sábado, 10 de novembro de 2007

Guiné 63/74 - P2254: Estórias avulsas (10): 8 de Dezembro de 1968 - Dia da Mãe (Albino Silva)

Albino Silva,
ex-Soldado Maqueiro,
CCS/BCAÇ 2845
(Teixeira Pinto,
Jolmete,
Olossato,
Bissorã,
1968/70)


Estórias avulsas (10) > 8 de Dezembro de 1968. Dia muito especial, pois era o Dia da Mãe

por Albino Silva (1)


Como sempre, os dias começavam bem cedo para o pessoal do Serviço de Saúde, com a assistência aos doentes internados que tinham que tomar medicamentos em horas diferentes conforme os casos.

Era o dia 8 de Dezembro, Dia da Mãe que começou bem lindo sem cacimbo e com um sol brilhante que nos fez andar por baixo dos mangueiros, procurando sombra devido ao calor que se fazia sentir.

Foto 1> Teixeira Pinto> Fortim no Centro da Vila

Sem consultas e sem serviços nesse dia, decidi sair para o exterior do Quartel, Vila de Teixeira Pinto, mas dessa vez fui só.

Na rua encontrei-me com gente conhecida, quer militares quer civis.

Ao meio-dia fui almoçar à Tabanca do Viriato, restaurante de um amigo libanês, sito na Avenida, bem junto da Igreja, onde também fiz uma visita, já que era o Dia da Mãe.


Foto 2> Teixeira Pinto> Largo no Centro da Vila

Depois de almoçar e conversar com aquele amigo, saí passeando pela avenida até ao Fortim na Rotunda e entrei em algumas casas comerciais. No Caravela da Saudade bebi umas bazucas para refrescar e matar a sede, pois o churrasco que tinha comido estava bastante picante, o piri-piri da Guiné não era para brincadeiras.

Com o tempo a passar e antes que se fizesse noite, dei uma volta pela tabanca, pois tinha uma mezinha para levar à lavadeira que tinha o seu filho doente e, como me tinha arranjado bom marisco (camarão e ostras), eu senti-me na obrigação de a ajudar, só isso.


Foto 3> Teixeira Pinto> Avenida


Estava gostando do dia que estava a passar, até porque conversei bastante com os civis e colhi assim ideias diferentes das que imaginava daquele povo.
Entretanto encontrei camaradas que também passeavam pela avenida e devido ao calor que fazia, retardamos a ida para o Quartel e fomos todos beber mais umas bazucas.

Eram já 21h30 quando decidi ir embora, porque às 22h00 tinha que dar medicação a alguns dos internados.

Assim, quando entrei na avenida que me levava ao Quartel e já depois de ter passado o Fortim, no Centro de Teixeira Pinto, surge um grande tiroteio que me fez correr de árvore em árvore em direcção ao aquartelamento, eram já 21h45.

Um pequeno grupo IN, armado de LGF e armas automáticas ligeiras, assaltou e saqueou uma casa comercial, a mesma onde eu tinha estado, a Caravela da Saudade, causando 3 mortos e 4 feridos na população.
As NT que guarneciam o Fortim na Rotunda, reagiram à acção do IN, que ripostou, causando um ferido ligeiro à nossa tropa, que eu próprio viria a socorrer já na Enfermaria.

Era o Dia da Mãe e a minha segunda saída do Quartel em passeio, mas outra vez marcada, desta feita com este caso. Tive sorte pois o IN andou por onde eu tinha já andado ou até estaria junto de mim, quando bebi aquelas cervejas durante a tarde.

Foi caso para eu dizer : - Obrigado Mãe por me teres ajudado.

Albino Silva >

Fotos e texto: © Albino Silva (2007). Direitos reservados.

________________

Nota do co-editor Carl.os Vinhal:

(1) Vd. post anterior de 3 de Novembro de 2007> Guiné 63/74 - P2236: Estórias avulsas (9): Um soldado que não queria sair do quartel (Albino Silva)

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Guiné 63/74 - P2253: Agenda Cultural (1): Exposição fotográfica de Américo Estanqueiro, na Fundação Mário Soares (Fernando Barata)

Guiné > Rio Geba > 1970 > Soldados, G3, malas, tudo a monte, como era de uso. A viagem da CCAÇ 2700 de Bissau para o Xime, ao longo do rio Geba, pelas 6 da manhã do dia 5 de Maio de 1970. A LDG é a célebre Montante que participou na Operação Mar Verde, invasão de Conacri, a 22 de Novembro de 1970, sob o comando de Alpoim Galvão). Depois seguir-se-ia a viagem, por terra, em camiões, militares e civis, rumo a Dulombi.

Esta foto é um bom aperitivo para a exposição de 12 Novembro. Está de parabéns o Américo Estanqueiro.

Legenda do Fernando Barata.


1. Mensagem de Fernando Barata (ex-Alf Mil da CCAÇ 2700, Dulombi, 1970/72) a alertar-nos para o acontecimento.

Caríssimos Luís, Vinhal e Briote:

Imaginam o que me vai na alma. No próximo dia 12 de Novembro, pelas 18h30, é inaugurada na Sala de Exposições da Fundação Mário Soares , à Rua de S. Bento, 170, em Lisboa, uma exposição fotográfica sob o título Memórias da Guerra Colonial: CCAÇ 2700, da autoria de Américo Estanqueiro (ex-furriel da nossa Companhia).

Atendendo à proximidade da data pedia-vos a divulgação do evento o mais rápido possível. A ti, Luís, bem como ao Briote, como estão em Lisboa, "exijo" a vossa presença.

Aquele abraço do
Fernando Barata.


2. Comentário adicional do F.B.:

Só agora nos foi comunicado que a Exposição decorrerá até 31 de Dezembro de 2007. Por favor adiciona este elemento à divulgação (fornecido pelo Dr. Caldeira, marido da Diana Andringa).

As fotos incidem fundamentalmente sobre a ambiência dulombiana e em particular retratam momentos e homens da CCAÇ 2700 (1).



A Exposição é do Américo Estanqueiro, ex-furriel da nossa Companhia, pertencente ao 4.º Pelotão

(1). Era de tal maneira amante da fotografia que comprou um gerador a expensas suas para poder revelar os negativos. Só a meio da comissão nós fomos bafejados com um gerador que trabalhava entre as 7 da noite e as 5 da manhã.

Como deves imaginar, os que viviam no abrigo dele eram uns senhores. Por não termos energia eléctrica, recordo-me que os frigoríficos trabalhavam a petróleo o que cientificamente era para mim um mistério.

Obrigado pela vosso envolvimento na divulgação do evento.
F. Barata


3. Do catálogo da exposição:

Ao evocar aqui a memória da guerra colonial – a memória concreta que esta exposição apresenta – estamos a “revisitar” esses tempos e, segundo espero, a retirar as lições de tais acontecimentos e dos sofrimentos que a guerra provocou em todos nós. Mas também a olhar para o futuro de amizade e cooperação que hoje nos aproxima tanto desses povos irmãos, agora independentes. Daí, também, os esforços que a Fundação Mário Soares tem desenvolvido na preservação e divulgação da Memória histórica de Portugal e dos países da CPLP, com a certeza de que o que nos une é um instrumento essencial do progresso dos nossos países.


4. Comentário co-editor vb:

Lá nos encontraremos, Caro Fernando.

A CCAÇ 2700 está de parabéns. Pela sensibilidade do Américo Estanqueiro em caçar os estados de alma dos nossos soldados e pela tua habilidade e memória em as ilustrar.
__________

Nota de vb:

(1) Vd. posts de:

22 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1541: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (1): Introdução: a 'nossa Guiné'

26 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1550: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (2): A nossa gente

15 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1595: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (3): minas, tornados, emboscadas, flagelações e acção... psicossocial

11 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1651: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (4): Historietas

30 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1796: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (5): A(s) alegria(s) do(s) reencontro(s)

Guiné 63/74 - P2252: Antropologia (1): A guerrilha invisível ou o Poder da Invisibilidade (Virgínio Briote / Wilson Trajano Filho)

1. Texto de Virgínio Briote, co-editor:


- Corta as pontas das balas com o esmeril ou com um alicate e vais ver se os turras não caem como tordos…
- Mas eu acertei-lhe, o gajo até se dobrou! E não caiu!

Quem de nós não ouviu conversas destas, contadas por gente tão diferente, ao longo de anos e anos até se perfazerem 12 de guerra?

Tal como entre nós, histórias simples passaram a ser contadas e arredondadas pelos que se seguiram, sempre e sempre acrescentadas em mais um e mais um ponto, até se tornarem autênticas lendas, e de que alguns dos nossos foram protagonistas, também os nossos Inimigos de então as cultivavam, e tal como as nossas façanhas passaram a lendas com sabor africano.

Quem não se lembra da anedota do Vexa e Sexa, aquela do Informo Vexa que sigo na mecha. Quando a ouvi pela primeira vez, aí por meados de 65, no Bento (aonde havia de ser...), essa história ter-se-à passado com um então Cap Rosas da CCAÇ 762 (que me perdoem o Cmdt da CCaç 762 e o Cap Rosas se o caso não se lhes aplica), um episódio, aliás, com mais uns acrescentos que, sendo hilariantes, para o caso nada acrescentam.

