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terça-feira, 17 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27830 Humor de caserna (247): O anedotário da Spinolândia (XIX): Quem conta um conto, acrescenta-lhe quase sempre um ponto...

Guiné > Região de Tombali > s/l (algures) > Maio de 1973 > Costa Gomes, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, dá início, a 25 de maio de 1973, a uma visita ao Comando Territorial Independente da Guiné (CTIG), para se inteirar do agravamento da situação militar e analisar medidas a tomar com vista a garantir o espaço  de manobra, cada vez mais apertado, do poder político em Lisboa.

Na foto, vê-se o gen Costa Gomes à direita de Spínola, falando com milícias guineenses. Foto do francês Pierre Fargeas (técnico que fazia a manutenção dos helis AL III, na BA 12, Bissalanca), gentilmente enviada pelo nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil AL Iii,  BA12, Bissalanca, 1968/70).

Foto (e legenda): © Pierre Fargeas / Jorge Félix (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


I.  A propósito das anedotas (e não propriamente piadas) de Spínola e da Spinolância... É um manancial que aparentemente nunca mais acaba... Vamos continuar com o tema já  que estamos com a mão na massa.... 

Já parecem as anedotas (neste caso, mais piadas do que anedotas) do Samora Machel, que, no verão quente, estavam sempre a sair,  "quentes e boas", da "fábrica dos retornados do Rossio"... 

"By the way"... Recorda-se que a malta que veio de Moçambique,  tinha um pó danado ao Samora Machel, que obrigava o "tuga" a ir para a machamba para se "reeducar".  

Eram histórias  que me contava, na Praça do Comércio,  onde trabalhávamos juntos, no Núcleo de Informática do Ministério das Finanças, a minha colega e amiga Domitília, "retornada de Moçambique"... (O que é feito, de ti, rapariga ? Deves ter voltado à berças em Moncorvo; ainda me lembro dos quilinhos de amêndoa que te comprei, para te ajudar a compor o orçamento.)

Mas voltando á Spinolândia....Há algumas anedotas muito saborosas, ligadas à vida quotidiana da tropa na Guiné... São memórias orais da guerra colonial,  relatos de antigos  furriéis e alferes milicianos, mas também de praças e de capitães, comandantes de companhia que, em geral, se sentiam honrados com a visita do general, quando ele aparecia por "boas razões" (melhorar o moral da tropa, trazer soluções para problemas que chegavam ao seu conhecimento, inteirar-se da situação humana e operacional, etc.). 

Também a malta do QG (ou dos QG/CTIG e QG/CCFAG)   sabe muitas histórias do governador e comandante-chefe:   goste-se ou não era uma figura "impagável". Tal como o Gasparinho e outros "cromos" do CTIG.

São frequentemente atribuídas, estas anedotas, a episódios reais, mas raramente ou nunca aparecem documentadas em fontes oficiais  ou oficiosas, o que é típico da tradição do humor de caserna (que é essencialmente oral e informal).

II. De um modo geral, o nome de António de Spínola, ainda hoje circula na Internet,  quase sempre rodeado de pequenas histórias que misturam respeito, ironia, bravata, culto da personalidade, glorificação da guerra...  e o típico humor da tropa. 

Claro que não são verificáveis como “factos históricos”,  como de resto todas as anedotas que envolvem figuras gradas (e carismáticas) de um país, como Portugal, e de uma época tão rica de acontecimentos político-militares como foi a das décadas de 1960/70. 

Por outro lado,  circulam há mais de meio século entre veteranos que conheceram o tenente-coronel  e depois coronel de cavalaria António Spínola em Angola (1961/64) ou então na Guiné (1968/73), como brigadeiro e general, no dul cargo de governador e comandante-chefe... 

Claro que quem conta um conto, acrescenta-lhe (quase sempre um ponto). Neste caso, os "retoques" ou os pontos São da responsabilidade do editor de serviço.

São anedotas, enfim, que aparecem em memórias,  ora publicadas em livros ou reproduzidas nas redes sociais, "em tertúlias como a  do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné" (sic).

  Aqui vão mais umas tantas, com a ajuda das ferramentas de IA e os "retoques" do editor LG



1. A barba mal feita em Bafatá, 

Conta-se que, numa visita, em Bafatá,  a um  quartel (talvez o EREC, o esquadrão de cavalaria, arma donde ele era oriundo), Spínola passou revista à companhia formada à pressa, como era normal, em visitas-surpresa.

Parou diante de um soldado que tinha a barba claramente de  três dias.

— Então, meu rapaz, a guerra não te dá tempo para te barbeares ?

— Barbeio-me, sim, senhor, meu general.

—  Não me parece. Deixa-me cá ver melhor...

E aproximou-se do desgraçado, que começou a ver o caso mal parado... E lembrou-se de uma desculpa.

— É que não tem havido água na torneira, meu general.

Spínola ficou em silêncio um segundo e respondeu:

— Pois então vais-te barbear hoje … que eu trato da água.

Segundo quem conta ou história, nessa mesma manhã o administrador da circunscrição e o comandante do batalhão levaram uma "valente piçada".


2. O mapa ao contrário em Bissorã

Num briefing em Bissorã, um jovem alferes estava a explicar uma operação apontando para um mapa grande pendurado na parede.

Spínola interrompeu:

— Ó nosso alferes… o senhor já deu conta que o mapa está de pernas para o ar?

O alferes ficou branco como a cal da parede, ajeitou os óculos e virou o mapa.

Spínola acrescentou então, fleugmaticamente:

— Ó homem, não se preocupe… o inimigo também se engana e, para mais, não sabe ler.

A sala inteira rebentou a rir, o que aliviou a  tensão do briefing.


3. A pista de Teixeira Pinto

Em Teixeira Pinto (hoje,  Canchungo), a pista de aviação era famosa por ficar frequentemente em mau estado.

Numa visita, o piloto de DO-27 avisou:

— Meu general, a pista está curta e com buracos.

Ao que o Spínola respondeu:

— Não faz mal. A pista é curta, mas a coragem não tem limites.

Diz quem estava a bordo que o piloto balbuciou, entre dentes:

— Bem, a coragem é de V. Excia, meu general… mas eu é que sou o piloto desta coisa...


4. O telefonema no QG de Bissau

No quartel-general em Bissau, um capitão pediu audiência para relatar um problema grave de abastecimentos no mato. 

Expôs tudo com grande seriedade: a companhia estava de tanga.

Spínola ouviu, com muita atenção, e perguntou:

— Capitão, quantos homens tem na companhia?

— Cento e cinquenta, fora as baixas, meu general.

— E quantos se queixam?

— Todos, e até os que estão na enfermaria.

Spínola pegou no telefone e disse para o ajudante de campo:

— Ó Bruno, manda já víveres e  munições para estes homens… porque uma companhia que se queixa toda,  é uma companhia que ainda está viva!

 
5. O relatório demasiado otimista

Num briefing operacional, o major de operações terminou dizendo:

— A situação no nosso setor está completamente controlada.

Spínola perguntou:

— Completamente?

— Sim, meu general.

Resposta seca:

— Então o senhor está na guerra errada.

O major não se atreveu a replicar, com medo de levar com um "par de patins".

(Seleção, condensação, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)
 ______________

Notas do editor LG;

Último poste da série > 15 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27822: Humor de caserna (246): O anedotário da Spinolândia (XVIII): Ó nosso furriel, a Guarda não destroça, recolha!.... (Domingos Robalo, ex-fur mil art, BAC 1 / GAC 7 / GA 7, Bissau, 1969/71; foi também cmdt do 22º Pel Art, em Fulacunda, 1969/70)

quinta-feira, 12 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27817: Humor de caserna (244): O anedotário da Spinolândia (XVI): o horror à "guerra do ar condicionado"... "Senhores, se têm calor é porque estão vivos, os mortos não transpiram"


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante. 

