
Foto nº 1, 1A e 1B
Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Bijante > Sábado > 1 de agosto de 2026 > A baloba local, o sítio mais seguro da tabanca.
Fotos (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]
1. Patrício Ribeiro, o nosso "embaixador em Bissau", empresário (Impar Lda), que chegou a Bubaque, em trabalho, no dia 10 do mês passado, mandou-nos mais fotos de Bijante, incluindo a baloba local...
Assunto - Baloba de Bijante, Bubaque, Bijagós
As pinturas na baloba de Bijante, local sagrado, onde guardámos os nossos equipamentos, onde ninguém vai mexer.
Impar Lda
Guiné > Zona leste > Região de Bafatá >Setor L1 > Bambadinca > Destacamento de Nhabijões > 1970 > O furriel miliciano Henriques, da CCAÇ 12 (Luís Graça, fundador e editor deste blogue) junto a uma baloba, um dos locais de culto dos irãs (espíritos da floresta).
A população era maioritariamente balanta, animista. Mas também havia um núcleo Mandinga. Era conhecida a sua colaboração com o PAIGG, sobretudo com as populações e os guerrilheiros de Madina/Belel, no limite do Cuor, a noroeste de Missirá, mas também com os do subsetor do Xime. "Tinham parentes no mato", dizia-ser então.
No seu diário de então, o furriel Henriques usava um termo demasiado forte (e manifestamente desajustado...), "etnocídio", para qualificar a construção deste reordenamento, a que chamava "aldeia estratégica".
Foto (e legenda): © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
2. Comentário do editor LG:
Patrício, a tua sensibilidade sociocultural vale ouro. Não és turista, nem antropológo, és empresário, andas no teu trabalho, a "cirandar" por toda a Guiné-Bissau, embora "reformado... a meio tempo"... E vai-nos, sem querer, e sem a gente te pedir nada (a não ser "partir mantenhas" ), mandando de vez em quando estas preciosas fotos, em geral acompanhadas de lacónicas legendas, da terra que tu amas e nós amamos, mesmo não conhecendo, como tu, todos os cantinhos.
É o caso destas, tiradas na tabanca de Bijante, Bubaque, Bijagós. Estas fotografias da balofa local são, para mim, um pequeno achado etnográfico. Não sou especialista em etnografia guineense. Sou sociólogo, e tive uma cadeira de antropologia, de um ano, com um grande professor e antropólogo, o Joaquim Pais de Brito. O "bichinho" da antropologia / etnologia ficou cá para sempre...
(i) o interesse documental, "etnográfico", destas tuas imagens:
(ii) o que é uma baloba
A palavra "baloba" (ou " baloba di irã") entrou no crioulo da Guiné (ainda no nosso tempo) a partir das línguas locais e designa, de forma geral, um santuário comunitário, a casa dos espíritos (os Irãs entre os Bijagós).
Nos Bijagós, a baloba está intimamente ligada ao culto dos antepassados e dos irãs, que podem assumir formas humanas, ou elementos da fauna e flora.
(iii) O que podemos ver fotografias do Patrício (fotos nºs 1 e 2):
Para já é curioso que a morança dos irãs esteja identificada pela palavra "baloba", escrita en português, em letras do alfabeto latino, a par de pinturas murais.
O edifício passa, pois, a ser mais facilmente identificado quer pelos turistas (que visitam Bubaque), quer pelos membros mais jovens, alfabetizados, da comunidade, que estão em rápida perda da sua identidade cultural (bijagó e guineense), com a "globalização".
Outro símbolo, as setas: convergem para a porta, podendo indicar tanto a entrada ritual como a direção obrigatória da circulação. Não sabemos se há uma porta de saída.
Acima da porta aparece um peixe enorme (em estilo naturalista). O que não é estranho. Estamos numa ilha, estamos em Bijagós, um arquipélago onde a população tem uma forte ligação ao mar e vive também do mar.
Mais intrigante é a figura do morcego. Não é um elemento decorativo. No animismo, nos sistemas religiosos africanos, o morcego aparece frequentemente associado à noite, aos espíritos, à passagem entre vivos e mortos.
Já a serpente, à esquerda do morcego, é um símbolo extremamente antigo e constante em quase toda a África Ocidental. Pode ser a Píton-africana ou píton-da-rocha-centro-africana ou Píton-norte-africana (Python sebae), também conhecida (e temida) como "irã-cego"... Mas não sei se este réptil existe no arquipélago dos Bijagós.
O grande lagarto, à direita da porta e da palavra "Koreti", pode ser um crocodilo estilizado. Não arrisco o seu significado.
Quanto às figuras humanas (no lado direito da parede, a seguir à porta): temos uma figyura antropomórfica (uma mulher ?), sentada o chão, em cima de uma esteira, com uma lança ou bastão, em postura cerimonial. Difícil descodificar este signo.