E tantas vezes deve ter sido contada que passou a lenda. Uns anos depois, à mesa de um café, ouvi-a da boca de um capitão miliciano (daqueles que já eram uns senhores, que a tropa, à falta de quadros profissionais, arrebanhava à má-fila), em que o dito capitão se vangloriava de ser o autor dessa mensagem.

(…) ouvi muitas vezes estórias que versavam sobre os poderes especiais que tinham certos líderes nacionalistas e combatentes na luta pela libertação nacional. Dentre esses poderes, o que mais chamou a minha atenção foi a capacidade que os heróis da pátria tinham de ficar invisíveis em situações de contato armado com as forças portuguesas. (…)

2. Wilson Trajano Filho, antropólogo brasileiro, fala da Guiné, dos tempos que lá passou entre 1987/88 e em 1992. Publicou em 1994, na Série Antropologia, um trabalho sobre O poder da invisibilidade.

O autor fala das estórias que se ouviam sobre a capacidade de certos guerrilheiros ficarem invisíveis aos olhos das nossas tropas. De lendas que corriam entre a sociedade crioula durante a luta pela independência e que perduraram até hoje.

(…) No entanto, passados vinte anos da independência do país, essas histórias continuam a circular em Bissau e em outras cidades da Guiné, indicando que elas permanecem portadoras de significação para aqueles que as contam e as ouvem. (…)

É uma obra sobre um assunto, algo enigmático, tal como a Guiné o foi para muitos de nós, jovens de vinte e poucos. Permanecemos cerca de dois anos num território, muitas vezes sem nos apercebermos de que as gentes com quem convivíamos tinham usos e costumes, acumulados em séculos de migrações, com culturas que nós, europeus, de tão estranhas, não queríamos saber nem tão pouco dar conta.

O Autor justifica o porquê do seu interesse pelo assunto da invisibilidade, cultivado pelas gentes africanas:

(…) A motivação para este trabalho surgiu a partir de uma conversa informal que teve lugar na madrugada de 31 de Maio de 1988. Eu estava hospedado em uma grande casa construída no centro de Bissau, ainda na época colonial. O proprietário da residência me instalara em um barracão no fundo do terreno, de modo que pudesse organizar minhas actividades sem atrapalhar a rotina da casa.

Mamadi trabalhava para meu anfitrião como vigia nocturno. Como me via quase sempre de luz acesa, trabalhando até tarde, ele gostava de chegar à minha janela para uma pequena conversa e um cigarro. Ele tinha então 25 anos e havia nascido no interior, em uma tabanca perto de Bafatá. Veio para Bissau em 1969 acompanhando a mãe e seus irmãos, um pouco depois da morte do pai durante um bombardeio pela aviação portuguesa de uma tabanca onde estava de visita.

Naquele dia, conversamos sobre o tempo da guerra de libertação e sobre a morte de seu pai. (…)

Segundo ele, no tempo da guerra alguns comandantes da guerrilha se destacaram por terem habilidades especiais. Em situação de contato armado com as forças portuguesas, essas pessoas tornavam-se praticamente imortais.
As balas do inimigo disparadas contra eles não os alcançavam ou não perfuravam seus corpos. Outras vezes, as armas dos tugas simplesmente não disparavam.

Mas o maior de todos os poderes era a capacidade que esses guerrilheiros pela libertação da pátria tinham de ficar invisíveis. Mamadi nunca me deu muitos detalhes sobre a origem dessas habilidades. De modo vago, falou de alguns casos em que elas eram obtidas através da realização de cerimónias para os Iran (espíritos) de algumas etnias ou de algumas localidades.

Porém foi muito específico sobre as situações em que eram utilizados e sobre quem os utilizava. Os poderes místicos eram postos em acção em situações de combate contra os portugueses, no mato e, em geral, quando os nacionalistas estavam em franca inferioridade em armas e homens.(…)

Trajano Filho, em nota de rodapé na página 3, conta a história que um santomense lhe contou em 1991, a propósito do mesmo tema, passada com Amílcar Cabral em Cabo Verde.

(…) Segundo a história, o governador militar daquelas ilhas resolveu dar um baile. Na presença das autoridades militares portuguesas, em pleno salão de dança, surgiu de repente Cabral. Convidou a esposa do governador para dançar em meio à surpresa geral. Quando este se refez da surpresa, gritou pelos soldados, mas antes que estes chegassem Cabral desapareceu como havia aparecido. (…)
Foi muito falada até passar a lenda a história de Agostinho Sá, comandante do PAIGC, passada no Como (Komo).

(…) Após perder dois homens em uma escaramuça com as tropas portuguesas, o comandante Agostinho Sá organizou uma pequena coluna formada pelos melhores combatentes de seu grupo e tomou o rumo do acampamento português na ilha, que ficava instalado em uma clareira entre a praia e a floresta.

A coluna parou no limiar da mata, a cerca de quarenta metros do armazém onde estavam instalados os portugueses. Ali, o comandante planejou o ataque. De modo a poupar as vidas de seus companheiros, pois já haviam sofrido baixas na escaramuça anterior, ele decidiu agir sozinho.

Se houvesse mortes, que fosse somente a sua. Portanto, ordenou a seus homens que só disparassem depois de ouvirem algum barulho vindo do armazém. Então, de metralhadora presa às costas e com uma granada quase pronta para explodir em cada mão, Agostinho Sá se dirigiu para o armazém. O que se seguiu é narrado por Azevedo e Rodrigues (1) :
“De repente, para o espanto de todos, Agostinho se torna invisível. É verdade, todos juram. Caminha vagarosamente entre os soldados que estão deitados sobre o arroz…Os companheiros de Agostinho se amedrontam, os tugas olham várias vezes para onde ele está. E não reagem. Não esboçam nenhum movimento, não fazem uma única pergunta.
(…)

O certo é que Agostinho atravessa o pátio entre os soldados. Invisível para eles. Segue sem pressa, passos de cansaço tuga depois de horas de violência. Rosto sério, granadas apertadas nas mãos suadas. Decide: se for descoberto basta um gesto mínimo. E elas explodem.

Entra pela porta dos fundos. Dá passos indecisos na obscuridade repentina, os olhos adaptam-se ligeiros. Está numa peça transformada em alojamento pelos portugueses. Não precisa olhar para saber que há muitos deles…Alguns observam desinteressados, sem nenhuma reacção… (…)

Agostinho caminha até à porta que liga o alojamento improvisado ao bar do armazém. Se esticar o braço pode quase tocar nos tugas meio bêbados em redor do balcão, pesados de tanto álcool…

Em pé, na porta entre as duas peças. Morde o pino de segurança da primeira granada. Simultaneamente, num movimento enérgico de dedos, arranca o pino da que leva na mão direita. Atira as duas ao mesmo tempo. Elas rolam pelo chão do armazém, uma no bar, outra no alojamento.

O guerrilheiro vê – olhos assustados que cruzam com os seus, dando-se conta, confusamente, de que ocorre algo estranho. Alguma coisa que não estava prevista nos manuais militares nem nos planos traçados no quartel-general de Bissau. (…)

Não se lembra exactamente o que aconteceu. Se correu, se voou. Sabe que caiu entre os soldados que dormiam na rua. Os companheiros viram, as granadas explodiram dois segundos depois…” (1977: 100-101)

E continua, Wilson Trajano:

Ele correu em direção ao mato enquanto seus companheiros atiravam e arremessavam granadas contra os soldados que estavam do lado de fora do armazém.

Desesperados, os portugueses que ainda não haviam sido feridos fugiram em debandada rumo à praia, muitos deles caindo sob o pesado fogo guerrilheiro. A coluna só cessou fogo quando o ruído das turbinas dos jatos portugueses começou a se fazer ouvir mais forte do que o matraquear das armas automáticas.

Do lado português houve mais de dez mortos e sessenta feridos. Uma parede do armazém ruiu com a explosão; o telhado foi despedaçado e jogado ao longe. Muitos animais mortos. Do lado dos nacionalistas, nem uma perda, nem um ferido.

É com o espírito de desvendar o mistério do misteryu, de compreender o sentido mais radical das estórias de Mamadi e da narrativa de Azevedo e Rodrigues e de alcançar o significado da invisibilidade que passo à análise (2).
(...)
__________

Nota de vb:

(1) AZEVEDO, L. e RODRIGUES, M.P..1977 – Diário da Libertação (A Guiné-Bissau da Nova África). S. Paulo: Versus

Guiné 63/74 - P2251: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (8): Cartas que levam saudade(s) das terras e das gentes do Cuor


Guiné > Zona leste > Sector L1 > Regulado do Cuor > Missirá > Março de 1970 > Era pós-Beja Santos > Esquartejamento de uma peça de caça grossa (um antílope, segundo me parece) caçado na zona de acção do Pel Caç Nat 54 (que em Novembro de 1969 tinha vindo render o Pel Caç Nat 52, comandado pelo Alf Mil Beja Santos, e tranferido para Bambadinca). Na foto vê-se o comandante do Pel CaÇ Nat 54, o Alf Mil Alves Correia, referido no texto a seguir. Meses mais tarde, o Pel Caç Nat 54 será substituído pelo Pel Caç Nat 63, do Alf Mil Cabral. (LG).