Foto (e legenda): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Quando António Spínola assumiu o comando da Guiné, em meados de 1968, ainda brigadeiro, com "carta branca" de Salazar para inverter o curso das coisas, ter-se-á criado entre os militares um ambiente muito próprio a volta da sua figura: uma auréola de heroísmo (alimentada pela sua atuação em Angola, como lendário comandante do BCAV 345, 1961/64; um mistura de disciplina rígida (que alguns temiam que descambasse para o militarismo típico da arma de cavalaria); a par da teatralidade política e da multiplicação de episódios quase caricatos. 

Nas nossas casernas, entre oficiais, sargentos e praças começaram então a circular muito rapidamente muitas anedotas sobre Spínola e a Spinolândia.

O termo tem um sentido tanto negativo (de crítica, ironia e sarcasmo) como positivo, associado a um estilo completamente novo de fazer a guerra e governar um território ultramarino, à beira do colapso em termos económicos, sociais, militares e políticos.  

Spinolândia é, antes de mais, uma expressão de cunho satírico e político que surgiu para descrever o estilo de governação e a intensa campanha de propaganda levada a cabo pelo general António de Spínola enquanto Governador e Comandante-Chefe da Guiné Portuguesa, o "consulado"  (1968-1973), como diziam alguns de nós.
 
A expressão era utilizada, frequentemente, com ironia por opositores ou observadores críticos, para designar o território da Guiné como um "laboratório" psicossocial e político-militar muito próprio do Spínola e dos spinolistas (um conjunto brilhante de oficiais que ele congregou à sua volta). O termo pode remeter para ideias como:

  • personalismo / populismo/ culto da personalidade: a ideia de que a Guiné se havia tornado um feudo pessoal onde a imagem do general (com o seu icónico monóculo e pingalim) era omnipresente, para mais reunindo os dois papéis de liderança, o de político (como governador) e o de militar (como comandante-chefe);
  • "Guiné Melhor": o slogan do General que prometia desenvolvimento social e económico para conquistar as populações ("conquistar corações e mentes"), tentando contrariar a influência do PAIGC e, decididamente, subtraí-las ao seu controlo;
  • a africanização do exército (criando a "nova força africana", incluindo companhias de base étnica, o batalhão de comandos, os destacamentos de fuzileiros especiais);
  • propaganda intensiva / mediatização do conflito: uma gestão de imagem sem precedentes na história do Estado Novo, que transformou a Guiné na montra de uma "nova política" ultramarina, completamente distinta do imobilismo da elite caquética do regime.
É difícil de dizer quando surgiu o termo Spinolândia,  mas tudo indica que se consolidou no início da década de 1970, coincidindo com o auge da visibilidade mediática de Spínola.

No início do seu "consulado", entre meados de 1968 e a Op Mar Verde (22 de novembro de 1970), o general apostou fortemente na comunicação social, nacional e estrangeira. O termo começou a circular nos corredores políticos de Lisboa e entre os militares para descrever a autonomia quase absoluta com que ele governava, à margem das diretrizes rígidas do ministro do ultramar, Silva Cunha, que ele de resto desprezava por ser um "paisano", "provinciano", que não percebia nada de tropa, de guerra e de África.

A consagração crítica vai de 1971 até meados de 1973: foi nesta fase que a expressão ganhou mais força, especialmente entre os setores que criticavam o custo astronómico das reformas de Spínola e o seu crescente protagonismo político, que muitos viam como uma ameaça ao regime de Marcello Caetano. (Aliás, no final do seu mandato acabou mesmo em ruptura com o chefe do Governo, o qual,  para salvar as jóias da coroa do império, Angola e Moçambique,  estava disposto a aceitar o sacrifício da Guiné.)

Curiosamente, enquanto que, para os seus detratores, a o termo Spinolândia era uma crítica ao egocentrismo do general, para os seus apoiantes, os spinolistas, representava a esperança de uma solução reformista, federalista, com uma dupla componente política e militar, para o beco sem saída da guerra do ultramar, que culminaria mais tarde, já em 1974, na publicação de "Portugal e o Futuro".

Deste tempo há muitas anedotas sobre Spínola e a Spinolândia, algumas recolhidas em memórias, outras transmitidas oralmente.

Seria uma pena perderem-se. Temos feito um esforço, no blogue, para as recolher e partilhar. Como em todo o anedotário associado a figuras lendárias, carismáticas e controversas como o general Spínola, torna-se difícil, senão impossível, identificar a sua autoria, origem, contexto, e muito menos ainda a sua veracidade factual. 

Temos feito uma recolha das anedotas que circulam na Net, através das ferramentas de IA. Estamos a selecionar algumas das melhores e das mais verosímeis. Algumas das versões que lemos, podem ser variantes de anedotas já conhecidas, contadas e recontadas.

Infelizmente esta é uma faceta do nosso Com-chefe (não falamos dele como político no pós-25 de Abril, mas apenas como protagonista maior da guerra em que também participámos), menos bem tratada (para não dizer mal tratada) pelo seu biógrafo, o historiador Luís Nuno Rodrigues. ( Que, de resto, não deve ter posto sequer os pés na Guiné.)

Era conhecido por diversas alcunhas, o "Velho" (já desde Angola), o "Caco",  o "Caco Baldé",  o  "Aponta Bruno",  o "Bispo",  o "Homem Grande de Bissau", o "Com-Chefe", o Governador", o "Maior deste",  o "Nosso General"

O estilo pessoal de Spínola - monóculo, luvas, farda impecável, ar teatral e presença muito física e viril nas visitas ao terreno, na cidade ou no mato - marcou profundamente quem serviu no CTIG. Isso gerou um verdadeiro folclore de anedotas de caserna,  muitas nascidas no próprio QG ou em messes de oficiais em Bissau, em Bissalanca e no mato...


2. Há anedotas para todos os gostos e oriundas das mais diversas fontes (desde os simples soldados até aos pilotos e mecânicos da FAP e aos colaboradores mais próximos do general  e do governador).

 Era sabido, por exemplo, que ele não suportava o  ar condicionado, o que era um suplício para quem tinha que participar nos briefings, no QG/CCFAG ou no palácio do governador. (Isso tem-me sido testemunhado pelo cor inf ref Mário Arada Pinheiro, que foi colaborador íntimo do nosso Com-chefe, em 1972/73.)

As ferramentas de IA, que temos consultado, confirmam que "essa história do ar condicionado aparece muitas vezes nas memórias de quem trabalhou perto de António de Spínola no quartel-general de Bissau"... 

Na realidade, "ele tinha fama de não suportar ar condicionado, o que na Guiné era quase uma forma de tortura para quem ficava horas nos briefings"...

Entre oficiais do estado-maior e pessoal da Força Aérea circulavam várias anedotas “mais picantes” ou "pícaras" (no sentido militar do termo: mais atrevidas e sarcásticas). Aqui vão algumas:

(i) O suplício do briefing tropical

Num briefing longo no QG, com o calor e a humidade típicos de Bissau, um major (que não sabia da aversão do general) aproximou-se discretamente do aparelho de ar condicionado e ligou-o.

Spínola interrompeu a exposição, levantou a cabeça e interpelou a assistência:

- Quem foi o criminoso que ligou isso?

O  pobre do major confessou a ousadia. Resposta de Spínola:

- Nosso major, na Guiné há duas coisas que matam oficiais: o ar condicionado… e o inimigo. O segundo ao menos é mais honesto.

Claro que o aparelho voltou a ficar desligado e a reunião continuou com os oficiais a suar em bica.

(ii) O mapa colado à mesa

Outra que corria no estado-maior: num briefing, em dia particularmente de calor de estufa, o suor de um capitão começou literalmente a pingar sobre o mapa operacional.

Spínola observou a cena e comentou:

- Capitão, não molhe o mapa… que depois a guerra escorre.

O capitão respondeu:

- Meu general, isto não é água… é a estratégia a evaporar-se.

A sala rebentou a rir.

