
1. José Câmara, um dos nossos camaradas, açorianos, da diáspora lusitana na terra do Tio Sam, ex-fur mil at inf CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56 (Bissau, Mata dos Madeiros, Teixeira Pinto, Bassarel, Bolama, São João, Tite, 1971/73, é autor da notável série "Memórias e Histórias Minhas", de que se publicaram, desde 16/5/2009 até agora, mais de 3 dezenas e meia de postes.
- Palácio do Governador da Guiné
- Quartel da Amura (QG/CCFAG)
- Instalações da Rádio (Emissor Regional da Guiné, em Nhacra)
- Hospital Militar 241
- Laboratório
(i) uma secção de tropa regular, comandada por um Sargento da Guarda, que tinha a seu cargo os postos de sentinela ao fundo do jardim e ainda um posto de sentinela ao lado direito do jardim; a segurança era feita durante o dia do lado de fora do jardim; com o render dos postos de sentinela às seis horas da tarde a segurança passava a ser feita do lado de dentro dos muros;
(iii) durante a noite, entre as dezoito da noite e as seis horas do dia seguinte, a segurança era reforçada com um elemento da Polícia de Segurança Pública (PSP), que ficava encarregado do espaço entre a casa da guarda e do pessoal civil servente do Palácio e o edifício principal;
(iv) também durante a noite, a segurança era ainda reforçada com um cão treinado em segurança e respectivo tratador, na altura um paraquedista, que tinha a seu cargo o patrulhamento do interior do jardim.
(...) Durante cerca de dois meses, essa foi parte do meu trabalho, esta foi a minha Guerra em Bissau. Mantive, sempre, óptimas relações com todas as forças de segurança, incluindo os oficiais da Polícia Militar, que nunca me regatearam a sua compreensão.
Guiné > Bissau > Palácio do Governador > Junho de 1969 > Render da Guarda > Da coreografi militar fazia parte "um destacamento da Marinha (fuzileiros), a força mais vistosa, e uma força do Exército, Infantaria, Cavalaria ou Artilharia, ou dos Comandos, ou Paraquedistas e bem como a Banda Militar de Bissau"... Nesta altura, em jiunho de 1969, o inquilino era o general Spínola (maio de 1968- agosto de 1973)
A situação tem a ver com uma mensagem relâmpago ("zulu) que o autor recebeu, das máos de um estafeta dos CTT. quando, num domingo, à noite, estava de serviço de guarda ao Palácio do Governador, em Bissau. Recorde-se que este tipo de mensagem correspondia ao "grau máximo de prioridade na rede de transmissões".
Enquanto sargento da guarda ao Palácio do Governador da Guiné, os meus contactos com o general Spínola foram, sempre, esporádicos.
Esses encontros davam-se quando ele se dirigia à Casa da Guarda para ali deixar, para limpeza, o seu cinturão com as cartucheiras e granadas de mão ofensivas M63 e a sua G3.
Outras vezes cruzava-me com ele junto dos portões de estrada quando ele, quase sempre na companhia da esposa [Dona Helena], dava um passeio nos arredores do Palácio, ou se dirigia ou vinha do clube dos oficiais da Força Aérea que ficava nas redondezas do Palácio.
Sempre fiz acompanhar o meu cumprimento de continência militar ao velho general com um cumprimento civil sobretudo em atenção à esposa. O general sempre correspondia ao cumprimento com um leve sorriso. Julgo que era apreciativo desta forma de eu o(s) cumprimentar.
Um domingo, com a noite já avançada, o encontro foi diferente.
Pelo intercomunicador do posto de sentinela que servia o portão de serviço geral recebi a informação de que um estafeta dos CTT tinha uma mensagem dirigida ao governador da Guiné. De imediato dirigi-me àquele posto de sentinela. Cumpridas as formalidades com o estafeta dos CTT, reparei que a mensagem era do tipo relâmpago. Era a primeira que me acontecia. Sabia o que tinha que fazer.
De imediato dirigi-me aos escritórios de apoio ao palácio. Para meu desespero não encontrei ninguém no escritório.
Aventurei-me nos corredores sem acender a luz, na esperança de ver alguma réstea de luz por debaixo de alguma das portas. A ideia era boa, o resultado foi pobre.
Decidi bater a uma das portas. Para surpresa minha a porta entreabriu-se. Na minha frente estava o próprio general Spínola. Ao aperceber-se quem eu era de imediato transpôs a porta, fechando-a atrás de si.
Cumprimentei-o e disse-lhe o que me levara ali. Uma mensagem relâmpago dirigida a ele. A nossa conversa foi, essencialmente esta:
− Abra e leia − disse-me ele.
− Meu general. eu não posso nem devo ler esta mensagem. É uma mensagem relâmpago − retorqui.
− Pode, pode… abra, abra… leia, leia. Sou eu que lhe estou dizendo que pode − disse ele um pouco impaciente.
Abri a mensagem e comecei a ler:
− O Conselho de Ministros em sua reunião de... aprovou o...
Hoje não tenho a certeza se a comunicação se referia à aprovação do Orçamento Geral da Guiné, ou apenas de um suplemento.
O general enquanto pegava na mensagem deu-me um pequeno toque nas costas e disse:
− Hoje é um dia grande para a Guiné!
Levantando a mensagem ao ar, como quem levanta um troféu, reabriu a porta e ouvi-o dizer:
− Está aqui…
Um coro de palmas eclodiu naquela sala. Foi aí que pude reparar que o general estava rodeado pelos seus colaboradores mais directos na Guiné, deduzi.
Fechei a porta e dirigi-me à Casa da Guarda. Ia pensativo. Por causa daquelas palmas.
Afinal aqueles homens também eram capazes de exultar com as suas vitórias. Eram vitórias de um tipo de guerra que não era a nossa, mas sem as quais as nossas vitórias seriam muito mais difíceis de obter.
Cruzei-me mais três vezes com o general: no destacamento de Bassarel, no destacamento de São João e no Depósito de Adidos, em Brá, no dia da despedida.
José Câmara
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Notas dos editores CV/LG:
(***) Vd. poste de 15 de dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5469: Memórias e histórias minhas (José da Câmara) (10): As palmas das vitórias de uma Guerra que não era nossa




