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domingo, 21 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças

 









Recortes de imprensa, "Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975, 2ª ed., pp. 1 e 20.

Fonte: Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso |  Pasta: 06822.172.27196 | Título: Diário de Lisboa | Número: 18752 | Ano: 55 | Data: Quarta, 30 de Abril de 1975 | Directores: Director: António Ruella Ramos; Director Adjunto: José Cardoso Pires | Edição: 2ª edição | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: Imprensa  




Vietname > Saigão> 29 de abril de 1975 > Um membro da CIA ajuda um grupo de evacuados civis,  a subir uma escada para um helicóptero da Força Aérea Norte-Amerivcana, no telhado do número 22 da rua Gia Long, pouco antes da queda iminente de  Saigão às  mãos das tropas norte-vietnamitas.  Foto histórica do fotojornalista neerlandês Hubert van Es (1941-2009). Imagem do domínio público. Cortesia de Wikimedia Commons.



1. Há 51  anos a agência Reuters e o Diário de Lisboa, de 30/4/1975, noticiavam o fim da guerra do Vietname (*).  Uma guerra que se arrastou por  3 décadas, e que foi um pesadelo para todos, como todas as guerras: os vietnamitas e os outros p0vos da Indochina (Laos e Camboja), os franceses, os americanos e outros aliados... (e demais povos e todo o mundo, já que não foi  uma mera guerra colonial nem regional, desenrolou-se em pleno clima de "guerra fria").

A guerra do Vietname envolveu diretamente mais de 10 países. O conflito militar abrangeu três palcos principais (Vietname, Laos e Camboja) e foi também um confronto entre dois blocos ("capitalista" e "comunista"). Os EUA começaram a mandar tropas para o Vietname a partir de 1965, atingindo um pico de 543 mil  em abril de 1969.
 
Foi também uma guerra que esteve no nosso "imaginário"... Mais do que isso: também sobrou para nós... Os mísseis terra-ar Strela, por exemplo, já tinham sido testados no Vietname... bem como a passagem da guerrilha à guerra convencional (no caso, por exemplo,  da Guerra dos 3 G: Guidaje, Guileje, Gadamael)...

E havia até quem, mal ou bem, na nossa geração, comparasse a guerra da Guiné com a do Vietname... É evidente que foram duas realidades incomparáveis: pelos meios bélicos empregues, em homens e armas, pela extensão do território, pela violência, pelo nº de baixas, pelas implicações geopolíticas a nível mundial,  etc.; as nossas guerras foram de "baixa intensidade". 

Estima-se que em 1967 as forças do Vietname, Vietcongs e  seus aliados fossem da ordem dos 860 mil, enquanto que do lado do Vietname do Sul, EUA e demais aliados rondassem os 1,4 milhões (em 1968). 

O número de mortos (civis e militares), apenas vietnamitas, são difíceis de calcular, estimando-se entre menos de 1 milhão, e 3 milhões. Do lado das forças dos EUA,  as baixas seriam as seguintes: c. 58,2 mil mortos; mais de 150 mil feridos graves (evacuados); 1626 desaparecidos (ainda em 1975) (Fonte: Wikipedia). 


Luís Gonçalves Vaz 

2.  
A retirada portuguesa da Guiné-Bissau em 15 de outubro de 1974 e a evacuação americana de Saigão em 29/30 de abril de abril de 1975 podem ser apresentadas como dois exemplos, diferentes, se não mesmo opostos, do fim de uma guerra prolongada e de uma presença militar "além-mar". 

Ao analisamos, porém os detalhes, constatamos que s diferenças são tão importantes quanto as semelhanças.

O texto do Luís Gonçalves Vaz (**) descreve a retirada portuguesa como uma operação cuidadosamente planeada, e melhor executada, baseada na Ordem de Operações n.º 1/74, na sequência do acordo político entre Portugal e o PAIGC. 

Cerca de 2.500 militares metropolitanos (os últimos de um exército que totalizava dez vezes mais, sem contar com cerca de 15 mil homens em armas, do recrutamento local, incluindo milicias), f oram retirados por via marítima, sob forte coordenação naval, mantendo-se dispositivos de segurança até ao último momento.

 E tudo aconteceu com dignidade, segurança, ordem, disciplina, com respeito, até essa data, no que foi assinado nos acordos de paz entre as NT e o PAIGG. ( O que se passou depois é outra história, a "caça" aos "cães dos colonialistas"...)

O que têm em comum as duas retiradas, separadas no tempo apenas por seis meses? Os portugueses estavam a 4 mil km de casa, os norte-americanos a 13 mil (***).

(i)  O fim de uma guerra sem vitória militar clara

Em ambos os casos, os exércitos retiravam-se sem terem sido derrotados numa batalha decisiva nos dias finais.