O músico (?), por sua vez, tem barrete, usa colares segura um instrumento (que pode ser uma espécie de cordofone tradicional) (?). Representa o músico ritual, o cantor cerimonial, a personagem das iniciações.
Os triângulos à volta da porta são, sem dúvida, o elemento mais claramente decorativo. Esses padrões geométricos são frequentes em várias casas rituais dos Bijagós. Podem simplesmente marcar o caráter sagrado do local, a transição entre exterior e interior.
Estas pinturas murais não contam uma história, como acontece nos nossos murais. Funcionam antes como marcadores identitários; proteção simbólica, representação de espíritos, memória ritual. Dizem muito simplesmente: "isto é uma baloba".
Cada figura poderá provavelmente ter um significado que só é conhecido pelos iniciados da aldeia, e que não é necessariamente explicado aos não-iniciados.
(iv) O grande especialista dos Bijagós foi o missionário e linguista italiano Luigi Scantamburlo.
Na sua obra sobre Bubaque refere que cada tabanca tem os seus irãs próprios; estes, por sua vez, tendem a ter formas animais; a baloba guarda objetos onde reside a força espiritual; certas esculturas representam a alma dos antepassados ("orebok").
Ainda em relação às pinturas: parecem ter sido feitas por várias mãos, em épocas diferentes. O traço do morcego, por exemplo, é muito diferente do do músico (?). Também as cores são diferentes.
(v) a força securitária do sagrado
"Essa frase vale quase uma lição de antropologia. Num país onde a autoridade do Estado pode ser frágil em muitas regiões, a autoridade do sagrado continua eficaz. Não é a fechadura da porta que protege os painéis solares ou as ferramentas da Impar; é o respeito coletivo pela baloba. Esse respeito, construído ao longo de gerações, continua a regular comportamentos de forma muito concreta".
Saia bijagó: a figura enverga a típica saia bijagó...
Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cantanhez > Iemberém > 6 de Dezembro de 2009 > 10h26> "Festa de baptizado muçulmano"... Rapando a cabeça da criança, com uma gilete...A mãe tem um olhar "inexpressivo", indiferente à presença do fotógrafo (**)-.
Fotos: © João Graça (2009). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]
O meu filho João Graça fotografou, em Iemberém, 6 de dezembro de 2009, um ritual (a que ele chamou, talvez indevidamente, "batizado muçulmano") em que uma parturiente usava precisamente uma meia cabaça semelhante (mas lisa); isso pode constituir uma pista iconográfica muito valiosa, mesmo que o ritual fosse fula.
É verdade que Fulas e Bijagós pertencem a universos culturais bastante diferentes, mas certos objectos rituais circulam há séculos entre povos vizinhos. Aliás, a própria cabaça é um objecto transversal a quase toda a Senegâmbia.
Vamos avançar então com uma outra hipótese etnográfica: em muitas sociedades da África Ocidental, incluindo os Bijagós, a fertilidade da mulher, a fecundidade da terra e a prosperidade da comunidade pertencem ao mesmo domínio simbólico.
Não seria surpreendente que uma parturiente fosse considerada uma imagem suficientemente poderosa para figurar na parede de uma baloba. Aliás, a posição das pernas abertas é um motivo conhecido em esculturas de maternidade africanas. Não é uma cena obstétrica realista; é antes um símbolo da capacidade de dar vida.
À cautela, poderíamos descrever a primeira figura nestes termos: figura antropomórfica de interpretação incerta, mas mais do que provavelmente feminina, podendo representar uma parturiente, uma antepassada ligada à fertilidade ou uma entidade protectora da maternidade.
A segunda figura, pelo contrário, é seguramente masculina. usa um chapéu com cocar, um adorno de penas (símbolo de elevado estatuto) (embora o cocar seja de origem indígena ameriucan). Parece segurarum grande animal sacrificado (ou uma pele) (e não um instrumento de música); ao lado vê-se um tridente ou lança ritual; transmite uma imagem de sacerdote, adivinho ou responsável pelos sacrifícios.
As duas pinturas podem representar momentos complementares do mesmo universo ritual: a mulher (ou antepassada) ligada ao nascimento, fertilidade e continuidade da linhagem; o homem, sacerdote ou guardião que assegura a comunicação, a ligação, com os espíritos.
(Pesquisa: LG + IA | Chat GPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)
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Notas do editor LG
(*) Último poste da série > 30 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28228: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (72): A jaca, espécie invasora tropical, que já chegou a Bijante, Bubaque, Bijagós
(**) Vde. poste de 28 de janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7686: Notas fotocaligráficas de uma viagem de férias à Guiné-Bissau (João Graça, jovem médico e músico) (2): 6/12/2009, domingo, 1ª consulta, um baptizo muçulmano, um casório católico, uma visita a uma fábrica de caju... 7/12/2009, 2ª feira: 1º dia de consultas. 42 doentes à porta do C.S. Materno-Infantil de Iemberém