(iii) A toalha no pescoço

Há quem conte que num outro briefing, em pleno mês de maio,  um oficial apareceu com uma pequena toalha branca ao pescoço.

Spínola perguntou-lhe:

- Isso é parte do novo uniforme?

Resposta:

- Não, meu general… é equipamento de sobrevivência.

(iv) A vingança da Força Aérea

Entre pilotos e mecânicos da Força Aérea havia outra pequena maldade humorística.

Dizia-se que,  quando Spínola visitava uma unidade no mato, e depois regressava ao QG, os pilotos comentavam:

— O nosso general não gosta de ar condicionado… por isso voamos sempre com as portas abertas.

E os mecânicos respondiam:

— Assim ele tem sempre  ar.... natural!.

(v) A frase mais repetida

A frase que muitos veteranos dizem ter ouvido (ou ouvido contar) em reuniões longas no QG era:

— Senhores, se têm calor é porque estão vivos. Os mortos não transpiram.

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / OpenAI, Le Chat /Mistral AI) | Condensação,  introdução, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Nota do editor LG:

terça-feira, 10 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27809: O Spínola que eu conheci (39): ...Em Sinchã Lomá, no regulado do Corubal, na vistoria de uns malfadados abrigos de autodefesa (Rui Felício, "um alferes que não era parvo de todo")


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante. E o piloto nunca escondeu a admiração que tenha pelo ilustre militar que se sentava à sua esquerda...

Foto (e legenda): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá  > Carta de Duas Fontes (Bengacia)  (1959) / Escala 1/50 mil > Posição relativa   Sinchã Lomá, no regulado de Corubal, a sudoeste de Galomaro e Dulo Gengéle...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > 2º semestre de 1969 > Sinchã Mamajã... Algures, numa tabanca do regulado de Badora, já no limite sul, fazendo fronteira com o regulado do Corubal; uma tabanca em autodefesa, reforçada pelo 3º Gr Comb, com os respetivos furrieis mlicianos, "periquitos": na foto o fur mil arm pes inf  Henriques, junto a um dos abrigos e posando com o RPG 2 para a fotografia... 

O fotógrafo foi o Arlindo Roda, que também era deste Gr Comb, o grande fotógrafo da CCAÇ 12, a par do Humberto Reis (fur mil or esp, 2º Gr Comb, o nosso "cartógrafo").

Foto  © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Carta do Xime (1955) (Escala 1/50 mil) > Subsetor de Bambadinca > Detalhe > Tabancas fulas em autodefesa, Samba Juli, Sare Adé, Sinchã Mamajá e Sansacuta, situadas entre os rio Quéuol e Timinco, a leste da estrada Bambadinca-Mansambo, na fronteiras entre os regulados de Badora e Corubal.

Sansancuta fazia parte dum eixo de tabancas no limite sul do regulado de Badora, no Sector L1, e que funcionava como uma espécie de pequena muralha da China, cortando as linhas de infiltração das forças da guerrilha que eventualmente se podiam  para o interior daquele regulado a partir do rio Corubal (infiltração facilitada pela retirada de Madina do Boé, Béli, Cheche, Madina Xaquili...) Estavam ali reagrupados os habitantes de três tabancas, uma das quais Sare Ade cuja população, sobretudo os mais jovens, não se conformou com a ordem de deportação dada pelo comando militar de Bambadinca, tendo fugido para o nordeste (Gabu) e inclusivamente para o Senegal, que também é chão fula.

A sudeste ficavam Afiá e Candamã, já no regualdo de Corubal (tal como a Sinchã Lomá  desta história, a escassos quilometros, a sul do rio Biesse), j+a no setor de Galomaro, Sector L5, criado por essa altura).

Lugares que continuam no nosso imaginário, ao fim de mais de meio século, fazendo parte das nossas geografias emocionais...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. O general Spínola que conhecemos na Guiné, foi um cabo de guerra, carismático, populista, justiceiro, amado e odiado, e que os capitães do MFA utilizaram como "figura de proa" para, na Junta de Salvação Nacional, o Exército de apresentar, ao país, em 25 de Abril de 1974, como os salvador da Pátria (mais uma vez...).

Confesso que, no CTIG e depois cá, na nossa santa terrinha, nunca morri de amores por ele... Foi meu comandante na Guiné, tive que lhe bater a pala... Visitou-me, no meu buraco, no Rio Undunduma, no dia 1 de janeiro de 1971, para me desejar um bom ano... o que naturalmente sensibiliza qualquer soldado... Mas eu continuei a chamar-lhe o "Herr" Spínola... por causa do sua pose prussiana e do seu ridículo monóculo... 

Hoje olho esse tempo com o "monóculo do humorista" e,  por incrível que possa parecer, já não tenho  qualquer animosidade para o nosso general... Respeito os mortos, é um princípio que tenho (e cultivo no blogue). O que não me impede de ter uma opinião crítica sobre o seu "deve-e-haver", em vida, como homens, portugueses, cidadãos, políticos, militares, escritores, reis, rainhas, presidentes da república, governantes, santos, heróis, etc.

Dito isto, pergunto-me: conhecer ? Não se pode dizer que o conhecemos... Muitos de nós viram-no, ao longe. No palanque, nas receções de boas vindas ao CTIG, em Brá ou no Cumeré. Ou até lhe bateram a pala numa visita relâmpago por ocasião das "festas de Natal e Ano Novo" (em que estávamos quase sempre de prevenção).

Dizer que conhecemos o Comandante-chefe e Governador António Spínola é uma força de expressão. Os oficiais superiores, comandantes de batalhão, esses (com exceção dos de cavalaria e tropas-especiais) tinham medo que se pelavam, dele e das suas visitas-surpresa: tinha fama de trazer sempre um "par de patins" para correr com aquele ou aqueles a quem ele já tinha "feito a folha" em Bissau...

A malta da Força Aérea (pilotos e mecânicos dos helis) também o admiravam. O Jorge Félix já aqui o reconheceu publicamente.

Os soldados em geral adoravam-no por  ser "justiceiro" e por se sentirem lisonjeados com os seus discursos inclusivos sobre o "bom povo português"... Os fulas, idem aspas... Não era ele o "Caco Baldé", segundo a "vox populi"?

Quanto aos milicianos... bom, esses, tinham um sentimento ambivalente: uns gostavam dele, outros nem tanto, mas a maior parte tinha que o gramar. Um camarada, com grande experiência operacional como o Torcato Mendonça (1944-2021) disse dele. "Encontrámo-nos diversas vezes. Confesso que sempre vi naquele homem, trinta e quatro anos mais velho, o Chefe Militar. Obstinado, de forte coragem e frontalidade, teimoso, determinado em vencer o inimigo mas não de qualquer maneira."

Embora crítico, o nosso querido Torcato também escondia a sua admiração por ele... Nessa época, em que lá andámos (1968, 1969, 1970), ainda eram poucos os milicianos que tinham consciência política, embora bastantes já fossem contra aquela merda de guerra... De resto, "tropa é (era) tropa", sempre "foi assim" em todo o lado, até um dia, e que se invertem as hierarquias, em cima o soldado, em baixo o general... (Isso só acontece de 100 em 100 anos.)

A todos o Com-Chefe  exigia que dessem o litro e meio... E está tudo dito. Até o Rui Felício (1944-2026), se "acagaçou" com a sua sempre espalhafatosa visita (vinha sempre de héli, e neste caso com o seu piloto preferido...) a Sinchã Lomã (alguém sabe onde isso fica? Não é, por certo, na serra de Arganil, é a 4 mil quilómetros mais abaixo, depois do trópico de Câncer...).

Releiam esta crónica, de 2006 (há 20 anos!), que ele escreveu para malta do bairro Norton de Matos, em Coimbra  (e sobretudo para nós, seus camaradas da Guiné). É mais uma joia de humor castrense... E um belo retrato tanto do autor como da sua personagem. Devem-se ter encontrado há dias lá no Olimpo dos deuses e dos heróis. Espero que aos dois se tenha juntado o António Lobo Antunes (1942-2026), que adora ouvir histórias de guerra (e  de sexo).



