sábado, 16 de março de 2019

Guiné 61/74 - P19594: Memórias de Gabú (José Saúde) (79): Resquícios de uma guerra que nos fora cruel. Abandonados. (José Saúde)


1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos mais uma mensagem.


Resquícios de uma guerra que nos fora cruel 

Abandonados 



O tema, na minha opinião, roça o catastrófico! Trata-se de uma narrativa arrojada mas julgada apropriada e que poderá apresentar-se como motivo para uma ampla discussão entre os antigos combatentes. Tanto mais que todos ou quase todos testemunhámos esta fatídica realidade.

Hoje, num recalcar de memórias sinto pavor em discrepâncias observadas que me atiram para um universo completamente disforme quando dissecamos matéria sobre os resquícios de uma guerra onde a morte de camaradas foi uma constante.

Pronuncio-me, explicitamente, sobre os restos mortais de corpos abandonados que por lá ficaram nas três frentes de guerra – Angola, Moçambique e Guiné – e que tendem manter-se em cemitérios distantes do seu recanto sagrado. O luto, no verdadeiro conceito da palavra, foi efémero porque o corpo do ente querido não cumpriu o ritual da despedida e nem tão pouco uma sepultura para se carpirem mágoas.

Mas concentremos também atenções em restos de corpos sepultados algures em campos de batalha e que lá continuam sem que alguém identifique o exato local onde foram depositados. Alguns desses cadáveres, não obstante a sua localização por camaradas que outrora conheceram esse horror, são agora uma miragem porque, entretanto, ter-se-ão perdido os registos geográficos da exatidão do lugar onde obstinadamente descansam para a eternidade.

Reconheço que porventura não será fácil as suas transladações, pressupõem-se, no entanto, que a janela de oportunidades foi paulatinamente perdendo alento e sobretudo afrouxando atenções com o evoluir dos tempos sobre esta realidade.

Poucos terão sido os homens do poder a lançar uma acha para a fogueira visando a discussão de uma matéria que, a meu ver, não seria por certo de todo descabida. Tanto mais que se trata em glorificar combatentes cujos corpos ficaram abandonados num solo substancialmente longínquo.

A guerra do Ultramar não está assim tão distante. É recente. Aliás, os camaradas ainda transportarão à tona da memória os cheiros a pólvora, os zumbidos das balas, o rebentamento das minas, os ataques noturnos aos quartéis, o pânico das emboscadas e os agonizantes odores de corpos a caminho da putrefação.

Há camaradas que ainda hoje sofrem a dor de um companheiro que morreu ao seu lado, sendo por vezes o destino do enterro um cemitério de uma cidade, vila ou aldeia.

Conheci essa infeliz realidade no cemitério de Gabu. Foi uma efémera viagem que me proporcionou visualizar campas completamente destruídas pelo rigor do tempo ou por uma oportuna falta de assistência. Sabe-se que os princípios da guerra não foram fáceis e facultou esses tristes fins.

Em Gabu, tal como em qualquer lugar onde a guerra ditou infelizes fins, os saudosos camaradas estavam identificados com uma elementar cruz que somente assinalava que ali tinha sido sepultado mais um jovem que fora arrancado da vida em plena flor de idade.



Um jovem atirado para as frentes de combate e defendendo uma causa que não era dele. Ele, camarada, morreu em combate a troco de interesses alheios. E esta é a veracidade por todos nós conhecida. Não abdiquemos pois em tratar o assunto de olhos nos olhos porque de facto o tema é sério e merecedor de uma análise mais profunda. Porém, tudo vai caindo no limbo do esquecimento e as vozes da rebelião diluindo-se num horizonte despido de esperança.

Em antigos tempos restava a um familiar apresentar-se no 10 de junho, dia de Camões, no Terreiro do Paço, em Lisboa, e receber uma condecoração a título póstumo perante as sumptuosas efemérides nacionais. No deslumbrante palco, qual antro de profecias, lá estavam os elementos supremos do Estado apelando à heroica entrega do soldado desconhecido no palanque de uma guerra onde o singelo mancebo era tão-só um mero figurante. Ficava, apenas, o registo do momento e nada mais. A dor da perda persistia. 



Todavia, nós, antigos combatentes, não queremos uma viagem ao passado recordando esse tipo de sumárias condecorações, pretendíamos sim que um dia alguém despertasse de um sono ostensivamente pesado e propusesse o eventual regresso dos restos mortais dos companheiros abandonados numa terra que não era a deles.

O tema que hoje vos trago afigura-se como um hino de revolta de um velho camarada que amiudadamente vos vai debitando narrativa inserida em contextos reais e que puxam pelos nossos sentimentos de uma Guiné onde as verdades de guerra nos foram cruéis.

Nós vimos, assistimos e convivemos com os momentos de dor.

Nota: imagens extraídas da Guerra Colonial, com a devida vénia.

