Mostrar mensagens com a etiqueta Bangladesh. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bangladesh. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Guiné 61/74 - P19393: A presença portuguesa no mundo (1): Nyanmar e Bangladesh (Armando Tavares da Silva)



"Os olhos de um António, lisboeta birmanês"


"Uma Dona Maria da Piedade, beirã do Irrawady"


"Um Sr. José, algarvio do rio Mu"

Fotos (e legendas): do fotógrafo Joquim Magalhães de Castro (2009). Fonte: Blogue Combustões, de Miguel Castelo Branco



"James Swe quer que a comunidade de descendentes de portugueses no Myanmar conheça essa herança cultural. O seu livro sobre os portugueses que por lá passaram durante a primeira dinastia birmanesa vai ter lançamento em língua portuguesa no próximo ano". 

Foto e legenda: Jornal Tribuna de Macau, 18 de dezembro de 2017 (com a devida vénia...)



1. Mensagem do nosso amigo e membro da Tabanca Grande, Armando Tavares da Silva, engenheiro,  historiador, prof catedrático aposentado da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, "Prémio Fundação Calouste Gulbenkian, História da Presença de Portugal no Mundo" (, atribuído pelo seu livro “A Presença Portuguesa na Guiné — História Política e Militar — 1878-1926”), presidente da Secção Luís de Camões da Sociedade de Geografia de Lisboa.


Data: 24/12/2018, 14:24


Caro Luís,

Esta é talvez uma boa altura para se publicar o texto anexo, a que junto os meus votos de um Santo e Feliz Natal para todos os gran-tabanqueiros. Não fala da Guiné, nem de África, mas fala da Ásia e da presença portuguesa no Mundo. Talvez funcione de lenitivo para os cépticos e descrentes...

Fêz-me recordar o que ouvi dizer a um guineense com quem me cruzei, não há muito tempo, com grande orgulho e satisfação: “Eu sou português!”. E também o que escreveu em missiva para o governador, em 1891, o chefe beafada Mamadú D’jolá (ou Mamadú Jolá), a propósito de desinteligências com negociantes franceses: “Eu sou português e não francês, porque estou debaixo da bandeira portuguesa!”. Abraço, A.


2. A presença portuguesa no mundo: Nyanmar e Bangladesh

por Armando Tavares da Silva


Passou há pouco um ano sobre a visita do Papa Francisco a Myanmar e ao Bangladesh, o que deu origem a que surgissem na imprensa e outros media notícias de descendentes de portugueses que no século XVI se deslocaram para aquele país com intuitos comerciais. A existência destes descendentes é (era) desconhecida da maior parte dos portugueses. Apenas aqueles que se dedicaram a estudar a presença portuguesa na Ásia teriam dela conhecimento, como é o caso do historiador Miguel Castelo Branco.

A visita do Papa a Myanmar decorreu entre 26 e 30 de Novembro de 2017 e durante ela o Papa celebrou uma missa campal em Rangum na presença de cerca de 150 mil  católicos e uma outra para jovens na Catedral de Santa Maria.

As notícias que vieram a lume contam-nos que a chegada dos primeiros portugueses ao reino que é agora o Myanmar,  não foi fruto de um processo organizado. Como exemplo é referido o caso de Sebastião Tibau, um militar que depois de ter chegado à Índia desertou para procurar fortuna para os lados de Arracão, hoje o estado birmanês de Rakhine. Este é o estado onde tem ocorrido uma perseguição aos rohingya – minoria muçulmana –, e pelos quais o Papa procurou interceder junto das autoridades birmanêses durante a sua visita.

Segundo aquele historiador, Sebastião Tibau “tranformou-se lentamente num rei pirata da ilha de Sundiva, que depois de muitas traições e mudanças acabou por ser destruído pelos birmaneses”. Houve mais tarde o “famosíssimo Rei do Sirião, ou rei do Pegú, que é um Filipe Brito de Nicote, que era também um mercenário, e que ganhou tanto relevo que acabou por ser investido como Senhor do Sirião”.

Ainda segundo aquele historiador, os portugueses – que eram designados por “portugueses à solta” – geravam espontâneamente comunidades, casando com mulheres locais, e cujos filhos recebiam educação portuguesa, incluindo a sua religião. Estas comunidades originavam ”bandéis” inteiramente ocupados por esta população mista luso-birmanesa, a qual tinha uma função especializada no quadro das monarquias locais, sendo soldados e intérpretes.

Constituiam um grupo social estratégico, desempenhando, ao longo de 300 anos, funções administrativas relevantes no palácio, no comércio internacional e no exército.

