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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27777: Documento (61): A retirada de Madina do Boé (e de Béli), segundo Gustavo Pimenta, autor de "A Sorte de Ter Medo" (2017), e com recensão de Beja Santos


Gustavo Pimenta


Capa do livro "A sorte de Ter Medo", de Gustavo Pimenta (Coimbra, Palimage, 2017, 198 pp., SBN 978-989-703-170-0, preço de capa, 17,00 euros (Indisponível)


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé: recensão do livro "A sorte de ter medo", de Gustavo Pimenta (2017)

por Beja Santos 

1. Preâmbulo

Há anos atrás, aqui se saudou "sairòmeM - Guerra Colonial", de Gustavo Pimenta (*). É deplorável a ausência do registo desta obra em quem estuda a literatura da guerra, deplorável e injusto. Adiante.

Foi publicado recentemente este livro que impressiona pela singeleza, o discurso próximo e distante, a impressionante capacidade retentiva daquele mais de um ano que ele viveu em Madina do Boé, não conheço outro romance em que se fale com tanto pormenor da retirada dos dois quartéis, Beli e Madina (**), e que foram determinantes para o evoluir da guerra, quando o Boé se transformou em abandono por falta de presença portuguesa, o que deu ocasião para as grandes mudanças que o PAIGC operou no Norte e no Leste. É indispensável ler Gustavo Pimenta

De facto, desconheço que exista descrição tão minuciosa como a que Gustavo Pimenta faz do período de 1968 até à retirada de Madina de Boé, no início de fevereiro do ano seguinte. Quando chegam, ao fim da primeira semana, até duvidavam do que lhes tinham dito sobre aquele tão temível local.

Iremos viver uma escalada de flagelações, haverá compassos de espera, até tudo deflagrar em fogo em qualquer hora, o comandante de companhia ainda irá tentar uma série de expedientes para fazer regressar à normalidade a existência daqueles homens permanentemente acossados. 

Spínola decide ainda em 1968 a retirada de Béli e em fevereiro retira-se de Madina de Boé.

Iremos seguidamente falar de uma tragédia que marcou indelevelmente quem a ela sobreviveu.

Nestas coisas da escrita entre guerreiros, não vale a pena ter ilusões sobre a densidade autobiográfica. Gustavo Pimenta volta à Guiné e desvela o que foi a vida da sua companhia naquele período em que ali viveram entre 1968 e 1969.

Admito que haja outros relatos tão circunstanciados, só conheço este, e impressiona-me muito. Dirá talvez coisas que serão alvo de polémica, quanto às razões pelas quais aquela jangada tremeu, e quem deu ordens. Não quero estar na pele de quem perdeu 16 homens.

Recomendo sem qualquer hesitação a leitura urgente desta narrativa que ressuscita os fantasmas de Béli e Madina de Boé.


2. Nota de leitura (**):

Em 1999 Gustavo Pimenta publicou na Palimage “sairòmeM – Guerra Colonial”, aqui foi saudado com entusiasmo a obra, injustamente pouco referenciada (*).

Gustavo Pimenta está de volta com “A sorte de ter medo”, romance, Palimage, 2017. A urdidura não anda muito longe da sua anterior incursão pelas terras guineenses. No caso presente, há um avô que é interpelado do seguinte modo: “Avô, como sobreviveste à guerra?” e começa uma longa viagem de um limiano magricela que recebeu guia de marcha para as Caldas da Rainha, completou a recruta com elevada média e aceitou ir para o curso de oficiais  [COM], como atirador.

 Ainda passou uns dias pela Escola Prática de Administração Militar [EPAM],  depois mandaram-no para Mafra, aplicou-se, já aspirante foi colocado em Penafiel, seguiu depois para Tancos, onde tirou o curso de minas e armadilhas, segue para Tomar, irá combater na Guiné. 

Em 3 de outubro de 1967 o navio Timor acostou em Bissau.

Uma pausa para refletir com o leitor sobre a diferença abissal entre o escrever fácil e o escrever simples. Gustavo Pimenta discorre, é como se aquelas memórias que lhe apetecessem romancear, fossem contadas para que houvesse um entendimento absoluto, nunca desce ao facilitismo, à fluência deixada à toa, é uma simplicidade com calibração, em dois tempos, o que se exprime na conversa e uma súmula que volteia em pensamento. 

É esta construção que torna a leitura credível, sincera, memória que fica para as próximas gerações. Sem fugir aos diálogos brutais, ao enfrentamento, como nos conta de uma ida aos correios, estavam em Fá, foi com o capitão  [inf José Aparício], a Bambadinca, e é interpelado pelo comandante do batalhão :

- Que merda é essa que tens na cara? 

Ele passou a mão pela cara, olhou-a, e disse: 

- Não vejo merda nenhuma. Onde a tenho? 

O capitão interveio de imediato: 

- Meu coronel, o nosso alferes está devidamente autorizado a usar barba. 

- Autorizado? Isso são manias dos marinheiros, que no Exército dispensamos bem. 

Antes que a coisa azedasse, o capitão mandou o alferes para junto do jipe em que tinham vindo e ficou a conversar com o  coronel. Quando se lhe juntou, disse: 

- Assunto resolvido, mas veja lá se responde noutros termos a um oficial superior.


Estão a adaptar-se ao terreno, colaboram em operações, vão ao Xitole, depois Sinchã Jobel, tudo sem contacto mas com muita canseira. Em novembro seguem para o Poindom, é o batismo de fogo, morre um cabo atingido no pescoço, no regresso ao Xime são várias vezes flagelados por disparos de inimigo, voltam à base, Fá Mandinga. 

Há, em toda esta singela narrativa, alguém que é permanentemente considerado e respeitado: o comandante de companhia, homem prudente, sempre empenhado em manter a tropa em atividade, ninguém estava autorizado a andar de chanatas, firme e dotado de autoridade natural. 

Nova operação, desta feita na região de Caresse, o objetivo era uma total ruína, não havia um menor sinal de por ali alguém ter estado nos tempos mais recentes. 

De Fajonquito regressaram a Fá. Ainda estão nos previstos três meses em regime de intervenção, são levados até Bolama e sem razões a operação é cancelada e mandados regressar. 

Em 8 de dezembro chega a notícia: a companhia irá entrar em quadrícula em Madina de Boé. Entrementes, saem de Bissau para uma nova investida ao refúgio na mata de Poindom, referência de má memória. Tudo volta a correr mal, são emboscados, as munições escasseiam, voltam ao Xime para se remuniciar, nem novas nem mandados, não se avistou nenhum inimigo. 

Na véspera de Natal, estão em Porto Gole, em plena confraternização, o PAIGC flagela com armas ligeiras. Saem nesse mesmo dia para uma operação cujo objetivo é Sarauol e Sara, não encontram resistência, regressam a Porto Gole e depois andam a fazer patrulhamentos no rio Mansoa.

 Até que em 8 de janeiro voltam a Bambadinca, seguem para Nova Lamego, aqui começam os preparativos para se deslocarem para Madina. 

Saem manhã cedo, até Canjadude as viaturas seguem a boa velocidade, a partir daí a viagem é a pé, tudo picado; pela mesma hora uma outra equipa de picadores sai do Ché-Ché em sentido contrário ao da coluna. O desconcerto da guerra vai mesmo agora começar:  

“Estabelece-se o contacto: quatro nativos, com Mauser a tiracolo e uma pica na mão, aguardam a coluna sentados na berma à sombra de uma árvore. Escassa e débil força para tão delicada missão. A tropa retoma o seu lugar nas viaturas, a coluna avança pela estrada esburacada de terra batida.

Escassos quilómetros percorridos a viatura que segue na frente – uma GMC, sem capota para evitar traumatismos ao condutor em caso de rebentar alguma mina e com os guarda-lamas cobertos de sacos de areia para amortecer o impacto – é violentamente sacudida pelo rebentamento de uma anticarro.

O major de engenharia, que exigira ir ao lado do condutor na viatura da frente para não apanhar a nuvem de pó que a coluna levanta, fica gravemente ferido.

Parada a coluna, procura-se socorrer o major. O furriel que, a dias do fim da comissão o quis acompanhar, ao precipitar-se para ele pisa uma antipessoal e morre minutos depois.

O enfermeiro fica ferido pelos dois rebentamentos.


Monta-se segurança em volta do local. Picam-se os arredores à procura de mais minas, rebentam duas, uma delas fere mortalmente um soldado do grupo de nativos”.

O contacto rádio falha, surgem dois helicópteros, consegue-se contacto com um deles e pede-se-lhe apoio para a evacuação. Responde que estão a evacuar feridos graves da tropa de Ché-Ché, o melhor é ir até lá.

Já com o Ché-Ché à vista, outra mina anticarro que os picadores não detectaram.  é ativada pela viatura que segue na frente, o condutor sai inexplicavelmente ileso. 

Atinge-se o aquartelamento ao fim do dia. Estão junto ao rio Corubal, avista-se a jangada que permite a travessia até Madina. Aqui vai começar a operação para chegar ao mais temido aquartelamento de toda a Guiné.


3. E“A sorte de ter medo”, romance de Gustavo Pimenta, Palimage, 2017, temos a rara oportunidade de conhecer o sofrimento de quem combateu no Boé, o autor lá viveu no ano 1968, estará de férias em fevereiro de 1969, quando ocorrerá o desastre da jangada em direção a Ché-Ché, no rio Corubal, que vitimou 47 militares.