Um abraço camaradas,
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
___________
Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

6 DE FEVEREIRO DE 2019 > Guiné 61/74 - P19533: Memórias de Gabú (José Saúde) (78): O paludismo. (José Saúde)

Guiné 61/74 - P19593: Os nossos seres, saberes e lazeres (312): Viagem à Holanda acima das águas (16) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Novembro de 2018:

Queridos amigos,
Se o mito do eterno retorno tem algum fundamento, o viandante pode testemunhar que havia lembranças indeléveis, aqui se chegara num dia de chuva diluviana, em 1978, havia uma informação um tanto nebulosa de que o museu encerrava alguns tesouros bem singulares, um acervo sem precedentes da obra de Piet Mondrian, era uma casa febricitante de arte moderna, mas também com exposições enquadradoras dos tempos e das sociedades onde se operavam tais e tantas movimentações das artes plásticas, e que essas lembranças iam fluindo na nova visita, como houvesse fundamento para o dito eterno retorno.
Um dia de intensa alegria, voltar de novo e reconhecer que fora uma decisão acertada, como qualquer dia será acertado querer aqui regressar, para ver tudo com outros olhos e de novo lavar a alma.

Um abraço do
Mário


Viagem à Holanda acima das águas (16)

Beja Santos

Sim, seria para o viandante um desmerecimento atirar para o balde do lixo esta coletânea de imagens provindas do Museu Municipal de Haia, a tal casa de cultura que se conheceu numa deslocação de ordem profissional em 1978, chovia que Deus dava, na véspera, num posto de informações junto da gare ferroviária, uma diligente e amável funcionária recomendou vários museus na cidade, que o viandante apanhasse um transporte público até uma praia chique, Scheveningen, e se mais tempo houvesse um outro transporte público levava-o a Delft, sim a terra dos belos azulejos e de alguma louça que corre o mundo. Foi por aqui que se começou, e mesmo com o tempo a desanuviar, o viandante não arredou pé, dera-se o enfeitiçamento com o edifício Arte Deco, o assombro pelo génio de Piet Mondrian, e o não menos assombro pela qualidade das artes plásticas, viu uma vez, de alto a baixo, comeu sopa e sandes naquele belíssimo espaço reservado a comes e leituras, e depois de descansar os pés atirou-se a novo folguedo, saiu daqui quando escurecia, segundo as leis meteorológicas desta região próxima do Mar do Norte. Por isso, voltou com contentamento, e o que saboreou aqui se põe à mesa, para despertar apetite a quem o lê.




Esta fotografia antiga traz água no bico, pois o viandante, no penúltimo dia desta estada holandesa teve oportunidade de ir a uma praia, viu estes refúgios, às vezes o vento é implacável, os banhistas anichados à espera de uma hora de sol, de céu límpido, quanto ao mais desenganados, a água é fria todo o ano…




É sempre um deleite ver o génio rebatível de Pablo Picasso, desenho, cerâmica, cenografia, até à pintura a óleo tudo fez por experimentar, em tudo deixou lembrança. E nada como desfrutar deste extraordinário quadro de Wassily Kandinsky, um outro génio que percorreu tantos movimentos até chegar a estas sínteses voluptuosas onde não teve concorrente à altura.


Quem conhece a arte de Egon Schiele não é logo à primeira que atribui este retrato a essa figura meteórica e inesquecível do expressionismo. É o retrato de Edith Schiele que, tal como o marido, foi vítima mortal da gripe espanhola, a mesma epidemia que nos levou Amadeu Souza Cardoso.




As dançarinas de Degas são pinturas e esculturas presentes em muitos museus, o artista observou por todos os ângulos o trabalho nos ateliês da dança e o que aqui parece exprimir é a alegria de uma adolescente que encontrou a plena graciosidade no seu corpo vibrátil, num momento de repouso que precede o turbilhão dos passos.




Seria pecado mortal um museu destes não dispor de algumas lembranças de Van Gogh, com destaque para este autorretrato, o pintor holandês nunca descurou o confronto consigo mesmo, ele que viveu permanentemente à procura da paz de espírito, que nunca esqueceu o mundo rural de onde proveio e que pareceu ter encontrado na Provença a quintessência da felicidade, há sempre flores, campos arborizados, um casario ao fundo e tantíssimos retratos de gente humilde, que o fascinava.



Rodin é outro inevitável, temos um seu corpo adolescente no museu do Chiado, no dealbar do século XX era nele que se centravam as atenções para um novo cânone que reduzia a cinzas o academismo. E a visita chega ao seu termo, impossível deixar de registar esta fosforescência que tem as suas reminiscências a Vasarely, pois há aqui qualquer coisa de arte ótica, com uns pozinhos de arte pop, enfim um belo cenário para uma outra exposição, nesta altura o viandante atingira o ponto alto da saturação, precisava de ar fresco para digerir tão doce peregrinação, tão amáveis encontros e, sobretudo, curvara-se respeitosamente diante do génio de Piet Mondrian, um seu santo de culto. E a viagem prossegue, desta feita um pouco pela Holanda profunda, dos moinhos e praias e canais. Como podemos ver, logo a seguir.