Guiné > Zona leste > Sector L1 (Bambadinca)> Regulado do Cuor > Missirá > Março de 1970> Era pós-Beja Santos > O Humberto Reis, em reforço, com o 2º Gr Comb da CCAÇ 12 (Bambadinca), do destacamento de Missirá, posa para a fotografia com um troféu de caça a seus pés: na ocasião um antílope, apanhado pelos homens do Pel Caç Nat 54 ou algum caçador local. O destacamento de Missirá ficava a norte do Sector L1, já em terras de ninguém. A sul ficava o destacamento de mílicia e a tabanca em autodefesa de Finete, na margem direita do Rio Geba, frente a Bambadinca... No texto a seguir - parte das memórias de Beja Santos nas terras dos Soncó -, o autor começa a despedir-se (e a fazer o luto pela perda) destas míticas paragens e das suas gentes que o marcaram indelevelmente para toda a vida... Pode, em boa verdade, falar-se, a partir de meados de Outubro de 1969, de uma era pós-Beja Santos... (LG).

Fotos: © Humberto Reis (2006). Direitos reservados.


Texto enviado em 19 de Setembro último pelo Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70).


Luis, espero que estejas de boa saúde e a mergulhar no ano lectivo. Para a semana tenho que entregar o livro "Consumo, logo existo" e não sei como vai ser. Ainda por cima, para a semana vou escrever sobre a emboscada e a mina anti-carro em Canturé. Recomeço as aulas no mestrado de Tecnologia e Segurança Alimentar, no Monte da Caparica. Tenho saudades de almoçar contigo e vou desafiar-te. Os livros seguem pelo correio, como habitualmente. Faz os milagres do costume, escolhendo boas ilustrações. Um abraço do Mário.


Operação Macaréu à Vista - Parte II (8) > Memorabilia do Cuor
por Beja Santos


Cartas de um militar de além-mar em África para superiores ali perto e para a namorada em Portugal


(i) Carta para Jovelino Corte Real, comandante do BCAÇ 2852

Meu comandante,

Avizinhando-se a saída do Pel Caç Nat 52 de Missirá para Bambadinca, considero importante deixar-lhe uma “memória” sobre a situação do Cuor, no sentido de o manter habilitado para as decisões que entender dever tomar com o meu sucessor.

Primeiro, a influência do inimigo não decresceu nos últimos quinze meses: os abastecimentos junto dos Nhabijões, Mero e Santa Helena processam-se com regularidade, são vitais para Madina/Belel, a despeito das emboscadas e patrulhamentos que no passado impuseram respeito, não vejo declínio, a astúcia e a necessidade sobrepõem-se ao temor que possar ter de nós.

Percorremos todo o território do regulado, com excepção da área vizinha entre Quebá Jilâ e Madina e podemos confirmar que a norte, acima do rio Passa em confluência com o rio Gambiel, as tropas do PAIGC movem-se à vontade e controlam as populações que lavram as bolanhas. Não exagero dizendo que o inimigo lavra e colhe as suas produções a menos de sete quilómetros em linha recta de Missirá.

É facto que o inimigo nunca emboscou as nossas tropas, não roubou populações que cultivam a bolanha de Finete e reduziu a sua capacidade em flagelar seriamente Missirá. Não embosca pela simples razão que dispõe de informações quanto à forma como nos movemos diariamente até Mato de Cão: nunca percorremos o mesmo itinerário, de dia ou de noite. Dispõe igualmente de informações que mantivemos uma presença efectiva nos patrulhamentos. Podem atacar Missirá ou Finete mas dispomos, por enquanto, de uma boa capacidade de resposta. Estou em crer que em Julho se aperceberam que é preciso trazer muito material e um grande contingente para fazer estragos ou desmoralizar.

Segundo, continuo a considerar que a fixação de populações não se deve circunscrever a Missirá e Finete. Peço-lhe que repense em repovoar Canturé, há populações em Badora e no Cossé prontas a regressar desde que se faça um quartel, haja milícias e armamento. Canturé repovoada garantiria o afastamento das gentes de Madina de Mero e Santa Helena, dificultaria a circulação das colunas de abastecimentos à volta do Geba. O comandante de Bafatá não contestou os meus argumentos, só que foi seu entendimento que os Nhabijões eram a prioridade das prioridades.

Terceiro, perdemos a capacidade ofensiva a partir do momento em que nos retiraram duas secções da milícia de Missirá, mantendo-se a obrigação do patrulhamento diário a Mato de Cão e a emboscada junto do nosso aquartelamento. Não posso envolver a população civil no abastecimento de águas, nem nos reforços nem nas colunas a Finete. Resultado, estamos atados de pés e mãos, não se pode patrulhar e deixar o quartel entregue aos militares doentes e aos civis. Continuo a defender que Missirá precisa de um pelotão de milícias, um pelotão de caçadores nativos e uma ajuda persistente de Bambadinca seja nos patrulhamentos ofensivos seja nas idas a Mato de Cão.

Quarto, o aquartelamento de Missirá possui presentemente um bom dispositivo defensivo, faltam dois abrigos sólidos, os outros são resistentes, só precisam de manutenção. No essencial está tudo desmatado à volta, o arame farpado foi renovado e está sólido. A escola funciona, as idas periódicas ao médico alteraram muito o quadro de doenças que conheci quando aqui cheguei. O relacionamento com o régulo é excelente, não há quaisquer perturbações de maior na convivência entre militares e civis. No entanto, conviria melhorar as condições de vida das populações, sou adepto de se encontrar uma verba para pagar as obras de arranjo e desmatação feitas por civis, sobretudo na região de Gã Gémeos até Canturé e na estrada do Geba, entre Gambana e Mato Madeira. Trata-se de segurança militar e, claro está, segurança para os civis.

Estou inteiramente à sua disposição, como me compete, para o informar de tudo o que julgar importante para melhorar a sua informação sobre o Cuor. Os meus cumprimentos.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Vista aérea do aquartelamento (e de parte da povoação, à esquerda), tirada no sentido noroeste-sudeste. Em primeiro plano, a pista de aviação, o perímetro em L de arame farpado, o campo de futebol, a antena das transmissões...Ao fundo, do lado direito, frente à grande bolanha de Bambadinca, o edifício do comando em U...

Foto: © Humberto Reis (2006). Direitos reservados


(ii) Carta para o Major Ângelo da Cunha Ribeiro, 2º comandante do BCAÇ 2852 (2)

Meu comandante,

Deve ser do seu conhecimento qual a situação logística que vou legar ao [meu substituto, o Alf Mil, ] Alves Correia. Noutra carta, com data de hoje, informei o nosso comandante dos aspectos militares que não devem ser silenciados. Entregarei ao meu sucessor os diferentes livros com o material à carga, as folhas de pagamentos dos militares de Missirá e Finete, bem como as duas secções destacadas em Cansamange.

Todas as requisições de material de engenharia estão em ordem. As duas viaturas carecem de substituição, estão envelhecidas, permanentemente empanadas, vivemos um calvário nesta época das chuvas. O gerador eléctrico continua aí em Bambadinca, só poderá aqui chegar por duas vias: ser transportado para o Xime e levado numa LDM ou LDG até perto de Mato de Cão ou entre Saliquinhé e São Belchior, tenho pedido insistentemente, nunca obtive resposta; ou fabrica-se uma jangada robusta que o consiga colocar na bolanha de Finete, mas até hoje não conseguimos.

Os abastecimentos em munições estão hoje facilitados com os dois novos paióis, o mesmo se passa com os paióis de combustíveis. O mais grave de tudo tem sido o abastecimento de arroz para os civis o que nos obriga a colunas infindáveis. Não proponho nenhuma solução, pois os civis não têm dinheiro e nós não podemos oferecer arroz em permanência.

O serviço de justiça está actualizado, saímos daqui com todas as diligências obrigatórias efectuadas até ao momento. Não lhe quero esconder que há graves problemas em Finete para resolver: Bacari Soncó devia ser nomeado comandante e escolhidos três sargentos; o armamento é deficiente e continuo a pensar que o inimigo não tem sido mais demolidor porque a população balanta local é enorme e não lhes convém acirrar os ânimos quando precisam de cambar o rio um pouco acima do quartel e até Boa Esperança. Importaria resolver o problema do professor de Finete, oferecer um balneário à população civil e remodelar o conjunto de bidões do chuveiro dos milícias.

Agradeço-lhe muito toda a compreensão que tem tido com os nossos problemas e jamais esquecerei a expressão de Tigre de Missirá que usa comigo. Receba o meu reconhecimento.