Sinchã Lomá, regulado do Corubal: O Spínola e eu, que era um alferes com medo de levar uma porrada e perder o direito às férias

por Rui Felício (1944-2026)


Chegado a Sinchã Lomá, iniciei os trabalhos, dando prioridade, por questões de segurança própria, à organização da defesa da tabanca, estendendo arame frapado em redor do perímetro idealizado, e marcando os locais dos futuros abrigos, que decidi que fossem oito.

Ao mesmo tempo, seleccionei trinta recrutas entre os homens da população e incumbi o furriel Coelho de lhes dar alguma instrução militar e manuseamento do armamento que lhes iria ser distribuído. O objectivo era criar condições de autodefesa à população, evitando assim mais um destacamento militar do exército para o qual não havia efectivos suficientes.

Enquadrada a tabanca e os objectivos, passo à história propriamente dita.

Dada a experiência anterior já atrás referida, demorámos menos de metade do tempo que tínhamos gasto nas tabancas anteriores, para dar a missão como concluída. Para isso contribuiu também o dinamismo do chefe de tabanca que, ao contrário do de Dulo Gengele, colaborou activamente com a tropa, mobilizando praticamente toda a população para os trabalhos de construção dos abrigos.

Para quem não saiba, os abrigos eram buracos rectangulares, escavados até cerca de 1,20 de profundidade, em cujos cantos se colocavam quatro bidons cheios de terra que serviriam de pilares, nos quais iriam assentar os troncos de palmeira que constituíam a estrutura do telhado.

Feito o esqueleto do abrigo, cobria-se o telhado com uma camada de terra de cerca de 30 cm.

Tudo isto, sem cimento, nem máquinas e com rudimentares ferramentas (pás, picaretas, martelos, pregos, serras manuais e pouco mais…). E um Unimog que com o seu guincho eléctrico era de extrema utilidade. Tudo o resto, à base de esforço braçal…

Porque eu sabia que após a conclusão da missão, regressaria para a sede da Companhia, interessava-me despachar-me o mais rapidamente possível.

Por isso, logo que achei que o trabalho estava feito, mandei um rádio para a Companhia, solicitando que alguém fosse vistoriá-lo para me ser dada a ordem de regresso.

Alguns dias depois, finalmente ouço o ruído de um helicóptero aproximando-se e fiquei ansioso para que tudo fosse visto e achado conforme.

O Héli pousou, pilotado pelo meu grande amigo de sempre, o alferes Jorge Félix, mais tarde um quadro importante da RTP do Monte da Virgem em V. N. de Gaia.

Fiquei, porém, surpreendido pelas altas patentes que o acompanhavam! O Spínola, o coronel Hélio Felgas (Cmdt do Agrupamento de Bafatá ) e o capitão Almeida Bruno, à época oficial às ordens do Velho.

O Spínola dirigiu-se-me, cumprimentou-me e encaminhou-se para o abrigo mais próximo, consertando o monóculo e apoiando-se ritmadamente no seu bastão, à medida que ia caminhando.

Olhou, mirou, deu uma volta ao abrigo e, com ar admirado, deu uma segunda volta agora em sentido contrário… Dirigiu-se a um outro e repetiu a vistoria.

Batia nervosamente várias vezes com o bastão na terra poeirenta, olhava com ar inquisidor o Capitão Bruno e o Coronel Felgas e fez-me sinal para me aproximar… Pelo ar dele, senti-me pequenino e inseguro, embora sem ainda descortinar a razão da sua indisposição.

Olhou-me fixamente nos olhos, ficou em silêncio durante uns segundos e depois as palavras saiam-lhe da boca como se fossem pedras:

 – Vocé é o alferes mais original da Guiné!

A frase seguinte, continha a explicação da sua irritação:

–  Para que raio servem abrigos sem qualquer entrada?!

Nem me deu qualquer hipótese de resposta. Virou-me as costas e foi cumprimentar demoradamente o chefe de tabanca ao lado do qual se aglomeravam homens, mulheres e a criançada da aldeia.

E começou a arengar meia dúzia de frases feitas que ele adorava proferir :

– Vocês são o bom povo da Guiné, donos desta bela terra, que se desenvolverá harmonicamente sob a bandeira portugues... (E etc… etc… etc…).

Entretanto, enquanto decorria a parte política, o capitão Almeida Bruno falou comigo, também ele intrigado, e perguntou-me porque razão eu mantinha os abrigos fechados, como se não tivessem portas de entrada.

Expliquei-lhe que os queria manter limpos e apresentáveis para a vistoria, estando previsto que, logo que aprovado o trabalho, eu retiraria uma série de grades que estavam colocadas nas futuras entradas dos abrigos, para ficarem definitivamente operacionais. É que, se o não tivesse feito, à semelhança do que se tinha passado nas outras tabancas onde tinha estado, a população metia lá dentro os animais domésticos (cabritos, galinhas, patos, etc.) que conspurcavam aquilo tudo. Para evitar isso, fechei provisoriamente os abrigos…

O Almeida Bruno, conhecedor profundo do estilo do general, disse-me que essa explicação não servia, e o Caco estava chateado que nem um perú. E que isso podia redundar em qualquer coisa desagradável para mim…

E aconselhou-me a ir explicar ao Spínola antes de ele embarcar de novo no Heli, o seguinte: 

(i) que eu tinha andado a ler uns livros sobre a guerra do Vietname; 

(ii) e que, num desses livros tinha ficado a saber que os americanos construíam uma grande quantidade de abrigos falsos, onde de facto não iriam estar quaisquer efectivos militares; 

(iii) e que o faziam para que o inimigo, quando atacasse, dispersasse o fogo por inúmeros pontos, muitos dos quais seriam meramente fictícios, diminuindo assim o poder de fogo e a sua eficácia; 

e, finalmente, 

(iv) que fora por isso que tinha decidido levar à prática a referida táctica.

– Por azar meu, logo aqueles que o general Spínola tinha vistoriado!

Estudada a lição, quando o Spínola, depois de discursar à população, se aproximou de mim para se despedir, pedi-lhe licença para lhe explicar o que atrás ficou dito. Não fez qualquer comentário e entrou no Héli que de imediato levantou voo, deixando uma enorme nuvem de pó sobre as nossas cabeças…

E um grande aperto no meu coração… O pior castigo que poderia sofrer era o de me cancelarem as férias na Metrópole, já programadas para o Novembro próximo…

Recebi, uma semana depois, ordem de regresso à base e logo que cheguei, perguntei ao Capitão se havia novidades a meu respeito… Disse-me que não… Pelo contrário, o Felgas até tinha elogiado o meu trabalho. Mas nada comentou àcerca do incidente com o Spinola.

Enfim, do mal o menos… Ausência de notícias, boas noticías  – costuma dizer a sabedoria popular.

Andava cansado e preocupado com tudo isto e pedi ao Capitão que me deixasse ir espairecer uns dias a Bissau, a pretexto de uma qualquer consulta externa que o pudesse oficialmente justificar.

Ao contrário do que era hábito, o Capitão condescendeu e, dois dias depois rumei e Bafatá e daqui apanhei uma boleia num velho Dakota, para Bissau.

Depois de aterrar em Bissalanca, fui à messe de oficiais da Força Aérea e ali encontrei o Jorge Félix. Enquanto bebericávamos um copo, contou-me o que se passou no helicõptero, logo que levantaram voo de Sinchã Lomá.

 – Eh pá… Tiveste muita sorte! – começou por me dizer… – O Velho estava com cara de poucos amigos quando olhou para os malfadados abrigos, mas logo que se sentou no helicóptero, depois de ouvir a tua versão táctica, olhou de soslaio para o banco a seu lado onde estava o Almeida Bruno e disse-lhe:

– Oh, Bruno,  aponta aí! Este alferes não é parvo de todo!