  • Portugal abandonava a Guiné após o 25 de Abril e o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, em 10 de setembro de 1974, aceitando retirada as últimas tropas até 15 de outubro de 1974;
  • Os EUA abandonavam o Vietname do Sul após anos de guerra (1965/73)  e depois dos Acordos de Paris de 1973.

Em ambos os casos, a decisão foi sobretudo política.

(ii) Forte componente logística

Tanto em Bissau como em Saigão, o desafio principal foi retirar pessoal, equipamento e documentação.

No caso português, o texto do Luís Gonçalves Vaz destaca o papel dos navios T/T  Uíge e Niassa e da fragata NRP Comandante Roberto Ivens como núcleo da operação.

Em Saigão, os americanos recorreram a uma gigantesca ponte aérea por helicópteros a partir da embaixada e de navios da 7.ª Frota; foram evacuados 6500 militares e civis.

(iii) O simbolismo das imagens

As imagens do arriar da bandeira portuguesa em Bissau e das multidões junto à embaixada americana em Saigão tornaram-se símbolos do fim de uma época. 

As diferenças fundamentais;

  • A retirada portuguesa foi negociada; a de Saigão foi uma evacuação de emergência

Esta é provavelmente a maior diferença. Na Guiné, existia o Acordo de Argel (26 de agosto de 1974); o PAIGC cooperou na transição; a retirada foi planeada com datas, meios e responsabilidades relativamente bem definidas definidas.

Em Saigão, o exército norte-vietnamita e o "vietcong" avançavam rapidamente; a capital estava prestes a cair; a  evacuação foi feita sob enorme pressão temporal.

  • Não houve colapso militar português

O texto da autoria do Luís Gonçalves Vaz ( que tinha 14 anos em 1974, quando deixou Bissau, antes do pai ),  insiste numa ideia importante: "o sucesso consistiu precisamente em não haver combate porque as forças portuguesas mantiveram capacidade de combate até ao último momento". Ou seja, as NT não depuseram as armas.

Em Saigão aconteceu o contrário: o exército sul-vietnamita desintegrou-se em muitas zonas; houve pânico entre civis e militares; a evacuação tornou-se caótica.

  • O ambiente psicológico foi diferente

Em Bissau, foi mantida a disciplina militar (de um lado e do outro); a cadeia de comando manteve-se intacta; foi feita a transferência formal de soberania; não houve praticamente civis a evacuar.

Em Saigão, pelo contrário, houve pânico generalizado, milhares de pessoas (mais próximas no núcleo duro do regime do Vietname do Sul e dos seus aliados) tentavam embarcar nos helicópteros; verificou-se o colapso administrativo do Estado sul-vietnamita.

As famosas imagens dos helicópteros sobre os telhados  (vd,. foto acxima) refletem isso.

Onde é que a comparação é válida? Historicamente, pode dizer-se que ambos os acontecimentos representam o  fim de projetos coloniais ou de influência geopolítica; a aceitação de que a solução militar deixara de ser sustentável; mas também momentos de enorme impacto psicológico para as respetivas sociedades.

Para muitos militares portugueses que serviram na Guiné, Angola ou Moçambique, o 15 outubro de 1974, em Bissau,  terá  tido um peso emocional semelhante ao que  o 29/30 de abril de 1975 teve para muitos veteranos  americanos do Vietname.

Onde é que as duas retiradas não são comparáveis ? Se estivermos a falar da execução militar da retirada, a comparação torna-se mais fraca.

Segundo os elementos do documento que partilhámos no blogue (**), a retirada da Guiné aproxima-se mais de uma extração militar organizada e negociada enfim, uma retirada planeada sob paz armada; enquanto que,  no caso de Saigão  (29/30 de abril de 1975),  foi uma evacuação de emergência perante o colapso de um regime aliado dos EUA  (o Vietname do Sul).

~
Manuel Beleza Ferraz 
É precisamente essa diferença que torna a operação portuguesa relativamente pouco conhecida a nível tanto interno como externo: não teve visibilidade mediática, nem no nosso "Diário de Lisboa", que eu lia todos os dias, era o meu jornal... 

E até terá passado despercebida da maior parte dos antigos combatentes portugueses..... De facto, não houve imagens de pânico, não houve combates finais (nem sequer escaramuças), nem multidões a tentar fugir. 

De resto, os portugueses em Portugal (mas também em Angola e Moçambique, as duas verdadeiras "joias da Coroa"),   seis meses depois do 25 de Abril, tinham mais do que se preocupar  do que com o fim da "guerra da Guiné"... 

De qualquer modo, do ponto de vista militar, o que fica para a história é que o planeamento logístico cumpriu o seu objetivo, como diz o nosso Luís Gonçalves Vaz (**). Os 2500 militares, os últimos soldados do império no território da Guiné (a partir de então Guiné -Bissau), 
puderam finalmente chegar a casa. Incluindo o primo  marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz,   da guarnição da LFG Lira, felizmente ainda vivo, e autor de algumas das fotos que o Luís Gonçalves Vaz aqui publicou