(iii) Carta para David Payne Pereira, médico do batalhão

Meu caríssimo David,

Mil anos que vivesse e não esqueceria a profunda dívida que tenho para contigo, tanto pelo bem com que me tratas, como pelo conforto que tens trazido às gentes do Cuor. Não há memória de um médico de batalhão visitar com tanta assiduidade os quartéis do mato, dar consultas seis dias por semana e ver dezenas de doentes todos os dias.

Em breve vou viver aí ao pé de ti mas quero deixar escrito um comovido muito obrigado. Deus te pague o que tens feito pela saúde desta minha gente. Aqui fica a minha admiração e o meu reconhecimento.

(iv) Carta para Herberto Sampaio, oficial de operações

Meu major,

Permita-me que junte algumas considerações sobre a evolução do nosso trabalho no regulado do Cuor. São tudo coisas que conhece perfeitamente, mas prefiro deixar tudo escrito, como se fosse um balanço de todas as minhas preocupações à volta dos pontos mais sensíveis com que o Alves Correia se irá dentro em pouco confrontar.

Antes de mais, independentemente dos militares doentes, é já milagre irmos todos os dias a Mato de Cão e fazermos a emboscada nocturna. Chegamos a sair de Missirá com onze militares válidos e quinze a vinte civis armados para nos reforçarmos em Finete e então seguirmos para Mato de Cão. O Pel Caç Nat 54 terá a sua vida muito dificultada se não se encontrar uma solução de trazer mais milícias para Missirá.

Diz o povo “rei morto, rei posto” e bem gostaria que o meu sucessor tivesse outros meios que eu aqui não encontrei, sobretudo nos últimos meses. Bom seria igualmente que se encontrasse uma solução para as idas a Mato de Cão. Quando aqui cheguei, em Agosto do ano passado, era frequente irmos em média quatro a cinco vezes por semana a Mato de Cão, o que dava possibilidade de conjugar patrulhamentos, vigilâncias e emboscadas. Agora, como desde há largos meses, vamos lá praticamente todos os dias. Quando o quartel ardeu em Março deste ano centrámos toda a energia no seu reaparecimento e nas obrigações da segurança de Mato de Cão. Fomos perdendo gente em Missirá e o meu major criou a obrigação de uma emboscada nocturna perto de Missirá. Nasceu um problema novo: deixámos o mato todo entregue às gentes de Madina.

Peço-vos que revejam esta situação, as próprias populações civis estão inquietas com a presença assídua do inimigo perto de nós, flagelando-nos, sabendo-nos impotentes. É por isso que eu gostaria que o Alves Correia pudesse dispor de outros meios e até vir a poder contar comigo em patrulhamentos nesta região. É este o meu veemente pedido, que submeto à sua consideração.


(v) Para a Cristina Allen

Meu adorado amor,

Desculpa o meu silêncio, é tudo cansaço, a azáfama dos preparativos da partida, conferências de material de tudo o que possas imaginar, desde fronhas e lençóis, passando por pratos e panelas até metralhadoras e víveres armazenados. O meu estado de saúde também está abalado, ainda não me recompus psicologicamente do colapso nervoso do Casanova. O Pires ajuda-me imenso, tem-se revelado um colaborador surpreendente, enquanto um vai a Mato de Cão o outro põe a escrita em dia.

Ainda não se sabe quando terá lugar a nossa transferência para Bambadinca, mas será em breve. Tu perguntas-me na última carta o que vou fazer em Bambadinca e se lá vou ficar até ao fim da comissão. Segundo o comando, vou ficar na intervenção, expressão que quer dizer que posso ir buscar correio, montar seguranças à volta do quartel, emboscar, entrar em operações, fazer colunas, colaborar nos reordenamentos, tudo é possível. Já me disseram que vou para a ponte do rio Udunduma, é uma posição defensiva perto de Bambadinca, uma ponte com uns abrigos horríveis, um sítio sem o mínimo de condições para estar, um quartel que pode ser pulverizado se for bem flagelado.

Mas nada sei sobre o futuro. Não te zangues com o que te vou dizer: sinto imensa tristeza por partir de Missirá. Aqui ainda éramos de algum modo senhores da situação, havia uma relação a construir com as populações, vivíamos juntos, partilhávamos tudo juntos, a começar pelas inquietações e as ameaças constantes.

Em Bambadinca, viverei num quartel a cumprir escalas de serviço. Não sei explicar-te, foi em Missirá que a minha vida mudou, fascina-me toda esta beleza, os permanentes desafios para melhorar o bem estar de militares e civis. Compreendo os soldados, eles têm trinta e seis meses de Missirá, Bambadinca é a miragem do descanso. É escusado dizer-lhes que vão ainda trabalhar mais, depois será tarde, é assim que se aprende.

Amanhã, 15 de Outubro [de 1969], vou a Bafatá de novo tratar dos documentos de que te falei. Se os entregarem amanhã, seguirão logo pelo correio. Não para de aqui chegar correio cheio de fúrias, acusações e até insinuações. Não tenho energia para responder, sinto que perdi capacidade para ter os reflexos prontos, prefiro não responder a ninguém. Estou magoado, concentro-me na música e nos livros.

Li uma comédia assombrosa, “O Ente Querido”, por Evelyn Waugh. Tradução perfeita do Jorge Sena e ilustrações do João Abel Manta, que tu conheces do Diário de Lisboa. É uma sátira violenta no mundo anglo-americano de Hollywood, em que os não competitivos se suicidam ou são atirados para a valeta. O herói, Dennis Barlow, é um poeta que ganha a vida a incinerar animais, ao lado de embalsamadores de seres humanos. No Repouso dos Peregrinos e nos Prados Sussurrantes o que conta é o artifício e a tecnologia: maquilhagem, música ambiente, o automatismo das condolências. Dennis apaixona-se por Aimée, envia-lhe poemas clássicos como se fossem da sua autoria. O Sr. Joyboy, um perito em caracterização funerária, parece ser mais bem sucedido no coração de Aimée. Tudo acaba numa tragédia em tom chocarreiro, em que nos divertimos com o terror da morte. Porque aqui os mortos estão sempre mascarados de vivos, aqui quem ganha sempre é a tecnologia, que resolve todos os problemas da perda da eternidade.

Mas li mais, li os “Poemas Completos” do Manuel da Fonseca [, 1911-1993], um presente do meu padrinho. Gosto muito da prosa dele, o modo sério com que ele ultrapassa as soluções piegas do neo-realismo, e nos faz vibrar com as terras do Alentejo, as charnecas, as navalhas dos malteses, a vida tristonha dos funcionários camarários. Um dos poemas eu já o conhecia de o ter ouvido declamado pela Maria Barroso, com a sua vigorosa expressão dramática, “Estradas”. Começa assim:

Não era noite nem dia.
Eram campos, campos, campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era a hora do poente.
Quase noite e quase dia.

Não achas isto uma perfeição, com este toque de simplicidade? Este livro e o de Evelyn Waugh vão para ti, deixo-os amanhã no correio de Bafatá.

Não esqueço o nosso futuro, os nossos projectos, não te esqueças do que representas para mim, a força que me dás para eu resistir a este turbilhão. Prometo agora escrever mais, parece que estou a sair do desânimo, sinto-me a renascer. Beijos, mil beijos, para quem acaba de fazer exames e nutre por mim a maior ternura do mundo.

____________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 26 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2218: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (7): Afundem a armada de Madina

(2) Carinhosamente conhecido, na caserna, como o Major Eléctrico

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Guiné 63/74 - P2250: Vídeos da guerra (3): Bastidores da Op Ostra Amarga ou Op Paris Match (Bula, 18Out1969) (Virgínio Briote / Luís Graça)









Guiné > Região do Cacheu > Bula > BCAV 2862 (1969/70) > 18 de Outubro de 1969 > Imagens brutais da reportagem Guerre en Guinée, que passaram na televisão francesa em 11 de Novembro de 1969, no programa Point Contrepoint e que os portugueses, devido à censura, nunca puderam ver antes do 25 de Abril de 1974 (1)...

Fotos: INA - Institut National de l' Audiovisuel (2006) / Cópia pessoal de Virgínio Briote (2)


1. Mensagem do Virgínio Briote:

Luís: Acabo de ter uma conversa telefónica com o Cor Cav, na reforma, Sentieiro, por intermédio de um conhecido comum.

A história que me conta, em resumo é a que segue (1):

(i) Era o comandante da CCAV 2485;

(ii) Tinha acabado de regressar de uma operação com 2 Gr Comb da sua Companhia;

(iii) Por impossibilidade do Cap J. Quintela, o comandante do batalhão (Ten Cor Morgado, que é o que aparece no fim do filme com Spínola e Almeida Bruno, e ainda hoje vivo) encarregou-o de comandar 2 Gr Comb da CCAV 2487.

(iv) Esta CCAV estava algo deprimida, por várias razões que não explicitou. Limitou-se a falar de 2 alferes que não tinham regressado das férias em Lisboa. Um deles apareceu em Paris, do outro não me soube dizer nada.

(v) O Ten Cor Morgado informou-o de que ia acompanhado por uma equipa da ORTF e de um ou dois jornalistas do Paris-Match.

