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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P29132: Blogoterapia (316): Fim de tarde em Mato Cão (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)

Joaquim Mexia Alves
Ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492 / BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas;
CMDT do Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Undunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73


Guiné > Região Leste > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > Pel Caç Nat 52 > 1973 > O destacamento do Mato Cão, no tempo em que o Pel Caç Nat 52 era comandado pelo Alf Mil Joaquim Mexia Alves (1972/73).


FIM DE TARDE EM MATO CÃO

O calor quase te sufoca.
O suor escorre-te pela cara, pelos braços, fruto de uma humidade insuportável.
Sentes-te dentro de uma estufa, só que esta é aberta a um horizonte sem fim, à visão de uma bolanha que ondeia ao sabor do vento.

E, no entanto, é já fim de tarde.
O sol vai-se escondendo por detrás de uma mata cheia de segredos e a sua luz avermelha ainda mais a terra vermelha que cobre todo o espaço onde estás sentado, num cadeirão de palha.

As fogueiras à entrada das tabancas vão-se acendendo, e os cheiros quentes do óleo de dendê da comida dos militares guineenses, vão-te enchendo de saudades de um bom refogado em azeite da tua terra.

Olhas mais ao longe, para além do pequeno planalto onde agora permaneces, e sentes, apesar de tudo, um bem-estar inexplicável, talvez fruto daqueles que ao teu lado vão contando histórias, que não ouves, mas sentes.

Por uma qualquer razão, que nem sequer te dás ao trabalho de discernir, a guerra está parada no teu pensamento, e agora apenas pretendes viver e desfrutar do pouco que tens, ali naquele sítio esquecido de todos, e basta-te uma cerveja fresca de uma velha arca a petróleo, para te sentires bem melhor do que muitos que por aquele território de África penam.

Vêm-te ao pensamento imagens de casa lá longe, a milhares de quilómetros, mas afasta-las de imediato, para fazeres um sorriso e um aceno de cabeça a algo que te perguntaram, mas tu nem sequer ouviste, envolvido que estás naquele momento de paz inexplicável.

A noite cai, e sabes que rapidamente vais ficar na escuridão, porque ali, naquele “buraco” como lhe chamam os teus camaradas de armas, não há gerador, não há luz, não há nada, afinal.

Acendem-se uns petromax, (mais ou menos escondidos para não chamarem a atenção do escuro da mata), e também uns candeeiros improvisados, feitos de garrafas de cerveja vazias, com um qualquer óleo e um pavio, que vai ardendo sem se queimar.

Também tu vais ardendo de saudades, mas com a tua maneira de ser, não te importas, porque neste momento nada podes fazer para matar tais saudades.

Olhas um pouco mais à frente de onde estás sentado e ris-te ao ver um buraco no chão que deveria ser um poço de água, fruto de uma mente de militar “superior” que se lembrou de mandar fazer um poço no cimo de um tão pequeno planalto.

Ouves a voz do Geba que, no sopé do planalto, vai correndo para o mar.
Se fosse tempo de macaréu a voz do Geba seria bem mais ruidosa.

O dia chegou ao fim e são horas de te enfiares no abrigo onde tens cama, envolvida num mosquiteiro, (que naquela terra os mosquitos são aviões de combate), e deitas-te empapado em suor, para dormires mais uma noite com um olho aberto.

Amanhã será um novo dia, ou melhor, será menos um dia na contagem de regresso a casa.

Que Deus nos proteja e nos faça regressar a bom porto.

Marinha Grande, 25 de Junho de 2026
Joaquim Mexia Alves

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Nota do editor

Último post da série de 20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27653: Blogoterapia (315): A Saudade (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)

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