(Continua)
____________

Nota do editor

Último poste da série de 9 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19565: Os nossos seres, saberes e lazeres (311): Viagem à Holanda acima das águas (15) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19592: (D)o outro lado do combate (48): A Missão Especial da ONU na Guiné - Abril 1972 (António Graça de Abreu / Luís Graça) - III (e última) Parte II: capa + pp. 9-11.


1. Terceira e última parte do relatório, de 11 (onze) páginas, policopiado, que tem por título em português "A Missão Especial da ONU na Guiné - Abril de 1972" (*). 

Trata-se de uma versão, mais resumida do original, "Report of the Mission of the United Nations Special Committee on Decolonization after visiting the liberated Areas of Guinea-Bissau (A/AC. 109/L. 804; 3 July 1972)".

A cópia, em papel, de que dispomos foi-nos fornecida, com vista a uma eventual publicação no blogue, pelo nosso camarada António Graça de Abreu, por volta de 2010, na sequência dos comentários ao poste P5680 (*).

O documento de que publicamos agora  as três últimas páginas (9, 10 e 11)  parece corresponder à seguinte referência que encontramos na base de dados bibliográfica do CIDAC - Centro De Intervenção Para O Desenvolvimento Amílcar Cabral:


BAC-051/2
CIDAC

BORJA, Horácio Sevilla ; LOFGREN, Folke ; BELKHIRIA, Kamel
A Missão especial da ONU na Guiné Bissau, Abril 72 / Horácio Sevilla Borja, Folke Lofgren, Kamel Belkhiria . - [S.l.] : PAIGC, 1972. - 11 p


A edição é atribuída ao PAIGC. Mas as partes traduzidas em (mau) português correspondem ao original em inglês. Não sabemos de quem é a tradução. Há diversos erros quer de datilografia quer de português. A autoria é atribuída aos três membros da Missão Especial, os diplomatas Horácio Sevilla Borja (Equador), Folke Lögfren (Suécia) e Kamel Belkhiria (Tunísia), os dois primeiros ainda vivos.

O António Graça de Abreu poderá explicar-nos a origem do documento. É possível que tenha circulado antes do 25 de Abril, clandestinamente. De qualquer modo, é ainda pouco conhecido, ao fim destes anos todos.   Os nossos leitores, e nomeadamente os que combatiam, nesta altura (abril de 1972), no TO da Guiné. têm direito a conhecer o documento. 

É o elementar direito à informação que nos era negada no tempo da ditadura: com o país em guerra, era impensável a censura deixar passar, na imprensa, referências detalhadas a esta Missão Especial da ONU e, muito menos, deixar divulgar o o seu relatório, considerado como "propaganda inimiga".

Por outro lado, no início de abril de 1972 ninguém sabia (nem podia saber por "razões de segurança") desta "missão", a não ser um reduzido número de pessoas do "staff" da ONU, do PAIGC e do governo da Guiné-Conacri, para onde viajaram, desde Nova Iorque, em 28 de março de 1972, os cinco membros da Missão Especial. 

Pormenor curioso: o líder histórico do PAIGC não se jutou  com a Missão Especial na visita  às "áreas libertadas", fazendo as honras à casa, como em  princípio devia... Deixou essa incumbência à estrutura político-militar do PAIGC... Foi Aristides Pereira que deu as boas vindas à Missão Especial, no dia 1 de abril de 1972, no "quartel general do PAIGC"... em Conacri, tendo depois partido para o mato no dia seguinte (entrada no sul da Guiné-Bissau, por Boké-Kandiafara).

De resto,  no início de abril de 1972, os títulos de caixa alta do "Diário de Lisboa" era a escalada da guerra do Vietname", a ofensiva do vietcong e do Vietname do Norte contra o Vietname do Sul e a  os seus aliados dos Estados Unidos: vejam-se os títulos de caixa alta dos jornais da época... "Guiné ?... Isso é longe do Vietname", ironizavamos nós, em 1969, no bar de sargentos de Bambadinca... 



Diário de Lisboa, 14 de abril de 1972 >  Pela primeira vez há uma referência à Missão Especial da Comissão de Descolonização da ONU e à sua visita ao território da Guiné-Bissau, de 2 a 8 de abril (pp. 1 e 24). A Missão Especial, de 5 elementos, afirmou que o PAIGC controlava efetivamente o território,  escreve o jornal.  Por sua vez, o delegado protuguês negou veementemente que: (i) o PAIGC controlava uma ou mais partes do território da Guiné;  (ii) que a Missão Especial  tenha entrado alguma vez no interior da Guiné.