(vi) Questionados pelo então Cap Sentieiro sobre a experiência que tinham de cenas de guerra, os jornalistas disseram que já tinham estado no Vietname (não presenciaram qualquer cena bélica), em Angola (idem) e em Moçambique (onde conseguiram filmar umas cenas do final de um rebentamento de uma mina);

(vii) E que pretendiam filmar o que viesse a acontecer, [no TO da Guiné, ] estando desejosos que viesse a haver contacto com o IN.

(viii) A cena filmada é a NE (?) de Bula (para os lados da base de Cobiana).

(ix) O tiroteio foi intenso, de um lado e do outro. As cenas, diz o Cor Sentieiro, não são nem mais nem menos do que as que ocorreram muitas vezes na Guiné.

(x) Que os jornalistas tiveram um comportamento muito profissional. Acabada a emboscada, quiseram ir atrás dele e não no final da coluna como aconteceu quando os GrCmb foram emboscados. Que ele, cap. Sentieiro, não lhes permitiu. Que atrás dele ia um tipo da absoluta confiança, normalmente portador de uma caçadeira ou de um LGFog.

(xi) Que a jornalista era a Chaubel (não tenho a certeza se se escreve assim; que há ainda em Paris uma casa de fotografia, que é da família dela).

(xii) Que ela ficou profundamente arrasada. Nem os acompanhou mais, apanhou o heli e regressou com o Almeida Bruno a Bula, onde desceu.

(xiii) Que era jovem e linda e que, à noite ao jantar, depois dos banhos, apareceu na messe com um vestido de pele, do tipo que as índias usavam nos filmes, sem nada por baixo.

(xiv) Que o militar que estava a servir (ele disse-me o que foi que estava na travessa, mas não fixei) se entusiasmou tanto com o que viu que se distraiu e entornou a travessa na mesa...

(xv) Que alguém em Bula (um dos jornalistas) o provocou, perguntando-lhe se ele, Cap Sentieiro, não terá previamente dado algum sinal ao IN...

(xvi) Que ele, Sentieiro, nunca viu o filme (1), que sabe que ele existe e que as únicas imagens que viu são as que às vezes aparecem na TV. Ele chama a essas imagens fruta fresca, isto é, quando a TV quer mostrar cenas violentas da guerra da Guiné, aí vão elas.

(xvii) Fiquei de lhe enviar o filme. Tenho algumas dúvidas sobre a oportunidade de o fazer, estar a mostrar-lhe cenas que ele pessoalmente viveu há quase quarenta anos. Mas foi tanta a insistência, que acabei por lhe prometer. Temos vários conhecidos comuns e estou convidado para almoçar com ele quando passar por Torres Novas.
E pronto, Luís.

Um abraço, vb

Nota de L.G. - A revista Paris Match publicou, na edição nº 1071, de 15 de Novembro de 1969, uma reportagem efectuada pelo(s) seu(s) jornalista(a)s que vieram (ou veio) à Guiné... Título da peça: Guinée: l'étrange guerre des Portugais [Guiné: a estranha guerra dos Portugueses]...

2. Operação Ostra Amarga

Extractos do PERINTREP Nº 42/69, Página 13 de 23

CAOP/BCAV 2868 (Intervenção-Sector 01)

Op Ostra Amarga
Patrulhamento
Pta Matar-Pta Ponate-Pta Fortuna-Pta Penhasse-Bissauzinho-Bofe
12 Out [de 1969]
7 dias
2 Gr Comb/ CCAV 2485; 2 Gr Comb / CCAV 2486; 2 Gr Comb / CCAV 2487

(i) 1º dia : 500 m a N Ponta Fortuna foi destruído um acampamento IN abandonado há 3 dias, com 14 casas de mato;

(ii) IN, avistado de longe, furtou-se ao contacto;

(iii) 7º dia, accionada uma mina A/P na região de Badapal, com 2 feridos NT; na região de Pecure, IN não estimado emboscou NT, retirando com 4 mortos e 2 feridos; as NT sofreram 2 mortos e 1 ferido; na região a L de Biura, IN não estimado emboscou NT, retirando pela reacção fogo manobra.

(iv) Restantes dias sem contacto.



Guiné > Região do Cacheu > Bula > BCAV Outubro de 1969 > Resumo informativo sobre as Op Caça Ratos, Op Ostra Amarga e Op Gato Assanhado


Ainda no mesmo PERINTREP:

Em 17 de Out[ubro de 1969], durante a Op Ostra Amarga, forças do BCAV 2868 accionaram uma mina A/P na região a sul de Capafa em 1545 1205 D3-86, causando 2 feridos graves às NT (Pelotão Cav BCAV 2868).

Segundo informações de elementos IN que estiveram na tabanca de Nhemgue na noite de 18 para 19 de Outubro, o IN sofreu 4 mortos e 2 feridos.





Lisboa > Belém > Forte do Bom Sucesso > Monumento aos Mortos do Ultramar > > 28 de Outubro de 2007 > Passei por lá e fotografei o muro onde constam os nomes dos infortunados camaradas António Capela, natural de Cabaços, Ponte Lima, e Henrique Costa, natural de Ferrel, Atouguia da Baleia, Peniche, mortos na Op Ostra Amarga / Op Paris Match... Para que sejam lembrados por todos nós e pelos vindouros... (LG)

Fotos: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.

3. Os mortos na Op Ostra Amarga (filme):

(i) António da Silva Capela

Soldado atirador, nº 07241868 / CCAV 2487 / BCAV 2868
Ferimentos em combate, em 18 de Out. de 1969

Solteiro

Pai: Gabriel dos Santos Capela / Mãe: Rosa Araújo da Silva

Freguesia de Cabaços / Concelho de Ponte do Lima

Local da operação: Bula

Local da sepultura: Cemitério de Lousa – Loures


(ii) Henrique Ferreira da Anunciação Costa

Soldado atirador, nº 03434368 / CCAV 2487 / BCAV 2868

Ferimentos em combate, em 18 de Outubro de 1969

Casado (com Noémia M. M. Oliveira)

Pai: Francisco Ferreira da Costa / Mãe: Maria da Anunciação Lourenço

Freguesia de Atouguia da Baleia / Concelho de Peniche

Local da operação: Bula

Local da sepultura: Cemitério de Ferrel – Atouguia da Baleia


4. Informações adicinais sobre o Batalhão de Cavalaria nº 2868 (Bula, 1969/70)
Unid. Mobilizadora: RCav 7

Comandante: Ten Cor Carlos Alves Morgado

2º Comandante: Maj Cav João Marcelino; Maj Cav Luís Casquilho

Of Inf Op Adj.: Major Cav Ruy Pereira Coutinho

Comandantes de Companhia

CCS: Cap SGE António Vagos

CCAV 2485: Cap Cav José Sentieiro

CCAV 2486: Cap Cav João Almeida; Alf mil José Fernandes

CCAV 2487: Cap Cav João Quintela; Cap QEO Caimoto Duarte

Divisa: Não Temo

Partida: 23 de Fevereiro de 1969 / Desembarque: 1 de Março de 1969 / Regresso: 30 de Dezembro de 1970

Actividade Operacional: Síntese


(i) Com a sede em Bissau, foi-lhe atribuída a função de intervenção como reserva do Com-Chefe.

(ii) Em princípios de Abril 1969, estabeleceu um posto de comando avançado em Cacheu, com a missão de actuar nas regiões de Churo e Pecau, a fim de deter o alastramento da luta armada à região do “Chão Manjaco”, em área temporariamente retirada ao BCAÇ 2845.

(iii) Após um curto período de IAO, até 19 de Abril de 1969, comandou e coordenou a actividade de duas das suas unidades e outra ali instalada do antecedente, desenvolvendo actividade operacional de patrulhamento, batidas e emboscadas nas regiões de Churo-Pecau-Quesse e do Cacheu.

(iv) Em 30de Agosto de 169, após substituição pelo Comando Militar do Cacheu, transferiu o Pel Cav para Bula, onde assumiu em 5 de Setembro de 1969 a responsabilidade do sector 01-A, então criado nesta zona por subdivisão da área do BCAÇ 2861, com a sede em Bula e incluindo as suas subunidades também ali estacionadas, e depois outras que lhe foram atribuídas em reforço.

(v) Em 8 de Janeiro de 1970, duas das subunidades passaram a ter a sua sede em Ponta Augusto Barros e Pete, com vários destacamentos disseminados nas respectivas áreas de acção. (…)

(vi) A partir do início de 1970, a sua actividade foi especialmente orientada para o desenvolvimento e promoção sócio-cultural do “Chão Manjaco”, com abertura de itinerários e asfaltamento da estrada Bula- S.Vicente e orientação e construção de aldeamentos da população.

(vii) Pela acção desenvolvida, destacam-se as operações “Freio Reluzente” e “Pequeno Baio”, entre outras.

(viii) Dentre o material capturado ao IN, salientam-se 8 espingardas, 4 lanças granadas-foguete e levantamento de 28 minas.

(ix) Em 1 de Dezembro de 1970, o BCAV 2868 foi rendido no sector 01-A pelo BCAÇ 2928, recolhendo a Bissau, a fim de aguardar embarque.

