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quinta-feira, 12 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27817: Humor de caserna (244): O anedotário da Spinolândia (XVI): o horror à "guerra do ar condicionado"... "Senhores, se têm calor é porque estão vivos. os mortos não transpiram"

 


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante.

Foto (e legenda): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Quando António Spínola assumiu o comando da Guiné, em meados de 1968, ainda brigadeiro, com "carta branca" de Salazar para inverter o curso das coisas,  ter-se-criado entre os militares um ambiente muito próprio: uma auréola de heroísmo (alimentada pela sua atuação em Angola, como lendário comandante do BCAV 345, 1961/64; um mistura de disciplina rígida (que alguns temiam que descambasse para o militarismo típico da arma de cavalaria);  a par da teatralidade política e da multiplicação de episódios quase caricatos. 

Nas nossas casernas, entre oficiais, sargentos e praças começaram a entáo circular muito rapidamente  muitas anedotas sobre Spínola e a Spinolândia.

O termo tem um sentido tanto negativo (de crítica, ironia e sarcasmo) como positivo, associado a um estilo completamente novo de fazer a guerra e governar um território ultramarino, à beira do colapso em termos económicos, sociais, militares e políticos.  

Spinolândia é, antes de mais,  uma expressão de cunho satírico e político que surgiu para descrever o estilo de governação e a intensa campanha de propaganda levada a cabo pelo general António de Spínola enquanto Governador e Comandante-Chefe da Guiné Portuguesa, o "consulado" (1968–1973).
 
A expressão era utilizada, frequentemente,  com ironia por opositores ou observadores críticos, para designar o território da Guiné como um "laboratório" psicossocial e político-militar muito próprio de Spínola e dos spinolistas (um conjunto brilhante de oficiais que ele congregou à sua volta). O termo pode remeter para ideias como:

  • Personalismo / culto da personalidade: a ideia de que a Guiné se havia tornado um feudo pessoal onde a imagem do General (com o seu icónico monóculo e pingalim) era omnipresente, para mais reunindo os dois papéis de liderança, o de político (como governador) e o de militar (como comandante-chefe);
  • "Guiné Melhor": o slogan do General que prometia desenvolvimento social e económico para conquistar as populações ("conquistar corações e mentes"), tentando contrariar a influência do PAIGC e, decidamente, subtraí-la ao seu controlo;
  • a africanização do exército (criando a "nova força africana", incluindo companhias de base étnica, o batalhão de comandos, os destacamentos de fuzileioros especiais);:
  • propaganda intensiva /mediatização do conflito: uma gestão de imagem sem precedentes na história do Estado Novo, que transformou a Guiné na montra de uma "nova política" ultramarina, completamente distinta do imobilismo da elite do regime.
É difícil de dizer quando surgiu o termo Spinolândia,  mas tudo indica que se consolidou no início da década de 1970, coincidindo com o auge da visibilidade mediática de Spínola.

No início do seu "consulado", entre meados de 1968 e a Op Mar Verde (22 de novembro de 1970), o general apostou fortemente na comunicação social, naciuonal e estrangeira.  O termo começou a circular nos corredores políticos de Lisboa e entre os militares para descrever a autonomia quase absoluta com que ele governava, à margem das diretrizes rígidas do ministro do ultramar, Silva Cunha, que ele de resto desprezava por ser um "paisano", "provinciano", que não percebia nada de trpopa, de guerra e de África.

A consagração crítica vai de 1971 até meados de 1973: foi nesta fase que a expressão ganhou mais força, especialmente entre os setores que criticavam o custo astronómico das reformas de Spínola e o seu crescente protagonismo político, que muitos viam como uma ameaça ao regime de Marcello Caetano. (Aliás, no final do sue mandato acabou mesmo em ruptura com o chefe do Governo.)

Curiosamente, enquanto que, para os seus detratores, a  "Spinolândia" era uma crítica ao egocentrismo do general, para os seus apoiantes,k os spinolistas,  representava a esperança de uma solução reformista, com uma dupla componente política e militar, para o beco sem saída da guerra do ultramar, que culminaria mais tarde, já em 1974,  na publicação de "Portugal e o Futuro".

Deste tempo há muitas anedotas sobre Spínola e a Spinolândias, algumas recolhidas em memórias, outras transmitidas oralmente.  Seria uma pena perderem-se. Temos feito um esforço, no blogue. ara as recolher e partilhar. Como em todo o anedotário associado a figuras lendárias, carismásticas e controversas como o general Spínola, torna-se difícil, senão impossível, identificar a sua autoria, origem, contexto, e muito menos ainda a sua veracidade factual.

