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sábado, 27 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28136: Os nossos seres, saberes e lazeres (738): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (259): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 4 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Os dias passam e ganha mais entusiasmo ir descobrindo tão diversificado património da história deste povo, seguramente com raízes indo-europeias e uma língua autónoma, por aqui andaram gregos, tribos ilírias que Alexandre o Grande desbaratou, o Império Romano, os bizantinos do Império Romano, o rei Carlos de Anjou, turcos otomanos (e por muitos séculos) a poderosa Veneza, e depois a Albânia independente em 1912, o rei Zog I em 1928, a conquista italiana, a presença germânica do III Reich, depois da ditadura de Enver Hoxha até 1991, a partir daí um país que aderiu à NATO, que anseiam fazer parte da União Europeia, que se moderniza, com três religiões dominantes (o Islão, os ortodoxos e os católicos) vive numa atmosfera de franca tolerância; apercebemo-nos que as manifestações de modernidade são mais evidentes na arquitetura; a Albânia tem lagos magníficos, como Ohrid, onde desfrutamos o panorama das montanhas da Macedónia do Norte; e não deixa de surpreender a omnipresença escultórica do realismo socialista.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (259):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 4


Mário Beja Santos


Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, nova viagem em furgão até Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, vão ver; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade, temos depois a última viagem até ao sul, já no mar Jónico, em Sarandë, visita ao Lago Butrint e o sítio arqueológico respetivo, também e justificadamente Património da Humanidade. Vamos por partes, desembarquei em Pogradec, vou caminhar até ao Lago Ohrid.
A libertação da Albânia deu-se em finais de 1944, os guerrilheiros, que fizeram frente aos italianos e aos alemães, em um compósito ideológico, os comunistas prevaleceram, era, aliás, uma estratégia montada em Moscovo, anos depois a Península Balcânica torcerá pelo comunismo, com exceção da Grécia, será confrontada com uma sangrenta guerra civil, o comunismo neutralizado. Em todas as localidades visitadas guarda-se memória dessas lutas de libertação, o traço escultórico dominante é o do realismo socialista, sobressai a tipologia do herói, individual ou coletivo, encontrarei manifestações artísticas semelhantes desde a RDA à Bulgária. O sistema democrático saído das eleições de 1992 preservou todo este património que está associado à identidade albanesa.
Não posso esconder que este panorama provoca êxtase, há para ali uma ilusão ótica dada pela linha do horizonte, na cumeada da cordilheira permanecem as neves, é território da Macedónia do norte, o lago Ohrid é transfronteiriço, tem uma política ambiental por isso transnacional. Saí do furgão e caminhei pelas ruas de Pogradec, lugar nitidamente pouco desenvolvido, muita gente entre a modéstia e a pobreza, equipamentos muito antigos e grande parte do parque habitacional envelhecido ou descurado. A região é manifestamente aprazível, dou como certo e seguro de que dentro em breve o turismo fará aqui das suas.
Para chegar ao Lago Ohrid houve que passar por um bonito parque, inevitavelmente com esculturas, temos aqui mais um herói da libertação e uma mulher em costume tradicional albanês, no fundo o lago Ohrid, e não faltam neves na cumeada.
De Pogradec seguimos para Korçë, das obras consultadas vinha a recomendação de visitar com tempo a área do antigo Baza, um conjunto de ruas cheias de comércio, era o 1.º de maio, apanhei tudo praticamente fechado, temos aqui um equipamento urbano manifestamente singular, verei no dia seguinte que há as inevitáveis lojas chinesas e indianas, todas as reminiscências turcas e a comida internacional, dando-se primazia à cozinha italiana.
Passeando pelas ruas de Korçë deparei-me com esta belíssima cerejeira ornamental, houve logo uma pronta associação com as cerejeiras ornamentais da Avenue du Geai, num bairro de Bruxelas onde passei férias, houve saborosa lembrança, pois recordei amigos que já partiram.
Impressionou-me a linha arquitetónica, é um nítido hibridismo de património ocidental e oriental, por razões por demais compreensíveis.
Quem havia de dizer? No jardim do Consulado da Grécia em Korçë temos o busto de Jorgos Seferis (1900-1971), foi o Prémio Nobel da Literatura em 1963, cônsul em Korçë de 1936 a 1937.
Já aqui se referiu que o regime liderado por Enver Hoxha decretou que a Albânia era um país ateu, isto em 1967, os templos religiosos foram destruídos ou reciclados, encontrei uma mesquita que se transformou em ginásio e uma igreja ortodoxa que albergou grupos de artes performativas. Esta é a igreja ortodoxa de Korçë, obra recente, a meio da avenida há a memória do local onde existiu a primitiva igreja mandada destruir para naquele espaço dar lugar a uma biblioteca.
Não resisti a fotografar este teatro, uma bela e sugestiva fachada, naquela noite, segundo o cartaz à esquerda havia um recital de canto e piano, ainda estive tentado, mas o corpinho pedia cama, amanhã temos novo furgão e novo destino.
Ocorreu-me falar das controversas campanhas de Oliviero Toscani para a Benetton, deram brado por mostrar seres humanos a morrer com SIDA, trânsfugas das guerras do norte de África, a relação que tenha o homem qualquer cor, o coração tem sempre a mesma composição, e naquele ano de 1992 mostraram-se albaneses em fuga, fugiam da operação, era a liberdade de procurar futuro noutras paragens, era como se a Benetton aprovasse a solidariedade do acolhimento.

(continua)

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Nota do editor

Últio post da série de 20 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28117: Os nossos seres, saberes e lazeres (737): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (258): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 3 (Mário Beja Santos)

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