Acompanhámos os antecedentes de um percurso que começa no alto Minho até imprevistamente chegar ao mais temível dos locais, Madina do Boé.

Três grupos de combate vão para Madina, um outro seguirá para Béli. De Ché-Ché faz-se a cambança para a outra margem, sobrevoam os bombardeiros T6, a transferência de toda a coluna demora o dia inteiro, pica-se pormenorizadamente o terreno, a proteção aérea é constante, nas bermas há carcaças de viaturas destroçadas em operações anteriores, ao fim da tarde, sem incidentes, chega-se ao local, no dia seguinte a coluna volta para Nova Lamego, começa a adaptação de Gustavo Pimenta e seus camaradas. 

Apresenta-nos Madina:

  “Está num vale, entre pequenas elevações montanhosas, únicas na Guiné. A população é maioritariamente Fula, distribui-se por uma meia centena de habitações tradicionais. 

"No início da atividade de guerrilha fora para lá deslocada uma secção de tropa. Com o evoluir da guerra, passa a ser defendida por um grupo de combate e por um grupo de milícia local. 

"À medida que a situação piora, o efetivo passa para uma companhia, que vem a ficar instalada em abrigos semi-subterrâneos, construído ao redor de todo o perímetro da aldeia. No interior são construídos abrigos idênticos para refúgio da população durante os ataques, população que cultiva pequenas porções de terreno em volta das suas habitações. 

"Com o decorrer do tempo, acaba por se formar um aquartelamento fortificado no vale, em forma de tosco quadrado com cerca de 400 metros de largo, sem nenhuma defesa nas elevações em volta”.

É cuidadoso no detalhe, na apresentação do quartel. Nos primeiros dias, tudo decorre com serenidade, fazem patrulhamentos, não há a menor novidade nem sinais do inimigo. Passada uma semana, ao anoitecer há três disparos de armas pesadas, o PAIGC apresenta-se, mas tudo parece que irá decorrer normalmente, chega-se mesmo a pôr em dúvida a apregoada perigosidade do local. 

Os sonhos esmorecem rapidamente, começam os ataques a qualquer hora do dia, os guerrilheiros estão nos montes, gozam de muita impunidade. A tensão vai crescendo, durante 12 dias o inimigo não dá sinal de si, o pessoal já joga à malha e sai descontraído dos abrigos. Depois recomeçam os ataques.

Novo período de calma, durante mais de um mês e meio não há flagelações com armas pesadas, passam-se 15 dias sem se estabelecer com qualquer contacto. A 13 de março, recomeçam as flagelações com canhão sem recuo, não há baixas nem ferimentos. 

Béli parece viver em amena tranquilidade mas subitamente a situação muda, os ataques sucedem-se às horas mais desencontradas e inesperadas.

 O mês de abril de 1968 introduz uma novidade: um ataque a Béli ao nascer do dia e a Madina ao anoitecer, será um mês de enlouquecer, qualquer coluna de reabastecimento é uma terrível operação. 

A alimentação é diretamente proporcional ao isolamento: massa, arroz e conservas, quando chega Spínola à Guiné, Madina irá receber de vez em quando frutas e legumes. 

“Seguindo a determinação do capitão, quando acontece a vinda de frescos, é feito o rateio: primeiro para os soldados, depois para os sargentos e só no fim, se der, para os oficiais. Assim se come meia maçã ou um pouco de grelos cozidos”.

Deixou de haver equívocos: Madina, tal como Béli em menor escala, está transformada numa carreira de tiro, as flagelações com armas pesadas passam a ser diárias, menos quando se sai nas proximidades para recolher lenha, o inimigo não dá tréguas. 

Em junho, Spínola começa a tomar decisões para o abandono de Béli, que decorre sob a proteção de dois T6 que acompanham um longo comboio de viaturas, um dos aviões acidenta-se, estala o pandemónio, depois de uma áspera discussão a coluna retoma a sua missão e chega a Béli ao cair da noite, sendo recebida pelo fogo inimigo de armas ligeiras. 

O regresso faz-se sem novidades, com a chegada do grupo de combate e da milícia acantonados em Béli, reorganiza-se a distribuição do efetivo.

Não há descanso em Madina, o pessoal que circula pelo aquartelamento é alvo de tiros isolados e de roquetadas. 

Chega um grupo de paraquedistas sob o comando de um tenente e com a missão específica de tentar neutralizar os atiradores de armas ligeiras que tornam infernal o quotidiano no quartel. Os Páras travam combate, o tenente é ferido com uma rajada nas coxas. As flagelações com armas pesadas não abrandam, os Páras vão-se embora. 

Tudo vai perdendo normalidade, o comandante de companhia procura animar as suas tropas, fazem fotografias de todo o pessoal, executam postais de boas festas, a energia elétrica é levada a todos os cantos do quartel, o correio não falta, o aniversário de cada militar é sempre ensejo para festejo. 

O ano de 1969 anuncia-se com a retirada de Madina de Boé, a retirada acontecerá num só dia, até lá é necessário manter as condições de defesa e a operacionalidade da companhia, o narrador está de férias, tudo quanto irá descrever é contado por outros. 

Quem comanda a operação é o comandante de agrupamento de Bafatá [cor inf Hélio Felgas],   a 4 de fevereiro, uma enorme coluna sai de Nova Lamego enquadrada por duas companhias e assim se chega ao Ché-Ché, faz-se a travessia, há uma nova jangada sustentada em barcaças da engenharia militar.

Em 5 de fevereiro os militares abandonam Madina, a estrada é cuidadosamente picada, chega-se à margem do rio Corubal a meio da tarde. Em cada viagem é levada uma ou duas viaturas, começou-se pela população civil. 

Na margem do destino, em Ché-Ché, são montados os morteiros 81 retirados de Madina, ficam apontados para as imediações da concentração das tropas e viaturas na outra margem. 

Com morosidade, a travessia concretiza-se, de vez em quando é necessário despejar a água que com o peso do movimento da jangada se vai acumulando nas barcaças de suporte. Cai a noite, a operação continua. Ao amanhecer são poucas as viaturas e tropa que ainda falta transportar.


4. E“a sorte de ter medo”, uma poderosa narrativa que Gustavo Pimenta transmuta em romance (Palimage, 2017), temos uma descrição dos acontecimentos trágicos que ocorreram em 6 de fevereiro, frente a Ché-Ché. 

Na véspera, o grosso das tropas, das viaturas, equipamentos e armamento, já atravessou o Corubal. São nove horas da manhã, entram na jangada de uma só vez as viaturas e os militares, quase todos de Madina de Boé  [CCAÇ 1790], e de uma das companhias que fazia segurança à alteração [CCAÇ 2405].

Segue-se a descrição:

“O peso é enorme, há algumas horas que as barcaças não são esvaziadas, a jangada move-se lentamente.

O pessoal faz manguitos na direção da margem abandonada e grita impropérios dirigidos a inimigos imaginários.

Percorrido cerca do primeiro terço da travessia, o tenente-coronel
 [?],   comandante da operação,  ordena, sem qualquer prévio aviso ao pessoal, que os morteiros façam fogo para as imediações do local de embarque acabado de abandonar.

Na jangada é o sobressalto: nela vêm militares que, de há longos meses, estão habituados a correr para os abrigos ou fugir para a vala mais próxima quando se escuta o som de uma granada a sair à boca do morteiro.

A jangada oscila perigosamente, não se volta, mas fica meio submersa. Alguns militares atiram-se ao caudaloso rio, muitos outros caem à água.

O pessoal está subalimentado, sem dormir há longuíssimas horas, estafado, na água as armas e cartucheiras repletas de munições pesam insuportavelmente.

Largado tudo que os empece, a começar pela arma e as cartucheiras, uns poucos retrocedem a nado para a margem de origem, que está mais perto. Outros conseguem nadar para a margem do destino. A maioria, até porque há quem não saiba nadar ou nade mal, consegue equilibrar-se e manter-se na jangada com água pelo meio do peito.

Deita-se mão da jangada antiga para onde os militares sobem. A que fazia a travessia é puxada, a muito custo, para a margem. Imenso material cai ao rio, mas as viaturas, milagrosamente, não. Há a sensação de que nem todos os homens conseguiram salvar-se.

Todos já no quartel do Ché-Ché, mandam-se formar as forças envolvidas, confere-se o efetivo: 47 militares não respondem à chamada.

É o espanto, o desalento, o choro convulsivo, a raiva a custo controlado pelos comandantes: ninguém entende a razão de se ter feito o fogo de morteiro que precipitou o desastre”.

O narrador estava de férias quando se desenrola esta tragédia, quer prontamente regressar à Guiné, onde só chega a 15 de fevereiro. 

“Na pista, o capitão espera-me. Abraça-me e chora. Convulsivamente, sem palavras, choramos”. 

O narrador perdera 16 homens do seu grupo de combate.

Duas semanas depois do desastre, um grupo de fuzileiros foi destacado para recuperar corpos. Dos 47 desaparecidos apenas foram detetados 7. 

“Em adiantado estado de decomposição, irreconhecíveis e sem quaisquer elementos que os possam identificar, são enterrados numa elevação da margem direita do rio”.

