/66) > S/l > s/d > Progressão em coluna apeada, "coluna por um",  "fila indiana" "bicha de pirilau"...

Foto (e legenda): © João Sacôto (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



A 'piçada' do general

por Carlos Silvério


 Quando o 1º cabo miliciano atirador de cavalaria Carlos Silvério (hoje nosso grão-tabanqueiro nº  783) passou pelo RI 5, Caldas da Rainha, como monitor de recruta do CSM (Curso de Sargentos Milicianos), entre setembro e dezembro 1970 (4º turno), lembra-se de ter conhecido o José Belo, então alferes ou tenente miliciano,  acabado de regressar da Guiné...


Carlos Silvério, ex-fur mil at cav,
 
CCAV 3378 (Olossato e Brá, 1971/73);
vive hoje na Lourinhã
Um belo dia apareceu lá um senhor general que quis certificar-se da excelência da formação dada aos futuros sargentos milicianos... E fez questão de supervisar (do latim, "supervidere", ver de cima...)  uma das aulas práticas dadas pelo instrutor José Belo... 

Às tantas, falando da sua experiência como combatente no TO Guiné, em 1968/70, o instrutor usou a expressão "bicha-de-pirilau"...

Parece que o general ficou "piurso", saltou-lhe a mola e deu uma valente reprimenda ("piçada") ao oficial, à frente dos instruendos (o que, como é sabido, não é regulamentar nem elegante):

- Ó nosso alferes, qual bicha, qual carapuça!... Saiba que no exército português não há bichas e muito menos de pirilau!... Os nossos militares, aqui na metrópole ou nos teatros de operações do Ultramar, na Guiné, em Angola ou em Moçambique, andam  em coluna por um !... Ponha isso no seu dicionário!...

O Carlos ficou sem perceber  por que é que o senhor general foi aos arames com a expressão "bicha-de-pirilau"... Seria uma reacção... h
omofóbica?...

Afinal, "pirilau",  no português (informal) de Portugal, é sinónimo de órgão sexual masculino, pénis, pilinha, piloca. (Os brasileiros dizem bilau)...


José Belo, ex-alf mil, CCAÇ 2381,
Ingoré, Buba, Aldeia Formosa,
Mampatá e Empada, 1968/70;
vive hoje nos EUA
Já o termo "bicha" começa por referir-se ou estar associado a qualquer objecto que, pelo seu feitio ou movimento sinuoso, dá ideia de um réptil, e por extensão, qualquer animal de corpo comprido e sem pernas (como a minhoca, por exemplo).... 

 Na linguagem informal é usado para designar uma fila (ou fileira) de pessoas, umas atrás das outras, em geral esperando a sua vez de serem atendidas, para obter um bem ou serviço, etc. (por ex., a bicha do pão, das vacinas, do trânsito)...

"Bicha-de-pirilau" é uma expressão que, infelizmente, ainda não está grafada pelos nossos lexicógrafos, muito cautelosos e conservadores. Tal como, aliás,  a correspondente  expressão técnica ("jargão") usada pela tropa : "coluna por um" refere-se  à formação de uma tropa, em que os elementos (que podem ser homens ou viaturas) são colocados um atrás do outro, seguidamente, guardando entre si uma distância regulamentar.   (Mas também  há colunas por dois, por três, etc.)

A expressão "bicha-de-pirilau" era corrente na Guiné, tal como "fila indiana" (originalmente, o modo como os índios da América progrediam  no seu território, em situações de caça, patrulha ou guerra).

A história tem a sua piada, sobretudo pela reação intempesttiva do senhor general inspetor, de ouvido mais sensível ou então demasiado purista da língua portuguesa e/ou do jargão militar.

(Recolha, revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 19 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20668: Em bom português nos entendemos (25): Bicha de pirilau... Expressão da gíria militar do nosso tempo, ainda não grafada nos dicionários... Será que continua a incomodar o senhor general?

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25818: S(C)em Comentários (45): Foi também graças à ação do LAMETA que os EUA alteraram a sua posição de apoio a Timor Leste, que antes era pró-indonésia (Rui Chamusco, Díli, 4/5/2018)











Timor Leste > Díli > Universidade Nacional de Timor Leste (UNTL) > Departamento de Língua Portuguesa > 3 e 4 de maio de 2018 > Exposiçáo LAMETA (acrónimo, em inglês, do Movimento Luso-Americano para a Autodeterminação de Timor Leste), no àmbito da celebração da língua portuguesa.  A sessão foi enriquecida pela atuação, entre outros,  u pequeno grupo de crianças de Ailok Laran que cantaram canções do cancioneiro popular português, acompanhadas ao acordeão pelo Rui Chamusco.