Capas do "Diário de Lisboa", do mês de abril de1972... (Cortesia da Fundação Mário Soares >Casa Comum > Diário de Lisboa / Ruella Ramos)

Eis alguns dos títulos:

"Ofensiva em três frentes no Vietname do Sul" (segunda-feira, 3 de abril de1972)

"Vietname: avanço para Hué" (terça-feira, 4 de abril de 1972)

"Saigão apela para Nixon: a situação militar é muito critica"(quarta-feira, 5 de abril de 1972)

"A aviação americana está a bombardear o Vietname do Norte" (quinta-feira, 6 de abril de 1972)

"Hanói pede negociações secretas comKissinger" (sexta-feira, 7 de abril de 1972)

"Saigão é o alvo" (sábado, 8 de abril de 1972)

"O medo do ano 2000" (domingo, 9 de abril de 1972)

"A 100 km de Saigão: comneçou a batalhade An Loc" (segunda-feira, 10 de abril de 1972)

"Vietcong ao ataque em todas as frentes" (quarte-feira, 12 de abril de 1972)

Os três membros do Comité Especial de Descolonização da ONU, mais dois membros do "staff" da ONU (, incluindo o fotógrafo Yutaka Nagata, de nacionalidade japonesa) (*),  visitaram as "áreas libertadas da Guiné-Bissau" (sic), de 2 a 8 de abril de 1972, antes da época das chuvas, a convite do PAIGC, e à revelia do Governo Português. Claro que a missão tinha que ser secreta, por razões de segurança. Nesse curto espaço de tempo (menos de um semana), terão percorrido "200 quilómetros", de jipe (no território da Guiné-Conacri, até à fronteira) e a pé, e tendo visitado "9 localidades diferentes", numa parte restrita da Região de Tombali: sectores de Bedanda, Catió e Quitafine.

Os diplomatos focaram a sua atenção nas estruturas militares, tabancas, escolas e armazéns, e fizeram depois apreciações, que constam no relatório, sobre "a situação no campo do ensino, da saúde, da administração da justiça, da reconstrução da economia e da formação de uma assembleia nacional". Os membros da missão vestiam fardas militares, com insígnias das Nações Unidas, e tiveram escolta de um bigrupo reforçado do PAIGC (cerca de 60 homens armados) sob o comando do Constantino Teixeira. No regresso, já a 6 de abril, a escolta passou a ser de 200 homens, provavelmente com o receio de alguma ação militar portuguesa com vista a capturar os diplomatas.

A principal base do PAIGC referida no relatório, dentro do território da então província da Guiné, era na zona de Balana / Gandembel, ou seja, no corredor de Guileje. Recorde-se que Balana e Gandembel tinham sido abandonados pelas NT, por ordem de Spínola, em janeiro de 1969.

(Continuação)

-9-


-10-


______________



Guiné 61/74 - P19591: In Memoriam: Os 47 oficiais oriundos da Escola do Exército e da Academia Militar mortos na guerra do ultramar (1961-75) (cor art ref António Carlos Morais da Silva) - Parte XVIII: ten inf Manuel Belarmino Silva Carvalho Araújo (Guarda, 1940 - Nova Coimbra, Moçambique, 1965)






1. Continuação da publicação da série respeitante à biografia (breve) de cada um dos 47 Oficiais oriundos da Escola do Exército e da Academia Militar que morreram em combate no período 1961-1975, na guerra do ultramar ou guerra colonial (em África e na Ásia).

Trabalho de pesquisa do cor art ref António Carlos Morais da Silva [, foto atual à direita], instrutor da 1ª CCmds Africanos, em Fá Mandinga, adjunto do COP 6, em Mansabá, e comandante da CCAÇ 2796, em Gadamael, entre 1970 e 1972. Foi cadete-aluno nº 45/63, do corpo de alunos da Academia Militar.

Passou a integrar formalmente a nossa Tabanca Grande, com o nº 784, com data de 7 do corrente.

_________________

Nota do editor:

Último poste da  série > 13 de março de  2019 > Guiné 61/74 - P19579: In Memoriam: Os 47 oficiais oriundos da Escola do Exército e da Academia Militar mortos na guerra do ultramar (1961-75) (cor art ref António Carlos Morais da Silva) - Parte XVII: cap inf Francisco Xavier Pinheiro Torres Meireles (Paredes, 1938 - Ponta Varela, Xime, Guiné, 1965)

Guiné 61/74 - P19590: Parabéns a você (1588): Joviano Teixeira, ex-Soldado At Inf da CCAÇ 4142 (Guiné, 1972/74)

____________

Nota do editor

Último poste da série de 14 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19583: Parabéns a você (1587): Leopoldo Correia, ex-Fur Mil Art da CART 564 (Guiné, 1963/65)

sexta-feira, 15 de março de 2019

Guiné 61/74 - P19589: Voluntário em Bissau, na Escola Privada Humberto Braima Sambu - Crónicas de Luís Oliveira (5): Apelo à solidariedade dos nossos amigos e camaradas: campanha por uma cadeira de rodas para o professor Humberto, que teve paralisia infantil e que é um caso extraordinário de doação aos outros


Guiné-Bissau > Bissau > Escola Privada Humberto Braima Sambu > 8 de março de 2018: o fundador e diretor da Escola, na sua velha cadeira de rodas... 