Vai começar a via-sacra dos últimos meses: Nova Lamego, Cabuca, S. Domingos, já levam 19 meses de comissão. Neste último quartel, compete a esta companhia o controlo das povoações ao longo da estrada num raio de 25 quilómetros para Oeste e outros tantos para Leste. Por ali andam a fazer inventário das armas, a ver minas e armadilhas. 

Em maio [de 1969], o inimigo tenta bombardear o quartel com fogo de morteiro, não passou de um susto, retalia-se como bombardeamento a povoação senegalesa de MPack, encostada à fronteira. 

É nessa operação que um furriel fica com o pé direito destroçado por ter pisado uma mina antipessoal, segue-se um confronto com um grupo inimigo.

A exaustão vai tomando conta daquele contingente tão afetado por Madina do Boé. Segue-se uma operação para verificar se a povoação de Barraca Batata, junto à fronteira, está habitada. Desta vez, numa linha de água, é o enfermeiro que pisou uma mina antipessoal, chegará ao hospital já cadáver. Para além do desgaste, chegou a maldita hora da debilidade psicológica. 

Um cabo que tinha no pénis protuberâncias esponjosas entra em depressão, escreve uma carta à mulher e suicida-se, deixara a mala aberta e sobre a roupa meticulosamente dobrada uma carta fechada endereçada à mulher. 

Tenta-se animar a tropa, desdobram-se as iniciativas para preencher os tempos de repouso dos soldados, há muitas cantorias. No fim de Julho, caía a noite quando meia dúzia de morteiros desassossegaram o quartel.

 É nisto que irá processar-se a rendição da companhia, o regresso é no Uíge. E ouve-se, no final deste poderoso relato, a última confissão:

“Havia jurado a mim mesmo que só mataria para não morrer, não disparei um tiro contra qualquer adversário, mas não sei os efeitos das armadilhas que montei e das minas que implantei. 

"Na hora do embarque em Lisboa, prometi à irmã de um dos meus putos que lho devolveria inteiro e a mexer: morreu-me nas águas do Corubal (…).

"Este território não acolhe uma nação, há tantas etnias e tão distintas entre si como entre cada uma delas e os portugueses aqui despejados para fazer a guerra. Com culturas tão diversas e sem, ao menos, uma língua comum, poderá algum dia construir-se aqui um país confortável? 

"Levo comigo África, o que de África me foi dado conhecer e me dizem ser dos piores bocados. Mas não esquecerei a hospitalidade das suas gentes, o sabor das suas comidas, o fascínio das suas inclemências. E o seu cheiro, a sua cor. Que me de mim aqui terei deixado?”.

E, curioso, o neto pergunta-lhe:  

“Avô, como sobreviveste à guerra?”
.

Gustavo Pimenta fez bem em voltar, é um grande acontecimento nesta literatura de retornos, e cumpre agradecer-lhe o belo título escolhido para este labirinto de memórias a que ele chama romance: “a sorte de ter medo”.
____________

(Conjunto de três notas de leitura, do Mário Beja Santos, publicadas separadamente no nosso blogue em 11, 15 e 18 de setembro de 2017. Na altura comentámos: 

"Obrigado, Mário, pela tua extensa nota de leitura... O Gustavo Pimenta tem de ser conhecido e lido por nós!... Madina do Boé é um dossiê que nunca estará 'encerrado'... Como as nossas memórias doridas"...

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Notas do editor LG:

(*) Vd poste de 17 de março de 2010 > Guiné 63/74 - P6009: Notas de leitura (79): sairòmeM Guerra Colonial, de Gustavo Pimenta (Beja Santos)

(**) Último poste da série > 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27772: Documentos (60): A retirada de Madina do Boé (Gustavo Pimenta, ex-alf mil, CCAÇ 1790, 1967/69), autor do livro saieòmeM (Palimage, Coimbra, 1999, 120 pp.), apresentação do jornalista e escritor José Manuel Saraiva (Porto, 1999)

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Guiné 61/74 – P24789: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (14): A minha viagem para o Seminário (Francisco Baptista, ex-Alf Mil Inf)

Miradouro do Vale do Sabor

Foto: Câmara Municipal de Moncorvo, com a devida vénia


1. Em mensagem de 22 de Outubro de 2023, o nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616 / BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), enviou-nos mais um excelente texto, desta feita, a sua ida para o Seminário:

A minha viagem para o Seminário

Até aos doze anos, para oeste de Brunhoso, nunca passei além do rio Sabor, que banhava esses limites da minha aldeia, onde ia por vezes no Inverno a ajudar à apanha da azeitona da Barca, no Verão a apanhar a amêndoa do Picão ou a apanhar os figos, dumas figueiras que a minha mãe tinha herdado, na ribeira das Picotas.

Para norte na direcção do planalto mirandês ia muitas vezes às feiras quinzenais de Mogadouro, por um caminho de terra batida, eram só cinco quilómetros, tocava com a vara vacas e vitelos que o meu pai queria vender, nas feiras quinzenais, que se realizavam num descampado enorme, onde se juntavam muitos animais, os seus donos ou os filhos deles e os compradores e intermediários, o mais conhecido tinha por alcunha o "Chispas", homem falador e irrequieto, natural da vila.

Nunca fomos ricos mas nesses anos com os meus pais em princípio de vida comum, era difícil esticar a manta para tapar umas necessidades pois outras podiam ficar a descoberto.

Recordo-me da casa onde nasci, eu e os meus três primeiros irmãos, todos varões, terei vivido lá dois anos. Casa muito humilde só com duas divisões, uma sobrelevada onde estava a cozinha e a lareira, coberta de telha vã, sem chaminé, o fumo saía por uma abertura que podia ser tapada, no caso de muita chuva ou neve, com uma chapa de metal. Descendo cinco degraus de madeira era o quarto, único, bastante espaçoso e forrado a madeira. Esta casa, contígua à casa grande dos seus sogros, terá sido herdada pela minha avó paterna, de uma parenta pobre chamada Maria "Pequena", casada mas sem filhos.

Anos difíceis para os meus pais, com poucos bens para se governarem, somente algumas terras de cultivo de cereais, emprestados pelos pais deles, e uma pequena horta, os filhos nasceram ao ritmo de um por ano, o nosso pai de compleição atlética mas a ter que tratar-se de doenças quase incuráveis para a época, uma delas a tuberculose, da outra não falo.

Sem saber se pelas condições insalubres da casa, o vento, o frio e calor a que estávamos sujeitos, ou pela falta de assistência médica, morreram dois desses meninos, outros viriam e meninas também, já nascidos em casas maiores, mais arejadas e confortáveis.

Para além dos produtos da horta e da carne de um ou dois porcos que a nossa mãe criava com farelo, castanhas, batatas e hortaliças, de que se curavam os toucinhos e os presuntos, e se faziam muitos enchidos, criava também galinhas e perus que davam ovos, que eram bons cozidos, em omeleta, ou estrelados com algum açúcar no final eram um manjar para mim, davam também boa carne para ocasiões especiais e festas, e para as alheiras que só podiam levar carne de aves ou de vitela, de porco não, segundo a tradição judaica.

Poucos produtos alimentares se compravam para a dieta alimentar da família, para além de algum peixe que a vizinha, tia Clementina, vendia na época própria, que poderia ser sardinha ou chicharro dividido para dois ou três, conforme o tamanho, para dar mais sabor às batatas e às couves, aos tomates, às vagens, aos pimentos e a outras hortaliças que a horta produzia com abundância.

A década de sessenta do século passado, depois do restabelecimento dos povos e das nações após o cataclismo da Segunda Guerra Mundial, foi muito fértil em acontecimentos sociais, políticos e artísticos. Portugal,  um pequeno país, guardado de influências externas pelo Oceano Atlântico, a ocidente, e pela Espanha franquista, fascista e imperial a leste, protegia-se da liberdade, da cultura e do progresso, pela vontade férrea de Salazar, um velho ditador puritano e asceta, durante muitos anos educado num seminário e que não querendo ser bispo, tinha uma ambição maior, ser um rei absoluto de Portugal, como os reis da Idade Média que recebiam o poder de Deus, através do Papa que os legitimava. Sem poder ser rei, tinha sangue plebeu, Salazar enquanto governante comportou-se como um rei absoluto sem coroa, tal como o ditador Francisco Franco em Espanha.

Não havia progresso, para além da agricultura e pastorícia, pois ele crente ou já descrente estava a viver nos tempos bíblicos das suas leituras religiosas que tinha vivido também na paz e bucolismo da sua infância.

Os lavradores, refiro-me a todos os que sozinhos ou com a ajuda de familiares ou pagando a trabalhadores, tinham as mãos calejadas e as sujavam na terra, com mais conhecimentos e instrução, já quase todos tinham a quarta classe, dão-se conta que com tantos filhos nascidos depois da última grande guerra, que os poucos hectares de terra que possuem, cada vez mais dividida pelos filhos, em herança, após a morte deles, mal lhes dariam alimento que bastasse a todos.