E pronto, a minha ansiedade distendeu-se... Percebi que, graças ao capitão Almeida Bruno, as minhas férias de Novembro mantinham-se intactas… Como de facto se mantiveram!

Rui Felício (1944-2026)
Ex-Alf Mil Inf
3º Grupo de Combate
CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70

(Texto originalmente publicado na série "Estórias de Dulombi", em 2006, mas na altura, há 20 anos, nem um simples comentário mereceu) (*ª)

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de 

Último poste da série > 1 de dezembro de 2024> Guiné 61/74 - P26222: O Spínola que eu conheci (38): Nunca o vi com um fotógrafo atrás, no mato (António Martins de Matos / Luís Graça / Valdemar Queiroz / Virgílio Teixeira)... Havia um fotógrafo fardado, que tirava fotos de forma muito dsicreta (Domingos Robalo)

(**) Vd. poste de 27 de outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1217: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (6): Sinchã Lomá, o Spínola e o alferes que não era parvo de todo

segunda-feira, 9 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27806: Humor de caserna (243): uma história de partir o coco a rir, a de uma "amizade improvável": o piloto de AL III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané (Rui Felício, 1944-2026)


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > Algures sob os céus da Guiné, aos comandos de um AL III, o nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil, AL III, Esq 122, BA 12, Bissalanca, 1968/70; frequentou o 1º curso de pilotos de helicóptero, em Tancos, em 1967, aberto a milicianos... Entre os colegas de curso,  estava o Duarte Nuno de Bragança.


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante.


A caderneta de voo do Jorge Félix, onde consta a operação em que foi capturado o prisioneiro a que se refere esta história (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)

Fotos (e legendas): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá  > Carta de Duas Fontes (Bengacia)  (1959) / Escala 1/50 mil > Posição relativa de  Galomaro, onde ocorreu a história  do  Malan Mané, capturado pelos páras (BCP 12)  (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)... O PAIGC tinha uma "barraca" na mata próxima da bolanha do Rio Biesse (a vermelho).  O Jorge Félix sinalizou duas povoações,  a azul: Dulo Gengéle e Sinchã Lomá, a sudoeste de Galomaro.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Mansambo > 
CART 2339 (1968/69) > "Interrogatório" (que mais parece um exame oral da 3ª classe no Posto Escolar Militar...)  ao prisioneiro, Malan Mané (sentado, à esquerda). Quem preside ao ato é o nosso saudoso alf mil at art Torcato Mendonça (1944-2021) (à direita), visivelmente bem disposto tal como o militar guineense que faz de intérprete (de pé, ao centro). 

Assistem à cena 3 "viriatos" da CART 2339... O seu olhar é de espanto,  curiosidade e desconfiança... A  foto foi tirada pelo alf mil Cardoso, e chegou-nos à mão através do ex-fur mil Carlos Marques dos Santos, de Coimbra (1943-2019). "Pela disposição dos presentes é fácil imaginar a brutalidade do interrogatório. O militar das patilhas sou eu, na escrita, Torcato Mendonça"

Foto (e legenda): © Carlos Marques dos Santos (2006) 
Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Recuperamos e reeditamos uma mensagem e uma história do Rui Felício (1944-2026) (*), ex- alf mil at inf,  CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), autor da série "Estórias de Dulombi", e recentemente falecido:

Data - 12 de março de 2008:

Meu Caro Amigo Luís Graça,

Depois de vários anos sem notícias do Jorge Félix (**), tive a felicidade de o reencontrar há dias através de e-mail que ele me enviou.

Soube do meu endereço, por meio do nosso blogue,  que ele  tem lido...

Relembrou-me uma história curiosa que se passou em Galomaro numa operação militar em que ele esteve envolvido e da qual resultou um prisioneiro do PAIGC que pernoitou na sede da CCAÇ 2405.

É essa história que, no seguimento de outras anteriores te tenho enviado, que agora te peço que tenhas o incómodo de ler e decidir se lhe achas interesse para publicação no blogue.

Além da história propriamente dita, juntei-lhe algumas fotos cedidas pelo Jorge Felix, cuja publicação autorizou, bem como do endereço de um filme do YouTube.

Aceita os meus melhores cumprimentos, depois de tão longa ausência e os parabéns renovados pelo esforço que tens dedicado ao blogue que de muita utilidade tem sido para tantos de nós.


2. Série Humor de Caserna


O Piloto de Al III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané  

por Rui Felício (1944-2026)

(i) Preâmbulo

Durante cerca de 3 semanas estacionou na sede da nossa CCAÇ 2405, em Galomaro / COP 7, uma companhia de paraquedistas (aliás, duas, CCP 122 e 123 / BCP 12), para fazer limpeza de alguns objectivos do PAIGC, que as informações militares detectaram nas imediações da zona operacional da CCAÇ 2405.

No apoio a essa Companhia de paraquedistas, incluía-se o helicóptero pilotado pelo meu grande amigo alferes mil piloto Jorge Félix.

O episódio que vou contar poderia ter resultado em catástrofe, como mais adiante se compreenderá, mas o que permanece na memória, é de facto a situação picaresca que, passado o perigo, a seguir se desenvolveu.

Antes do relato dos factos, é importante dar a conhecer a personalidade do Jorge Félix. Sem ela, esta história não teria o sal e a pimenta que a maneira de ser dele lhe conferem.

(ii) A personalidade do Jorge Félix

O Jorge Félix, a quem ainda hoje me ligam laços de grande amizade, foi piloto de helicópteros da Força Aérea em Bissalanca, BA 12,  nos anos de 1968 a 1970.

Para além do seu elevado profissionalismo, capacidade técnica e conhecimento do território, que o tornaram, na opinião generalizada, como um dos melhores, senão o melhor piloto de helicópteros que terão passado pela guerra da Guiné, reunia e ainda reúne, invulgares qualidades difíceis de encontrar todas concentradas numa mesma pessoa.

Aquelas que mais apreciei foram e ainda são, apesar dos anos passados;
  • um apurado sentido de humor;
  • uma jovial e permanente boa disposição que alastrava a quantos o rodeavam;
  • um permanente lenço de seda colorido em volta do pescoço que era a sua imagem de marca;
  • e uma aptidão especial para rapidamente aprender a dominar as técnicas das mais variadas especialidades.
Refiro-me ao domínio da fotografia e da imagem, da música e, sobretudo, dos corações femininos! Dizem que destroçou vários na sua passagem por Bissau, Bafatá, Galomaro e sei lá quantas mais terras da Guiné...

(iii) A Op Nada Consta (18 de agosto de 1969: destruir um acampamento nas matas do Rio Biesse)

Mas vamos à história de cuja parte final fui testemunha.

A parte inicial foi-me descrita pelo próprio Jorge Felix e confirmada pelos paraquedistas intervenientes.

Em 18 de agosto de 1969, às 09h30, o Jorge Félix transportou no seu helicóptero um grupo de paraquedistas que iam fazer um assalto, a uma base do PAIGC, identificada pelos serviços de informações militares da Guiné, como estando localizada na região de Galomaro.

Ao procurar local para a aterragem perto do objectivo, em plena mata, o Jorge Felix foi descendo o helicóptero e, a uns 5 metros do chão, a deslocação de ar provocada pelo movimento das pás do aparelho, afastou uma série de ramos de arbustos deixando a descoberto um guerrilheiro do PAIGC que ali se havia emboscado.

O homem estava armado com um RPG7, e a granada colocada, apontando para o helicóptero, o que naturalmente deixou em pânico o piloto e os tripulantes.

Na verdade, se o gatilho tivesse sido premido, era o destruição do helicóptero e de algumas vidas, senão todas, daqueles que o tripulavam.