Em Merguy, Tavoy e Dagon (hoje Rangum, capital histórica do Myanmar), principais portos de mar, a função de shabandar, ou seja, de capitão portuário, foi sempre desempenhada por estes católicos habilitados para o uso das duas línguas francas então usadas no Sudeste-Asiático, o malaio e o português. Depois, com a afirmação do poder britânico a partir de meados do século XVIII, passaram a dominar o inglês e ganharam uma nova competência; transformaram-se em tradutores e intermediários em todas as embaixadas enviadas pelos britânicos à corte birmanesa, assim como em agentes comerciais e diplomáticos dos governantes birmaneses. Não é, pois, de estranhar que a sua influência fosse crescendo, ao ponto de um dos últimos reis da dinastia Konbaung ter tomado como uma das suas mulheres uma rapariga luso-birmanesa.

Mas foi como comunidade marcial que os nossos luso-birmaneses ganharam notoriedade. Nas lutas com o Sião, com o império chinês e, finalmente, durante as três guerras com os ingleses – primeira guerra anglo-birmanesa (1824-1826), segunda guerra anglo-birmanesa (1852-1853) e terceira guerra anglo-birmanesa (1885) – as unidades católicas do exército real birmanês, armadas à europeia, transformaram-se na espinha dorsal do dispositivo birmanês. Para além de unidades de atiradores, constituíram-se unidades de artilharia de campanha cuja eficácia foi repetidamente

Mas não foi só em Ragum que o Papa Francisco celebrou missa perante descendentes de portugueses durante aquela viagem. Depois de visitar Myanmar, o Papa deslocou-se ao Bangladesh, onde permaneceu entre 30 de Novembro e 2 de Dezembro, país onde o cristianismo chegou através dos portugueses do século XVI, e onde existe igualmente uma pequena comunidade de católicos.

Igreja de Santo Rosário, Daca, Bangladesh

Papa no cemitério católico, em Daca


O Papa com estudantes da universidade católica de Daca

Viagem do Papa Francisco  ao Banglasdesh 
(30 de novembro a 2 de dezembro de 2017)

Fotos: recolha de Armando Tavares da Silva (2019)



E é de referir que uma das igrejas onde o Papa esteve presente foi a igreja do Santo Rosário em Daca, capital daquele país, construída pelos missionários agostinhos portugueses em 1677. Nesta igreja o Papa reuniu-se com sacerdotes, religiosos(as), seminaristas e noviças, tendo visitado o cemitério contíguo onde estão sepultados muitas dezenas de missionários e fiéis. De realçar que esta igreja foi objecto de reconstrução no ano 2000, patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito de um notável esforço de recuperação dos traços da presença de Portugal no mundo, iniciado em 1995, e que mereceu a atenção prioritária da Fundação pela sua importância histórica e religiosa, pois se trata do único edifício do tempo dos portugueses existente na capital da antiga província de Bengala Oriental, que a partir de 1947 foi o Paquistão Oriental e, desde 1971, o Bangladesh independente.

A cerimónia de reabertura da igreja decorreu no dia 17 de Dezembro de 2000, na presença de cinco bispos, vinte padres e cinco mil e quinhentas pessoas, representando uma manifestação de fé cristã em país muçulmano, e que decoreu num ambiente de “alegria esfuziante e fervor religioso”.

Acrescente-se que, quer em Daca quer em Chittagong (duas das principais cidades do país), se notam traços visíveis da presença portuguesa, tanto nos nomes dos mortos gravados nas pedras tumulares dos cemitérios, como nos dos vivos (todos os sete bispos do Bangladesh têm nome de família Rozário, Gomes ou Costa…). Por outro lado, há igrejas dos tempos dos portugueses nos arredores da capital – uma delas, a capela de Santo António de Panjorá, tem bem à vista, no alto da fachada, uma legenda: «Missões Portuguesas de Bengala», a data de 1906 e o escudo da monarquia portuguesa.

Nesta procura do que resta da presença portuguesa no oriente é indispensável mencionar o trabalho do escritor, jornalista e fotógrafo Joaquim Magalhães de Castro, autor do livro ”Os Filhos Esquecidos do Império” (2014). Este, em 2002, percorreu a Birmânia (Myanmar) em busca dos vestígios da minoria portuguesa-católica bayingyi, que ainda sobrevive no vale do rio Mu, afluente do Irrawady. O resultado deste notável trabalho de campo foi, a todos os títulos, inesperado. A sensibilidade do artista captou com intensidade os rostos dessa gente que orgulhosamente ainda exibe os traços do sangue e herança portugueses. Quatrocentos anos de obstinada resistência, apego à memória, práticas gastronómicas, indumentária, farrapos de língua e uma profunda demarcação religiosa transformaram em relíquia antropológica a comunidade remanescente do trânsito de aventureiros, comerciantes e missionários vindos da Roma do Oriente (Goa) a caminho de Malaca e Macau.