Sem máquinas agrícolas ou meios técnicos que possam pagar e sem trabalhadores agrícolas, que no limite da pobreza, estavam em fuga para a Europa rica para lá dos Pirinéus, sem terem meios económicos para pagarem a educação dos filhos em colégios ou pagarem a sua hospedagem nas cidades ou vilas onde havia os estabelecimentos de ensino oficiais, mandam os filhos a estudar para os seminários, onde os custos são menores. Tenho pensado que nos finais da década de cinquenta, Salazar terá conversado com o seu amigo e colega do Seminário, o Cardeal Cerejeira, duas faces da mesma moeda, em conhecimentos e sagacidade, um e outro, quando os seus olhos vivos, perscrutavam a sociedade, Salazar com a ajuda da polícia secreta e dos informadores, começam a dar-se conta que a juventude se afasta da Mocidade Portuguesa, da Igreja e de outros convívios "saudáveis". Muitos estudantes universitários contestam a autoridade e o Estado Novo, influenciados por ideologias de esquerda.

Será especulação ou hipótese académica, ambos conservadores religiosos e políticos, terão concluído que para afastar a juventude das ameaças das ideologias de esquerda que a podem corroer como um cancro, o melhor será franquear as portas dos seminários para educar e formar jovens mais às suas imagens e semelhanças.

Nesses meus verdes anos, dei-me conta na realidade de que houve uma mobilização de párocos e de padres de ordens religiosas a querer entusiasmar os jovens nesse sentido, com o agrado das mães contentes por poderem vir a ter um filho padre e os pais a terem um filho a estudar com poucos gastos.

Se chegassem a padres teriam um futuro, digno, sagrado segundo mães, se não conseguissem esse objectivo, muito difícil, poucos o conseguiam, poderiam fazer alguns estudos por preços bastante económicos que lhes poderiam dar acesso a um emprego no Estado, num banco, nos seguros ou nalguma empresa, que os poderia libertar da dureza do trabalho da terra e poderiam aspirar a uma vida mais limpa e digna, com outro prestígio aos olhos dos seus concidadãos e com mais vantagens económicas.

Dos seminários saíram poucos padres mas muitos estudantes, alguns com os estudos liceais completos, outros a meio ou perto do fim, muitos deles nas décadas de 60 e 70, foram preencher as necessidades de quadros milicianos militares da guerra colonial, alferes, furriéis e até capitães, na sua maior parte o regime confiava que eles não tivessem sofrido influências das doutrinas de Marx, Lenine, Mao-Tse-Tung ou dos reformadores republicanos e socialistas.

Alguns tiraram cursos superiores, da minha aldeia, o padre Neto, falarei dele adiante, formou-se como padre nos anos quarenta, nos anos cinquenta o meu amigo Francisco Carvalho, depois de muitos anos de seminário saiu e doutorou-se em filosofia e nos anos oitenta saiu padre o meu parente José Cordeiro. Os três estiveram na congregação dos Salesianos tal como eu e outros mais.

Quando no primeiro trimestre de 1969, o Batalhão de Cadetes milicianos de Mafra, na foz do Lizandro, atroou os ares, nessa noite escura e trágica, com gritos de assassinos e vamos embora, pela morte de três camaradas por incúria e desleixo dos instrutores, responsabilizando o comandante que tinha ficado no quartel, quem deu as palavras de ordem foram os estudantes universitários do Porto, Coimbra e Lisboa. Conheci bem um dos mortos, era um ex-seminarista, educado, afável, humilde, dormia perto de mim na camarata, no corredor oposto ao meu, foi o meu primeiro camarada conhecido a morrer nessa maldita guerra, recordo-o ainda com mágoa.

Somente depois de fazer a quarta classe, para meu gosto e desgosto, obedecia, os meus pais mandavam, fiz uma grande viagem para o Seminário de Mogofores, na Beira Litoral, onde o meu irmão mais velho já tinha estado um ano, os outros mais novos teriam como primeira grande viagem destinos semelhantes. Eu gostava de ir estudar, ir para o seminário nem tanto, nunca gostei de rezar mas o dinheiro era pouco. Os seminários faziam preços económicos para alojamento e alimentação, poderia até ser grátis para os filhos dos mais pobres.

No meu caso, quem me procurou entusiasmar para ir para de Mogofores foi o padre Neto da congregação dos Salesianos, amigo da casa dos meus pais, como a família dele. O pai dele era um homem respeitável na comunidade, tal como a sua mãe. O pai era um barbeiro, de ar calmo e sabedor em fazer curativos e aconselhar pomadas e chás para outros problemas. A mãe era uma senhora delicada, muito religiosa, socialmente muito estimada.  Tiveram também uma filha freira, da mesma congregação religiosa.

Pela vida fora eu e o padre Neto, fomos sempre amigos, sendo eu adolescente e ele um homem já perto dos quarenta anos, sentia-me lisonjeado por ele me tratar, tu cá, tu lá, como um igual.

Em textos anteriores já enfatizei a beleza das minhas viagens pela linha do Sabor e do Douro. O vale do Douro português será provavelmente um dos vales mais belos do Mundo.

O vale do Sabor é belo, emociona-me, arrepia-me, é o meu vale de lençóis, de águas bravas, águas azuis, verdes, castanhas cinzentas, hoje com a construção da barragem, de águas calmas, de ladeiras cobertas de oliveiras, amendoeiras, de salgueirais, troviscais, reflectidas em grandes espelhos de água.

Esta é sobretudo uma viagem no tempo, a idade não me permitia muita independência de espírito, estava muito ligado à terra, para a adjetivar com palavras belas. Dos montes da minha terra, dos vales, rios e ribeiros, gostava sem o saber, como gostava dos meus pais e irmãos, sem que que lho confessasse. O rio Douro tinha maior caudal e maiores arribas do que o Sabor.

Mal recordo a cidade do Porto, terei mudado logo, na estação de S. Bento para linha do Norte em direcção a Mogofores. Na linha do Norte, espreitei o mar que com curiosidade, nunca o vira, ter-me-ei dado conta da transformação da paisagem, sem montes, tão plana, tão diferente da transmontana.

Ainda hoje estranho um pouco as paisagens planas, dá-me a impressão que mudei de país. A região de Aveiro pela planura e pela ria lembra-me sempre a Guiné.

A linha do Sabor, que seguindo o rio a alguma distância, não o mostrava, já não existe, foi abandonada como todas as outras linhas dos afluentes do Douro, por ordem de um governante iluminado do poder central de Lisboa, com poucos protestos da capital do Norte. Não há norte ou sul, em Portugal há interior e litoral, no litoral vivem os cidadãos e no interior alguns indígenas em fase de extinção.

Na minha viagem para o seminário de Mogofores, terei ido só ou acompanhado, já não me lembro, sei que levava uma grande mala de cartão, não havia outras, com roupa marcada pela minha mãe, com as minhas iniciais, lençóis e toalhas também. Levava roupa para um ano, as distâncias eram grandes, os comboios lentos, não haveria férias de Natal ou da Páscoa.

Sendo um filho obediente, com um espírito rebelde, aceitava a necessidade de ir para o seminário, atendendo às dificuldades económicas da família que crescera, já éramos sete irmãos. A vida na agricultura nesse tempo era dura, além disso eu gostaria de aumentar os meus conhecimentos.

A minha predisposição à partida seria idêntica à dos meus conterrâneos, novos ou velhos, quando partiam para o Brasil e dos outros que saltaram fronteiras em direcção à França, a necessidade de melhor futuro fazia-nos partir a todos.

Não gostei da vida do seminário, muita igreja, logo pela manhã depois de levantar, muitas rezas, muitas filas por longos corredores húmidos, frio, fazia-me falta uma lareira, padres muito religiosos mas com pouca alma. Por vezes falava com o cozinheiro para matar saudades, era da minha aldeia, surdo, tinha aprendido a escrever, a falar e a arte da cozinha, numa casa de apoio para rapazes com dificuldades, no Colégio dos Órfãos no Porto dirigido por essa congregação.

Perto do Natal terei cometido uma barbaridade, um erro grave, um grande pecado que não consigo lembrar, por esse motivo fui chamado ao Prefeito, o padre que administrava a justiça com severidade, por quem fui punido com a dureza que se impunha, fortes reguadas. No final do castigo, furioso lancei o meu grito de revolta e disse a esse padre vermelhusco, mirandês de Ifanes, que ele não era meu pai e que portanto não tinha direito de me maltratar assim.

No dia seguinte fui falar com o Director, um padre naturalmente, a dizer que queria regressar a casa. Não me deixaram, obrigaram-me a passar o ano nesse "quartel", frio e húmido, o pior que conheci na minha vida.

Não gostei de Mafra, o tenente de instrução do meu pelotão era um sádico, que nos meses frios e húmidos do Inverno, nos tratava como animais, para meu desgosto era natural do Nordeste Transmontano.

O frio húmido do litoral entrava-me dentro pela carne e pelos ossos, o frio dos meus montes era mais agreste mas mais seco, era um ar frio que me afagava, ainda hoje é assim.

Nesse tempo os seminários condicionavam mais a personalidade dos jovens adolescentes do que a vida militar, pela disciplina excessiva, pelas práticas e o ensino religioso, tão obsoletos. Para os seminários iam jovens pré-adolescentes mais fáceis de moldar, para a tropa iam jovens já adultos, quase homens feitos.

No século passado, os seminaristas eram reconhecíveis por terem um semblante demasiado sério, quase triste, como se os anos de recolhimento e clausura lhes tivessem roubado, a alegria, a imaginação e os sonhos. A Igreja é uma instituição hierárquica, tal como a tropa que foi copiar a organização à Igreja. Em ambas se cultiva o poder e a ostentação para dominar e impressionar os simples cidadãos, há bispos, arcebispos, padres, generais, coronéis, capitães, todos muito vaidosos e vistosos, Deus, um velho já cansado a todos absolve.