Nota de vb - Seguem-se as Companhias, com a descrição dos percursos da comissão, sem notas relevantes. O BCAV 2868 tem História da Unidade (Caixa nº 117- 2ª Div/4ª Sec do AHM).

5. Bula > Comando de Agrupamento Operacional


COMANDO de AGRUPAMENTO OPERACIONAL

COMANDO de AGRUPAMENTO OPERACIONAL OESTE

COMANDO de AGRUPAMENTO OPERACIONAL nº 1

Início em 8 de Janeiro de 1968 / Extinção em 1 Julho de 1974

Cmandantes: Cor Pára Alcínio Ribeiro / Cor Art Gaspar Freitas do Amaral

Cor Pára Rafael Durão / Tem Cor Inf Pedro Henriques

Cor Pára João Curado Leitão

CEM: Maj CEM Passos Ramos / Maj CEM Santiago Inocentes

Maj Art Pimentel da Fonseca / Maj Inf Bacelar Pires

Maj Art Fernandes Bastos

__________

Notas de V.B./L.G.:

(1) Vd. post de 8 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2249: Vídeos da guerra (2): Uma das raras cenas de combate, filmadas ao vivo (ORTF, 1969, c. 14 m) (Luís Graça / Virgínio Briote)

(2) Vd. post de 16 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1958: Vídeos da guerra (1): PAIGC: Viva Portugal, abaixo o colonialismo (Luís Graça / Virgínio Briote)

Guiné 63/74 - P2249: Vídeos da guerra (2): Uma das raras cenas de combate, filmadas ao vivo (ORTF, 1969, c. 14 m) (Luís Graça / Virgínio Briote)

 
Guiné > Região do Cacheu > Bula > BCAV 2862 (1969/70) > 18 de Outubro de 1969 > Dois mortos e um ferido no decurso da Op Ostra Amarga (também ironicamente conhecida como Op Paris Match)...

As NT (2 Gr Comb da CCAV 2487, comandadas pelo Capitão Sentieiro, hoje Cor Cav  Ref (, a viver em Torres Novas,) caiem num emboscada do PAIGC... O combate é registado por uma equipa da televisão francesa... No fotograma, um crucifixo no chão, junto ao cadáver do soldado Henrique Costa (natural de Ferrel, freguesia de Atouguia da Baleia, concelho de Peniche), uma imagem carregada de trágico simbolismo, captada pelo operador francês da ORTF...


Fotos: INA - Institut National de l' Audiovisuel (2006) / Cópia pessoal de Virgínio Briote (vd. nota 2)


1. O filme-documentário da portuguesa Diana Andringa e do guineense Flora Gomes, As Duas Faces da Guerra, recentemente estreado entre nós (1), utilizou cenas de uma reportagem feita em 18 de Outubro de 1969 por uma equipa da televisão francesa, a ORTF, acompanhada de um ou dois repórteres do então muito em voga semanário Paris-Macth.

Segundo a investigação posterior feita pelo nosso co-editor Virgínio Briote, junto de Diana Andringa e de outras fontes (antigos camaradas, Coronel Sentieiro, Arquivo Histórico Militar, etc.) estas cenas referem-se à Op Ostra Amarga, na região de Bula, em que as NT caíram debaixo de uma emboscada do PAIGC, sofrendo dois mortos e um ferido…

Estas cenas de combate são mostradas no vídeo, que está disponível no sítio do INA – Institut National de l’Audiovisuel [Instituto Nacional Francês do Audiovisual] e que a Diana Andringa e o Flora Gomes retomaram. No filme-documentário, As Duas Faces da Guerra, que se estreou, entre nós, no dia 19 de Outubro último, no decurso do 5º Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa, dois antigos combatentes portugueses que participaram nessa operação (um deles o que fora ferido), comentam emocionados esse episódio de guerra, que ficou também conhecido, ironicamente, por Operação Paris Match, já que nela iam integrados vários jornalistas franceses, incluindo uma mulher, com o beneplácito e a cumplicidade do Com-Chefe.

É de referir que o General Spínola aparece, em carne e osso, no local, às 15 horas da tarde, acompanhado do então Cap. (ou major?) Almeida Bruno a trocar impressões com o TenCor Alves Morgado (comandante do BatCav envolvido na op.).
Será depois entrevistado no final da reportagem, no palácio do Governador (ao que supomos), fazendo-se perante os jornalistas estrangeiros o arauto da política do Governo Português, no que diz respeito à defesa das “províncias ultramarinas”. Fala em francês, mas com erros e pouca desenvoltura. Uma parte das suas declarações são lidas.

Em suma, tudo indica que os jornalistas estrangeiros, oriundos de um país amigo, da NATO, a França, iriam fazer um mero passeio pelo mato e testemunhar, com os seus próprios olhos, que a situação militar, no interior da Guiné, estava sob o nosso inteiro controlo, contrariamente à propaganda externa do PAIGC (que também irá usar, sobretudo nos anos 70, a arma da sedução e da propaganda, convidando jornalistas estrangeiros e diplomatas, de países amigos, a visitar as regiões libertadas).

No que respeita à Op Ostra Amarga (que raio de nome, que premonição!), as coisas, de facto, não correram, como se previa, e os próprios jornalistas caíram debaixo de fogo, juntamente com os Grupos de Combate onde iam integrados… O pior é que tivemos dois mortos e um ferido, sendo a agonia de um dos nossos camaradas registada em filme…

2. Eu já conhecia o vídeo… De resto, algumas cenas já terão passado na nossa RTP… Voltei a revê-lo, agora com outros olhos… Lembrei-que o Virgínio Briote tinha comprado, ao INA, os direitos de “téléchargement” (download) -  para uso estritamente pessoal - de nove vídeos sobre a Guiné, embora não tendo conseguido autorização para os passar directamente no nosso blogue, como era nossa intenção (2, 3)…

Em 26 de Outubro último fiz-lhe o seguinte desafio:

Virgínio: Vou aproveitar as imagens que em tempos me mandaste, e vou (vamos os dois) apresentar o vídeo que revimos há dias, as cenas da emboscada, na Culturgest... Estive a fazer um resumo alargado do filme (que é falado em francês), de modo a possibilitar o seu visionamento e a sua melhor compreensão pelos nossos camaradas (muitos dos quais não dominam a língua gaulesa)… Não o podemos inserir directamente no blogue (por causa do copyright) , mas podemos fazer uma ligação (ou link) para o sítio do INA (3)…

Diz-me, entretanto, o que sabes mais sobre este episódio:

(1) É um Gr Comb ou mais de Comandos ? Parece que sim... Pelo crachá de um dos tipos que sai do heli, pelo LGFog 3.7, pela farda, pela disciplina de fogo...

(2) Isto passou-se em 18/10/1969. As NT saíram à 1.30h e foram emboscadas às 7.30...

(3) Na região de Có/Pelundo (?)... Foi o que apanhei do filme da Diana/Flora, mas tenho dúvidas.

(4) Os mortos são o Henrique Costa (natural de Peniche) e o António Capela (este de Ponte de Lima)... Já confirmei os nomes e a data...

Um abraço.

Boa saúde, bom trabalho!
Luís Graça

3. O Virgínio pôs-se a caminho e descobriu mais coisas. Resposta nesse mesmo dia, 27 de Outubro:

Luís, envio-te, em anexo, as fotos que extraí do filme.

Em relação à operação tenho um almoço na 3ª próxima, em que vou mostrar o filme a alguns camaradas que prestam serviço numa das secções do Arquivo Histórico Militar e que me ajudarão a descobrir os pormenores. É possível, identificado o filme e a data em que foi realizado, obter uma cópia do relatório da operação.

Um abraço,

Nota de L.G. - O Virgínio já me tinha enviado, em tempos, essas imagens, ou algumas delas.


4. Nova mensagem do VB:

Luís: Podemos fazer um bom poste ou mais que um, com documentação oficial. Se eu conseguir saber a data, o canal de TV (ORTF?), o pessoal envolvido (tenho algumas dúvidas sobre a unidade). Depois não será difícil, segundo me dizem, sacar o relatório oficial da história. Já troquei algumas impressões sobre o filme com dois camaradas do Arquivo Histórico Militar.

O pessoal do Arquivo Histórico Militar, quero aproveitar para sublinhar, é inexcedível, sempre disponível, com um verdadeiro sentido do serviço público. Foi um deles que há anos me recordou que eu também tinha estado na Guiné...

Outra questão. O coronel [Carlos] Matos Gomes, na apresentação do Documentário da Diana/Flora (1), abeirou-se de mim, que me conhecia muito bem, que tinha sido meu camarada,  mais novo,  na Academia Militar, falou-me de instrutores que tivemos, afinal descobrimos conhecimentos comuns. E do blogue, não se cansou de dizer o excelente trabalho que tens feito. Pena foi eu não lhe ter pedido o contacto, porque pode ser muito útil para o blogue.

O processo do Baptista, o morto-vivo, está nas mãos do Paulo Santiago. Uma maravilha de gajo, este Paulo. Telefonou-me há dois dias, aflito, não conseguia descobrir para onde enviar o pedido da rectificação da caderneta do nosso homem. Lá consegui desenrascar a situação. Agora vamos aguardar.