Um livro onde se desvenda a presença portuguesa na Birmânia, mais de 500 anos depois, é o livro de James Myint Swe, "Cannon Soldiers of Burma", e aí se pretende divulgar o papel de exploradores, comerciantes e soldados vindos de Portugal a partir do século XVI na estrutura actual da Myanmar. Com primeira edição em inglês em 2014, deste livro espera-se uma versão portuguesa a ser lançada pela Gradiva.

Ouçamos este birmanês descendente de portugueses, formado em ciência política pela Universidade de Western Ontario, Canadá, onde vive desde 1976, em entrevista à Lusa, a propósito do seu livro:

"É extraordinário que, na mesma zona onde os portugueses se estabeleceram pelo ano de 1633, em Ye U, uma localidade situada entre os rios Chindwin e Mu [norte da Birmânia], as populações continuem a sentir-se portuguesas", sem qualquer contacto e a mais de nove mil quilómetros de distância.

"Não se sabe ao certo a dimensão destas populações... cerca de 200 a 300 pessoas por aldeia, o que nas localidades maiores poderá ir até às duas/três mil. As autoridades estão a tentar fazer um levantamento para saber quantas aldeias existem e quantas pessoas ali vivem", acrescentou James Swe, que nasceu Chan Tha Ywa, na zona de Ye U, em 1947.

As pessoas desta zona "parecem europeus, o cabelo e a pele são mais claros, alguns têm olhos verdes" e são maioritariamente católicos, disse, lembrando que, nos anos 1970, o Governo não reconhecia esta população como birmanesa, considerando-a estrangeira.

À medida que a aposta das autoridades no ensino cresce no país e que os acessos à zona melhoram, os elementos mais jovens destas comunidades deslocam-se para as cidades para entrar nas escolas e "esta relação com Portugal começa a perder-se", alertou.

Mas este afastamento já vem de longe e está retratado na declaração atribuída pelo investigador ao capitão António do Cabo que, em 1628, em Ava, no norte birmanês afirmou: "Muitos de nós nascemos em Portugal, ou pelo menos em Goa [Índia]. Passámos muitos anos aqui na Birmânia. Sempre nos sentimos como prisioneiros, ou hóspedes, ou visitantes. Agora chegou a altura de aceitar que a Birmânia é o nosso país. Ainda somos portugueses, mas nunca voltaremos a ver Portugal. Alguns de vós nunca viram".

"Com as armas que trouxeram e as alianças que cimentaram com os reinados Mon, Arakan [Rakhine, na actualidade] e Bama/Birmanês, os portugueses foram determinantes na construção da actual Birmânia", sublinhou James Swe.

Os 300 anos que medeiam entre a chegada dos portugueses (1500) e os ingleses (1800) foram quase eliminados da história oficial do país, acrescentou.

"Eu só conheci estas histórias porque, durante as férias do verão, os meus avós falavam da vida de Paulo Seixas ou Luísa de Brito", afirmou, referindo-se a alguns dos longuínquos protagonistas de guerras, alianças, traições e comércio no país, que faz fronteira com a China, o Bangladesh, o Laos e a Tailândia.

"Foi no Canadá que descobri que a História e aquilo que os meus familiares contavam coincidiam", disse, sublinhando as dificuldades de estender a pesquisa realizada ao longo de dez anos entre o Reino Unido, o Canadá e Portugal, aos arquivos birmaneses, fechados desde 1962 pelo regime militar. Impedido de entrar nos últimos 40 anos na Birmânia, Swe contou com a ajuda de amigos e familiares no país para investigar a história dos seus ancestrais. Neste período, voltou pela primeira vez a Myanmar, em 2012.

James Swe voltou novamente ao seu país natal para estar presente durante a visita do Papa Francisco, e em entrevista concedida na altura, depois de reconhecer o contentamento dos católicos birmaneses com aquela presença e de assegurar que as aldeias católicas do Myanmar estavam vazias por esses dias, comenta que se os bayingyi estivessem ainda nas suas aldeias, é muito possível que estivessem a fazer chouriço, iguaria que é uma das poucas heranças gastronómicas que sobrevive dos seus antepassados.

Sobre a sorte que teve em visitar Portugal, James Swe diz: “A primeira sensação que tive quando cheguei a Portugal foi de reunificação. Há 400 anos que os meus antepassados não sabiam se alguma vez voltariam a Portugal, mas passado este tempo todo, eu, enquanto herdeiro espiritual, estava a regressar a Portugal. Foi isso que senti. Posso não parecer português, mas sinto-me português, foi como regressar a casa”.