Salazar esteve quarenta anos no poder, pela sua graça, de alguns polícias demoníacos e com a ajuda da Igreja e das Forças Armadas.

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Notas do editor

Último poste da Francisco Baptista de 6 DE JUNHO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24374: (In)citações (246): O regresso dos Soldados (Francisco Baptista, ex-Alf Mil Inf)

Último poste da série de 24 DE OUTUBRO DE 2023 > Guiné 61/74 – P24787: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (13): 50 ofícios e profissões de antigamente, extintos ou em vias de extinção (Luís Graça, Lourinhã)

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Guiné 61/74 - P22729: As Nossas Mães (17): Uma pequena grande prova de amor, um recorte de jornal de Angola (, com a notícia do juramento de bandeira do 1º ciclo do COM), guardado durante mais de meio século na carteira da mãe, recentemente falecida aos 98 anos, do nosso camarada João Rodrigues Lobo

 




Pedaço de jornal, guardado, na sua carteira, pela mãe do nosso camarada João Rodrigues Lobo, durante  mais de meio século: o recorte refere-se ao juramento de bandeira do 1º ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, realizado em Nova Lisboa, Angola, na EAMA, no dia 23 de dezembro de 1967...



Região Militar de Angola (RMA) > Nova Lisboa > EAMA (Escola de Aplicação Militar de Angola) > 1º Ciclo do  COM  (Curso de Oficiais Milicianos) > 23 de dezembro de 1967 > Juramento de bandeira... (Capa da revista da RMA, nº 18, janeiro de 1968)

Fotos (e legendas): © João Rodrigues Lobo (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem de João Rodrigues Lobo:

(i) ex-alf mil, cmdt Pelotão de Transportes Especiais / BENG 447 (Bissau, Brá, dez1967/fev1971);

(ii) fez o 1º COM, no último trimestre de 1967, em Angola, na EAMA, Nova Lisboa, Angola, onde viveu na sua juventude (*); 

(iii) natural de Óbidos, vive em Torres Vedras onde trabalhou durante mais de 3 décadas como chefe dos serviços de aprovisionamento do respetivo hospital distrital;

(iv) é membro nº 841 da Tabanca Grande (**);

(v) a titulo particular, comunicou-nos, há dias, o falecimento da sua querida mãe, no dia 14 do corrente, na Lourinhã:


Data - quarta, 17/11, 15:35 
Assunto - Recordação
 
Boa tarde,

Hoje mais uma vez me vieram lágrimas aos olhos.

Ao verificar a carteira dos documentos da minha Mãe,  encontrei bem lá no fundo este recorte de jornal muito velhinho.

As mães guardavam recordações que desconhecíamos durante tantos anos.

Quis compartilhar com os camaradas.

Um abraço, João.

2. Comentário do editor LG:

João, tiveste a gentileza de comigo  partilhar ha tempos a tua alegria por ter, ainda com vida, saúde e autonomia, a tua mãe de 98 anos... Há dois meses e tal, ela sofreu uma queda, e acabou por ser internada num lar, em Santa Bárbara, perto da Lourinhã... Como bom filho, ias visitá-la,  dia sim, dia não, às terças,  quintas e sábados... 

Não conseguimos agendar uma hora para nos encontrarmo-nos na Lourinhã, estando eu também a fazer fisioterapia todos os dias da semana, da parte da manhã... E tendo de vir com alguma frequência a Lisboa.

Há dias sou surpreendido com a  triste notícia da morte da senhora tua mãe,  aquela notícia  que sabemos que nos vai um dia chegar, mas que não queremos acreditar que um dia nos chegue. Já tive ocasião de, particularmente,  te enviar um abraço de solidariedade na dor, na minha qualidade de teu camarada evvizinho. Mas agora faço-o na qualidade de editor do blogue e em nome da nossa Tabanca Grande. E  venho cumprir  a tua vontade expressa  de partilhar com os nossos leitores esta pequena grande prova de amor de mãe, traduzida num simples recorte de jornal, sem data, mas que sabemos que deve  ser de finais de  dezembro de 1967, e talvez de uma semanário de Nova Lisboa ou de um diário  de Luanda.   

A tua mãe tinha muito orgulho em ti!...Haveremos de nos encontrar na Lourinhã, se possível ainda antes do Natal. (***)
_________


(**) Vd. poste de 20 de junho de 2021 > Guiné 61/74 - P22300: Tabanca Grande (518): João Rodrigues Lobo, ex-alf mil, cmdt Pelotão de Transportes Especiais / BENG 447 (Bissau, Brá, dez 1967/fev1971)... Fez o 1º COM, em Angola, Nova Lisboa. Vive em Torres Vedras. Senta-se à sombra do nosso poilão no lugar nº 841.

sábado, 9 de outubro de 2021

Guiné 61/74 - P22612: "Diário de Guerra, de Cristóvão de Aguiar" (texto cedido pelo escritor ao José Martins para publicação no blogue) - Parte III: Mafra, maio-junho de 1964


Amadora > Academia Militar > 1963 > Não é em Mafra, é na Amadora, na Academia Militar. ao tempo em que lá andava o nosso querido amigo, camarada ecoeditor(jubilado) Virgínio Briote... Cadetes de saída para fim de semana.

Foto (e legenda): © Virgínio Briote (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da (re)publicação do "Diário de Guerra" (*), do nosso camarada açoriano e escritor Cristóvão de Aguiar (1940-2021), que acaba de falecer esta semana (*). 

Organização: José Martins; revisão e fixação de texto (para efeitos de publicação no nosso blogue=: Virgínio Briote. Estes excertos, gentilmente cedidos pelo autor ao José Martins,  fazem parte do seu livro "Relação de Bordo (1964-1988)" (Porto, Campo das Letras, 1999, 425 pp).





Cristóvão de Aguiar.
Foto: Wook (com a devida vénia...)


Diário de Guerra

por Cristóvão de Aguiar


(Continuação)

1964

Maio, 1 – Fala-se numa possível revolução no dia de hoje.

Até agora, nada. Mas, apesar de ser boato, as forças da ordem estão em vigilân­cia abso­luta nos quartéis, de onde ninguém pode sair. Nem nós, instruendos do C.O.M., te­mos dis­pensa.

Maio, 2 – Estes instrutores militares são de uma crueldade mazi­nha.


Aos sábados e às segundas-feiras, a instrução é sempre mais dura do que nos ou­tros dias, para que o fim-de-semana fique estragado, sobretudo para quem o vai passar para fora de Mafra, e não dorme na noite de domingo para segunda.

Hoje, sábado, por exemplo, o meu pelotão foi para o C.E.M.E.F.E.D., mesmo ao pé do Convento, para fazermos o pórtico. Este consiste em uma estrutura de cimento armado, com mais de três metros de altura, no cimo da qual existe um rectângulo formado por vigas com não mais do que trinta centímetros de largura.

O exercício consistia em subir lá para cima por umas escadinhas, com a espingarda, e de­pois andarmos com a arma poisada em ambas as mãos para nos equilibrarmos. Por vezes em passo acelerado.

Recusei-me a fazer tal exercício. Eu e alguns mais. Sinto vertigens e não estava para me estatelar de tal altura no chão duro e ficar maltratado para o resto da vida. O alferes não reagiu mal à recusa. Apenas disse que teríamos, no final do curso, nota mais baixa. Que se lixe a nota e o brio militar. Mas, a maior parte do pelotão lá subiu e fez tudo quanto lhe foi ordenado. Só de os ver cá de baixo arrepiava. Ainda para mais com chuva e lama...

Às segundas-feiras, iniciamos a instrução com um cross de muitos quilómetros, espingarda em bandoleira, para anular o descanso (?) do fim-de-semana. Puta de vida esta! E a procissão ainda vai no adro...

Maio, 6 – Mudei de caserna há duas semanas.

Meti uma pre­tensão es­crita ao comandante de companhia, que, entretanto, foi promovido a capi­tão. O meu pedido foi deferido. O Vítor Branco é agora meu companheiro. As nos­sas tarimbas fi­cam rente uma à outra, perto da entrada dos lavatórios e retretes.

Hoje à noite, vão apare­cer, lá dentro, panfletos revolucionários das JAPs (Juntas de Acção Patriótica). Há bo­cado, ao entrar na porta-de-armas, não sei como não deu o oficial de dia pela minha bar­rigona de grá­vida de mui­tos me­ses. Quando me apa­nhei cá dentro, até suspi­rei de alívio. O No­gueira e Silva é muito mais calmo do que eu. O Vítor nem se fala. E o Camargo, ape­sar de nervoso, também disfarça muito bem.

Maio, 7 – Ainda não tinha tocado a alvorada e já o oficial de dia estava na caserna a passar revista aos cacifos.

Fingi que estava a dormir, mas ele aba­nou-me e lá lhe fui abrir o meu. E lá foi rosnando, entre dentes:
- Há por aí uns sa­ca­nas de uns gajos que querem pôr o quartel em polvorosa; apareceram uns panfle­tos comunistas em várias instalações sanitárias, mas ainda se vão foder todos que é um re­galo.