Fotos: © Rui Chamusco (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do livro de João Crisóstomo,. "LAMETA - Movimento Luso-Americano para a Autodeterminação de Timor-Leste", edição de autor, Nova Iorque, 2017, 162 pp.



1. Palavras proferidas, na ausência do João Crisóstomo (Nova Iorque),  pelo seu amigo Rui Chamusco, na inauguraçáo da  exposição LAMETA, na Universidade de Timor Leste (UNTL),  em Díli, em 4 de maio de 2018, no contexto da celebração da Língua Portuguesa, organizada pelo respetivo Departamento de Língua Portuguesa  (*):



Exmo Sr. Reitor da UNTL, Exma.Sra. Diretora de Departamento de Língua
Portuguesa, Exmo.Sr Embaixador de Portugal em Timor Leste, ilustres convidados, senhores professores e estimados alunos.

É para nós uma honra podermos participar neste evento promovido pelo Departamento de Língua Portuguesa desta universidade, através da exposição
ameta e da interpretação de algumas canções em português por este pequeno
Grupo de Crianças de Ailok Laran.


A exposição LAMETA  do nosso amigo ausente João Crisóstomo, que podemos visualizar no átrio deste auditório,  é um desconhecido contributo que as comunidades luso-americanas deram para a auto determinação de Timor Leste. E, mais do que as palavras, estão os fatos registados nos documentos expostos. 

Esta coleção representa um bem inestimável do património deste povo, e pretende ser, sobretudo para os jovens, um instrumento de informação e de preservação da memória coletiva de imor Leste. 

Foi graças à influência e pressão exercida pelo  LAMETA (Movimento Luso-americano para a Autodeterminação de Timor Leste) que os Estados Unidos alteraram a sua posição de apoio a Timor leste, que antes era pró indonésia. 

Esta exposição é a comprovação desta influência e dos caminhos que o movimento LAMETA  percorreu durante os ano nos de luta.

A presença destas crianças para interpretação de canções em português pretende demonstrar que a música tem um papel muito importante no processo de aprendizagem de qualquer língua, também da Língua Portuguesa. Um longo
caminho ainda a percorrer. Com o esforço e boa vontade de todos conseguiremos atingir estes objetivos.

Agradecemos ao Departamento de Língua Portuguesa de ter confiado em nós e de nos ter concedido esta oportunidade.

A todos,  MUITO OBRIGADO. (**)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 7 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25815: II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte IX: A exposição Lameta, na Univesdade de Díl, e a magia da música em língua portuguesa

(**) Último poste da série > 26 de julho de 2024 Guiné 61/74 - P25780: S(C)em Comentáros (44): o seminário, a tropa e a guerra (Francisco Baptista, autor do livro "Brunhoso, Era o Tempo das Segadas - Na Guiné, o Capim Ardia", Edição de autor, 2019, 388 pp.)

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25815: II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte IX: A exposição Lameta, na Univesdade de Díl, e a magia da música em língua portuguesa





Timor Leste > s/l > 2019 >  Na primeira foto de cima, o Rui Chamusco


Fotos: © Rui Chamusco (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Continuação da publicação de uma selcção das crónicas do Rui Chamusco, respeitantes à sua segunda estadia em Timor Leste (janeiro / julho de 2018) (*). 

Membro da nossa Tabanca Grande desde 10 de maio último, é cofundador e líder da ASTIL (Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste), criada em 2015 e com sede em Coimbra.

Professor de música, do ensino secundário, reformado, natural do Sabugal, e a viver na Lourinhã, o Rui tem-se dedicado de alma e coração aos projetos que a ASTIL tem desenvolvido no longínquo território de Timor-Leste.

Desta vez, o Rui Chamusco partiu para Timor, em 25 de janeiro de 2018, com o seu amigo, luso-timorense, Gaspar Sobral (foto acima, à direita), cofundador também da ASTIL. 