Guiné-Bissau > Bissau > Escola Privada Humberto Braima Sambu >  17 de abriu  de 2018 >  Aspeto de uma aula.



Guiné-Bissau > Bissau > Março de 2019 > Na casa do Cherno Baldé: ao centro, o Humberto Braima Sambu, de camisa azul, na sua velhinha cadeira de rodas, segudo à direita do Luís Mourato Oliveira e do dono da casa... Desconhecemos a identidade dos restantes dois amigos, à esquerda e à direita... Um deles deve ser o Braima Camará um jovem professor que trabalhou com o Humberto Sambu,  e que é professor em Bafatá.

Foto (e legenda): © Luís Mourato Oliveira (2019) . Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné).


1. Mais três mensagens (, formando a quinta crónica,) do Luís Mourato Oliveira, nosso grã-tabanqueiro nº 730, que foi alf mil inf, de rendição individual, na açoriana CCAÇ 4740 (Cufar, 1973, até agosto) e, no resto da comissão, o último comandante do Pel Caç Nat 52 (Setor L1 , Bambadinca, Mato Cão e Missirá, 1973/74): é bancário reformado, foi praticante e treinador de andebol; lisboeta, tem fortes ligações à Lourinhã, Oeste, Estremadura...

Chegou a Bissau, a 2 de março, e aqui vai estar 3 meses como voluntário na Escola Privada Humberto Braima Sambu, no âmbito de um projeto da associação sem fins lucrativos ParaOnde, que promove o voluntariado em Portugal e no resto do Mundo. (*)


Ser solidário com o professor Humberto Braima Sambu que precisa de uma nova cadeira de rodas...


por Luís Oliveira


(i) 15/3/2019, sexta-feira, 16:26



Olá, Luis


Sem muitas coisas interessantes para contar, de momento, vinha propor por sugestão do professor Humberto a admissão do Braima Camará na Tabanca Grande.

O Braima Camará é um jovem guineense, professor em Bafatá com enorme sensibilidade e capacidade para na escrita transmitir sentimentos positivos.

Infelizmente  está em greve porque os professores não recebem ordenado desde Outubro do ano passado.

Se leres alguns textos dele no Facebook,  creio que apoiarás a sugestão e é também uma forma de renovação da Tabanca Grandeonde infelizmente a idade de todos os que a habitam vai avançando.

Deixo-te o endereço e-mail dele.

 
(ii) Sexta-feira, 09/03/2019, 23:30


Boa noite,  Luís

Acabei de assistir ao prélio entre o Boavista e o Sporting em relato que farei oportunamente.



Quando me preparava para sair tive a visita do Cherno Baldé,  acompanhado pelo professor Humberto e pelo Braima, um jovem professor que trabalhou com o Sambu.

Foi muito gentil e convidou-me para o visitar sempre que quiser para continuarmos as nossas conversas. Pedi-lhe o email e, como não havia forma de registo, autorizou que tu mo facultasses.

Espero que as crónicas sejam divertidas e que consigam dar um cheirinho desta terra tão mal tratada.


(iii) quarta-feira, 13/03, 17:10



Boa tarde, Luís

Após algum tempo sem te enviar noticias, cá estou eu de novo. Os dias decorrem com grande rapidez porque após o Carnaval começaram as aulas e os voluntários estão cá para colaborar, nessa vertente temos passado parte dos dias na escola.

O meu trabalho não tem sido na área que previa porque, apesar de já terem chegado 16 volumes enviados de Lisboa, o preço que pedem para o levantamento nos correios é incomportável para a escola.

Fui hoje com o professor Humberto pela segunda vez aos correios onde entregámos uma carta a tentar sensibilizar o director daquele serviço para dispensar a entrega sem custos ou por custos reduzidos comportáveis com as nossas possibilidades.

Por essa razão tenho auxiliado nas aulas de educação formal e com a falta de professores tive de improvisar e criar sessões de Educação Civica Global, prevista pela ONU e Unesco e creio que muito úteis e interessantes neste país.

Quanto à abordagem que fiz ao professor Humberto para integrar a Tabanca Grande, aceitou de imediato e fica muito honrado com o convite que agradece.

Relativamente às suas condições de mobilidade, queria colocar um desafio à Tabanca. O professor teve paralisia infantil e está agarrado a uma cadeira de rodas em péssimo estado (, eu que o diga que tenho andado com ele para todo o lado e esse exercício faz-me suar mais que uma intensa sessão de ginásio) , não tem apoio para os braços, as rodas estão para o empenado devido aos caminhos donde há mais buracos que terra plana e creio que não irá durar muito mais.