Fiz-me desentendido e, depois da revista, voltei para o beli­che. Não apa­nhou rastro de panfletos em ne­nhum dos cacifos da caserna. O Vítor Branco sorriu para mim, à socapa. Guardo o caderninho destes apontamentos de­baixo do colchão e nunca me esqueço de o levar para Coimbra. Qualquer dia ainda me lixo.

Coimbra, Maio, 10 – Resolvi deixar o caderninho deste diário bem guar­dado na minha República, aqui em Coimbra.

Daqui em diante, vou passar a es­crever em folhas soltas. Depois, trago-as comigo todos os 
fins-de-se­mana, para as juntar ao caderno. O seguro morreu de velho.

Mafra, Maio, 13 – Hoje, numa aula conjunta de filosofia militar, cha­me­mos-lhe assim, com todas as companhias do C.O.M., o major encarre­gado da pre­lec­ção semanal passou parte do tempo a falar sobre subversão nos quartéis.

Arengou so­bre os inimigos da Pátria e, como exemplo de subversão, leu um pan­fleto que tinha aparecido há dias nas instalações sanitárias das três casernas dos ca­detes. Pediu-nos a todos vigilância sobre o inimigo que já se en­contrava entre nós e in­centi­vou-nos à sua denúncia, que a Pátria em armas as­sim o exigia de seus filhos legítimos.

Maio, 20 – Mais panfletos, desta vez comentando os comen­tá­rios do nosso major na última aula de quarta-feira e inci­tando os cadetes à subver­são.

Es­tava mesmo bem escrito. Na aula da semana que vem, com o major e com to­das as compa­nhias do C.O.M. juntas, não posso ficar ao pé dos meus ami­gos. É uma questão de precau­ção.

Junho, 10 – Apesar do feriado, não fui a Coim­bra.

Passei o dia por aí. De manhã fui ao café Frederico e, sem querer, vi a parada militar na tele­vi­são. Até me arrepiei. Sobretudo com as conde­corações póstumas.

A tarde, passei-a no quartel com o Nogueira e Silva, que se encontra castigado. O co­mandante da uni­dade, um coronel ti­rocinado, deu-lhe uma punição de três fins-de-se­mana sem sair.

Há dias, numa livraria da Vila, estava o Nogueira e Silva a ver livros ao lado de um sujeito à paisana. Às tantas, esse senhor, vira-se para o ca­dete pitosga e dis­para:
– O nosso cadete não me conhece? 

Resposta pronta do Nogueira e Silva, esten­dendo-lhe a mão:
– Não, não tenho esse prazer, mas apre­sento-me, sou fu­lano. 

O ho­mem não gostou e disse-lhe: 
– Com­pa­reça no meu gabinete ama­nhã de manhã, sem falta; não sabe que, pelo Regu­lamento Militar, é obrigado a co­nhe­cer o seu co­man­dante?

Junho, 19 – Iniciámos a semana de campo.

Viemos de Ma­fra até à Praia de Santa Cruz, a pé, com a mochila às costas e a espingarda em ban­do­leira. Es­tamos acampados nuns pinhais não muito longe do areal. Cheguei com os pés es­fo­la­dos. Felizmente que hoje à noite não estou de guarda. Posso ir dormir para a tenda, que compartilho com o Júlio Freches. Dormir ves­tido, claro. Só se descalçam as botas.

Junho, 24 – Ontem à noite estivemos brincando à guerra.

Es­tive de sentinela ao acampamento. Havia-as de vinte em vinte metros, formando um cor­dão à volta do aquartelamento de campanha. Escuro que nem breu. Não se re­conhe­cia um vulto.
A dado mo­mento, sinto aproximar-se uma patrulha. Dou voz de alto e de ime­diato debitei a senha para que o comandante da pa­trulha me respon­desse com a con­tra-senha. Só assim lhe poderia dar autorização para prosse­guir.

Tinha-se es­quecido dela e eu não quis deixá-lo passar. Mas o capitão vinha também integrado na patrulha, ape­nas para ver como se portavam os homens da sua com­pa­nhia. Soube-o, não porque o ti­vesse visto, reconheci-o tão-só pela voz. Disse-me ele então:
– Deixe lá passar, nosso ca­dete e apre­sente-se amanhã de manhã junto da tenda do co­mando. 

Logo que termi­nou o exer­cício e clareou o dia, fui-me apresentar ao capitão. Só me queria co­nhecer. Fi­quei fulo comigo mesmo por ter sido tão milita­rista e tive algum nojo de mim... Afi­nal, a la­va­gem a que eu e os meus cama­radas havía­mos sido sujeitos durante cinco meses estava dando os seus frutos.

Junho, 26 – Terminou a semana de campo.

Regressámos em duas colunas, uma de cada lado das bermas da estra­da, mochila às cos­tas e es­pin­garda em bandoleira, caminhamos em direcção ao convento. Vem toda a gente der­reada, os pés em ferida, o corpo empastado de suor velho.

À entrada da Vila de Mafra vejo o casa­rão pesado e ba­lofo e até se me exulta o coração como se regres­sasse a casa após uma longa au­sência. Antes de chegarmos à porta-de-armas, ouve-se a Banda do Regi­mento. To­ca para nós marchas militares.

E não é que os nossos pés ganham le­veza, as feri­das se ca­la­m, o peito se ergue, os bra­ços pegam de fen­der o ar com altivez e dos olhos re­bentam lá­grimas de um prazer sensual?
Ao pas­sarmos em continência ao lado da Banda Regi­men­tal já não somos os mesmos maltrapi­lhos que regressam alquebra­dos de um teatro simulado de guerra.

Creio que fo­ram os Espartanos que ganharam uma batalha, com um general coxo e gago, que os Atenienses lhes haviam mandado por escárnio. En­quanto lutavam, o gene­ral can­tava-lhes, com a afinação dos gagos, cantos bélicos que enchiam os guerrei­ros de ânimo. Foi o meu velho pro­fessor de História do terceiro ano, o Doutor Ruy Galvão de Carvalho, quem nos con­tou este episódio.

Junho, 28 – Juramento de Bandeira em frente do Convento de Mafra.

Não só não junto a minha voz ao coro, como também faço figas... Juro o raio que os parta! Fim do primeiro ciclo de instrução. A especialida­de são mais dois me­ses. Ao todo sete. É demais. É este o primeiro curso que tem tamanha duração.

O Estado Maior justificou o prolonga­mento por se tratar de oficiais que vão ter a res­pon­sabili­dade de co­mandar homens em teatro de guerra. E cinco meses de ins­tru­ção, in­cluindo recruta e especialidade, como vinha sendo praticado até agora, era pouco tempo. Vou continuar em Mafra, que a minha es­pecialidade é a de atirador de infan­taria. Nem os testes psico-técnicos, aos quais respondi com sinceridade, me valeram.

Muitos cama­radas vão para outras uni­dades receber a instrução, con­soante a espe­cialidade que lhes ca­lhou. Os que entraram para a Força Aé­rea foram os mais sortu­dos. No sorteio que há dias se fez, tirei o número quarenta e sete. Como eram sessenta os cadetes pedi­dos ao Exército pela Força Aérea, deviam ser para lá trans­feridos os que haviam ti­rado os primeiros sessenta algarismos, isto segundo o crité­rio de sorteios ante­ri­ores.

Ainda ali­mentei grandes esperanças e esfreguei as mãos de contenta­mento durante algum tempo. Mas, dias depois, viu-se perfeitamente o crité­rio seguido. Primeiro, as cunhas. E, para não dar muito nas vistas, os dois ou três números mais próximos delas.

Por exemplo, entraram para a aviação o 70, 71, 72, depois o 19, 20, 21, depois o 120, 121, 122, e assim por diante, sem qualquer ordem ou aparente critério. Ninguém deu pio, mas toda a gente perce­beu. O Ca­margo e o Vítor Branco tiveram sorte e lá vão para a Ota dentro de dias. O nosso grupinho desmanchou-se, cada um para seu lado, ligações corta­das. Com a queda há semanas de Nikita Krutchev baral­ha­ram-se muitos espíri­tos.

(Continua)
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Nota do editor:

(*) Postes anteriores:

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Guiné 61/74 - P22611: "Diário de Guerra, de Cristóvão de Aguiar" (texto cedido pelo escritor ao José Martins para publicação no blogue) - Parte II: Mafra, fevereiro-março de 1964


 Lisboa > Benfica > Biblioteca-Museu República e Resistência – Espaço Grandella > 27 de novembro de 2008 > Cristóvão de Aguiar,à esqureda, na apresentação da nova edição do seu livro "Braço Tatuado".

Foto (e legenda): © José Martins (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da (re)publicação  do "Diário de Guerra" (*), do nosso camarada açoriano e escritor Cristóvão de Aguiar (1940-2021), que acaba de falecer. 

Publicámos, no devido tempo, em 2009, há cerca de 12 anos, este "Diário de Guerra", que nos chegou às mãos, por intermédio do José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70).

A grande maioria dos nossos leitores não teve oportunidade de conhecer este notável texto, de que se publicaram 11 postes (, muito espaçados, entre janeiro e setembro de 2009).

O "Diário de Guerra", do Cristóvão de Aguiar,  abarca um período de tempo de seis anos, desde a entrada do autor em Mafra, em 26 de janeiro de 1964, para fazer a recruta e dar início ao Curso de Oficiais Milicianos até ao fim da comisão na Guiné (onde foi alf mil, CCAÇ 800, Contuboel e Dunane, 1965/67) e o "difícil regresso à vida civil", entre 1967 e 1970.