Temos feito uma recolha das anedotas que circulam na Net, através das ferramentas de IA. Estamos a selecionar algumas das melhores e das mais verosímeis. Algumas das versões que lemos, podem ser variantes de anedotas já conhecidas, contadas e recontadas.

Infelizmente esta é uma faceta do nosso Com-chefe (não falamos dele como político no pós-25 de Abril, mas apenas como protagonista maior da guerra em que também participámos), menos bem tratada (para não dizer mal tratada)  pelo seu biógrafo , o historiador Luís Nuno Rodrigues-

 Era conhecido por diversas alcunhas, "O Velho" (já desde Angola), "O Caco", "Caco Baldé", "O Aponta Bruno", "O Bispo", "O Homem Grande de Bissau", o "Com-Chefe"... 

O estilo pessoal de Spínola — monóculo, luvas, farda impecável, ar teatral e presença muito física e viril nas visitas ao terreno — marcou profundamente quem serviu no CTIG.  Isso gerou um verdadeiro folclore de anedotas de caserna muitas nascidas no próprio QG ou em messes de oficiais em Bissau e no mato,.l


2. Há anedotas para todos os gostos e oriundas das mais diversas fontes (desde os simples soldados até aos pilotos e mecânicoas da FAP e aos colaboradores mais próximos do general).  Era sabido, por exempplo, que ele não suportava o  ar condicionado, o que era um suplício para quem tinha que participar nos  briefings, no QG/CCFAG ou no palácio do governador. (Isso tem-me sido testemunhado pelo cor inf ref Mário Arada Pinheiro, que foi colaborador íntimo do nosso Com-chefe, em 1972/73.)

As ferramentas de IA, que temos consultado, confirmam que "essa história do ar condicionado aparece muitas vezes nas memórias de quem trabalhou perto de António de Spínola no quartel-general de Bissau"... Na realidade, "ele tinha fama de não suportar ar condicionado, o que na Guiné era quase uma forma de tortura para quem ficava horas nos briefings"...

Entre oficiais do estado-maior e pessoal da Força Aérea circulavam várias anedotas “mais picantes” ou "pícaras" (no sentido militar do termo: mais atrevidas e sarcásticas). Aqui vão algumas:

(i) O suplício do briefing tropical

Num briefing longo no QG, com o calor e a humidade típicos de Bissau, um major (que não sabia da aversão do general) aproximou-se discretamente do aparelho de ar condicionado e ligou-o.

Spínola interrompeu a exposição, levantou a cabeça e interpelou a assistência:

— Quem foi o criminoso que ligou isso?

O  pobre do major confessou a ousadia. Resposta de Spínola:

— Meu major, na Guiné há duas coisas que matam oficiais: o ar condicionado… e o inimigo. O segundo ao menos é honesto.

Claro que o aparelho voltou a ficar desligado e a reunião continuou com os oficiais a suar em bica.

(ii) O mapa colado à mesa

Outra que corria no estado-maior: num briefing, em dia particularmente de calor de estufa, o suor de um capitão começou literalmente a pingar sobre o mapa operacional.

Spínola observou a cena e comentou:

— Capitão, não molhe o mapa… que depois a guerra escorre.

O capitão respondeu:

— Meu general, isto não é água… é a estratégia a evaporar-se.

A sala rebentou a rir.

(iii) A toalha no pescoço

Há quem conte que num outro briefing em pleno mês de maio um oficial apareceu com uma pequena toalha branca ao pescoço.

Spínola perguntou:

— Isso é parte do novo uniforme?

Resposta:

— Não, meu general… é equipamento de sobrevivência.

(iv) A vingança da Força Aérea

Entre pilotos da Força Aérea havia outra pequena maldade humorística.

Dizia-se que,  quando Spínola visitava uma unidade no mato, e depois regressava ao QG, os pilotos comentavam:

— O nosso general não gosta de ar condicionado… por isso voamos sempre com as portas abertas.

E outro respondia:

— Assim ele tem ar natural.

(v) A frase mais repetida

A frase que muitos veteranos dizem ter ouvido (ou ouvido contar) em reuniões longas no QG era:

— Senhores, se têm calor é porque estão vivos. Os mortos não transpiram.

(Pesquisa: LG + IA (ChatGTP / OpenAI, Le Chat /Mistral AI) | Condensação,  interodução, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Nota do editor LG:

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