Penso que talvez uma campanha solidária para permitir a continuação do trabalho do professor que iniciou a sua actividade dando educação a jovens, sob uma árvore com um quadro, e que merece muito mais que uma cadeira de rodas pelo seu papel na sociedade.

Se alguns dos nossos camaradas junto de alguma associação de beneficência ou bombeiros arranjasse maneira de fazer voar uma cadeira de rodas para a Guiné, seria um contributo inestimável e que muito prestigiaria a iniciativa. Poderia ser mesmo uma cadeira usada e com uma única condição principal - ser muito resistente para aguentar o futuro que lhe estaria reservado.

Conto enviar mais crónicas, mas cada vez mais apaixonado pela actividade até as minhas leituras tenho descurado.

Recebe um abraço amigo de quem se manterá na Tabanca e partilhará as suas histórias e segredos debaixo do nosso poilão.

Abraço,
Luís Oliveira
____________

Nota do editor:

(*) Último poste da série > 12 de março de  2019 > Guiné 61/74 - P19577: Voluntário em Bissau, na Escola Privada Humberto Braima Sambu - Crónicas de Luís Oliveira (4): dia de Carnaval + Eleições = Carnaval Total

Guiné 61/74 - P19588: Notas de leitura (1159): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (77) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Junho de 2018:

Queridos amigos,
Aqui se faz menção da derradeira documentação avulsa constante do Arquivo Histórico do BNU.
São papéis que referem a pretensão de criar uma delegação do BNU em Bafatá, o processo iniciou-se em 1970, nunca foi concretizado, naturalmente se abandonou a ideia com a independência. Fala-se também das expetativas depositadas na CICER - Companhia Industrial de Cervejas e Refrigerantes da Guiné, um empreendimento industrial que recebeu o entusiasmo de muitos, desgraçadamente acabou no charco. Fala-se em dádivas do BNU para a construção do busto de Amílcar Cabral e para o monumento aos mártires do colonialismo, em 1975; consta no processo o parecer dado por Lisboa sobre o pagamento da contribuição industrial e imposto complementar do BNU em Bissau. E por fim aqui se refere a notícia de que a Sociedade Comercial Ultramarina estava a ser nacionalizada, o mesmo já acontecera com a Casa Gouveia e com a empresa Barbosa e Comandita.
A última etapa deste trabalho será aqui expor o que demais relevante se encontrou a partir de 1974 para a transferência do património do BNU para o Banco Nacional da Guiné-Bissau, no fundo são peças históricas que terão que ser integradas um dia no que foi a vida do BNU na colónia da Guiné, de 1902 até depois da independência.
Peço a todos que vejam a beleza das imagens que a investigadora Lúcia Bayan nos ofereceu sobre os jogos e a sua função didática na etnia Felupe, que ela investiga com tanto entusiasmo.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (77)

Beja Santos

Continuamos à volta com a documentação avulsa constante do Arquivo Histórico do BNU. Em termos cronológicos, há que referir que em 4 de fevereiro de 1972 se produzira um memorando sobre a criação de uma dependência do BNU em Bafatá. Em setembro de 1970, o subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino autorizara a abertura em Bafatá de uma dependência. O Banco já deslocara a Bafatá um funcionário para analisar as hipóteses de escolha de um edifício, concluíra-se que o imóvel com melhores condições era um edifício pertencente ao Banco então arrendado a Afif Elawar, súbdito libanês. O Banco começou os seus preparativos, definindo o modo de funcionamento, o número de empregados necessários e estabeleceu contactos com o arrendatário do prédio, a fim de obter a sua devolução.

Devido à reação do arrendatário, que não queria prescindir do arrendamento, o Banco chegou a encarar a hipótese de tentar a ação de despejo. O representante do arrendatário apresentou uma proposta no sentido de rescisão amigável, a proposta foi aceite. Já em janeiro de 1972 as gentes de Bafatá insistiam na criação da dependência, fora mesmo enviado à filial de Bissau um telegrama em que as autoridades, comerciantes, industriais e agricultores e toda a população dos concelhos de Bafatá e Gabu lamentava que ainda não tinha sido dada execução à promessa feita em 1970.

O processo arrasta-se e vem a independência da Guiné-Bissau, o último documento que possuímos data de 23 de outubro de 1974, o despacho é concludente acerca do novo edifício para a delegação de Bafatá: “Não é oportuno neste momento”.