Era uma boa ideia convidar o Baptista para a nossa próxima reunião.

Um abraço, Luís.

5. Entretanto, o nosso VB contacta a jornalista e cineasta Diana Andringa (27 de Outubro de 2007)

Assunto - As duas faces da Guerra

Cara Diana,

Espero que me perdoe este pedido de informação. No seu filme As duas faces da Guerra estão inseridas algumas imagens de um filme de uma operação militar, ao que penso de uma unidade de comandos do Exército Português, realizadas pela ORTF. Trata-se de uma emboscada feita pelo PAIGC de que resultaram duas mortes de militares portugueses, um deles de nome Capela, natural de Ponte de Lima.

O nosso blogue, depois de uma conversa com o Luís Graça, tem interesse em saber mais detalhes, nomeadamente logísticos, relacionados com essa operação militar. No seu filme é entrevistado o comandante da operação do lado português. Pode informar-me de quem se trata, do nome do militar, penso que capitão na altura, hoje tenente coronel ou coronel?

Grato pela ajuda que, eventualmente nos possa dar.

Cumprimentos,

V.Briote

6. Eis a solícita, pronta, amável e solidária resposta da Diana, no dia seguinte, 28 de Outubro de 2007:

vb: Tenho todo o gosto em lhe dar as informações de que disponho:

(i) Operação Ostra Amarga (dita operação Paris-Match) – 12 a 18 de Outubro de 1969.

(ii) Companhia Cavalaria 2487 [, pertencente ao BCAV 2862, Bula, 1969/70].

(iii) Por a companhia se encontrar sem capitão, foi comandada pelo então capitão e hoje coronel José Maria Campos Mendes Sentieiro, que acabara de chegar de outra missão quando foi mandado comandar essa operação, com uma companhia que não conhecia (era o comandante da CCAV 2485).

(iv) Os mortos foram António da Silva Capela, de Ponte de Lima, e Henrique Ferreira da Costa, da zona de Peniche.

(v) No nosso documentário falam, além do então capitão Sentieiro, um auxiliar de enfermeiro que assistiu aos feridos e foi louvado, Pedro Gomes, de Peniche (que, infelizmente, morreu alguns meses depois da filmagem), e um dos feridos, Leonel Martins, também de Peniche. Ambos eram, além de conterrâneos, amigos do Henrique Ferreira da Costa (que morreu).

Saudações,

Diana

7. Com base nestas pistas, foi possível ao VB chegar ao hoje coronel, na reforma, Sentieiro, que mora em Torres Novas, e obter informação adicional sobre a Op Ostra Amarga e as unidades que nela estiveram envolvidas, bem como sobre os bastidores da dita Op Paris Match… Essa informação detalhada constará de um próximo post.

Agora vamos rever o vídeo da ORTF. Publica-se a sinopse do filme, em francês, seguida de um resumo mais alargado feito por nós. Para aceder ao filme (em formato reduzido, e com uma duração de 13 minutos e 57 segundos), basta carregar no link. As imagens que aqui reproduzimos são fotogramas do filme, retiradas pelo VB da sua cópia pessoal.

Guerre en Guinée (Carregar aqui para ver o filme; ler primeiro o ponto 8)

Point contrepoint
ORTF - 11/11/1969
Vídeo: 13' 57''

Guinée Portugaise / VA de la région / VA d'un bateau à quai / VA de la berge / grues / transportement des caisses / marin armé / deux noirs sur une petite embarcation / la rue / travelling latéral le long d'un grand immeuble à loggias / zoom arrière sur un bac / soldats armés / camions militaires / hélicoptère survolant une région à la frontière du Sénégal / soldats armés qui en descendent / ils partent dans un canot pneumatique et s'éloignent /

VA à bord de l'hélicoptère sur les berges de la rivière / BA de la forêt / soldats patrouillant dans la forêt / PA de soldats blancs et noirs qui patrouillent / colonne dans forêt lors de l'embuscade / soldats pris sous le feu / tir au lance grenades / images très assemblées / soldat touché / blessé à terre / cadavre sur le sol / GP sur le soldat blessé / GP de cadavres sur le sol / GP de soldats l'air écoeuré / après l'attaque / soldat aux visages tuméfiés / blessé allongé à qui on fait une transfusion / on essaie de la transporter / il a une jambe coupée / départ du blessé / râle du blessé / GP mort.

Quelques soldats autour du blessé / un soldat assis / GP d'un jeune soldat / un autre fume / GP d'un soldat qui traspire / soldat qui est mort / soldat autour d'un mort / hélicoptère dans le ciel / 2 soldats soutiennent un blessé / hélicoptère qui atterit en contre plongée / attérissage / on retire la civière / une infirmière descend / un monte un blessé sur une civière à l'intérieur de l'hélicoptère / un homme blessé à bras d'homme est hissé à bord / départ de l'hélicoptère / deux têtes de palmiers se détachent dans le ciel / soldat qui boit à la gourde / mise au point de l'officier, de ses hommes /.

Général A. Spinola commandant en chef de l'armée (portant monocle) / "défendre les institutions contre l'avenir du Sénégal et en Guinée" (retire ses monocles) / préoccupation constante des forces militaires / de ménager les populations... le pays profite surtout de l'appui des pays du Pacte de Varsovie.
8. Resumo de L.G. /V.B. > Tradução e adaptação

Guerra na Guiné

(Carregar aqui para ver o filme) (3)


Programa: Ponto Contraponto
Estação de TV: Organismo da Radiotelevisão Francesa
Data: 11 de Novembro de 1969
Duração do filme: 13m 57s

Sinopse:

Guiné Portuguesa [apresentação: geografia, história, demografia… Território do tamanho da Bélgica… Meio milhão de habitantes, apenas 3 mil de origem portuguesa…].
Vista aérea da região /
Vista aérea dum barco no cais de Bissa /
Vista aérea da margem /
Gruas /
Estivadores [ Referência à greve dos marinheiros e estivadores do cais do Pindjiguiti em 1959, cuja repressão vai desencadear o início da luta contra o domínio português, segundo os testemunhos posteriores dos fundadores e dirigentes do PAIGC… Referência ao papel histórico de Amílcar Cabral, um homem de origem mestiça (sic), fundador do PAIGC, um partido marxista (sic)] /
Marinheiro armado /
Dois negros numa piroga /
A rua /
Travelling lateral ao longo de zona comercial de Bissau, de casas de arquitectura colonial
[Vinte cinco mil soldados portugueses controlam um terço do território e dois terços da população; o PAIGC controla outro terço do território; o resto está sob duplo controlo]

Zoom de uma barcaça [Bissau é um ilha… A 30 km, é o preciso tomar uma barcaça para penetrar no interior… Referência à travessia do Rio Mansoa, em João Landim, segundo se depreende] /
Soldados armados /
Camiões da tropa da caminho da barcaça.









Helicóptero que sobrevoa uma região de fronteira com o Senegal
[ Fuzileiros vão uma base do PAIGC onde não encontram ninguém… Referência ao constante patrulhamento de rios e braços de mar… Um zebra dos fuzileiros… Uma Lancha de fiscalização da Marinha de Guerra…].
Uma equipa de fuzileiros parte num barco pneumático e afasta-se /
Vista aérea do helicóptero sobre as margens do rio /
Vista aérea da floresta.










Soldados armados que descem do hel...
(Aqui começa a Op Ostra Amarga, envolvendo soldados de uma companhia de cavalaria, - e não de comandos, como nos pareceu inicialmente… A força é comandada pelo então Capitão de Cavalaria Sentieiro… A operação decorre na regia de Bula, segundo apurámos posteriormente).

Soldados deslocam-se na floresta /
Soldados, brancos e alguns negros /
(Ouvem-se os ruídos típicos da floresta… Já de dia, à 7 horas e um quarto, a testa da coluna na mata sofre um emboscada. É atingida por rockets…) /
Soldados debaixo de fogo.










Contra-resposta /
Tiro de lança-granadas das tropas portugueses [ que estão equipadas com LGFog 3.7, que eram originalmente só usadas pelas tropas especiais, pára-quedistas, comandos e fuzileiros...] /
Tiro de morteiro 60 /
Correria até à frente da coluna.











Soldado atingido /
Ferido no chão /
Corpos no chão /
(Há um morto imediato, o Henrique Costa, retalhado pela roquetada, enquanto o António Capela, de Ponta de Lima, sobreviverá apenas 45 m, morrendo na altura em que chega o heli) /
Grande Plano do soldado ferido /
Grande plano de cadáver no solo /
Grande plano de um soldado com ar abatido.










Depois do ataque… Soldados de rosto entumecido /
Ferido estendido no chão recebendo soro do maqueiro, de pé (segundo a Diana Andringa, deve ser o Pedro Gomes, soldado maqueiro ou 1º cabo auxiliar de enfermagem, natural de Peniche, e recentemente falecido) /
Tentam transportá-lo /
Tem uma perna partida /
Partida do ferido /
Estertor do ferido /
Grande plano do morto.