Estes textos fazem parte do seu livro "Relação de Bordo (1964-1988)" (Porto, Campo das Letras, 1999, 425 pp).

Na altura a revisão e fixação do texto foi da responsabilidade do nosso coeditor (hoje, jubilado) Virgínio Briote. Mais uma vez agradecemos ao José Martins a sua sensibilidade e a sua generosidade ao servir de intermediário entre o nosso blogue e o escritor, e ao aceitar organizar o texto para publicação no blogue, com a devida autorização do autor.

Esta é também uma forma de homenagearmos a memória do nosso camarada açoriano Cristóvão de Aguiar.



Cristóvão de Aguiar.
Foto: Wook (com a devida vénia...)


Diário de Guerra

por Cristóvão de Aguiar


1964

Fevereiro, 3 – Afinal, houve fim-de-semana.

Mas, aqui, nunca nada é dado como certo. Deve fazer parte da filosofia da instrução esta constante expectativa em que nos fazem andar as altas patentes. Assim como o boato. Só no sá­bado de manhã, depois da ginástica de aplicação militar, mais dura do que nos dias prece­dentes, é que nos deram carta de alforria.

Fui a Coim­bra passar parte da tarde e a noite de sábado e o domingo todo o dia, até às dez da noite, hora da camionete. Vi-a a uma janela do lar. Cumprimentei-a, mas não vi jei­tos de ela querer al­guma coisa co­migo. Agora estou arrependido de me ter derramado em duas fo­lhas de carta. Paciên­cia.

Tenho alguns mús­culos do corpo doloridos, mas já me vou sentindo besta. Não preguei olho durante a noite de domin­go noite de domin­go - a camionete che­gou a Mafra, três horas e pouco antes de princi­piar a ins­trução e ao contrário da maioria dos cama­radas não consigo dormir em transportes. Viajo por dentro de mim e chego sempre à Ilha, onde Ela ficou. Apesar de estar tresnoitado, aguentei bem a dureza militar do dia.

Fevereiro, 4 – Quando um homem aflito se abre a medo com al­guém e logo depois se acha falando a mesma linguagem, ilumina-se-lhe o íntimo do prazer que os primeiros cristãos deviam sentir quando um desenhava um peixe no chão e o outro lhe respondia com o mesmo gesto...

O Júlio Freches do meu pelotão, que tem a sua tarimba ao lado da minha, tornou-se meu amigo. Ele iluminou-se e eu acendi-me. O Júlio engraxava as botas ao pé de mim, o tempo e a tinta escorrendo pelos dedos. A caserna era, ao meio-dia e ao fim da tarde, após a instrução, uma enorme caixa e banco de engraxador profissional. As nossas conversas eram ciciadas como na penumbra de um confessionário. E quem poderá revelar o segredo da confis­são?

Fevereiro, 24 – Principiei o dia e a semana com um cross de cinco quiló­me­tros.


Já vou tendo resistência de atleta. Nenhum do pe­lotão arreou, o que sa­tisfez o alferes, que ia à frente marcando o ritmo. Depois, fomos para a ta­pada, para rece­ber­mos in­s­trução sobre gra­na­das e explosivos. Um alferes da 1ª com­panhia ficou sem um dedo. Rebentou-lhe um detonador nas mãos.

Março, 5 – O meu fato-macaco cheira mal que se farta.

Não admi­ra. Estive quase toda a manhã a rastejar e a dar cam­balhotas na lama. Só não con­segui saltar a vala. Caí dentro dela e fiquei com as botas e as meias en­charca­das. Mas se­ca­ram. As meias e as botas e o fato zuarte. No próprio corpo. Faz parte do endure­ci­mento do corpo e da alma.

Março, 19 – Mudámos de comandante de pelotão.

O tercei­rense foi de novo mobilizado, desta vez para a Guiné. Houve jantar de despedida na Eri­ceira. Foi o pelotão em peso. Era um alferes maluco, mas no trato não era de­su­mano.

Uma segunda-feira, cheguei mais tarde a Mafra, por se ter avariado a ca­mionete. Pelo regu­lamento, tinha obrigação de ser castigado. Felizmente que me mandou à ca­serna vestir a farda de trabalho e disse-me que, por ele, não vira nada nem de nada sabia. Fe­chou os olhos. Alguns camaradas de outros pelotões não tive­ram a mesma sorte. Apa­nharam um fim-de-semana de castigo. Chama-se a isto solidarie­da­de entre ilhéus!

O novo coman­dante é um aspirante da Academia, que acabou de fazer o seu tirocínio aqui em Mafra. É um puto reguila, que nos vai fazer a vida ainda mais ne­gra. Traz todo o tesão de mijo da Academia.

Março, 20 – Dos novos aspirantes tirocinados que aqui fi­caram nesta unidade, há dois que foram meus colegas no Liceu.

O Luciano e o Rocha, de Ponta Delgada e de Água de Pau, respecti­vamente. A primeira vez que os vi, fiz-lhes a continência, não fosse o diabo tecê-las. Havia muitos mili­tares por perto. Ri­ram-se. Conversaram comigo sem qualquer problema, mas disseram-me que, sem­pre que es­tivessem outros graduados à vista, devia bater-lhes a pala. Por causa das coisas.

Hoje de manhã, no render da guarda e do oficial de dia, a Banda do Regi­mento tocava a mar­cha Angola é Nossa. Toda a gente estava em sentido. Eu, que estava ao pé de um dos muros da parada, fui-me encostando vagarosamente a ele. Ainda não tinha aque­cido nem as costas nem o rabo ao en­costo, e o Rocha de longe fazendo-me um gesto muito delicado e sub-reptício para que me pusesse direito.

Mais tarde, quando teve oportuni­dade de falar comigo, disse-me que tinha sido o coman­dante da companhia que lhe ti­nha chamado a atenção a meu respeito. E como na tropa as ordens são dadas em ca­deia, ele teve de a transmitir. Pena não ter chamado um sargento. Tenho de to­mar cui­dado, que os estudantes de Coimbra são, aqui, considerados sub­versivos...

Março, 25 – Corre por aí que temos bufos por todo o lado.

Até no próprio pelotão os há. Disseram-me que ontem foi visto um cadete sen­tado a uma mesa, sozinho, num café da Vila, com um microfone disfarçado no quépi, es­trategi­ca­mente abandonado sobre o tampo. Hoje fiz versos...

Março, 27 – Há dois meses com uma farda e uma espin­garda, que, de tanto andar comigo, já me parece um membro do corpo.

Quando a não te­nho, e raro é, fico com a impressão de que me falta qualquer coisa. É a besta, salvo seja, crescendo cada vez mais dentro de mim. Durmo como uma pe­dra e até engor­dei.

Hoje, à tarde, na Vila, com a dispensa de recolher e da ter­ceira refeição no bolso, eu e o Camargo fomos jantar num restaurante barato, para variar. A dada altura, disse-me que queria falar comigo. Mas ali, não, que havia muitos ouvidos. Fomos então passear para um descam­pado.

E disse-me longamente da sua justiça. No fim da par­lenga, per­guntou-me:

– Queres per­tencer à organi­za­ção? – res­pondi-lhe que sim senhor, que não me im­por­tava nada. – De­pois serás con­tac­tado por alguém; temos muito traba­lho a fazer no quartel.

(Continua)
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Nota do editor:

Guiné 61/74 - P22609: "Diário de Guerra, de Cristóvão de Aguiar" (texto cedido pelo escritor ao José Martins para publicação no blogue) - Parte I: Mafra, janeiro de 1964


Mafra > EPI > Março de 1967 > "Fotografia do meu pelotão (1.º Pelotão da 1.ª Companhia de Instrução) do COM de janeiro de 1967, desfilando de regresso à parada da EPI, depois do juramento de bandeira. Nesta foto, do meu álbum de guerra, estou em 3.º lugar na 1.ª fila. O sargento, que empunha uma FBP, não conta.

"A foto foi tirada por um familiar de um camarada soldado-cadete. A foto é de março de 1967. Ainda fiquei mais cerca de 3 meses em Mafra para a especialidade de atirador de infantaria." 
 

Foto (e legenda): © Eduardo Moutinho Santos (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Publicámos, no devido tempo, em 2009, há cerca de 12 anos, o "Diário de Guerra", do nosso camarada e escritor Cristóvão de Aguiar (1940-2021) (*)
, que nos chegou às mãos,  por intermédio do José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70). 

A grande maioria dos nossos leitores não teve oportunidade de conhecer este notável texto, de que se publicaram 11 postes (, muito espaçados, entre janeiro e setembro de 2009).

O "Diário de Guerra" abarca um período de tempo de seis anos, desde a entrada do autor em Mafra, em 26 de janeiro de 1964, para fazer a recruta e dar início ao Curso de Oficiais Milicianos (**) até ao fim da comisão na Guiné (onde foi alf mil, CCAÇ 800, Contuboel e Dunane, 1965/67) e o "difícil regresso à vida civil", entre 1967 e 1970. (***)

Estes textos fazem parte do seu livro "Relação de Bordo (1964-1988)" (Porto, Campo das Letras, 1999, 425 pp).