O Jorge Félix que foi quem primeiro avistou o guerrilheiro, gritou aos paraquedistas que de imediato saltaram do heli e aprisionaram o homem sem necessidade de dispararem um único tiro, desarmando-o acto contínuo.

Pelos vistos, o susto e a surpresa dele foram tão grandes, ao avistar inesperadamente o helicóptero sobre a sua cabeça, que lhe devem ter paralisado os movimentos e o raciocínio... para sorte dos militares que enchiam o aparelho...

(iv) O regresso a Galomaro

E a partir daqui já fui testemunha ocular...

Regressados a Galomaro, o prisioneiro (4) foi fechado numa sala da casa onde funcionava a secretaria da CCAÇ 2405, aguardando ali que lhe fosse dado o destino que os altos comandos de Bissau lhe determinassem.

Como nunca antes na CCAÇ 2405 tivéssemos feito prisioneiros, aquele homem mais parecia uma ave rara enjaulada em jardim zoológico em dia de grande afluência de visitantes.

Todos queriam vê-lo e o seu aspecto era o de um animal acossado e aterrorizado, certamente porque a propaganda que lhe tinham enfiado no cérebro, lhe fixara a ideia de que os soldados colonialistas haviam de o torturar até à morte...

A verdade é que ninguém lhe fez mal... Pelo contrário, vendo-o assim aterrorizado, procurámos tranquilizá-lo e dar-lhe de comer, o que foi sempre recusando, possivelmente porque pensava que a comida estaria envenenada.

Assisti a dada altura, a um diálogo que jamais esquecerei e que não resisto a tentar reproduzir tanto quanto a memória mo permita, passados já tantos anos.

(v) A conversa do Jorge Félix com o prisioneiro

O Jorge Felix entrou na sala, onde eu me encontrava com o prisioneiro e com mais um ou dois soldados, com o lenço de seda esvoaçando, o habitual ar sorridente e descontraído, e dirigiu-se cordatamente ao prisioneiro:

 Então como vai, meu amigo? Está tudo bem consigo?

O prisioneiro, consciente de que aquele piloto tinha todas as razões do mundo para se sentir revoltado pelo sucedido uma ou duas horas antes, encolheu-se receoso e ficou, tenso e em silêncio, esperando a vingança...

O Jorge Félix, insistiu:

− O senhor é casado?

O homem fez um sinal de assentimento com a cabeça, e o Jorge Felix prosseguiu:

− Pois é, a sua esposa lá em casa a remendar-lhe as peúgas, coitada, e o senhor anda para aqui a brincar às guerras... E tem filhos?

Mais um movimento afirmativo do prisioneiro incentivou o Jorge Felix a prosseguir:

− Sabe, o senhor parece ser uma pessoa de bem, por isso devia estar em casa a ajudar a sua esposa, a acompanhar os estudos dos seus filhos... Em lugar disso, anda por aí com uma arma daquelas nas mãos, sujeito a que ela se dispare sem querer e ainda vir a magoar alguém, ou magoar-se a si próprio... Já viu em que situação a sua família ficaria se o senhor viesse a sofrer algum acidente? Quem iria depois cuidar deles? Já pensou nisso?

O homem cada vez entendia menos daquela conversa mansa, daqueles conselhos simpáticos vindos de um oficial português que se habituara a considerar como seres desumanos e cruéis.

Quanto mais o Félix falava, mais ele se encolhia, sentado a um canto contra a parede, se calhar a pensar em que momento lhe iriam fazer mal...

O Félix não desistia da sua prelecção, tentando que o prisioneiro se descontraísse e estabelecesse com ele algum diálogo.

− Ora diga-me lá, o senhor estava com aquela perigosa arma nas mãos, para quê? Se era para disparar uma bazucada contra nós, porque não o fez?

Finalmente o prisioneiro sentiu-se na obrigação de responder:

− Porqui tem medo! Helicóptero é suma mosca... quando olha a gente nunca mais despega di nós...

O Jorge Felix ripostou de imediato:

− Isso é verdade! Mas nunca faríamos mal a uma pessoa como o senhor, que tem família constituída, que aparenta ser uma pessoa de bem... E porque é que não quer comer?... Sabe que tem que se alimentar para poder dar assistência aos seus filhos... A menos que não lhe agrade a comida... Realmente esse esparquete que lhe deram, não tem grande aspecto... E os olhos também comem, não é? Quer vir jantar fora comigo? Um frango de churrasco e umas cervejolas? Eu pago!

Brincando ou não, a verdade é que com toda esta conversa o Félix conseguiu que a tensão do prisioneiro se distendesse e, inacreditavelmente, este aceitou o convite!

O Felix, saiu para pedir autorização aos paraquedistas para levar o homem a comer um franguinho no restaurante do Regala, o único aliás que existia em Galomaro. Estes autorizaram desde que o prisioneiro fosse acompanhado por um soldado, para se garantir que não fugiria...

E foi assim que o Jorge Felix, à falta de melhor companhia, saiu para a night de Galomaro com o novo amigo conquistado às hostes do PAIGC que poucas horas antes podia tê-lo mandado para os anjinhos...

E jantaram juntos... E trocaram confidências que só o Felix poderá revelar...

O Jorge Félix pagou o jantar, como prometera! Com exclusivo recurso aos seus capitais próprios.

É uma divida que, segundo me disse, gostaria de lhe cobrar se o homem ainda estiver vivo e se lhe for possível reencontrá-lo.

Anexo três fotos que o Félix me enviou.

Rui Felício
Ex-alf mil inf, CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)

Lisboa, 11 de Março de 2008

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

3. Comentário do editor LG:

Meus amigos e camaradas:

É uma história a ler e reler. Uma daquelas de partir o coco a rir... Não me canso de a revisitar (***). E o mérito é tanto do narrador como do Jorge Félix e, de algum modo, do pobre Malan Mané que, três semanas depois, ia morrendo ao meu lado, um jovem a quem deram uma bandeira, um hino, um RPG 2, enfim, uma causa para lutar, viver e morrer. (Era biafada, da região de Quínara, tal como o seu comandante, o Mamadu Indjai, futuro carrasco de Amílcar Cabral, e que morrerá a seguir, em 1973, fuzilado sem honra nem glória, no ajuste de contas entre "cavalos" e "cavaleiros" do PAIGC).

O Malan Mané era apontador de RPG 2 (e não 7), se bem me lembro. Foi, de facto, capturado pelos paraquedistas do BCP 12, em operação conjunta do Sector L1 (BCAÇ 28252, Bambadinca, 1968/70) e COP 7 (Bafatá) (Op Nada Consta, 18 de Agoso de 1969) (em que também participei, tal como o Torcato Mendonça e o Carlos Marques dos Santos) (****) ...

As forças paraquedistas eram a CCP 123, a 2 Gr Comb, e a CCP 122, a 1 Gr Comb. Ambas as unidades estavam aquarteladas temporariamente em Galomaro. O Malan Mané, depois de Galomaro, foi levado para Bambadinca, para interrogatórios. Também esteve em Mansambo. Estava ao meu lado, no 2º Gr Comb, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, que gravemente ferido (Op Pato Rufia, no Xime, a 7 de Setembro de 1969, o "meu batismo de fogo").

Esta história, "escrita" a quatro mãos" (Rui Felício e Jorge Félix), é um tesouro de humanidade, sensibilidade, inteligência emocional e humor pícaro no meio daquela merda de guerra. Bem merecia mais comentários dos nossos leitores, cada vez mais cansados e distraídos. 

É uma história que nos honra e nos delicia, e que diz muito sobre a nossa maneira de ser e de estar, como portugueses, mesmo em situações-limite como a guerra... Voltaremos a ela num próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante".
_______________

Notas do editor LG:

(*) O Rui Felício (1944-2026), juntamente com o Paulo Raposo, o Victor David (1944-2024) e o Jorge Rijo (de quem não sabemos nada há muito), fazia parte dos famosos baixinhos de Dulombi, os quatro alferes milicianos da CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), reunidos sob o poilão da Tabanca Grande...