Em Dili  ficaram em  Ailok Laran, nos arredores de Díli, na casa do Eustáquio (alcunha do João Moniz) , irmão (mais novo) do Gaspar Sobral, e que andou, com a irmã mais nova, a mãe e mais duas pessoas amigas da família, durante três anos e meio, refugiado nas montanhas de Liquiçá, logo a seguir à invasão e ocupação do território pelas tropas indonésias (em 7 de dezembro de 1975) (tinha "apenas" 14 anos...).

 A menina dos seus olhos (dos très, o Rui, o Gaspar e o Eustáquio) é a Escola de São de Francisco de Assis, de Manatti / Boebau, município de Liquiçá. A escola e as suas crianças da montanha que finalmente podem aprender música e português.


II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL)


Parte IX -  A exposição Lameta, na Univesdade de Díl, e a magia da música em língua portuguesa


Dia 28.04.2018, sábado  - Sempre em festa...


A vida em Ailok Laran e Dili é mais calma mas menos interessante (desculpem-me os citadinos). No entanto, vão acontecendo coisas que não posso deixar de descrever.

Desde que chegamos da montanha que se tem ouvido música em alta intensidade que começa ao final da tarde e termina ao amanhecer do dia seguinte. Quem tiver problemas em adormecer está tramado. Mas aqui, em Timor, é assim. Não há qualquer legislação que tal impeça. E ninguém individualmente tem coragem e ousadia de fazer queixa.” Não há problema”, dizem eles, “é sempre assim!”. Pois que seja. Agora que incomoda, lá isso incomoda.

Questionados sempre a origem de tanto barulho, mas com boa música, fomos esclarecidos. Nos primeiros dias (noites) devia-se à celebração do “final de luto” da família do defunto falecido há um ano, que a partir de agora deixam os sinais de tristeza. Outras culturas, bem diferentes das ocidentais. Festa rija a culminar a celebração de um ritual ligado à morte.

A segunda dose, que ainda está em vigor, é a festa de casamento, que dura há umas boas noites, e em que os convidados e outros comem, bebem e dançam à conta do legado que ninguém sabe qual é, pois é entregue em envelope fechado. 

Diz o Gaspar que na sua juventude, ela e os seus amigos juntavam muitas moedas para parecer muito dinheiro e assim puderem entrar e usufruir das benesses desta cerimónia. Como não era de bom tom os noivos abrirem o envelope à frente dos oferentes, divertiam-se à grande e à francesa sem que alguém os incomodasse.


Dia 29.04.2018, domingo - As crueldades 
da guerra

Logo de manhãzinha, ouviu-se uma voz não habitual de alguém que chegava e que cumprimentava os da casa. Curioso, tentei saber de quem se tratava. Era, nem mais nem menos, um senhor por volta dos cinquenta anos, que vinha visitar o padrinho Gaspar. Diz o padrinho que é o único afilhado que tem em Timor.

Depois de algum tempo associei-me ao grupo, e mais do que falar tentei ouvir as conversas em tétum, algumas vezes com tradução, que descreviam tempos passados e recordações. Mais uma vez se lembraram as cenas da invasão indonésia. 

O pai do senhor que chegou,  foi amarrado e morto pelas tropas invasoras, logo aqui ao lado. Os irmãos Mariano (Mari) e João Moniz (Eustáquio) contam que a destruição da casa de família onde agora estamos,  foi presenciada por eles próprios mais o irmão Abeca, e que os indonésios depois de lhe pegarem o fogo por todo o lado, laconicamente lhes disseram: “Podeis ir a buscar as vossas coisas lá dentro.”

O que mais me admira é que eles falam nestas cenas com tranquilidade, sem qual quer esboço de ódio ou de vingança. Há quem por aqui diga que o grande erro dos indonésios foi terem matado tanta gente. Duzentos mil mortos num universo de setecentos mil é realmente significativo. 

Caso contrário teriam todas as condições para serem queridos desta gente, pois as coisas boas que cá fizeram são muitas e das quais este povo ainda beneficia. Em qualquer invasão, a guerra é sempre cruel para qualquer das partes beligerantes. 

O Gaspar comentava, com toda a razão: “a guerra é o grande mal da humanidade”.



Dia 30.04.2018, segunda feira  - A magia do “Mundo Mágico”


Não. Não se trata de truques ou de ilusionismo. O “Mundo Mágico” é uma escola que, como muitas outras, se dedica de alma e coração à educação de crianças desde as mais tenras idades. A sua diretora, a professora/educadora Diana Rebelo, tem sido incansável no apoio que nos tem prometido e dado à nossa escola em Boebau. Senhora de muito trabalho mas que não nega ajuda a ninguém. “Naquilo que eu puder contem comigo”, diz-nos ela.