Passamos agora para o dossiê CICER – Companhia Industrial de Cervejas e Refrigerantes da Guiné. Possuímos dois documentos de junho e novembro de 1974. Diz-se no primeiro que a CICER foi constituída em finais de dezembro de 1971, eram os seus principais acionistas a Sociedade Central de Cervejas, a Companhia União Fabril Portuense, a Cuca de Angola e a Fábrica de Cervejas Reunidas de Moçambique, Lda.
Fazia-se uma relação dos encargos da construção da fábrica da CICER em Bandim. Em novembro de 1974, o BNU emitiu um parecer do seguinte teor:
“Após o 25 de Abril, a sua produção baixou para a média de 4 a 5 milhões de litros anuais de cerveja e 2 a 2,5 milhões de litros de refrigerantes. As suas vendas cifram-se entre 6 a 8 mil contos mensais.
Pensam, muito em breve, lançar no mercado, também, água de mesa e água gaseificada.
Dada a boa qualidade dos seus produtos e o interesse dos territórios vizinhos na sua aquisição, prevê-se num futuro muito próximo que a fábrica volte a trabalhar em pleno. Sabemos ainda que a Nação Cubana está também interessada na produção da fábrica, pelo que se estão encetando as respectivas negociações através do Governo local.
O valor atribuído à fábrica é de 130 mil contos. Tem-na visitado muitos estrangeiros, após o 25 de Abril, tecendo-lhe os maiores encómios, pois esperavam encontrar uma fabriqueta e não uma moderníssima fábrica, muito bem situada e com o privilégio de possuir no seu subsolo uma das melhores águas do mundo – dizem – para a fabricação dos seus produtos.
Em face do que fica exposto, e pelas perspectivas que se antevêem, damos o nosso acordo à concessão do crédito de 50 mil contos solicitado, com vista à liquidação das três conta-correntes caucionadas.”

Estamos já em 1975, o BNU é contactado para contribuir para a construção do monumento aos mártires do colonialismo. O documento reza o seguinte:
“A tarde do dia 3 de Agosto de 1959 ficou dolorosamente marcada na história do nosso povo.
Nesse dia, em Bissau, no cais do Pindjiquiti, armas empunhadas por mãos assassinas de servidores fiéis do colonialismo ceifaram as vidas de dezenas de irmãos nossos, indefesos, levando a dor e a morte a centenas de lares.
Fizeram-se vítimas. E tal acto repercutiu-se tragicamente por todo o nosso país, pela África e pelo mundo.
Mas, nesse dia, o Governo colonial, contrariamente a todos os seus desejos, ajudou a dar um grande passo na caminhada pela reconquista da liberdade e da dignidade do nosso povo.
O massacre do Pindjiquiti jamais será esquecido, dado o seu alto significado na luta de libertação nacional.
Por isso, o nosso Partido e o nosso Estado tomaram a decisão de comemorar essa data, considerando feriado nacional o dia 3 de Agosto. A população de Bissau, no grande comício de 20 de Janeiro último, dia dos ‘Heróis Nacionais’, decidiu dar o nome de ‘Avenida do 3 de Agosto’ à avenida marginal e o nome ‘Praça dos Mártires do Colonialismo’ ao largo existente na zona do Pindjiquiti.
Neste local existia um monumento através do qual o Governo colonialista pretendia glorificar o ‘descobridor da Guiné’, Nuno Tristão.
Pois bem: na actual Praça dos Mártires do Colonialismo, na zona onde esteve o monumento a Nuno Tristão, é dever nosso honrar os mártires do colonialismo, erguendo-lhes um monumento que deve ser inteiramente custeado pelo nosso povo e por todos aqueles que, vivendo na nossa terra, quiserem juntar-se a nossa homenagem de gratidão eterna aos que ficaram pelo caminho nos longos anos de resistência contra a dominação e a exploração estrangeiras.
Para começar a concretizar essa ideia, foi criada uma comissão para recolha de fundos”. 

E indicavam-se os nomes: Rui das Mercês Barreto, Tiago Aleluia Lopes, Carlos Gomes, Armindo Ferreira, Teodora Inácia Gomes e João Maurício Chantre. A comissão era designada por “Comissão do Abota Nacional para o Monumento aos Mártires do Colonialismo”. O Comissário de Estado Rui Barreto, Presidente da Comissão assinava o manifesto em 26 de julho de 1975. O BNU ofereceu 5 mil escudos como oferta na contribuição do busto mandado erigir a Amílcar Cabral. O recibo de receção é assinado por Carlos Domingos Gomes com a data de 16 de maio de 1975, tratou-se de uma dádiva distinta da anterior.

Em 30 de junho de 1975, a administração em Lisboa informa a gerência do BNU em Bissau que a atividade exercida pela filial obedece a condicionalismos legais que têm de ser tidos em conta, no pressuposto de que as disposições fiscais, então vigentes, não sofreram alteração: o BNU continuaria a ser tributado pela contribuição industrial; sujeito a ser coletado pelos rendimentos anuais no Estado quanto ao imposto complementar.
E emitia-se o seguinte parecer:
“Em face do que antecede, é nosso entendimento que os elementos a declarar durante o corrente mês de Junho estão de harmonia com os preceitos legais vigentes nessa ex-colónia portuguesa; é evidente que, salvo acordo ou determinação legal das actuais autoridades desse Estado, os preceitos legais referidos como aplicáveis à actividade do Banco durante todo o ano de 1974, são de aplicar, pelo menos, até à data da proclamação da independência desse território".