Vd. poste de 8 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1352: Estórias de Dulombi (7): Perigos vários, a divisa dos Baixinhos de Dulombi (Rui Felício)

(**) Vd. postes de:

28 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2592: Voando sob os céus de Bambadinca, na Op Lança Afiada, em Março de 1969 (Jorge Félix, ex-Alf Pil Av Al III)

12 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2627: Vídeos da Guerra (8): Nha Bolanha (Jorge Félix, ex-Alf Mil Piloto Aviador, 1968/70)

18 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2660: Notas de leitura (10): Jorge Félix, o nosso piloto aviador, fala do livro do Beja Santos e evoca o Alf Mil Brandão (CCAÇ 2403)

(***) Último poste da série : 4 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)

(****) Vd. postes de:

25 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P906: CART 2339 e Malan Mané, duas estórias para duas fotos (Torcato Mendonça)
23 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16519: Manuscrito(s) (Luís Graça) (97): O 'prisioneiro' Malan Mané... a quem cedo, talvez demasiado cedo, deram um arma e uma bandeira e um hino

sábado, 7 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26241: Humor de caserna (85): "Ai, não caia, senhora, não caia!"...(responde um guerrilheiro do PAIGC, capturado, ferido, quando ela lhe perguntou o que lhe fariam os seus camaradas se o avião caisse e ela fosse apanhada à unha...): uma história de (†) Maria Ivone Reis, enfermeira paraquedista, maj ref graduada


Angola > Base de Negage > Agosto de 1961 > As enfermeiras paraquedistas Maria Arminda e Maria Ivone, em missão de apoio no âmbito de uma operação na Serra da Canda

Foto: Cortesia de um nosso leitor, devidamente identificado, mas que prefere o anonimato (trata-se de antigo oficial paraquedista do BCP 12 e BCP 12).



Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 763 (1965/66) > Uma enfermeira paraquedista no meio dos "Lassas"... Muito oportunamente o nosso camarada Jorge Félix, ex-Alf Mil Pil Heli AL III (1968/70), identificou-a como sendo a Maria Ivone Reis (Em 1968 era graduada em tenente, reformou-se com o posto de posto de major)


Foto (e legenda): © Mário Fitas (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. A Maria Ivone Reis pertence ao grupo das 6 Marias, nome pelo qual ficou conhecido o 1.º curso de Enfermeiras Paraquedistas portuguesas feito em 1961, curso esse que é também o da Maria Arminda Santos (n. 1937), nossa grã-tabanqueira, e agora a matriarca das antigas enfermeiras paraquedistas (é à sua "base de dados" que recorro sempre que tenho uma dúvida ou uma pergunta sem resposta sobre o "curriculum vitae" das suas colegas).(*)

As outras quatro Marias eram a Céu (Policarpo), a Lourdes ("Lurdinhas"), a Nazaré (†) e a Zulmira (†). Sobre a Maria Ivone Reis temos 33 referências no nosso blogue:

(i) conclui em 1958 o Curso de Enfermagem Geral na Escola das Franciscanas Missionárias de Maria;

(ii) começou a trabalhar em 1959, no hospital da CUF;

(iii) fez o curso de enfermeira paraquedista em Tancos, em junho-agosto de 1961;

(iv) na Força Aérea, nos paraquedistas, já havia mulheres, civis, na parte administrativa,  informa-nos ela;

(v)  a relação com os paraquedistas foi sempre  muito cordial;

(vi) partiu para Angola, em 23 de agosto de 1961, com a Maria Arminda;

(vii) esteve 3 vezes na Guiné: em 1963, 65 e 69;

(viii) o seu maior desgosto foi o de ter sido saneada em  17 de abril de 1975, no Hospital da Força Aérea onde trabalhava (e onde voltou mais tarde, depois de reintegrada).

Mas voltemos à sua experiência como enfermeira paraquedista:

(...) "No quartel nós podíamos sair do avião, mas na zona de combate nós não devíamos sair do avião ou do helicóptero. Era uma circunstância de muito risco. Se houvesse ataque do inimigo o helicóptero teria de levantar voo imediatamente ficando a enfermeira em terra em grande risco, sem meios nem ambiente para tratar dos feridos. Eventualmente fizemos isso em situações muito excecionais, bem medidas, porque podia tornar-se um altruísmo muito arriscado para a vida dos outros. 

"Nesse aspeto é muito importante a questão do medo, porque ajuda ao raciocínio e ao controlo. O importante é perceber como controlar o medo, para termos oportunidade de perceber a razão do medo e para que possamos ultrapassá-lo." (...)

A história que se segue é sobre isso mesmo: como lidar com o medo e a consciência do risco... Em todas as profissões de risco ou de maior risco, o profissional tem que criar mecanismos de defesa contra a ansiedade, a angústia, o medo de falhar, de cometer,  de ter um acidente, de ser capturado, de morrer, etc. As enfermeiras paraquedistas estão nessa lista das profissões de risco. 

A história merece figurar na série "Humor de caserna"... A autora não pondera a hipótese de o avião cair e ela morrer, mas sim, a de ser capturada pelo inimigo... E racionaliza, e muito bem: "Sou enfermeira, mas também sou mulher: não me vão fazer mal, posso ser muito útil para tratar os seus feridos...". 

Mas depois é confrontada com a opinião de um guerrilheiro (nunca lhe chama "turra", como era corrente na Guiné; curioso o nome, Armand, devia ser do outro lado, da Guiné-Conacri ou do Senegal, é um nome francófono)...


Humor de caserna (85): "Ai, não caia, senhora, não caia!"...

por Maria Ivone Reis (1929 - 2022)



A então ten enf pqdt Ivone Reis,
em Cacine, 12/12/1968.
Foto: António J. Pereira
da Costa
 (2013)



Sempre estive bem consciente de que o trabalho que executava quando fazíamos evacuações sanitárias, tinha alguns riscos. Estes eram elevados e bem patentes quando elas eram feitas desde os locais de combate. Mas, mesmo nos outros casos, o simples facto de sobrevoarmos zonas por vezes controladas pelo inimigo, incutia em nós alguma sensação de insegurança.

 Naqueles momentos, e enquanto olhava para a paisagem que lá em baixo ia passando sobre os  meus olhos, pensava em muitas coisas... 

Uma, recorrrente, era: "O que me fariam os guerrilheiros, se o avião fosse abatido, e nós  feitos prisioneiros ?".

Pensava muito na minha condição de mulher, que talvez agravasse a situação. Mas, por outro lado, tinha esperança de que, pelo facto de ser enfermeira e os guerrilheiros saberem que nós também tratávamos dos seus feridos, me não fariam qualquer mal.

Por conveniência ou não, quanto mais pensava nisto mais me convencia de que eu beneficiaria dessa proteção pelo simples facto de ser enfermeira!

Até que um dia as minhas dúvidas se  desfizeram!

Uma vez, na Guiné, quando socorria um guerrilheiro que estava ferido e que tinha sido capturado, perguntei-lhe se, por acaso um dia o meu avião caísse no meio do mato com enfermeiras a bordo, se eles nos fariam mal. Eu tinha a ilusão  de que ele diria que nenhum mal nos aconteceria.

Então o Armand   – era assim que ele se chamava   abriu muito os olhos e respondeu-me:

– Não caia, senhora, não caia!

E ali acabaram as minhas ilusões sobre tal assunto!