Pois hoje estivemos de novo no "Mundo Mágico", a fim de concretizarmos o estágio de duas senhoras de Boebau para que, quanto antes, elas possam trabalhar Escola de São Francisco de Assis. Com certeza que irão aproveitar ao máximo os ensinamentos deste estabelecimento. As crianças mais pequenas de Boebau agradecem.

Sabemos de antemão que a ajuda do “Mundo Mágico” pode não ficar por aqui, porque já me apercebi do espírito de solidariedade que a sua diretora possui, bem como toda a sua família. A magia não é fruto de um efeito da varinha mágica mas sim de muito trabalho e competência.



Dia 02.05.2018, quarta feira - Preparando a exposição


É já na próxima sexta feira que terá lugar a exposição LAMETA, na Universidade UNTL em Dili, no contexto de celebração da Língua Portuguesa, organizado pelo Departamento de Língua Portuguesa desta instituição de ensino. 

Aqui na casa, em Ailok Laran, é uma azáfama na confeção dos painéis que serão o suporte dos documentos a expor. Mais de cem folhas A3 que teremos de afixar. Estávamos a contar com o empréstimo dos expositores da escola portuguesa Rui Cinati, mas tal não é possível devido às necessidades da própria escola durante estes dias. 

Mas o Eustáquio, que é um homem desenrascado, já pôs ombros à obra e os painéis estão quase todos prontos. Amanhã serão transportados para a universidade, onde irão ser devidamente preenchidos e colocados. Pode o amigo João crisóstomo ficar descansado que a exposição vai ser um êxito.

Esta exposição será enriquecida com música. Um pequeno grupo de crianças de Ailok Laran irá cantar, acompanhadas ao acordeão, um reportório de músicas em português, que com certeza farão o deleite de muitos dos ouvintes. 

Até a mim, que os ensaiei, me comovem e dão esta alegria de, muito longe de Portugal, poder ouvir estrangeiros cantando tão bem as nossas canções. Estamos ansiosos, mas com muita confiança de que tudo sairá bem.


Dia 04.05.2018, sexta feira - Grandes momentos!...

nossa presença na Universidade Nacional de Timor Leste (UNLT), através da exposição Lameta e das crianças de Ailok Laran está a ser alvo de muitas atenções. Por isso temos confiança de que tudo vai correr bem. Algum cansaço na véspera e alguma apreensão, mas nada que nos incomode ou nos demova.

Às 9.00 horas a exposição já está montada e , a pouco e pouco, vão chegando ao local alunos, professores, convidados. Esperam altas individualidades que, à medida que vão chegando,  nos vão cumprimentando e mostrando o seu interesse pelo conteúdo desta exposição. 

Saliento atitude do senhor Reitor da UNTL, acabado de chegar de Lisboa, que demoradamente conversou comigo dando conta do que esta universidade irá fazer em prol da Língua Portuguesa. Notei-lhe muito entusiasmo nas iniciativas que apresentou.

Seguidamente, no auditório aqui ao lado, procedeu-se à abertura da sessão desta jornada dedicada à Língua Portuguesa, sob o lema “Língua Portuguesa um elemento da nossa identidade”. 

Vários oradores fizeram as suas intervenções: Diretora do Departamento da Língua Portuguesa;  Reitor da Universidade, Embaixador de Portugal em Timor; o editor do livro hoje aqui lançado;  o Dr. Benjamim Corte Real (antigo reitor desta universidade) que fez uma intervenção sapiencial sobre o livro em questão;  e finalmente, este vosso humilde servo, a quem pediram, por ausência do amigo João Crisóstomo, que dissesse algumas palavras sobre a exposição. 

Não me fiz rogado, até pelo respeito e carinho que o João nos merece, e avancei para o palco, acompanhado dos meus pequenos cantores. Pela primeira vez na minha vida, escrevi numa folha o que pretendia dizer, e li:

“ Exmo Sr. Reitor da UNTL, Exma.Sra. Diretora de Departamento de Língua Portuguesa, Exmo.Sr Embaixador de Portugal em Timor Leste, ilustres convidados, senhores professores e estimados alunos.

É para nós uma honra podermos participar neste evento promovido pelo Departamento de Língua Portuguesa desta universidade, através da exposição Lameta e da interpretação de algumas canções em português por este pequeno Grupo de Crianças de Ailok Laran.