Na altura a revisão e fixação do texto, para efeitos de publicação neste blogue,  foi da responsabilidade do nosso coeditor (hoje, jubilado( Virgínio Briote. Agradecemos ao José Martins a sua sensibilidade e a sua generosidade ao servir de intermediário entre o nosso blogue e o escritor, e ao aceitar organizar o texto para publicação no blogue, com a devida autorização do autor. 

Está é também uma forma de homenagearmos a memória do nosso camarada açoriano Cristóvão de Aguiar que,como escritor,é dono de uma vasta obra (publicada na totalidade pelas Edições Afrontamento).



Cristóvão de Aguiar. 
Foto: Wook (com a devida vénia...)


Diário de Guerra

por Cristóvão de Aguiar

1964

Janeiro, 26 – Acabei de chegar.


O casarão do convento é tão frio e tão feio, que tenho o coração a doer e vontade de chorar. Quem me dera agora na Ilha, o ventre materno para onde volto sempre que me sinto aban­donado.

Durante a viagem de boleia de Coimbra para Lisboa, bem se esforçou o Carlos Can­dal, meu amigo e companheiro de República, por me animar. Está na tropa, na capital, e só amanhã vou principiar o Curso de Oficiais Milicianos. Fi­quei na ca­serna número quinze, no ter­ceiro piso, a maior de todas, de tecto abaulado e baixo.

Acabei de fazer a cama, como soube e pude. Segui atentamen­te a demons­tração de um habilidoso fur­riel que exibiu as suas capacidades domésticas com mãos rápidas e tarimbeiras para um grupo de novos cadetes que entraram na caserna, de­bai­xo de forma, para tomar posse do cacifo e do beliche. Também nos deu sá­bias instruções sobre disci­plina, la­trocínio de quartel e obediência.

Fiquei soldado-cadete número mil cento e catorze, barra ses­senta e quatro. De­pois de ar­ru­mar as minhas coisas e de mu­dar de roupa, fui até o Bar do Cadete, no piso do rés-do-chão, e lá encontrei o Ca­margo, que chegara na véspera. Já envergava o seu fato-macaco militar cor de azei­tona.

Os meus passos naqueles tú­neis perdiam-se de perdidos que estavam. E logo amaldiçoei o empreiteiro de tal enormidade arquitectónica e as ordens religiosas que ali se encafuavam praticando as piores patifarias em nome de uma fé codificada. Tanto eu como o Camargo parecía­mos dois fan­tasmas navegando por den­tro das bo­tas e do fato zuarte. Não ficámos na mesma ca­serna. Ele ficou na um, a an­tiga capela, junta­mente com o Nogueira e Silva. Ao Vítor Branco, ilhéu da Madeira, coube a dois, a mais pequena e a mais acon­che­gada das três. Foi-me apre­sentado pelo Ca­margo. Fazemos um molhi­nho de soli­darie­dade.


Janeiro, 27 – Esta noite não preguei olho.

Acolhido na caserna com uma caterva de jovens como eu, senti, ao deitar-me, uma tristeza encharcando-me os ossos e um desânimo só semelhante ao da criança perdida dos pais por entre uma multidão de desconhecidos, numa feira ou num arraial de festa de padroeira. Mas, ali, na caserna, não havia altifalantes como nos re­cintos das festas para anunciar a criança perdida.

Ali, naquele enorme dormitório, com um nauseabundo odor a pés, a ventosidades sonoras e a outras sorrateiras mas enjoosas, estava mesmo perdido para sempre. Mesmo que de mim próprio fizesse um grito de terror. Um toque, ainda madrugada escura, estranho, fez-me levantar do leito da insónia. Era o toque da alvorada. Depois de far­dado, olhei-me de alto a baixo, e achei-me ridículo. Só não chorei por vergonha. Fiz a cama como quem escreve o a, e, i, o, u pela pri­meira vez. Estava ainda na pri­meira classe atrasada...


Mafra, Janeiro, 28 – Fiquei a pertencer ao quarto pelotão da terceira com­panhia de in­s­tru­ção.

O comandante da companhia, um tenente goês, é muito apa­ratoso nas con­ti­nên­cias. Parece um sinaleiro a apascentar o trânsito. Que mundo este!

O coman­dante do meu pelotão, o quarto da companhia, é um açoriano da Ilha Ter­ceira. Mas ainda não me dei a conhecer, nem deve ser preciso, que ele deve-me topar pela pro­núncia. Pelo que lhe já ouvi, deve ser um grande maluco e vai-nos decerto pôr a to­dos no mesmo estado. Já esteve em An­gola cum­prindo uma comissão e segundo consta fez lá das suas.

Hoje passámos o dia a aprender a fazer continência e a dis­tin­guir os postos. As aulas são na parada, com o pelotão formado em U. Aos supe­ri­o­res trata-se por meu. Meu isto, meu aquilo. Aos infe­riores, por nosso. O cade­te Carva­lhosa, que tira aponta­mentos do que ouve ao al­feres e está sempre muito atento à li­ção, como se estivesse nos bancos da Uni­versidade, passou a tratar o cabo lateiro da arre­cadação do material por meu cabo. O alferes foi aos arames com a atoarda. Nin­guém pode sair do quartel para a Vila, após a instrução - ainda não sabemos com­por­tar-nos militarmente. E não se sabe se vamos a fim-de-semana.

Janeiro, 29 – O comandante de pelotão mandou-nos formar.

E explicou-nos que a formatura era sagrada. Não se podia falar, mexer, rir ou sequer pensar. Creio, no entanto, que alguns pensaram. Depois afivelou uma cara de mau e afirmou que era proibido haver doentes. Só o médico poderia comprovar, porque as­sim determinava o Regulamento... Não está no Regulamento - era quanto bastava para se dar uma resposta menos regulamentar.

Janeiro, 30 – Escrevi-lhe para Coimbra uma longa carta.

An­tes de para aqui vir, estive com ela e outras colegas no bar da Faculdade de Medi­cina, mas não tive coragem de me declarar. Fi-lo há pouco numa longa carta que por acaso prin­cipiei a escrever ainda na República, a semana passada.

Se for a fim-de-semana, vou tentar encontrar-me com ela e hei-de obter uma res­posta. Mora num lar de freiras, ao lado da República. Não há-de ser difícil che­gar-lhe à fala. Ainda não cicatrizei a ferida da outra, a da Ilha, e já estou a meter-me noutra...

Hoje, na segunda hora de instrução, com o pelotão formado em U, a aula versou sobre o conceito de pátria, como vem nas fichas da instrução, que esclarecem que se deve apresentar aos instruendos significati­vos exemplos da nossa História para lhes incutir os verdadeiros valores.

O nosso alfe­res pegou no manual e principiou a ler: 

"Temos, por exemplo, D. Duarte de Almeida, o decepado, o porta-bandeira ou alferes, que ofereceu com o seu gesto heróico um verdadeira lição de patriótico amor, abnegação e audácia.

"Outro feito que dignifica as páginas doiradas da nossa História é o praticado por D. João de Castro, Vice-Rei da Índia, que num acto valoroso, cortou, como penhor, as venerandas barbas... E a pro­pósito, nossos cadetes, quero lembrar-vos que na formatura para terceira refeição vou passar revistas às barbas e cabelos"..

Janeiro, 31 – Iniciámos de manhã o estudo da espingarda Mauser, que se di­vide em dez partes, a saber...

O alferes ia chamando os cadetes por or­dem numérica. Todos receberam a velha Mauser – "A vossa noiva, estimai-a como à vossa noiva..."

Saímos hoje para a Vila, depois da instrução da tarde na tapada. Mas não tivemos dis­pensa do recolher, nem da ter­ceira re­fei­ção. Foi pre­ciso fazer uma for­matura de saída. O oficial de dia veio-nos pas­sar mi­nu­ciosa re­vista. À barba, ao ca­belo, à graxa das botas ou dos sapa­tos da ordem, ao vinco das calças da farda número um, aos botões da camisa e da farda! Dois camaradas não fo­ram autorizados a sair. Tinham os pêlos da barba a arra­nhar.

Voltámos ao quartel an­tes da terceira refeição. Como estava a chuvis­car, fez-se a forma­tura para o jantar no corredor em frente do refeitório. Chama-se o corredor La Couture e nele andam jipes e outras viaturas mili­tares. Na forma­tura do recolher tinha tanto sono que cabeceava em pé, enquanto o sargen­to de dia lia a ordem, fazia a cha­mada e distribuía o correio.

O Magalhães rece­beu um telegrama da namorada, já aberto. O instruendo fazia anos. E o sar­gento, com ar de gozo, leu alto: Amo-te, stop, Mada­lena... Quando chegou ao meu número, pus-me em sentido e bati com os tacões das botas. Depois de ter man­dado destroçar, fui para a cama. Eram nove e pouco da noite. Nunca dormi tão bem em toda a minha vida.

(Continua)
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Notas dos editores VB / LG:

(*)  Vd. poste de 6 de outubro de 2021 > Guiné 61/74 - P22606: In Memoriam (410): Luís Cristóvão Dias de Aguiar (1940-2021), ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 800 (Contuboel e Dunane, 1965/67), falecido no dia 5 de Outubro de 2021


(**) Vd. postes de:


10 de setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4932: Diário de Guerra, de Cristóvão de Aguiar (org. José Martins) (XI): Final (Mai68-Jan70)