Nesta documentação avulsa, encontra-se a fotocópia de uma notícia publicada no vespertino Diário de Lisboa, com a data de 30 de julho de 1976, com o seguinte título: Técnicos portugueses negoceiam nacionalização de duas empresas.
Notícia com a seguinte redação:
“Encontram-se em Bissau dois técnicos portugueses para conduzir as negociações com o Governo da Guiné-Bissau para a nacionalização da Sociedade Comercial Ultramarina, do capital social desta empresa comercial, a segunda do país, depois da Casa Gouveia, já integrada nos Armazéns do Povo, 80% ficará para o Estado guineense e os restantes 20% para uma companhia portuguesa de sabões do grupo CUF.
Foram entretanto transferidos para os Armazéns do Povo os bens da empresa Barbosa e Comandita. A integração fez-se a pedido e por iniciativa dos antigos proprietários, devido às dificuldades encontradas para a realização dos lucros anteriormente auferidos. Segundo o Comissário de Estado do Comércio, Armando Ramos, ‘nenhuma destas empresas tinha possibilidades de sobreviver sem a intervenção do Estado para transformar as suas estruturas. Isto porque os moldes em que foram implantadas na nossa terra estão em desacordo com os princípios da nossa sociedade que estamos a criar’. A Sociedade Comercial Ultramarina começara como sociedade por quotas, com o capital social de 500 contos. Mas com a subida vertiginosa dos lucros, o capital foi sendo aumentado até chegar a 100 mil contos e até assumir a forma de sociedade anónima. Dedicava-se ao comércio de exportação, mas na fase final passou também a explorar o comércio interno e pequenas unidades industriais. Possui 54 postos de venda espalhados pelo País e emprega 672 trabalhadores efectivos”.

Assim se encerra a consulta à documentação avulsa do Arquivo Histórico do BNU.

A derradeira parte deste trabalho tem a ver com a documentação do BNU para a transferência do património para a Guiné-Bissau, documentação extensa, a que procedemos necessariamente a uma simplificação dos elementos considerados mais pertinentes, até ao momento em que o BNU da Guiné se extinguiu e passou a estar integrado no Banco Nacional da Guiné-Bissau.

(Continua)

Foto 1

Foto 2

Foto 3

Foto 4

Comentários de Lúcia Bayan, investigadora da etnia Felupe, que amavelmente cedeu estas imagens para o nosso blogue, agradeço-lhe em nome de todos esta prova de consideração:

Os jogos tradicionais entre Felupes

As sociedades tradicionais africanas, como a Felupe, utilizam estratégias próprias para a educação e integração dos jovens na organização social. É sabido que os Felupes prezam muito a liberdade individual, mas sempre limitada por regras e valores sociais. Um exemplo é “meter a mão em seara alheia”, considerado um dos maiores crimes, podendo ser penalizado com expulsão da tabanca. Desta forma, em chão Felupe, raramente alguém é roubado. A eficácia do método felupe para resolver estas questões tem levado a que seja adotado em algumas povoações multiculturais, como, por exemplo, em São Domingos.

Uma das estratégias felupe para educar as suas crianças e jovens e os integrar na sua organização social são os jogos e as lutas. Dos primeiros ficam aqui fotos de dois: o jogo das vacas e um jogo, que não sei o nome, mas é do género do “Seega”, um jogo de tabuleiro tradicional jogado em partes do Norte e da África Ocidental, por dois jogadores, num tabuleiro de 5×5, geralmente com pedras. Um exemplo deste jogo pode ser visto aqui: https://elegbaraguine.wordpress.com/2015/02/11/jogos-africanos/.

O jogo das vacas é jogado por dois jogadores, munido cada um de um pequeno pau com um fruto espetado numa ponta, simbolizando uma vaca, e consiste numa luta de vacas. Indicado para rapazes da 2.ª classe de idade (dos 5 aos 12 anos), este jogo, além da função lúdica, visa desenvolver as capacidades necessárias para estes rapazes exercerem a principal obrigação desta classe de idade, pastorear e tomar conta do gado, e também o início da sua preparação como guerreiros.

O jogo do Seega visa estimular o raciocínio lógico matemático e cognitivo. Na sociedade Felupe, o tabuleiro é o chão, onde são escavados 25 pequenos buracos e as 12 pedras, que não existem em chão de areia, foram trocadas por paus ou palhas, num jogo indicado a adultos e crianças. As três fotos mostram três homens a jogar (foto 1), um adulto a ensinar crianças (foto 2) e estas a jogarem (foto 3).
____________

Nota do editor

Poste anterior de 8 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19562: Notas de leitura (1156): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (76) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 13 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19581: Notas de leitura (1158): o caso do jornal diário "O Arauto", extinto em 1968, num artigo da doutora Isadora Ataíde Fonseca, sobre a imprensa na época colonial (Luís Graça)