A exposição Lameta do nosso amigo ausente João Crisóstomo, que podemos visualizar no átrio deste auditório é um desconhecido contributo que as comunidades luso americanas deram para a auto determinação de Timor Leste. E, mais do que as palavras estão os fatos registados nos documentos expostos. 

Esta coleção representa um bem inestimável do património deste povo, e pretende ser, sobretudo para os jovens, um instrumento de informação e de preservação da memória coletiva de Timor Leste. 

Foi graças à influência e pressão exercida pelo Lameta (Movimento Luso americano para a Autodeterminação de Timor Leste) que os Estados Unidos alteraram a sua posição de apoio a Timor leste, que antes era pró indonésia. Esta exposição é a comprovação desta influência e dos caminhos que o movimento Lameta percorreu durante os ano nos de luta.

A presença destas crianças para interpretação de canções em português pretende demonstrar que a música tem um papel muito importante no processo de aprendizagem de qualquer língua, também da Língua Portuguesa. Um longo caminho ainda a percorrer. Com o esforço e boa vontade de todos conseguiremos atingir estes objetivos.

Agradecemos ao Departamento de Língua Portuguesa de ter confiado em nós e de nos ter concedido esta oportunidade.

A todos MUITO OBRIGADO.”



Depois fui entregar dois exemplares do livro Lameta que o João me deixou, um ao Senhor Reitor da UNTL e outro à Sra. Diretora do Departamento.

O que veio a seguir, foi magia para aquele público. Quando se começou a ouvir o acordeão e as vozes no Hino da Alegria (cantado e tocado em notas de bambu), na canção A Chuva que a Adobe cantou, na canção As Notas do filme Música no Coração, o público delirou e não parava de aplaudir. 

Sim, foi magia e muita emoção difícil de controlar para mim. Os elogios e parabéns foram tantos que até parecíamos vedetas de televisão. Muitas fotografias a pedido, alguns videos ( o próprio reitor não resistiu a fazer a sua reportagem). Os miúdos então exultavam de alegria ao verem tanta aceitação. 

Para cúmulo, já no local da exposição, brindamos os visitantes com mais umas quantas canções portuguesas (Rama de oliveira, Ao passar a ribeirinha, A minha terra é linda, Rosa enxertada, Ó minha rosinha) e mais havia ainda por cantar, não fosse a preocupação dos responsáveis do evento em que as crianças fossem comer e beber qualquer coisa.

Um dia a não esquecer por adultos e sobretudo por estas crianças que abnegadamente participaram neste evento.

Dia 05.052018, sabado  - Sorrisos contagiantes


Mais uma vez fico enfeitiçado com os sorrisos desta gente. Tu passas onde passares e, aonde parece materialmente tudo faltar, surgem caras sorridentes que dão o “bom dia”, a “boa tardi!”. Como pode alguém, que sabemos de antemão ter carência de pão(arroz) para a boca expressar tamanhos sorridos? E pronto! Ficamos apanhados para acudir a qualquer emergência.

Hoje de tarde passamos como muitas vezes o fazemos em frente da casa do falecido Vitor, já várias vezes referido nestas crónicas. Olhei para dentro da mesma e só vi um grande vazio. Poucas coisas haverá por lá. Cá fora, gente e mais gente, que aqui é que se está bem. Aquele “boa tarde” coletivo, acompanhado de vénia e de sorriso aberto, dirigido ao Eustáquio e a mim que passávamos de carro, ficou-me na retina dos olhos como um quadro que dificilmente esquecerei.

Compreendem agora a nossa solicitude e os apelos de ajuda que de vez em quando fazemos? Não há como esquecer este povo, esta pessoas em concreto. Não me interessa que digam: “ mas o Estado timorense é rico “; “ não tens mais onde gastar o teu dinheiro?...” 

Quando à nossa volta há gente com fome de pão e de outras necessidades básicas, não podemos ficar indiferentes, cuspir para o ar e desculpar nos com o que os outros (incluindo o Estado) deve ou não deve fazer. Claro que não somos nós que vamos salvar o mundo. Mas ajudamos. E isto não estar a armar-me em herói. Eu queria ver se qualquer um de vocês na mesma situação ficaria ficaria indiferente a estes sorrisos... (...)

 (Continua)

(Título, excertos, revisão / fixação de texto, itálicos e negritos:  LG)
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