Fonte: Excertos de Ivone - "Aspetos humanos da nossa atividade: Não caia, senhora...". In: "Nós, enfermeiras paraquedistas", 2ª ed., org. Rosa Serra, prefácio do Prof. Adriano Moreira (Porto: Fronteira do Caos, 2014), pág.333  (com a devida vénia) (Imagem à direita, a seguir: Capa do livro)

(Seleção, revisão / fixação de texto, título, introdução: LG) (**)


Coautoras (das 30 da lista, com a Rosa Serra,  editora literária,  18 são Marias...): 

Maria Arminda Pereira | Maria Zulmira André (†) | Maria da Nazaré Andrade (†) | Maria do Céu Policarpo | Maria Ivone Reis (†) | Maria de Lourdes Rodrigues | Maria Celeste Guerra | Eugénia Espírito Santo | Ercília Silva | Maria do Céu Pedro (†) | Maria Bernardo Teixeira | Júlia Almeida | Maria Emília Rebocho | Maria Rosa Exposto | Maria do Céu Chaves | Maria de Lourdes Cobra | Maria de La Salette Silva | Maria Cristina Silva | Mariana Gomes | Dulce Murteira | Aura Teles | Ana Maria Bermudes | Ana Gertrudes Ramalho | Maria de Lurdes Gomes | Octávia Santos | Maria Natércia Pais | Giselda Antunes (Pessoa) | Maria Natália Santos | Francis Matias | Maria de Lurdes Costa.

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Notas do editor:

(*) Vd., postes de:^

18 de maio de 2022 > Guiné 61/74 - P23275: (In)citações (206): Maria Ivone Reis (1929-2022), a primeira enfermeira paraquedista que eu conheci, em 1967, no Porto (Rosa Serra)

16 de maio de 2022 > Guiné 61/74 - P23267: In Memoriam (435): Maria Ivone Reis, Major Enfermeira Paraquedista Reformada (1929-2022), falecida no dia 15 de Maio de 2022

13 de janeiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21764: (De)Caras (168): Maria Ivone Reis, major enfermeira paraquedista reformada, faz hoje 92 anos e é uma referência para outras outras mulheres e para nós, seus camaradas: excertos de um seu depoimento, publicado em 2004 na Revista Crítica de Ciências Sociais - Parte I

13 de janeiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21766: (De)Caras (169): Maria Ivone Reis, major enfermeira paraquedista reformada, faz hoje 92 anos e é uma referência para outras outras mulheres e para nós, seus camaradas: excertos de um seu depoimento, publicado em 2004 na Revista Crítica de Ciências Sociais - Parte II (e última)

5 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8998: As nossas queridas enfermeiras pára-quedistas (28): Comemoração dos 50 anos dos cursos de 1961 das Tropas Pára-quedistas (Rosa Serra / Maria Arminda)

26 de agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6900: As nossas queridas enfermeiras pára-quedistas (20): Uma foto histórica: as Alferes Arminda e Ivone, em Angola, Negage, Agosto de 1961

5 de junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6535: As Nossas Queridas Enfermeiras Pára-quedistas (18): As primeiras mulheres portuguesas equiparadas a militares (5): Maria Ivone Reis (Rosa Serra)

11 de maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4318: As Nossas Queridas Enfermeiras Pára-quedistas (10): Ivone Reis, Anjo da Guarda na Guiné, Angola e Moçambique (António Brandão)

20 de fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3914: As nossas queridas enfermeiras pára-quedistas (1): Uma brincadeira (machista...) em terra dos Lassas (Mário Fitas)

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Guiné 61/74 - P25776: A minha ida à guerra (João Moreira, ex-Fur Mil At Cav MA da CCAV 2721, Olossato e Nhacra, 1970/72) (53): Operação Jaguar Vermelho - III: dia 1 de Junho de 1970



"A MINHA IDA À GUERRA"

João Moreira


OPERAÇÃO JAGUAR VERMELHO - III

1970/JUNHO/01

Em CANFANDA emboscamos os 3 grupos de combate ao longo do trilho, conforme o estabelecido.

Às 10h30 ouviu-se um helicóptero que pelo rádio chamou "leão?? - um algarismo que não me recordo)". Identificou-se como "leão 1" e disse que ia pousar.

Com todos os acontecimentos anteriores eu não sabia qual era o nosso nome de código.
Perguntei ao soldado das transmissões quem era o "leão 1" e ele também não sabia.
Mandei-o dizer para não pousar, porque íamos montar segurança.

Resposta imediata do helicóptero: "Vou pousar. Não preciso de segurança".

Entretanto aparece o Alferes Pimentel com 1 secção, e pediu-me outra secção para montar segurança ao helicóptero que trazia o General Spínola.
Quando chegamos ao local, para montar segurança, já o heli tinha pousado.

Do heli saiu o General Spínola, um brigadeiro (penso que era o 2.º Comandante das Forças Armadas), o Capitão Almeida Bruno (Ajudante de Campo do General Spínola) e um alferes (penso que era o piloto do heli - Jorge Félix?).


Guiné > Algures > Jorge Félix, Alf Mil Piloto de Heli Al III (BA 12, Bissalanca, 1968/70) e António Spínola (Com-Chefe e Governador Geral, CTIG, 1968/73)...

Foto: © Jorge Félix (2010). Todos os direitos reservados

O General Spínola perguntou para que era aquele pessoal que ia connosco.
Como o Alferes Pimentel disse que era para montar segurança, mandou-os regressar ao local da emboscada, dizendo que ele não precisava de segurança.

Quis saber como tinham acontecido as coisas na véspera e qual era o moral do pessoal da Companhia, após o ataque que tínhamos sofrido e que tinha provocado ferimentos graves ao nosso capitão.
Deu-nos notícias do estado do Capitão Moura Borges.
Disse que antes de vir para a Operação, que continuava a decorrer, tinha ido ao Hospital Militar ver o Capitão Moura Borges.
Informou-nos que já tinha sido operado e que tinha corrido bem.
Iria ser transferido para o Hospital Militar de Lisboa, para a recuperação ser mais rápida, porque o clima húmido da Guiné não era favorável a esta situação.

Durante a conversa com o General Spínola, o brigadeiro veio ter comigo para saber onde estava instalada a nossa Companhia.
Apontei-lhe o local e disse-lhe que era ali o trilho indicado para a Companhia montar a emboscada.
Para meu espanto, o brigadeiro mandou-me buscar o pessoal da Companhia, para o nosso General passar revista.

Felizmente para mim, o Capitão Almeida Bruno assistiu à conversa/ordem que o brigadeiro me deu.
Achei um grande disparate, mas cumpri a ordem do brigadeiro - Quem era o furriel "periquito" que não cumpria a ordem recebida dum brigadeiro?
Contrariado, fui buscar o pessoal da Companhia e dirigi-me para junto do heli, onde estava a decorrer o nosso encontro.

Quando chegamos junto do heli, o General Spínola perguntou-me quem me mandou ir buscar os soldados.
Apeteceu-me dizer que tinha sido o brigadeiro - o que era verdade - mas ao mesmo tempo pensei na gravidade de um furriel "periquito" estar a acusar um brigadeiro.

E aqui valeu-me a ajuda do Capitão Almeida Bruno. Contornou parte do círculo que formávamos e colocou-se virado para mim e a apontar para o brigadeiro. Fez isto várias vezes, mas eu continuava a ter medo das consequências.

Bastava o brigadeiro dizer que não me deu essa ordem e eu é que ficava como mentiroso. O Capitão Almeida Bruno viu o meu "desespero", contornou novamente parte do círculo e quando passou por trás de mim, bateu-me nas costas e disse: "Diz que foi o brigadeiro". Com este "apoio", decidi e respondi ao General Spínola:
"Meu Comandante, foi o nosso Brigadeiro que me deu ordem para levantar a emboscada e trazzer o pessoal para aqui, para o meu Comandante passar revista".

Resposta do General Spínola: " O nosso Brigadeiro aqui não manda nada. Volta a instalar o pessoal no trilho, e eu é que vou lá visitá-lo para não arriscar a segurança deles".

Desta já me safei, pensei eu.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 18 DE JULHO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25758: A minha ida à guerra (João Moreira, ex-Fur Mil At Cav MA da CCAV 2721, Olossato e Nhacra, 1970/72) (52): Operação Jaguar Vermelho - II: dia 31 de Maio de 1970