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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27591: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (10): o Flecha que nos conduziu à sua antiga base (do MPLA) e rejubilou de alegria perante o espetáculo dos seus antigos camaradas mortos, no mesmo dia e hora em que o meu soldado Santos se casava por procuração numa igreja de Torres Vedras, perto da minha terra


 Estudo prévio  para monumento  em memória dos combatentes da guerra cvolonial (2005). Arquiteto Augusto Vasdconcelos (Fafe)

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã:
4 de agosto de 2012 > Jaime Silva

Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; nascido e 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; é professor de educação física, reformado, foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;  tem página pessoal do Facebook).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (10): o Flecha que nos conduziu à sua antiga base (do MPLA) e rejubilou de alegria perante o espetáculo dos seus antigos camaradas mortos, no mesmo dia e hora em que o meu soldado Santos se casava por procuração numa igreja de Torres Vedras, perto da minha terra

por Jaime Silva

Decorria o dia 5 de setembro de 1970, quando o meu pelotão foi destacado para assaltar uma base do MPLA. 

A PIDE/DGS entregou-nos um ex-guerrilheiro, pertencente aos Flechas (#), com o objetivo de indicar o caminho que nos levaria à base, onde antes havia combatido a tropa portuguesa, conjuntamente com os seus camaradas,  e que agora entregava. 

Levou-nos direitinho à base. Fizemos a aproximação e, já dentro desta, fomos confrontados com a forte resistência de um grupo bem armado, do qual resultou a morte de alguns guerrilheiros e a captura de várias armas.

 No entanto, apesar ter sido uma das piores situações que o meu pelotão teve de enfrentar e resolver, o que mais me impressionou foi o júbilo e os saltos de satisfação que aquele homem dava, perante os corpos tombados dos seus ex-camaradas com quem já tinha partilhado as dificuldades da luta no mato contra os militares portugueses.

Também quem não se esquecerá desse dia e hora é o paraquedista Sousa, que no momento do assalto estava comigo (conjuntamente com o sargento Santos) na zona de morte.

É que, à mesma hora, decorria o seu casamento “por procuração”, numa igreja perto da minha terra, em Torres Vedras… 

São factos e experiências que, pela sua violência… e perplexidade humana, dificilmente se apagam das nossas memórias.
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Nota do autor:

(#) Os Flechas, criados em 1967, eram um grupo paramilitar autóctone que conduzia operações encobertas na dependência direta dos serviços secretos da PIDE/DGS. Atuavam no interior de Angola sobretudo contra o MPLA e eram levados a praticar operações encobertas no interior da Zâmbia, onde O MPLA se encontrava acantonado Os Flexas podiam operar isolados ou integrados em patrulhas militares (Fonte: Fernando Cavaleiro ângelo - Os Flechas: a tropa secreta da PIDE/DGS na guerra de Angola. Alfragide: Casa das Letras, 2017).

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série : 15 de dezembro de 2025 > 21 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27556: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (9): a última operação do 1º cabo LAntónio José Lourenço

2 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Jaime, partilho o teu sentimento: "São factos e experiências que, pela sua violência… e perplexidade humana, dificilmente se apagam das nossas memórias". Quem foi fez (e foi obrigado a fazer) a guerra, não esquece... Ontem na Guiné, em Angola...Hoje, sei lá onde, em tanto sítio deste mundo desvairado que continua a girar em 2026... Um ano melhor, com o nosso pequeno contributo. E obrigado por fazeres parte da Tabanca Grande.

Anónimo disse...

João Crisóstomo, Janeiro 1, 2026.

Caríssimo Jaime,

Acabei de ler o teu livro, do princípio ao fim. E depois de o ler não pude deixar de compreender ainda melhor a atitude de muitos que viveram aquela estúpida guerra e decidiram depois não a querer lembrar mais. Embora, a meu ver, não seja a atitude mais apropriada. Porque se histórias e actos de coragem devem ser conhecidos para que sirvam de inspiracão e motivação, também os tempos, experiências e situações lamentáveis, horrorosas mesmo por vezes como a que vivia o nosso Portugal e os portugueses não podem ser desconhecidos. Especialmente para as novas gerações. Partia-se me o coração ao ler uma e muitas vezes as palavras “por não saber ler”; não assinou por não saber”, e a situação tão generalizada de grande pobreza, que até em ingenuidade se evidenciavam. Recordo o caso hilariante, relatado pelo Pinto Carvalho se me não engano ( estou fora de casa e não tenho o livro comigo para confirmar) do soldado que se perguntava para onde ir em caso dum encontro com o inimigo , se perto não houvesse "mato ou morro" para onde fugir…) Por vezes Pergunto-me o que seria o Portugal de hoje se, mesmo tarde, a partir de 1961pelo menos, tivesse havido um despertar de consciências e com ele uma mentalidade mais aberta, uma mentalidade que tivesse aceitado e reconhecido os
nossos erros passados e enveredasse por uma política de senso comum. Porque parece que havíam meios: se houveram meios para aguentar uma guerra em três frentes...

De louvar o teu cuidado em dar a conhecer quem são/foram todos aqueles que merecem não ser esquecidos. Sei de casos de monumentos, acontecimentos etc, todos intencionados a que a memória com o decorrer do tempo se não perca, mas poucos são fruto um trabalho tão cuidadoso e abrangente como este, que reflete também a grandeza do teu coração.

Por mim, ( e creio que muitos o devem sentir também, mesmo que o não o digam expressamente ) a minha gratidão e admiração. E, mais uma vez: que o Ano Novo seja portador dos teus desejos.

João Crisóstomo, Janeiro 1, 2026.