Alguns soldados à volta do ferido /
Um soldado sentado /
Grande plano de um jovem soldado /
Um outro que fuma /
Grande plano de um soldado que transpira /
Soldado que morreu /
Soldado à volta do morto /
Um crucifixo caído no capim, perto do morto (Costa?)
Helicóptero que surge no céu /
Dois soldados apoiam um ferido a caminho do helicóptero /
Helicóptero que aterra, em contre plongée /
Aterragem /
Retiram a maca /
Uma enfermeira-pára-quedista, de blusa branca e calças de camuflado, que sai.


Transporte dum ferido em maca para o interior do helicóptero /
Um homem ferido é levado para bordo, em braços/
Partida do helicóptero /
As copas de duas palmeiras destacam-se no céu /
Soldado que bebe água do cantil /
Enfoque da câmara no oficial (capitão Sentieiro ?), rodeado dos seus homens (os 2 Gr Comb da CCAV 2487).


Chega Spínola, (com o seu ajudante de campo, o então capitão Almeida Bruno, hoje general, que empunha a G-3, com luvas brancas…Está também acompanhado de um oficial superior, tenente coronel Morgado, comandante do Batalhão de Cavalaria 2868, com sede em Bula)…



Por fim, o General Spínola (comandante-chefe das forças portugesas, usa monóculo, diz o guião) dá uma entrevista à equipa da ORTF e possivelmente aos restantes jornalistas (que nunca aparecem no filme), defendendo a política ultramarina do Governo Português... e a sua actuação na Guiné)...

No essencial, diz o Com-Chefe português: A preocupação constante das forças militares é de proteger e apoiar as populações, contrariamente ao que diz a propaganda do PAIGC, o qual beneficia sobretudo do apoio dos países do Pacto de Varsóvia e da China… (Discurso de circunstância ou de contrapropaganda…).
__________

Notas de L.G./V.B.:

(1) Vd. post de 20 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2197: A nossa Tabanca Grande e As Duas Faces da Guerra (4): Encontro tertuliano no hall da Culturgest na estreia do filme (Luís Graça)

(2) Vd. post de 16 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1958: Vídeos da guerra (1): PAIGC: Viva Portugal, abaixo o colonialismo (Luís Graça / Virgínio Briote)

(...) "A respota do INA veio-nos no dia 14 de Dezembro, autorizando-nos a inserir um link para o sítio francês, mas não a disponiblizar qualquer vídeo do INA no nosso blogue...

Cher monsieur Briote,

Nous vous remercions de l'intérêt que vous portez à nos archives, nous nous réjouissons que vous ayiez pu retrouver des documents qui vous tenaient à coeur.Vous pouvez bien entendu faire un lien (link) vers les documents qui vous intéressent depuis votre blog. En revanche, pour l'instant, vous ne pouvez pas proposer la vidéo directement sur votre blog.Pourriez-vous nous envoyer l'adresse de votre blog ? Merci encore pour vos encouragements.Cordialement,Nadine LaubacherIna.fr - responsable marketing et commercial (...)


(3) O visionamento do vídeo, em formato reduzido, no sítio do INA (que tem como subtítulo Archives pour tous, Arquivos para todos...) é gratuito mas é antecedido de um irritante anúncio publicitário... Se alguém quiser, pode comprar os vídeos sobre a Guiné: este por exemplo custa 3 euros...

É preciso ter paciência, amigos e camaradas da Guiné... Não há almoços grátis, estão-nos sempre a dizer os economistas da praça, que é para ver se a gente deixa de comer à borla... ou mesmo até se perde o apetite e deixa definitivamente de comer!... Mas é assim, são as leis do mercado... Humor à parte, o nosso blogue procura respeitar e fazer respeitar os direitos da propriedade intelectual...

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Guiné 63/74 - P2248: Blogpoesia (6): África Raiz, de Fernanda de Castro


Capa do livro de Fernanda de Castro (*) (1900-1994) - Raíz Áfrca.
Desenhos originais de Eleutério Sanches. Capa de Inês Guerreiro
Tipografia A. Cândido Guerreiro, (Herdeiros) Lda.,
em Setúbal, Rua Serpa Pinto, 20 e 22, Portugal
Dezembro de 1966
__________

ÁFRICA RAIZ (**)
À terra de Bolama, em cujos braços repousa minha mãe

África,
no teu corpo rugem feras,
uivam fomes e medos ancestrais,
no teu sangue há marés,
na tua pele há dardos e punhais.

Ventre de Continentes,
és mater e matriz.
Ásia é semente, Europa é flor,
outros serão essência ou tronco,
tu, África, és raiz.

Dos teus flancos de fêmea fecundada,
nascem florestas, rios e montanhas.

Florestas venenosas de gigantes,
de monstros, de ciclopes vegetais,
de fungos, de landólfias e de orquídeas,
onde pastam manadas de elefantes,
onde flores carnívoras,
sob um céu baixo, de invisiveis brasas,
sugam antenas e digerem asas.

Fios de água, que vertes das entranhas
e te rasgam a pele
como pontas de lança,
como lâminas de aço,
prendendo, laço a laço,
matas, capim, tarrafe, canaviais.
Cascatas, cachoeiras,
furiosos caudais
saltando precipícios,
arrastando pirogas, crocodilos,
abrindo a golpes de água
os leitos abissais
dos Zambezes, dos Congos e dos Nilos.

Montanhas como dorsos de mamute,
gargantas de titans, abismos de neblina,
e na crosta rugosa a lepra das florestas,
as pegadas do vento,
as aves de rapina.
Presença subterrânea
de lavas e de chamas,
de vulcões em potência,
ressonância, rumores
dos rios interiores,
promessas de esmeraldas, de rubis,
de metais raros,
Kilimanjaros
nos roxos da distância.

(...)

É meio-dia. O sol, a pino,
é metal em fusão sobre as bolanhas.
Pilam arroz e milho, nas tabancas,
as mulheres Mancanhas.
Meninos de café, de chocolate,
com fieiras de contas e missangas,
rebolam-se no chão,
trincam nozes de coco, chupam mangas.
A cadência, o compasso do pilão,
os zumbidos, as moscas, o calor,
mergulham a tabanca
num cálido torpor.

Não há relógios. O que marca o Tempo,
não é o Sol, não é a Lua, a Estrela,
mas a esteira, o tambor, o arroz, a rede,
o sono, o amor, a fome, a sede.
(...)

Joaquim de Có, que tinha cem mulheres,
costumava dizer
a Dembo, seu herdeiro,
filho primeiro
de sua irmã Fulata:

- Que mais hás-de querer, ó Dembo,
se tiveres
vacas, arroz, mulheres,
aguardente de cana,
chabéu, mancarra, milho,
e cada ano um filho?
E ao homem grande de Lisboa,
ao chefe branco seu amigo,
com felina ironia:

- Negro é assim, coitado...
E sorria
com seus dentes limados,
aguçados,
de velho canibal,
que tem, só para ele, cem mulheres,
pra ele, Joaquim de Có,
enquanto o chefe branco tem só uma,uma só.
(...)
À tarde, à porta das palhotas,
em torno dos mais velhos,
dos que sabem contar coisas remotas
dos tempos esquecidos,
os mais novos escutam
com os cinco sentidos:

Dia que Deus fez mundo,
fez dois homens igual.
Deu a eles embrulho,
dois embrulhos igual,
e disse: não abrir,
se não eu castigar.
Um deles abriu,
pensou: Deus não vem cá.
Deus foi e castigou.
Ao outro deu caneta,
a ele deu enxada;
depois fez ele preto,
e ele pôs-se a chorar.
Veio então diabo,
sem ninguém chamar,
pôs-lhe mão na cabeça,
fez-lhe festa, festinha,
e o cabelo zangou
e ficou carapinha.
__________

Nota de vb:
(1) Maria Fernanda Telles de Castro e Quadros, nasceu a 9 de Dezembro de 1900 e faleceu a 19 de Dezembro de 1994. (...). Autora de livros e de peças para o público infantil, dramaturga, memorialista, romancista, tradutora, muito em especial poeta da alegria, como assinalou David Mourão-Ferreira no discurso de saudação no jantar comemorativo dos 50 anos de vida literária de Fernanda de Castro:
"Ela foi a primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes, a demonstrar que o riso e a alegria também são formas de inspiração, que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema, que o Sol ao meio-dia, olhado de frente, não é um motivo menos nobre do que a Lua à meia-noite”...
Fonte: Sociedade Portuguesa de Autores (Com os nossos agradecimentos).

(*) Fernanda de Castro, era filha de Ana Teles de Castro e Quadros e de João Filipe Quadros, oficial da Marinha de Guerra. Foi com os seus pais para a Guiné em 1913, quando seu pai foi nomeado Capitão do Porto e Chefe dos Serviços Marítimos de Bolama.
Fernanda de Castro dedicou este poema à memória da sua mãe, enterrada em Bolama, vítima da febre amarela.

(**) África Raiz, in Senegâmbia. Com a devida vénia.